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Rural Brasileiro no Século XXI: Desafios e Perspectivas

O livro 'O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI', organizado por Sergio Pereira Leite e Regina Bruno, reúne uma coletânea de estudos que exploram a complexidade do rural brasileiro, abordando identidades, mobilizações sociais e políticas públicas. A obra celebra os 40 anos do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ, destacando a importância de uma abordagem interdisciplinar. Os capítulos discutem desde a historicidade dos sistemas agrícolas até os desafios contemporâneos enfrentados no campo.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Rural Brasileiro no Século XXI: Desafios e Perspectivas

O livro 'O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI', organizado por Sergio Pereira Leite e Regina Bruno, reúne uma coletânea de estudos que exploram a complexidade do rural brasileiro, abordando identidades, mobilizações sociais e políticas públicas. A obra celebra os 40 anos do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ, destacando a importância de uma abordagem interdisciplinar. Os capítulos discutem desde a historicidade dos sistemas agrícolas até os desafios contemporâneos enfrentados no campo.
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O Rural

Brasileiro
na Perspectiva
do Século
XXI
Sergio Pereira Leite
Regina Bruno
ORGANIZADORES

2019
CONSELHO EDITORIAL
Bertha K. Becker (in memoriam)
Candido Mendes
Cristovam Buarque
Ignacy Sachs
Jurandir Freire Costa
Ladislau Dowbor
Pierre Salama
O Rural
Brasileiro
na Perspectiva
do Século
XXI
Sergio Pereira Leite
Regina Bruno
ORGANIZADORES

2019
Copyright © dos autores

Direitos cedidos para esta edição à


Editora Garamond Ltda.
Caixa Postal: 40.854
CEP 20261-970 – Rio de Janeiro – Brasil
Tel: (21) 2504-9211
editora@[Link]
[Link]

Revisão Alberto Almeida


Capa Estúdio Garamond
Projeto gráfico Wanderson Fernandes

Dados Internacionais de Catalogação na


Publicação (CIP) de acordo com ISBD

R948

O rural brasileiro na perspectiva do século XXI / organizado por Sergio Pereira Leite, Regina
Bruno. - Rio de Janeiro, RJ : Garamond, 2019.
372 p. : il. ; 16cm x 23cm.
Inclui bibliografia e anexo.

ISBN: 978-85-7617-486-8

1. Rural. 2. Agricultura brasileira. 3. Século XXI. 4. Políticas territoriais. I. Leite, Sergio Pereira.
II. Bruno, Regina. III. Título.

2019-1810 CDD 338.98142


CDU 332.1(81)

Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410

Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, por


qualquer meio, seja total ou parcial, constitui violação da Lei nº 9.610/98.
Essa coletânea
é dedicada à memória de
Héctor Alimonda.
SUMÁRIO

Prefácio
Maria de Nazareth Bwaudel Wanderley ................................................................................... 9
Apresentação
Sergio Pereira Leite, Regina Bruno ........................................................................................... 13

I. POR UMA COMPREENSÃO ABRANGENTE DO RURAL BRASILEIRO


Identidades rurais, natureza, multiplicidades e subalternias
Roberto José Moreira ..................................................................................................................... 21
Tipologias e significados do “rural”: uma leitura crítica
Maria José Carneiro, Laila Sandroni ...................................................................................... 43
Apontamentos sobre a historicidade do sistemas agrícolas latino-americanos
Hector Alimonda ........................................................................................................................... 59
Messianismo e mudança social no mundo rural
Dora Vianna Vasconcellos ............................................................................................................ 71
Um olhar sobre a “Marcha para o Oeste”: Amazônia
Eli Napoleão de Lima ................................................................................................................... 87

II. ATORES, REDES, MOBILIZAÇÕES E NOVOS CONFLITOS NO CAMPO


Movimentos sociais, questões fundiárias e mediações jurídicas: apontamentos
sobre as relações entre o Direito e os conflitos sociais
Leonilde Servolo de Medeiros ................................................................................................... 107
O discurso de Roberto Rodrigues na Agroanalysis e o paradoxo do Governo Lula
Débora F. Lerrer ........................................................................................................................... 129
A humilhação como recurso de poder: empregadores e trabalhadores rurais
escravizados no Brasil contemporâneo
Regina Bruno .................................................................................................... 151
Entre perigos, legitimações e uso seguro: o cotidiano das práticas de utilização
de agrotóxicos por agricultores familiares na região de Barbacena – MG
Helena Rodrigues Lopes, Claudia Job Schmitt ................................................................... 167
Redes agroalimentares alternativas no Brasil
Fátima Portilho, Ísis Leite Ferreira ........................................................................................ 189
Desafios para os BRICS: multipolaridade, nova arquitetura econômica
internacional e sustentabilidade ambiental
Jorge O. Romano, Gerardo Cerdas Vega ............................................................................... 205

III. POLÍTICAS PÚBLICAS EM QUESTÃO


Entre a concepção e a implementação das políticas territoriais no Brasil:
ideias, interesses e instituições na governança multinível
Catia Grisa, Nelson G. Delgado ............................................................................................. 227
Gestão territorial e desenvolvimento: análise comparativa de políticas
territoriais na Amazônia
Thereza Cristina Cardoso Menezes ........................................................................................ 249
A experiência da Petrobras Biocombustível no Semiárido brasileiro e os
desafios do desenvolvimento inclusivo
Georges Flexor, Karina Yoshie Martins Kato,
Nelson Giordano Delgado, Sergio Pereira Leite .................................................................. 269
O “ICMS Ecológico” – equidade social e eficácia ambiental das
transferências fiscais no Noroeste de Mato Grosso
Peter H. May, Maria Fernanda Gebara, Guilherme Lima,
Carolina Jordão, Pedro Nogueira, Maryanne Grieg-Gran .............................................. 297
Revolução, reformas e políticas públicas
Raimundo Santos ........................................................................................................................ 319
Conflitos intra-burocráticos e agência dos indivíduos: a construção política
dos adidos agrícolas
Ricardo Dias da Silva, Jorge O. Romano ............................................................................. 343
Sobre os autores
........................................................................................................................................................... 363
PREFÁCIO
Maria de Nazareth Bwaudel Wanderley

M inhas primeiras palavras são de felicitações a todos os que fazem o CPDA,


pela festa dos 40 anos. Data importante, na vida das pessoas e das institui-
ções, que marca a maturidade e a consolidação de um projeto. Pessoalmente, nunca
fiz parte do CPDA, mas confesso que me sinto intelectualmente e afetivamente
estreitamente ligada a essa equipe, com a qual compartilhei momentos fortes e pro-
fundos de seu percurso acadêmico.
Considero o CPDA um dos melhores programas de Pós-Graduação do País,
dedicado aos estudos rurais, dentre tantos e tão bons que existem, em quase todas as
universidades brasileiras. E para justificar essa avaliação enumero as que considero
grandes qualidades que desenham o seu perfil institucional.
Para começar, o caráter interdisciplinar. Não deve ter sido fácil para o CPDA
tanto quanto para outros programas que assumem a mesma proposta, afirmar-se
nesse campo da interdisciplinaridade, enfrentando a tradição disciplinar da pós-gra-
duação brasileira e fazendo emergir, passo a passo, uma outra concepção da produ-
ção científica. Que se compreenda bem: a interdisciplinaridade não é de nenhum
modo a negação das disciplinas. Cada uma dessas tem seu objeto e sua forma de
estudá-lo. Ninguém abre mão disso. Porém, a perspectiva interdisciplinar, longe de
negar as especificidades das disciplinas, as supõe. É que o seu fundamento é a cons-
trução do diálogo entre elas. E o retorno à disciplina é sempre original e inovador.
Grande desafio que, certamente, foi também difícil para o CPDA. No entanto, os
resultados do trabalho realizado, ao longo desses 40 anos, hoje visíveis e reconheci-
dos, a exemplo do livro que está sendo agora lançado, comprovam que o caminho
escolhido foi bom.
Para que o campo interdisciplinar possa florescer é necessário que ele se cons-
trua em torno de uma problemática. O CPDA está focado, desde o início, nos
estudos rurais, procurando, através da produção de conhecimentos e da formação
de pesquisadores, contribuir para a compreensão da complexidade do mundo ru-
ral, como parte estruturante indispensável da sociedade brasileira. Objeto denso e
extenso, que supõe suas transformações ao longo da História e sua diversidade es-
pacial. Tempo e espaço que se encontram no patamar da atualidade, iluminando-a,

