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Stress e Locus de Controle no Transtorno do Pânico

O estudo investiga o nível de estresse e a percepção de controle em pacientes com transtorno do pânico em comparação a indivíduos sem distúrbios psiquiátricos. A pesquisa revelou que os pacientes com transtorno do pânico apresentaram maior suscetibilidade ao estresse e uma percepção de controle mais externa, indicando uma relação entre estresse e a dificuldade de enfrentar novas situações. Os resultados sugerem que a comorbidade com agorafobia está associada a indicadores de estresse e controle sobre eventos.

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Stress e Locus de Controle no Transtorno do Pânico

O estudo investiga o nível de estresse e a percepção de controle em pacientes com transtorno do pânico em comparação a indivíduos sem distúrbios psiquiátricos. A pesquisa revelou que os pacientes com transtorno do pânico apresentaram maior suscetibilidade ao estresse e uma percepção de controle mais externa, indicando uma relação entre estresse e a dificuldade de enfrentar novas situações. Os resultados sugerem que a comorbidade com agorafobia está associada a indicadores de estresse e controle sobre eventos.

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Estudos de Psicologia (Campinas)

Print ISSN 0103-166X

Estud. psicol. (Campinas) vol.22 no.3 Campinas July/Sept. 2005

doi: 10.1590/S0103-166X2005000300002

ARTIGOS

Transtorno do pânico: nível de stress e


locus de controle

Panic disorder: stress level and locus of control

Sílvia Helena Tenan MagalhãoesI; Sonia Regina LoureiroII

I
Doutoranda, Programa de Pós-Graduação em Saúde Mental,
Departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia Médica,
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São
Paulo. Av. Bandeirantes, 3900, 14049-900, Monte Alegre,
Ribeirão Preto, SP, Brasil. Correspondência para/Correspondence
to: S.H.T. MAGALHÃES. E-mail: <silviatenan@[Link]>
II
Departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia Médica,
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São
Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo caracterizar o nível de stress e


a percepção de controle sobre os eventos do meio em pacientes
com transtorno do pânico em comparação a sujeitos sem
distúrbio psiquiátrico. Procedeu-se à avaliação de 30 pessoas
adultas divididas em dois grupos, um com diagnóstico de
transtorno do pânico e outro sem diagnóstico psiquiátrico
avaliado sistematicamente. Os participantes foram avaliados
individualmente através do Inventário de Sintomas de Stress de
Lipp e da Escala de Locus de Controle de Levenson. A
comparação estatística apontou que o grupo com transtorno do
pânico apresentou mais indicadores de stress com predomínio
da fase de resistência e a percepção de ser controlado pelo
acaso, sorte ou destino, caracterizando maior suscetibilidade ao
stress e à baixa confiança na previsibilidade dos eventos.
Palavras-chave:ansiedade; escala de controle interno externo;
inventário de stress de Lipp; stress; transtorno do pânico.

ABSTRACT

This study purpose is to define the stress level and the external
events control notion in patients with panic disorder in
comparison to subjects with no psychiatric disturbs. The sample
was composed by 30 adults divided in two groups, one group
with diagnosis of panic disorder and the other without
psychiatric diagnosis, all of them systematically evaluated. The
participants were evaluated individually through the Lipp Stress
Symptoms Inventory and the Levenson Scale of Locus of Control.
The statistical comparison has shown that the group with panic
disorder presented more stress indicators with predominance of
the resistance phase, and control perception more susceptibility
for stress and low confidence in events prediction ability as they
believe in chance, luck or fate determination.

Key words: anxiety; internal external locus of control; Lipp's


stress inventory; stress; panic disorder.

O transtorno do pânico (TP) é descrito pela CID-10 (1993) como


um quadro clínico caracterizado por ataques recorrentes de
ansiedade grave, imprevisíveis e irrestritos a qualquer situação
ou circunstâncias particulares. De início súbito, caracteriza-se
pela apresentação de sinais físicos como palpitação, dor no
peito, sensações de choque e tontura concomitantes à presença
de sintomas psicológicos de medo secundário de morrer, de
perder o controle ou ficar louco.

