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Mídias Sociais e Ativismo Contemporâneo

O livro 'Redes e Ruas' de Paolo Gerbaudo analisa o impacto das mídias sociais no ativismo contemporâneo, destacando como essas plataformas influenciam mobilizações políticas e a dinâmica social. Gerbaudo critica a ideia de horizontalidade absoluta nos movimentos sociais, enfatizando a importância de liderança e organização para o sucesso das ações coletivas. A obra oferece uma reflexão crítica sobre a relação entre tecnologia, política e a emergência de novas formas de ativismo na era digital.
Direitos autorais
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Mídias Sociais e Ativismo Contemporâneo

O livro 'Redes e Ruas' de Paolo Gerbaudo analisa o impacto das mídias sociais no ativismo contemporâneo, destacando como essas plataformas influenciam mobilizações políticas e a dinâmica social. Gerbaudo critica a ideia de horizontalidade absoluta nos movimentos sociais, enfatizando a importância de liderança e organização para o sucesso das ações coletivas. A obra oferece uma reflexão crítica sobre a relação entre tecnologia, política e a emergência de novas formas de ativismo na era digital.
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Paolo Gerbaudo

REDES
e Mídias sociais e
ativismo contemporâneo

RUAS
Tradução
Dafne Melo
 Paolo Gerbaudo, 2012.
 Editora Funilaria, 2021.

Tweets and the Streets: Social Media and Contemporary


Activism. Copyright  Paolo Gerbaudo, 2012. Publicado
originalmente por Pluto Press, Londres. [Link]

Tradução: Dafne Melo


Preparação: BR75 | Fred Hartje
Revisão: Fábio Fujita
Diagramação: Danielle Fróes
Imagem interna da capa: Ahmed Abd El-Fatah
Imagens internas do miolo: Lara Pelaez Madrid e Paolo Gerbaudo

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

O conteúdo deste livro está sob a Licença Creative Commons


Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Brasil.

Alberto D’Angelo
Amanda De Castro Spadotto
Caio Valiengo
Gisleine Scandiuzzi
Marilia Jahnel
Renata Del Vecchio
Rogério Fernandes dos Santos
Thaís Waldman

[Link]
@editorafunilaria
Sumário

7 Prefácio
Claudio Luis de Camargo Penteado e Rosemary Segurado

23 Nota à edição brasileira de Redes e ruas


Paolo Gerbaudo

31 Agradecimentos
33 Introdução
61 Reuniões entre amigos: mídia social e a
coreografia de assembleia
109 “Não somos gente de comentar e curtir”: a
coesão revolucionária da shabab-al-Facebook
151 “Não estamos no Facebook, estamos nas ruas!”:
colhendo a indignação
189 “A hashtag que (não) iniciou uma revolução”: a
laboriosa soma dos 99%
237 “Siga-me, mas não me peça para liderá-lo”,
organização líquida e liderança coreográfica
275 Conclusão
295 Apêndice
303 Bibliografia
Prefácio
Claudio Luis de Camargo Penteado1 e Rosemary Segurado2

A tradução do livro Redes e ruas: mídias sociais e ativismo con-


temporâneo,3 de Paolo Gerbaudo, professor do Departamento
de Humanidades Digitais e diretor do Centro de Cultura Di-
gital do King’s College em Londres, chega em um momento
importante do debate em torno dos efeitos das mídias sociais
sobre a democracia. Passados a euforia e o entusiasmo das
potencialidades democráticas das mídias sociais que cercaram
o começo desta década, percebe-se a necessidade de uma re-
7
flexão crítica, já presente nesta obra de Gerbaudo, quanto ao
papel desses dispositivos nas mobilizações e disputas políticas
de nossas sociedades cada vez mais digitalizadas.
Doutor em mídia e comunicação pelo Goldsmiths Colle-
ge (University of London), Paolo Gerbaudo tem como objeto

1. Claudio Luis de Camargo Penteado é professor da Universidade Fe-


deral do ABC. Mestre e Doutor em Ciências Sociais. Pesquisador
do Laboratório de Tecnologias Livres da UFABC e do Núcleo de
Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC/SP.
2. Rosemary Segurado é doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP,
pós-doutora em Comunicação e Política pela Universidade Rey Juan
Carlos de Madrid. Docente do Programa de Estudos Pós-graduados
em Ciências Sociais pela PUCSP e da Escola de Sociologia e Políti-
ca de São Paulo. Pesquisadora do NEAMP (Núcleo de Estudos em
Arte, Mídia e Política da PUC/SP).
3. Publicado originalmente em 2012 como Tweets and the Streets: Social
Media and Contemporary Activism pela Pluto Press.
de pesquisa o uso das mídias sociais pelo ativismo contempo-
râneo e, mais recentemente, incorpora em sua agenda a emer-
gência do populismo pelo uso das redes sociais de internet e
o surgimento dos partidos digitais na cena política. Por meio
de diversas parcerias e interlocuções com pesquisadores e pes-
quisadoras do Brasil, inclusive com visitas ao país, Gerbaudo
vem se consolidando como importante referência dentro dos
estudos sobre movimentos sociais e cultura digital. Seu olhar
crítico ao processo da entrada das tecnologias de informação e
comunicação nas práticas políticas contemporâneas possibili-
ta entender as transformações nas dinâmicas sociais, políticas
e culturais sem cair nas armadilhas de um tecnodeterminis-
mo ou de uma visão tecnofóbica, que caracterizaram o debate
acadêmico do começo do século XXI.
As plataformas de redes sociais na internet ganharam um
8
papel de destaque nas práticas políticas mundiais. No Brasil,
importantes processos políticos foram influenciados (direta
ou indiretamente) pelas mobilizações online. No rastro do
ciclo de protestos como os da Primavera Árabe, que derruba-
ram o ditador Mubarak no Egito, do movimento dos indig-
nados na Espanha e do Occupy Wall Street, todos retratados
neste livro, o Brasil assistiu a uma grande mobilização popular
e a protestos de rua em diversas cidades do país em junho
de 2013, marcadas pelo uso das mídias sociais como instru-
mento de convocação das pessoas, como forma de denúncia
da violência policial e como meio de produção de conteúdos
alternativos à mídia tradicional. As manifestações de junho de
2013 no Brasil despertam até os dias atuais diversas leituras
sobre as origens, as motivações e as transformações produ-
zidas em âmbito nacional; contudo, há um consenso sobre a
importância que as mídias sociais tiveram para mobilizar mi-
lhares de brasileiros e brasileiras que tomaram as ruas do país.
As redes sociais também foram empregadas nas mobi-
lizações contra Dilma Rousseff nos anos 2015-2016, resul-
tando no impeachment da presidenta eleita em 2014. No
ambiente das plataformas digitais, formaram-se redes de
ódio conservadoras e antipetistas, que, além de fazerem a
convocação para as manifestações contra Dilma Rousseff,
criaram um ecossistema de difusão de informações, desin-
formação e fake news que modificou a configuração do fun-
cionamento do debate público, abrindo espaço para a ascen-
são de grupos e lideranças conservadoras, autoritárias e com
grande capacidade de mobilização e influência digital.
Um dos resultados desse processo foi a eleição de Jair
Bolsonaro para a presidência do Brasil em 2018. Contra-
riando o receituário da ciência política que associa o sucesso
eleitoral à quantidade de tempo disponível no horário gra-
tuito de propaganda eleitoral (HGPE) e ao financiamento 9
de campanha, Bolsonaro foi eleito apesar de ter tido me-
nos tempo no HGPE e, oficialmente, realizado uma cam-
panha com menos recursos do que os outros concorrentes,
em razão do uso eficiente das mídias sociais. A campanha
bolsonarista encontrou nas plataformas das redes sociais na
internet um espaço para difusão, articulação e conexão de
uma visão de mundo representada por valores conservadores
da sociedade associada a setores reacionários do cristianis-
mo, às pautas liberais na economia e ao discurso punitivista
e autoritário em relação ao enfrentamento da violência e da
corrupção no país.
Nesse sentido, a proposta de Gerbaudo de “entender o
significado social das práticas midiáticas e das redes sociais
em particular” contribui para o atual debate em torno das
transformações das práticas políticas contemporâneas pelas
mídias sociais, seja por meio do ativismo, seja no âmbito do
debate público ou, até mesmo, pela influência que elas têm
exercido em processos eleitorais. A obra também ajuda a des-
mistificar e superar o debate entre ciberotimistas e ciberpessi-
mistas que marcou os primeiros estudos sobre as transforma-
ções da internet na vida social, econômica, política e cultural.
A leitura qualitativa dos processos da revolução egípcia, dos
indignados e do Occupy Wall Street permite identificar con-
tinuidades e descontinuidades na ação coletiva, assim como
o fim da dicotomia entre virtual e real, ao ligar as práticas
midiáticas dos ativistas às ações de ocupação do espaço públi-
co, sinalizando que não há mais separação entre o online e o
offline e que ambos fazem parte do ativismo contemporâneo.
Os dados coletados por Gerbaudo, por meio de uma in-
terpretação cultural e fenomenológica das práticas midiáti-
cas “concretas”, apontam para resultados contrários aos do
10
discurso “técnico-visionário” que transforma as mídias so-
ciais em um “fetiche” da ação coletiva, no qual as platafor-
mas de redes sociais são vistas como “armas” revolucionárias
e que representam a possibilidade de uma nova organização
social horizontal, sem a existência de líderes e centros de
poder, como símbolos da expressão da ideologia californiana
de Barbrook e Cameron (2018). Na perspectiva desses au-
tores, o ativismo é reduzido à conexão de indivíduos (indi-
vidualismo metodológico) que atuam de forma egoísta den-
tro das redes digitais, como uma expressão tecnológica do
neoliberalismo da economia das redes. Conforme Gerbaudo
argumenta, esse tipo de discurso reduz a ação coletiva ao uso
estratégico das tecnologias digitais, por meio da personali-
zação de frames de mobilização, e desconsidera os processos
coletivos de construção de significados, identidades coleti-
vas e narrativas compartilhadas constituídas e territorializa-
das nas ruas e nos acampamentos nas praças públicas.
Dilemas da horizontalidade e da
liderança no ativismo contemporâneo

O debate em torno da horizontalidade e da ausência de lide-


rança está presente nos movimentos sociais há pelo menos
uma década e, em muitas situações, consome mais tempo
sobre as formas organizativas do que as próprias pautas e
agendas dos movimentos. Em algumas situações, o formato
das redes é citado como garantia da horizontalidade e, nesse
caso, ser horizontal e não ter uma liderança específica torna-
-se a parte mais importante do movimento, demonstrando
um processo de essencialização em torno desse aspecto.
As entrevistas realizadas por Gerbaudo durante o pro-
cesso de pesquisa demonstram essa contradição: o desejo de
que todos assumam de forma igualitária o protagonismo das
ações, embora os próprios ativistas reconheçam as dificul- 11
dades de se pôr em prática os encaminhamentos das ações
discutidas nos fóruns e assembleias; é um desafio que acaba
sendo assumido por um seleto grupo de amigos atuantes no
movimento, criando o que Freeman (1972) denomina como
novas elites informais.
As tentativas de criação de novas formas de participação
configuram um aspecto que caracteriza os novos movimen-
tos sociais. Trata-se de uma problematização fundamental
a ser enfrentada. É preciso compreender que a organização
não pode ser tomada como sinônimo de burocratização do
movimento, mas como forma capaz de garantir que os espa-
ços de discussão das estratégias e táticas se desdobrem em
processos de mobilização.
A crítica à ideologia do “horizontalismo” é importante
para que se possa desenvolver uma análise conceitual que
possibilite compreender as potencialidades e também os li-
mites das formas de organização abertas e em rede (Haunss
e Leach, 2009), como mostra o estudo de Gerbaudo. Essas
formas têm a potencialidade de construir um processo par-
ticipativo, inclusivo e transparente capaz de evitar os vícios
dos movimentos tradicionais que incorrem recorrentemente
em processos de burocratização. Por outro lado, é impor-
tante reconhecer que todo processo de mobilização social
se constitui mediante relações assimétricas (Melucci, 1996a)
que podem até expressar desequilíbrios entre os sujeitos da
mobilização e os que são mobilizados.
Quanto à literatura de referência para esse debate, des-
tacamos três autores fundamentais: Manuel Castells (1996;
2009), com a noção de “rede”, e Hardt e Negri (2000; 2005;
2009), com a “cultura de enxame”. Essas noções são impor-
tantes, mas insuficientes para se compreender a ação cole-
12 tiva, justamente por não problematizarem a dispersão e o
individualismo como aspectos constitutivos da sociedade
contemporânea. Esse aspecto se mostra crucial à medida que
é amplamente utilizado pela discursividade neoliberal, que
aposta tanto na intensificação do individualismo quanto na
dispersão dos indivíduos, os quais passam a ser vistos como
empreendedores de si mesmos e, portanto, devem investir
suas energias para o sucesso pessoal em vez de empregá-las
no coletivo. Ao colocarmos essa questão no centro dos pro-
cessos políticos contemporâneos, vemos que o enfrentamen-
to dessa discursividade não se desenvolve simplesmente por
atuarmos em rede, pelo contrário, as estratégias neoliberais
também incorporaram as redes em suas dinâmicas, o que
tem significado, principalmente do ponto de vista da pro-
dução, formas ainda mais preocupantes de precarização e de
dispersão dos trabalhadores.
Castells é, sem dúvida, um dos grandes estudiosos sobre
os usos que os movimentos sociais fazem das redes digitais,
defendendo que estas são organizadas sem centralizações,
promovendo o que o autor define como “autocomunicação
de massa”, que seria a forma de garantir a ampliação de en-
gajamento social e político autonomamente, livre dos pro-
cessos de burocratização, e reforçando em alguma medida a
ideia de que as redes são espaços que garantem a horizonta-
lidade da ação política, capazes também de evitar o persona-
lismo que, muitas vezes, está presente na ação das lideranças.
O caráter corporal da ação coletiva também é muito im-
portante para a análise de Gerbaudo, sobretudo se obser-
varmos que os protestos analisados ocorreram em espaços
públicos considerados centrais em cada uma das respectivas
localidades. A ocupação dos espaços públicos está presente
nas reflexões de Hardt e Negri, embora não seja o objeto 13
central dos autores. Eles entendem que os protestos inicia-
dos no final de 2010 no Egito, e posteriormente na Espanha
e nos Estados Unidos, apresentaram uma mudança na for-
ma de organização das rebeldias em relação ao nomadismo
de ciclos de protestos anteriores, e defendem que esses mo-
vimentos passaram a ser “sedentários”, à medida que uti-
lizaram a tática de ocupação de espaços públicos centrais
como forma de manifestar seu descontentamento. É nesse
sentido que Hardt e Negri argumentam que a multidão é o
sujeito revolucionário da contemporaneidade composto por
uma multiplicidade irredutível, que ganha corpo a partir da
produção de um bem comum.
O conceito de enxame, também recorrente na literatura
de redes, é visto como a expressão dessa multidão que se
recusa a ser reduzida a uma só identidade e tem como tá-
tica a apropriação dos espaços públicos para a produção do
comum a partir da interação entre sujeitos.4 É nesse ponto
que Gerbaudo chama a atenção para a necessidade de nos
afastarmos da literatura clássica de movimentos sociais para
que possamos compreender as especificidades das novas
práticas sociais e políticas, lembrando que não necessaria-
mente é pré-requisito a existência de uma identidade forte
entre os ativistas para que eles atuem em uma luta comum.
Assim, o autor se distancia das interpretações oferecidas
por Castells, Hardt e Negri, que enfatizaram a ação coletiva
como algo que “brota espontaneamente” e que prescinde da
mediação e da articulação simbólica capaz de dar forma e
guiar o movimento.
É nesse ponto específico que Gerbaudo desenvolve um
diálogo estreito com Ernesto Laclau (2005), que vê como
aspecto fundamental para a organização dos movimentos
14 sociais a necessidade de um movimento proativo para que se
estabeleçam e se criem identidades profundas que possam
ser convertidas em força de sustentação da ação coletiva; e
com Chantal Mouffe (2018), que, em oposição ao conceito
de multidão, afirma que a constituição do povo ocorre a par-
tir de insatisfações e demandas sociais e políticas, sendo fun-
damental para os processos de resistência à pós-democracia.
Trata-se de construir um povo para a luta pela hegemonia.
Nesse sentido, o populismo de esquerda deve procurar recu-
perar e aprofundar a democracia, desenvolvendo uma estra-
tégia para articular as demandas em uma vontade coletiva, o
que para Mouffe significa “construir um ‘nós’, um ‘povo’” para
confrontar as elites que são os verdadeiros adversários. Para

4. Han (2016) utiliza o termo “do enxame” para fazer uma crítica em
relação ao debate em plataformas de redes digitais, contrapondo-se a
essa visão mais otimista da mobilização online.
que isso ocorra, é preciso criar uma cadeia de equivalências
entre as diversas demandas dos trabalhadores, dos precariza-
dos, das classes médias empobrecidas, de movimentos como
LGBTQIA+, feminista e negro, entre outros. Para a autora,
essa articulação é central na estratégia de radicalização da
democracia e na construção de uma nova hegemonia.