O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI | 9


atualidade que se refere, antes de tudo, ao “rural” enquanto uma questão colocada
para a sociedade, a questão agrária.
Não teria condições de apresentar, nesse pequeno texto, a enorme contribui-
ção do CPDA à pesquisa sobre o mundo rural. Mas, aprecio de modo particular,
nesse tratamento do agrário enquanto questão, a postura científica, cujo lastro é
dado pelas pesquisas rigorosamente realizadas, o espírito crítico, que descarta como
inapropriadas as referências ideológicas escusas e comprometedoras, o olhar voltado
para os atores sociais e os seus movimentos organizados, que constroem esse mundo
rural e a coragem de revelar o quanto de injustiças, desigualdades, degradações e não
reconhecimento permeiam as relações sociais que fazem do mundo rural brasileiro
o que ele é e que explicam o lugar que lhe é atribuído na sociedade. Não são outros
os fios condutores que organizam o livro aqui apresentado: ruralidade: história e re-
alidade atual; atores sociais: identidades, redes, conflitos, representações e discursos;
territórios e globalização. São os temas recorrentes que, surpreendentemente, dão
conta não só dos debates atuais, mas daqueles que construíram o pensamento social
gerado no CPDA.
Acrescento duas outras qualidades para compreender o espraiamento da in-
fluência do CPDA. Em primeiro lugar, sua dimensão nacional. A começar pelos
alunos, que vêm de todas as partes do País (sem contar os que vêm do exterior).
Não tenho dúvidas que eles encontram na Presidente Vargas não só uma resposta
para seus estudos locais, mas, igualmente, a síntese necessária, que permite com-
preendê-los, enquanto parte de uma questão mais ampla, pertencente ao Brasil. A
essa formação de pesquisadores soma-se a contribuição direta ao debate nacional.
Apenas como exemplo, lembro os estudos realizados nos anos 1970, que ficaram
conhecidos como os textos da BINAGRI, sobre a agricultura brasileira, e o mais re-
cente, sobre os impactos dos assentamentos da reforma agrária. Mais uma vez, o que
emerge é uma leitura de síntese, capaz de articular e dar sentido às particularidades
temporais e locais.
Em segundo lugar, sua experiência de cooperação com os demais centros univer-
sitários brasileiros. A esse respeito, a primeira ideia que me vem ao espírito é o papel
central que o CPDA assumiu na fundação e consolidação do Projeto PIPSA, desde
os anos 1970. O Horto, onde funcionava inicialmente o CPDA, que muitas vezes
era assim reconhecido, era o lugar do encontro de todos os que, desde então, se inte-
ressavam pelos estudos rurais. Criou-se, assim, uma trama intelectual – mas também
quanto afetiva! – que reforçou a legitimidade acadêmica desse campo específico, que
já então era minimizado por aqueles que veem o Brasil inteiro através das cidades e o
rural inteiro através dos latifúndios. Alguém tem que escrever essa história.
Cooperação, diga-se de passagem, que não se esgota nas relações acadêmicas.
Penso aqui, principalmente, na participação de pesquisadores do CPDA nas pesqui-

10 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


sas realizadas pelo IICA, sobre a ruralidade contemporânea, na sua presença mar-
cante na formação de um pensamento social sobre o meio rural, através dos diálogos
com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, em particular em anos recentes e
na sua contribuição inquestionável junto às instituições nacionais responsáveis pela
segurança e soberania alimentares.
Cooperação que ultrapassa, igualmente, as fronteiras brasileiras para aprofun-
dar o diálogo com pesquisadores de outros países, de modo especial, na América
Latina, na África e na Europa.
Desejando a todos uma leitura agradável e proveitosa, gostaria de participar da
comemoração do aniversário do CPDA, transcrevendo o “parabéns”, bem brasilei-
ro, de autoria de Manuel Bandeira e Heitor Villa-Lobos, que vale também para as
instituições que admiramos.

Saudamos o grande dia


Em que hoje comemoras
Seja a casa onde mora
A morada da alegria
O refúgio da ventura
Feliz Aniversário.

Recife, novembro de 2016.

O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI | 11


APRESENTAÇÃO
Sergio Pereira Leite
Regina Bruno

E sta coletânea institucional faz parte das comemorações dos 40 anos do Programa
de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Socie-
dade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ), comemora-
dos em 2016 e 2017, reunindo, para tanto, uma série de capítulos de docentes, muitos
deles em parceria com orientandos discentes, ex-discentes e colaboradores.
A ideia é dar visibilidade e trazer para reflexão uma produção ainda inédita e
qualificada da casa, resultado de atividades de pesquisa, trabalhos de orientação,
apresentações em congressos e em encontros, consultorias e assessorias, etc.
Em comum aos autores, o reconhecimento da importância do olhar interdiscipli-
nar – uma das marcas do CPDA – na reflexão dos processos sociais identificados com
o nosso objeto de estudo e buscando, assim, assegurar um olhar plural sobre o tema
e a preocupação em entender as significações e a atualidade de processos e questões.
Desde já agradecemos a todos os que colaboraram com a realização e viabiliza-
ção da coletânea, começando pelo apoio efetivo e imediato da Coordenação do pró-
prio Programa, estendendo nosso reconhecimento à Fundação Carlos Chagas Filho
de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e à Action Aid Brasil,
que aportaram recursos financeiros para tanto. Somos gratos também ao Delcio da
Costa Peçanha Júnior pelo apoio na editoração preliminar do material.
A coletânea encontra-se dividida em três partes, ou blocos, que buscam dialogar
entre si, além do prefácio de nossa sempre amiga e referência de reflexão, Maria de
Nazareth Baudel Wanderley. A primeira parte aborda de forma abrangente os diferen-
tes significados do rural contemporâneo, tratando de analisar situações específicas que
marcam a compreensão e o conhecimento desses processos em perspectiva histórica.
A parte subsequente volta-se sobre a análise de processos e mobilizações sociais que
envolvem um número expressivo de novos e velhos atores, bem como as diferentes
redes estabelecidas a partir dos mesmos, buscando evidenciar a emergência de confli-
tos e disputas em diferentes áreas de estudo. O último bloco da coletânea enfatiza o
tratamento das políticas públicas em diversos setores e níveis, problematizando desde
a concepção e o contexto político que caracterizam o Estado brasileiro até os processos

O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI | 13


de mediação examinados à luz da capacidade de implementação de um número dife-
renciado de instrumentos de programas governamentais.
O bloco I, intitulado Por uma compreensão abrangente do rural brasileiro,
reúne cinco capítulos. O primeiro deles, de autoria de Roberto José Moreira, sobre
“Identidades rurais, natureza, multiplicidades e subalternia”, ao relacionar identi-
dades sociais e ruralidades contemporâneas, explora as contradições e as comple-
xidades que esses conceitos carregam especialmente quando associados às ideias de
hegemonia, contra-hegemonia e subalternia presentes no campo, práticas, discursos
e simbolismos relacionados ao mundo agrário.
O segundo capítulo, intitulado “Tipologias e significados do ‘rural’: uma lei-
tura crítica”, de Maria José Carneiro e Laila Sandroni, se propõe a analisar os prin-
cipais enunciados do debate sobre a noção de “rural” e procura mostrar que a razão
dualista que os sustentam não é neutra, possuindo um compromisso político que
nem sempre é percebido e raramente é contestado ou superado.
Em “Apontamentos sobre a historicidade dos sistemas agrícolas latino-ame-
ricanos”, Hector Alimonda (in memorian), cuja trajetória intelectual privilegiou
questões de ecologia política em interpretações sobre o universo latino-americano,
resgata autores clássicos e atualiza entendimentos sobre as trajetórias dos sistemas
agrícolas, a localização da região – Brasil incluído - no contexto internacional e des-
taca – para além das variáveis econômicas – aquelas do poder social sobre o Homem
e a Natureza, sempre a partir de uma perspectiva histórica.
O capítulo de Dora Vianna Vasconcellos, sobre “Messianismo e mudança so-
cial no mundo rural”, procura analisar alguns escritos pioneiros das Ciências So-
ciais que abordam a questão do messianismo e da mudança social - reformista ou
revolucionária - chamando a atenção para o peso de uma visão de reforma agrária
condizente com os preceitos capitalistas.
“Um olhar sobre a ‘Marcha para o Oeste’: Amazônia”, de Eli Napoleão de Lima,
traz para o debate a influência de Euclides de Cunha (1866/1909) no pensamento
social brasileiro. Em relação à Amazônia ele seria o primeiro, por suas revelações,
interpretações, denúncias e intuições, a despertar o “brasileirismo-amazônico”. A
autora também ressalta que o projeto da Marcha para o Oeste seguirá essa tendência
numa litania incômoda até o presente.
O segundo bloco da coletânea, denominado Atores, redes, mobilizações e
novos conflitos no campo, agrega sete capítulos com entradas diferentes, porém
interconectadas. O primeiro capítulo dessa parte e sexto do livro, intitulado “Mo-
vimentos sociais, questões fundiárias e mediações jurídicas: apontamentos sobre o
Direito e os conflitos sociais”, de Leonilde Sérvolo de Medeiros, tem como objetivo
refletir sobre as relações existentes entre as disputas por terra e as dimensões legais
que as cercam. Ou seja, compreender a judicialização dos conflitos fundiários como

