ESCOLA SECUNDÁRIA GERAL DE MOCUBA
TRABALHO DE HISTÓRIA
4º Grupo
Tema: O SUL E O TRABALHO MIGRATÓRIO
12ª Classe, A/A, curso diurno
Discentes:
Daniel Fernando, nº16
Dulce Olímpio, nº19
Filomena Mário, nº27
Gelcia Firmino, nº29 Docente:
Jacinta Castro, nº36 dr. Miguel Mendonça
Luís Bernardo, nº44
Tavares Faustino, nº59
Tilson Xavier, nº60
Edna Felizardo, nº65
MOCUBA aos 1 de setembro de 2025
Índice
Introdução..............................................................................................................................3
O SUL E O TRABALHO MIGRATÓRIO............................................................................4
A situação política e económica do sul do save em 1880......................................................4
Lourenço Marques e o sul de Moçambique...........................................................................7
Razões que contribuiram para o estreitamento dos laços econónticos..................................8
Os acordos sobre o trabalho: 1867, 1897, 1901. 1909 e 1928.............................................13
Acordos sobre o trabalho.....................................................................................................13
As vias de comunicação.......................................................................................................15
Cronologia das principais vias de comunicação de Moçambique.......................................15
Consequências gerais do trabalho migratório......................................................................16
Narrativas e representações do trabalho migratório.............................................................17
Conclusão.............................................................................................................................18
Referência bibliográficas.....................................................................................................19
Introdução
A história de Moçambique é marcada por profundas transformações sociais, políticas e
econômicas, especialmente durante o período de dominação colonial portuguesa. Antes da
conquista, os Estados do Sul, como Gaza e Maputo, mantinham autonomia e relações
comerciais com potências asiáticas e europeias, sustentadas pela caça ao elefante e pela
produção de oleaginosas. No entanto, com o avanço das campanhas de pacificação a partir de
1895, essa soberania foi gradualmente suprimida.
No presente trabalho da disciplina de história leccionada pelo docente Mendonça, nós iremos
abordar os principais momentos e dinâmicas que marcaram a história de Moçambique desde
o período pré-colonial até à luta pela independência. Onde que procuraremos saber sobre
sobre os Estados do Sul antes da conquista colonial, fazendo a análise das estruturas políticas
e económicas dos reinos como Gaza e Maputo, e suas relações comerciais com potências
estrangeira.
Faremos um estudo completo do tema em questão, iremos baseando-nos nos livros de história
da12ª segunda classe, e outras informações serão citadas da internet para complementar o
nosso trabalho.
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O SUL E O TRABALHO MIGRATÓRIO
A situação política e económica do sul do save em 1880
Uma das principais características do sistema colonial português era o seu carácter de
dependência em relação ao capital [Link] 1880, essa dependência continuava,
sobretudo, nos territórios que o Estado português tinha de administrar, como a zona abaixo do
rio Save.
A sul do rio Save, em 1880, localizavam-se territórios sob a administração directa do Estado
português. Eram territórios que hoje corresponde- riam, grosso modo, a Inhambane, Gaza e
Maputo.
Portugal transformou-se num Estado dependente e a economia moçambicana numa economia
de prestação de serviços. Moçambique era a principal reserva de força de trabalho para o
mercado da África Austral e um campo aberto ao investimento internacional.
Sabendo que o Portugal, durante o período colonial, especialmente nos séculos XIX e XX,
enfrentava limitações econômicas e militares que o tornavam dependente de outras potências
europeias, sobretudo da Grã-Bretanha. Essa dependência manifestava-se em:
Acordos de exploração e recrutamento: Portugal permitiu que empresas estrangeiras,
como a WENELA, recrutassem mão-de-obra moçambicana para trabalhar nas minas
da África do Sul;
Pressões diplomáticas: O Ultimato britânico de 1890 obrigou Portugal a recuar em
suas ambições territoriais, evidenciando sua fragilidade política;
Economia colonial subordinada: Moçambique passou a servir interesses externos,
funcionando como fornecedor de recursos e trabalhadores para outras potências.