Conexão redes, ruas e praças: da coreografia


de assembleia aos acampamentos

Ao conectar as práticas midiáticas em redes sociais de inter-


net e a ocupação de espaços públicos realizada pelos ativistas
ao longo de 2011, no Egito, durante a Primavera Árabe, pe-
los indignados, na Espanha, e pelo Occupy Wall Street, nos
Estados Unidos, Gerbaudo introduz o conceito de “coreo-
15
grafia de assembleia” para estudar as mídias sociais na ação
coletiva contemporânea.
Segundo o autor, a comunicação e a interação nas plata-
formas de redes sociais permitem a criação de espaços (lo-
cais) nos quais as pessoas podem se encontrar e comparti-
lhar de forma coletiva significados, identidades e narrativas.
Contrariando a interpretação da abordagem da ação conec-
tiva (Bennett e Segerberg, 2014), que associa a mobilização
pelas mídias sociais a um processo de personalização e in-
dividualização da participação política, o estudo apresenta-
do neste livro indica a persistência da identidade como um
elemento central para a mobilização. Gerbaudo mostra que
as mídias sociais atuaram como fórum de encontros entre os
jovens ativistas na construção simbólica de um espaço pú-
blico (digital) que orientou a ocupação das ruas por pessoas
altamente individualizadas.
Como espaço de interação e sociabilidade, principal-
mente entre jovens descontentes com as formas de repre-
sentação política tradicionais, as mídias sociais auxiliaram
em um processo de “condensação moral” que orientou não
somente as ações e campanhas de mobilização online, mas
também a construção de um “cenário e roteiro emocional”
coletivo que se materializou pelas práticas coletivas e comu-
nitárias nas ruas. Em diálogo com a teoria de Laclau (2005),
Gerbaudo aponta que, nas coreografias de assembleia, se
produziram, nos casos estudados, cadeias de equivalência de
raiva e indignação e a construção discursiva de um povo, a
partir da identidade e das emoções, condições necessárias
para explicar a emergência de um ativismo que conecta re-
des e ruas.
A obra mostra que cada manifestação teve dinâmicas
16
diferenciadas e relacionadas com suas culturas políticas e
geografias urbanas locais. A interação entre os espaços di-
gitais e físicos possibilitou a materialização de coreografias
construídas nas mídias sociais, a partir da ocupação geográ-
fica e estratégica das ruas e da constituição dos acampamen-
tos e práticas coletivas e comunitárias offline. Essas ações
permitiram que as pessoas pudessem recuperar os espaços
públicos tradicionais (ruas e praças), esterilizados pelas prá-
ticas neoliberais de esvaziamento da política e do público
em geral.
Na revolução iniciada em janeiro de 2011 no Egito,
Gerbaudo argumenta que o Facebook foi a principal pla-
taforma de coreografia de assembleia dos ativistas egípcios,
tendo possibilitado a formação política e a construção de
uma identidade coletiva da shabab-al-Facebook, a juventu-
de egípcia cosmopolita conectada. O regime autoritário do
ditador Mubarak havia impossibilitado que oposicionistas
ocupassem o espaço público para a realização de protestos.
O Facebook, portanto, atuou como um “oásis” no qual jo-
vens de classe média desenvolveram uma cultura libertária
de questionamento político e a construção de uma iden-
tidade compartilhada, identificando um “inimigo comum”:
Hosni Mubarak e sua polícia. Não obstante, a revolução só
se materializou quando conseguiu a adesão de classes mais
baixas, mobilizadas pelas formas tradicionais de protestos
com a realização de “marchas alimentadoras” em diversas
regiões do Cairo, possibilitando a incorporação de novos
segmentos ao acampamento da praça Tahrir, local que se
tornou a principal “plataforma de coordenação do movi-
mento revolucionário”.
Já o movimento dos indignados na Espanha (15-M), por
sua vez, tendo lugar em um dos países da União Europeia
mais afetados pela crise econômica de 2008, foi formado 17
principalmente pela população jovem desempregada, tendo
como característica primordial a rejeição a “velhas” identi-
dades políticas de esquerda e direita em suas formas tradi-
cionais de representação, através dos partidos e sindicatos.
Essa mobilização se articulou em torno da defesa de uma
“democracia 2.0”, na qual a participação política poderia
ocorrer pelas plataformas de redes sociais. Assim como no
Egito, as mídias sociais na Espanha também contribuíram
para a formação de uma coreografia de assembleia, articula-
da na figura dos indignados, como resultado de um processo
de transformação de sentimentos individuais de raiva e in-
conformismo em uma identidade comum de luta política
solidária, que no caso espanhol foi representado pelo mo-
vimento Democracia Real Ya (DRY). Esse grupo político,
já estabelecido no espaço online com campanhas contra as
políticas de austeridade e corrupção, tornou-se o principal
polo de atração de jovens não politizados, articulando o ape-
lo do povo contra o sistema. As mídias sociais também de-
sempenharam um papel motivacional de incentivar a saída
da apatia e da passividade para que se pudesse expressar, nas
ruas, a indignação popular contra instituições corruptas.
Diferentemente de como se deu no Egito, o Twitter teve
um papel mais importante no ciclo de protestos na Espanha.
No ambiente virtual do microblog, foi constituída uma rede
de interação e mobilização pré-15-M entre ativistas, jorna-
listas, acadêmicos e apoiadores, que possibilitou um clima
favorável de adesão aos protestos de 15 de maio de 2011,
articulados em torno da hashtag #15M. A partir da ocu-
pação das praças e da formação dos acampamentos, o foco
do movimento se deslocou das redes para as ruas. Os acam-
pamentos nas praças também permitiram uma reapropria-
18
ção do espaço público, esterilizado até então pelas políticas
urbanas contemporâneas como mera via de passagem. As
dinâmicas comunitárias e de assembleia dos acampamentos
reinventaram práticas tradicionais de participação coletiva,
reunindo grupos difusos.
Por fim, o movimento Occupy Wall Street nos Esta-
dos Unidos seguiu um caminho diferente. Para Gerbaudo, o
Occupy foi resultado de um processo confuso e bagunçado
de mobilização nas redes, que só ganhou força a partir dos
primeiros acampamentos em Wall Street, no Zuccotti Park.
Aqui, ao contrário dos casos anteriores, as mídias sociais
atuaram parcialmente na formação de uma coreografia de
assembleia. O principal papel das redes sociais foi repercutir
os eventos de ocupação, auxiliando na sustentação e na coor-
denação dos ativistas, e também na evocação de um senti-
mento de solidariedade entre os acampados e os milhares de
apoiadores na internet. A conexão entre ruas e redes ocorreu
pelo uso tático do Twitter na comunicação entre os ativistas
e na cobertura das ações desenvolvidas nos acampamentos,
principalmente da repressão policial contra os manifestan-
tes, o que permitiu ao movimento ganhar apoio nas redes e
cristalizar o movimento no Tumblr We Are the 99 Percent.
Essa plataforma funcionou como ponto de encontro simbó-
lico, de produção da cadeia de equivalências (condensação
moral) que se articulou em torno de um povo representado
por narrativas pessoais de pessoas comuns (99% de vítimas)
lutando contra um sistema de produção de desigualdades e
injustiças que beneficia apenas 1% de uma elite.

Para além do ativismo

Neste livro, Gerbaudo também contribui para o debate so-


19
bre a emergência de lideranças populistas em diversos países
do mundo, tema que se incorpora em sua agenda de estudos
posteriores (Gerbaudo, 2015; 2017; 2018a; 2018b). A po-
pularização do acesso à internet por meio de aplicativos de
redes sociais em smartphones produz uma grande mudança
não só no ativismo contemporâneo, mas também no jogo
político, institucional e não institucional, principalmente
com a emergência de lideranças populistas, o que o autor vai
chamar de populismo 2.0 (Gerbaudo, 2018a).
A entrada de milhões de usuários no fluxo informacio-
nal, assim como a constituição de uma rede sociotécnica
alternativa de comunicação distribuída, altera os processos
de dominação da democracia liberal constituídos em torno
do controle informacional (de visibilidade e invisibilidade)
realizado pelas empresas de mídia tradicional. Nessa nova
configuração, grupos de extrema direita articulam por meio
de diferentes recursos a formação de uma identidade con-
servadora e autoritária, alinhando uma narrativa comparti-
lhada de “ameaças” aos cidadãos de bem (o usuário comum
das redes sociais), como comunismo, destruição dos valores
da família tradicional, corrupção, violência etc., em torno de
lideranças populistas. Essas lideranças conseguem canalizar
um discurso antissistema por meio do uso eficiente e estra-
tégico das mídias sociais na mobilização de emoções.5
A persistência da identidade, das lideranças, da impor-
tância das emoções, assim como de aspectos tecnopolíticos
da comunicação em plataformas privadas de redes sociais na
internet (que só recentemente foram incorporadas ao de-
bate acadêmico), traz desafios para pesquisadores, analistas
e interessados nas disputas políticas contemporâneas. As
abordagens de comportamento eleitoral da ciência políti-
20
ca, estruturadas em modelos econômicos de agregação de
indivíduos racionais buscando maximizar seus ganhos, e a
leitura da comunicação social da existência de uma esfera
pública orientada para a deliberação racional, que teria a
funcionalidade de excluir pontos de vistas “não racionais” e
ideológicos do debate público (produção de um consenso
em torno de uma racionalidade econômica), já não fazem
sentido na atual configuração social da maioria das socie-
dades contemporâneas, nas quais o debate público ocorre
nas (e pelas) plataformas de redes sociais mediante a mobi-
lização de identidades e afetos, assim como o modelo exclu-
dente da democracia liberal não foi capaz de cumprir suas
promessas de liberdade, igualdade e fraternidade.
As dinâmicas das redes digitais implodem o arranjo da
produção de consenso da democracia liberal que bloqueava a

5. Nos termos de Papacharissi (2015), affective publics.


entrada de lideranças populistas de direita e esquerda, assim
como vozes de dissenso ao sistema neoliberal. O político,
em sua natureza conflitiva (Mouffe, 2018), encontra nesse
novo ecossistema de comunicação espaço para a eclosão de
conflitos e de disputa hegemônica pela produção de sentidos
e narrativas, expressos em grandes mobilizações populares
(Primavera Árabe, indignados e Occupy Wall Street) e até
em projetos autoritários de poder (Trump, Bolsonaro, Or-
bán, Erdoğan, entre outros).
O esforço da editora Funilaria de traduzir Redes e ruas
ajudará a difundir as contribuições de Gerbaudo para a re-
flexão, bem como ajudará a estimular a realização de novos
estudos, sobre a ação coletiva que conecta o digital das mí-
dias sociais com as práticas e o repertório de lutas do ati-
vismo dos movimentos sociais e coletivos contemporâneos.
21
Nota à edição brasileira de
Redes e ruas
Paolo Gerbaudo

Muitas coisas mudaram desde a publicação de Redes


e ruas: mídias sociais e ativismo contemporâneo, que ocorreu no
hoje longínquo ano de 2012. A crise do coronavírus, com
traumáticos efeitos, contribui para fazer com que os anos
2010 pareçam ter ficado muito longe no passado, tendo ape-
nas uma influência limitada no presente. No entanto, para
compreendermos muitos dos fenômenos políticos que esta- 23
mos testemunhando atualmente, e em particular a forma de
comunicação política e de mobilização que se tornou um es-
teio de nossa era, precisamos voltar ao uso das mídias sociais
pelos movimentos de protesto de 2011, que constituiu um
ponto de inflexão fundamental para o desenvolvimento do
ativismo digital, o momento em que este atingiu maturidade
e adquiriu um caráter massivo. O ativismo digital, entendido
como um conjunto de formas de ativismo que se apoia no
uso de mídias digitais de todos os tipos, é, na verdade, um
fenômeno que antecede ao “movimento das praças” de 2011.
Já na segunda metade da década de 1990, a internet havia
se tornado cenário de todo tipo de experimentação por par-
te de artistas, jornalistas, acadêmicos e ativistas. Durante os
protestos antiglobalização na virada do milênio contra insti-
tuições econômicas internacionais, como o Banco Mundial,
a Organização Mundial do Comércio e o Fundo Monetário
Internacional, e corporações multinacionais, como McDon-
ald’s, Monsanto, Nike e Gap, ativistas recorreram aos novos
meios de comunicação da época: de listas de e-mails utiliza-
das para debates e organização a páginas como o Indymedia
como canal de contrainformação. A limitada penetração da
internet naquela época, entretanto, significava que os de-
bates do meio ativista estavam em grande parte distantes
do público em geral. No discurso interno do movimento,
a internet era concebida como um “espaço autônomo”, no
qual militantes podiam encontrar guarida frente a um sis-
tema midiático controlado por grandes grupos capitalistas
que apoiavam ideologicamente o consumismo – algo que o
movimento antiglobalização tinha como alvo.
O movimento das praças, em 2011, mudou de forma ra-
dical a abordagem da internet como espaço de mobilização
24
política. Os protestos da Primavera Árabe e os movimen-
tos antiausteridade dos indignados na Espanha, dos agana-
ktismenoi na Grécia e do Occupy Wall Street nos Estados
Unidos voltaram seus esforços de mobilização para as ti-
tânicas plataformas de mídia social que adquiriram proe-
minência a partir de meados dos anos 2000. O Twitter e
o Facebook vieram substituir progressivamente as páginas
de internet, os fóruns online e as listas de e-mails que ha-
viam sido o principal eixo do ativismo nos anos anteriores.
Em um momento em que essas plataformas ainda estavam
longe de ser dominantes e seus algoritmos (em particular o
do Facebook) favoreciam muito mais o “alcance orgânico”,
diferentes movimentos e grupos encontraram um espaço no
qual podiam provar o mesmo crescimento exponencial ex-
perimentado pelas próprias plataformas que os hospedavam.
É inegável que, naquela fase, a disponibilidade dessas redes
abriu novas oportunidades políticas para grupos outsiders,
que davam voz a queixas e a questões sociais que, embora
preocupassem grandes setores da população, tinham muito
pouca representação na grande mídia. Daí o motivo do en-
canto revolucionário que o Facebook ganhou no Egito e em
outros países, a ponto de se tornar uma palavra presente nos
grafites das cidades envolvidas em protestos.
Ao usarem habilmente a linguagem, a retórica e o estilo
predominante nessa plataforma, os recém-formados movi-
mentos puderam adquirir visibilidade e atrair um grande
número de seguidores. Essa abertura de novas oportuni-
dades foi talvez mais evidente nos países árabes, nos quais,
devido à forte censura dos velhos ditadores, as redes sociais
se tornaram um espaço em que era possível dizer todas as
coisas que não podiam ser ditas em outra parte da esfera
pública. Ideólogos norte-americanos próximos da então se-
cretária de Estado, Hillary Clinton, apresentaram isso como 25
uma evidência da validade de sua agenda de liberdade na
internet, com as mídias sociais atuando como um veículo
para democratizar todo o mundo. Foram declarações pro-
fundamente hipócritas, como ficou demonstrado pela forma
como os Estados Unidos se voltaram contra o movimen-
to pró-democracia no Egito e em outros países, embora no
início lhe tivessem dado as boas-vindas. A realidade é mais
complexa por natureza. Plataformas de mídia social, como
Facebook e Twitter, estavam apenas motivadas pelo lucro,
buscando o maior número possível de usuários e o máximo
possível de sua atenção e tempo. Porém, por sua vez, para
que essas plataformas fossem atraentes e gerassem lucros,
deveriam se apresentar como um espaço de liberdade de ex-
pressão, um lugar em que os usuários pudessem encontrar
conteúdos alternativos e uma possibilidade de autoexpressão
não disponível no sistema midiático existente. Os ativistas
dos movimentos de 2011 exploraram conscientemente essa
abertura, embora muitas vezes tivessem plena consciência
das desvantagens de usar plataformas de mídia corporativa.
A atitude deles em relação ao uso dessas plataformas foi ins-
trumental; sabiam de seu papel como meios de acumulação
de capital e de vigilância (antes que a cumplicidade com a
segurança do Estado se tornasse clara após as revelações de
Snowden, em 2013, sobre o programa Prism), mas estavam
convencidos de que a possibilidade de alcance oferecida por
essas plataformas superava suas desvantagens.
O apontamento-chave que faço neste livro é que, sobre
o uso das mídias sociais pelos ativistas na onda de ocupações
de praças em 2011, o importante era a implicação organi-
zacional que trazia e a forma como produzia consequências
para os tipos de mobilização travados pelos movimentos so-
26
ciais. Minha posição mais controversa foi uma censura ao
“horizontalismo”, entendido tanto como a defesa de formas
organizacionais não hierárquicas quanto a afirmação de que,
empiricamente, as mídias sociais levaram a um nivelamento
e descentralização do poder. Meu argumento – que só foi
reforçado pelas novas evidências que os anos subsequentes
trouxeram – foi que as mídias sociais não geraram uma con-
dição de “sem liderança”, como proclamado por muitos ati-
vistas na onda de 2011, especialmente aqueles de inclinação
mais anarquista. Muito pelo contrário, o papel-chave das
redes sociais consistia em apoiar novas formas de liderança,
o que, no decorrer do livro, descrevo como “liderança suave”
ou “liderança coreográfica”. O que quis dizer com esses ter-
mos foi que as mídias sociais se tornaram o principal meio
de influência dentro dos movimentos sociais, e os líderes e
equipes de mídias sociais – ativistas de grupos envolvidos
nas operações de comunicação – muitas vezes não queriam
ser vistos como líderes, mas desempenhavam esse papel no
fim das contas. Essa liderança suave se desenvolveu de ma-
neiras bem indiretas e facilitadoras, nas quais a presença do
líder permanecia invisível, embora sua ação fosse instrumen-
tal para dirigir o movimento. Um exemplo dessa liderança
suave pode ser visto na forma como as redes sociais foram
usadas para criar e orientar eventos de protesto por meio da
ferramenta de eventos no Facebook, tweets em tempo real
durante as manifestações ou por meio de instruções dadas
aos manifestantes, além de diversas outras ações envolvi-
das na estruturação do protesto, como escolher um nome,
uma identidade, um propósito e uma direção. Esse ressur-
gimento da liderança, intensificado pelo personalismo, pela
cultura das microcelebridades e pela distribuição enviesada
de visibilidade e atenção nas redes sociais, trouxe importan-
tes implicações políticas e éticas, já que com frequência a 27
pretensão da ausência de liderança poderia ser usada como
uma forma de os líderes não assumirem responsabilidades ​​e
da direção do movimento permanecer fora de vista, mesmo
para os participantes do protesto.
Acredito que alguns dos pontos de partida de Redes e
ruas permanecem relevantes no cenário político atual. A po-
lítica contemporânea é cada vez mais conduzida nas mídias
sociais, com as recentes campanhas eleitorais, do Reino Uni-
do aos Estados Unidos, passando pelo Brasil, sendo travadas
duramente em redes como Facebook, Twitter, Instagram e
aplicativos de mensagens instantâneas como WhatsApp.
Além disso, seria impensável movimentos contemporâneos
de protestos sem furiosas chamas sendo lançadas em grupos
do Facebook, tweets em tempo real sobre novas mobiliza-
ções como Black Lives Matter [Vidas Negras Importam],
ou memes de protesto de todos os tipos usados para​​ inspirar
participantes e difamar oponentes, ou ainda com o recente
uso político de novas plataformas de compartilhamento de
vídeo, como TikTok, por ativistas anti-Trump. A mídia so-
cial tornou-se ainda mais parte integrante da maneira como
os protestos são conduzidos. Isso também se aplica ao caso
brasileiro que, embora não seja abordado em Rede e ruas, foi
analisado em meu segundo livro, The Mask and the Flag. De
grupos de ativistas de mídia social como Mídia Ninja, ativos
já durante os protestos contra a Copa das Confederações de
2013 – também conhecido como Movimento V de Vinagre
– às campanhas lideradas no Twitter como o #elenão contra
Jair Bolsonaro, o Brasil tem sido um dos focos de novas prá-
ticas de organização e mobilização.
Dessa forma, algumas das questões que já eram eviden-
tes durante os protestos de 2011 se tornaram ainda mais
28
oportunas à medida que entramos na década de 2020. A
questão do poder informal dentro dos movimentos sociais e
a forma como as redes sociais medeiam esse poder ao mes-
mo tempo que o escondem permanecem na raiz de muitas
das lutas internas dentro dos movimentos sociais. Da mes-
ma forma, a questão da sustentabilidade organizacional e os
limites dos movimentos sociais, cuja dependência excessiva
de plataformas de mídia social muitas vezes os priva de ter
uma capacidade organizacional mais estruturada, explicam
a tendência de muitas mobilizações se dissiparem na mesma
velocidade com a qual vieram a público de forma destacada.
A esses e outros problemas, apenas parcialmente visíveis em
2011, muitos outros se somaram. Em primeiro lugar, a toxi-
cidade das discussões políticas nas redes sociais e o efeito de
desinibição produzido pela comunicação a uma distância se-
gura podem frequentemente engendrar confrontos viscerais
que destroem a energia e a determinação dos movimentos
sociais. Em segundo, o risco de um distanciamento entre
os debates nas redes sociais e as opiniões e sentimentos do
público em geral, o famoso efeito das bolhas ideológicas que,
embora parcialmente inevitável e anterior às redes sociais,
pode engendrar novas formas de isolamento. A isso deve-
mos adicionar o fato de que, ao contrário de 2011, com os
algoritmos das redes sociais mais voltados para conteúdos
promovidos, a rápida explosão de novos movimentos de
protesto se tornou agora mais difícil, e os algoritmos têm
contribuído para minar muitos movimentos sociais que ti-
veram bastante ímpeto no início dos anos 2010.
Com a sabedoria que o olhar em retrospectiva nos traz e
conscientes dos grandes desafios que enfrentaremos a partir
de 2020, em meio às devastadoras consequências econômi-
cas e sociais da crise do coronavírus, podemos dizer, entre-
tanto, que os movimentos de 2011 e suas práticas midiáticas 29
também nos oferecem algumas lições positivas fundamen-
tais que não devem ser esquecidas. O mais revigorante so-
bre essa onda de protesto foi sua inventividade populista, a
ideia de que as pessoas comuns não eram inimigas, parte de
uma “maioria silenciosa” inerentemente conservadora, mas
aliadas em potencial, e que as discussões nas mídias sociais,
por sua própria natureza aberta ao grande público, poderiam
oferecer a possibilidade de aumentar a conscientização das
pessoas, inspirá-las e motivá-las a agir contra os males e os
governantes que as afetavam. Esse é o elemento que tan-
to da perspectiva política quanto ética marcou o ponto de
partida mais forte em relação às ondas anteriores de movi-
mentos de contestação que tendiam a ser mais defensivos e
a se sentir distantes de preocupações públicas mais amplas,
em um momento de forte marginalização da esquerda. Pelo
menos esse foi o caso da Europa e dos Estados Unidos, mas
parte desse raciocínio também se aplica ao Brasil. Como já
mencionado, a adoção das mídias sociais como ferramentas
de protesto decorreu, em grande medida, dessa inventivi-
dade populista, da ideia de que os ativistas não deveriam se
esquivar das plataformas convencionais e de sua natureza
de espaços de encontros massivos. Como argumentava um
amigo, o antropólogo norte-americano Jeffrey Juris, faleci-
do em junho de 2020, os movimentos de 2011 usaram as
redes sociais como um meio de “reunir massas de indiví-
duos de diversas origens dentro de espaços físicos” ( Juris,
2016). Essa tarefa de mobilização das massas por meio do
uso das mídias sociais é tão importante agora como sempre
foi; é apenas aproveitando o poder disperso do povo que os
movimentos sociais podem reunir as forças necessárias para
derrotar o poder do dinheiro, a parcela de 1% de super-ricos
e superpoderosos que, dez anos depois do movimento das
30
praças, continua a dominar o mundo.

