Didática
Por: JAIME ROBERTO THOMAZ
1. Didática: a prática de construção do aluno
O texto apresentado como base para este trabalho relata o professor, certo de seus métodos,
tentando lecionar aos seus alunos pássaros e, estes últimos, cansando de nenhum aprendizado
absorvido. Ou seja, a didática usada pelo professor não resultou de nenhum ensinamento aos
seus alunos pássaros. O professor não construía educação.
Foi quando o professor percebeu, ou seja, deixou livres seus alunos e entendeu o que eles
desejavam. O voar e bater as asas eram essenciais para seus alunos. Nesta situação o professor
compreendeu de que maneira pode ensiná-los. A partir de então os alunos começaram a
aprender e o professor a ensinar. E o professor aprendeu com seus alunos.
Nesta estória se percebe que o “ensinar-aprendendo” fez a diferença. A didática dentro da
pedagogia é a prática de ensino. É o que o professor aprendeu na teoria passando aos seus
alunos. A pedagogia constrói o aluno. A construção é a interação do aluno com o professor. Na
estória dos ‘pássaros’, o professor somente começou a construir quando ouviu seus alunos. Foi
na interação que obteve uma didática certa: “O professor estaria passando (ensinando) ao
aluno o prazer de aprender – com o professor aprendendo – e o prazer de ensinar – com o
aluno ensinando” (TIBA, 2006).
O professor deve conhecer os seus alunos: “antes de qualquer estímulo que sirva para
detectar as condições de prontidão da criança, nada melhor do que conhecê-la. E para tal, uma
forma agradável de iniciar o contato seria oferecer oportunidades para a criança falar de si
mesma” (NICOLAU; MAURO, 1986). E antes de conhecer, primeiramente deve gostar de seus
alunos, gostar de seu ofício. Ensinar não deve ser meramente uma profissão e sim uma
vocação, do qual o professor se orgulhe do que faz. A didática parte do espírito do professor. O
método da didática define o aprendizado do aluno, pois a educação é intencional. Deste modo,
o professor deixa sempre uma marca ao aluno: “um bom professor é lembrado nos tempos de
escola” (CURY, 2003).
A didática é a prática pedagógica do qual se constrói o aprendizado do aluno. Esta construção
se efetua quando, como já foi dito, o professor conhece seus alunos. E o processo de
conhecimento se dá no diálogo.
“Dirigindo a conversa com a criança, o professor pode fazer com que ela diga seu nome, sua
idade, data de aniversário, nome dos pais, no que os pais trabalham, como é a sua família,
quantos irmãos tem, onde e no que trabalham. Recupera-se, assim, a identidade da criança,
valoriza-se o seu contexto familiar, considerando-a como interlocutor. E o professor obtém
dados que permitem construir uma configuração social do seu grupo-classe. Outros temas
podem tornar-se objeto dessa conversa de aproximação com a criança. Conversar com a
criança sobre o trajeto de casa à escola, os fatos pitorescos normalmente observados nesse
trajeto; as fontes de medo e ansiedade que porventura apresentem; as coisas do que gosta e
sabe fazer, aquelas que acham difíceis; suas preferências; brinquedos de casa e de escola, tudo
isso contribui para que haja uma aproximação e uma troca interpessoal entre professores e
alunos. O importante é deixar a criança à vontade, propiciando-lhe condições para que se dê a
conhecer e que o educador venha a amá-la, respeita-la e compreendê-la”. (NICOLAU; MAURO.
1986 pª 25).
2. Interação professor - aluno
O professor deve criar um vínculo com a criança. Através de sua criatividade, sua amizade,
seus dons, ele conquista o aluno. Cada aluno não é mais um número na sala de aula, mas um
ser humano abrangente, como necessidades particulares. O professor possui sensibilidade
para falar ao coração dos seus alunos. Ensinar é transmitir o que se sabe a quem quer saber,
portanto, é dividir a sabedoria. É um gesto de generosidade, humanidade e amor. A relação
entre professor e aluno depende, fundamentalmente, do clima estabelecido pelo professor, da
relação empática com seus alunos, de sua capacidade de ouvir, refletir e discutir o nível de
compreensão dos alunos e da criação das pontes entre o seu conhecimento e o deles.