A sul do rio Save, os territórios estavam sob administração direta do Estado português, o que
facilitava acordos com potências estrangeiras. Essa dependência é evidente por:
Localização estratégica: A proximidade com a África do Sul tornava o sul ideal para o
recrutamento e envio de trabalhadores;
Ausência de companhias privadas: Ao contrário do norte, onde atuavam companhias
como a do Niassa, o sul estava livre para servir diretamente aos interesses externos;
Infraestrutura voltada ao recrutamento: O Estado português organizou postos e rotas
para facilitar a migração laboral, reforçando a função do sul como fornecedor de mão-
de-obra.
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A sul do rio Save, os territórios estavam sob administração direta do Estado português, o que
facilitava acordos com potências estrangeiras. Essa dependência é evidente por:
Localização estratégica: A proximidade com a África do Sul tornava o sul ideal para o
recrutamento e envio de trabalhadores;
Ausência de companhias privadas: Ao contrário do norte, onde atuavam companhias
como a do Niassa, o sul estava livre para servir diretamente aos interesses externos;
Infraestrutura voltada ao recrutamento: O Estado português organizou postos e rotas
para facilitar a migração laboral, reforçando a função do sul como fornecedor de mão-
de-obra.
No ano de 1880, os Estados situados ao sul do rio Save, em Moçambique, mantinham sua
independência política em relação ao domínio colonial português.
Entre esses Estados, destacavam-se dois como forças dominantes: o Estado de Gaza, cuja
capital localizava-se em Mossurize, exercendo influência sobre as atuais províncias de
Inhambane e Gaza; e o Estado de Maputo, situado ao sul da baía de Lourenço Marques, que
abrangia a região entre os Montes Libombos eo litoral, incluindo a chefatura Tembe.
Esses territórios, embora autônomos, já mantinham relações comerciais com capitais asiáticos
e europeus, por meio de pequenos estabelecimentos portugueses localane e Lourenço
Marques, tanto na costa quanto no interior. E já estavam inseridos em redes comerciais
transcontinentais. Essa inserção se dava por meio de relações estabelecidas com capitais
asiáticos e europeus, evidenciando uma dinâmica de interdependência econômica anterior à
ocupação colonial formal.
A presença portuguesa, embora limitada em termos de controle territorial, manifestava-se
através de pequenos estabelecimentos comerciais localizados em pontos estratégicos como
Inhambane e Lourenço Marques (atualmente Maputo). Esses entrepostos funcionavam como
núcleos de mediação entre os interesses mercantis europeus e asiáticos e as estruturas
políticas africanas locais. Neles, realizavam-se trocas de produtos como marfim, tecidos,
armas e outros bens de valor, que circulavam tanto pelo litoral quanto pelo interior, por meio
de rotas comerciais mantidas por caravanas e chefaturas africanas.
Essa configuração revela que, mesmo antes da consolidação do domínio colonial, os
territórios moçambicanos já participavam ativamente de circuitos econômicos globais. A
atuação portuguesa, nesse contexto, não se dava apenas pela força militar, mas também pela
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construção de uma infraestrutura comercial que gradualmente ampliava sua influência sobre
os sistemas locais de produção e troca.
As interações entre os Estados do sul e os mercadores estrangeiros baseavam-se em
atividades econômicas específicas, que permitiam o acesso a bens de valor estratégico e
simbólico, como a caça ao elefante, por exemplo, era uma prática recorrente, pois o marfim
obtido possibilitava a inserção desses Estados no mercado internacional. Com o marfim, os
líderes locais podiam adquirir produtos até então inacessíveis, como ferro, tecidos, armas de
fogo e missangas de vidro, elementos que reforçavam tanto o poder político quanto o
prestígio social.