14 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


parte de um repertório de ação, amplo e diversificado, que compõe as estratégias
de luta e a reivindicação por direitos específicos, reconhecidos e inscritos em novos
instrumentos legais.
Em “O discurso de Roberto Rodrigues na Agroanalysis e o paradoxo do Go-
verno Lula”, Débora Lerrer chama a atenção para o empenho do ex-ministro na
construção de um discurso unificador e criador de uma nova imagem do setor, bem
como o fortalecimento econômico e político do agronegócio no governo, histori-
camente identificado com as lutas por terra e pela reforma agrária, bandeiras dos
movimentos sociais no campo.
O capítulo de Regina Bruno, sobre “A humilhação como recurso de poder:
empregadores e trabalhadores rurais escravizados no Brasil contemporâneo”, aborda
questões que mediam as relações entre empregadores e empregados, especialmente
quando esses últimos operam em situações análogas ao trabalho escravo. Ao proble-
matizar o uso da linguagem utilizada pelos patrões, a autora examina os processos
de reprodução de classe aí embutidos e o suposto direito dos mesmos exercerem esse
mecanismo de humilhação pública, exercitando conhecidas práticas de dominação
vigentes no agro nacional.
Helena Rodrigues Lopes e Claudia Job Schmitt, em capítulo intitulado “Entre
perigos, legitimações e uso seguro: o cotidiano das práticas de utilização de agrotó-
xicos por agricultores familiares na região de Barbacena – MG”, exploram as causas
que levam agricultores familiares mineiros a empregarem um repertório de herbici-
das e inseticidas nas atividades agropecuárias, associando tais práticas não somente
às decisões individuais desses produtores, mas, sobretudo, ao contexto institucional
e de políticas aos quais os mesmos estão submetidos, sejam aqueles relacionados aos
programas de crédito e assistência técnica ou mesmo à política de vigilância sanitária
e saúde pública.
O décimo capítulo do livro – “Redes alimentares alternativas no Brasil” - de
autoria de Fátima Portilho e Isis Leite Ferreira volta-se para a análise do “ativismo
alimentar”, buscando compreender os móveis que informam a construção e a práti-
ca de organizações relacionadas à produção e ao consumo de alimentos e à conforma
de redes alimentares alternativas (alternative food networks, na expressão em inglês).
São explorados alguns casos em particular, que marcam a experiência recente no
contexto brasileiro, envolvendo questões de economia solidária e o protagonismo –
ou não – dos consumidores urbanos.
Fechando o bloco, o texto de Jorge O. Romano e Gerardo Cerdas Veja, deno-
minado “Desafios para os BRICS: multipolaridade, nova arquitetura econômica,
internacional e sustentabilidade ambiental”, trata do caso brasileiro associado ao
grupo formado ainda pela Rússia, Índia, China e África do Sul no processo de cons-
trução do Novo Banco de Desenvolvimento e de formatação (ou tentativa) de uma

O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI | 15


nova ordem geopolítica internacional. São examinadas as assimetrias entre os inte-
grantes do grupo, especialmente quando confrontadas com questões que marcam a
agenda ambiental, como aquela das mudanças climáticas.
A última parte da coletânea (bloco III), sob o título de Políticas Públicas em
Questão, integra seis capítulos que percorrem distintos períodos e políticas pú-
blicas, em diferentes níveis de governança. “Entre a concepção e a implementação
das políticas territoriais no Brasil: ideias, interesses e instituições na governança
multinível”, de Catia Grisa e Nelson G. Delgado, é o primeiro capítulo do bloco
e avança na compreensão das políticas de desenvolvimento territorial no Brasil
(Territórios da Cidadania, Territórios Rurais de Identidade) à luz da abordagem
dos chamados “3is” (instituições, ideias e interesses), destacando seus limites e
oportunidades ao longo da experiência vigente especialmente na última década.
Em seu capítulo sobre “Gestão territorial e desenvolvimento: análise com-
parativa de políticas territoriais na Amazônia”, Thereza Cristina Cardoso Me-
nezes analisa comparativamente as práticas de gestão e políticas territoriais em
dois municípios do Sul do Amazonas (Lábrea e Apuí), buscando refletir sobre o
caráter diferencial e efeitos sociais das políticas públicas territoriais na Amazônia
O trabalho sobre “A experiência da Petrobras Biocombustível no semiárido
brasileiro e os desafios do desenvolvimento inclusivo” é assinado por Georges
Flexor, Karina Kato, Nelson G. Delgado e Sergio Pereira Leite. Os autores, com
base na experiência da Petrobras Biocombustíveis com agricultores familiares
do semiárido brasileiro, analisam os desafios e as potencialidade que as políticas
de desenvolvimento inclusivo enfrentam ao promover a inserção de agricultores
em mercados agroenergéticos e procuram mostrar as dificuldades desse tipo de
política em viabilizar a inclusão produtiva dos agricultores familiares da região.
O capítulo intitulado O “ICMS Ecológico – equidade social e eficácia am-
biental das transferências fiscais no Noroeste de Mato Grosso”, de Peter H. May,
Maria Fernanda Gebara, Guilherme Lima, Carolina Jordão, Pedro Nogueira e
Maryanne Grieg-Gran, dirige-se à análise desse instrumento fiscal de política
pública e sua prática ao longo de quase 20 anos de vigência e seu impacto sobre
a conservação ambiental. Para tanto, os casos dos municípios de Juína e Co-
triguaçu no Mato Grosso são trazidos para um tratamento mais aprofundado
desses efeitos.
Em “Revolução, reformas e políticas públicas”, Raimundo Santos visa mos-
trar que a reflexão dos intelectuais Caio Prado Junior e Celso Furtado, exposta
nas obras clássicas “Formação do Brasil contemporâneo” (1943) e “Formação
econômica do Brasil” (1959), ao invés de ser apenas proponente de medidas re-
formistas ocasionais e pragmáticas, avança proposições de mudança social num
horizonte interpretativo mais amplo.

16 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


O décimo sétimo e último capítulo da coletânea, denominado “Conflitos
intra-burocráticos e agência dos indivíduos: a construção política dos adidos
agrícolas”, conta com a autoria de Ricardo Dias da Silva e Jorge O. Romano. Os
autores abordam a criação e as controvérsias que cercam a experiência recente
da adidância agrícola no Brasil, sua relação com a atuação dos Ministérios da
Agricultura, Pecuária e Alimentação e das Relações Exteriores e o desenho da
política agrícola externa brasileira.
Esperando que o material que encerra esse volume possa ser útil na atuali-
zação do debate sobre a questão agrária brasileira e sua complexa teia de inter-
pretações, temas e situações sociais vigentes, desejamos a todos e a todas uma
excelente leitura!