Agosto de 2020.
Agradecimentos

Como é o caso da maioria dos livros acadêmicos, esta


obra é resultado não apenas de um solitário trabalho de es-
crita, mas também de conversas com dezenas de pessoas com
as quais troquei ideias, desenvolvi debates e construí enten-
dimentos comuns. Sinto-me profundamente em dívida com
todas elas. Primeiramente, gostaria de agradecer pela dispo-
nibilidade e pela gentileza das oitenta pessoas entrevistadas
que ofereceram seus testemunhos e cujos nomes estão no
Apêndice. Essas entrevistas foram ocasiões preciosas para
31
conhecer pessoas apaixonadas que dedicaram energia na
luta por democracia, igualdade econômica e justiça social.
Também quero agradecer a todas as pessoas que se disponi-
bilizaram a mandar comentários e conselhos. Entre elas, um
grande agradecimento a Alice Mattoni, Patrick McCurdy e
Iman Hamam, verdadeiros companheiros de jornada duran-
te as fases de escrita e edição do livro, sempre à disposição
para oferecer comentários cuidadosos e críticas construtivas.
Também preciso expressar minha gratidão a Des Freed-
man, Samuel Toledano, Jo Littler, Alex Taylor, Nicola
Montagna, Ben Little, Joseph Hill e Emad el-Din Aysha
pelos comentários nos capítulos preliminares. Gostaria de
agradecer o apoio e a simpatia de meus colegas na Univer-
sidade de Middlesex durante os primeiros estágios de de-
senvolvimento deste livro, em particular Andrew Goffey,
Sarah Baker, Sophia Drakopoulos, Constantina Papoulias
e Vivienne Francis. Agradeço também a meus colegas do
Departamento de Sociologia, Antropologia, Psicologia e
Egitologia da Universidade Americana no Cairo, em par-
ticular Amy Holmes, Mohammed Tabishat, Ivan Panovic
e Mona Abaza. Além de meus colegas Alex Foti e Shimri
Zameret, bem como muitos outros amigos que me deram
ideias úteis durante a escrita. Agradeço pela ajuda dada por
alguns dos entrevistados que foram muito generosos em me
fornecer mais contatos. Estou em dívida com Sofía de Roa,
pelos muitos contatos na Espanha; com Shane Gill, que me
ajudou a fazer entrevistas seguras com membros do Occupy;
e com Hannah el-Sissi, por algumas das entrevistas condu-
zidas no Egito. Também quero expressar minha gratidão a
Mariluz Congosto, por disponibilizar uma seleção de tuítes
do movimento dos indignados, e ao grupo hacker R-shief,
por compartilhar seu conjunto de dados de tuítes sobre Oc-
32
cupy e a Primavera Árabe. Meu último e mais importante
agradecimento vai para minha companheira, Lara Pelaez
Madrid, por me acompanhar em diversas viagens que fiz
durante a produção deste livro e por ter me apoiado durante
as dificuldades nos momentos finais do estágio de edição.
A pesquisa foi possível graças ao Fundo do Reitor Assis-
tente da Universidade de Middlesex para as investigações na
Espanha e no Egito e a um subsídio da Academia Britânica
para a realização de pesquisas sobre novas mídias e políticas.
Sem os recursos disponibilizados, teria sido impossível co-
brir os custos substanciais na condução do trabalho de cam-
po que constituiu a base deste livro.
Introdução

Ok, e aí, #Tahrir alguém?


@Sarahngb – 15 de outubro de 2011
No dia 29 de julho de 2011, testemunhei o despejo
brutal do acampamento na praça Tahrir, no centro do Cairo.
Erguido em 8 de julho, o acampamento era o terceiro de
uma série de protestos pacíficos massivos que reocuparam
a praça após a caída de Hosni Mubarak, cada um deles di-
fundido por sua própria hashtag no Twitter, com a data de
seu início #Apr8, #Jun28 e #Jul8. Observando a cena por 35
trás de uma das cercas verdes de metal ao redor da praça,
vi pelotões de soldados destruindo as barracas montadas na
rotatória. Um grupo de aproximadamente duzentos mani-
festantes voltou a se reunir numa lateral da praça, próxima
ao Mogamma, a sede cinzenta da burocracia egípcia, com os
corpos colados ao asfalto. Depois de alguns minutos, as tro-
pas, formando um quadrado, avançaram e entraram na mul-
tidão, com cassetetes balançando no ar. Os manifestantes
resistiram ao primeiro ataque, mas depois vieram o segundo
e o terceiro. A multidão começou a se dispersar, fugindo dos
soldados, sozinhos ou em pequenos grupos.
A poucos metros à minha esquerda, notei uma jovem
egípcia em pé perto da cerca. Ela tinha vinte e poucos anos,
cabelos longos, cacheados, e usava óculos de grife. Imaginei
que fosse de uma das áreas ricas da cidade, como Maadi,
Mohandessin ou Nasr City. Parecia tão angustiada quan-
to eu ao testemunhar aquele ataque sem poder – ou sem
ser ousada o suficiente para – levantar o dedo para detê-
-los. Abriu a bolsa e tirou o que reconheci como um celular
HTC com um teclado deslizante, uma espécie de casamen-
to estranho entre um iPhone e um Blackberry. Apontou
a câmera do telefone para a praça, tirou uma foto de mais
uma prisão violenta e, em seguida, começou a digitar no
teclado. Olhou por alguns momentos para a tela antes de
apertar “enviar” e, imediatamente, guardou o telefone, preo-
cupada em ser observada e tornar-se alvo. Em determinado
momento, um grupo de manifestantes correu em direção
a nós, fugindo de um grupo de policiais militares que os
perseguiam. Ambos desaparecemos da praça, correndo em
direções opostas.
36
Enquanto escrevia este livro, muitas vezes voltei àquela
cena. Ela parece encapsular muito da experiência contem-
porânea de protesto, com sua interseção entre “as redes e
as ruas”, da comunicação mediada e de reuniões físicas em
espaços públicos. Nunca consegui rastrear o tuíte que aquela
jovem egípcia publicou naquele dia. O que me deixou pen-
sando: o que ela terá escrito? Será que estava apenas relatan-
do o que ocorria na praça? Ou incitava seus companheiros
tuiteiros a se unir num contra-ataque contra a polícia? Ou
sugeria a melhor forma de escapar da repressão ao se apro-
ximar da praça? Ou apenas gravava uma lembrança do pro-
testo para mostrar aos amigos? Quem leu o tuíte, e como es-
tariam reagindo? Seriam encorajados a se unir aos protestos
ou ficariam assustados? Quem era ela? Alguma “liderança”
ou uma “seguidora”? E será que toda essa tuitagem e retui-
tagem de fato importa quando se trata de influenciar a ação
coletiva, mobilizar e coordenar as pessoas envolvidas? Ou
tudo é apenas uma ilusão ativista, uma forma de se sentir
parte da ação quando se está às margens?
Essas e outras perguntas similares me perseguiram du-
rante o trabalho de campo etnográfico conduzido no curso
da pesquisa deste livro. Ao visitar o lugar onde diferentes
movimentos sociais floresceram durante 2011 – o que ren-
deu a este o rótulo de “ano do protesto”, como celebrado pela
revista Time1 –, de Cairo a Madri, passando por Barcelona
e Nova York, testemunhei manifestações múltiplas do uso
das mídias sociais por ativistas. Dentro desses movimentos
“populares” – populares porque apelam ao “povo” (Laclau,
2005), como a maioria da população em seus países –, ativis-
tas têm feito pleno uso “de um grupo de aplicativos baseados
na internet […] que permitem a criação e o intercâmbio de
conteúdo gerado por usuários” (Kaplan e Haenlein, 2010,
p. 60). Enquanto serviços de internet autogeridos como o 37
Indymedia e listas de distribuição de e-mails foram as mí-
dias escolhidas pelo movimento antiglobalização, os ativis-
tas contemporâneos têm se apropriado sem pudores de re-
des sociais corporativas como Facebook e Twitter.
Ao comentar essa adoção entusiasta das redes sociais,
especialistas e jornalistas recorreram prontamente a expres-
sões como “a revolução do Facebook” (Hauslohner, 2011)
ou “a revolução do Twitter”. No entanto, essa celebração do
poder emancipador das tecnologias de comunicação não
tem ajudado muito a entender como o uso dessas mídias re-
formula o “repertório de comunicação” (Mattoni, 2012) dos
movimentos e afeta a experiência de seus participantes. Um
dos perigos ao abordar o campo das mídias sociais é a possi-

1. A capa da revista Time, “Personalidade do Ano”, em 2011, foi dedica-


da ao “manifestante”.
bilidade de ser esmagado pela abundância e pela diversidade
das práticas comunicativas que elas canalizam. Como vere-
mos no decorrer deste livro, os usos das mídias sociais entre
ativistas são tão diversos quanto seus lugares. Elas são muito
usadas como um meio de representação, uma ferramenta
de “jornalismo cidadão” empregada para obter “atenção ex-
terna” (Aday et al., 2010), por exemplo, no uso de serviços
de transmissão ao vivo como Bambuser2 ou YouTube, em
vídeos que documentam episódios de brutalidade policial.
No entanto, o que é mais interessante e talvez lhes tenha
chamado a atenção, é seu uso “interno” ou “local” – como
meio de organização da ação coletiva e, mais especificamen-
te, como meio de mobilização na tarefa crucial de “levar as
pessoas para as ruas” (Lievrouw, 2011, p. 154).
O papel mobilizador das mídias sociais, que constitui
38
um tópico deste livro, já foi observado por diversos especia-
listas e jornalistas que se debruçaram sobre os movimentos
populares de 2011. Tuitando em 27 de janeiro sobre a re-
volução egípcia, o autor estadunidense Jared Cohen citou
um ativista egípcio que resumiu o uso ativista das mídias da
seguinte forma: “O Facebook é usado para marcar a data; o
Twitter, para compartilhar a logística; o YouTube, para mos-
trar ao mundo; todos eles, para conectar pessoas”. Em seu
relato extravagante do que chama de “revoluções de 2009-
-2011”, o jornalista da BBC Paul Mason listou as funciona-
lidades do “conjunto completo de ferramentas de informa-
ção” usado por ativistas contemporâneos:

Facebook é usado para formar grupos, secretos ou abertos, de


forma a estabelecer conexões fortes, mas flexíveis. Twitter é

2. Disponível em: [Link] Acesso em: 5 out. 2020.


usado para organização em tempo real e difusão de notícias,
contornando as complexas “curadorias” de notícias da mídia
corporativa. Páginas de fotografias vinculadas ao YouTube e
ao Twitter – Yfrog, Flickr e Twitpic – são usadas para forne-
cer evidências instantâneas das reivindicações que estão sen-
do feitas. Encurtadores de URL, como [Link], são usados para
difundir artigos importantes via Twitter. (Mason, 2012, p. 75)