Paralelamente, junto a caça ao elefante estava a produção de oleaginosas — especialmente
amendoim, gergelim e milho — a venda desses produtos foi ainda de maior valia quando o
comércio de marfim começou a declinar na década de 1870. Esses produtos eram exportados
para a África do Sul e para a Europa, consolidando uma economia de base agrícola voltada
para o comércio externo. Com o tempo, o comércio de oleaginosas ganhou uma grande
importânca. O que antes era adquirido em troca do marfim passou a ser parcialmente
garantido pela comercialização de oleaginosas. Como resultado das campanhas de
pacificação levadas a cabo pelos Portugueses, a partir de 1895, estes Estados perdem a sua
soberania e independência.
A história do sul de Moçambique é marcada por uma transição profunda: da autonomia
comercial africana à integração forçada na economia-mundo colonial. Essa trajetória, iniciada
com a entrada do sul do Save nas redes globais, culmina na centralidade de Lourenço
Marques como polo migratório e logístico.
Como já evidenciado, é importante referir que o sul do Save não precisou do colonizador
português para se inserir no comércio internacional. Antes da ocupação efetiva, já mantinha
redes comerciais com mercadores asiáticos, europeus e vizinhos africanos, exportando
marfim, peles, milho e amendoim por vias próprias. A presença portuguesa foi tardia e mais
voltada ao controle territorial do que ao desenvolvimento das trocas.
Uma das maiores riquezas da região sempre foram suas gentes — não apenas como mão-de-
obra para as minas sul-africanas, mas como portadoras de saberes, cultura e capacidade de
transformação. O trabalho migratório gerou renda, infraestrutura e identidade coletiva,
tornando as pessoas verdadeiras “minas” vivas.
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A África do Sul teve papel decisivo nessa inserção: como destino comercial, como
empregadora de trabalhadores moçambicanos e como elo logístico através de ferrovias e
mercados. Foi por essa ponte regional — e não pela colonização portuguesa — que o sul do
Save se conectou à economia-mundo.
Lourenço Marques e o sul de Moçambique
Antes da consolidação do domínio colonial português, Lourenço Marques (atualmente
Maputo) já desempenhava um papel estratégico na economia do sul de Moçambique. A
região passou por dois períodos distintos entre 1840 e 1885, marcados por transformações
profundas nas dinâmicas comerciais e sociais.
1.° Período (1840-1870):
Caça ao elefante e exportação do marfim.
Acumulação de fortunas nas mãos de Inácio José Paiva de Raposo e Diocleciano
Fernandes das Neves.
Extinção completa dos elefantes.
Estabelecimento, no Sul, de uma rede de comércio sob controlo asiático (a partir de
1838). Início da exportação de mão-de-obra para a colónia britânica do Natal.
Início da monetarização da economia do Sul de Moçambique,
Retomando o ponto anteriormente abordado, é possível observar que no primeiro período
(1840–1870), a economia local girava em torno da caça ao elefante e da exportação de
marfim, atividade que gerou fortunas significativas para comerciantes como Inácio José Paiva
de Raposo e Diocleciano Fernandes das Neves. No entanto, a exploração intensiva levou à
extinção quase completa dos elefantes, encerrando esse ciclo económico.
Paralelamente, estabeleceu-se uma rede de comércio sob influência asiática e britânica,
especialmente a partir de 1838, com destaque para o controle britânico exercido a partir da
colônia do Natal. Essa rede contribuiu para o início da modernização da economia regional,
conectando o sul de Moçambique a mercados externos e introduzindo novas formas de
organização comercial. Lourenço Marques tornou-se, assim, um ponto de articulação entre os
interesses locais e os circuitos internacionais de mercadorias.
2.º Período (1870-1885):
Fim da caça ao elefante e da exportação do marfim em larga escala.
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Aumento da exportação de milho e de peles de animais para o Natal e amendoim para
Marselha.
Estreitamento de laços económicos entre o Sul de Moçambique, as colónias britânicas
e as repúblicas bóeres independentes.