De acordo com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental


Disorders (DSM-IV) (1994), o diagnóstico do TP deve ser
estabelecido a partir de três condições: ataques recorrentes e
inesperados; após um ataque, há um período de
aproximadamente um mês durante o qual o paciente refere
preocupação persistente com a possibilidade de novos ataques;
e mudança significativa de comportamento.

Os dados epidemiológicos apontam para uma prevalência no


período de vida de aproximadamente 1,5% a 2,0% da população
geral; a proporção entre os sexos é de aproximadamente duas
mulheres para um homem, ocorrendo mais freqüentemente na
idade adulta jovem, por volta dos 25 anos de idade (Kaplan &
Sadock, 1997).

O TP caracteriza-se, ainda, por ser um quadro clínico no qual são


observados elevados níveis de comorbidade que interferem na
evolução do transtorno (Hirschfeld, 1996; Gorman & Coplan,
1996; Nascimento, 1998). Hirschfeld (1996) chama a atenção
para o fato de que a freqüência de recaídas no TP tem sido
considerada maior quando ocorre a associação a outro quadro
clínico, e aponta, como um exemplo comum de comorbidade, o
desenvolvimento da agorafobia, que se caracteriza pelo
comportamento de esquiva de situações públicas pelo receio de
afastar-se de casa ou de pessoas que forneçam segurança,
favorecendo a cronicidade das manifestações (Lima, Lima &
Mari, 1997).

Gentil, Lotufo-Neto e Bernik, (1997), ao descreverem o TP,


referem que podem ocorrer limitações para as atividades sociais
e profissionais e para a auto-imagem do paciente, além de
sintomas depressivos e sensação de desmoralização por não
conseguirem explicações para os seus sintomas, gerando
sensação de dissonância cognitiva.

Em estudo e que descreve as contribuições de fatores internos e


externos no desencadeamento do stress emocional, Lipp (1996)
aponta a dissonância cognitiva como uma fonte de tensão
interna que pode interferir na capacidade adaptativa dos
sujeitos que a experimentam. Refere que os transtornos de
ansiedade podem ser fonte de stress porque o ser humano
ansioso possui a tendência de ver o mundo de modo
ameaçador.

Nesse sentido, o TP pode ser considerado uma doença


psicofisiológica que tem o stress como um fator contribuinte ou
desencadeador. Peregrino (1997) explica a ansiedade e os
transtornos de ansiedade com base nos pressupostos de Hans
Selye, que defende a idéia de que quando o stress ultrapassa,
por sua intensidade ou duração, as capacidades homeostáticas
do organismo, ocorre uma ruptura na adaptação do organismo,
conduzindo à doença, sendo a ansiedade um componente
psicológico da reação ao stress.

Sob essa perspectiva, e considerando que no TP a ansiedade é a


manifestação central, pode-se hipotetizar que ao avaliar o nível
de stress desses pacientes, está se caracterizando uma
manifestação atual e transitória de seu funcionamento
psicológico.

