Análise de comportamento dos Fluidos
Nós utilizamos no estudo da Mecânica dos Fluidos as mesmas leis fundamentais que
você estudou nos cursos física e mecânica. Entre estas leis nós podemos citar as:
▪ do movimento de Newton;
▪ a de conservação da massa;
▪ a primeira e a segunda lei da termodinâmica.
O gráfico a seguir mostra a variação da massa específica da água em função da
temperatura
A Mecânica dos Fluidos pode ser subdividida no estudo:
▪ da estática dos fluidos, onde o fluido está em repouso, e
▪ na dinâmica dos fluidos, onde o fluido está em movimento.
Entretanto, antes de prosseguirmos no assunto, será necessário definir e discutir certas
propriedades dos fluidos (as que definem o seu comportamento).
Os fluidos diferentes podem apresentar caraterísticas muito distintas. Por exemplo, os
gases são leves e compressíveis enquanto os líquidos são pesados (em relação aos
gases) e relativamente incompressíveis.
Iremos analisar as propriedades mais importantes do comportamento dos fluidos mais
importantes.
Medidas da Massa e do Peso dos Fluidos
Massa Específica
A massa específica de uma substância, designada por 𝜌, é definida como a massa de
substância contida numa unidade de volume (a unidade da massa específica no SI é
𝑘𝑔/𝑚3 ). Os diversos fluidos podem apresentar massas específicas bastante distintas.
Normalmente, a massa específica dos líquidos é pouco sensível as variações de pressão
e de temperatura.
A tabela a seguir apresenta um gráfico da massa específica da água em função da
temperatura.
De modo diferente dos líquidos, a massa específica dos gases é fortemente influenciada
tanto pela pressão quanto pela temperatura e esta diferença será discutida na próxima
secção.
O volume específico, v, é o volume ocupado por uma unidade de massa da substância
considerada. O volume específico é o recíproco da massa específica.
1
𝑣=
𝜌
Propriedades Física Aproximadas de Alguns Líquidos
Peso Específico
O peso específico de uma substância, designado por 𝛾, é definido como o peso da
substância contida numa unidade de volume. O peso específico está relacionado com
a massa específica através da relação.
𝛾 = 𝜌𝑔
Onde:
g é a aceleração da gravidade local.
Note que o peso específico é utilizado para caracterizar o peso do sistema fluido
enquanto a massa específica é utilizada para caracterizar a massa do sistema fluido.
A unidade do peso específico no SI é 𝑁/𝑚3.
Assim, se o valor da aceleração da gravidade é o padrão (𝑔 = 9,807 𝑚/𝑠 2 ), o peso
específico da água a 15,6 °𝐶 𝑒 9,8 𝑘𝑁/𝑚3 .
Exemplo: Determine a densidade específica do ar e da água a 20°𝐶 e a uma atm.
𝛾𝑎𝑟 = (1,205 𝑘𝑔/𝑚3 )(9,81 𝑚/𝑠 2 ) = 11,8 𝑁/𝑚3
𝛾á𝑔𝑢𝑎 = (1000 𝑘𝑔/𝑚3 )(9,81 𝑚/𝑠 2 ) = 9810 𝑁/𝑚3
Densidade relativa
A densidade de um fluido, designada por SG (“specific gravity”), é definida como a
razão entre a massa específica do fluido e a massa específica da água numa certa
temperatura.
Usualmente, a temperatura especificada é 4 °𝐶 (nesta temperatura a massa específica
da água é igual a 1000 𝑘𝑔/𝑚3 ). Nesta condição,
𝜌𝑔á𝑠 𝜌𝑔á𝑠
𝑆𝐺𝑔á𝑠 = =
𝜌𝑎𝑟 1,205 𝑘𝑔/𝑚3
𝜌𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜
𝑆𝐺𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 =
1000 𝑘𝑔/𝑚3
Exemplo: a densidade especifica do mercúrio (Hg) é:
𝜌𝐻𝑔 13580𝑘𝑔/𝑚3
𝑆𝐺𝐻𝑔 = = ≈ 13,6
1000 𝑘𝑔/𝑚3 1000 𝑘𝑔/𝑚3
A massa específica, o peso específico e a densidade são interdependentes.