Que diferença, porém, as redes sociais fazem de fato em


relação às formas pelas quais seus participantes se mobili-
zam e protestos são organizados, para além de operações
triviais como “determinar datas” ou “grupos abertos”? Seria
a importância delas meramente “técnica”, conforme citações
como a mencionada anteriormente sugerem?
Para entender o significado social das práticas midiá-
ticas e das redes sociais em particular, é útil fazer uma his- 39
toricização contrastando formas contemporâneas de co-
municação com as do passado. De certa maneira, a mídia
moderna sempre foi um canal pelo qual movimentos sociais
não apenas se comunicam, mas organizam suas ações e mo-
bilizam sua militância. Aqui, precisamos somente pensar na
descrição clássica de Lênin do jornal do Partido como “pro-
pagandista”, “agitador” e “organizador” da ação coletiva (Lê-
nin, 1969/1902). As mídias sociais podem ser vistas como o
equivalente contemporâneo do que o jornal, o cartaz, o pan-
fleto ou a carta direta eram para o movimento dos trabalha-
dores. São meios não só de expressar opiniões abstratas, mas
também de modelar a forma como as pessoas se encontram
e atuam conjuntamente, ou, para usar a linguagem metafó-
rica que será adotada neste livro, de coreografar a ação cole-
tiva. Com estrutura hierarquizada e centralizada, o jornal
do Partido aparecia como um reflexo perfeito da vanguarda
do Partido Leninista. Assim, o que mídias sociais como Fa-
cebook e Twitter, com suas multiplicidades e efemeridades
constitutivas, nos revelam dos movimentos que os adotaram
como meios-chave de comunicação?
Para explorar essas questões, realizarei uma análise qua-
litativa do uso ativista das mídias sociais nos movimentos
populares de 2011, enfocando seu papel como forma de
mobilização da ação coletiva. O estudo prossegue crono-
logicamente, começando com a Primavera Árabe e o uso
das mídias sociais durante o levante egípcio, analisando em
particular o papel desempenhado pela cosmopolita “juven-
tude do Facebook” como a principal força de mobilização.
Em seguida, discutem-se a adaptação e a transformação do
“modelo Tahrir” no contexto dos indignados na Espanha,
documentando a maneira como os organizadores usavam as
40
mídias sociais antes e depois dos protestos de 15 de maio
(15-M). Por fim, discutirei o uso das mídias sociais nas mo-
bilizações do movimento Occupy nos Estados Unidos e a
tortuosa interação entre comunicação online e organização
de base que caracterizou o surgimento desse movimento.
Esses diferentes movimentos sociais são analisados de modo
diacrônico, traçando as diferentes etapas de seu desenvolvi-
mento, reconstruindo o papel desempenhado pelas mídias
sociais em cada um deles e observando sua interação com
outras formas de comunicação.
De maneira empírica, utilizo um corpo de pesquisa et-
nográfica que compreende oitenta entrevistas com ativistas
e muitas observações de reuniões públicas realizadas princi-
palmente no Egito, na Espanha e nos Estados Unidos. Essa
metodologia permite uma apreciação do uso das mídias so-
ciais não sob uma “visão onisciente” oferecida pela pesquisa
quantitativa, com suas pesquisas sobre o uso da mídia pelos
usuários e suas visualizações de informações de tráfego do
Twitter, e sim uma visão mais “terrena” de como ativistas e
usuários usam essas ferramentas. Inicialmente, definiu-se
que este livro deveria incorporar estudos de caso de Grécia,
Tunísia e Reino Unido, onde também conduzi trabalhos
de campo. Acabei decidindo, por questões de espaço, aban-
donar esses estudos adicionais. No entanto, as entrevistas
realizadas nesses países foram usadas como dados para ve-
rificar a aplicabilidade geral das hipóteses que estou desen-
volvendo, e vou me referir diretamente a algumas delas no
Capítulo 5.
Aqui na Introdução, explicarei a essência da minha
abordagem ao estudo das mídias sociais e do ativismo – uma
abordagem desenvolvida em oposição ao tecno-otimismo
ilimitado de teóricos das mídias sociais, como Clay Shirky,
e ao tecnopessimismo de comentaristas como Evgeniy Mo- 41
rozov e Malcolm Gladwell. Meu argumento é que ambas as
posições são caracterizadas por uma visão essencialista das
mídias sociais como adequadas ou inadequadas como meio
de mobilização. Essas abordagens tendem a olhar as mídias
sociais de maneira abstrata, sem a devida atenção à sua in-
tervenção em geografias locais específicas ou sua inserção na
cultura dos movimentos sociais que as adotam. Proponho
que o elemento crucial na compreensão do papel dessas mí-
dias nos movimentos sociais contemporâneos seja a intera-
ção e a mediação de formas emergentes de reuniões públi-
cas, em particular os protestos em massa que se tornaram a
marca dos movimentos populares contemporâneos. Minha
opinião é que as mídias sociais foram as principais respon-
sáveis pela construção de uma coreografia de assembleia como
um processo de construção simbólica do espaço público que
facilita e orienta o encontro físico de um ativismo disperso
e individualizado. Junto com a ênfase na imbricação entre
mídia e localidade que alimenta este livro, minha principal
afirmação é que a introdução das mídias sociais nos mo-
vimentos sociais não resulta só numa situação de esponta-
neidade absoluta e participação desenfreada; pelo contrário,
administradores influentes do Facebook e tuiteiros ativistas
se tornam “líderes suaves” ou coreógrafos envolvidos na cria-
ção da cena e na construção de um espaço emocional dentro
do qual a ação coletiva pode se dar.

Para além do fetichismo do Twitter

Durante os confrontos entre os manifestantes e a polícia no


centro do Cairo em dezembro de 2011, não muito longe de
42 onde testemunhei a primeira cena retratada neste livro, ob-
servei alguns grafites em que o passarinho azul do Twitter
aparecia sob um círculo vermelho com um risco na diagonal.
Abaixo, a frase: “A revolução não será tuitada”, um trocadi-
lho com o famoso título da canção de Gil Scott-Heron, The
Revolution Will Not Be Televised,3 cujo último verso proclama
que, em vez disso, a revolução “será ao vivo”. Não é difícil en-
tender por que muitos ativistas no Egito e em outros lugares
sentem a necessidade de reiterar essa opinião sobre os tuítes
– proferida pela primeira vez pelo tecnopessimista Malcolm
Gladwell (2010) –, dada a extensão com que a revolução
egípcia foi banalizada como a “revolução das redes sociais”
pela mídia obcecada com a última moda da tecnologia.

3. A revolução não será televisionada. [Nota da Tradução, a partir de


agora: N.T.]
Pelo menos desde a adoção da internet pelo movimento
antiglobalização como uma importante ferramenta, a mídia
tem constantemente abordado o surgimento de qualquer
novo movimento em termos da tecnologia que o define.
Esse discurso atingiu seu ponto alto com o florescimento
da Primavera Árabe em 2011. Da CNN à BBC, “protesto
do Facebook” ou “protesto do Twitter” tornaram-se frases de
efeito repetidas obsessivamente durante a revolução de 18
dias que derrubou Mubarak. Após sua queda, blogueiros
egípcios e tuiteiros como Gigi Ibrahim e Sandmonkey fo-
ram instantaneamente alçados a celebridades, ou “micro-
celebridades” de um movimento social supostamente “sem
liderança”, enquanto novos programas como The Stream da
Al-Jazeera em inglês foram criados para aplaudir o poder
emancipatório das mídias sociais.
A celebração da revolução das mídias sociais também
alcançou os escalões mais altos da política. O tão esperado e 43
profetizado surgimento de uma “revolução do Facebook” foi
lido como uma confirmação do bom trabalho realizado pelo
Departamento de Estado estadunidense e de sua agenda de
“liberdade na internet”. Na crista da onda de felicitações, em
junho de 2011, Alec Ross, assessor sênior de Hillary Clin-
ton, chamou a internet de “Che Guevara do século XXI”.
Graças ao surgimento de novas mídias, “hierarquias estão
sendo niveladas”, declarou, num tom que não estaria fora de
lugar se viesse de um anarquista. “As pessoas no topo des-
sas hierarquias estão se vendo num terreno muito mais ins-
tável.” (Halliday, 2011) A mensagem era clara: a revolução
havia sido feita no Cairo, mas não teria ocorrido sem as mais
recentes tecnologias projetadas no Vale do Silício. Mark
Zuckerberg (CEO do Facebook) e Jack Dorsey (CEO do
Twitter) podem não estar nas barricadas, mas estavam ope-
rando na linha de suprimentos virtuais, por assim dizer.
Ninguém contribuiu mais para esse discurso tecnoce-
lebratório na academia do que o professor da Universidade
de Nova York Clay Shirky. A leitura de seus livros Lá vem
todo mundo: o poder de organizar sem organizações (2008) e A
cultura da participação: criatividade e generosidade no mun-
do conectado (2010) nos leva a uma apaixonada apologia
por tudo que seja tecnológico. Shirky argumenta que as
redes sociais são novas ferramentas que possibilitam no-
vas maneiras de formar grupos. Essas novas ferramentas
facilitam nossas vidas, tornam nossas comunicações cada
vez mais rápidas, ou seja, invariavelmente melhores: “Con-
forme mais pessoas adotam ferramentas sociais simples,
e conforme estas permitem comunicações cada vez mais
rápidas, a velocidade de ações de grupo também aumenta”
(2008, p. 161). No mundo de Shirky, os custos de transa-
44
ções diminuem, obstáculos à ação coletiva são removidos,
novas e mais eficientes formas de coordenação são criadas.
Agora que, graças a essas novas ferramentas, “a formação
de grupos passou de difícil a muito fácil, estamos vendo
uma explosão de experimentos com novos grupos e novos
tipos de grupos” (2008, p. 54).
Ao comentar os eventos no Egito e na Tunísia, Shirky
enfatizou o poder onipotente das mídias sociais como um
meio de ação coletiva. Num artigo publicado na Foreign Af-
fairs, afirmou que, “à medida que o cenário da comunicação
se torna mais denso, mais complexo, mais participativo, a
população em rede está obtendo maior acesso à informação,
mais oportunidades para se engajar em discursos públicos
e maior capacidade de empreender ações coletivas” (2011).
Aqui, mais informações são automaticamente vistas como
mais possibilidades de ação coletiva. Essa visão também é
exemplificada no relato de Paul Mason sobre o ativismo
contemporâneo: “Um fato é evidente: as pessoas sabem mais
do que costumavam saber […], têm acesso cada vez maior
e mais instantâneo ao conhecimento e maneiras confiáveis​​
de combater a desinformação. Por que uma revolução do
conhecimento e da tecnologia não produziria uma mudança
igualmente dramática – embora diametralmente oposta –
no comportamento humano?”, questiona (2012, p. 147).
Nem todo mundo concorda com essa visão otimista da
influência das mídias sociais nos movimentos sociais con-
temporâneos, segundo a qual mais informações se traduzem
automaticamente em mais ações coletivas. Se Shirky é o rei
dos tecno-otimistas, o estudioso da Bielorrússia Evgenyi
Morozov é o príncipe dos tecnopessimistas. Morozov, que
havia contribuído para o discurso celebrativo das mídias so-
ciais, denunciou mais recentemente, com vigor, os riscos do
“ativismo de sofá”,4 ou seja, “um ativismo que nos faz sentir 45
bem, mas que não tem impacto político ou social”, criando
“uma ilusão de um impacto significativo no mundo sem exi-
gir nada mais do que o ingresso num grupo de Facebook”
(Morozov, 2009).
Em seu livro The Net Delusion: the Dark Side of Internet
Freedom (2011), Morozov atacou a ideia de que a difusão de
tecnologia de comunicação feita nos Estados Unidos trará
automaticamente a democracia aos quatro cantos do mun-
do. Ele critica as visões tecno-otimistas que afirmam que “a
tecnologia empodera as pessoas, que, oprimidas por regimes
autoritários por anos, se rebelarão inevitavelmente, mobili-
zando-se por meio de mensagens de texto, Facebook, Twitter
e qualquer outra ferramenta que surja a cada ano” (Morozov,

4. No original, slacktivism, ou seja, o ativismo dos slackers (preguiçosos).


[N.T.]
2011, p. xii). Como ele observa, redes sociais como Twitter e
Facebook são usadas sobretudo para fins de entretenimento,
para compartilhar as próprias atividades diárias, e não para
a organização política. Além disso, alerta-nos corretamente
para o fato de que as mídias sociais podem criar sérios riscos
para os ativistas, dadas as maiores possibilidades de monito-
ramento pelo aparato de segurança do Estado.
Esse tipo de análise crítica do impacto das mídias sociais
no ativismo também foi adotado pelo escritor e autor best-
-seller da New Yorker, Malcolm Gladwell, cujo argumento
pode ser resumido pelos dizeres do grafite no Cairo: “A re-
volução não será tuitada”. Ações políticas radicais, argumen-
ta Gladwell, exigem laços fortes, como os identificados pelo
sociólogo de Stanford Doug McAdam entre os participan-
tes do Verão da Liberdade, nos anos 1960, no fim da Era Jim
46 Crow,5 em que muitos foram mortos por segregacionistas
(McAdam, 1988). As mídias sociais, na melhor das hipóte-
ses, criam laços débeis e, portanto, não são adequadas para
ações revolucionárias, argumenta Gladwell. Sua posição foi
ridicularizada por muitos teóricos após a evidência do papel
desempenhado pelas mídias sociais na Primavera Árabe. No
entanto, ao menos Gladwell e Morozov tiveram a coragem
de ir contra a maré de otimismo sem limites gerada por pes-
soas como Shirky.
Por si só, não há nada errado em afirmar a importância
das tecnologias da comunicação para os movimentos sociais.
Estudiosos do calibre de Sidney Tarrow (1994) e Benedict

5. As chamadas leis de Jim Crow foram leis estaduais e locais que im-
punham a segregação racial no sul dos Estados Unidos; começaram a
ser promulgadas no final do século XIX e foram aplicadas até 1965.
[N.T.]
Anderson (1991) discutiram bastante a influência da tec-
nologia de impressão na ascensão dos movimentos sociais
modernos. De fato, seria difícil falar sobre esses movimentos
sem mencionar todas as tecnologias envolvidas na divulgação
e na organização de suas ações: folhetos, cartazes, megafo-
nes, banners, televisão, jornais e similares. Além disso, numa
sociedade que transformou a tecnologia e a ciência numa
espécie de religião secular (Ellul, 1964), não surpreende
que os movimentos sociais estejam ansiosos por experimen-
tar o mais recente dispositivo eletrônico e se lançar como
propulsores da inovação.
O problema surge, porém, quando as mídias sociais são
transformadas num “fetiche” da ação coletiva; em outras pa-
lavras, quando tais mídias são dotadas de qualidades místi-
cas que apenas obscurecem o trabalho de grupos e ativistas
que as utilizam. Quando isso acontece, o discurso tecno- 47
visionário sobre as mídias sociais aparece como reflexo de
uma ideologia neoliberal, incapaz de entender a ação co-
letiva, exceto como resultado de algum milagre tecnológi-
co que rapidamente conecta indivíduos egoístas. Morozov
e Gladwell têm razão em suspeitar do otimismo excessivo
de Shirky e seus auxiliares, bem como da política neoliberal
que o sustenta. No entanto, correm o risco de cometer o erro
oposto, isto é, assumir que determinada tecnologia é ineren-
temente inadequada como canal de mobilização. Ao fazê-lo,
desconsideram o fato de que o processo de mobilização não
pode ser reduzido à disponibilidade material das tecnologias
adotadas, mas também envolve a construção de significados,
identidades e narrativas compartilhadas ( Johnston e Klan-
dermans, 1995).
Para elucidar esses aspectos do problema, proponho
neste livro uma interpretação cultural e fenomenológica do
papel das mídias sociais como meios de mobilização. Em
vez de me preocupar só com a eficiência ou não das diferen-
tes tecnologias de comunicação, atento-me ao que os ativis-
tas de fato fazem com elas, às “práticas midiáticas” concretas
e locais (Couldry, 2004) que desenvolvem em seu uso. Essa
abordagem ao estudo das mídias sociais nos permite recu-
perar muito do que se perde nos enfoques tecnodeterminis-
tas contemporâneos. Em particular, dedico muita atenção
ao papel desempenhado pela identidade e pelas emoções no
processo de mobilização e sua contribuição para a constru-
ção simbólica de um sentimento de unidade entre os ativis-
tas. O papel das emoções tem sido um assunto negligencia-
do nos estudos sobre movimentos sociais (Goodwin, Jasper
e Polletta, 2001) e nos estudos de novas mídias (Ben-Ze’ev,
2004). No entanto, como mostrarei, esse aspecto é crucial
48 para a compreensão de como as mídias sociais contribuem
para o processo de mobilização nos movimentos populares
contemporâneos, como reflexo de sua orientação “pessoal” e
da importância de sustentar um imaginário de “amizade” e
“compartilhamento” em seu uso.

