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Teorias da Justiça: Rawls e Nozick

O documento aborda a filosofia contemporânea, destacando a importância da ética e da filosofia política na sociedade atual. Apresenta as teorias de justiça de John Rawls e Robert Nozick, discutindo conceitos como igualdade, liberdade e a função do Estado. Além disso, menciona as contribuições de Jürgen Habermas sobre a comunicação e a deliberação na esfera pública democrática.
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Teorias da Justiça: Rawls e Nozick

O documento aborda a filosofia contemporânea, destacando a importância da ética e da filosofia política na sociedade atual. Apresenta as teorias de justiça de John Rawls e Robert Nozick, discutindo conceitos como igualdade, liberdade e a função do Estado. Além disso, menciona as contribuições de Jürgen Habermas sobre a comunicação e a deliberação na esfera pública democrática.
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Luis War/Shutterstock.

com
Número de pessoas em situação de rua
cresce em várias cidades brasileiras.
Caxias do Sul, RS, 2018.

FRENTE ÚNICA

CAPÍTULO Filosofia contemporânea: ética e

14
filosofia política
A filosofia está presente nos meios de comunicação de massa, nas redes so-
ciais, nos livros, nas aulas e nas palestras. Isso a torna mais próxima de nós e
mostra que não só os estudiosos, mas também as pessoas comuns se interes-
sam por ela. O contato com a filosofia nos ajuda a argumentar em defesa de
nossas escolhas e a buscar consensos entre pontos de vista distintos.
O mundo mudou, apresenta novos desafios, e temas como genética, tecnolo-
gia e ecologia passaram a ser abordados pela filosofia, sobretudo no que se
refere a questões da existência e da finitude da natureza e do ser humano.
Portanto, a tarefa fundamental da filosofia permanece a mesma: compreender
o mundo em que vivemos e reinventar o pensamento.

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Teorias da justiça Para evitar que pessoas com mais chances de barganha
imponham seus princípios como os mais adequados, Rawls
Vamos acompanhar duas das principais teorias da justiça
propõe que possamos imaginar um véu de ignorância
no mundo contemporâneo. Primeiro, a teoria da justiça ela-
sobre nós que nos impeça de saber a qual categoria per-
borada pelo filósofo estadunidense John Rawls (-).
tencemos na sociedade e quais são nossas vantagens e
Segundo, a teoria da justiça elaborada pelo filósofo, tam-
desvantagens. Sem essas informações, poderíamos fa-
bém estadunidense, Robert Nozick (-).
zer uma escolha com base em uma posição original de
As reflexões de John Rawls sobre justiça social, de-
equidade. Como esse conceito é idealizado, a função
sigualdades sociais e ações afirmativas voltadas para a
de um equilíbrio reflexivo é calibrar a cultura política, o
ampliação dos direitos sociais contribuíram para a filosofia
éthos (comportamento) social e o modus vivendi (práticas)
política contemporânea. Rawls concilia os dois princípios
de uma sociedade concreta.
da Revolução Francesa: a liberdade e a igualdade. Em sua
Os princípios de justiça devem mostrar razoabilidade na
filosofia, o conceito de justiça é a justificação para uma filo-
comparação com nossos juízos em outras generalidades.
sofia prática, assim como o conceito de verdade é condição
O objetivo é aproximar os princípios de justiça de nosso
para a teoria do conhecimento.
senso moral cotidiano. O bem de um indivíduo deve ser
Centrado no igualitarismo e na solução para os pro-
escolhido levando em conta o interesse das partes en-
blemas relativos à desigualdade social, um dos objetivos
volvidas, otimizando possibilidades de concretização das
principais da teoria da justiça de Rawls é fundamentar, fi-
escolhas de cada um, noção essa que desemboca na ideia
losoficamente, uma concepção que seja adequada a uma
de deliberação pública, o que levaria à concepção de uma
democracia constitucional. Rawls buscou princípios que
democracia deliberativa. Daí nascem os dois princípios
fundamentassem um padrão moral para avaliar conflitos
apresentados pelo filósofo: princípio do igual direito às
entre as principais instituições da sociedade e os indivíduos.
liberdades básicas e princípio da igualdade equitativa.
O objetivo é alcançar a justiça distributiva e a tolerância.
Para se alcançar os princípios da justiça, são necessárias
duas condições: a posição original e o equilíbrio reflexivo.

igualitarismo: em filosofia política, é uma doutrina que


defende a igualdade de direitos e oportunidades para to-
dos os seres humanos, tanto no âmbito político quanto no
econômico e social.
Isabel Baldoni/PBH

Representação dos conceitos de igualdade e equidade: direito de todos e


justiça para todos.

O princípio da igualdade equitativa deve satisfazer


duas condições: primeiro, deve haver igualdade equita-
tiva de oportunidades; segundo, deve haver igualdade
equitativa da diferença. A primeira condição declara que
as oportunidades devem ser iguais a todos, ainda que a
desigualdade social seja mantida. A segunda condição
Algumas habitações de interesse social (em primeiro plano) e uma favela (em
sustenta que as diferenças entre as pessoas não devem
segundo plano). No Brasil, o direito à moradia faz parte dos direitos sociais
garantidos pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 6o. ser eliminadas e não estão diretamente relacionadas com
a desigualdade social.
O conceito de posição original é uma situação hipoté- De acordo com os princípios de justiça de Rawls, a
tica na qual os indivíduos racionais participantes, por meio igualdade de oportunidades é necessária para promover
de um contrato social, escolheriam os princípios de justiça a justiça social, mas não é suficiente. Por esse motivo, é
a serem adotados para governar a estrutura básica de uma preciso levar em consideração a segunda condição do
FRENTE ÚNICA

sociedade bem-ordenada. Isso só ocorre em um contexto princípio de igualdade equitativa: a diferença. O princípio
de pessoas livres e iguais que escolhem racionalmente os da diferença visa corrigir a meritocracia, impedindo que as
princípios que regularão a estrutura básica da sociedade diferenças de talento ou de condições não determinem a
visando a um sistema equitativo de cooperação social para desigualdade social. A política de cotas nas universidades
vantagem mútua. públicas está de acordo com o princípio da diferença.

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Quadro das teorias de justiça distributivas A liberdade dos direitos é a questão fundamental na
concepção de justiça de Nozick, assim como a ideia de
Analisadas por Rawls livre mercado, na qual é justa a desigualdade econômica
desde que não resulte do uso da força ou da fraude. Por
outro lado, essa ideia entende que o Estado moderno é
Feudalista ou de castas: hierarquia fixa em função do nascimento infrator, considerando que muitas de suas ações não são
Libertária: livre mercado com igualdade formal de oportunidades legítimas e violam as liberdades individuais, somando-se,
Meritocrática: livre mercado com igualdade justa de oportunidades assim, ao coro dos chamados libertários. Os libertários
rejeitam três tipos de diretrizes e leis impostas pelo Es-
tado: o paternalismo, as legislações sobre a moral e a
Proposta por Rawls
redistribuição de renda ou riqueza.