“Com o objetivo de “desalienar a população” com vistas a sua conscientização, Freire criou a
“pedagogia do diálogo” orientando que a relação educando – educador se desse de forma
horizontal. De acordo com essa visão, o processo educativo tem como ponto de partida “as
situações vividas” pelo educador na realidade do educando. Nesse processo, a relação
“educador-educando” converte-se na relação “educando-educador e educador-educando” da
qual brotam os “temas geradores” ou “palavras geradoras” para serem trabalhadas nos
círculos de cultura. Dessa forma, os círculos de cultura ocupavam-se dos temas geradores ou
palavras geradoras que emanavam do diálogo sobre as experiências e dificuldades vividas pelo
educando, compartilhadas pelo educador. Os “temas geradores” ou as “palavras geradoras”
deviam ser aprofundadas na perspectiva da “problematização”, desenvolvendo no educando
“uma visão crítica” de sua realidade”. (BIZERRA, 2001 pª 267).
Mesmo sabendo que esta é uma ferramenta difícil, o professor deve passar ao aluno o gosto
pelo estudo: “Ao demonstrar o prazer de aprender com o aluno e agradecer-lhe, olhando-o no
fundo dos olhos, o professor passa sentimentos progressivos que, com certeza, vão agradar
bastante o aluno” (TIBA, 2006). Esse aluno vai sentir na sua alma o prazer e a utilidade de
ensinar.
A sala de aula é um dos espaços privilegiados, onde o conhecimento é construído,
compartilhado e reconstruído. Os vínculos estabelecidos entre professor e aluno são muito
fortes para o desenvolvimento pessoal e intelectual do aluno. A sala de aula é uma grande
rede de interações sociais. E, para que essa organização funcione como instrumento de
aprendizagem, é muito importante que haja uma boa comunicação entre o professor e os
alunos: “a sala de aula não é um exercício de pessoas caladas nem um teatro onde o professor
é o único ator e os alunos, espectadores passivos. Todos são atores da educação. A educação
deve ser participativa”. (CURY, 2003)
Nas interações, em sala de aula, cada aluno tem o direito de expressar suas idéias, de mostrar
o seu jeito próprio de ver o mundo. E tem um jeito criativo de inventar tarefas, de promover o
aprendizado. Cada aluno sabe algo que seus colegas e seu professor não sabem. É muito
importante conseguir que os alunos façam parte de sua própria aprendizagem.
“O professor deve aprender rapidamente o nome dos alunos que é uma forma básica de
aproximação entre os dois: pesquisas indicam que as crianças desenvolvem atitudes mais
positivas quando a relação com os professores é mais calorosa. Se ao contrário é marcada pela
distância, pela frieza, os alunos vão reagir através da oposição aberta à aula ou ao professor.
Outra atitude do professor está relacionada a manter o "radar" em funcionamento: os
professores de sucesso tendem a ressaltar no diálogo com os alunos os aspectos curriculares
em prejuízo do mau comportamento, ou seja, a centralidade do professor sobre os
comportamentos de indisciplina pode constituir-se como um reforço dos mesmos” (WILD,
2009 pª 04)
Professor e aluno aprendem juntos. O diálogo é de suma importância para esta interação.
Deve haver colaboração de ambos, a união numa base empática. Neste diálogo se diverge a
honestidade, do qual se entrará em um clima de confiança. Favorecer este diálogo é algo que
não ocorre de maneira espontânea, pois, o professor deve ter um conhecimento atento de sua
turma. A interação em sala de aula é um dos aspectos que contam para o bom
desenvolvimento da aprendizagem.
3. O aluno pensador
Na estória “Os pássaros”, apresentada acima, os alunos tinham o desejo de ficar fora da gaiola,
ou seja, tinham pensamento próprio, eram críticos. Essa é uma tendência da educação
transformadora. O aluno entra na escola e sai diferente de como entrou. Esse “sair” significa o
aluno ter adquirido idéias próprias, ter tornado auto-crítico.
O aluno aprende a ser crítico a partir da interação entre este e o professor. Não se pode ficar
apenas nas respostas de livros. O aluno deve ter auto-conhecimento, auto-crítica, replicar suas
questões e dúvidas. É preciso adquirir idéias próprias, ser racionalista nos estudos.
O professor deve fazer com que o aluno trabalhe suas questões: “Quando o professor começa
uma aula contando uma notícia relacionada ao conteúdo da aula do dia e pede comentários
aos alunos, está dissimulando a capacidade de compreensão, interpretação e comunicação dos
que sabem, bem como a curiosidade dos que não sabem. (TIBA, 2006).