Mídia social e quarteirões ocupados

Para superar a abstração e o essencialismo subjacentes ao


debate contemporâneo sobre as mídias sociais, precisamos
deixar essas “novas ferramentas” de lado por um momento e
pôr em primeiro plano o quadro geral. É impossível enten-
der o papel dessas mídias como meios de mobilização sem
uma apreciação das maneiras pelas quais elas intervêm em
movimentos sociais específicos e o modo como seu uso entre
ativistas reflete e representa valores, identidades e narrativas
que caracterizam esses movimentos. Para esse fim, precisa-
mos desenvolver uma análise das práticas de mídia social
que se debruce sobre a sua interação com outras formas de
comunicação e com a geografia física particular daquelas ci-
dades nas quais os movimentos sociais se manifestaram.
Os movimentos sociais analisados neste livro – o le-
vante egípcio, os indignados espanhóis e o estadunidense
Occupy – são marcados por uma enorme diversidade em
termos de cultura, composição social e natureza do siste-
ma político em que operam. É evidente que, em vista do
nível de repressão enfrentado pelos participantes e da in-
tensidade da mobilização, a revolução egípcia tem pouco
em comum com os movimentos que tentaram emulá-la
no Ocidente. Da mesma forma, as diferenças entre os in-
dignados e o Occupy são grandes, apesar de ambos terem
como alvo a crise econômica e as políticas de austerida- 49
de e de adotarem táticas e formas organizativas similares.
Tendo em vista que esses movimentos são mais nacionais
do que globais, refletem a especificidade de suas culturas.
Não obstante essas diferenças, também existem elementos
notáveis de comunalidade que nos permitirão vê-los como
parte de uma onda de protesto comum, com características
culturais semelhantes.
Em primeiro lugar, todos os três movimentos sociais
considerados neste livro são “populares”, ou seja, fazem um
apelo ao “povo” (Laclau, 2005) como a maioria da popula-
ção. Essa característica está perfeitamente condensada nas
palavras de ordem do Occupy, “somos os 99%”, assim como
bem representada na insurreição egípcia com “somos uma
mão” e nos indignados que afirmavam representar os espa-
nhóis “normais”. Esse caráter majoritário se refletiu não só
no discurso e no imaginário de cada movimento, mas tam-
bém na diversidade de seu círculo de apoiadores que abran-
gia muitas pessoas para além da juventude metropolitana
e idealista da classe média que, nos últimos anos, consti-
tuíram o “potencial de mobilização” dos chamados “novos
movimentos sociais” (Kriesi et al., 1995). O caráter majo-
ritário dos movimentos contemporâneos registra uma clara
diferença do movimento antiglobalização, que foi marcado
por uma identidade minoritária autoconsciente expressa na
declaração zapatista do subcomandante Marcos: “Marcos é
todas as minorias exploradas, marginalizadas e oprimidas re-
sistindo e dizendo ‘chega’” (Subcomandante Marcos, 1997).
Essa orientação minoritária do movimento antiglobaliza-
ção, com ênfase na diversidade e na autonomia, também teve
forte influência nas análises acadêmicas das novas práticas
midiáticas nos movimentos sociais, que viram a internet
50
como um meio de produzir autonomia e diversidade. Pode-
-se argumentar, no entanto, que precisamos questionar mui-
tos dos conceitos desenvolvidos nessas análises sobre o uso
da internet pelo movimento antiglobalização, pois demons-
tram ter pouca influência sobre os movimentos populares
contemporâneos. De fato, como veremos no decorrer deste
livro, em contraste com a “lógica das redes” ( Juris, 2008)
do movimento antiglobalização, os movimentos populares
contemporâneos são marcados por uma ênfase na unidade
e na adoção de práticas de “centralização” que ressoam na
descrição de “populismo” de Laclau (2005).
A manifestação mais evidente dessa ênfase na unida-
de tem sido a tática da manifestação em massa, a ocupa-
ção física do espaço público, que muitas vezes evolui para
um acampamento de protesto semipermanente. Isso levou
alguns a se referir às formas contemporâneas de protesto
como “movimentos de tomada de quarteirões” (Nunn, 2012)
ou “movimentos de ocupação”. Esses movimentos foram
todos envolvidos numa luta pela “apropriação do espaço
público” (Lefebvre, 1974/1991), recuperando ruas e pra-
ças para uso público e organização política. Se os ativistas
egípcios conseguiram captar a atenção de seus concidadãos
e do mundo em geral, isso se deve menos a páginas de Fa-
cebook e tuítes do que à ocupação física da praça Tahrir,
no centro do Cairo. Inspirados por esse exemplo, em 15 de
maio de 2011, ativistas espanhóis, bravos com “políticos e
banqueiros”, conseguiram conquistar o respeito da maioria
dos compatriotas e despertar a euforia de milhares de “in-
dignados” ao ocuparem pacificamente a Puerta del Sol, no
centro de Madri, por um mês, inspirando centenas de outras
ocupações pelo país. Depois da “Primavera Árabe” e do “ve-
rão europeu”, o “outono americano” também viu o renasci-
mento da importância do espaço público por meio da ação 51
do movimento Occupy, cujo próprio nome incentiva uma
ocupação das ruas por parte daqueles que foram mantidos
afastados delas durante os longos anos do consenso neolibe-
ral. Essas ocupações podem ser entendidas como rituais de
reunião popular, nos quais os indivíduos estão “fusionados”
(Alexander et al., 2006) num sujeito coletivo sob o nome de
“povo” (Laclau, 2005).
A importância da luta pelo espaço público nos movi-
mentos sociais contemporâneos nos convida a repensar a
forma como entendemos o papel das novas mídias e das
redes sociais em particular. Por um longo tempo, a análi-
se teórica localizou essas formas de comunicação em ou-
tro espaço, um ciberespaço ou espaço online, em oposição
ao espaço offline. Essa perspectiva é bem exemplificada
pela descrição de Manuel Castells da internet como uma
“rede de cérebros” (2009), que será analisada em detalhes
no próximo capítulo. Em oposição a essa visão desencarna-
da, precisamos entender a mídia em geral e as redes sociais
em particular como processos responsáveis por “reformular
a organização das cenas espaciais e temporais da vida so-
cial” (Barnett apud Couldry e McCarthy, 2004, p. 59), e
não como envolvida na construção de outro espaço “virtual”
desprovido de geografia física.
É evidente que, nesse nível, existe uma profunda contra-
dição entre as relações espaciais intrínsecas às duas práticas
que se tornaram marcas registradas da cultura de protesto
contemporânea: redes sociais e acampamentos de protesto.
Mídias sociais como Twitter e Facebook são meios de fa-
cilitar as conexões interpessoais a distância. Elas aparecem
como um reflexo perfeito da condição de individualização
52
(Bauman, 2001; Beck e Beck-Gernsheim, 2002) das socie-
dades contemporâneas, permitindo-nos lidar com os outros
sem que precisemos nos envolver totalmente com eles. De
uma perspectiva espacial, a experiência dos acampamentos
de protestos, com sua densidade de corpos em estreita pro-
ximidade física, aparece como o oposto do tipo de “pro-
ximidade virtual” (Bauman, 2003) facilitada pelas mídias
sociais. Os acampamentos de protesto são locais de intenso
comunitarismo, como é visto no contexto das assembleias e
na experiência cotidiana de comer, dormir, limpar e defen-
der o espaço coletivamente, o que, à primeira vista, parece
ter pouco em comum com a experiência gerada pelas mídias
sociais. Quais são as práticas envolvidas na conexão desses
dois polos contraditórios da ação coletiva contemporânea?
Como usuários do Facebook e tuiteiros são transformados
em “ocupantes”?
Uma coreografa emocional

Neste livro, argumento que as mídias sociais tiveram de fato


um impacto importante nos movimentos sociais de 2011,
mas que esse impacto é muito mais complexo e ambíguo do
que gurus como Shirky admitiriam. Sua principal contribui-
ção, entre os diferentes papéis atribuídos a elas, está no nível
da criação que neste livro chamo de coreografia de assembleia.
Isso deve ser entendido como um processo de construção
simbólica do espaço público, que gira em torno de um “ce-
nário” e um “roteiro” emocional (Alexander et al., 2006) do
encontro físico dos participantes. Essa prática é visível no
uso das mídias sociais ao direcionar pessoas para eventos de
protesto específicos, fornecendo aos participantes sugestões
e instruções sobre como agir e construindo uma narrativa
emocional para sustentar sua reunião no espaço público. As- 53
sim, em oposição aos autores que veem as mídias sociais e
as novas mídias geralmente como criadoras de um espaço
virtual ou cibernético alternativo (por exemplo, McCaughey
e Ayers, 2003), enfatizo como o uso das mídias sociais deve
ser entendido como complementar às formas existentes de
encontros presenciais – em vez de substituí-los – e também
como veículo para a criação de novas formas de proximidade
e interação face a face. Ao combaterem a dispersão espacial
das sociedades contemporâneas, as mensagens de Facebook e
tuítes de ativistas contribuíram para a construção de um novo
sentido de centralidade social, focado em “praças ocupadas”,
que são transformadas em locais de tendência6 ou de encontros
magnéticos, com um grande poder de atração emocional.

6. No original, trending places, fazendo referência a trending topic, como


no Twitter. [N.T.]
Ao mesmo tempo, enfatizo o risco de isolamento que
o uso das mídias sociais pode criar, quando esse uso não é
acompanhado de trabalho de rua e interação com aqueles
do outro lado da brecha digital, aqueles que, para usar uma
expressão ativista recorrente, “não têm Facebook”.
A adoção do termo “coreografia” serve para indicar
que o processo de construção simbólica do espaço pú-
blico, apesar do caráter participativo e das reivindicações
tecnolibertárias da cultura de protesto, não foi totalmente
“espontâneo” ou “sem liderança”, como muitos especialis-
tas, jornalistas, ativistas e acadêmicos sugeriram. (Gautney,
2011) Numa estrutura teórica, meu principal alvo ao longo
do livro é o discurso do “horizontalismo” ( Juris, 2008), in-
fluenciado por noções como “redes” (Castells, 1996; 2009)
e “enxames” (Hardt e Negri, 2000; 2005), que serão dis-
54
cutidas e criticadas no próximo capítulo. Argumento que,
longe de inaugurarem uma situação de absoluta “não lide-
rança”, as mídias sociais de fato facilitaram o surgimento
de formas de liderança complexas e “líquidas” (Bauman,
2000), ou “suaves”, que exploram o caráter interativo e
participativo das novas tecnologias de comunicação. Ad-
ministradores influentes no Facebook e ativistas tuiteiros
desempenharam um papel crucial na criação do cenário
para o encontro dos movimentos no espaço público, cons-
truindo identificações comuns e acumulando ou desen-
cadeando um impulso emocional para a reunião pública.
Assim como os coreógrafos convencionais no campo da
dança, esses organizadores principais são, na maior parte,
invisíveis no próprio palco. São líderes relutantes ou “anti-
liderança” – líderes que, adeptos da ideologia do horizon-
talismo, não querem ser vistos como líderes em primeiro
lugar, mas cujo trabalho de criação de cenas e roteiros foi
decisivo para trazer um grau de coerência à participação
espontânea e criativa das pessoas nos protestos.
Como mostrarei no decorrer deste livro, esse papel co-
reográfico das mídias sociais não pode ser reduzido a uma
atividade puramente instrumental, como forma quase militar
de coordenação tática (Arquilla e Ronfeldt, 2001; Rhein-
gold, 2003), permitindo que os ativistas se tornem “tão li-
vres quanto dançarinos, tão perspicazes quanto jogadores de
futebol, tão surpreendentes quanto guerrilheiros” (conforme
profetizado por Magnus Enzensberger em Hands, 2011,
p. 50). Em vez disso, de maneira decisiva, implica a cons-
trução simbólica de um sentimento de união e o estímulo a
uma tensão emocional que vai de conexões mediadas dis-
tantes à “efervescência” da proximidade física (Durkheim,
1965/1912). A forma de liderança “suave” evocada pela no-
ção de coreografia é aquela que explora o caráter pessoal das 55
mídias sociais e seu uso diário como meio de manter esferas
difusas de amizade e intimidade caracterizadas por uma vi-
brante emotividade. Mensagens no Facebook, tuítes e pos-
tagens em blogs constituíram canais de informação e canais
emocionais determinantes por meio dos quais os organiza-
dores condensaram sentimentos individuais de indignação,
raiva, orgulho e vitimização compartilhada, transforman-
do-os em paixões políticas que impulsionam o processo de
mobilização. Essas e outras mídias sociais foram usadas para
criar um sentido de comunalidade entre os participantes,
essencial para a mobilização de um ativismo espacialmente
disperso e socialmente diverso.
Essa característica emocional da coreografia de assem-
bleia reflete não só a natureza da mídia usada, mas também
o caráter popular desses movimentos. A cultura de protesto
contemporânea se sustenta numa narrativa de reunião popular,
que gira em torno de uma recomposição ou “fusão” de indi-
víduos num sujeito coletivo com ambições majoritárias. Nes-
se contexto, as mídias sociais têm atuado como um meio de
agregação coletiva, facilitando a convergência de indivíduos
díspares em torno de símbolos e lugares comuns, forjando
sua unidade apesar da diversidade. A desvantagem dessa
construção de unidade contra um sistema corrupto e brutal
é uma tendência a eliminar as diferenças entre os partici-
pantes. Essa é uma questão que incomodou alguns ativistas
antiautoritários, em especial aqueles que “cresceram” durante
os anos dos protestos antiglobalização na virada do milênio.
Dadas algumas amostras do argumento geral que será
apresentado a seguir, resta explicitar uma importante ressal-
va política. Este livro foi escrito sob uma perspectiva sim-
56
pática aos movimentos sociais em discussão. No entanto,
uma de minhas principais preocupações é evitar me tor-
nar apenas um apologista de suas ações. Esse é, a meu ver,
um erro frequente cometido por pesquisadores ativistas,
que correm o risco de transformar o trabalho acadêmico
numa homenagem comemorativa à ação coletiva, o que não
acrescenta muito ao nosso entendimento, nem serve como
propaganda eficaz do movimento. Pelo contrário, ao longo
da obra, estou constantemente preocupado em identificar
contradições, obstáculos e riscos enfrentados no desenvol-
vimento da ação coletiva e no uso das mídias sociais. Essa
abordagem crítica vem da minha convicção de que somen-
te revelando esses elementos negativos podemos entender
melhor a cultura de protesto contemporânea e, assim, aju-
dar os ativistas no desenvolvimento de novas formas de co-
municação e organização.
Resumo dos capítulos