Lipp (2000) destaca que a inadequação na avaliação dos


eventos da vida assim como expectativas ilógicas e exageradas
caracterizam-se como indicadores de vulnerabilidade ao stress.
Sob esse ponto de vista, considera-se que a expectativa de
controle, como um elemento de enfrentamento das situações,
pode ser também um indicador de capacidade adaptativa. Del
Ben (2000), em estudo empírico no qual avaliou a resposta de
pacientes com TP submetidos a dois modelos experimentais de
ansiedade, observou que os pacientes com TP apresentaram um
nível de ansiedade antecipatória mais elevado do que o
observado nos controles, além de uma hiper-responsividade aos
estímulos incondicionados. Esses dados caracterizam uma
vulnerabilidade dos pacientes com TP diante do enfrentamento
de situações novas. Tal dado sugere a necessidade de se
avaliar, nesses pacientes, a expectativa de controle sobre os
eventos do meio como um indicador de capacidade adaptativa.
Dentre as variáveis relacionadas a esse constructo, situa-se o
locus de controle, que se relaciona com a percepção das
pessoas sobre a fonte de controle dos acontecimentos em que
estão envolvidas (Dela Coleta, 1987). Ao estudar a percepção de
controle sobre os eventos do meio em pacientes com
transtornos de ansiedade, Rapee (1996) concluiu que eles
tendem a atribuir o controle dos acontecimentos de suas vidas a
causas externas. Pode-se hipotetizar que os pacientes com TP,
tendo dificuldade de enfrentar situações novas, possivelmente
tenham dificuldades de atribuir a si o controle sobre os eventos
do meio.

O objetivo deste estudo é caracterizar o nível de stress e a


percepção de controle sobre os eventos do meio em pacientes
com TP, em comparação a sujeitos sem distúrbio psiquiátrico.
Analisou-se, ainda: a) se a comorbidade com agorafobia estava
associada a peculiaridades quanto à presença de indicadores de
stress e à dimensão de controle sobre os eventos do meio; b) se
a exposição de sujeitos do grupo de comparação sem distúrbio
psiquiátrico a um cotidiano de trabalho estressor favoreceu
manifestações de ansiedade expressa por indicadores de stress
e de locus de controle.

Método

O presente estudo foi apreciado e aprovado pela Comissão de


Ética Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. A participação
mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido foi voluntária, sendo garantida a não identificação
dos participantes, bem como o caráter confidencial das
informações e o atendimento na instituição independente da
participação.

A amostra foi composta por trinta pessoas adultas divididas em


dois grupos de quinze participantes, sendo um grupo com
diagnóstico clínico de TP em atendimento em um ambulatório
especializado de um hospital-escola e outro grupo de
comparação com quinze sujeitos sem diagnóstico psiquiátrico e
sistematicamente avaliados.

O critério para a inclusão no grupo de TP envolveu a avaliação


através da Entrevista Clínica Estruturada (Structured Clinical
Interview Diagnostic -SCID) para o DSM-III-R. Todos os sujeitos
passaram pelo Módulo de Revisão Geral e pelo Módulo de
Distúrbios de Ansiedade, adaptado segundo os critérios
diagnósticos para TP do DSM-IV. Após confirmação diagnóstica,
foram aplicados os demais módulos da SCID para a exclusão de
comorbidades, sendo encaminhados para compor a amostra os
sujeitos com diagnóstico de TP, aceitando-se apenas a
comorbidade com agorafobia.

Os participantes do grupo de comparação passaram pelo


mesmo procedimento de avaliação através da SCID, com o
objetivo de sistematicamente avaliar a ausência de distúrbio
psiquiátrico, como condição para a inclusão nesse grupo.
Dentre os 15 participantes do grupo de TP encaminhados para
avaliação, oito apresentavam agorafobia como comorbidade e
sete apresentavam diagnóstico exclusivo de TP. O tempo de
doença relatado variou de três a 48 meses, podendo-se
observar que os sujeitos com agorafobia como comorbidade
apresentavam tempo de doença maior.

Ambos os grupos foram compostos por sete participantes do


sexo masculino e oito do sexo feminino, com média de idade de
31 anos. Quanto à atividade profissional exercida pelos
participantes, o grupo de TP apresentou certa heterogeneidade,
havendo desde estudantes até profissionais liberais. Já no grupo
de comparação, a maioria dos participantes tinha atividades
profissionais ligadas à área da saúde desenvolvidas em unidade
de um hospital-escola do interior de São Paulo. Quanto ao grau
de instrução, a média apresentada pelos dois grupos foi de onze
anos cursados, o que mostra que a maioria das pessoas
avaliadas tem segundo grau completo.

