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Comportamento e Propriedades dos Fluidos

Aula de Mecânica dos Fluidos

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Mariano Junior
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Análise de comportamento dos Fluidos

Nós utilizamos no estudo da Mecânica dos Fluidos as mesmas leis fundamentais que
você estudou nos cursos física e mecânica. Entre estas leis nós podemos citar as:

▪ do movimento de Newton;
▪ a de conservação da massa;
▪ a primeira e a segunda lei da termodinâmica.

O gráfico a seguir mostra a variação da massa específica da água em função da


temperatura

A Mecânica dos Fluidos pode ser subdividida no estudo:

▪ da estática dos fluidos, onde o fluido está em repouso, e


▪ na dinâmica dos fluidos, onde o fluido está em movimento.

Entretanto, antes de prosseguirmos no assunto, será necessário definir e discutir certas


propriedades dos fluidos (as que definem o seu comportamento).
Os fluidos diferentes podem apresentar caraterísticas muito distintas. Por exemplo, os
gases são leves e compressíveis enquanto os líquidos são pesados (em relação aos
gases) e relativamente incompressíveis.

Iremos analisar as propriedades mais importantes do comportamento dos fluidos mais


importantes.

Medidas da Massa e do Peso dos Fluidos

Massa Específica

A massa específica de uma substância, designada por 𝜌, é definida como a massa de


substância contida numa unidade de volume (a unidade da massa específica no SI é
𝑘𝑔/𝑚3 ). Os diversos fluidos podem apresentar massas específicas bastante distintas.
Normalmente, a massa específica dos líquidos é pouco sensível as variações de pressão
e de temperatura.

A tabela a seguir apresenta um gráfico da massa específica da água em função da


temperatura.

De modo diferente dos líquidos, a massa específica dos gases é fortemente influenciada
tanto pela pressão quanto pela temperatura e esta diferença será discutida na próxima
secção.
O volume específico, v, é o volume ocupado por uma unidade de massa da substância
considerada. O volume específico é o recíproco da massa específica.

1
𝑣=
𝜌

Propriedades Física Aproximadas de Alguns Líquidos


Peso Específico

O peso específico de uma substância, designado por 𝛾, é definido como o peso da


substância contida numa unidade de volume. O peso específico está relacionado com
a massa específica através da relação.

𝛾 = 𝜌𝑔

Onde:

g é a aceleração da gravidade local.

Note que o peso específico é utilizado para caracterizar o peso do sistema fluido
enquanto a massa específica é utilizada para caracterizar a massa do sistema fluido.

A unidade do peso específico no SI é 𝑁/𝑚3.

Assim, se o valor da aceleração da gravidade é o padrão (𝑔 = 9,807 𝑚/𝑠 2 ), o peso


específico da água a 15,6 °𝐶 𝑒 9,8 𝑘𝑁/𝑚3 .

Exemplo: Determine a densidade específica do ar e da água a 20°𝐶 e a uma atm.

𝛾𝑎𝑟 = (1,205 𝑘𝑔/𝑚3 )(9,81 𝑚/𝑠 2 ) = 11,8 𝑁/𝑚3

𝛾á𝑔𝑢𝑎 = (1000 𝑘𝑔/𝑚3 )(9,81 𝑚/𝑠 2 ) = 9810 𝑁/𝑚3


Densidade relativa

A densidade de um fluido, designada por SG (“specific gravity”), é definida como a


razão entre a massa específica do fluido e a massa específica da água numa certa
temperatura.

Usualmente, a temperatura especificada é 4 °𝐶 (nesta temperatura a massa específica


da água é igual a 1000 𝑘𝑔/𝑚3 ). Nesta condição,

𝜌𝑔á𝑠 𝜌𝑔á𝑠
𝑆𝐺𝑔á𝑠 = =
𝜌𝑎𝑟 1,205 𝑘𝑔/𝑚3

𝜌𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜
𝑆𝐺𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 =
1000 𝑘𝑔/𝑚3

Exemplo: a densidade especifica do mercúrio (Hg) é:

𝜌𝐻𝑔 13580𝑘𝑔/𝑚3
𝑆𝐺𝐻𝑔 = = ≈ 13,6
1000 𝑘𝑔/𝑚3 1000 𝑘𝑔/𝑚3

A massa específica, o peso específico e a densidade são interdependentes.