a katz/[Link]
Igualitária: princípio da diferença em Rawls

Rawls argumenta que as três teorias que analisou ba-


seiam a distribuição de justiça em fatores arbitrários do
ponto de vista moral: nascimento, posicionamento social e
econômico e aptidões e habilidades naturais. Somente o
princípio da diferença evita que a distribuição de riqueza e
renda esteja fundamentada nessas contingências.
Para Rawls, o mérito moral não pode ser fundamento
de justiça, pois:
1. o talento nunca é um mérito completamente do Solenidade de formatura de agentes da polícia de Nova York,
indivíduo; realizada no Madison Square Garden. O Estado mínimo proposto por
Robert Nozick prevê garantir somente a segurança dos cidadãos.
2. as qualidades que uma sociedade valoriza em deter-
minado momento são moralmente arbitrárias. O libertarianismo é uma ideologia que existe tanto na
Em uma sociedade meritocrática, existe a crença de direita quanto na esquerda. O libertarianismo de Nozick,
que o sucesso é reflexo do merecimento, quando, de fato, ideologicamente de direita, defende que o Estado tenha
não o é. Rawls afirma que deveríamos deixar de expres- sua função restrita à garantia da proteção do cidadão contra
sar complacência diante das desigualdades e começar a violência (segurança pública), o roubo (proteção da pro-
a reagir. Para ele, aceitá-las seria um equívoco. O fato priedade privada) e a fraude (cumprimento dos contratos
de indivíduos de famílias abastadas terem uma série de para a manutenção da paz). Qualquer função além dessas
vantagens sem nenhum mérito para usufruí-las constituiria estaria além dos objetivos do Estado. Trata-se da defesa
uma injustiça social. do Estado mínimo. Nessa perspectiva, a justiça distributiva
deve atender somente a duas condições: justiça quanto à
© Toby Morris for Radio New Zealand 2015

aquisição de posses e à transferência de posses.


Com base na noção de Estado mínimo, Nozick criti-
ca a obrigação imposta ao cidadão de abrir mão de seus
interesses individuais em prol da coletividade. Trata-se de
uma violação. Haveria três tipos de violação: taxação sobre
a renda dos mais favorecidos, colaboração do mais favore-
cido para o mais necessitado e imposição da vontade da
maioria. Assim, pode-se perceber que a justiça distributiva
e a justiça libertariana partem de pontos de vista inconci-
liáveis quanto à concepção dos limites entre o individual
e o coletivo.

Tira que representa a "cegueira" quanto à desigualdade de oportunidades.

Já Robert Nozick defende uma teoria política libertária,


também denominada libertarianismo. Sua obra demonstra
os perigos que existem na forma de cooperação e na busca
pela igualdade presentes nos argumentos de Rawls. Além
disso, oferece uma fundamentação alternativa à concep-
ção de uma política distributiva ao colocar sob suspeita a
legitimidade da coerção governamental, analisando quais Estado mínimo: proteção contra roubo, fraude e força.
são as finalidades e funções do Estado. A charge é uma crítica ao conceito de Estado tradicional.

180 FILOSOFIA Capítulo 14 Filosofia contemporânea: ética e filosofia política

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Questões políticas e éticas Em cada uma delas existem duas formas de agir: o agir
instrumental e o agir comunicativo. O agir instrumental
contemporâneas está vinculado ao sistema, isto é, ao Estado com seu apa-
Agora, vamos apresentar as teses de três autores a rato e sua organização econômica. Já o agir comunicativo
respeito das questões políticas e éticas no mundo con- depende da construção de um consenso e corresponde
temporâneo. Para as questões especificamente políticas, ao conjunto de valores que cada um de nós, individual ou
vamos acompanhar as ideias de Jürgen Habermas (-). comunitariamente, vive de maneira imediata, espontânea
Já para as questões eminentemente éticas, veremos as e natural.
teses de Hans Jonas (-) e Peter Singer (-). Na modernidade, contudo, o sistema apropriou-se do
Jürgen Habermas é um filósofo alemão que se dedica olhar colonizador, ou seja, as ações estratégicas individuais
à filosofia política e à filosofia da linguagem, em diálogo voltadas para a aquisição de resultados dominaram as
com as ciências sociais, as ciências da comunicação e o ações de afetividade, da família, da comunidade e das tra-
direito. Formado na tradição da teoria crítica, frequentou dições, submetendo o mundo da vida ao sistema, isto é, a
o Instituto de Pesquisa Social, entre  e . Porém, um agir instrumental. Com a instrumentalização do mundo
diferentemente do que pensavam boa parte dos frankfur- da vida, o desenvolvimento técnico passou a atuar em todas
tianos, Habermas apresenta uma versão menos pessimista as esferas: jurídica, econômica, social e política.
em relação aos males provocados pela ciência e pela razão O mundo da vida resiste aos avanços dos subsiste-
instrumental às sociedades no século XX. mas. Nesse sentido, Habermas pensa sobre a capacidade
de ação dos seres humanos para a comunicação em
dpa/picture-alliance/Album/Fotoarena

prol da solução de conflitos. A premissa básica do que


Habermas chama de teoria do agir comunicativo é a de
que as pessoas são seres capazes de ação e, para tanto,
utilizam a linguagem para se comunicar com seus pares,
tendo como objetivo final o entendimento. A linguagem,
portanto, é ato de entendimento e consenso humano
sobre questões pertinentes (ética, política, direito, moral,
estética e poder).
A proposta de Habermas consiste em reconciliar as
duas razões (instrumental e comunicativa) por meio do
exercício solidário do poder em que é preciso mobilizar as
Jürgen Habermas,
filósofo alemão, lutas por definições de integridade e autonomia de estilos
considerado um dos de vida. Desse modo, uma nova moralidade pode surgir
mais importantes
para combater as patologias causadas pela colonização
intelectuais
contemporâneos. do mundo da vida pela razão instrumental.
Com base na teoria do agir comunicativo, Habermas
No final dos anos  e início dos , a principal constrói uma reflexão sobre a política contemporânea, evi-
preocupação do teórico a respeito da ideia de um con- denciando a necessidade de um processo de deliberação
senso discursivo resulta na elaboração de uma teoria coletiva que conte com a participação racional de todos os
sobre a reflexividade da ação social, apresentada na indivíduos, possivelmente interessados ou afetados pelas
obra Teoria da ação comunicativa (). Aqui, vamos decisões, não somente no processo eleitoral, mas também
compreender essa obra, buscando elucidar o conceito no domínio da esfera pública. Sugere um modelo ideal de
de racionalidade comunicativa. democracia deliberativa, por meio do qual há interação
De acordo com Habermas, a sociedade está dividida pela linguagem, sendo relevante o consenso de forma não
em duas esferas: o sistema social e o mundo da vida. coercitiva.
©Joaquim S. Lavado Tejón (QUINO), TODA MAFALDA/Fotoarena

FRENTE ÚNICA

Tira sobre a falta de consenso, fator que pode motivar atitudes violentas entre as partes, as quais, sem entrar em acordo, levam a sociedade à estagnação.

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Na esfera pública democrática, discute-se e delibera-se sobre questões políticas e adota-se estratégias para tornar
a autoridade política sensível às suas deliberações. Estabelece-se uma dinâmica no interior da política que não é movida
nem por interesses particularistas nem pela tentativa de concentrar poder para dominar outros indivíduos. Pelo contrário,
o uso público da razão estabelece uma relação entre participação e argumentação pública.

Estabelecendo relações
O Conselho Municipal de Saúde de São Paulo (CMS) é um órgão deliberativo para a formulação e a execução da política muni-
cipal de saúde. O funcionamento do CMS prevê reuniões plenárias mensais e extraordinárias, comissão executiva e comissões
permanentes e temáticas. Sua composição é sempre paritária: o número de representantes do segmento de usuários é igual
à soma dos segmentos de profissionais e trabalhadores de saúde, gestores e prestadores de serviços de saúde.

O entendimento, contudo, só se torna possível se as pessoas estiverem abertas para ouvir e entender o outro em um
contexto em que a discussão e o debate possam ocorrer com base na argumentação racional. É necessário estabelecer regras
e modos de conduta para o entendimento, já que é difícil manter a conduta íntegra em detrimento dos interesses pessoais.
O consenso válido para todos os participantes do discurso deve ser fundado na ação e na razão comunicativa. Por
isso, Habermas buscou na filosofia da linguagem, de cunho analítico, os pressupostos de validade do ato de fala e assim
definiu as pretensões ou os fundamentos de uma teoria da ação comunicativa fundada na racionalidade.