Lei dos Gases Perfeitos
Os gases são muito mais compressíveis do que os líquidos. Sob certas condições, a massa
específica de um gás está relacionada com a pressão e a temperatura através da
equação
𝒑 = 𝝆𝑹𝑻 ⟹ 𝐿𝑒𝑖 𝑑𝑜𝑠𝑔𝑎𝑠𝑒𝑠 𝑝𝑒𝑟𝑓𝑒𝑖𝑡𝑜𝑠 𝑜𝑢 𝑒𝑞𝑢𝑎çã𝑜 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑎𝑑𝑜 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑜𝑠 𝑔𝑎𝑠𝑒𝑠 𝑝𝑒𝑟𝑓𝑒𝑖𝑡𝑜𝑠
Onde:
▪ p é a pressão absoluta
▪ 𝜌 é a massa específica
▪ T á a temperatura absoluta
▪ R é a constante do gás
A pressão que deve ser utilizada na equação de estado dos gases perfeitos é a
absoluta, ou seja, a pressão medida em relação a pressão absoluta zero (a pressão que
ocorreria no vácuo perfeito).
Por convenção internacional, a pressão padrão no nível do mar é 101,33 kPa (abs) ou
14,696 psi (abs).
É habitual, na engenharia, medir as pressões em relação a pressão atmosférica local e,
nestas condições, as pressões medidas são denominadas relativas. Assim, a pressão
absoluta pode ser obtida a partir da soma da pressão relativa com a pressão
atmosférica local.
Exemplo:
A pressão de 206,9 kPa (relativa) num pneu é igual a 308,2 kPa (abs) quando o valor da
pressão atmosférica for igual ao padrão.
A constante do gás, R, é função do tipo de gás que está sendo considerado e está
relacionada à massa molecular do gás.
Exemplo:
Um tanque de ar comprimido apresenta volume igual a 2,38 × 10−2 𝑚3 . Determine a
massa específica e o peso do ar contido no tanque quando a pressão relativa do ar no
tanque for igual a 340 kPa.
Amita que a temperatura do ar no tanque é igual a 21 °𝐶 e que a pressão atmosférica
vale 101,3 kPa (abs).
Resolução
A massa específica do ar pode ser calculada com a lei dos gases perfeitos
𝑝
𝜌=
𝑅𝑇
(340 + 101,3)103
𝜌= = 5,32 𝑘𝑔/𝑚3
(2,869 × 102 )(273,15 + 21)
Nota: Os valores utilizados para a pressão e para a temperatura são absolutos.
O peso, W, do ar contido no tanque é igual a
𝑊 = 𝜌𝑔(𝑣𝑜𝑙𝑢𝑚𝑒) = 5,23 × 9,8 × 2,38 × 10−2 = 1,22 𝑁
A figura a seguir mostra: a) Deformação do material colocado entre duas placas
paralelas. b) Forças que atuam na placa superior.
Na figura que segue pode se ver o comportamento de um fluido localizado entre duas
placas paralelas.
Viscosidade
A massa específica e o peso específico são propriedades que indicam o “peso” de um
fluido.
A viscosidade é uma propriedade dos fluidos newtonianos que exprime a sua resistência
às forças de cisalhamento. (Coimbra)
Um fluido muito viscoso oferece maior resistência às forças viscosas e escoa com maior
dificuldade do que um fluido pouco viscoso.
Tensão de cisalhamento em função da taxa de deformação por cisalhamento para
alguns fluidos.
Para fluidos comuns (como a água, óleo, gasolina e ar), a tensão de cisalhamentos e a
taxa de deformação por cisalhamento (gradiente de velocidade) podem ser
relacionadas com uma equação do tipo
𝑑𝑢
𝜏=𝜇
𝑑𝑦
Onde:
𝜇 a constante de proporcionalidade é denominada viscosidade dinâmica do fluido
Os fluidos que apresentam relação linear entre tensão de cisalhamento e taxa de
deformação por cisalhamento (também conhecida como taxa de deformação
angular) são denominados fluidos newtonianos. A maioria dos fluidos comuns, tanto
líquidos como gases, são newtonianos.
Os fluidos que apresentam relação não linear entre a tensão de cisalhamento e a taxa
de deformação são denominados fluidos não newtonianos, pode se ver na figura a
seguir.
A figura a seguir mostra a tensão de cisalhamento em função da taxa de deformação
por cisalhamento para alguns fluidos (incluído alguns não Newtonianos)
A seguir temos a viscosidade dinâmica (absoluta) de alguns fluidos em função da
temperatura.