Como já mencionado, mas agora sob outra perspectiva neste segundo período, com o declínio
da caça ao elefante, houve uma transição para o comércio de peles e outros produtos animais,
inicialmente direcionado ao Natal e, posteriormente, a Marselha. Essa mudança coincidiu
com o fortalecimento das ligações econômicas entre o sul de Moçambique, as colônias
britânicas vizinhas e as repúblicas boêres independentes. Lourenço Marques consolidou-se
como centro urbano e portuário, facilitando o escoamento de produtos agrícolas e minerais,
além de servir como ponto de entrada para bens manufaturados.
Essas transformações econômicas tiveram implicações diretas no trabalho migratório. A
crescente demanda por mão de obra nas colônias vizinhas e nas zonas de produção levou
muitos moçambicanos a migrarem temporariamente em busca de emprego, especialmente nas
minas da África do Sul. Lourenço Marques funcionava como eixo logístico dessa mobilidade,
articulando fluxos de trabalhadores e mercadorias. Assim, o sul de Moçambique, com
destaque para Lourenço Marques, não apenas participou das redes comerciais internacionais,
mas também desempenhou papel central na configuração dos movimentos migratórios que
marcaram a região durante o período pré-colonial e colonial inicial.
Razões que contribuiram para o estreitamento dos laços econónticos
Foram duas razões contribuiram para o estreitamento destes laços econónticos:
a abertura das minas de diamantes em Kimberley concorreu para a migração da força
de trabalho do Sul de Moçambique, criando uma dependência econômica baseada na
exportação de força de trabalho;
depois de 1874, Lourenço Marques e o Sul de Moçambique ficaram mais
estreitamente ligados ao capitalismo colonial, a partir da exploração do ouro em
Lydenburg, no leste do Transval. A cidade de Lourenço Marques tornou-se um local
de trânsito, por via terrestre, de recrutadores e equipamento até Lydenburg. No mesmo
ano de 1874, começou a funcionar um serviço regular de barcos a vapor, fazendo a
ligação às já conhecidas rotas do Cabo e do Suez.
De referir que os laços económicos são referem-se às conexões crescentes entre o sul de
Moçambique e as economias coloniais da África Austral — especialmente as colônias
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britânicas do Cabo e do Natal, e as repúblicas bóeres do Transval e Orange — durante a
segunda metade do século XIX.
Esses laços não foram apenas econômicos no sentido técnico — eles também implicaram
transformações sociais, políticas e culturais profundas. Se quiser, posso te ajudar a explorar
como essa dependência moldou a identidade regional ou os impactos que isso teve nas
comunidades locais.
Analisando os dois períodos, podemos perceber que, a partir da segunda metade do século
XIX, a economia do Sul de Moçambique começou por ser profundamente influenciada pela
expansão da economia capitalista que se verificava nas colónias britânicas do Cabo e do
Natal e nas repúblicas bóeres do Transval e Orange. Com efeito, a necessidade de fontes de
mão-de- -obra abundante e barata, para as minas e plantações sul-africanas, combinada com
as dificuldades económicas, então experimentadas pelas formações políticas do Sul de
Moçambique, concorreu para a transformação das actuais províncias de Maputo, Gaza e
Inhambane em reserva de mão-de-obra.
A utilização do Sul de Moçambique como reserva de mão-de-obra e a sua exportação para os
centros mais avançados de acumulação capitalista na África do Sul mostrou claramente a
especifi- cidade do colonialismo português: a sua dependência. Inicialmente, esta mão-de-
obra ia para as plantações sacarinas do Natal e para os campos diamantíferos de Kimberley e
minas de ouro de Witwatersrand. A exportação da força de trabalho para a África do Sul foi
regulamentada por acordos datando desde 1896 e posteriormente renegociados várias vezes.
O quadro seguinte mostra aquela que é a cronologia da utilização da mão-de-obra
moçambicana na África do sul.
1896 Mouzinho de Albuquerque autoriza a emigração voluntária para África do
sul
1897 18 de novembro. Aprovação do regulamento para o engajamento de
indígenas da província de Moçambique para o trabalho na África do sul.
Criação da pasta do curador, cujo titular tinha como função dirigir e
controlar os «nativos» moçambicanos na África do sul.