Requisitos de validez do ato de fala Possibilidades de questionamento Exemplos


Inteligibilidade Todos podem compreender o que é dito? Os termos estão claros?
Estamos passando por problemas
Veracidade O conteúdo do que está sendo dito é verdadeiro?
financeiros e temos que demitir.
Estamos preocupados com a situação
Sinceridade O falante deve proferir sentenças sinceras.
de vocês.
O que está sendo dito é legítimo? Faremos as demissões da maneira mais justa
Retidão normativa
É moralmente válido conforme as normas existentes? e dentro da lei.

Adaptado de VIZEU, Fabio. Uma aproximação entre liderança transformacional e teoria da ação comunicativa. Revista de Administração Mackenzie,
São Paulo, v. 12, n. 1, jan./fev. 2011. p. 66. Disponível em: [Link]/pdf/ram/v12n1/a03v12n1. Acesso em: 3 jun. 2022.

Vejamos, agora, as investigações éticas de Hans Jonas. Filósofo alemão de origem judaica, Hans Jonas elaborou uma
teoria ética com ênfase no risco do avanço tecnológico para o futuro da humanidade e desenvolveu o imperativo da
responsabilidade, no qual destaca-se a ideia de que o ser humano caminha para sua autodestruição caso não assuma um
novo paradigma de princípios, direitos e deveres. Por isso, Jonas declara que, mesmo quando temos o poder tecnológico
e a arrogância política para fazê-lo, não devemos arriscar nossa vida futura, pois não nos cabe estabelecer o fim da vida
humana e planetária.
Uma nova ética é condicionada pelo medo da desfiguração do ser humano, ou seja, seu aniquilamento. Não se trata
apenas de sobrevivência física, mas da própria integridade de sua essência. A ética precisa preservar a sobrevivência e
a integridade humana, tornando-se, assim, uma ética de respeito. Sua novidade é a inclusão da ideia de futuro e da ideia
da abrangência planetária. Apesar da defesa de sua liberdade, o indivíduo deve conservar o mundo e sua essência inal-
terados contra os abusos de seu próprio poder.
Jonas fez um percurso reflexivo demonstrando o poder da consciência do ser humano na transformação da natureza,
desde a Antiguidade até a chegada da Modernidade. Nessa passagem, destacou a importância da construção das cidades,
que, para o ser humano da Antiguidade, eram destinadas a permanecer cercadas, e não a se expandir, o que dava a ideia
de equilíbrio entre a vida humana e a natureza.
Sven Hansche/[Link]

Vista de Atenas com a Acrópole ao fundo. Contraste entre a cidade grega antiga e a contemporânea.

182 FILOSOFIA Capítulo 14 Filosofia contemporânea: ética e filosofia política

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Na Antiguidade – e mesmo nas concepções éticas de- Para Jonas, as novas utopias relacionadas às possibi-
senvolvidas até o século XIX –, o modo como o ser humano lidades do progresso técnico promovem um excesso de
se relacionava com o extra-humano era eticamente neutro, responsabilidade. A ética da responsabilidade de longo
com exceção da medicina. Não se colocava, em absoluto, a alcance exige uma humildade diferente daquela do passa-
questão de um dano duradouro que afetasse a integridade do, em decorrência da excessiva grandeza de nosso poder
das coisas ou a sua ordem natural. O uso da técnica era de fazer em relação ao nosso poder de prever e de nosso
determinado pela necessidade, e não como um progresso poder de julgar.
que se autojustificasse. A ética não era objeto da técnica, O desconhecimento desse poder faz com que a me-
mas era antropocêntrica. Bem e mal, portanto, referiam-se lhor alternativa seja, à falta de sabedoria, a contenção da
ao imediato e não requeriam planejamento em longo prazo. responsabilidade. O futuro dos que ainda não estão re-
A primeira grande alteração nas concepções éticas presentados – isto é, dos não nascidos – seria de nossa
ocorreu com a percepção da vulnerabilidade da natureza responsabilidade, porém não estaremos vivos para res-
diante da intervenção técnica do ser humano. Esse cho- ponder por suas reinvindicações quando assim se fizer
que levou ao surgimento do conceito e da ciência do meio necessário. Jonas conclui afirmando a existência de um
ambiente (Ecologia). A natureza da ação humana modificou- grande problema: o vácuo ético. Afinal, quem se respon-
-se e um novo objeto surgiu: a biosfera inteira do planeta sabilizará? Vejamos os pontos avaliados por Hans Jonas.
passou a ser de nossa responsabilidade, dado que nosso • Ambivalência dos efeitos da técnica moderna: toda
poder também atua sobre ela. capacidade humana é boa em si, tornando-se má de-
Com o novo modo de agir do ser humano, é preciso pendendo de seu mau uso.
avaliar se o que permanece é o interesse de manter apenas • Inevitabilidade da aplicação: de modo geral, possuir
a vida humana – interesse utilitarista – ou todas as vidas, uma técnica não significa necessariamente usá-la,
incluindo a natureza em si. Há, portanto, novos fatores a mas essa relação não se aplica às técnicas modernas.
serem considerados na equação moral. A natureza extra-
• Dimensões globais do tempo e do espaço: as dimen-
-humana, uma vez que está sob nosso poder, impõe-nos
sões do uso da técnica moderna têm consequências
como exigência moral não somente um dever em nossa
que estão para além dos seres humanos.
própria causa, mas em causa própria do outro e por seu pró-
prio direito. Segundo Jonas, nenhuma ética anterior, além • Rompimento com o antropocentrismo: há uma am-
da religião, preparou-nos para ter esse papel. pliação do campo ético para a vida extra-humana.
A técnica, sendo uma obra friamente pragmática da
Saiba mais astúcia humana, dá ao ser humano um papel que apenas
Jonas retoma o conceito de imperativo categórico de a religião lhe havia atribuído: o de guardião da criação. O
Kant para expor a sua limitação nos tempos atuais. Quando ser humano passa a ser responsável pelo futuro da vida na
Kant afirma “age de tal maneira para que a máxima de terra e ele mesmo está indefeso nesse futuro, resultado do
tua ação torne-se universal”, para Jonas não existe a su- mau uso de seu próprio poder. A responsabilidade humana
posição de que a humanidade possa cessar de existir. O passa a ser cósmica. O futuro da humanidade dependerá
que eu e o outro “podemos querer” expressa que o bem daquilo que a humanidade fizer dela no presente.
depende da compatibilidade ou incompatibilidade, não de
uma aprovação ou desaprovação moral. Nesse sentido, o

Artush/[Link]
que se garante é o bem entre aqueles que pertencem à
mesma geração, e não se o que é certo para uns e outros
compromete o bem das gerações futuras. Vejamos os
novos imperativos.

Imperativos de Jonas
Aja de tal maneira que a máxima de sua ação permita a
perpetuação dos seres humanos no planeta.
Não coloque em perigo as condições necessárias para a
conservação indefinida da humanidade sobre a Terra.
Desenvolvido no Brasil, o fila brasileiro é uma raça cuja população caiu
Inclua na tua escolha presente a futura integridade do ser para menos da metade nos últimos 30 anos. Qual é a responsabilidade
humano como um dos objetivos do teu querer. do ser humano no processo de renovação das espécies animais?

Vejamos, agora, o filósofo australiano Peter Singer.