O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI | 17


TIPOLOGIAS E SIGNIFICADOS DO “RURAL”:
UMA LEITURA CRÍTICA

Maria José Carneiro


Laila Sandroni

A distinção entre rural e urbano, ou cidade e campo, é uma ideia há muito arraigada
nas representações do senso comum e nas preocupações acadêmicas.1 Por si só, esse
fato justifica que nos debrucemos sobre ela ainda que alguns autores argumentem ser
esta distinção irrelevante sociologicamente (PAHL, 1968) ou irrelevante para a socie-
dade pós-moderna (GIDDENS, 1991). Nesse capítulo, iremos apresentar uma leitura
crítica de alguns enunciados acadêmicos sobre a definição de “rural”. Percorrendo as
formulações hegemônicas e contra-hegemônicas no debate sobre a constituição e a defi-
nição do “rural brasileiro” pretendemos contribuir para dar maior precisão a essa noção
e para tornar mais visíveis as possibilidades (e limites) de seu uso como categoria socio-
lógica. Criticamos a definição de “rural” baseada em traços ou características isoladas e
descontextualizadas que conformam “tipos” que não se comunicam, e argumentamos a
favor da necessidade de uma abordagem reflexiva na construção de uma tipologia sobre
o rural de modo a explicitar os interesses e os objetivos que nos guiam nos esforços de
compreensão e de classificação. Defendemos que o discurso e as formas de ação sobre o
“rural” são dois lados da mesma moeda. Há uma relação intrínseca entre as dimensões
sociais, políticas e culturais e o discurso sobre o rural no Brasil, demonstrando que o
discurso é na verdade parte destas dimensões e, portanto, dotado de materialidade.

Introdução

Alguém já disse (como THOMAS, 1951) que se os atores sociais acreditam


em algo como real, isso deve ser encarado pelos sociólogos como real por suas con-
sequências sociais e, como tal, passível de constituir objeto de estudo, mesmo que
1 Ângela Kageyama cita Hite (1999) cuja noção de rural se sustenta na proposta do modelo de Von Thunen
(1826) baseado em um gradiente de renda da terra variável de acordo com a distância do mercado (cidade).
Kageyana, A. Desenvolvimento rural: conceitos e aplicações ao caso brasileiro, Ed. da UFRGS, 2008.

Por uma compreensão abrangente do rural brasileiro | 43


essa distinção só exista na cabeça das pessoas, o que não tem menor importância em
termos sociológicos. Thomas, nessa direção, vai argumentar que devemos nos de-
bruçar sobre a maneira como as pessoas entendem a distinção rural-urbano e como
essa compreensão afeta a organização do espaço e as relações sociais. Já Raymond
Williams (1973) lembra que a distinção entre cidade e campo é quase tão antiga
quanto a cultura ocidental, o que torna ainda mais complexa a nossa tarefa quando
estamos lidando com categorias – como cidade, campo, comunidade (acrescentarí-
amos, natureza) que navegam entre o vocabulário da sociedade (senso comum) e da
produção do conhecimento científico.
A questão é que o processo histórico de construção dessas clivagens não é tão
somente objetivo e, de maneira alguma, neutro. Jollivet lembra que “a preocupação
em distinguir populações urbanas e populações rurais não é uma simples invenção
ou comodidade administrativa; ela remete a representações coletivas que estão na
base da dinâmica da sociedade”. Para o autor, essas representações seriam alimenta-
das pela ideia, ainda presente na França (e no Brasil, mais ainda, acrescentaria) de
um grande país agrícola (JOLLIVET, [1997] 2001:110).
Apesar de estar se referindo especificamente à sociedade francesa, ele nos ajuda
a pensar o processo de construção da noção de rural no contexto brasileiro ao cha-
mar a atenção para os valores e representações presentes nos diferentes usos dessa
categoria. Há particularidades dos preceitos relativos ao rural brasileiro (como vere-
mos), mas determinadas representações são tão fortes que atravessam contextos tão
diferenciados quanto a França e o Brasil.
A representação que predomina na sociologia rural, mas não apenas aí, sobre o
“rural” é a sua vinculação à atividade agrícola – representação construída e reforçada
ao longo do processo de modernização das sociedades ocidentais, a partir da lógica
e da dinâmica das cidades. Vinculados a esse processo foram engendrados valores
e visões de mundo responsáveis por uma imagem do rural que se cristalizou como
espaço do “atraso”, da “tradição”, da ausência de infraestrutura, de serviços e da
resistência ao “moderno”.
O rural, nessa concepção, estaria fadado a desparecer com o crescimento e o de-
senvolvimento fundamentados na realidade urbana, na expansão do sistema de comu-
nicação e das políticas de desenvolvimento que levariam os benefícios da cidade para
o campo, descaracterizando ou destruindo os valores e práticas sociais vistos como
“atrasados” e ultrapassados. Assim o que é reconhecido como “rural”, a partir dessa
concepção ficaria restrito aos rincões profundos ainda não alcançados pelas benesses
da cidade ou como resíduos a serem eventualmente apagados da realidade social.
Wanderley e Favareto (2013) mostram que, no caso brasileiro, o rural como lugar
do atraso fadado ao gradual desaparecimento é uma construção que remonta ao perí-
odo colonial. Inicia-se aí uma relação de forte dependência dos espaços mais remotos

44 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


em relação às vilas, baseada no pagamento de impostos e no oferecimento de serviços.
O campo se constituiu assim, conjuntamente com a cidade, pois a implantação do
agrupamento rural precede ou segue de perto a criação de um núcleo urbano. Esta
estrutura permaneceu a mesma até fins do século XX com o prolongamento deste
tipo de ocupação. Ao contrário da Europa, onde rural e urbano eram compreendidos
como polos de gêneros de vida distintos, aqui eles eram partes de uma mesma cultura.
As formações históricas da cidade e do campo, lá e aqui, oferecem elementos
explicativos desses processos. Na Europa, as cidades têm a sua origem no processo
da divisão social do trabalho durante a “revolução comercial”, que resultou no sur-
gimento de uma burguesia comercial e, mais tarde, a industrial, estabelecendo nas
praças de comercialização modos de vida e de ocupação essencialmente distintos
daqueles praticados pela população agrícola (camponeses e nobreza fundiária). Já
no Brasil, as cidades são originariamente ocupadas pela mesma elite rural que tinha
suas residências, concomitantemente, no campo (para exercer o controle sobre o
processo produtivo) e na cidade (para estabelecer negócios e exercer o poder polí-
tico). O próprio processo de constituição da cidade e do campo são concomitantes
e marcados pela necessidade de controle territorial do projeto colonial. Desta ma-
neira, reproduzem na cidade o mesmo estilo de dominação implantado na “casa
grande”, trazendo para a cidade as bases e os modos de vida de uma civilização que
permanece agrária, ou de “raízes rurais”, na expressão cunhada por Sérgio Buarque
de Holanda, “prendendo o homem ao horizonte cultural rústico e ao conservantis-
mo prepotente como estilo de vida” (FERNANDES, 1975, p. 141, apud WAN-
DERLEY; FAVERETO op. cit.).
Mesmo os pequenos povoados do interior, como os de Minas Gerais, mantêm
esse vínculo estrutural com o campo ao surgirem na confluência de rotas que leva-
vam aos núcleos de mineração ou às moradias dispersas de pequenos agricultores
(TORRES, 2011). Formavam-se, assim, os pequenos “pontos de civilização” com
uma função essencialmente comercial. Para se constituir como “vila” era necessária
uma Câmara cujas cadeiras eram ocupadas pela elite agrícola local que reforçava seu
poder sobre a população via a “aplicação da justiça” e da cobrança de taxas e impos-
tos. Para Florestan Fernandes (2008), como citam Wanderley e Favareto, a vila se
transforma em um “apêndice do campo”, sem uma vida própria que projetasse sua
autonomia, seja econômica ou cultural. Surge assim, uma sociedade local polarizada
não em termos do “urbano” e o “rural” mas entre a “elite (do campo como da vila) e
o restante da população local” (WANDERLEY; FAVARETO, 2013, p. 319).
A cidade colonial brasileira se estabelece, assim, em conformidade com o cam-
po e não em oposição ou negação. Cabe então perguntar como e quando se deu a
construção de um ideário que rompe com essa continuidade e institui a dualidade
na qual o espaço rural, expressão do “atraso”, se contrapõe à cidade, sede da mo-