Lei dos Gases Perfeitos

Os gases são muito mais compressíveis do que os líquidos. Sob certas condições, a massa

específica de um gás está relacionada com a pressão e a temperatura através da

equação

𝒑 = 𝝆𝑹𝑻 ⟹ 𝐿𝑒𝑖 𝑑𝑜𝑠𝑔𝑎𝑠𝑒𝑠 𝑝𝑒𝑟𝑓𝑒𝑖𝑡𝑜𝑠 𝑜𝑢 𝑒𝑞𝑢𝑎çã𝑜 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑎𝑑𝑜 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑜𝑠 𝑔𝑎𝑠𝑒𝑠 𝑝𝑒𝑟𝑓𝑒𝑖𝑡𝑜𝑠

Onde:

▪ p é a pressão absoluta

▪ 𝜌 é a massa específica

▪ T á a temperatura absoluta
▪ R é a constante do gás

A pressão que deve ser utilizada na equação de estado dos gases perfeitos é a

absoluta, ou seja, a pressão medida em relação a pressão absoluta zero (a pressão que

ocorreria no vácuo perfeito).

Por convenção internacional, a pressão padrão no nível do mar é 101,33 kPa (abs) ou

14,696 psi (abs).

É habitual, na engenharia, medir as pressões em relação a pressão atmosférica local e,

nestas condições, as pressões medidas são denominadas relativas. Assim, a pressão

absoluta pode ser obtida a partir da soma da pressão relativa com a pressão

atmosférica local.

Exemplo:

A pressão de 206,9 kPa (relativa) num pneu é igual a 308,2 kPa (abs) quando o valor da
pressão atmosférica for igual ao padrão.

A constante do gás, R, é função do tipo de gás que está sendo considerado e está
relacionada à massa molecular do gás.

Exemplo:

Um tanque de ar comprimido apresenta volume igual a 2,38 × 10−2 𝑚3 . Determine a


massa específica e o peso do ar contido no tanque quando a pressão relativa do ar no
tanque for igual a 340 kPa.

Amita que a temperatura do ar no tanque é igual a 21 °𝐶 e que a pressão atmosférica


vale 101,3 kPa (abs).

Resolução
A massa específica do ar pode ser calculada com a lei dos gases perfeitos

𝑝
𝜌=
𝑅𝑇

(340 + 101,3)103
𝜌= = 5,32 𝑘𝑔/𝑚3
(2,869 × 102 )(273,15 + 21)

Nota: Os valores utilizados para a pressão e para a temperatura são absolutos.

O peso, W, do ar contido no tanque é igual a

𝑊 = 𝜌𝑔(𝑣𝑜𝑙𝑢𝑚𝑒) = 5,23 × 9,8 × 2,38 × 10−2 = 1,22 𝑁

A figura a seguir mostra: a) Deformação do material colocado entre duas placas


paralelas. b) Forças que atuam na placa superior.

Na figura que segue pode se ver o comportamento de um fluido localizado entre duas
placas paralelas.
Viscosidade

A massa específica e o peso específico são propriedades que indicam o “peso” de um


fluido.

A viscosidade é uma propriedade dos fluidos newtonianos que exprime a sua resistência
às forças de cisalhamento. (Coimbra)

Um fluido muito viscoso oferece maior resistência às forças viscosas e escoa com maior
dificuldade do que um fluido pouco viscoso.

Tensão de cisalhamento em função da taxa de deformação por cisalhamento para


alguns fluidos.
Para fluidos comuns (como a água, óleo, gasolina e ar), a tensão de cisalhamentos e a
taxa de deformação por cisalhamento (gradiente de velocidade) podem ser
relacionadas com uma equação do tipo

𝑑𝑢
𝜏=𝜇
𝑑𝑦

Onde:

𝜇 a constante de proporcionalidade é denominada viscosidade dinâmica do fluido

Os fluidos que apresentam relação linear entre tensão de cisalhamento e taxa de


deformação por cisalhamento (também conhecida como taxa de deformação
angular) são denominados fluidos newtonianos. A maioria dos fluidos comuns, tanto
líquidos como gases, são newtonianos.

Os fluidos que apresentam relação não linear entre a tensão de cisalhamento e a taxa
de deformação são denominados fluidos não newtonianos, pode se ver na figura a
seguir.