Um dos maiores dilemas quando se quer pensar no Seu interesse é buscar os fundamentos de nossas esco-
princípio da responsabilidade no campo da ética é o mo- lhas éticas do ponto de vista prático, investigando temas
mento em que consideramos o poder do ser humano não controversos, como os direitos dos animais, o aborto, o in-
FRENTE ÚNICA

somente sobre a natureza, e sim sobre si mesmo. Qual fanticídio, a pobreza mundial, o problema dos refugiados, o
deve ser o limite para o prolongamento da vida humana? meio ambiente e a eutanásia. Ele formula uma ética prática
Social e individualmente, o que implicam as modificações a partir da renovação da perspectiva utilitarista.
genéticas que se tornaram cada vez mais viáveis? Modificar Singer defende que todos os seres que são capazes
o ser humano é desejável ou é opcional? de sofrer devem ter seus interesses considerados de forma

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igualitária, concluindo não haver prioridade entre os seres Singer tem posicionamentos que foram muito criticados
humanos ou os animais. Um exemplo de seu posiciona- quando refletiu sobre a responsabilidade que envolve tratar
mento é a crítica que faz ao uso de animais em criadouros sobre as vidas humanas. No caso da eutanásia e do suicídio
destinados ao abate para alimentação humana, que, segun- assistido, a questão central diz respeito a se as pessoas têm
do ele, é injustificável, já que tal ação cria um sofrimento o poder de decidir ou não sobre o destino de suas próprias
desnecessário. Também condena a vivissecção, apesar vidas. Em relação aos pacientes em estado vegetativo per-
de considerar que algumas experiências trazem mais be- manente, por exemplo, Singer os qualifica como estando
nefícios que o mal causado aos animais, a exemplo dos vivos biologicamente, mas não biograficamente. Sobre a
avanços em tratamentos médicos. questão dos embriões e fetos humanos, a questão principal
estaria no fato de o embrião ter ou não consciência de si.
vivissecção: qualquer operação feita em animal vivo com Outra reflexão desenvolvida por Singer sugere substi-
o objetivo de realizar estudo ou experimentação. tuir a ideia de que devemos tratar todas as vidas humanas
como sendo sempre mais preciosas do que qualquer vida
A proposta de Singer é discutir filosoficamente a finalidade não humana pela ideia da não discriminação com base na
do juízo ético para a tomada de decisões práticas. Seria ne- espécie. Apesar de reconhecer diferenças entre humanos
cessário retomar uma velha abordagem da ética, de regras e animais, o filósofo sustenta que os humanos não têm o
simples e de fácil aplicação: a perspectiva consequencia- direito de desconsiderar os interesses dos animais. Apli-
lista. Para essa perspectiva, as consequências de nossas cando suas reflexões, vários países adotaram diretivas no
opções constituem o único padrão fundamental da ética. sentido de estabelecer melhores condições de bem-estar
De acordo com a perspectiva consequencialista, para para os animais envolvidos na produção de alimentos e na
emitir um juízo moral é necessário considerar algumas pre- exposição em espetáculos e zoológicos.
missas. Em primeiro lugar, todo aquele que pensa que o que
faz é para o bem, vive sob um padrão ético. Em segundo Inteligência artificial
lugar, o comportamento ético aceitável é aquele que, de al-
A convivência e a interação entre seres humanos e ro-
gum modo, é universal. Por fim, a terceira premissa consiste
bôs é um dos principais temas da ficção científica desde o
em adotar uma posição utilitarista para emitir um juízo ético.
século XX, seja na literatura, seja no cinema, tendo como
Desse modo, meus próprios juízos não podem contar mais do
foco a inteligência artificial (IA) e suas consequências para
que os interesses alheios. Quando ocorrer um impasse, esco-
a humanidade. Muitos filmes representam o temor de uma
lho aquilo que tiver as melhores consequências para todos.
possível revolta das máquinas contra os seres humanos:
Para Singer, uma das maiores mudanças na atitude das
em algum momento de um futuro próximo, as máquinas
sociedades contemporâneas refere-se à não aceitação das
possuiriam várias características que até então eram ti-
desigualdades, sejam elas raciais, sexuais, de capacidades
das, por muitos, como exclusivas dos seres humanos.
físicas e mentais, econômicas, entre outras. Por isso, refletir
Em , Alan Turing (-), considerado um dos
sobre as obrigações dos ricos para com os pobres é fun-
pais do computador moderno, publicou um artigo em que
damental para a própria sobrevivência da humanidade. O
questionava se as máquinas poderiam pensar. Para respon-
filósofo propôs que as pessoas com bom nível econômico
der a tal pergunta, propôs um teste que comprovaria sua
pudessem redirecionar, voluntariamente, seus recursos para
tese. Já para John Searle (-), crítico desse modelo de
ações que beneficiassem indivíduos ou grupos necessitados.
inteligência artificial, quando um computador realiza uma
tarefa que também pode ser feita por um humano, o faz de
Ema Woo/[Link]

maneira totalmente diferente, pois não possui consciência


nem compreensão acerca do que está executando.
Fine Art Images/Album/Fotoarena
Monkey Business Images/[Link]

Turing foi o principal


responsável por quebrar
o código dos nazistas
durante a Segunda
Guerra Mundial. Nunca
deixou registros das
anotações de seus
trabalhos, mas, em 2015,
Como pensar moralmente a desigualdade? Na primeira um caderno seu foi
imagem, uma pessoa pede ajuda aos passantes. Na segunda, encontrado e leiloado por
um grupo de jovens caminham com sacolas de compras. US$ 1 milhão.

184 FILOSOFIA Capítulo 14 Filosofia contemporânea: ética e filosofia política

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O britânico Alan Turing foi um matemático, lógico, criptoanalista e cientista da computação. De acordo com Turing, as
máquinas são capazes de fazer tudo o que as pessoas fazem. Devido à escassez de documentos que atestem seus estudos
em Filosofia, ele não foi um filósofo muito estudado, ainda que suas contribuições tenham sido muito importantes para a
área da Lógica e, depois, para a chamada Filosofia da Mente. Turing foi preso por ser homossexual, mas foi dispensado
de cumprir pena sob a condição de que se submetesse a um tratamento hormonal. Ele morreu vítima de envenenamento,
permanecendo incerto se foi um caso de assassinato ou suicídio.
Aos  anos, Turing projetou uma máquina que, de acordo com um sistema formal, podia realizar operações com-
putacionais. A máquina teórica que levou seu nome (máquina de Turing) indicava a possibilidade de construir poderosos
sistemas, sendo utilizada até hoje por pesquisadores de sistemas com inteligência artificial. O teste proposto por Turing
para decidir se uma máquina é inteligente ou não, também conhecido como jogo da imitação, recebeu depois a nomen-
clatura que difundiu o pensamento desse autor: o teste de Turing.
Um homem (A), uma mulher (B) e um interrogador ou interrogadora (C) participam do jogo da imitação. O interrogador
está separado dos outros dois jogadores. Cada pessoa tem um objetivo diferente no jogo: C faz perguntas aos outros dois
participantes, e seu objetivo é identificar corretamente quem é o homem e quem é a mulher. O objetivo de A, por sua vez,
é induzir C ao erro; e, por fim, a meta de B é dar respostas que auxiliem C na correta identificação.
O participante A poderia fornecer respostas “típicas femininas”, como dizer que tem cabelo comprido e usa vestido. Por
sua vez, B poderia dizer para C não acreditar em A. Caso B tenha sucesso, C acabará o jogo com o seguinte veredito: A
é homem e B é mulher, situação em que B também atinge seu objetivo. Por outro lado, A sairá vitorioso se C disser que
A é mulher e B é homem. Após propor o jogo da imitação, Turing pergunta “o que acontecerá quando uma máquina ocupar
o lugar de A nesse jogo?”, ou seja, o que ocorrerá se um computador tentar se passar por um ser humano?