Por uma compreensão abrangente do rural brasileiro | 45


dernidade e do progresso? Não temos espaço aqui para aprofundar uma questão
de tamanha complexidade considerando a amplitude e a diversidade de formas de
ocupação territorial Brasil. Nem esse é o nosso objetivo. Em termos muito gerais e
superficiais citamos, acompanhando alguns autores, o advento da República como
marco dessa “novidade” (ARRUDA, 2000, apud WANDERLEY; FAVARETO,
2013) e o marco jurídico (Decreto Lei no 311 de 2 de março de 1938, que institui
a distinção oficial entre o “rural” e o “urbano”, válida até hoje para as classificações
do IBGE. Na realidade, não encontramos aí nenhuma definição sustentada em cri-
térios objetivos, mas apenas o estabelecimento de que as sedes dos municípios sejam
consideradas como espaço “urbano”. Como destaca Veiga (2003), é dessa lei que se
originam as distorções impostas à população dos pequenos municípios, de acordo
com os interesses das administrações municipais, já que fica à cargo das Câmaras de
Vereadores estabelecer os limites entre os territórios “rurais” e “urbanos”. Tão pouco
o esperado estatuto das cidades resolveu essas distorções por não apresentar uma
definição sobre o que vem a ser “cidade”.
O avanço das relações de dominação no território nacional foi, assim, um mo-
vimento de dominação da cidade sobre o campo. Esta concepção foi se tornando
cada vez mais forte na medida em que foi se aprofundando, com a industrialização
do país, a associação cidade-progresso versus campo-atraso. O rural foi sendo visto,
cada vez mais, como o espaço do antigo e do incivilizado, um entrave ao progresso e à
modernidade urbana. Era reconhecido como o local das forças arcaicas que deveriam
ser superadas com os avanços dessa modernidade. Neste contexto, as características
apontadas como próprias ao “mundo rural” passam a ser incluídas nos grandes pro-
jetos de desenvolvimento nacional do século XX, inclusive os projetos progressistas,
como um entrave a ser eliminado. Entrave a quê? A uma determinada representação
de modernidade que informava (e ainda informa) os projetos de desenvolvimento
elaborados por agências internacionais e nacionais, desde órgãos do Estado brasileiro
até atores globais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, entre
outros. Essa representação se traduz, via de regra, pela difusão de um modo de vida
avaliado pela capacidade de consumo e, consequentemente pautado por uma base
monetária (renda familiar) semelhante a que serve de medida para o padrão de vida
urbano.2 Mas pouco se sabe sobre o interesse dessa população rural em ter alterados os
seus modos de vida na direção que os “projetos de desenvolvimento” indicavam. Na
intelectualidade, também não cabia questionar o “desenvolvimento”, palavra quase
mágica carregada de “boas intenções”. Como observou José de Souza Martins, partin-
do da definição do rural pela ótica da escassez, da falta e do atraso, constituiu-se uma
2 Em uma ampla revisão bibliográfica sobre o impacto do Pronaf no modo de vida de seus beneficiários,
constatou-se que o principal critério de avaliação dessa política pública consiste na renda monetária gera-
da pela venda da produção agrícola familiar (Cf. Carneiro e Palm, no prelo).

46 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


sociologia rural baseada muito mais na imagem criada pelos sociólogos sobre como o
rural e seus habitantes deveriam ser do que na análise do modo de ser e de fazer das
populações tidas como rurais (MARTINS, 2000).
Contudo, não se pode dizer que essa visão hegemônica não tenha apresenta-
do brechas para visões alternativas. Entre as décadas de 1940 e 1970, a realidade
rural passou a ser objeto específico de estudos que abriram novos caminhos para a
compreensão de seus problemas e questões particulares. Tiveram grande importân-
cia na construção desta outra perspectiva autores como Antonio Candido, Maria
Isaura Pereira de Queiroz e o supracitado José de Souza Martins, que se dedicaram
a reconhecer as mudanças que ocorreram especificamente no meio rural como de-
correntes do processo de urbanização e industrialização do país nos quais estavam
amplamente concentrados os esforços públicos e a maioria dos intelectuais, inclusi-
ve alguns de esquerda. Chamaram a atenção para as transformações dos modos de
vida e para os processos de resistência e adaptação das populações rurais nos novos
tempos, abrindo espaços para uma perspectiva para além da noção de ‘entrave ao
progresso’. Maria Isaura Pereira de Queiroz, por exemplo, se recusou a seguir os
cânones de sua época. Abandonando a abordagem normativa e programática pre-
dominante na Sociologia de então, ela desloca o foco de atenção para personagens
como os camponeses, os sitiantes, os beatos, os cangaceiros, os coronéis, menospre-
zados pela intelectualidade. Com isso, abre uma nova perspectiva que se distingue
daquela vista através das lentes da modernidade que propunha intervenções com
base em modelos criados por pesquisadores. Talvez tenham sido ela e Antonio Can-
dido os primeiros a pensar a mudança social no Brasil a partir de dentro dos grupos
sociais, resguardando e evidenciando, dessa maneira, a capacidade de mudança e de
intervenção dessas categorias sociais mais desfavorecidas.
Surgem a partir daí outras abordagens que vão definir o rural não mais a par-
tir de uma visão negativa, pautada nas representações sociais engendradas no espa-
ço urbano, mas baseando-se em sociabilidades e modos de vida específicos. Neste
entendimento, “rural” e “urbano” não são mais vistos, exclusivamente, como po-
los opostos, mas como ambientes diferenciados e interdependentes que se influen-
ciam mutuamente e que abrigam uma grande diversidade. Na sociologia rural
contemporânea, no Brasil e no mundo, ficam cada vez mais patente as limitações
da compreensão do rural como o negativo-oposto do urbano ou como espaço
que abriga um modo de vida fadado ao desaparecimento. Abordagens como a do
“renascimento” do rural (KAYSER, 1990); da ruralidade em rede (MURDOCH,
2006); da virada cultural como chave para a reconstrução deste espaço (CLO-
CKE, 1997), entre outras, são expressão de outras formas de olhar para o rural
respeitando suas dimensões relacionais e idiossincrasias. Não é nosso intuito aqui
percorrer estas perspectivas, mas reconhecer que todas concorrem para um obje-

Por uma compreensão abrangente do rural brasileiro | 47


tivo comum de questionar a representação dos “mundos rurais” como atrasados e
a dualidade a ela subjacente.3
Apesar disso, ainda predomina em projetos de desenvolvimento no Brasil uma
visão calcada na hierarquia entre campo e cidade que compreende o rural como
espaço a ser transformado, “desenvolvido”. Ainda que a palavra “subdesenvolvimen-
to” não faça mais parte do léxico sociológico, a hierarquia que se estabeleceu entre os
universos assim classificados permanece operante. A hegemonia desta visão produ-
ziu efeitos diretos e nocivos para as condições de vida da população rural como, por
exemplo, a naturalização sobre a precariedade da estrutura de serviços no campo, a
ponto de que a existência de serviços e de infraestrutura é considerada, para alguns,
critério de “urbanização”. Quando essa escassez é superada o espaço deixa de ser
rural. Do mesmo modo, essa visão modernizadora é responsável pela elaboração e
implementação de políticas de desenvolvimento rural focadas no modelo agro-em-
presarial, entendido como expressão de progresso e de modernidade, o que tem con-
tribuído para reforçar a concentração fundiária e aprofundar as iniquidades sociais,
aumentando a incidência de pobreza em uma população composta principalmente
por agricultores pobres, e instituindo o êxodo rural como única alternativa.
Na contramão dessa percepção, pesquisas têm registrado uma grande variedade
de atividades econômicas, culturais e sociais no meio rural brasileiro o que, por si
só, questiona os critérios normalmente utilizados para enquadrar esses espaços ou
modos de vida em uma categoria unificadora. Percebe-se que esse “rural contem-
porâneo” se expressa por inúmeras maneiras de viver, de trabalhar e de se relacionar
com o “não-rural”, de modo que categorias assim definidas se tornam vazias de sig-
nificado. Com isso não queremos dizer que o rural acabou ou que não guarda mais
sua especificidade, ao contrário, a heterogeneidade dos universos sociais contidos
em espaços classificados como “rurais” nos orienta à cautela no uso dessa noção que
guarda um sentido único e homogeneizador.
Antes de prosseguir faz-se necessário reconhecer algumas das diferentes possibilida-
des de uso da categoria rural de modo a contribuir para a operacionalização mais acurada
do termo que possa articular-se aos usos administrativos e/ou sociais sem perder o rigor.