O professor deve fazer com que o aluno fale, responda, discuta, debata. É preciso fazer com
que o aluno exercite.
“O professor-orientador dirige as explicações recebidas ao tema que interessa à aula, pedindo
aos alunos que sabem para explicarem aos que não sabem. Além de estimular o entrosamento
entre os alunos, cria-se um bom “ibope” com o professor-orientador, cuja aula passa a ter a
responsabilidade de alinhavar as informações, complementando com tópicos de que ele
precisaria falar. E o que torna uma informação mais atraente são os temperos do humor, da
clareza, além da sua assertividade e utilidade” (TIBA, 2006 pª 42).
A sociedade atual pede seres humanos dotados com criatividade, inteligência, capazes de
resolver questões e assumir responsabilidades próprias. Para tempos novos, obras novas.
Devido a isso hoje o aluno deve construir seu pensamento próprio. “O objetivo fundamental é
ensinar os alunos a serem pensadores e não repetidores de informações” (CURY, 2003). Os
alunos de hoje serão os médicos, advogados, cientistas e políticos do amanhã.
Promover o aluno a um estudo crítico e/ou uma busca por idéias particulares, a Escola coopera
para a construção e promoção social, isto é, o aluno se torna responsável pelo meio social em
que ele vive, permite conhecer e ouvir o outro, o egocentrismo se torna uma universalidade
recíproca. A partir da aprendizagem se parte uma construção para a vida. Tudo parte da
aprendizagem, ou como disse Piaget: “Não se pode ter aprendido sem algum pensamento,
nem se pode desenvovler o pensamento sem algum aprendizado” (FURTH; WACHS, 197
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UMA BREVE HISTÓRIA DA DIDÁTICA
A história da didática está obviamente ligada
ao aparecimento do ensino, no decorrer da sociedade, da produção e das ciências como
atividade planejada e intencional dedicada à instrução.
Desde os primeiros tempos existem indícios de formas elementares de instrução e
aprendizagem. Sabemos, por exemplo, que nas comunidades primitivas os jovens passam por
um ritual de iniciação para ingressarem nas atividades do mundo adulto. Pode-se considerar
esta uma forma de ação pedagógica, embora aí não esteja presente o didático como forma
estruturada de ensino.
Na chamada antiguidade clássica e no período medieval também se desenvolve forma
de ação pedagógica, em escolas, mosteiros, igrejas, universidades. Entretanto, até meados do
século 17 não podemos falar de didática como teoria do ensino, que sistematize o pensamento
didático e o estudo científico das formas de ensinar.
O termo didática vai aparecer a partir do momento em que os adultos começam a
intervir na atividade de aprendizagem das crianças e jovens através da direção deliberada e
planejada do ensino, ao contrário das formas de intervenção mais ou menos espontâneas de
antes. Estabelecendo-se uma intenção propriamente pedagógica na atividade de ensino, a
escola se torna uma instituição, o processo de ensino passa a ser sistematizado conforme
níveis, tendo em vista a adequação às possibilidades das crianças, às idades e ritmo de
assimilação dos estudos.
A teoria didática para investigar as ligações entre ensino e aprendizagem e suas leis, é
formada a partir do século 17, quando João Amós Comênio, um pastor protestante, escreve a
primeira obra clássica sobre didática, a Didática Magna. Ele foi o primeiro educador a formular
a ideia da difusão dos conhecimentos a todos e criar princípios e regras do ensino.
Comênio desenvolveu ideias avançadas para a prática educativa nas escolas, numa
época me que surgiam novidades no campo da filosofia e das ciências e grandes
transformações nas técnicas de produção, em contraposição às ideias conservadoras da
nobreza e do clero. O sistema de produção capitalista, ainda incipiente, já influenciava a
organização da vida social, política e cultural.
Para Comênio, a finalidade da educação é conduzir à felicidade eterna com Deus, pois é
uma força poderosa de regeneração da vida humana. O insigne educador do século 17, dizia
que todos os homens merecem a sabedoria, a moralidade e a religião, porque todos, ao
realizarem sua própria natureza, realizam os desígnios de Deus. Para ele, a educação nada
mais é do que um direito natural de todos.
Com suas ideias inovadoras, Comênio desempenhou uma influência considerável, não
somente porque se empenhou em desenvolver métodos de instrução mais rápidos e
eficientes, mas também porque desejava que todas as pessoas pudessem usufruir dos
benefícios do conhecimento.
