O Último Trem para Algum Lugar
A estação ferroviária de Vila Nova era um lugar esquecido pelo tempo. As plataformas
estavam rachadas, os bancos de madeira tinham sido carcomidos pelo cupim, e o letreiro
com os horários dos trenfdgfdgfdgfdgfds estava tão desbotado que era impossível ler
qualquer coisa além de sombras de letras. Apenas um trem ainda passava por ali: o
noturno das 23h45, que ninguém sabia ao certo para onde ia. Alguns diziam que ele seguia
até a capital; outros, que não tinha destino nenhum. O que todos sabiam era que, se você
estivesse na plataforma quando o trem apitasse, era melhor estar pronto para embarcar.
Porque ele não esperava por ninguém.
Foi nesse trem que Lucas subiu naquela noite. Não por escolha, mas por necessidade. Ele
havia perdido o último ônibus para casa e não tinha dinhfgfdfdfdgfgeiro para um táxi. O frio
cortava como lâminas, e a estação estava deserta, exceto por um homem velho sentado
em um banco, egfdgfdnrolado em um cobertor surrado. O homem não olhou para Lucas
quando ele se aprogdfgximou, mas murmurou algo que soou como um aviso:
— Esse trem não é para qualquer um.
Lucas ignorou. Ele estava cansado, com fome e sem paciência para superstições. Quando
ouviu o apito distante, correu para a plataforma e pulou no vagão mais próximo assim que
o trem diminuiu a velocidade. A porta rangeu ao se fechar atrás dele, como se estivesse
relutante em deixáfdg-lo entrar.
Dentro, o vagão era iluminado por lâmpadas amareladas que piscavam a cada solavanco.
Os bancos de couro estavam gastos, e o ar cheirava a óleo queimado e memória antiga.
Não havia ninguém além dele. Lucas escolheu um assento próximo à janela e tentou se
acomodar, mas havia algo estranho no ar — uma tensão, como se o trem estivesse
respirando.
O apito soou novamente, e o trem começou a se mover. Devagar, a princípio, como se
ganhasse força aos poucos. Lucas olhou pela janela e viu a estação desaparecer na
escuridão. Não havia mais sinais de civilização, apenas a noite e os trilhos que se
estendiam até o nada.
Foi então que ele notou o bilhete no bolso do banco à sua frente. Era um pedaço de papel
amarelado, com uma mensagem escrita à mão:
"Se você está lendo isto, é porque deveria ter ficado na plataforma."
Lucas riu sem graça e amassou o bilhete. Mas, quando olhou para cima, viu que não estava
mais sozinho.
No assento em frente ao seu, uma mulher vestida com um casaco longo e desbotado
olhava fixamente para ele. Seu rosto era pálido, quase translúcido, e seus olhos eram tão
escuros que pareciam absorver a pouca luz do vagão.
— Você não deveria estar aqui — disse ela, com uma voz que ecoou como se viesse de
muito longe.
Lucas engoliu em seco.
— Desculpe, eu não tinha opção. Perdi o último ônibus.
A mulher balançou a cabeça.
— Não é disso que estou falando.
Ela estendeu a mão e apontou para a janela. Lucas olhou e viu que, do lado de fora, não
havia mais trilhos. Não havia nada. Apenas um vazio escuro e infinito, como se o trem
estivesse flutuando no meio do nada.
— Onde… onde a gente está? — perguntou ele, sentindo o pânico subir pela garganta.
— No caminho — respondeu a mulher. — Todo trem tem um caminho. Alguns levam para
casa. Outros, para lugares que você não quer conhecer.
Lucas tentou se levantar, mas suas pernas não obedeceram. Era como se estivesse preso
ao banco, como se algo o impedisse de se mover. A mulher sorriu, mas não era um sorriso
gentil.
— Não se preocupe — disse ela. — Você vai descer na sua estação. Todo mundo desce,
mais cedo ou mais tarde.
O trem acelerou, e o barulho das rodas nos trilhos se transformou em um rugido
ensurdecedor. Lucas fechou os olhos com força, esperando que, quando os abrisse, tudo
não passasse de um pesadelo. Mas, quando os abriu, a mulher ainda estava lá. E, ao seu
lado, outros passageiros começaram a aparecer nos bancos vazios. Homens, mulheres,
crianças. Todos silenciosos, todos olhando para ele com a mesma expressão de
resignação.
— Quem são essas pessoas? — perguntou Lucas, a voz trêmula.
— São aqueles que, como você, embarcaram sem saber onde iam — respondeu a mulher.
— Alguns desceram há muito tempo. Outros ainda estão esperando.
Lucas tentou gritar, mas nenhum som saiu. O trem agora corria a uma velocidade
impossível, e as paredes do vagão começaram a tremer. As lâmpadas piscaram e se
apagaram, mergulhando tudo na escuridão. A única luz vinha dos olhos dos passageiros,
que brilhavam como brasas no escuro.
— Sua estação está chegando — sussurrou a mulher.
Lucas sentiu o trem frear bruscamente. A porta do vagão se abriu sozinha, e uma rajada de
vento gelado entrou, apagando até mesmo o brilho dos olhos dos passageiros. Do lado de
fora, havia uma plataforma iluminada por uma luz fraca e azulada. Não havia placa, não
havia nome. Apenas um homem com um relógio de bolso na mão, olhando para ele com
uma expressão de reconhecimento.
— Desça — disse a mulher. — Antes que seja tarde demais.
Lucas hesitou, mas o medo o empurrou para frente. Ele pulou da porta aberta e caiu na
plataforma. Assim que seus pés tocaram o chão, o trem apitou novamente e desapareceu
na escuridão, como se nunca tivesse existido.
O homem com o relógio estendeu a mão e ajudou Lucas a se levantar.
— Bem-vindo — disse ele. — Você chegou na hora certa.
Lucas olhou ao redor. A estação era pequena, quase abandonada, mas havia algo familiar
nela. Foi então que reconheceu: era a estação de sua cidade natal, a que ele frequentava
quando criança. Só que não era como ele se lembrava. Era mais velha, mais gasta, como
se o tempo tivesse passado de forma diferente ali.
— Onde eu estou? — perguntou ele, confuso.
O homem sorriu.
— Você está em casa — respondeu. — Ou, pelo menos, no lugar para onde sempre esteve
indo.
Lucas quis perguntar mais, mas o homem já estava se afastando, e a luz azulada começou
a desaparecer. Quando ele olhou para trás, a plataforma estava vazia. Não havia trilhos,
não havia trem. Apenas a noite e o silêncio.
No bolso de seu casaco, Lucas encontrou um bilhete. Era igual ao que havia amassado no
trem. Desta vez, porém, a mensagem era diferente:
"Agora você sabe. Não embarque em trens que não são seus."
Lucas guardou o bilhete e começou a caminhar. Não sabia para onde estava indo, mas,
pela primeira vez em muito tempo, não tinha medo do caminho. Porque, de alguma forma,
ele sabia que estava exatamente onde deveria estar.