1.
Definição, epidemiologia, etiologia, fatores de risco,
fisiopatologia e manifestações clínicas das doenças pericárdicas
(pericardite, derrame pericárdico, tamponamento)
-A principal função do pericárdio é prevenir a dilatação súbita das
câmaras cardíacas( principalmente AD e VD), manter a posição
anatômica do coração e retardar doenças de outros locais ao redor do
coração para ele
-Quando se retira o perircardio por cirurgia(ou congenitamente), não
se tem uma doença clínica obvia
-Porém defeitos parciais do pericárdio esquerdo podem causar
abaulamentos do átrio e da artéria pulmonar principal
Em casos raros pode ocorrer herniação e estrangulamento do AE -
> causa morte súbita
Pericardite aguda
-Processo patológico mais comum do pericárdio
Definição
-É um processo inflamatório no pericárdio, sendo definida de sinais e
sintomas que resultam de uma inflamação no pericárdio com duração
inferior a 2 semanas
-Pode ser uma doença isolada ou como resultado de uma doença
sistêmica
Epidemiologia
-A pericardite viral ou idiopática aguda ocorre em todas as idades,
mas é mais comum em homens jovens e costuma estar associada a
derrames pleurais e pneumonite
Etiologia
-As infecções virais (especialmente infecções pelos vírus Caxsakie e
ecovírus) são a causa mais comum de pericardite
Responsáveis pela maioria dos casos idiopáticos
-Outras causas de pericardite aguda são as infecções bacterianas ou
micro bacterianas do tecido conjuntivo (LES, AR), uremia, pós-
cirurgia cardíaca, invasão neoplásica do pericárdio, radioterapia,
traumatismo, toxicidade medicamentosa e processos inflamatórios
contíguos do miocárdio ou dos pulmões
-A pericardite também está associada a alta permeabilidade capilar -
> possibilita que proteínas plasmáticas(inclusive fibrogênio)
passem para o espaço pericárdico -> gera um exsudato que varia
em tipo e quantidade de acordo com o agente causal
A pericardide aguda frequentemente está associada a um
exsudato fibrinoso que pode cicatrizar de maneira expôtanea ou
progredir para depositação de tecido cicatricial e formação de
aderência entre os folhetos do pericárdio seroso
A inflamação pode envolver o miocárdio superficial e a pleura
adjacente
Manifestações clínicas
- São a Tríade da dor torácica, atrito do pericárdio e alterações no ECG
Achados podem variar conforme sua etiologia
-Dor:
Início abrupto e agudo, área precordial, pode irradia para pescoço,
costas, abdome ou até laterais do corpo, pode haver dor na crista
da escápula pela irritação do nervo frênico
Piora com respiração profunda, tosse, deglutição e alterações
posturais(gera alterações no retorno venoso e no enchimento
cardíaco -> aumenta a pressão no pericárdio se DD/V e maior
retorno venoso)
Dor alivia ao sentar e inclinar o TX para frente
Importante diferenciar da dor da embolia pulmonar e do IAM
Diagnóstico
-Se baseia nas manifestações clínicas, radiografia de TX,
ecocardiograma e ECG
-Atrito pericárdico auscutado nos 3 componentes (Sistole atrial e
ventricular e rápido enchimento do ventrículo)
Geralmente derrames de grande volume não reproduzem atrito
-Marcadores laboratoriais de inflamação podem estar presentes:
Elevação da contagem de leucócitos
Elevação da velocidade de hemossedimentação(VHS)
Aumento da PCR -> não presente em todos casos, mas pode ser
usado para monitorar a atividade da doença e duração do
tratamento necessário
-Possui 4 principais aspectos para diagnóstico (Harrison)
1- Dor torácica:
Dor da pericardite aguda com frequência é intensa, tem
localização retroesternal e/ou precordial esquerda, sendo referida
para pescoço, braços ou ombro esquerdo -> piora da inspiração ou
tosse