“Rural”: diferentes usos, diferentes significados

Um dos problemas que dificulta a definição ou a delimitação do rural é a refe-


rência bastante recorrente a realidades ou experiências traduzidas em características

3 Essas abordagens são objeto de análise da disciplina “Rural e Ruralidade na Sociedade Contemporânea”
ministrada por Maria José Carneiro, no CPDA, e da qual as reflexões desse capítulo originaram.

48 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


empíricas, ao mesmo tempo subjetivas e carregadas de valores. Quando, em nossos
estudos, recorremos – de maneira muitas vezes impensada – à categoria “rural”, ra-
ramente nos dedicamos a esclarecer o sentido que estamos atribuindo a ela, cabendo
a cada leitor traduzi-la de acordo com suas próprias experiências e imagens, muitas
vezes pautadas em definições que datam do início do século. Trata-se, portanto, de
uma representação social que expressa percepções pautadas na dualidade e na oposi-
ção rural-urbano construídas historicamente ao longo do processo de modernização
industrial da sociedade ocidental.
Entre essas representações, destaca-se a associação, quase que consensual, entre
o rural, o agrícola e o “tradicional”, em oposição ao urbano, industrial e “moderno”.
Essa dualidade que, para Martins (1981), é fruto da ambiguidade originária da
Sociologia, acabou por reduzir a Sociologia Rural à sociologia da atividade agrícola
ou, mais especificamente, à “sociologia do desenvolvimento da agricultura”, já que
muito dos estudiosos desse campo se voltaram para a análise do rural a partir da
perspectiva da modernização da agricultura e das relações de trabalho. Essa razão
dualista, contudo, não é neutra; ela possui um compromisso político a ser colocado
em xeque para sua superação.
Refletindo sobre o estatuto sociológico da categoria rural, entendemos ser ne-
cessário distinguir os diferentes usos possíveis dessa noção, como primeiro passo
para desvelar o significado que nos pode ser útil em um dado momento e, assim,
evitar as descrições empíricas mais próximas das representações sociais do que de
um conteúdo analítico. Podemos tomar, como ponto de partida para avançar nessa
discussão, a proposta de Jollivet (1997) que reconhece três possibilidades de uso da
categoria rural. Inicialmente, ele distingue o uso administrativo que serve a obje-
tivos institucionais de gestão territorial, com fronteiras mais ou menos marcadas e
politicamente significativas. Essa distinção se aproxima do que Mormont (1989)
qualifica de “categoria operacionalizada” e do que Bourdieu (1993) entende por “ca-
tegoria realizada” ao se referir ao uso da categoria família pelas agências estatísticas
e governamentais. Em outros termos, trata-se do uso da categoria rural para fins da
administração pública, orientando ações e normatizações.
A segunda possibilidade é qualificada por Jollivet como morfológica, ao mesmo
tempo geográfica e sociológica, ao se referir a uma distinção observável tanto no
plano espacial quanto na composição social da população. Esta perspectiva, baseada
na observação e traduzida em descrições empíricas, tem como consequência o reco-
nhecimento de dois ‘rurais’: em um extremo, um rural essencialmente agrícola (que
os franceses chamam de “rural profundo”) e, em outro, o rural “urbanizado” que
traria a presença de “traços das cidades”, seja pela presença de indústrias, seja pelo
tipo de habitação. Reconhecendo os limites dessa classificação, já que esta pode pas-
sar a impressão que há uma ‘naturalidade’ na delimitação dos espaços rurais, Jollivet

Por uma compreensão abrangente do rural brasileiro | 49


considera que essas distinções físicas são produto da história e da geografia do país,
tendo um papel importante nas formas de organização e intervenção do Estado. Em
nossa visão, contudo, caberia distinguir o uso geomorfológico do uso sociológico
quando essa categoria assumiria o estatuto de categoria analítica.
Finalmente, a terceira dimensão do rural, que “ultrapassa em muito o aspec-
to propriamente pragmático e instrumental (...) é expressão de uma representação
coletiva historicamente construída entre uma população e seu território e, assim,
faz parte das representações coletivas que fundam a identidade nacional” (11-12).
São as formas através das quais as pessoas entendem as continuidades e rupturas
entre o rural e o urbano; as formas como se entende socialmente o que é o rural na
sua dimensão vivida pautada na experiência. Nesse uso, essa categoria serviria de
referência para orientação dos indivíduos, assim como na classificação nos (e dos)
espaços e nas (e das) relações sociais.
Esse modelo pode nos ser útil para ajudar a construir outro que seja mais apro-
priado à nossa realidade. Para tanto, entendemos ser importante manter a distinção
entre, de um lado, o uso da noção “rural” como “categoria administrativa”, no sen-
tido de sua operacionalização nas políticas públicas e como “categoria nativa” elabo-
rada com base em nossos processos históricos e inculcada (usando uma terminologia
de Bourdieu) nos indivíduos pelo processo de socialização, de outro lado, seu uso
como “categoria analítica” que nos propõe uma chave de compreensão dos processos
sociais em curso. Mas, reconhecemos que a função analítica de “rural” é problemáti-
ca ou limitada na medida em que, como vemos, trata-se de uma categoria sem valor
heurístico, sua dimensão relacional se impõe ao rigor conceitual.

Rural como categoria analítica: historicidade


e ressemantização

É prudente considerar que a realidade de hoje de nosso país é bastante distinta


daquela que serviu de referência para os primeiros estudos do meio rural, muito
marcados pelo modelo empirista funcionalista da sociologia americana da primeira
metade do século XX. Sorokin e Zimmerman organizaram, em 1929, “Principles of
rural-urban sociology”, um livro síntese sobre sua pesquisa sobre a relação rural-ur-
bano, que se tornou um marco na sociologia rural por muitas décadas. Anos depois,
publicaram “A systematic source book in rural sociology” que inclui um artigo,
muito referenciado ainda hoje pelos sociólogos rurais, traduzido no livro “Introdu-
ção Crítica à Sociologia Rural”, organizado por José de Souza Martins. Para esses
autores, o desaparecimento do rural pela força da urbanização seria uma decorrência
natural e inevitável da modernização da sociedade, daí a necessidade de se estabe-

50 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


lecer um parâmetro sobre o que seria o “tipicamente rural”, não só para entender a
mudança que se processaria, mas também para indicar os caminhos dessa mudança.
Muitos dos esforços de entender e classificar nossa ruralidade ainda são sustentados
na chave interpretativa desses autores.
Para Martins (1981), o dualismo presente nesse tipo de formulação não pode
ter solução estritamente no âmbito do conhecimento. É preciso reconhecer os obje-
tivos políticos desta ambiguidade, reconhecer que ela atende às necessidades de auto
explicação da sociedade capitalista. Entretanto, esta ambiguidade tende a resolver-se
também no nível do conhecimento na medida em que a Sociologia parte para um
questionamento das dicotomias que a perpassam. Esta análise nos leva a refletir
sobre a coprodução entre política e ciência (JASANOFF, 2006): poderíamos dizer
que a política, atrelada aos processos relativos ao meio rural, interfere também na
produção do conhecimento sobre esses processos. Por outro lado, as dinâmicas da
própria produção do conhecimento, informada em muito pelas questões da políti-
ca, podem também interferir nos processos políticos. É nessa direção que entende-
mos a referência frequente à noção de desenvolvimento, e sua dimensão política, na
produção sociológica sobre o rural. No caso da sociologia rural, há uma miríade de
fortes questionamentos sobre a oposição rural/urbano que procuram desbancar as
concepções pautadas na dominação do urbano sobre o rural e, assim, agir politica-
mente no sentido de diminuir estas iniquidades.
Na visão de Martins (1981), para que seja possível superar esta visão dualista, que
se autolegitima como “neutra”, é fundamental partir de uma visão de ciência menos
cientificista e mais histórico-materialista. Parte da empreitada sugerida pelo autor se-
ria, assim, realizar um questionamento das bases históricas das mais recorrentes signi-
ficações do rural. Esta seria uma maneira de abrir espaço para novas significações mais
adequadas à construção de políticas mais justas e análises mais adequadas.
O trabalho de Wanderley e Favareto, intitulado “A singularidade do rural bra-
sileiro: implicações para as tipologias territoriais e elaboração de políticas públicas”
(2013), se dedica justamente a esta tarefa. Destacamos três ideias centrais que os
autores corroboram a partir de uma revisão da literatura brasileira, realizando uma
análise das implicações das diferentes visões sobre as políticas públicas para, a partir
daí, aprimorar os conceitos. 1) O rural é uma categoria historicamente enraizada
e, portanto, deve ser vista de maneira contextualizada e relacional; 2) A ruralidade
brasileira é dotada de ampla heterogeneidade e esta tem que estar bem visível para
que as políticas públicas possam contemplá-la adequadamente; 3) O rural ocupou
historicamente uma posição periférica no projeto de desenvolvimento brasileiro, o
que gerou um certo vazio institucional a ser superado.
Wanderley e Favareto recorrem às principais correntes dos estudos rurais no
mundo a fim de gerar uma concepção mais complexa, articulando critérios estrutu-