Criação da Witwatersrand Native Labour Association, WANELA.
1901 Acordo secreto entre a WENELA, organização da Câmara das Minas e o
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Governo Português:
WANELA obtém o monopólio de recrutamento de mão-de-obra no sul.
Devido aos interesses do capital internacional a Norte do rio Save, foi
também incluída uma cláusula proibindo a
à WANELA o estabelecimento de estações de recrutamento a Norte do
paralelo 22º.
1909 Primeira convenção entre Moçambique e transval diferido voluntário.
1913 Proibição do recrutamento de trabalhadores para o transval ao Norte do
paralelo 22º.
1914 4 de julho. Acordo suplementar ao acordo de 1913.
1928 Convenção entre Portugal e a África do sul. Pagamento diferido
obrigatório.
Análisando esta cronologia verificaremos que estes acordos estavam estreitamente
relacionados com o porto e caminho de ferro de Lourenço Marques, que servia o complexo
mineiro industrial do transval.
A cronologia dos acordos entre Moçambique e a África do Sul, entre 1896 e 1918, revela uma
engrenagem colonial que articulava mão-de-obra, política e logística. O porto de Lourenço
Marques não eram apenas meios de transporte: eram dispositivos estratégicos que
sustentavam o funcionamento do complexo mineiro-industrial do Transval.
Desde a autorização da emigração voluntária em 1896 até à convenção de pagamento diferido
em 1918, os acordos sucessivos mostram uma crescente sofisticação na gestão da força
laboral moçambicana. A criação da WANELA em 1901, com monopólio de recrutamento, e
os acordos secretos com o governo português indicam que o recrutamento não era apenas
uma questão administrativa — era uma operação transnacional, dependente de infraestrutura
robusta e controle territorial.
O caminho de ferro entre Lourenço Marques e Pretória, concluído em 1892, oferecia ao
Transvaal uma rota mais curta e eficiente para o mar, evitando os portos britânicos. Essa linha
férrea permitia o transporte de trabalhadores, carvão, ouro e maquinaria, consolidando
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Lourenço Marques como nó logístico essencial. O porto, por sua vez, funcionava como ponto
de entrada e saída de mercadorias e pessoas, gerando receitas alfandegárias e influência
regional para Portugal.
A presença de cláusulas sanitárias nos regulamentos de engajamento, a delimitação
geográfica do recrutamento (como a proibição ao norte do paralelo 22° em 1913), e a
institucionalização dos contratos escritos (1909) revelam um sistema que se pretendia
funcional, previsível e lucrativo. Lourenço Marques, nesse contexto, não era periferia
colonial — era centro operacional de uma economia extrativista que dependia da circulação
controlada de corpos e bens.
Mais do que uma simples cronologia, esses acordos desenham um mapa de interesses
cruzados, onde o território moçambicano servia como reservatório humano e corredor
logístico. A ferrovia e o porto não apenas viabilizavam o recrutamento, mas legitimavam-no
como parte de uma ordem colonial que transformava mobilidade em lucro e soberania em
serviço.
O Acordo de 1909, por exemplo, estabelecia:
a manutenção de uma «zona de competência» de parte de Lourenço Marques em
relação à área do rand;
a garantia de 50% do tráfego dessa área passar pelo porto de Lourenço Marques;
estabelecimento de uma comissão mista para a coordenação dos dois
sistemasferroviários;
monopólio de recrutamento à WENELA;
um sistema de pagamento diferido de salários (mas numa base voluntária);
a possibilidade de o governo português cobrar os impostos nas minas;
o direito a receber uma taxa por cada mineiro recrutado, a ser paga pelas minas;
contratos que continuariam a ser celebrados por 12 meses, mas renováveis.