Atenção
Existem diferenças entre inteligência artificial fraca e inteligência artificial forte. A IA fraca parte da tese de que os computado-
res podem nos ajudar na compreensão do ser humano, como no que diz respeito à cognição humana, mas se trata apenas
de simulação, e não de realização propriamente dita. Já para a IA forte, simular uma mente é o mesmo que ter uma mente,
portanto qualquer máquina que passe no teste de Turing teria uma mente semelhante à nossa.

Agora, vejamos o posicionamento do estadunidense John Searle, filósofo analítico, escritor e professor da Uni-
versidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos. Começou sua carreira na Filosofia com estudos no campo
da linguagem e, mais recentemente, realizou estudos na busca de uma explicação para uma estrutura racional como
base para a existência do livre-arbítrio na Filosofia da Mente e na Filosofia Social. A Filosofia da Mente é uma área de
investigação da Filosofia que trata, entre outros temas, da natureza da mente, da relação entre a mente e o corpo e da
possibilidade da consciência.
Searle afirma que um dos impedimentos para formular questões corretas que poderiam nos direcionar às respostas
para o problema da consciência é a abordagem que vê o cérebro como uma máquina e a mente como um programa
de computador (software). Dessa forma, Searle nega a teoria da inteligência artificial forte, no que diz respeito à afir-
mação de que qualquer sistema é capaz de implementar um programa adequado e suficientemente complexo que
produziria consciência.
O famoso experimento de pensamento do quarto chinês constitui uma crítica à inteligência artificial forte. Conclui-se
que manipular símbolos não é o mesmo que compreender símbolos, isto é, a manipulação de uma sintaxe é condição
necessária, mas não suficiente para a existência de uma semântica. Apesar de um computador poder imitar nosso compor-
tamento, ele não funciona como a nossa mente – aliás, ele nem possui uma mente –, já que apenas manipula formalmente
os símbolos sem ter qualquer conhecimento sobre seu significado.
A definição mais precisa de consciência, segundo Searle, é a de que ela consiste em todos os estados emocionais
e de percepção, existindo durante todos os nossos momentos de vigília. Assim, a filosofia deve abandonar a ideia de
considerar a consciência com base no dualismo mente-corpo. A consciência é real e irredutível, por isso não podemos
nos livrar dela; nunca podemos duvidar de nossa própria consciência.
Por outro lado, os estados de consciência são qualitativos, isto é, não é o mesmo estar consciente ouvindo uma
música ou estar consciente fazendo contas para o imposto de renda ou, ainda, estar se divertindo na presença de ami-
gos. Para cada situação, enfrentamos uma qualidade de consciência distinta. Tais estados da consciência são subjetivos,
no sentido de que só existem quando experienciados.
Finalmente, a consciência influencia nosso comportamento. Os estados mentais não são idênticos aos nossos com-
FRENTE ÚNICA

portamentos. É possível simular um comportamento e pensar ou sentir outra coisa. Por exemplo, quando sentimos dor,
mas estamos diante de uma situação em que é importante parecer estar bem, somos totalmente conscientes de nossa
dor, mas podemos perfeitamente forjar outro comportamento.
Todos esses exemplos sobre o que entende Searle por consciência são também refutações de por que seria impos-
sível uma máquina adquirir consciência.

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Revisando

1. Enem PPL 2018 O justo e o bem são complementares conflito cultural movido pelas minorias desprezadas con-
no sentido de que uma concepção política deve apoiar- tra a cultura da maioria.
-se em diferentes ideias do bem. Na teoria da justiça HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política.
São Paulo: Loyola, 2002.
como equidade, essa condição se expressa pela priori-
dade do justo. Sob sua forma geral, esta quer dizer que A reivindicação dos direitos culturais das minorias, como
as ideias aceitáveis do bem devem respeitar os limites exposto por Habermas, encontra amparo nas democra-
da concepção política de justiça e nela desempenhar um cias contemporâneas, na medida em que se alcança
certo papel. a) a secessão, pela qual a minoria discriminada ob-
RAWLS, J. Justiça e democracia. São Paulo: Martins Fontes, 2000 (adaptado). teria a igualdade de direitos na condição da sua
Segundo Rawls, a concepção de justiça legisla sobre concentração espacial, num tipo de indepen-
ideias do bem, de forma que dência nacional.
a) as ações individuais são definidas como efeitos b) a reunificação da sociedade que se encontra frag-
determinados por fatores naturais ou constrangi- mentada em grupos de diferentes comunidades
mentos sociais. étnicas, confissões religiosas e formas de vida, em
b) o estudo da origem e da história dos valores mo- torno da coesão de uma cultura política nacional.
rais concluem a inexistência de noções absolutas c) a coexistência das diferenças, considerando a pos-
de bem e mal. sibilidade de os discursos de autoentendimento se
c) o próprio estatuto do homem como centro do submeterem ao debate público, cientes de que es-
mundo é abalado, marcando o relativismo da tarão vinculados à coerção do melhor argumento.
época contemporânea. d) a autonomia dos indivíduos que, ao chegarem à
d) as intenções e bens particulares que cada indiví- vida adulta, tenham condições de se libertar das
duo almeja alcançar são regulados na sociedade tradições de suas origens em nome da harmonia
por princípios equilibrados. da política nacional.
e) o homem é compreendido como determinado e e) o desaparecimento de quaisquer limitações, tais
livre ao mesmo tempo, já que a liberdade limita-se como linguagem política ou distintas convenções
a um conjunto de condições objetivas. de comportamento, para compor a arena política
a ser compartilhada.
2. Uema 2015 De acordo com a historiadora Maria Lúcia
de Arruda Aranha, a Revolução Francesa derrubou o an- 4. Unesp 2023
tigo regime, ou seja, o absolutismo real fundamentado no Texto 
direito divino dos reis, derivado da concepção teocrática
do poder. O término do antigo regime se consuma quan-
do a teoria política consagra a propriedade privada como
direito natural dos indivíduos.
ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando:
Introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2003.

Esse princípio político que substitui a antiga teoria do


direito divino do rei intitula-se
a) Contratualismo. d) Liberalismo.
b) Totalitarismo. e) Marxismo.
c) Absolutismo.

3. Enem Na regulação de matérias culturalmente delicadas,


como, por exemplo, a linguagem oficial, os currículos da
educação pública, o status das Igrejas e das comunida-
des religiosas, as normas do direito penal (por exemplo,
quanto ao aborto), mas também em assuntos menos cha-
mativos, como, por exemplo, a posição da família e dos
consórcios semelhantes ao matrimônio, a aceitação de
normas de segurança ou a delimitação das esferas públi-
ca e privada – em tudo isso reflete-se amiúde apenas o
autoentendimento ético-político de uma cultura majo-
ritária, dominante por motivos históricos. Por causa de
tais regras, implicitamente repressivas, mesmo dentro de
uma comunidade republicana que garanta formalmen-
te a igualdade de direitos para todos, pode eclodir um (Wesley Samp. [Link], 17.12.2008.)

186 FILOSOFIA Capítulo 14 Filosofia contemporânea: ética e filosofia política

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Texto 
A concepção de real e virtual pensados como um contínuo se vê reforçada pela percepção de que um registro afeta o
outro. Tal ideia é sustentada por autores que concebem a internet como uma ferramenta para veicular as subjetividades de
nossa época, mas não só. […] Segundo Viganò, “o advento da internet contribui potencialmente para fazer da assim dita
realidade virtual um elemento constitutivo da realidade social”.
(Flávia Hasky e Isabel Fortes. “Desconstruindo polarizações acerca da internet: entrelaçamentos entre os universos on-line e off-line”. Psicologia em Pesquisa, 2022.)