O Capítulo 1 desenvolve uma estrutura teórica dentro da


qual é possível analisar a importância das práticas de mídia
social para os movimentos populares contemporâneos. Co-
meça pela avaliação crítica dos entendimentos dominantes
de ação coletiva, em particular os conceitos de “redes” e “en-
xames”, trabalhados por autores como Manuel Castells, An-
tonio Negri e Michael Hardt. Argumento que, ao enfatizar
a espontaneidade e a multiplicidade irredutível, essas noções
tendem a obscurecer as linhas de força inerentes ao processo
de mobilização e a negligenciar o fato de envolver a criação
de um sentido de união e de uma identidade comum. Isso é
particularmente relevante no caso dos movimentos popula-
res contemporâneos, como ilustrado pela criação de centros
físicos no espaço público. Ao contrário de Castells, Hardt e 57
Negri, resgato a importância da construção de um sentido
de unidade no centro do processo de mobilização. Proponho
olhar a mobilização como um processo de encontro sim-
bólico e material, encenado contra a situação de dispersão
espacial que caracteriza as sociedades pós-industriais. Esse
processo não é só físico, envolvendo também formas com-
plexas de mediação que me esforço para capturar por meio
da ideia de uma coreografia de assembleia.
O Capítulo 2 discute o papel das mídias sociais na re-
volução contra Mubarak no Egito. A revolução egípcia foi
caracterizada pelo protagonismo da juventude cosmopolita
conectada, a chamada shabab-al-Facebook. Mídias sociais,
em particular páginas do Facebook como Kullena Khaled
Said [Somos todos Khaled Said], foram vitais para instigar
a reunião do movimento no espaço público, facilitando uma
condensação emocional da raiva das pessoas em relação ao
regime e agindo como trampolim para a agitação nas ruas.
Uma vez que o movimento chegou às ruas, no entanto, esses
meios de comunicação se tornaram menos importantes do
que a comunicação face a face. A praça Tahrir, com a den-
sidade corporal que atraiu, passou a ser um farol físico para
a coordenação do movimento, motivo pelo qual o apagão
da comunicação imposto pelo regime de Mubarak teve um
efeito limitado. Além da shabab-al-Facebook, também dis-
cuto o papel de outro setor do movimento, a elite ativista
chamada de “paxás do Twitter”, destacando o risco de isola-
mento da sociedade em geral implicado em seu envolvimen-
to obsessivo com o site de microblogging.
O Capítulo 3 aborda o uso das mídias sociais nos pro-
testos dos indignados na Espanha, em 2011. Mostro como os
organizadores usaram o imaginário participativo das mídias
58
sociais e da internet para “colher” a frustração individual de
muitos espanhóis que não se sentiam representados por ne-
nhuma organização e para transformar essa frustração numa
paixão política coletiva tornada visível no espaço público. Na
segunda parte do capítulo, dedico-me ao uso das mídias so-
ciais na tentativa de sustentar o protesto. Argumento que a
ocupação da Puerta del Sol e as mensagens nas mídias so-
ciais que irradiavam dela criaram um centro simbólico e um
ponto focal para manter um sentido difuso de participação.
Os feeds do Twitter e a transmissão ao vivo geraram uma
atração pela praça, facilitando a mobilização de apoiadores e
simpatizantes em relação a esse centro simbólico.
O Capítulo 4 analisa o uso das mídias sociais como
meio de mobilização no movimento Occupy Wall Street,
nos Estados Unidos. Argumento que lá, em contraste com
os protestos no Egito e na Espanha, o uso das mídias so-
ciais inicialmente falhou como ponto de encontro para a
condensação emocional e como trampolim simbólico para a
participação. A convocatória original lançada pela Adbusters
falhou em garantir a mobilização de um grande número de
participantes, e foi necessária uma longa e laboriosa fase de
organização nas ruas antes que o movimento encontrasse
algum grau de coerência e uma identidade comum. Somen-
te quando os ativistas ocuparam o Zuccotti Park, páginas
como We Are the 99 Percent, no Tumblr, contribuíram para a
construção de uma identificação popular e a reunião de um
círculo eleitoral diverso além da comunidade de ativistas. No
caso do Occupy Wall Street, a mídia social, na maior parte,
foi uma extensão das ações que estavam ocorrendo no local.
Usando o Twitter, ativistas entraram em conversas emotivas
com simpatizantes, sustentando um sentido difuso de soli-
dariedade. Apenas alguns desses simpatizantes efetivamente
se juntaram à ocupação, testemunhando as dificuldades en- 59
volvidas em transformar simpatia em participação real.
O Capítulo 5 desenvolve uma análise comparativa do
uso das mídias sociais como meio de mobilização e seu pa-
pel na construção de uma coreografia de assembleia. Destaca
o fato de que as mídias sociais são usadas ​​como condutos
para práticas organizacionais líquidas desenvolvidas contra
o pano de fundo negativo das organizações burocráticas. No
entanto, esse caráter líquido e informal dos movimentos
contemporâneos não significa que eles não tenham líderes,
como se costuma afirmar. De fato, o uso das mídias sociais
é paralelo ao surgimento de novas formas de liderança in-
direta ou “coreográfica”, fazendo uso do caráter interativo e
pessoal das redes sociais. Nessa estrutura, o Twitter e o Fa-
cebook recebem diferentes funções. Enquanto este é usado
como plataforma de recrutamento para atrair novas pessoas,
aquele é empregado principalmente como meio de coorde-
nação interna dentro da comunidade ativista. O papel de
ambos como meios organizacionais é aprofundado, obser-
vando a maneira como são usados ​​na construção de uma
tensão emocional, criando um ímpeto e uma atração para os
locais de encontro.
A Conclusão reúne as descobertas que surgem nos ca-
pítulos anteriores e discute suas implicações. Ressalto como,
nos movimentos sociais contemporâneos, as mídias sociais
foram empregadas para gerar uma nova experiência de es-
paço público, encenada no contexto de uma sociedade de
dispersão. Analiso algumas das questões mais problemáticas
que apareceram com a discussão anterior, incluindo as ten-
sões entre os usos táticos e emocionais das mídias sociais,
entre organização e espontaneidade, entre efemeridade e
continuidade, bem como a questão da sustentabilidade dos
movimentos sociais contemporâneos em suas formas atuais.
60
Por fim, no Apêndice, a leitora e o leitor encontrarão a
lista dos oitenta entrevistados cujos testemunhos foram usa-
dos neste livro, juntamente com a descrição dos métodos de
amostragem e de entrevista adotados no decorrer da pesquisa
empírica. Todas as citações presentes no texto não atribuídas
a alguém especificamente foram retiradas dessas entrevistas.
Reuniões entre
amigos: mídia social
e a coreografia de
assembleia
No final de 2010, poucas semanas após o movimento
estudantil do Reino Unido ser derrotado pela aprovação das
reformas universitárias no Parlamento, a página do jornal
The Guardian se tornou palco de uma curiosa guerra de pala-
vras entre Laurie Penny, a jovem ativista tuiteira e colunista
do New Statesman, e Alex Callinicos, secretário do Partido
Socialista dos Trabalhadores (SWP, sigla em inglês), de fi- 63
liação trotskista. A troca de mensagens começou em 24 de
dezembro, com uma coluna intitulada “Fora a velha políti-
ca”, na qual Penny criticava o partido e sua forma de engaja-
mento em relação aos manifestantes:

É provável que, mesmo depois de um ataque nuclear, as úni-


cas formas de vida restantes sejam baratas e vendedores de
cara feia do Partido Socialista dos Trabalhadores. Surpreen-
dentemente, o jornal ainda é vendido em todas as manifesta-
ções a jovens ciberativistas, para quem o próprio conceito de
jornal está quase tão ultrapassado quanto a noção de unidade
ideológica como base para a ação. (2010)

No artigo, Penny contrastava o movimento estudantil


jovem, sem líderes, uma “hidra de Lerna”, cujas mídias fa-
voritas eram o Twitter e o Facebook, com a velha esquerda
burocrática, centralista e preguiçosa, condensada na forma
desatualizada de um jornal e na agressividade de seus vende-
dores ambulantes. Em sua resposta contundente, Callinicos
criticou a “ilusão de novidade absoluta” de Penny:

Os protestos estudantis têm sido, sob muitos aspectos, for-


mas tradicionais de ação coletiva. É verdade que a internet,
em particular o Facebook e outras mídias sociais, surgiu
como um meio de comunicação e mobilização muito po-
deroso. Mas o que eles ajudaram a realizar foram demons-
trações que confrontaram as forças e os símbolos do Estado
britânico não no ciberespaço, mas nas ruas. (2010)

A discussão entre Penny e Callinicos ilustra bem o de-


64
bate público acerca do impacto das mídias sociais nos movi-
mentos sociais contemporâneos. Nas intervenções de Penny,
encontramos uma série de ideias-chave que vieram caracte-
rizar o modo pelo qual ativistas contemporâneos entendem
a mudança de “velhas” para “novas” formas de ação coletiva
facilitadas pelas inovações tecnológicas. Por causa da dis-
ponibilidade das mídias sociais contemporâneas, ativistas
como Penny defendem que movimentos sociais podem não
ter lideranças e ser horizontais e espontâneos. Não precisam
mais enfrentar a questão da unidade, tão importante para
os dinossauros do Partido Socialista dos Trabalhadores, que
parecem estar presos à era de Gutenberg. A maioria dos
estudos produzidos nos últimos anos sobre o impacto das
novas mídias na sociedade contemporânea e no ativismo
em particular seguiu uma linha de raciocínio semelhante.
Eles afirmam que a internet permite relações mais flexíveis,
possibilitando que indivíduos interajam sem a necessidade
de coordenação central ou um sentido de unidade na exi-
bição da ação coletiva. Essa narrativa também é exempli-
ficada pelo relato de Paul Mason sobre os movimentos de
protesto contemporâneos, descritos por ele como “em rede”
e seus ativistas como “horizontalistas”. Em seu livro Why It’s
Kicking off Everywhere (2012), existem 118 ocorrências da
palavra “rede”. Há poucas dúvidas de que a ideia de protesto
em rede esteja atingindo seu clímax no debate sobre o ativis-
mo contemporâneo. Mas é essa realmente a melhor imagem
para capturar a dinâmica da mobilização dos movimentos
sociais contemporâneos e o papel desempenhado pelas mí-
dias sociais nesse processo?
Como alguém que se considera um libertário de es-
querda e que participou de campanhas de ação direta, tenho
poucas dúvidas em relação a simpatizar com Penny e Ma-
son ou Callinicos. Porém, depois de anos ouvindo os termos 65
“horizontal”, “aberto” e “em rede” pairando nos círculos ati-
vistas, fiquei cada vez mais desconfiado não só deles, mas
de toda a ideologia do “horizontalismo” ( Juris, 2008). Estou
convencido de que essa ideia tende a obscurecer as formas
de organização subjacentes à ação coletiva contemporânea
e às formas de hierarquia, ou “hierarquia de engajamento”
(Haunss e Leach, 2009), que continuam a existir também
dentro de organizações informais, como movimentos sociais
contemporâneos (Freeman, 1972). A ideologia do horizon-
talismo obscurece o fato de que o processo de mobilização
é constituído de desequilíbrios e relações assimétricas entre
aqueles que se mobilizam e os mobilizados, entre os que li-
deram o processo e os que o seguem (Melucci, 1996a). Além
disso, essa ideia remete a uma imagem da ação coletiva como
um processo estático e, portanto, ignora o caráter dinâmico
que associamos ao conceito de movimentos sociais, o fato de
serem “coisas que se movem”, como é evidente na etimologia
dessa noção sociológica em vários idiomas, do árabe ao ale-
mão, passando pelo inglês.
Há, contudo, uma crítica mais fundamental que precisa
ser dirigida ao imaginário do horizontalismo, com ênfase na
descentralização e na multiplicidade irredutível. A crítica se
volta para o fato de que o processo de mobilização envolve
principalmente um processo de reunião ou assembleia de
indivíduos e grupos em torno de algo que eles comparti-
lham em comum. Embora esse recurso seja indiscutivel-
mente comum a todos os movimentos sociais, é importante
no caso dos movimentos populares, dada sua tentativa de
mobilizar um círculo de ativistas diverso e disperso sob o
nome de “povo”. Esse aspecto foi muito bem ilustrado pelos
movimentos de 2011, que construíram protestos massivos
66
em longo prazo, semelhantes a rituais de reunião popular,
nos quais um ativismo antes disperso se “funde” (Alexander
et al., 2006) num ator coletivo. Ao enfatizarem a multipli-
cidade, os teóricos da rede negligenciaram a importância
contínua da questão da unidade e do companheirismo entre
os participantes. Em minha opinião, essa questão continua
a ser tão relevante como sempre na era das mídias sociais.
De todo modo, a multiplicação de canais comunicativos e a
individualização de nossas interações mediadas, sintetizadas
pela popularidade das mídias sociais, tornam essa questão
mais urgente.
Neste capítulo, quero abordar criticamente esse dis-
curso libertário do “horizontalismo”, além de desenvolver
uma estrutura conceitual para analisar o papel das mídias
sociais no processo de mobilização. O ponto de partida é
uma discussão dos dois principais conceitos que funda-
mentaram esse discurso: as metáforas de “rede” e “enxame”,
empregadas, respectivamente, por Manuel Castells (1996;
2009) e Hardt e Negri (2000; 2005; 2009). Esses autores
identificam corretamente uma condição de dispersão como
característica fundamental da experiência espacial nas so-
ciedades pós-industriais. Eles se opõem ao imaginário in-
dustrial da massa e da multidão, visando promover novas
subjetividades que escapam a reductio ad unum – a fusão
dos indivíduos num ator coletivo. O limite dessa linha-
gem teórica é que ela aceita a dispersão e o individualismo
como dimensões constitutivas da sociedade contemporâ-
nea, e não como ponto de partida no processo de cons-
trução da ação coletiva. Os riscos que enfrentamos numa
sociedade de rede e multidões são visíveis pela dispersão e
pelo isolamento que dominam a paisagem urbana, assim
como pelo perigo de isolamento inerente às mídias sociais,
com tendência a exacerbar a dinâmica de fragmentação so- 67
cial. Por si só, as mídias sociais não permitem que a ação
coletiva se desenvolva automaticamente sem que se tor-
nem canais para a construção de identidades comuns e de
redes robustas de solidariedade e confiança.
Com base no trabalho de uma série de autores, incluin-
do Zygmunt Bauman (2000; 2001), Hannah Arendt (1958),
Alberto Melucci (1996a; 1996b), Ernesto Laclau e Chan-
tal Mouffe (Laclau, 1996; 2005; Laclau e Mouffe, 1985),
desenvolvo um entendimento alternativo do processo de
mobilização, baseado na noção de “assembleia” ou “reunião”,
em vez de “rede”. No entanto, a dispersão espacial que ca-
racteriza o espaço social contemporâneo com seu “medo de
multidões” (Davis, 1992a) torna esse processo de reunião
problemático e requer práticas complexas de mediação sim-
bólica e tecnológica. Ao conceituar esse processo de media-
ção da montagem física por meio da noção de coreografia de
assembleia, propus a hipótese de que a ação coletiva nunca
é de todo espontânea, uma vez que a espontaneidade pura
não existe (Gramsci, 1971). Na verdade, na ausência de uma
estrutura organizacional formal, a ação coletiva é sempre
estruturada pelas formas de comunicação responsáveis por​​
“definir o cenário” para sua exibição.

Redes sem centros

Quando ativistas contemporâneos como Laurie Penny des-


crevem movimentos sociais como agregados horizontais
sem líderes, em geral o fazem recorrendo à linguagem das
redes. Nenhum conceito foi tão influente na captura do im-
pacto das novas mídias no ativismo quanto testemunhado
pelo grande número de ocorrências do termo no discurso
68
ativista contemporâneo. O conceito em si não é tão novo
assim. Desde os tempos do filósofo francês Saint Simon,
pelo menos, que fantasiou sobre redes de canais que unis-
sem toda a Europa, ele tem sido usado para evocar um
imaginário de modernização e conexão social (Mattelart,
1996). Além disso, desde a década de 1960, o termo tem
sido usado na sociologia em relação à dinâmica de grupos
de amigos, parentes, colegas e companheiros. Mas foi o so-
ciólogo catalão Manuel Castells que popularizou o termo
entre ativistas contemporâneos, transformando-o de uma
categoria analítica, quase técnica, numa metáfora espacial
abrangente para descrever a “morfologia” das sociedades
pós-industriais. Usado para expressar a ideia de flexibili-
dade crescente e de descentralização, o conceito logo se
tornou um ponto de referência padrão para muitos autores
que estudam o impacto das novas mídias no ativismo con-
temporâneo (ver, por exemplo, Van de Donk et al., 2004;
McCaughey e Ayers, 2003).
Em essência, a tese proposta por Castells afirma uma
mudança histórica das estruturas piramidais característi-
cas das organizações burocráticas – a empresa, o partido
e o Estado – para a estrutura em redes. Para o autor, as
instituições econômicas, sociais e políticas “sólidas” e “rígi-
das” da sociedade de massa, bem descritas por Max Weber,
deram lugar a estruturas mais flexíveis e adaptáveis. Isso,
antes de mais nada, é consequência da inovação tecnoló-
gica. A revolução da microeletrônica, a partir da década
de 1960, criou as condições necessárias para novas formas
de comunicação e cooperação, que não exigiam mais coor-
denação central (Castells, 2000). Tais mudanças societais
investem em diferentes atividades sociais – da economia
aos movimentos sociais, passando pelo narcotráfico, toda 69
a sociedade é reestruturada segundo o modelo de redes
(Castells, 1996; 2000).
Essa descrição do desenvolvimento de tecnologias de
rede também influencia o funcionamento da chamada web
2.0. As mídias sociais, em particular, são caracterizadas por
um alto grau de interatividade e pelo foco no conteúdo cria-
do pelo usuário. Na prática, isso significa que os usuários
também são, em grande parte, “produtores” em interações
comunicativas. As mídias sociais tipificam a natureza da
“cultura participativa” que Henry Jenkins sugere ser uma ca-
racterística subjacente do cenário da mídia contemporânea,
no qual as pessoas não estão mais somente posicionadas no
fim dos processos de comunicação (2006). Castells descreveu
esse cenário da mídia como dominado por um paradigma de
“autocomunicação em massa”, no qual indivíduos e grupos
podem transmitir suas mensagens para grandes audiências
(2009). Para ele, o advento da autocomunicação em massa
carrega a promessa de autonomia baseada em estruturas bu-
rocráticas e no aumento das possibilidades de engajamento
político e social vindo de baixo.
Essa narrativa evolucionária é colorida por um espíri-
to antiautoritário. A discussão de Castells ressoa na ênfase
em autodeterminação e autogestão apresentada pelos mo-
vimentos culturais das décadas de 1960 e 1970. O próprio
Castells observa que, além do surgimento de novas tecno-
logias, o “paradigma de rede” foi nutrido pela cultura li-
bertária e participativa inaugurada por novos movimentos
sociais, como o ambientalismo, o feminismo e o movimen-
to estudantil (2004). Crucial nesse contexto é a ênfase na
horizontalidade e na descentralização, uma vez que, “por
definição, uma rede não tem centro” (2000, p. 15). Para ele,
70
essas novas formas de cooperação em rede emancipam os
grupos sociais da lógica de comando de cima para baixo e
da necessidade de líderes.
Tendo em vista esse elemento antiautoritário, não sur-
preende que a linguagem das redes tenha sido adotada com
entusiasmo por grupos ativistas dentro do emergente movi-
mento antiglobalização – ou, de maneira mais positiva, “al-
terglobalização”. David Graeber provavelmente estava certo
quando observou que, embora muitos no movimento não se
definissem como anarquistas, o “anarquismo é o coração do
movimento, sua alma; a fonte da maior parte daquilo que
é novo e esperançoso nele” (2002, p. 2). Desde o início dos
protestos em Seattle, em 1999, o movimento antiglobaliza-
ção foi marcado por uma estratégia libertária na auto-orga-
nização e na ação direta. Para esses ativistas, o imaginário
das redes passou a fornecer um termo de referência útil para
definir formas flexíveis e anti-hierárquicas de organização,
num momento marcado pela difusão da internet como im-
portante plataforma para a comunicação de protesto.
E-mails, listas de servidores, sites do Centro de Mídia
Independente e fóruns se tornaram o conjunto de ferramen-
tas comunicativas de uma “nova maneira de fazer política”,
cuja lógica fundamental era a “rede” ( Juris, 2008). Em artigo
publicado na Socialist Register, a jornalista canadense Naomi
Klein descreveu a relação entre o movimento e a internet
nos seguintes termos:

Em vez de um único movimento, o que está surgindo são


milhares de movimentos vinculados entre si, como os links
que conectam seus sites na internet. Essa analogia é mais
do que uma coincidência; é, de fato, a chave para entender
a natureza mutável da organização política. Embora muitos
tenham observado que os recentes protestos em massa não 71
teriam sido possíveis sem a internet, o que foi subestimado
é como a tecnologia comunicacional que facilita essas cam-
panhas está moldando o movimento à sua própria imagem.
Graças à internet, as mobilizações podem se desenvolver
com pouca burocracia e uma hierarquia mínima; o consenso
forçado e os manifestos rebuscados estão ficando em segun-
do plano, substituídos por uma cultura de troca de informa-
ções constante, pouco estruturada e, por vezes, compulsiva.
(2002, p. 4)

O movimento antiglobalização veio a ser visto (e a ver a


si mesmo) como um reflexo de sua estrutura comunicacio-
nal. O que em movimentos anteriores teria sido chamado
de grupos, associações ou coletivos, agora frequentemente
recebe o nome de redes, de forma a expressar sua adesão a
esse novo modelo de organização.
O nível de popularidade do paradigma de rede dentro
do movimento antiglobalização pode ser apreciado pela
leitura do relato etnográfico produzido por Jeffrey Juris, ele
próprio aluno de Manuel Castells. Juris desenvolve sua aná-
lise sob o ponto de vista de grupos de ativistas em Barcelona
e analisa os protestos em Praga e Gênova, afirmando que a
“lógica da rede” está no cerne da política desses novos mo-
vimentos, que praticam uma política sem líderes baseada na
tomada de decisões de forma consensual e na participação.
Determinante para sustentar esses valores é um investimen-
to na produção e na circulação de informações, como mos-
tram as práticas do “Indymedia, culture jamming, comuni-
cação de guerrilha e desobediência civil eletrônica” (2008,
p. 284). Para Juris, “expandir e diversificar redes é mais do
que um objetivo organizacional concreto; é também uma
72
meta política altamente valorizada”. As redes são “um ideal
emergente”, a prefiguração de uma sociedade “autoprodu-
zida, autodesenvolvida e autogestionada”, um modelo para
reorganizar a sociedade na direção de uma “utopia informa-
cional” ( Juris, 2008, p. 15).
O problema dessa análise é que, apesar de refletir fiel-
mente o discurso ativista, corre o risco de aceitá-lo por seu
valor autodeclarado, como uma descrição empírica do que
acontece “nas ruas”. O espaço de participação do movimento
antiglobalização, ou pelo menos daqueles grupos que Juris
chama de “movimentos em rede”, é descrito como um mo-
vimento “aberto” e “horizontal”. O próprio Juris admite que
nem tudo é tão suave e sem atritos quanto esses termos po-
dem sugerir, e que sempre existem obstáculos que limitam
possibilidades radicais ( Juris, 2008). No entanto, parece ig-
norar o fato de que a presença contínua de hierarquias é me-
nos uma anomalia isolada a ser substituída com perseverança
e boa vontade do que um elemento não eliminável do tipo de
política informal alimentada por grupos de ação direta.
Sabemos por acadêmicos ativistas, como a escritora fe-
minista Jo Freeman, que os tipos informais de organização
que têm dominado os chamados “novos movimentos so-
ciais” desde a década de 1960 e dos quais os “movimentos
em rede” contemporâneos podem ser considerados herdei-
ros desenvolvem seus próprios tipos de hierarquias infor-
mais. Apesar da recusa em terem líderes formais e estruturas
organizacionais claras, esses movimentos costumam ser do-
minados por panelinhas pequenas e exclusivas formadas em
torno de relações de amizade. A falta de estrutura, entendi-
da como uma reação saudável às “sociedades superestrutu-
radas”, se torna uma “deusa” por si só (Freeman, 1972). Na
ausência de estruturas organizacionais formais, redes exclu-
sivas de amizade se transformam em canais de coordenação 73
dentro dos movimentos sociais, criando “novas elites infor-
mais” (Freeman, 1972). A ideologia da ausência de estrutura
se torna, assim, uma forma astuta de contornar a questão
da liderança e permite que os líderes de fato permaneçam
inexplicáveis porque invisíveis. Embora eu simpatize com a
crítica de Juris à política leninista, estou convencido de que
sua confiança em conceitos quase metafísicos como “aber-
tura” e “horizontalidade” constitui um obstáculo ideológico
para a compreensão da dinâmica do espaço de participação
contemporâneo.
Esse impasse intelectual é, em grande medida, resultado
dessa abstração dos contextos materiais e locais de intera-
ção que a linguagem das redes carrega consigo. Como Kevin
McDonald corretamente observa, esse discurso “expulsa o
corpo e os sentidos”, negligenciando a imersão constituti-
va dos indivíduos num ambiente físico. Para ele, “as redes
parecem desencarnadas e muito localizadas numa cultura
de simultaneidade”, transmitindo uma imagem estática dos
movimentos sociais, na medida em que “os pesquisadores
tentam ‘mapear’ as redes de maneira que as desencarnam e
as localizam num tempo unidimensional” (2006, p. 37). A
acusação em relação a Castells é que ele é, fundamentalmen-
te, um cognitivista – alguém que, junto com Descartes, vê a
mente como separada do corpo. Isso é evidente em seu livro
O poder da comunicação (2009), no qual se baseia em várias
ideias da neurociência para definir a sociedade contemporâ-
nea como informada por uma abrangente “rede de cérebros”
ou “rede neural de cérebros”. Sua discussão sobre comuni-
cação se assemelha à abstração da ideia de esfera pública de
Habermas, que curiosamente ele redefiniu como uma “rede
para comunicar informações e pontos de vista” (Habermas,
74
1996, p. 360). O que falta em sua abordagem é o caráter cor-
poral do ativismo contemporâneo, cuja importância é ates-
tada pela variedade de ocupações físicas de locais no Cairo,
em Madri, em Nova York e em centenas de outras cidades.
Além do caráter corporal da ação coletiva, sua natureza
territorial também é negligenciada. Seguindo uma linha de
debate que remonta à análise de Debord da sociedade do
espetáculo, a noção de hiper-realidade de Baudrillard (Bau-
drillard e Poster, 1988) e o conceito de não lugar de Augé
(2006), Castells está convencido de que as modernas tec-
nologias da comunicação acarretam um rompimento com a
lógica do lugar. Em sua abordagem da sociedade em rede, o
“espaço dos fluxos” da internet ultrapassa o “espaço dos luga-
res”, marginalizando as interações locais e as identidades ne-
las construídas (1996). Mas como devemos entender a Pri-
mavera Árabe, os indignados ou o Occupy se não levarmos
em conta o sentido da importância do lugar nas sociedades
contemporâneas? A definição de Castells desses movimen-
tos como “revoluções wiki”, “autogeradoras e auto-organi-
zadas” parece adicionar pouco ao clichê jornalístico da re-
volução do Facebook (ou Twitter). “Temerosos em todo o
mundo, mas unidos na web”,7 lia-se no título de uma palestra
que Castells proferiu em Berkeley sobre o movimento dos
indignados na Espanha. Essa atitude tecnovisionária parece
não ser capaz de fornecer um vocabulário e um imaginá-
rio que captariam a essência das formas contemporâneas de
ação coletiva.

Enxames sem colmeias

Uma rede com asas. Assim poderíamos sintetizar, numa


brincadeira, as semelhanças e as diferenças entre os concei- 75
tos de estimação de Castells e Hardt e Negri. O venerável
pensador italiano pós-operaísmo e o professor rebelde da
Universidade de Duke empregam a noção de enxames como
parte do ambicioso projeto de definir uma nova classe so-
cial: a multidão (Hardt e Negri, 2000; 2005; 2009), que é
para eles o que o proletariado é para Marx, ou seja, o sujeito
revolucionário. Porém, ao contrário da classe trabalhadora, a
multidão, como o próprio nome sugere, é caracterizada por
uma multiplicidade irredutível. Hardt e Negri contrastam a
multidão com o imaginário da sociedade industrial de aglo-

7. M. Castells, “Fearful Around the World, but United on the Web”,


palestra realizada na Universidade de Berkeley, 27 maio 2011. Dispo-
nível em: [Link]
peech-of-the-sociologist-manuel-castells-on-15m. Acesso em: 5 out.
2020.
meração8 e de povo. Como observa o antropólogo William
Mazzarella, ele mesmo um autonomista marxista, “não seria
um exagero dizer que a coerência da figura da multidão, nos
escritos de Hardt e Negri, depende de sua oposição à figura
da aglomeração” (2010, p. 71).
Hardt e Negri veem o surgimento desse ator como con-
sequência da mudança no sistema produtivo da produção
material para a imaterial, em que a comunicação, a constru-
ção de relações sociais e a afetividade se tornam o terreno
central da acumulação capitalista. Em Império, eles descre-
vem a multidão surgindo em oposição à força do capitalismo
global, como “uma força que sustenta o Império e, ao mesmo
tempo, exige e torna necessária sua destruição”. Eles descre-
vem a multidão como caracterizada por um “nomadismo”
e um “poder desterritorializador”, baseando-se no contraste
76 deleuziano entre o Estado, com sua territorialidade e fixidez,
e a máquina de guerra, com seu espaço suave continuamente
atravessado por fluxos (2000, p. 61). O conceito de enxame
passa a representar essa corporalidade nômade, esse “corpo
sem órgãos” (Deleuze e Guattari, 1987), uma multidão que
pode agir em conjunto sem ser reduzida a uma identidade
ou a um lugar.
Os processos comunicativos são cruciais na coordenação
dos enxames. Graças à disponibilidade de vínculos técnicos

8. No original, crowd. O autor utiliza multitude e crowd como concei-


tos opostos. Em português, ambos os termos em geral são traduzidos
como “multidão”. No entanto, já está consolidado no debate brasileiro
o uso de “multidão” para o conceito trabalhado por Michael Hardt e
Antonio Negri, presente, inclusive, no título da obra que consolida o
termo: Multidão: guerra e democracia na era do Império, publicada pela
editora Record em 2005. Por isso, utilizamos o termo “aglomeração”
para crowd. [N.T.]
complexos, o enxame estabelece e mantém uma forma par-
ticular de intelecto geral, o que Hardt e Negri chamam de
“inteligência de enxame”, sem a necessidade de uma estru-
tura central:

Pesquisadores recentes em inteligência artificial e métodos


computacionais usam o termo inteligência de enxame para
nomear técnicas coletivas e distribuídas de resolução de pro-
blemas sem controle centralizado ou provisão de um modelo
global […]. A inteligência de enxame é baseada fundamen-
talmente na comunicação […]. Os membros da multidão
não precisam se tornar o mesmo ou renunciar à sua criativida-
de para se comunicar e cooperar entre si. Eles permanecem
diferentes em termos de raça, sexo, sexualidade e assim por
diante. O que precisamos entender, então, é a inteligência
coletiva que pode emergir da comunicação e da cooperação 77
de uma multiplicidade tão variada. (2005, p. 91-2)

A ressonância entre o conceito de enxame e o fenôme-


no social de flash-mobs é visível. Os flash-mobs surgiram em
2003, após um experimento social realizado por Bill Wasik,
jornalista da revista Wired, que circulou um e-mail convi-
dando as pessoas a se reunir em frente a uma joalheria e
depois se dispersar, como uma performance artística ex-
travagante. A ideia foi rapidamente adotada nos Estados
Unidos na organização de eventos festivos, desde guerras de
travesseiro até brincadeiras coletivas. Mas logo foi adotada
também por ativistas como um modo de explorar o poten-
cial de coordenação flexível oferecido pela internet e pela
mídia móvel. Com sua rápida montagem e dispersão repen-
tina, os flash-mobs passaram a capturar a sensação de uma
sociabilidade líquida, composta de encontros ad hoc transitó-
rios facilitados pelas modernas tecnologias de comunicação.
O visionário da tecnologia californiano Howard Rheingold
descreveu esses grupos como “mobs inteligentes”, agregados
sociais “que cooperam de maneiras nunca antes possíveis
porque carregam dispositivos que têm recursos tanto de co-
municação quanto de computação” (2003, p. 12).
Se Castells – que começou a publicar sua inovadora tri-
logia, A era da informação: economia, sociedade e cultura, em
1996 – foi o teórico social da ascensão da World Wide Web,
o trabalho conjunto de Hardt e Negri, que veio posterior-
mente, carrega o selo da era da mídia móvel e as novas for-
mas de ação coletiva que a difusão do trabalho deles inspira.
Em comparação à discussão de Castells sobre redes, Hardt
e Negri recuperam uma apreciação do papel do corpo e de
sua mobilidade, por meio daquele fluxo vital de pensamento
78
que vai de Spinoza a Deleuze. No entanto, também não le-
vam em consideração o caráter territorial da ação coletiva, o
fato de que ela requer localizações físicas como palco de suas
performances. Eles veem a multidão como reflexo de um Im-
pério descentrado, que “não estabelece um centro territorial
de poder nem depende de limites ou barreiras fixas” (2000,
p. xii, xiii). Dentro dessa estrutura, descartam a “política do
lugar” proposta por vários pensadores radicais e geógrafos,
desconfiando das tentativas de “recompor locais de resistên-
cia baseados nas identidades de sujeitos sociais ou grupos
nacionais e regionais, muitas vezes fundamentando a análise
política na localização da luta” (Hardt e Negri, 2000, p. 40).
O lugar da multidão, sugerem Hardt e Negri, é um “não
lugar” (2000). Num mundo global, apelar para uma lógica
do lugar não é uma opção. Esse tema também aparece nos
escritos de um companheiro de Negri, Paolo Virno, que, na
concisa e contundente Gramática da multidão (2004), faz um
interessante contraste entre duas derivações da palavra gre-
ga topos: no sentido de lugar, como em “topologia”, e como
figura de linguagem na palavra “tópico”. Virno argumenta
que a multidão não tem lugar, o que significa que todos os
seus membros estão vinculados a uma experiência de Unhei-
mlichkeit, ou estranheza. O que os une é a presença de uma
linguagem comum. Virno é mais pessimista do que Hardt e
Negri ao fazer essa afirmação e vê de forma mais clara os ris-
cos de isolamento e solidão subjacentes à experiência social
contemporânea. Porém, também foge da questão de como é
possível construir um projeto político sem ao mesmo tempo
construir lugares e territórios.
Brincando com a metáfora de “enxame”, usada por Hardt
e Negri, pode-se dizer que o que eles estão descrevendo são
de fato “enxames sem colmeias”. Sabemos pela biologia que,
se as abelhas voam por grandes distâncias, também preci- 79
sam de um local fixo para retornar, e algumas lá permanecem
para manter a colmeia no lugar. Em Hardt e Negri, toda-
via, é dada pouca importância a tais geografias locais, pois se
enquadram no espaço nômade e fluido da globalização. Em
suma, tanto o trabalho de Castells quanto o de Hardt e Negri
podem ser vistos como uma tentativa de repensar novas for-
mas de ação coletiva além do imaginário da sociedade indus-
trial e de suas formações sociais e de compreender o impacto
das novas mídias na ação coletiva contemporânea. Hardt e
Negri repetem várias vezes que a multidão, ao contrário da
aglomeração, vai além da redução da pluralidade para a sin-
gularidade – a chamada reductio ad unum. Da mesma forma,
Castells define a rede em oposição à massa e à sociedade de
massa, constantemente representada como autoritária e an-
tidemocrática. Essa rejeição do imaginário da multidão ou
da massa também desconsidera a importância das ruas como
locais para a exibição da ação coletiva, o que deixa pouco
espaço para a compreensão dos “movimentos de ocupação de
praças” de 2011 e a importância que a ocupação de espaços
públicos adquiriu em seu desdobramento.