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Por seu turno, o de 1928, que devia vigorar durante dez anos, incluía os seguintes pontos
Principais:
mantinha em vigor todos os acordos anteriores no que diz respeito ao porto de
Lourenço Marques, nomeadamente o que estabelecia que 50% das importações por
mar, dirigidas à «zona de competência do rand, seriam feitas através de Lourenço
Marques;
estabelecia um sistema de pagamento diferido obrigatório, nos termos do qual uma
parte dos salários era entregue à Curadoria e pago aos trabalhadores depois do seu
regresso a Moçambique, depois de cada contrato;
o período de contrato era de 12 meses, extensíveis por mais seis meses, e era proibido
voltar a empregar os trabalhadores antes de estes terem passado pelo menos seis
meses em Moçambique;
estipulava que o número de moçambicanos nas minas fosse reduzido para 80 mil
mineiros até 1933. Impôs o repatriamento compulsivo depois desse período e
proibindo um novo contrato durante os seis meses seguintes.
Para avançar com rigor, convém esclarecer o que se entende por WANELA evitando
ambiguidades, e reconhecendo que foi um termo muito abordado no decorrer do trabalho,
mas sem uma conceitualização exata e clara, WANELA (Witwatersrand Native Labour
Association) ou em português (Associação de Trabalho Nativo de Witwatersrand) foi
uma organização criada pela África do Sul para recrutar trabalhadores africanos —
incluindo muitos moçambicanos — para trabalhar nas minas de ouro em Witwatersrand
uma região rica em minas de ouro na África do Sul.
Era como uma empresa que ia buscar homens em Moçambique para trabalhar nas
minas da África do Sul;
Funcionava com autorização do governo português, que deixava a WENELA
organizar tudo: transporte, alojamento, exames médicos e contratos;
A maioria dos trabalhadores vinha do sul de Moçambique, especialmente das
províncias de Gaza, Inhambane e Maputo, porque estavam mais perto da África
do Sul;
Muitos homens ficavam longe da família por meses ou anos, em condições
difíceis, só para ganhar algum dinheiro.
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A WENELA mostra como Moçambique era usado por outras potências, como a África do
Sul, para conseguir mão-de-obra barata. E também mostra como o governo colonial
português dependia de acordos com países mais ricos para manter o controle e ganhar
dinheiro.
Os acordos sobre o trabalho: 1867, 1897, 1901. 1909 e 1928
A partir de 1867, com a crescente saida de mão-de-obra moçam- bicana para a Africa do Sul.
Portugal sentiu necessidade de regulamentar o sector. Nesse sentido publicou alguns acordos
sobre o trabalho.
Acordos sobre o trabalho
1867: os governos de Natal (África do sul) E de Portugal estabeleceram um acordo que
permitia a saída voluntária de trabalhadores, a partir de Lourenço Marques por via marítima;
Foi alargado em 1875 no sentido de permitir a os moçambicanos trabalharam na
província do cabo.
1897: o primeiro estatuto regulamentado sobre a migração de trabalhadores para o transval
foi estabelecido pelo governador colonial de Moçambique, Mouzinho de Albuquerque.
Este estatuto estabelecia a função de curador, cujo titular tinha como competências dirigir e
controlar os “nativos” moçambicanos na África do sul.
Neste mesmo ano foi criada a Witwatersrand Native Labour Association, WANELA.
1901: o recrutamento de trabalhadores o moçambicanos foi interrompido quando começou a
guerra anglo-Bóer (1899-1902).
Segundo os novos regulamentos assinados pelos ingleses, depois de estes terem assumido o
controlo do Transvaal, e como resultado de pressão por parte dos colonos em Moçambique, o
período de contrato foi limitado a um ano. Foi permitido à WENELA gerir o monopólio de
recrutamento no Sul de Moçambique.
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1909: Nesta data foi oficialmente assinada a primeira Convenção entre Moçambique e o
Transvaal e o recrutamento de mão-de-obra.