Por uma compreensão abrangente do rural brasileiro | 51


rais e funcionais com critérios relacionais. Identificam, assim, três implicações desta
visão mais complexa. 1) o rural não pode ser pensado como espaço isolado; sua rela-
ção com o urbano é fundamental para compreendermos suas dinâmicas nas socieda-
des contemporâneas. Os espaços rurais e urbanos são reconhecidos historicamente
como distintos, mas sua interdependência é geradora das descontinuidades. 2) As
distinções entre rural e urbano não são sempre as mesmas, elas variam de acordo
com as sociedades. 3) O projeto de desenvolvimento rural não pode ser pensado de
maneira isolada, tem que estar incluído em um projeto de sociedade.
Esta visão sobre “rural” requer, portanto, uma ampla contemplação de sua cons-
trução histórica, específica a cada sociedade. A singularidade dos espaços/sociedades/
mundos rurais brasileiros está ancorada na sua dimensão histórica, o que exige evitar
uma tipologia meramente técnica que não leve em conta as relações e processos sociais
que marcam estas especificidades. No caso do Brasil, é importante reconhecer que as
questões relativas aos temas rurais têm sido relegadas historicamente a um segundo
plano, sendo muitas vezes referenciadas como próprias a relações arcaicas que reme-
tem ao período colonial, fazendo com que tivessem pouca expressão nos projetos de
desenvolvimento implementados pelo Estado ao longo dos anos.
Mas é importante também refletir sobre as implicações políticas e sociais deste
tipo específico de rearticulação teórica. O texto de Wanderley e Favareto, promo-
vido por uma agência de desenvolvimento, visando a elaboração de uma tipologia
que expresse a diversidade da ruralidade brasileira em um contexto de maior dina-
mização das relações rural-urbano, articula as mais recentes tendências da sociologia
rural contemporânea. Neste diapasão cabe perguntar: Qual o sentido de se tentar
estabelecer uma tipologia com bases nas análises mais recentes sobre o mundo rural?
Qual a sua operacionalidade e quais são os entraves em sua aplicação?

Limites e possibilidades de uma tipologia


para o “rural”

Sabemos que qualquer sistema classificatório serve a determinados fins. Im-


portante ter em mente, portanto, que as categorias classificatórias são construções
da mente humana e, como tais, são produtos da sociedade, mas não guardam uma
relação causal imediata com a realidade observada, nem resultam, obrigatoriamen-
te, de uma necessidade utilitária como já lembraram Durkheim e Mauss (1981) e
Lévi-Strauss (1989). O esforço de classificação, presente em toda sociedade e tão
antigo quanto a própria existência humana, resulta em sistemas arbitrariamente
construídos, mas não se confundem com a sociedade (DUKHEIM e MAUSS,
1981). Nesse sentido, temos de ter claro nas nossas mentes que uma tipologia ou

52 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


uma classificação não será nunca expressão do que encontramos na realidade. Elas
serão sempre uma abstração que, apesar de não se referirem à realidade empírica
observada, são construídas em conformidade com esta, encontrando nas relações
sociais apenas a matéria-prima para essas construções abstratas, como argumenta
Lévi Strauss (1970). Esse mesmo autor chama a atenção para a necessidade de se
buscar o significado dos fatos e das relações sociais na sua posição na totalidade, já
que cada parte não pode ser entendida isoladamente. Daí a dificuldade de centrar
a definição de “rural” em traços ou características isoladas e descontextualizadas,
ou em “tipos” que se não se comunicam.
Mas, por outro lado, temos de considerar que os princípios que sustentam
uma ordem classificatória são, em certa medida, definidos dentro de um campo de
disputa político-cultural de legitimação. Ao ser legitimada, uma dada estruturação
pode assumir um lugar de “realidade” e de “verdade” tanto para o senso comum
como para um campo específico de conhecimento. É neste sentido que a tentativa
de articular as formas de compreensão do rural das mais recentes inovações da socio-
logia rural contemporânea, já atravessadas pela crítica ao rural como atrasado e pela
historicidade do conceito, pode ser útil na elaboração de tipologias mais adequadas
politicamente. Ou seja, mesmo reconhecendo o necessário grau de arbitrariedade de
qualquer tipologia, a reflexão sobre o rural como categoria analítica pode auxiliar a
elaboração de uma tipologia administrativa do rural que seja mais adequada a nossa
percepção da ruralidade no país.
Mas é importante fazer uma ressalva: entendendo que as tipologias são uma
aproximação abstrata da realidade e que não podem se confundir com ela, até que
ponto seria útil um sistema tipológico sustentado em traços empiricamente obser-
váveis? Até que ponto esse sistema não estaria fadado a cair por água abaixo sempre
que encontrarmos uma realidade que não se encaixe em nenhum dos tipos ou não
apresente todas as características relacionadas pelo modelo assim construído? Como
classificar aquela realidade que fica no interstício dos tipos, que apresenta algumas
ambiguidades, misturas de tipos? Correríamos o risco de produzir uma tipologia
infindável nessa tentativa de construir um mapa do tamanho da realidade.
Para lidar com esse problema temos de ter em mente que a abordagem e a in-
terpretação da realidade pressupõem a escolha de uma estruturação teórica que irá
definir os princípios de articulação entre os componentes do modelo de maneira a nos
orientar na aproximação e interpretação de um conjunto de relações sociais em um
dado espaço ou universo social. Nesse sentido, não haveria um sistema de classificação
mais verdadeiro que outro, como bem apontam Wanderley e Favareto. Tratam-se de
alternativas que irão orientar nosso olhar de maneira a enfatizar ou, ao contrário, a
menosprezar determinados aspectos da realidade. As classificações servem, portanto,
a determinados interesses já que a essa forma de perceber a realidade encontram-se,