Frequentemente é associada a inflamção pleural
As vezes a dor pode ser contínua com irradiação para borda do
trapézio ou para um dos braços -> pode ser confundida com IAM
Pode ser intensificada com a posição supina e aliviada quando o
paciente fica sentado e inclinado para frente
Muitas vezes ocorre ausência de dor -> pode ser por pericadite de
desenvolvimento lento, tuberculosa, pós-irradiação, neoplásica e
urêmica
Pode ser mais confundida ainda pois ocorre a elevação de cretina-
cinase MB e troponina por conta do comprometimento do epicárdio
e morte dos miócitos devido ao processo inflamatório -> porém
são elevações mais modestas do que a do IAM
Ocorre ainda uma grande elevação de ST
2-Ruido de atrito pericárdico:
Audível em 85% dos casos de pericardite aguda
O ruido de atrito pode estar presente em todo o ciclo cardíaco
Tem característica de ser áspero, como uma fricção ou raspagem
rude
Geralmente mais audível no final da expiração com paciente ereto
e inclinado para frente
3-ECG
Geralmente a pericardite aguda sem um derrame volumoso
apresenta alterações no ECG que são secundárias a inflamação
subepicárdica aguda
Geralmente evolui em 4 estágios:
No estágio 1 ocorre: a elevação generalizada dos segmentos
ST, frequentemente com o concavidade voltada para cima, em 2
ou 3 derivações básicas dos membros; depressões recíprocas
apenas em aVR (algumas vezes em v1); Depressão do
segmento PR abaixo do segmento TP(envolvimento atrial);
geralmente do ocorre alteração do QRS se houber grande derrame
pericárdico
No estágio 2: Os segmentos ST voltam ao normal (demora
dias)
No estágio 3 as ondas T ficam invertidas
Semanas ou meses depois o ECG volta ao normal (estágio 4)
No IAM: As elevações do ST são convexas para cima e a depressão
é recíproca e mais proeminente, sendo que após dias podem voltar
ao normal; pode haver desenvolvimento de onda Q, perda de
amplitude na onda R e inversões da onda T
4- Derrame pericárdico
Geralmente associado à dor e/ou alterações no ECG(se o derrame
for grande)
O derrame tem importância clínica quando ocorre em um intervalo
curto -> pode causa o tamponamento
Fica difícil de diferenciar da cardiomegalia ao exame físico, mas a
bulha fica mais abafadas no derrame pericárdico de grande
volume
A base do pulmão pode ser comprimida pelo líquido pericárdico ->
sinal de Ewart -> uma área de macicez, aumento do frêmito e
egofonia sob o ângulo da escápula esquerda
Radiografia pode mostrar alargamento da silhueta cardíaca
-> configuração de garrafa d’agua -> pode ser normal em
pacientes com derrames pequenos
-Ecocardiografia:
+ usada
Exame sensível, específico, simples e não invasivo
Pode ser realizado a beira leito
Permite a estimativa da quantidade de líquido pericárdico
A presença do líquido é mostrada como um espaço anecoico(não
reflete as ondas do ECO - totalmente preta)
O diagnóstico de derrame ou espessamento pericárdico pode ser
confirmado pela TC ou por RM -> podem ser melhores que a
ecocardiografia para detectar derrames peri. Loculados(acumulado
entre septos ou aderências) e espessamento pericárdico e
identificar massas periféricas
A RM também é útil para identificar inflamação pericárdica
Tratamento:
-A pericardite idiopática aguda geralmente é autolimitante
(geralmente se cura com repouso e AINE) e presumidamente viral
-A colchicina pode ser adicionada ao tratamento pois se mostrou
benéfica em pacientes com resposta lenta ao AINE
A colchinha tem efeito anti-inflamatório prevenindo a
polimerização dos microtúbulos -> inibe a migração de leucócito
para fazer a fagocitose
-Quando se tem infecção geralmente são prescritos antibióticos
específicos para o agente causal