A Convenção estabelecia o seguinte:
a) a manutenção de uma “zona de competência” da parte de Lourenço Marques em
relação à área do Rand; a garantia de que 50% do tráfego dessa área pas- saria pelo
porto de Lourenço Marques; o estabelecimento de uma comissão 1909 mista para a
coordenação dos dois sistemas ferroviários; e o sistema de tari- fas ferroviárias;
b) a formalização do acordo prévio que estabelecia o monopólio de recrutamento da
WENELA; um sistema de pagamento diferido de salários (mas numa base
voluntária); a possibilidade de o Governo português poder cobrar os impostos nas
minas; o direito a receber uma taxa por cada mineiro recrutado, a ser paga pelas
minas; os contratos teriam a duração de 12 meses, mas renováveis.
1928: Este acordo que devia vigorar durante dez anos incluía os seguintes pontos prin-
cipais:
a) mantinha em vigor todos os acordos anteriores no que diz respeito ao porto de
Lourenço Marques, nomeadamente o que estabelecia que 50% das importações por
mar dirigidas à “zona de competência” do Rand, e que seriam feitas através de
Lourenço Marques;
b) o período de contrato era de 12 meses, extensíveis por mais 6 meses, e era proibido
voltar a empregar os trabalhadores antes destes terem passado, pelo menos, 6 meses
em Moçambique, depois de cada contrato;
c) estabelecia um sistema de pagamento diferido obrigatório, nos termos do qual uma
parte dos salários era entregue à Curadoria e pago aos trabalhadores depois do seu
regresso a Moçambique;
d) estipulava que o número de moçambicanos nas minas fosse reduzido para 80 mil
mineiros até 1933. Impôs o repatriamento compulsivo depois desse período e proibia
a celebração de um novo contrato durante os seis meses seguintes.
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As vias de comunicação
Segundo Newitt:
[…] a economia do Estado Colonial e as duas companhias avalizadas dependiam maiori-
tariamente de dois factores: a tributação dos camponeses africanos e a utilização de mão-de-
obra africana, e a criação de mão-de-obra e serviços para as colónías britânicas. […] As
despesas com as campanhas de pacificação eram justificadas como uma forma de inves-
timento destinada a aumentar os rendimentos dos impostos e da mão-de-obra africanos e
moeda britânica através da criação de serviços. […]
Toda a economia colonial de Moçambique dependia de dois factores importantes: a utilização
da mão-de-obra africana (para uso interno ou para exportação) e a cobrança de impostos aos
campo neses. Mas para a colónia crescer economicamente e ser completa mente dominada
pelo invasor era necessário implementar um bom sistema de comunicações. A via-férrea foi a
opção escolhida, por excelência. Contudo, também se registou um interesse substancial em
desenvolver os portos e algumas estradas térreas.
A ideia da construção do caminho-de-ferro de Lourenço Marques ao Transvaal foj objecto de
discussão pela primeira vez em 1870, no Transvaal. O Governo do Transvaal tinha o desejo
de se libertar do domínio e influência britânicos e Lourenço Marques garantia-lhe a libertação
por via marítima. Para Portugal, a construção do caminho-de-ferro era importante porque
serviria de corredor de acesso ao interior, facto relevante na implementação do principio da
ocupação efectiva.
Outra linha de comunicação importante era a linha que ligava Beira à Rodésia. Os trabalhos
da sua construção iniciaram-se em 1892, com a construção da linha férrea Beira-Macequece
e, em 1897, com a construção da linha férrea entre Beira e Umtail. Esta linha começou a
funcionar oficialmente somente em 1898.
Cronologia das principais vias de comunicação de Moçambique
1871: Inicio da construção da estrada de Lourenço Marques à fronteira do Transvaal;
1887: Inicio da construção da linha férrea Lourenço Marques-Transvaal;
1892:Inicio dos trabalhos de construção da linha de caminho-de-ferro Beira-Macequece;
1897:Linha férrea Beira-Umtali entra em funcionamento (via reduzida);
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1901:Linha de caminho-de-ferro, via normal, entre Beira e a Rodésia do Sul encontra-se em
expansão;
1912:Linha de caminho-de-ferro Suazilândia chega a Goba;
1929:Conclusão da construção do porto de Maputo.