O contraste entre esses textos permite retomar, na atualidade, uma clássica questão filosófica, “o que é real?”, pois a
a) análise das relações virtuais ocorre dissociada das relações presenciais.
b) ação individual segue inalterada ao longo do tempo.
c) invenção de novas tecnologias reformula o conceito de realidade.
d) disponibilidade de conexão à internet amplia o conhecimento humano.
e) criação de mídias digitais estimula a imaginação.

5. Enem 2016 Fundamos, como afirmam alguns cientistas, o antropoceno: uma nova era geológica com altíssimo poder de
destruição, fruto dos últimos séculos que significaram um transtorno perverso do equilíbrio do sistema-Terra. Como enfrentar
esta nova situação nunca ocorrida antes de forma globalizada e profunda? Temos pessoalmente trabalhado os paradigmas
da sustentabilidade e do cuidado como relação amigável e cooperativa para com a natureza. Queremos, agora, agregar a
ética da responsabilidade.
BOFF, L. Responsabilidade coletiva. Disponível em: [Link] Acesso em: 14 maio 2013.

A ética da responsabilidade protagonizada pelo filósofo alemão Hans Jonas e reivindicada no texto é expressa pela
máxima:
a) “A tua ação possa valer como norma para todos os homens.”
b) “A norma aceita por todos advenha da ação comunicativa e do discurso.”
c) “A tua ação possa produzir a máxima felicidade para a maioria das pessoas.”
d) “O teu agir almeje alcançar determinados fins que possam justificar os meios.”
e) “O efeito de tuas ações não destrua a possibilidade futura da vida das novas gerações.”

6. Unesp 2023 A ciência avançou tanto que as pessoas acham que não precisam mais morrer. Continuamos usando todos
os artifícios da tecnologia, da ciência, para endossar a fantasia de que todo mundo vai ter comida, todo mundo vai ter ge-
ladeira, todo mundo vai ter leito hospitalar e todo mundo vai morrer mais tarde. Isso é uma falsificação da vida. A ciência
e a tecnologia acham que a humanidade não só pode incidir impunemente sobre o planeta como será a última espécie
sobrevivente e a única a decolar daqui quando tudo for pelo ralo.
(Ailton Krenak. A vida não é útil, 2020. Adaptado.)

A situação criticada pelo filósofo e líder indígena Ailton Krenak é fruto de uma visão de mundo decorrente do pensa-
mento moderno, qual seja,
a) o mecanicismo cartesiano. d) o jusnaturalismo lockiano.
b) o idealismo hegeliano. e) o existencialismo sartriano.
c) o transcendentalismo kantiano.

Exercícios propostos

1. UEPG-PR 2018 Concebido por Adam Smith no século XVIII, o liberalismo é uma doutrina política e econômica que
possui características e princípios bastante peculiares. A respeito deste tema, assinale o que for correto.
 A doutrina liberal defende a livre organização dos trabalhadores em associações, sindicatos e partidos que re-
presentem os seus interesses. Para o liberalismo, é a organização dos trabalhadores que gerará salários justos
e direitos sociais garantidos.
 No liberalismo há o incentivo ao mérito, ou seja, todo indivíduo terá garantida igualdade de oportunidades e de-
pende apenas do seu esforço pessoal para alcançar seus objetivos e propósitos.
 Ideologicamente vinculado à perspectiva capitalista, o liberalismo constrói sua base argumentativa na defesa do
aumento da produção e na ideia de bem-estar material do indivíduo.
 No bojo do pensamento liberal, destaca-se o princípio de que, se em uma sociedade as leis fossem cumpridas
por todos, não haveria necessidade de que o Estado cobrasse impostos e investisse, por exemplo, na formação
FRENTE ÚNICA

de quadros militares.
 Enquanto doutrina, o liberalismo defende o Estado mínimo, ou seja, um Estado que pouco interfira na economia,
mas, ao mesmo tempo, garanta a propriedade privada, os direitos individuais, a liberdade religiosa e a segurança.
Soma:

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2. Enem PPL 2021 Para Rawls, a estrutura básica mais justa de uma sociedade é aquela que alguém escolheria se não
soubesse qual viria a ser seu papel particular no sistema de cooperação daquela sociedade.
LOVETT, F. Uma teoria da justiça, de John Rawls. Porto Alegre: Penso, 2013.

A teoria da justiça proposta pelo autor, conforme exposto no texto, pressupõe assumir uma posição hipotética
chamada de
a) reino de Deus. c) véu da ignorância. e) cálculo da felicidade.
b) mundo da utopia. d) estado de natureza.

3. UFPR 2015 A liberdade religiosa tem como contrapartida, de fato, uma pacificação do pluralismo das visões de mundo cujos
custos se mostraram desiguais. Até aqui, o Estado liberal só exige dos que são crentes entre seus cidadãos que dividam a sua
identidade, por assim dizer, em seus aspectos públicos e privados. São eles que têm de traduzir as suas convicções religiosas
para uma linguagem secular antes de tentar, com seus argumentos, obter o consentimento das maiorias. É assim que, quando
querem reclamar o estatuto de portador de direitos fundamentais para os óvulos fecundados fora do corpo materno, os católicos
e protestantes procuram hoje (talvez prematuramente) traduzir a imagem e semelhança a Deus da criatura humana para a lingua-
gem secular do direito constitucional. Mas a procura por argumentos voltados à aceitação universal só não levará a religião a ser
injustamente excluída da esfera pública, e a sociedade secular só será privada de importantes recursos para a criação de sentido,
caso o lado secular se mantenha sensível para a força de articulação das linguagens religiosas. Os limites entre os argumentos se-
culares e religiosos são inevitavelmente fluidos. Logo, o estabelecimento da fronteira controversa deve ser compreendido como
uma tarefa cooperativa em que se exija dos dois lados aceitar também a perspectiva do outro. [...] O senso comum democrati-
camente esclarecido não é algo singular, mas algo que descreve a constituição mental de uma esfera pública com muitas vozes.
HABERMAS, Jürgen. Fé e saber. Editora São Paulo: Unesp, 2013, p. 15-16.

Uma vez que “os limites entre os argumentos seculares e religiosos são inevitavelmente fluidos”, qual é, segundo
Habermas, a exigência básica para que ocorra um trabalho cooperativo entre as tradições religiosas e a tradição
secular do Estado liberal? Por quê?

4. UEM-PR 2022 Na contemporaneidade, a bioética especial aparece como reflexão sobre os limites da ciência a partir
de questões ligadas à clonagem, à transgenia, a células-tronco, à inseminação artificial, à manipulação genética, ao
aborto, à eutanásia, à experimentação clínica etc. Sobre a bioética, assinale o que for correto.
 A fim de testar novas tecnologias ou novos medicamentos, a utilização de cobaias humanas de forma indiscrimi-
nada se justifica pela possibilidade de benefícios à humanidade.
 A bioética pertence ao campo da axiologia, isto é, à ciência dos valores.
 A bioética, embora reivindique autonomia, é um ramo da ética que investiga as práticas médicas e científicas do
homem em relação a si próprio e à natureza.
 O juramento hipocrático descreve preocupações éticas que estabelecem critérios para as ações médicas.
 Doação de órgãos e de sangue fere os princípios da ética, pois o corpo é inviolável e constitui-se em proprie-
dade privada.
Soma:

5. Unesp 2019 Nosso conhecimento científico “está começando a nos capacitar a interferir diretamente nas bases biológicas
ou psicológicas da motivação humana, por meio de drogas ou por seleção ou engenharia genética, ou usando dispositivos
externos que interferem no cérebro ou nos processos de aprendizagem”, escreveram recentemente os filósofos Julian Savu-
lescu e Ingmar Persson. [...] James Hughes, especialista em bioética [...], defendeu o aprimoramento moral, afirmando que
ele deve ser voluntário e não coercitivo. “Com a ajuda da ciência, poderemos descobrir nossos caminhos para a felicidade
e virtude proporcionadas pela tecnologia”.
(Hillary Rosner. “Seria bom viver para sempre?” [Link], outubro de 2016.)