Visando à comparação dos grupos, aplicou-se o teste não


paramétrico de Mann-Whitney (p<0,05) para a análise das
variáveis idade e grau de instrução, não tendo sido observadas
diferenças significativas entre os grupos.

Foram utilizados dois instrumentos de avaliação, o inventário de


sintomas de stress de Lipp (ISSL) e a escala de locus de controle
de Levenson.

O ISSL objetiva a identificação das manifestações de stress,


avaliando a presença dos sintomas, a predominância do tipo de
sintoma - somático ou psicológico - e a fase de stress em que o
indivíduo se encontra (alerta, resistência, quase exaustão e
exaustão), utilizando-se para a comparação os padrões de
validação e padronização de Lipp (2000).

A escala de locus de controle de Levenson se propõe a avaliar a


percepção das pessoas sobre a fonte de controle dos
acontecimentos em que estão envolvidas. Avalia três dimensões
de controle: subescala internalidade, que avalia o grau em que o
sujeito acredita que mantém controle sobre sua vida, subescala
externalidade - outros poderosos, que mede a percepção de o
controle estar nas mãos de pessoas poderosas e a subescala
externalidade - acaso, que avalia a percepção de ser controlado
pelo acaso, sorte ou destino, padronizada para o Brasil por Dela
Coleta (1987).

Procedimento

Os participantes foram avaliados individualmente, em uma única


sessão, sendo os instrumentos aplicados segundo as
recomendações técnicas após breve rapport na seguinte ordem:
entrevista abordando aspectos relativos à qualidade de vida e a
atividades sociais e profissionais; ISSL e Escala de Locus de
Controle de Levenson.

Quanto ao Inventário de Sintomas de Stress de Lipp (ISSL), os


dados foram comparados às normas de Lipp (2000) com o
objetivo de identificar a presença de indicadores de stress e,
quando da confirmação desses, buscou-se identificar a fase de
stress correspondente e o predomínio de sintomas físicos e/ou
psicológicos.

No que se refere à escala de Locus de Controle de Levenson, os


dados foram quantificados e comparados ao grupo de
padronização de Dela Coleta (1987) com o objetivo de identificar
para cada um dos grupos o tipo de percepção de controle sobre
os acontecimentos do meio.

O grupo de TP (GTP) e o grupo de comparação (GC) foram


comparados entre si. Posteriormente procedeu-se às seguintes
comparações: a) subgrupo com TP mais agorafobia (GTP c/Agor)
ao subgrupo de TP sem agorafobia (GTP s/Agor); b) subgrupo do
grupo de comparação que desenvolve suas atividades
profissionais em ambiente de reconhecido stress, que será
nomeado GC-UE, ao subgrupo que não desenvolve atividades
profissionais em ambiente estressor e que será chamado GC-
ñUE.

Para verificar se havia diferença significativa entre os grupos,


aplicou-se o método de intervalo de confiança entre proporções
(p<0,05) para o ISSL e o teste não paramétrico de Mann-
Whitney (p<0,05) para a Escala de Locus de Controle de
Levenson.

Resultados

Os resultados obtidos serão apresentados na seguinte ordem:


Inventário de Sintomas de Stress e Escala de locus de Controle.

Inventário de Sintomas de Stress de Lipp

Quanto à presença de stress, nota-se que no GTP 100% dos


participantes apresentaram indicadores de stress, 7% na fase de
alerta e 93% na fase de resistência. No GC os indicadores de
stress estiveram presentes em 40% dos sujeitos, todos na fase
de resistência, e ausente em 60%, havendo diferença
significativa entre os grupos quanto à ausência de stress (Tabela
1). Nota-se que tanto no GTP quanto no GC, a grande maioria
dos participantes que apresentaram indicadores de stress
encontrava-se na fase de resistência. Nenhum dos participantes
dos dois grupos preencheu critérios para a inclusão nas fases de
quase exaustão e exaustão.
No GTP 80% dos participantes que preencheram critérios para
indicadores de stress apresentaram sintomatologia psicológica e
20% sintomatologia física. No GC 100% dos participantes
apresentaram sintomatologia psicológica.