É importante referir que Moçambique passou por importantes melhorias nas vias de
comunicação, impulsionadas pelo domínio colonial e pela integração na economia-mundo.
Foram construídos caminhos-de-ferro, como a linha Lourenço Marques–Pretória (1895),
modernizados os portos marítimos (Maputo, Beira, Nacala), instaladas redes de telégrafo e
iniciada a expansão de estradas secundárias. Ao relacionar essa cronologia com o mapa [59],
destaca-se o transporte ferroviário como o mais privilegiado, especialmente a linha Lourenço
Marques–Transvaal, que ligava o sul de Moçambique às minas da África do Sul. Essa
infraestrutura foi essencial para a economia a sul do Save, pois facilitou a exportação de mão-
de-obra, impulsionou o comércio internacional, promoveu o crescimento urbano e reforçou o
controlo colonial sobre o território.
Consequências gerais do trabalho migratório
Incremento dos contactos entre Lourenço Marques e o Transval a partir da exploração
mineira;
Aumento da importância de Lorenço Marques como centro de trânsito para o
recrutamento de homens e de escoamento de equipamento para Transval;
Aumento de empreendimentos comerciais, de hotéis e de prestação de serviços
transformando-se numa das principais fontes receita das taxas de trânsito;
Escassez de mão-de-obra masculina no interior de Moçambique o que provocou a
intervenção do governo colonial a pedido dos comerciantes;
Expansão da rede comercial, interior do sul de no Moçambique, controlada por
asiáticos e que absorvia os salários dos mineiros.
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Narrativas e representações do trabalho migratório
Narrativa Oficial: Trabalho como “civilização”
As autoridades coloniais portuguesas frequentemente apresentavam o trabalho
migratório como uma forma de “disciplinar” e “civilizar” os africanos.
recrutamento era descrito como voluntário e benéfico, ocultando coerções, violências
e perdas sociais envolvidas.
2. Economia de Prestação de Serviços
Moçambique foi retratado como uma “reserva de força de trabalho” para a África
Austral, especialmente para as minas sul-africanas.
Estado colonial dependia economicamente da exportação de mão de obra, mas isso
era mascarado como cooperação regional.
3. Acordos Secretos e Controle
A WENELA (organização da Câmara das Minas) obteve monopólio do recrutamento
por meio de acordos secretos com autoridades portuguesas, como os de 1901 e 1909.
Esses acordos garantiam fornecimento constante de trabalhadores, mas os documentos
oficiais evitavam mencionar os impactos sociais e culturais dessa migração forçada.
4. Silenciamento da Experiência Africana
Relatos coloniais ignoravam as rupturas familiares, os abusos nas minas e os retornos
traumáticos.
A voz dos trabalhadores era ausente nos relatórios oficiais, que priorizavam
estatísticas e eficiência econômica.
5. Instrumentalização da Mobilidade
A mobilidade era apresentada como escolha individual, quando na verdade era
resultado de pressões fiscais, violência administrativa e falta de alternativas locais.
A emigração era usada como forma de garantir arrecadação de impostos e controle
político sobre populações rurais.
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Conclusão
Em síntese deste estudo sobre o sul e o trabalho migratório, nós podemos destacar a análise
dos períodos de 1840 a 1885 revela como Lourenço Marques se transformou em um ponto
estratégico na economia do sul de Moçambique, moldando-se sob a influência do capitalismo
colonial. A transição da caça ao elefante para o comércio de peles e produtos agrícolas,
seguida pela exportação de mão-de-obra para as colônias britânicas, ilustra a dependência
econômica e social que se estabeleceu. Os acordos entre Moçambique e a África do Sul não
apenas regulavam a migração de trabalhadores, mas também consolidavam Lourenço
Marques como um eixo logístico essencial. Uma curiosidade que poucos conhecem é que a
criação da Witwatersrand Native Labour Association (WANELA) foi um marco na
institucionalização do recrutamento de trabalhadores moçambicanos, refletindo a complexa
relação entre exploração e dependência que caracterizou o colonialismo português.
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