A figura a seguir mostra a tensão de cisalhamento em função da taxa de deformação


por cisalhamento para alguns fluidos (incluído alguns não Newtonianos)
A seguir temos a viscosidade dinâmica (absoluta) de alguns fluidos em função da
temperatura.
A influência das variações de temperatura na viscosidade dinâmica pode ser estimada
com duas equações empíricas. A equação de Sutherland, adequada para os gases,
pode ser expressa do seguinte modo:

𝐶𝑇 3/2
𝜇=
𝑇+𝑆

Onde:

▪ C e S são constantes empíricas e


▪ T é a temperatura absoluta

Para os líquidos a equação que tem sido utilizada é de Andrade:

𝜇 = 𝐷𝑒 𝐵/𝑇

Onde:

D e B são constantes e T é a temperatura absoluta.

No caso dos gases devemos conhecer no mínimo duas viscosidades obtidas em


temperaturas diferentes para que as duas constantes possam ser determinadas.

É frequente, nos problemas de mecânica dos fluidos, a viscosidade dinâmica aparecer


combinada com a massa específica do seguinte modo:

𝜇
𝜈=
𝜌

Esta relação define a viscosidade cinemática (𝜈). A dimensão da viscosidade


cinemática é 𝐿2 /𝑇. Assim, no SI, a unidade desta viscosidade é 𝑚2 /𝑠.

Uma combinação de variáveis muito importante no estudo dos escoamentos viscosos


em tubos é o número de Reynolds (Re). Este número é definido por:

𝜌𝑉𝐷 𝑉𝐷
𝑅𝑒 = =
𝜇 𝜈
Onde:

𝜌 é a massa específica do fluido que escoa

V é a velocidade média do escoamento

D é o diâmetro do tubo

𝜇 é a viscosidade dinâmica do fluido

Exemplo

Um fluido newtoniano, que apresenta viscosidade dinâmica igual a 0,38 Ns/m2 e


densidade 0,91, escoa num tubo com 25 mm de diâmetro interno. Sabendo que a
velocidade média do escoamento é igual a 2,6 m/s, determine o valor do número de
Reynolds.

Resolução

A massa específica do fluido pode ser calculada a partir da densidade. Assim:

𝜌 = 𝑆𝐺𝜌𝐻2 𝑂@4°𝐶 = 0,91 × 1000 = 910 𝑘𝑔/𝑚3


𝜌𝑉𝐷 (910 𝑘𝑔/𝑚3 )(2,6 𝑚/𝑠)(25 × 10−3 𝑚)
𝑅𝑒 = = = 156
𝜇 0,38 𝑁 ∙ 𝑠/𝑚2

Exemplo

A distribuição de velocidade do escoamento de um fluido newtoniano num canal


formado por duas placas paralelas e largas é dada por:

3𝑉 𝑦 2
𝑢= [1 − ( ) ]
2 ℎ

Onde:

V é a velocidade média

O fluido apresenta viscosidade dinâmica igual a 1,92 Ns/m2 .

Admitindo que V=0,6 m/s e h=5mm, determine:

a) A tensão de cisalhamento na parte inferior do canal e


b) A tensão de cisalhamento que atua no plano central do canal.

Resolução

Para este tipo de escoamento a tensão de cisalhamento pode ser calculada com a
equação:
𝑑𝑢
𝜏=𝜇
𝑑𝑦

Se a distribuição de velocidade, 𝑢 = 𝑢(𝑦), é conhecida, a tensão de cisalhamento, em


qualquer plano, pode ser determinada com o gradiente de velocidade, 𝑑𝑢/𝑑𝑦. Para a
distribuição da velocidade fornecida:

𝑑𝑢 3𝑉𝑦
=− 2
𝑑𝑦 ℎ

a) O gradiente de velocidade na parede inferior do canal, 𝑦 = −ℎ, vale

𝑑𝑢 3𝑉
=
𝑑𝑦 ℎ

e a tensão de cisalhamento vale

3𝑉 3 × 0,6
𝜏𝑝𝑎𝑟𝑒𝑑𝑒 𝑖𝑛𝑓𝑒𝑟𝑖𝑜𝑟 = 𝜇 ( ) = 1,92 = 691 𝑁/𝑚2
ℎ 5 × 10−3

Esta tensão cria um arraste na parede. Como a distribuição de velocidade é simétrica,


a tensão de cisalhamento na parede superior apresenta o mesmo valor e sentido da
tensão na parede inferior.

b) No plano médio, 𝑦 = 0, temos

𝑑𝑢
=0
𝑑𝑦

Assim, a tensão de cisalhamento neste plano é nula, ou seja,

𝜏𝑝𝑙𝑎𝑛𝑜 𝑚é𝑑𝑖𝑜 = 0

Pode se concluir que o gradiente de velocidade e a tensão de cisalhamento variam


linearmente com y. Neste exemplo a tensão de cisalhamento varia de zero (0), no plano
central, a 691 𝑁/𝑚2 nas paredes. A variação dependerá da natureza da distribuição da
velocidade de escoamento.
Pressão de Vapor