No GTP c/Agor 100% dos participantes apresentaram


indicadores de stress, todos na fase de resistência. No GTP
s/Agor todos os participantes apresentaram indicadores de
stress, 14% na fase de alerta e 86% na de resistência. Nenhum
dos participantes dos dois subgrupos preencheram critérios para
a inclusão nas fases de quase exaustão e exaustão total. No GTP
c/Agor 75% dos participantes que preencheram critério para a
presença de stress apresentaram sintomatologia psicológica e
25% sintomatologia física. No GP s/Agor 57% dos participantes
apresentaram sintomatologia psicológica e 43% sintomatologia
física. Nota-se diferença significativa entre os grupos, ocorrendo
predomínio da sintomatologia psicológica no GTP c/Agor (Tabela
2).
No GC-UE 50% apresentaram indicadores de stress, todos na
fase de resistência enquanto 50% não apresentaram indicadores
de stress. No GC-ñUE 20% dos participantes apresentaram
indicadores de stress, todos na fase de resistência e 80% não
apresentaram indicadores de stress, observando-se diferença
significativa entre os subgrupos. Nenhum dos participantes dos
dois subgrupos preencheu critérios para a inclusão nas fases de
alerta, quase exaustão e exaustão total (Tabela 3).
No GC-UE 100% dos participantes que preencheram critérios
para a presença de stress apresentaram sintomatologia
psicológica. No GC-ñUE 100% dos participantes apresentaram
sintomatologia física, observando-se diferença significativa entre
os grupos (Tabela 3). É importante considerar que o GC-ñUE que
preencheu critérios para a presença de stress é composto por
apenas um participante, limitando a possibilidade de
generalização.

Escala de Locus de Controle de Levenson

Na comparação com os dados normativos, os grupos com TP e


subgrupos incluídos não se diferenciaram significativamente
quanto às subescalas externalidade e internalidade, o mesmo
ocorreu na comparação do GC e subgrupos entre si. Na
subescala C (externalidade-acaso), os sujeitos do GTP
apresentaram média significativamente superior a do GC, dentro
do esperado, porém, quando comparada ao grupo de
padronização (Tabela 4).

Discussão

Os aspectos funcionais da personalidade dos sujeitos com TP


puderam ser avaliados através da presença de indicadores de
stress e da avaliação da percepção de controle sobre os eventos
do meio.

Todos os sujeitos com TP avaliados apresentaram indicadores de


stress. Esse dado vai ao encontro da afirmação de Lipp (1996)
de que os transtornos de ansiedade podem assumir a função de
geradores de estados tensionais, sendo importantes
desencadeadores de stress, podendo ser originados de muitas
situações diárias que são chamadas de estressores e que
causam uma quebra na homeostase interna, exigindo alguma
adaptação. Pode-se pensar que as características de
imprevisibilidade do quadro clínico do TP favoreçam a presença
de maior suscetibilidade ao stress, visto que há uma
preocupação constante com a possibilidade de novos ataques, o
que pode funcionar como um fator estressor interferindo na
capacidade de enfrentamento de situações novas.

A fase de stress predominante foi a fase de resistência, na qual,


segundo Lipp (1996), devido à exposição contínua e por tempo
indeterminado ao stress, o indivíduo tenta uma adaptação em
busca da homeostase interna. Possivelmente a exposição aos
ataques de ansiedade do TP funcione como importante fator
estressor, expondo o paciente à necessidade constante de
adaptação, característica da fase de resistência.