As possibilidades tecnológicas descritas no texto permitem afirmar que


a) o aprimoramento visado pelos pesquisadores desvaloriza o progresso técnico no campo neurocientífico.
b) tais interferências técnicas somente seriam possibilitadas sob um regime político totalitário.
c) ideais espiritualistas de meditação permitem concentração intensa da mente.
d) o caráter voluntário dos experimentos elimina a existência de controvérsias de natureza ética.
e) os recursos científicos estão direcionados ao aperfeiçoamento técnico da espécie humana.

6. Unesp 2023 Leia o trecho da entrevista com Frank B. Wilderson, professor de estudos afro-americanos na Univer-
sidade da Califórnia.
— O que é o afropessimismo?
— É uma lente de interpretação ou uma forma de teoria crítica. A maioria dos estudos raciais faz uma intervenção que
eu chamo de reformista, que é dizer: como as pessoas na Bahia, por exemplo, podem conseguir casas melhores? Estou mui-
to preocupado com essas perguntas. Mas, como um filósofo, um teórico crítico, não é nisso que emprego minha energia.

188 FILOSOFIA Capítulo 14 Filosofia contemporânea: ética e filosofia política

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Minha energia está baseada no trabalho do psiquiatra martinicano Frantz Fanon (1925-1961) e diz que, não importa aonde
você vá, a negritude gera uma ansiedade para todos. Essa ansiedade é performada e negociada, e vai ser diferente em Nova
Iorque e em Havana. Nós sugerimos que a escravidão é uma dinâmica racial que não terminou. Não importa o que digam
no discurso consciente, no inconsciente o corpo negro não é considerado um ser humano, mas um recurso para as pessoas.
(Ana Luiza Albuquerque. “Negros não são vistos como humanos, mas objetos, diz autor de ‘Afropessimismo’”.
[Link], 20.06.2021. Adaptado.)

Nesse texto, o conceito de afropessimismo, elaborado por Wilderson, expressa a


a) relevância dos estudos cognitivos. d) expansão das relações globais.
b) dificuldade de ascensão econômica. e) realização de renovação social.
c) retomada da tradição clássica.

Texto complementar

Ratzinger e Habermas: um diálogo entre dois antípodas


        
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FRENTE ÚNICA

Veja os principais assuntos e conceitos trabalhados neste capítulo acessando a seção Resumindo
no livro digital, na Plataforma Poliedro.

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Quer saber mais?

Site
NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Humanos (DUDH). Disponível em: [Link]
human-rights/universal-declaration/translations/english. Acesso em:  jun. .
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) é um documento-marco na história dos direitos humanos. Elaborada
por representantes de diferentes origens jurídicas e culturais de todas as regiões do mundo, a Declaração foi proclamada pela
Assembleia Geral das Nações Unidas em Paris, em  de dezembro de , por meio da Resolução  A (III) da Assembleia
Geral, como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações. É possível ler o documento na íntegra no site do
Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Filmes
Mar adentro. Direção: Alejandro Amenábar, . Classificação indicativa:  anos.
O filme fala sobre a luta pelo direito do suicídio assistido, trazendo uma boa reflexão a partir da filosofia libertária de Nozick.

Gattaca. Direção: Andrew Niccol, . Classificação indicativa:  anos.


Nessa ficção há uma civilização em que se pode optar pelo nascimento de seres frutos de manipulação genética e, portanto,
com níveis de desempenho superiores àqueles nascidos de modo natural. A genética determina posições sociais e laborais
das pessoas constantemente inspecionadas por meio de exames que controlam os lugares ocupados segundo as hierarquias
determinadas. Mas, nesse contexto, existe quem tente burlar as leis, superando a determinação imposta pela técnica.

A.I. – inteligência artificial. Direção: Steven Spielberg, . Classificação indicativa: livre.
O filme é instigante para pensar as questões relativas às críticas de John Searle à inteligência artificial.

Ex_machina: instinto artificial. Direção: Alex Garland, . Classificação indicativa:  anos.
O filme pode ser muito útil para uma discussão sobre o teste de Turing, mencionado na trama.

Exercícios complementares

1. Unesp 2021 É relativamente consensual que uma era biotecnológica se aproxima. Em um futuro cenário de desenvolvi-
mento biotecnológico, que será instaurado com o progresso tecnológico no século XXI, alterar-se-á um dos mais tradicionais
dilemas da moralidade. Em vez de enfrentarmos a questão de que atitudes e deveres morais temos para com os seres
compreendidos atualmente como animais não humanos (por exemplo, gato, cachorro, cavalo etc.), a questão será que obri-
gações teremos com outro tipo de não humano, isto é, os chamados pós-humanos. A pós-humanidade seria alcançada por
meio da aplicação de técnicas de manipulação, instrumentalização e artificialização da vida, do patrimônio biológico do
humano. O humano, por iniciativa própria e com vistas ao melhoramento da sua natureza, deixaria de ser humano.
(Murilo Mariano Vilaça e Maria Clara Marques Dias. “Transumanismo e o futuro (pós-)humano”. Physis – Revista de Saúde Coletiva, 2014. Adaptado.)

Ao tratar de aspectos da bioética, o texto propõe uma reflexão sobre


a) os conflitos atuais entre os humanos e os seres pós-humanos.
b) a procedência de recursos empregados nas pesquisas tecnológicas.
c) os limites técnicos das pesquisas em biotecnologia.
d) a amoralidade do esforço de imaginar e prever o futuro humano.
e) a necessidade futura de redefinição do conceito de humanidade.

2. UEL-PR Leia o texto a seguir.


Habermas distingue entre racionalidade instrumental e racionalidade comunicativa. A racionalidade comunicativa
ocorre quando os seres humanos recorrem à linguagem com o intuito de alcançar o entendimento não coagido sobre
algo, por exemplo, decidir sobre a maneira correta de agir (ação moral). A racionalidade instrumental, por sua vez, ocorre
quando os seres humanos utilizam as coisas do mundo, ou até mesmo outras pessoas, como meio para se alcançar um
fim (raciocínio meio e fim).
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a teoria da ação comunicativa de Habermas, é correto afirmar:
a) Contar uma mentira para outra pessoa buscando obter algo que desejamos e que sabemos que não recebería-
mos se disséssemos a verdade é um exemplo de racionalidade comunicativa.
b) Realizar um debate entre os alunos de turma da faculdade buscando decidir democraticamente a melhor maneira
de arrecadar fundos para o baile de formatura é um exemplo de racionalidade instrumental.
c) Um adolescente que diz para seu pai que vai dormir na casa de um amigo, mas, na verdade, vai para uma festa
com amigos, é um exemplo de racionalidade comunicativa.

190 FILOSOFIA Capítulo 14 Filosofia contemporânea: ética e filosofia política

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d) Alguém que decide economizar dinheiro durante vários anos a fim de fazer uma viagem para os Estados Unidos
da América é um exemplo de racionalidade instrumental.
e) Um grupo de amigos que se reúne para decidir democraticamente o que irão fazer com o dinheiro que ganharam
em um bolão da Mega Sena é um exemplo de racionalidade instrumental.