A influência das variações de temperatura na viscosidade dinâmica pode ser estimada
com duas equações empíricas. A equação de Sutherland, adequada para os gases,
pode ser expressa do seguinte modo:
𝐶𝑇 3/2
𝜇=
𝑇+𝑆
Onde:
▪ C e S são constantes empíricas e
▪ T é a temperatura absoluta
Para os líquidos a equação que tem sido utilizada é de Andrade:
𝜇 = 𝐷𝑒 𝐵/𝑇
Onde:
D e B são constantes e T é a temperatura absoluta.
No caso dos gases devemos conhecer no mínimo duas viscosidades obtidas em
temperaturas diferentes para que as duas constantes possam ser determinadas.
É frequente, nos problemas de mecânica dos fluidos, a viscosidade dinâmica aparecer
combinada com a massa específica do seguinte modo:
𝜇
𝜈=
𝜌
Esta relação define a viscosidade cinemática (𝜈). A dimensão da viscosidade
cinemática é 𝐿2 /𝑇. Assim, no SI, a unidade desta viscosidade é 𝑚2 /𝑠.
Uma combinação de variáveis muito importante no estudo dos escoamentos viscosos
em tubos é o número de Reynolds (Re). Este número é definido por:
𝜌𝑉𝐷 𝑉𝐷
𝑅𝑒 = =
𝜇 𝜈
Onde:
𝜌 é a massa específica do fluido que escoa
V é a velocidade média do escoamento
D é o diâmetro do tubo
𝜇 é a viscosidade dinâmica do fluido
Exemplo
Um fluido newtoniano, que apresenta viscosidade dinâmica igual a 0,38 Ns/m2 e
densidade 0,91, escoa num tubo com 25 mm de diâmetro interno. Sabendo que a
velocidade média do escoamento é igual a 2,6 m/s, determine o valor do número de
Reynolds.
Resolução
A massa específica do fluido pode ser calculada a partir da densidade. Assim:
𝜌 = 𝑆𝐺𝜌𝐻2 𝑂@4°𝐶 = 0,91 × 1000 = 910 𝑘𝑔/𝑚3
𝜌𝑉𝐷 (910 𝑘𝑔/𝑚3 )(2,6 𝑚/𝑠)(25 × 10−3 𝑚)
𝑅𝑒 = = = 156
𝜇 0,38 𝑁 ∙ 𝑠/𝑚2
Exemplo
A distribuição de velocidade do escoamento de um fluido newtoniano num canal
formado por duas placas paralelas e largas é dada por:
3𝑉 𝑦 2
𝑢= [1 − ( ) ]
2 ℎ
Onde:
V é a velocidade média
O fluido apresenta viscosidade dinâmica igual a 1,92 Ns/m2 .
Admitindo que V=0,6 m/s e h=5mm, determine:
a) A tensão de cisalhamento na parte inferior do canal e
b) A tensão de cisalhamento que atua no plano central do canal.
Resolução
Para este tipo de escoamento a tensão de cisalhamento pode ser calculada com a
equação:
𝑑𝑢
𝜏=𝜇
𝑑𝑦
Se a distribuição de velocidade, 𝑢 = 𝑢(𝑦), é conhecida, a tensão de cisalhamento, em
qualquer plano, pode ser determinada com o gradiente de velocidade, 𝑑𝑢/𝑑𝑦. Para a
distribuição da velocidade fornecida:
𝑑𝑢 3𝑉𝑦
=− 2
𝑑𝑦 ℎ
a) O gradiente de velocidade na parede inferior do canal, 𝑦 = −ℎ, vale
𝑑𝑢 3𝑉
=
𝑑𝑦 ℎ
e a tensão de cisalhamento vale
3𝑉 3 × 0,6
𝜏𝑝𝑎𝑟𝑒𝑑𝑒 𝑖𝑛𝑓𝑒𝑟𝑖𝑜𝑟 = 𝜇 ( ) = 1,92 = 691 𝑁/𝑚2
ℎ 5 × 10−3
Esta tensão cria um arraste na parede. Como a distribuição de velocidade é simétrica,
a tensão de cisalhamento na parede superior apresenta o mesmo valor e sentido da
tensão na parede inferior.
b) No plano médio, 𝑦 = 0, temos
𝑑𝑢
=0
𝑑𝑦
Assim, a tensão de cisalhamento neste plano é nula, ou seja,
𝜏𝑝𝑙𝑎𝑛𝑜 𝑚é𝑑𝑖𝑜 = 0
Pode se concluir que o gradiente de velocidade e a tensão de cisalhamento variam
linearmente com y. Neste exemplo a tensão de cisalhamento varia de zero (0), no plano
central, a 691 𝑁/𝑚2 nas paredes. A variação dependerá da natureza da distribuição da
velocidade de escoamento.