Em relação à percepção de controle sobre os eventos do meio,


os sujeitos com TP apresentaram uma percepção de serem
controlados pelo acaso, sorte ou destino. Novamente, esse fator
pode estar relacionado diretamente à característica de
imprevisibilidade dos ataques de pânico, que ocorrem ao acaso
independentemente da situação, e ainda ao elevado nível de
ansiedade antecipatória e de hiper-responsividade a estímulos
incondicionados, conforme relatado por Del Ben (2000).

Os dados do presente estudo vão ao encontro dos achados de


Rapee (1996), que avaliou a percepção de controle sobre os
eventos do meio em pacientes com transtorno de ansiedade e
sem indicadores de distúrbio psiquiátrico, concluindo que nos
sujeitos com transtornos de ansiedade observa-se baixa
percepção de que podem controlar os acontecimentos de suas
vidas, atribuindo esse controle a causas externas. O referido
autor considera que essa forma de percepção de controle
predispõe ao desenvolvimento de transtornos de ansiedade,
incluindo o TP.

No presente estudo, os pacientes com TP sem comorbidade


apresentavam uma história de doença mais recente, referindo
poucos prejuízos atribuídos à doença na qualidade de vida e nas
atividades profissionais e sociais. Já os pacientes com TP com
agorafobia apresentavam uma história de doença de mais longo
tempo, envolvendo queixas orgânicas prévias que foram objeto
de tratamento clínico, porém, sem sucesso, apresentando
ataques de pânico recorrentes e um elevado índice de recaídas.
Lima et al. (1997), ao tratarem da epidemiologia dos transtornos
de ansiedade, afirmam que a presença de comorbidade com
agorafobia ou outro transtorno psiquiátrico no TP é um indicador
de complicação e gravidade do quadro clínico.

Os pacientes com TP com agorafobia incluídos no estudo


referiram nas entrevistas maior comprometimento da qualidade
de vida em função da evitação de situações sociais, embora com
a manutenção das atividades profissionais. Relatavam que tal
medida estava associada ao medo da ocorrência dos ataques de
pânico em situações públicas, tendendo a se restringir ao
ambiente familiar e ao local de trabalho como forma explicitada
de autoproteção. Lima et al. (1997), em um artigo no qual
descrevem o curso do TP, apontam que nesse quadro clínico a
condição é persistente e freqüentemente associada com
significativa incapacidade social, levando ao empobrecimento
da qualidade de vida.

No presente estudo, a associação do TP à agorafobia mostrou-se


relacionada a um maior prejuízo da qualidade de vida. Esse
dado vai ao encontro dos achados de Pollack e Smoller (1995),
que, ao estudarem o curso e desenvolvimento do TP,
observaram que tal associação está relacionada a
características de cronicidade e a um maior prejuízo da
qualidade de vida dos pacientes.

Questionou-se, assim, se a presença de comorbidade


diferenciou os grupos quanto aos indicadores de stress e da
dimensão de controle sobre os eventos do meio. Para verificar
tal hipótese, procedeu-se à comparação dos resultados dos
sujeitos com TP com agorafobia com os daqueles sem
comorbidade ao GC.

Quanto aos indicadores de stress, não se observou diferença


entre o GTP c/Agor. e o GTP s/Agor: ambos apresentaram
elevados níveis de stress, com predomínio da fase de resistência
e da sintomatologia psicológica.

Em relação à percepção de controle sobre os eventos do meio,


os sujeitos com TP com e sem agorafobia apresentaram uma
percepção de serem controlados pelo acaso, sorte ou destino.
Novamente, esse fator pode estar relacionado diretamente com
a característica de imprevisibilidade dos ataques de pânico que
ocorrem ao acaso independentemente da situação, o que faz
com que os pacientes com TP não consigam atribuir a si a
capacidade de controle dos ataques, podendo-se supor que tal
dificuldade se generalize aos demais acontecimentos da vida, o
que dá a esse quadro clínico uma característica de
vulnerabilidade e de constante exposição ao stress.