-Corticosteroides podem ser utilizados para tratamento de pessoas
com doença do tecido conjuntivo ou pericardite gravemente
sintomática não responsiva a AINE ou colchicina
Devem ser evitados sempre que possíveis devido sua quantidade
de efeitos colaterais, casos recidivos e hospitalizações
-A pericardite recidivante pode ocorrer em até 30% das pessoas com
pericardite aguda que responder satisfatoriamente ao tratamento
Uma pequena quantidade desses casos apresenta surto de dor
pericárdica, as vezes pode ser crônica e debilitante
A pericardite recidivante frequentemente está associada a
distúrbios autoimunes como LES, AR, esclerodermia e mixedema
ou pode ocorrer após pericardite viral
O tratamento inicial é com AINE’s, depois com colchicina
Geralmente quando é recidiva usa-se a colchicina como profilaxia -
> se não for tolerada, usa-se corticosteroides em doses baixas
Derrame pericárdico e tamponamento cardíaco
-O derrame pericárdico é o acúmulo de líquido na cavidade
pericárdica -> geralmente resulta de um processo inflamatório ou
infeccioso
Pode se desenvolver de neoplasias, cirurgia cardíaca, traumatismo,
ruptura cardíaca por IAM e aneurisma aórtico dissecante
-A cavidade pericárdica tem pouco volume de reserva(pouca
capacidade de armazenar líquido adicional)
Quando o líquido começa a se acumular, mesmo que em pequena
quantidade -> afeta o enchimento do coração
Como a pressão no coração direito é menor ele é mais sensível a
aumentos da pressão externa -> com isso o derrame pleural causa
primeiro a IC no lado direito
Patogênese
-O efeito do derrame sobre a função cardíaca depende da quantidade
de líquido, da rapidez que ele se acumula e da elasticidade do
pericárdio
-Pequenos derrames podem não produzir nem sinais nem sintomas
Até um grande derrame, mas que ocorre de maneira lenta e grau
pode causar poucos sintomas ou até nenhum -> desde que o
pericárdio consiga se distender e a evitar compressão do coração
-Um acúmulo súbito de 200ml pode elevar a pressão intracardíaca e
níveis que limitam seriamente o retorno venoso para o coração
O pequeno acúmulo de líquidos, quando causa sintomas de
compressão cardíaca, geralmente é um sintoma de que o
pericárdio tenha sofrido espessamento durante a formação de
tecido cicatricial ou infiltração neoplásica
-O derrame pericárdico pode levar ao tamponamento cardíaco ->
ocorre uma compressão do coração em consequência do acúmulo
de líquido, pus ou sangue no saco pericárdico
Pode ser causada por infecções, neoplasia e hemorragia
-O tamponamento resulta no aumento da pressão intracardíaca, na
limitação progressiva do enchimento diastólico ventricular,
redução no volume sistólico e no débito cardíaco
A gravidade da situação depende da quantidade de líquido
presente e da velocidade que ele se acumula
-O acúmulo significativo de líquido gera um estímulo adrenérgico que
gera taquicardia e aumento da contratilidade cardíaca -> Gerando:
Aumento da pressão venosa central(pressão da VCS) -> coração
não se enche direito -> + acúmulo de sangue nas veias
Distensão das veias jugulares
Queda da PAS e estreitamento da pressão de pulso(PAS-PAD) ->
coração não consegue bombear direito = - sangue = queda de PAS
PAD pode até se elevar devido a vasoconstrição gerada pela
hipotensão
Abafamento das bulhas-> líquido pericárdico abafa os sons
Sinais de choque circulatório -> hipotensão gera palidez,
sudorese, rebaixamento do nível de consciência, extremidades
frias, risco de morte
-Pessoas que desenvolvem lentamente o tamponamento não
aparentam estar não enfermas quanto as que desenvolvem
rapidamente o tamponamento
Diagnóstico:
-Um achado importante é o pulso paradoxal -> queda de PAS maior
que 10mmHg durante a inspiração normal
O normal é ter uma queda menor que 10mmHg
Ocorre pela queda de pressão intratorácica -> VD enche mais e
desloca VE para esquerda -> menor pressão (isso é fisiológico,
mas pode ser exacerbado na patologia)
No tamponamento o VE é comprimido pelo átrio e pelo pericárdio
Esse achado pode ser avaliado por palpação, esfigmomanometria
com manguito ou monitoramento da PA -> É um sinal precoce de
tamponamento, o médico tem que monitorar e se houver diferença
> 10 mmHg é sinal de tamponamento
-No tamponamento, devido ao pulso paradoxal, o pulso palpado na
carótida ou femoral é fraco ou até ausente na inspiração e na
expiração mais forte
Essa estimativa é mais grosseira -> o correto é o uso do manguito
-O eco é o método mais rápido, preciso e amplamente usado para
avaliar o derrame pericárdico
-O ECG geralmente revela alterações inespecíficas na onda T e uma
baixa voltagem no QRS
-A radiografia torácica geralmente só mostra derrames moderados ou
grandes
Tratamentos
-Depende da progressão até o tamponamento
-Derrames pericárdicos pequenos ou tamponamento cardíaco leve ->
administra AINE, colchicina ou corticosteroides para minimizar o
acúmulo de líquído
-A pericardiocentese (retirada de líquido do saco pericárdio com
auxílio do eco é o tratamento inicial de escolha)
- A pericardiocentese fechada, com inserção de uma agulha através
da parede torácica, pode ser uma medida de emergência salva-vidas
no tamponamento cardíaco grave
-A pericardiocentese aberta pode ser usada para derrames recidivos
ou loculados(confinados em uma ou mais bolsas no espaço pleural) -
> durante o procedimento se pode coletar biopsias ou criar uma
janela pericárdica -> a biopsia pode ajudar a identificar a etiologia
2. Tratamento da pericardite
[Link]
AINE’s
-Atuam inibindo as enximas cicloxigenase que catalisam o primeiro
estágio da biossíntese de prostanóides -> reduz a síntese de PGs
A inibição de COX-2 parece ter efeitos anti-inflamatórios e
analgésicos dos AINE’
A inibição da COX-1 é responsável pela prevenção dos eventos
cardiovasculares e pela maioria dos eventos adversos.
Colchicina
-Muito usada no tratamento da gota (fármaco ilustrada)
-É um alcalóide vegetal
-Se liga à tubulina, uma proteína do microtúbulo -> casa a
despolimerização do microtúbulo -> desorganiza as funções celulares
como a mobilidade dos granulócitos -> reduz sua migração para área
afetada
Ela também bloqueia a divisão celular ao se ligar nos fusos
mitóticos
-Se liga a tubulina e impede a sua polimerização em microtúbulos ->
inibe a migração e fagocitose pelos leucócitos (katsung)
-Também interrompe a função da criopirina(chave do sistema do
inflamossoma) ativada pela caspase-1 no inflamassoma – Complexo
proteíco que fica dentro das células de defesa e detecta sinais de
perigo e ativa a inflamação - (diminui a formação de IL-1B e IL-18),
inibe a formação do leucotrieno B4, diminui concentrações de
citocitas adicionais como IFN-y e IL-6 e diminui a expressaõ do
receptor de TNF-a em macrófagos
Corticosteroide
-Apresentam ampla eficácia anti-inflamatória pela inibição da
produção citocinas anti-inflamatórias
-Inibe vários genes inflamatórios nas células
Glicocorticoides
-Se liga a receptores dentro das células e regulam a transcrição de
diversos genes
-Impedem a ativação do NF-kB, suprimem a formação de citocinas
pró-inflamatórias como IL-6 e IL-1, inibem as células t na produção de
IL-2 e inibem a ativação dos linfócitos T citotóxicos
-Fazem com que os neutrófilos e monócitos apresentam quimiotaxia
menos eficaz e liberam menos enzimas lisossômicas