3. UEM-PR Jürgen Habermas (1929) é um dos principais representantes da chamada segunda geração da Escola de Frankfurt”.
Este filósofo elaborou “uma teoria social baseada no conceito de racionalidade comunicativa, que se contrapõe à razão
instrumental.
(ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 4ª. ed. revista.
São Paulo: Ed. Moderna, 2009. p. 200).

Segundo o pensamento de Jürgen Habermas, assinale o que for correto.


 Jürgen Habermas critica a filosofia de René Descartes, por considerá-la uma filosofia metafísica fundada em
uma reflexão solitária, centrada no sujeito.
 O positivismo é, para Jürgen Habermas, a teoria e o método mais seguro para alcançar um conhecimento pre-
ciso da realidade social.
 O uso da razão instrumental é, para Jürgen Habermas, válido, quando se trata de agir sobre objetos ou sobre
natureza, a fim de suprir as necessidades do homem.
 A razão discursiva, que fundamenta a teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas, tem como princípio que a
verdade só pode ser alcançada na relação intersubjetiva entre indivíduos que se dispõem a chegar a um consenso.
 Para Jürgen Habermas, o princípio da situação ideal de fala, mesmo sendo contrafactual, é necessário para evitar
que relações de poder possam desviar a linguagem de seu objetivo, isto é, alcançar o entendimento.
Soma:

4. UFSJ-MG 2013 O filósofo contemporâneo Peter Singer argumenta que cada indivíduo no mundo tem responsabilida-
de ética diante do sofrimento pela fome dos demais indivíduos. A omissão e a falta de ações efetivas na distribuição
das riquezas por parte dos governos, das empresas, dos indivíduos fazem que aqueles que vivem nos países mais
pobres sofram com a miséria, a doença, a morte. Para ele, permitir que alguém morra não é intrinsecamente diferente
de matar alguém. As diferenças entre essas atitudes são meramente externas e não nos eximem da responsabilidade
ética diante do sofrimento dos demais indivíduos.
Acerca dos conceitos de justiça distributiva e da responsabilidade social no pensamento contemporâneo, assinale
o que for correto.
 Segundo a visão liberal clássica, a preocupação com as consequências éticas das atividades econômicas seria
um obstáculo à eficiência dos negócios. A economia não poderia, portanto, ser gerida com base em virtudes morais.
 De acordo com Peter Singer, o mundo é capaz de produzir alimento suficiente para todos os seus habitantes,
porém populações sofrem de fome e de desnutrição devido à má distribuição dos recursos.
 As posturas éticas adotadas pelas empresas em suas atividades econômicas são baseadas nas decisões
morais livres de seus dirigentes.
 O indivíduo tem a responsabilidade ética de calcular as consequências de suas ações e de suas omissões
antes de tomar quaisquer decisões.
 Uma das diferenças externas entre “matar” e “deixar morrer” é o fato de que é mais difícil obedecer ao princí-
pio ético de que sempre devemos salvar todas as vidas possíveis do que obedecer ao princípio de que nunca
devemos matar pessoas.
Soma:

5. PUC-PR 2018 Leia o fragmento a seguir:


O imperativo categórico de Kant dizia: “Aja de modo que tu também possas querer que tua máxima se torne lei
geral”. Aqui, o “que tu possas” invocado é aquele da razão e de sua concordância consigo mesma: a partir da suposição
da existência de uma sociedade de atores humanos (seres racionais em ação), a ação deve existir de modo que possa ser
concebida, sem contradição, como exercício geral da comunidade. Chame-se atenção aqui para o fato de que a reflexão
básica da moral não é propriamente moral, mas lógica: o “poder” ou “não poder” querer expressa autocompatibilidade
ou incompatibilidade, e não aprovação moral ou desaprovação. Mas não existe nenhuma contradição em si na ideia
de que a humanidade cesse de existir, e dessa forma também nenhuma contradição em si na ideia de que a felicidade das
gerações presentes e seguintes possa ser paga com a infelicidade ou mesmo com a não existência de gerações pósteras –
tampouco, afinal, com a ideia contrária, de que a existência e a felicidade das gerações futuras seja paga com a infelici-
FRENTE ÚNICA

dade e mesmo com a eliminação parcial da presente. O sacrifício do futuro em prol do presente não é logicamente mais
refutável do que o sacrifício do presente a favor do futuro.
(JONAS, Hans. O Princípio Responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica.
Rio de Janeiro: Contraponto, 2006, p. 47).

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Considerando esta passagem, é CORRETO afirmar que Hans Jonas:
a) preserva o imperativo categórico de Kant, pois a ética deve tratar exclusivamente de seres humanos.
b) preserva o imperativo categórico de Kant, uma vez que o imperativo da responsabilidade é voltado
apenas para o momento.
c) modifica o imperativo categórico de Kant porque, segundo Kant, a ética trata exclusivamente da civilização
tecnológica.
d) modifica o imperativo categórico de Kant, considerando que podemos arriscar a nossa própria vida para proteger
a humanidade futura.
e) preserva o imperativo categórico de Kant, pois o imperativo da responsabilidade assume a característica de uni-
versalidade de forma hipotética, não prática.

6. UEM-PR A bioética situa-se no campo da axiologia. É um ramo da ética como disciplina que trata da investigação e
problematização específica das práticas médicas, das ciências biológicas e das relações humanas com o meio am-
biente. Com base na afirmação acima, assinale o que for correto.
 Hipócrates, ao declarar, no seu juramento, que jamais daria a um paciente um remédio mortal e às mulheres uma
substância abortiva, age em consonância com a axiologia da bioética.
 Emmanuel Levinas considera que a bioética deve preocupar-se com uma análise estrutural da sociedade como
produção da vida e das condições de saúde, mas também dos processos de exclusão social.
 Não é atribuição da bioética discutir os princípios morais que orientam a pesquisa científica, pois isso significa
colocar obstáculos ao progresso da ciência.
 A bioética está comprometida com a política, pois o cientista tem uma responsabilidade da qual não pode abdicar.
 Os resultados das descobertas científicas estiveram sempre a serviço da humanidade, portanto uma reflexão
sobre o sentido moral da prática científica é desnecessária.
Soma:

BNCC em foco
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1. Estudamos nesse capítulo que a filosofia política de Habermas trabalha com o conceito de diálogo comunicativo,
que procura romper com uma razão instrumentalizada, de acordo com a qual os fins justificam os meios, por uma de
caráter dialógico, o que permitiria a resolução de conflitos de forma pacífica, bem como o avanço de uma agenda
democrática. Cabe lembrar que, para a razão instrumental, a única preocupação é a eficiência. Já para a razão comu-
nicativa ou dialógica, é preciso considerar a intelegibilidade, o consenso e o compromisso de todos. Nesse contexto,
qual é o alcance das teorias de Habermas para o reconhecimento e a proteção dos grupos minoritários?
Discorra a partir de exemplos.
EM13CHS504
2. Quando tratamos de um regime político constitucional democrático, devemos considerar princípios éticos tais como
liberdade, igualdade e acesso equitativo aos meios de inserção e ascensão social. A filosofia política de John Rawls,
por exemplo, procura resolver essa problemática, por meio do uso dos conceitos de pacto social, véu de ignorância,
bem como os princípios de liberdade e igualdade de oprtunidades que, de alguma forma, devem estar equilibrados.
É preciso lembrar, portanto, que, de acordo com essse filósofo, uma constituição justa é aquela concebida por um
sujeito que, sem saber qual posição social irá ocupar, procura pensar em leis que sejam justas para todos. Tendo tais
conceitos em mente, como o Estado democrático pode diminuir a discriminação contra grupos minoritários sem ferir
o princípio da maioria?
Discorra a partir de exemplos.

192 FILOSOFIA Capítulo 14 Filosofia contemporânea: ética e filosofia política

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