Os aspectos funcionais da personalidade dos pacientes com TP,


relativos à presença de stress e à percepção de controle sobre
os eventos do meio com base no acaso, parecem relacionados
às características clínicas do quadro, não sofrendo interferência
direta da comorbidade com agorafobia.

Outro ponto a ser discutido diz respeito ao GC e ao


enfrentamento de situações de stress. Dez dos quinze sujeitos
incluídos no GC desenvolviam atividades profissionais junto à
equipe de enfermagem de uma unidade de emergência de um
hospital universitário que funciona como pronto-socorro. O
trabalho em unidades de emergência é reconhecido como
estressante e os participantes relataram que nesse ambiente de
trabalho experimentam intenso stress e ansiedade, visto se
tratar de um hospital universitário ligado ao Sistema Único de
Saúde (SUS), onde são atendidos casos terciários de alta
complexidade, havendo alta rotatividade de pacientes, o que dá
ao trabalho uma característica de imprevisibilidade. Os demais
participantes do GC não referiam o ambiente de trabalho como
tendo características estressoras ou ansiogênicas.

Questionou-se se o fato de a maioria dos sujeitos do GC estarem


expostos a um ambiente estressor favorecedor de ansiedade
poderia ter interferido nos resultados, já que se supõe que essas
pessoas estejam mais sujeitas a experimentar vivências de
ansiedade. Para verificar tal hipótese, procedeu-se à
comparação do GC-UE ao GTP e ao GC-ñUE.

Quanto ao nível de stress, observou-se diferença entre os


grupos. Tanto o GC-UE quanto o GC-ñUE apresentaram níveis de
stress mais baixos quando comparados ao GTP. Quanto à
dimensão de controle sobre os eventos do meio, GC-UE
apresentou uma percepção de controle baseada na
internalidade, atribuindo a si capacidade para lidar com os
eventos. Já o GTP atribuiu o controle à sorte, acaso ou destino.
Possivelmente, a atribuição de controle a si próprio faça com
que o sujeito exposto a um ambiente de trabalho estressor
desenvolva recursos internos e externos para lidar com a
situação, diminuindo suas características de imprevisibilidade.

Os sujeitos com TP, quando comparados ao GC, apresentaram


maior suscetibilidade ao stress, com indicadores de uma
exposição contínua a ele possivelmente caracterizada pela
imprevisibilidade do quadro clínico. A baixa confiança na
previsibilidade dos eventos relacionada à atribuição de controle
ao acaso ou destino caracteriza uma dificuldade em lidar com os
eventos do meio, sentindo cada situação como nova e
ansiogênica.

A comparação a um grupo de sujeitos expostos a um ambiente


de trabalho com características estressoras possibilitou verificar
que a capacidade de enfrentamento das situações de stress
favorece uma adaptação ao ambiente estressor. Esse dado vai
ao encontro da afirmação de Lipp (2001, p.2): "o stress pode ser
gerado por fontes externas que marcam presença na vida de
uma pessoa e pelo seu mundo interior, cujos efeitos são
mediados pelas estratégias de enfrentamento aprendidas
principalmente na infância, mas que também podem ser
adquiridas ao longo da história de vida do ser humano".

Pode-se considerar que o TP com suas características de


imprevisibilidade interfira no funcionamento psicológico dos
pacientes, fazendo com que experimentem dificuldade em lidar
com as situações de stress, requerendo para tal a aprendizagem
de estratégias de enfrentamento que favoreçam a retomada do
equilíbrio interno.

Faz-se necessário considerar que se trata de um estudo


exploratório, com um pequeno número de sujeitos. Contudo, o
delineamento adotado permitiu caracterizar as manifestações
de stress e a dimensão de controle sobre os eventos do meio
associadas ao TP, requerendo novos estudos com amostras
maiores de forma a ampliar a possibilidade de generalização de
tais achados.

Referências

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Controle de Levenson. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 39 (2),
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Recebido para publicação em 23 de abril de 2004 e aceito em


23 de abril de 2005.

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