Por uma compreensão abrangente do rural brasileiro | 53


normalmente, associadas práticas e propostas de intervenção. Nessa direção, é bas-
tante ilustrativa a abordagem dos autores. Selecionando como eixos estruturantes de
uma tipologia, duas variáveis sínteses – os fatores de enraizamento (acesso aos recursos
produtivos, patrimoniais e culturais e as referências de pertencimento comunitário) e
os fatores de integração (acesso a bens e serviços que permitem superar o isolamento
produzindo um sentimento de pertencimento, como cidadãos), Wanderley e Favareto
propõem distinguir as diferentes situações de ruralidade em: a) o rural empobrecido;
b) o rural socialmente vazio e c) o rural como espaço de vida e de trabalho. Essa ti-
pologia, ainda que assumidamente preliminar, traz uma importante contribuição ao
debate ao explicitar a partir de onde (qual o ator social privilegiado) se está falando (ou
observando) e qual objetivo (político) que essa tipologia pretende alcançar.
Aceitar a relatividade de uma classificação tipológica não significa, porém, abo-
lir o rigor conceitual e metodológico, mas aceitar os limites do conhecimento sobre
a realidade. É importante deixar clara a impossibilidade de produzir um sistema de
classificação universal e definitivo sobre o rural e o urbano sem cair nos riscos, seja
de uma generalização simplificadora, seja de uma especificação tão detalhada que
perca capacidade de diálogos com outros contextos. A ideia de conjunto ou totalida-
de aqui é fundamental, pois é o escopo mais abrangente que a tipologia deve abarcar
e deve sempre ter em mente. Não podemos, portanto, esquecer os fins que motivam
uma classificação para reconhecer os seus limites de uso e a potencialidade de sua
operacionalidade visando esses fins.
Contudo, normalmente, o que acontece é que os motivos que orientam um es-
forço de classificação e as escolhas feitas nem sempre são revelados, dando margem a
uma leitura positivista da abordagem teórica, como se esta correspondesse à realida-
de em si mesma e, portanto, fosse “mais verdadeira” do que outras. Em um esforço
de pesquisa que contenha uma perspectiva operacional, é preciso considerar que a
cada tipo de escolha que fazemos, ganhamos e perdemos algum aspecto da capaci-
dade de compreensão da sociedade. Resta-nos definir com clareza e transparência, a
posição teórica e os interesses que guiam todo e qualquer esforço classificatório para
que outros pesquisadores, gestores ou agentes sociais possam compreender as bases
da classificação implementada e avaliar se ela serve ou não aos objetivos em questão
em cada caso e, principalmente, suas implicações políticas.
Entendemos, assim, que o trabalho de se construir um modelo classificatório
sobre o rural deve conter uma dimensão de reflexividade integrada no processo de
pesquisa, uma dimensão de posicionamento face à sociedade quanto aos interesses
e objetivos que guiam o nosso esforço de compreensão e quanto à nossa lente de
análise. É o que acontece, geralmente, nas tentativas de compreensão das dinâmicas
rurais que acabam se orientando para o debate sobre um tipo de desenvolvimen-
to necessário. A ideia de desenvolvimento é encontrada, algumas vezes subjacente,

54 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


outras nem tanto, na maioria dos textos analíticos sobre temas rurais. Caberia per-
guntar: Qual o significado de se associar essas duas noções? Quais as implicações
sociológicas e políticas dessa associação? De que desenvolvimento se está falando?

Considerações finais

As ressalvas aqui apresentadas sobre os limites de toda e qualquer classificação


não podem incorrer em um abandono da categoria rural em nome de outras cate-
gorias menos atravessadas pela divisão prévia dos espaços. Entendemos que a noção
de rural possui uma materialidade a ser disputada e uma importância política que
seria negligenciada se optássemos por basear nossos esforços analíticos em outros
termos. Recomendamos neste sentido não o abandono da categoria, mas a cons-
tante atenção sobre seus significados, numa reflexão contínua e vigilante. Nesse
sentido, caberia perguntar, a cada esforço sociológico de compreensão, definição ou
classificação de dinâmicas, processos, atores etc. “rurais”, para que serve? A quem
serve (Instituições? Governos? Atores sociais?)?
Na esteira de Wanderley e Favareto (2013), entendemos que uma tipologia
deve ser vista como uma chave de leitura que permite uma aproximação do que está
sendo focado, mas que nunca deva se colocar como uma matriz fechada, engessada,
que se impõe aprioristicamente a todo o universo que nossas representações levam a
classificar como “rural”, seja o uso da categoria analítico ou administrativo.
E aqui nos defrontamos com uma mais uma dificuldade: construir uma tipo-
logia do rural implica que identifiquemos algo como “rural”. E é nessa classificação
primeira que são acionadas representações ou pré-noções que raramente são escla-
recidas ou mesmo identificadas, muitas vezes mais próximas a categorias nativas do
que a categorias analíticas. Para construirmos uma tipologia do rural teríamos de,
anteriormente, fazer uma reflexão sobre o que consiste isso que estamos chamando
de “rural” e que está implícito no nosso texto. Trata-se de um espaço? De universos
sociais específicos (o que alguns autores chamam de “sociedades rurais”, “mundo
rural”, “meio rural, etc.”)? De modos de vida? São todas questões com uma grande
variedade de respostas que precisam ser reatualizadas a fim de esclarecer o debate.
Entendemos ser necessário definirmos, antes de tudo, o estatuto sociológico
dessa categoria. Caso contrário, corremos o risco de carregarmos junto conosco
no esforço de classificação todas as pré-noções que foram impregnadas durante os
processos de sua construção histórica e sociológica. Não imaginamos que possa-
mos “limpar” essa categoria (rural) dessas pré-noções, mas entendemos que ao fazer
emergi-las teremos mais clareza sobre o que estamos falando, de maneira a tornar
mais evidente as implicações e as consequências analíticas e classificatórias.

Por uma compreensão abrangente do rural brasileiro | 55


É preciso, portanto, como aponta Martins (1981), desconstruir em sua base a
visão dualista que embasa os processos de dominação. A Sociologia Rural se apre-
senta como um ator importante tanto na construção quanto na desconstrução desta
perspectiva. Martins argumenta que a relação intrínseca entre as formas de saber e
os compromissos sociais e políticos é particularmente articulada na sociologia rural.
A separação entre rural e urbano que fundamentou a disciplina tornando possível
o recorte de seu objeto faz parte de uma racionalidade imbricada à empresa capi-
talista e seus compromissos ideológicos. Nesta medida, as concepções dualistas de
rural e urbano são, segundo o autor, conforme exposto anteriormente, fruto de um
contexto histórico específico que corroborou esta visão enquanto mais “próxima à
realidade” do que as outras, com o objetivo ideológico de permitir a dominação des-
te espaço no contexto de expansão da racionalidade capitalista. Esta crítica à razão
dualista perpassa toda a argumentação de Wanderley e Favareto (2013) que também
a refutam reiteradamente, desnaturalizando-a.
Dada esta desnaturalização, os autores propõem, a construção de uma categoria
de rural relacional e historicamente enraizada. O objetivo dos autores é, portanto,
contribuir com uma nova formulação histórica do conceito de “rural” dotada de con-
teúdos e compromissos políticos. Os autores não estão sozinhos nesta construção, mas
fomentam o debate ao mesmo tempo em que são alimentados por um trabalho social
de construção de uma nova concepção de rural em curso a partir da redemocratização
do país e gestada neste ambiente, conforme apontam em suas palavras:

“A nova concepção de desenvolvimento rural se opõe a essa visão tradicional e


dominante. Ela foi gestada e consolidada graças ao ambiente de democratização
da sociedade, que se implantou com o fim dos governos militares e, sobretudo,
com a promulgação da Constituição de 1988, que fortaleceu as organizações
sociais rurais, favoreceu o debate crítico sobre o modelo dominante e estimulou
a criação de espaços de cooperação entre intelectuais, instâncias governamentais
e movimentos sociais.” (WANDERLEY; FAVARETO, 2013, p. 459)

Esta nova concepção foi elaborada, portanto, na interação entre estes três es-
paços, os quais poderíamos traduzir como Estado, Ciência e Sociedade e trata-se
de um trabalho constante que se refaz a cada contexto histórico. O discurso sobre
o rural (ou sobre as clivagens entre rural e urbano) e as formas de ação sobre estes
espaços são dois lados da mesma moeda. Há uma relação intrínseca entre as dimen-
sões sociais, políticas e culturais e o discurso sobre o rural no Brasil, demonstrando
que o discurso é na verdade parte destas dimensões, sendo assim dotado de mate-
rialidade. Daí a importância de termos o cuidado de reconhecer sempre as bases e
consequências da concepção de rural utilizada em nossos trabalhos acadêmicos, nas

56 | O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI


ações do nosso cotidiano ou no diálogo com movimentos entre outros atores sociais.
Na realidade, as categorias analítica, administrativa e nativa se entrecruzam e cabe
a nós enquanto pesquisadores reconhecer de perto estes entrecruzamentos. Fica as-
sim, uma abertura para maiores reflexões sobre as possibilidades de diálogo entre o
rural como categoria nativa ou analítica.

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