O ideal de toda didática é que o ensino produza uma transformação no aprendiz, que
este, graças ao aprendido, se torne diferente, melhor, mais capaz, mais sábio, afinal esta é a
vontade do Criador.
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Comênio, o pai da didática moderna
O filósofo tcheco combateu o sistema medieval, defendeu o ensino de "tudo
para todos" e foi o primeiro teórico a respeitar a inteligência e os sentimentos
da criança
Márcio Ferrari (novaescola@[Link])
Comênio
Quando se fala de uma escola em que as crianças são respeitadas como seres
humanos dotados de inteligência, aptidões, sentimentos e limites, logo pensamos
em concepções modernas de ensino. Também acreditamos que o direito de todas
as pessoas - absolutamente todas - à educação é um princípio que só surgiu há
algumas dezenas de anos. De fato, essas idéias se consagraram apenas no século
20, e assim mesmo não em todos os lugares do mundo. Mas elas já eram
defendidas em pleno século 17 por Comênio (1592-1670), o pensador tcheco que é
considerado o primeiro grande nome da moderna história da educação.
A obra mais importante de Comênio, Didactica Magna, marca o início da
sistematização da pedagogia e da didática no Ocidente. A obra, à qual o autor se
dedicou ao longo de sua vida, tinha grande ambição. "Comênio chama sua didática
de ‘magna’ porque ele não queria uma obra restrita, localizada", diz João Luiz
Gasparin, professor do Departamento de Teoria e Prática da Educação da
Universidade Estadual de Maringá. "Ela tinha de ser grande, como o mundo que
estava sendo descoberto naquele momento, com a expansão do comércio e das
navegações."
No livro, o pensador realiza uma racionalização de todas as ações educativas, indo
da teoria didática até as questões do cotidiano da sala de aula. A prática escolar,
para ele, deveria imitar os processos da natureza. Nas relações entre professor e
aluno, seriam consideradas as possibilidades e os interesses da criança. O
professor passaria a ser visto como um profissional, não um missionário, e seria
bem remunerado por isso. E a organização do tempo e do currículo levaria em
conta os limites do corpo e a necessidade, tanto dos alunos quanto dos professores,
de ter outras atividades.
Ruptura com a escolástica
Gravura do próprio Comênio para um de seus livros
de texto: aprender brincando.
Comênio era cristão protestante e pertencia ao grupo religioso Irmãos Boêmios, ao
qual se manteve vinculado por toda a vida, tornando-se, em 1648, bispo dos
morávios. Embora profundamente religioso, o pensador propôs uma ruptura
radical com o modelo de escola até então praticado pela Igreja Católica, aquele
voltado apenas para a elite e dedicado primordialmente aos estudos abstratos.
Ainda vigoravam as doutrinas escolásticas da Idade Média, pelas quais todas as
questões teóricas se subordinavam à teologia cristã.
Comênio não foi o único pensador de seu tempo a combater o pedantismo literário
e o sadismo pedagógico, mas ousou ser o principal teórico de um modelo de escola
que deveria ensinar "tudo a todos", aí incluídos os portadores de deficiência mental
e as meninas, na época alijados da educação. "Ele defendia o acesso irrestrito à
escrita, à leitura e ao cálculo, para que todos pudessem ler a Bíblia e comerciar",
diz Gasparin. Comênio respondia assim a duas urgências de seu tempo: o
aparecimento da burguesia mercantil nas cidades européias e o direito,
reivindicado pelos protestantes, à livre interpretação dos textos religiosos,
proibida pela Igreja Católica.
A obra de Comênio corresponde também a outras novidades, entre elas "o
despertar de uma nova concepção de criança", como diz Gasparin. "Ele a trata em
seus livros com muita delicadeza, num tempo em que a escola existia sob a égide
da palmatória", continua o professor. "A educação era vista e praticada como um
castigo e não oferecia elementos para que depois as pessoas se situassem de forma
mais ampla na sociedade. Comênio reagiu a esse quadro com uma pergunta: por
que não se aprende brincando?"
Salvação da alma
Sob influência de seitas protestantes e do filósofo inglês Francis Bacon (1561-
1626), Comênio acreditava que a salvação da alma poderia ser alcançada durante
a vida terrena e que o caminho para isso poderia ter a ajuda da ciência. Para ele, a
criatura humana correspondia ao ideal de perfeição. Comênio acreditava que, por
ser dotado de razão, o homem pode entender a si e a todas as coisas. Portanto,
deve se dedicar a aprender e a ensinar. Seguindo esse pensamento, Comênio
conclui que o mais importante na vida não é a contemplação e sim a ação, o
"fazer".