Pressão de Vapor
Nós sempre observamos que líquidos, como a água e a gasolina, evaporam se estes
são colocados num recipiente aberto para a atmosfera. A evaporação ocorre porque
algumas moléculas do líquido, localizadas perto da superfície livre do fluido, apresentam
quantidade de movimento suficiente para superar as forças intermoleculares coesivas
e escapam para a atmosfera. Se removermos o ar de um recipiente estanque que
contém um líquido (espaço acima do líquido é evacuado), notaremos o
desenvolvimento de uma pressão na região acima do nível do líquido (esta pressão é
devida ao vapor formado pelas moléculas que escapam da superfície do líquido).
Quando o equilíbrio é atingido, o número de moléculas que escapam da superfície é
igual ao número de moléculas que são absorvidas na superfície, o vapor é dito saturado
a pressão que o vapor exerce na superfície da fase líquida é denominado pressão de
vapor.
Como o desenvolvimento da pressão de vapor está intimamente relacionado com a
atividade molecular, o valor da pressão de vapor para um fluido depende da
temperatura.
A formação de bolhas de vapor na massa fluida é iniciada quando a pressão absoluta
no fluido alcança a pressão de vapor (pressão de saturação). Este fenómeno é
designado ebulição.
É possível observar no campo de escoamento o desenvolvimento de regiões onde a
pressão é baixa. Note que a ebulição no escoamento iniciará quando a pressão nesta
região atingir a pressão de vapor saturado. Este é o motivo pelo nosso interesse na
pressão d vapor e na ebulição.
Por exemplo, este fenómeno pode ocorrer em escoamentos através das passagens
estreitas e irregularidades encontradas nas válvulas e bombas. Observe as bolhas de
vapor formada num escoamento podem ser transportadas para as zonas onde a
pressão é alta. Nesta condição, as bolhas podem colapsar rapidamente e com uma
intensidade suficiente para causar os danos estruturais.
A formação e o subsequente colapso das bolhas de vapor no escoamento de um fluido,
denomina-se cavitação.
Tensão Superficial
Nós detetamos, na interface entre um líquido e um gás (o entre dois líquidos imiscíveis),
a existência de forças superficiais. Estas forças fazem com que a superfície do líquido se
comporte como uma membrana esticada sobre uma massa fluida.
Apesar desta membrana não existir, a analogia conceituada nos permite explicar muito
fenómenos observados experimentalmente. Por exemplo uma agulha de aço flutua na
água se esta for colocada delicadamente na superfície livre do fluido (porque a tensão
desenvolvida na membrana hipotética suporta a agulha).
Pequenas gotas de mercúrio são formadas quando o fluido é vertido numa superfície
lisa (porque as forças coesivas na superfície tendem a segurar todas as moléculas juntas
e numa forma compacta). De modo análogo,
Estes fenómenos superficiais são provocados pelo desbalanço das forças coersivas que
atuam nas moléculas de líquidos que estão próximos à superfície do fluido.
O efeito da ação capilar em tubos com diâmetros pequenos. a) Elevação da coluna
para um líquido que molha o tubo. b) Diagrama de corpo livre para o cálculo da altura
da coluna. c) Depressão da coluna para um líquido que não molha a parede do tubo.
A pressão dentro de uma dota de fluido pode ser calculada utilizando o diagrama de
corpo livre mostrado na figura a baixo.
A figura a seguir mostra as forças que atua na metade de uma gota de líquido
Se a gota esférica é cortada pela metade (como mostra a figura acima), a força
desenvolvida ao longo da borda, devida a tensão superficial, é 2𝜋𝑅𝜎. Esta força precisa
ser balanceada pela diferença de pressão ∆𝑝, (entre a pressão interna, 𝑝𝑖 , e a externa,
𝑝𝑒 ) que atua sobre a área 𝜋𝑅 2 . Assim,
2𝜋𝑅𝜎 = ∆𝑝𝜋𝑅 2
Ou
2𝜎
∆𝑝 = 𝑝𝑖 − 𝑝𝑒 =
𝑅
Este resultado mostra que a pressão interna da gota é maior do que a pressão no meio
que envolve a gota.
Um dos fenómenos associados com a tensão superficial é a subida (ou queda) de um
líquido num tubo capilar. Se um tubo com um diâmetro pequeno e aberto é inserido na
água, o nível da água