Nós sempre observamos que líquidos, como a água e a gasolina, evaporam se estes
são colocados num recipiente aberto para a atmosfera. A evaporação ocorre porque
algumas moléculas do líquido, localizadas perto da superfície livre do fluido, apresentam
quantidade de movimento suficiente para superar as forças intermoleculares coesivas
e escapam para a atmosfera. Se removermos o ar de um recipiente estanque que
contém um líquido (espaço acima do líquido é evacuado), notaremos o
desenvolvimento de uma pressão na região acima do nível do líquido (esta pressão é
devida ao vapor formado pelas moléculas que escapam da superfície do líquido).

Quando o equilíbrio é atingido, o número de moléculas que escapam da superfície é


igual ao número de moléculas que são absorvidas na superfície, o vapor é dito saturado
a pressão que o vapor exerce na superfície da fase líquida é denominado pressão de
vapor.

Como o desenvolvimento da pressão de vapor está intimamente relacionado com a


atividade molecular, o valor da pressão de vapor para um fluido depende da
temperatura.

A formação de bolhas de vapor na massa fluida é iniciada quando a pressão absoluta


no fluido alcança a pressão de vapor (pressão de saturação). Este fenómeno é
designado ebulição.

É possível observar no campo de escoamento o desenvolvimento de regiões onde a


pressão é baixa. Note que a ebulição no escoamento iniciará quando a pressão nesta
região atingir a pressão de vapor saturado. Este é o motivo pelo nosso interesse na
pressão d vapor e na ebulição.

Por exemplo, este fenómeno pode ocorrer em escoamentos através das passagens
estreitas e irregularidades encontradas nas válvulas e bombas. Observe as bolhas de
vapor formada num escoamento podem ser transportadas para as zonas onde a
pressão é alta. Nesta condição, as bolhas podem colapsar rapidamente e com uma
intensidade suficiente para causar os danos estruturais.
A formação e o subsequente colapso das bolhas de vapor no escoamento de um fluido,
denomina-se cavitação.

Tensão Superficial

Nós detetamos, na interface entre um líquido e um gás (o entre dois líquidos imiscíveis),
a existência de forças superficiais. Estas forças fazem com que a superfície do líquido se
comporte como uma membrana esticada sobre uma massa fluida.

Apesar desta membrana não existir, a analogia conceituada nos permite explicar muito
fenómenos observados experimentalmente. Por exemplo uma agulha de aço flutua na
água se esta for colocada delicadamente na superfície livre do fluido (porque a tensão
desenvolvida na membrana hipotética suporta a agulha).

Pequenas gotas de mercúrio são formadas quando o fluido é vertido numa superfície
lisa (porque as forças coesivas na superfície tendem a segurar todas as moléculas juntas
e numa forma compacta). De modo análogo,

Estes fenómenos superficiais são provocados pelo desbalanço das forças coersivas que
atuam nas moléculas de líquidos que estão próximos à superfície do fluido.

O efeito da ação capilar em tubos com diâmetros pequenos. a) Elevação da coluna


para um líquido que molha o tubo. b) Diagrama de corpo livre para o cálculo da altura
da coluna. c) Depressão da coluna para um líquido que não molha a parede do tubo.
A pressão dentro de uma dota de fluido pode ser calculada utilizando o diagrama de
corpo livre mostrado na figura a baixo.

A figura a seguir mostra as forças que atua na metade de uma gota de líquido

Se a gota esférica é cortada pela metade (como mostra a figura acima), a força
desenvolvida ao longo da borda, devida a tensão superficial, é 2𝜋𝑅𝜎. Esta força precisa
ser balanceada pela diferença de pressão ∆𝑝, (entre a pressão interna, 𝑝𝑖 , e a externa,
𝑝𝑒 ) que atua sobre a área 𝜋𝑅 2 . Assim,

2𝜋𝑅𝜎 = ∆𝑝𝜋𝑅 2

Ou

2𝜎
∆𝑝 = 𝑝𝑖 − 𝑝𝑒 =
𝑅

Este resultado mostra que a pressão interna da gota é maior do que a pressão no meio
que envolve a gota.

Um dos fenómenos associados com a tensão superficial é a subida (ou queda) de um


líquido num tubo capilar. Se um tubo com um diâmetro pequeno e aberto é inserido na
água, o nível da água

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