No pensamento humanista do pedagogo tcheco, a instrução e o trabalho
diferenciavam o homem burguês do homem feudal. Em sua trajetória, o novo
indivíduo deveria imitar a natureza, porque, emulando Deus e respeitando as
aptidões de cada um, não haveria possibilidade de erro. De Bacon, Comênio adotou
o método empírico de explorar o mundo, em contraposição às verdades impostas
pelo ensino medieval. Pela experimentação, ele acreditava que todos poderiam vir
a enxergar a harmonia do universo sob o caos aparente. "Comênio queria mudar a
escola com a didática e a sociedade com a educação", diz Gasparin. "Era um
grande idealista."
Biografia
O nome Comênio é o aportuguesamento da assinatura latina (Comenius) de Jan
Amos Komensky, nascido em 1592 em Nivnice, Morávia (então domínio dos
Habsburgos, hoje República Tcheca). O pensador Comênio foi filho único de um
casal de membros do grupo protestante Irmãos Boêmios. Na Universidade de
Heidelberg (Alemanha), se entusiasmou com as idéias de filósofos que criavam
uma concepção de ciência baseada no empirismo. Seguiu carreira religiosa e teve
de fugir para a Polônia quando, no início da Guerra dos 30 Anos, em 1618, o rei
Ferdinando II decidiu reimpor o catolicismo na Boêmia. Sua revolta com a situação
o levou a escrever obras filosóficas e pedagógicas satirizando a ordem vigente e
propondo mudanças radicais. Essas idéias seduziram pensadores da Inglaterra,
que o convidaram a trabalhar no país, mas o projeto foi abortado pela eclosão da
Guerra Civil Inglesa, em 1642. Tentativas de reforma escolar a pedido dos
governos da Suécia e da Hungria acabaram fracassando - em parte por causa da
insistência do pensador em divulgar sua "pansofia", sem sucesso - e ele voltou para
a Polônia. Comênio teve novamente de fugir de uma guerra civil e estabeleceu-se
em Amsterdã, onde permaneceu até morrer, em 1670. Por essa época, seus livros
de texto ilustrados para o aprendizado de línguas e ciências tinham se tornado
uma bem-sucedida novidade nas escolas da Europa.
Em busca da harmonia universal
Comênio viveu a maior parte da vida cercado de guerras. Algumas delas, como a
Guerra dos 30 Anos, de protestantes contra católicos, lhe diziam respeito
diretamente. Toda sua obra foi marcada profundamente por isso, uma vez que o
fim último de seu pensamento era a compreensão universal, que uniria toda a
humanidade. Ele perseguiu desde a juventude a unificação da totalidade do
conhecimento humano, porque imaginava que ele era finito e imutável. A
construção de uma enciclopédia do saber e sua adaptação às capacidades infantis
são o grande tema da pedagogia de Comênio, e para sustentá-la ele criou uma base
filosófica que denominou "pansofia", a procura de um princípio básico que
harmonizasse todo o saber. Ao contrário de seu pensamento educacional, que
suscitou interesse pela Europa afora, a pansofia não teve seguidores.
Para pensar
Gráficos do século 16 na Itália, em gravura da época: a técnica a serviço do saber.
A maior contribuição de Comênio para a educação dos dias de hoje é, segundo o professor
Gasparin, a idéia de "trazer a realidade social para a sala de aula, fazendo uso dos meios
tecnológicos mais avançados à disposição". De tão fascinado pela invenção da imprensa e
pela possibilidade de disseminação de conhecimento que ela representava, Comênio criou a
expressão "didacografia" para designar o método universal de ensino que ele pretendia
inaugurar. Nos dias de hoje, a tecnologia da informação seria capaz de realizar essa
revolução? Qual é sua opinião?
Quer saber mais?
Comênio: A Emergência da Modernidade na Educação, João Luiz Gasparin, 147 págs., Ed. Vozes,
tel. (24) 2246-5552, 20 reais
Comenius: a Persistência da Utopia em Educação, Wojciech A. Kulesza, 214 págs., Ed. Unicamp,
tel. (19) 3521-7718 (edição esgotada)
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