Uma paisagem de dispersão

Apesar das críticas feitas à análise de Castells, Hardt e Ne-


gri, não há como negar que eles identificam corretamente
uma situação de heterogeneidade radical e multiplicidade
na raiz da sociedade contemporânea. Eles estão certos ao
afirmar que a era pós-industrial é caracterizada por uma
complexidade social que escapa à “captura” de organizações
burocráticas tradicionais, como partidos e sindicatos. O pro-
blema, no entanto, é que aceitam essa condição de multipli-
80
cidade também como definidora automática da ação coleti-
va, e não como ponto de partida para um processo complexo
de recomposição social e articulação simbólica, facilitando
a “fusão” dos indivíduos num novo agente coletivo. Ao ce-
lebrarem a natureza antiautoritária das formações sociais
contemporâneas, parecem não estar preocupados com os
desafios que essa situação de multiplicidade radical impõe e
com os obstáculos à mobilização que levanta.
Os fenômenos capturados por termos como “enxame”
e “rede” podem, de uma perspectiva crítica, ser vistos como
atrelados a uma experiência de individualização, perfeita-
mente sintetizada pelo tipo de interações canalizadas por
meio das mídias sociais. Desde a década de 1990, teóricos
como Zygmunt Bauman, Ulrich Beck e Alberto Melucci
observaram como as sociedades pós-industriais são investi-
das por um processo de reestruturação no qual os indivíduos
se tornam as “unidades fundamentais do sistema social”,
como descrito por Melucci (1996a, p. 91). Nesse contexto, os
indivíduos estão, em grande parte, desconectados de identi-
dades coletivas preestabelecidas e estáveis. Eles se deparam
com uma situação que Bauman descreve como “liquidez”,
em oposição à “solidez”, das sociedades industriais, nas quais
as relações sociais são caracterizadas pela incerteza e têm um
caráter de “até novo aviso”. Privados de fortes identificações
coletivas, indivíduos são compelidos a buscar “soluções bio-
gráficas para contradições sistêmicas” (Beck, 1992, p. 137).
É evidente que essa tendência em direção à individua-
lização cria obstáculos ao desenvolvimento da ação coletiva.
Tradicionalmente, teóricos dos movimentos sociais veem a
existência de uma identidade forte e um sentido de soli-
dariedade coletiva como precondições decisivas para a ação
coletiva. Essa ideia está encapsulada na noção de catnet – 81
derivada da junção das sílabas iniciais das palavras category
e network – adotada pelo historiador dos movimentos so-
ciais Charles Tilly. Por um lado, os movimentos exigem uma
identidade comum entre seus integrantes como membros
de uma categoria coletiva, distinta de outras – por exem-
plo, trabalhadores são distintos de estudantes ou desempre-
gados. Por outro, contam com a presença de redes sociais
densas baseadas em laços fortes (1978). A condição de indi-
vidualização social descrita por Bauman e Beck é, em certa
medida, o oposto das circunstâncias que Tilly consideraria
facilitadoras da ação coletiva. Na sociedade contemporânea,
identidades coletivas fortes parecem ser exceção à regra, e as
redes sociais são denominadas “laços fracos” (Granovetter,
1974), ao invés de fortes.
Os movimentos sociais tradicionalmente contam com
redes presenciais locais, consideradas quase por unanimida-
de pelos estudiosos como o canal mais importante para a
mobilização (ver, por exemplo, Melucci, 1996a). Ao longo
da história moderna, militantes de movimentos sociais ex-
ploraram regularmente a energia dos centros urbanos e sua
“geografia pública” (Sennett, 1977), abrangendo os lugares
nos quais as pessoas se encontram e constroem relações du-
radouras de solidariedade. Esse fenômeno é bem registra-
do na descrição de Georges Rudé da Revolução Francesa
como um drama que se desenrola entre os principais locais
de Paris, como Île de la Cité, Les Tuileries, Cornmarket e
Faubourg St. Antoine, que logo se distingue como o mais
revolucionário de todos os faubourgs (1964). Charles Tilly
observa que, a partir do século XVIII, Londres “foi segre-
gada em pequenas subcomunidades”, onde protestos “eram
capitalizados em reuniões públicas autorizadas, como em
82
mercados, encontros e cerimônias” (1981, p. 47). Por fim,
para Marx, a fábrica industrial introduziu uma condição de
concentração espacial na qual os trabalhadores eram isola-
dos da sociedade em geral, mas compartilhavam uma ex-
periência cotidiana comum que veio a formar a base de sua
organização política (Kohn, 2003).
Esse tipo de concentração espacial no ambiente de tra-
balho descrito por Marx, ou no espaço da cidade como des-
crito por Tilly e Rudé, é o que parece estar majoritariamen-
te em falta no espaço social das sociedades pós-industriais
contemporâneas. O arranjo espacial disperso que enfrenta-
mos hoje é bem capturado pela teoria autonomista marxista
da “fábrica social”, que é, como diz Negri, uma “fábrica sem
muros” na qual todo o tecido urbano é terreno da acumulação
capitalista, ao passo que também um estágio de resistência
(1989). Enquanto para algumas pessoas, incluindo o próprio
Negri, essa situação permite o desenvolvimento de novas
formas de resistência – como a chamada “greve metropoli-
tana”, cujo objetivo é paralisar a cidade como um todo, e não
uma atividade econômica específica –, para outras constitui
um sério obstáculo ao surgimento da ação coletiva. Bauman,
em particular, oferece um diagnóstico pessimista do espaço
social contemporâneo, afirmando que “as dificuldades e os
sofrimentos contemporâneos são dispersos e espalhados; e as-
sim é a dissidência que geram”. Nesse contexto, “a dispersão
da dissidência, a impossibilidade de condensá-la e ancorá-la
em torno de uma causa comum e despejá-la contra um alvo
comum apenas tornam a dor mais amarga” (2000, p. 54).
A dispersão de que Bauman fala aqui é, antes de tudo,
física, inscrita num espaço urbano moldado pelo surgimento
de ampliações da mancha urbana, novas cidades e condo-
mínios fechados, que afastam as populações da violência e
dos perigos (reais ou imaginários) das áreas urbanas. Dos 83
Estados Unidos ao Egito, o desenvolvimento urbano se-
guiu esse padrão, criando um espaço em conformidade com
a ideologia individualista do neoliberalismo globalmente
dominante. O modelo para essa reformulação do espaço
foi Los Angeles; o desenvolvimento da cidade se deu pela
expansão urbana, uma rede física sem centros, bem como
as redes de comunicação descritas por Castells. O escritor
socialista Mike Davis tem sido um crítico incisivo desse de-
senvolvimento (1992a; 1992b; 1998). Para ele, as políticas
contemporâneas de gestão urbana refletem bem as contradi-
ções do capitalismo global. As classes médias altas, que têm
uma quantidade desproporcional da riqueza social, escapam
para comunidades fechadas, enquanto as favelas se expan-
dem. O desejo de uma intimidade privada e de uma sensa-
ção de segurança que alimenta o avanço do espaço difuso
dos subúrbios é apontado por Davis como uma estratégia
de segregação, uma adaptação moderna por parte da elite
neoliberal do velho ditado “dividir para governar” (1992a).
O surgimento de subúrbios é acompanhado por uma
“privatização da esfera pública física”, cuja consequência é
“a destruição de qualquer espaço verdadeiramente demo-
crático” no qual os direitos constitucionais à assembleia pú-
blica sejam restringidos e o encontro social, desestimulado
(Davis, 1992a). Para o autor, em essência, a lógica espacial
do capitalismo contemporâneo é impulsionada pelo “medo
das multidões” (1992a), no qual as reuniões públicas são cri-
minalizadas. A extensa cidade neoliberal descrita por Davis
parece marcar um novo estágio no processo de “queda do
homem público” descrito por Richard Sennett, à medida
que a cidade definha como “ambiente onde é provável que
estranhos se encontrem” (1977, p. 48). Os locais de reunião
84
são cuidadosamente organizados, e os encontros entre dife-
rentes classes ou grupos étnicos são reprovados. Os espaços
públicos são privados de vida e, depois, simulados de forma
corporativa dentro de shopping centers e praças. Bauman
reflete que esses espaços públicos higienizados são “inós-
pitos”, não propícios ao encontro social nem à organização
política: “O espaço público está cada vez mais vazio de ques-
tões públicas. Ele falha em desempenhar seu papel anterior
de um local de encontro e diálogo de problemas privados
e questões públicas” (2000, p. 40). A condição de disper-
são espacial que afeta as sociedades contemporâneas deve,
portanto, ser vista como a própria representação material da
individualização, em que, na ausência de contatos face a face
estáveis ​​e intensos, as pessoas recorrem a conexões passagei-
ras mediadas, ou “transações” (2001).
A dispersão espacial e a crise do espaço público não são
apenas fenômenos ocidentais, assim como o neoliberalismo
também se espalhou para além da Europa e dos Estados
Unidos e foi adotado como política econômica e social de
regimes autoritários como o Egito de Mubarak. Nas últi-
mas décadas, o Cairo testemunhou um declínio da região
central da cidade, conhecida como “centro”, acompanhado
pela criação de novos bairros mais afastados para a crescente
classe média. Desde a década de 1990, grandes shoppings
brotaram como cogumelos nos subúrbios da cidade, para
atender ao consumo da classe média, próximos das ash-
waa’iyyat, favelas onde residem aqueles que oferecem força
de trabalho para as necessidades da classe média – pedreiros,
faxineiros, jardineiros e similares (ver, por exemplo, Singer-
man e Amar, 2006; Singerman, 2009). A socióloga egípcia
Mona Abaza descreve como essas “novas cidades no deserto
consistem sobretudo em comunidades muradas e fechadas,
condomínios fechados paisagísticos, conectados por rodo- 85
vias facilmente acessíveis a unidades do Carrefour” (2011).
A ascensão dessas comunidades fechadas foi acompanhada
por uma sanitização da “vida popular” que costumava pros-
perar no centro da cidade ao redor da praça Tahrir, que se
tornaria o ponto principal da revolução egípcia de 2011.

Promessas de conexão,
ameaças de isolamento

É notável como, diante dessa situação de dispersão espacial e


individualização, as tecnologias contemporâneas de comuni-
cação nos oferecem constantemente uma promessa redentora
de “conexão”. Como observa Bauman, telefones celulares e
páginas na internet oferecem uma “proximidade virtual” que
“não requer mais proximidade física” (2003), uma proximida-
de tão difícil de encontrar no espaço social contemporâneo.
Seguindo uma linha de raciocínio semelhante, o teórico Mark
Poster argumenta que a mídia foi substituída pelo lugar como
um meio de agregação na sociedade contemporânea:

As relações sociais contemporâneas parecem desprovidas de


um nível básico de práticas interativas que, no passado, eram
a matriz da política democratizante: loci como a ágora, a pre-
feitura da Nova Inglaterra, a igreja da vila, o café, a taberna,
a praça pública, um celeiro adequado, um sindicato, um par-
que, uma lanchonete de fábrica e até uma esquina. Muitos
desses lugares persistem, mas não servem mais como centros
organizadores de discussões e ações políticas. Parece que a
mídia, especialmente a televisão, se tornou a fonte animado-
ra de discussões e ações políticas. (2001, p. 178)
86
Se para Poster a televisão e, mais recentemente, a internet
vieram para compensar o declínio do lugar como agregador
social e político, a ironia é que, embora “agreguem” pessoas
em torno de símbolos comuns, essas mídias também con-
tribuem para a tendência de dispersão e fragmentação ine-
rentes ao espaço urbano contemporâneo. Ao permitirem a
conexão a distância e estabelecerem a “proximidade virtual”,
as interações da mídia contemporânea correm o risco de
nos isolar de nossa comunidade local, envolvendo-nos numa
“cápsula” mediada (Cauter, 2004).
A dinâmica de fragmentação e “encapsulamento” de tec-
nologias da comunicação é bem ilustrada pelo uso da mídia
móvel e pela maneira como elas criam barreiras entre di-
ferentes grupos sociais. O pesquisador norueguês Richard
Ling examinou como a difusão de telefones celulares refor-
mulou a “microcoordenação” da vida cotidiana – as maneiras
pelas quais organizamos nossas interações sociais com os
outros. Isso “pode ser visto no acordo reiterativo de quando
e onde encontrar os amigos” e “na capacidade de ligar an-
tes quando estamos atrasados ​​para um compromisso” (2004,
p. 70). Graças a essas possibilidades, a mídia móvel elimina
a necessidade de confiar em pontos de encontro específicos
– ou seja, lugares onde alguém pode deparar-se inespera-
damente com outros –, isolando pessoas em círculos sociais
muito específicos. De acordo com Ling, o telefone móvel
“estabelece uma barreira entre nós e nossa situação física”,
portanto, “apoia o desenvolvimento de grupos exclusivos”,
ou o que ele chama de “comunidades virtuais” (2004). En-
quanto a mídia móvel “nos une”, ao mesmo tempo “nos se-
para” (Ling e Campbell, 2011). A compensação pelas exten-
sas conexões que oferecem é um entorpecimento de nossa
experiência de localidade e uma redução de nossos contatos 87
com pessoas de fora de nossos círculos sociais mediados.
Observações semelhantes podem ser feitas com relação
às mídias sociais, que estão efetuando uma crescente “midia-
tização” da comunicação interpessoal (Konijn, 2008). Como
o próprio adjetivo “social” em “mídia social” sugere, elas são
meios pelos quais as pessoas medeiam e gerenciam suas co-
nexões com extensas redes sociais de amigos e conhecidos a
distância. Esses serviços se tornaram úteis graças à caracte-
rística de dispersão espacial da sociedade pós-industrial. O
problema é que, ao nos encorajarem a focarmos em nossos
amplos porém ainda exclusivos círculos de amizade e de co-
nhecidos, as mídias sociais correm o risco de exacerbar nossas
“afinidades eletivas” (Bourdieu, 1984), ou seja, nossa tendên-
cia a nos relacionarmos com aqueles que são semelhantes a
nós, independentemente de onde estejam localizados. Todd
Gitlin argumentou, com razão, que a internet tendia a “re-
produzir a dinâmica de secessão, exclusão e segmentação” das
sociedades contemporâneas e exacerbou a separação entre os
“ricos em informação” e os “pobres em informação” (1998,
p. 172). Em vez de uma esfera pública unitária à la Haber-
mas, a internet produziu muitas “esferículas”.
Se a cidade estendida é a personificação espacial de
uma situação de individualização, a comunicação eletrônica
aponta para o que o sociólogo americano Barry Wellman
chamou de “individualismo em rede” – uma situação em que
a pessoa, em vez de um lugar específico, se torna o “portal”.

Como as conexões são feitas para pessoas e não para lugares,


a tecnologia permite a troca de vínculos de trabalho e comu-
nitários, de vínculos entre pessoas-em-lugares para vínculos
entre pessoas em qualquer lugar. A comunicação mediada
88
pelo computador está em todo lugar, mas não está em lu-
gar algum. Esse eu-sozinho que é acessível onde quer que
se esteja: em casa, no hotel, no escritório, na rodovia ou no
shopping center. (Wellman et al., 2003, p. 17)

As mídias sociais permitem construir conexões com


pessoas distantes. No entanto, essas conexões correm o risco
de gastar energia e tempo das interações com base na proxi-
midade física. Essa tendência das novas mídias de engendrar
dinâmicas de reclusão em relação às comunidades locais e à
espessura das redes face a face é um aspecto ignorado por
Castells, Hardt e Negri, que, ao celebrarem as novas pos-
sibilidades de cooperação que essas tecnologias oferecem,
tendem a ignorar seus efeitos colaterais negativos.
Em resumo, a situação contemporânea de dispersão es-
pacial e fragmentação comunicativa parece não ser um bom
presságio para facilitar um processo de mobilização em mas-
sa. Essa questão está bem ilustrada num experimento pro-
posto por Gerald Marwell, Pamela E. Oliver e Ralph Prahl,
na tentativa de teorizar o fator “massa crítica” nos movimen-
tos sociais. Eles nos pedem que consideremos a condição
dos trabalhadores que moram em duas cidades ideais típi-
cas: Alfa, caracterizada pela densidade espacial e comunica-
tiva, e Beta, caracterizada pela dispersão:

Alfa é bastante isolada, e a maioria de seus funcionários afe-


tados vive num único subúrbio, Centauri. Eles frequentam
as igrejas de Centauri; seus filhos frequentam as escolas pú-
blicas de Centauri; pertencem aos comitês dos clubes sociais
e de serviços de Centauri; todos são atendidos pela mes-
ma central telefônica local. Por outro lado, Beta faz parte
de uma megalópole de dois estados etnicamente diversa, e
seus funcionários afetados estão espalhados por uma dúzia de 89
subúrbios diferentes em dois estados e quatro condados. As-
sim, eles raramente se veem depois do trabalho. Vão a igrejas
diferentes, mandam seus filhos para escolas diferentes, leem
quatro ou cinco jornais diferentes e pagam tarifas de chama-
das telefônicas entre muitos subúrbios. (1988, p. 505)

“Encontraríamos unanimidade virtual entre os sociólo-


gos ao prever que os funcionários de Alfa têm maior pro-
babilidade de agir coletivamente que os de Beta”, concluem
os pesquisadores. Eles afirmam que a estrutura espacial e
comunicativa de Alfa é mais propícia a sustentar um sentido
de unidade entre os indivíduos. Da mesma forma, sugerem
que também haveria “unanimidade universal” entre os so-
ciólogos de que o tipo de espaço e sistema midiático com o
qual estamos lidando hoje se parece mais com o de Beta do
que com o de Alfa.
A performatividade de assembleia

Como vimos, a natureza dispersa e individualizada da ex-


periência social contemporânea levanta questões incômodas
sobre a possibilidade de ação coletiva. No entanto, a onda de
movimentos sociais de 2011 ofereceu a demonstração em-
pírica mais flagrante de que o protesto em massa ainda é
possível, mesmo nas condições fragmentadas da sociedade
contemporânea. Mas como esses movimentos conseguiram
se unir, apesar da dispersão? Como foi alcançada uma “mas-
sa crítica” num contexto que parecia inadequado para sua
formação?
Para entendermos os movimentos sociais contempo-
râneos, precisamos nos afastar da literatura clássica, para a
qual uma forte identidade comum e redes espessas devem
90 invariavelmente preexistir à ação coletiva (por exemplo, Tilly,
1978). Ao mesmo tempo, também precisamos suspeitar de
interpretações, como as oferecidas por Castells, Hardt e Ne-
gri, que veem a ação coletiva como algo que brota esponta-
neamente, sem a necessidade de mediação organizacional
ou articulação simbólica para moldá-la e guiá-la. Contrário
a essas duas posições e seguindo Ernesto Laclau, estou con-
vencido de que a “proliferação de pontos de ruptura” que
caracteriza a experiência social contemporânea, resumida
pelas formas de interação subjacentes às mídias sociais, “tor-
na necessárias formas políticas de agregação social” (Laclau,
2005, p. 230). Na ausência de identidades profundas e de
redes sociais espessas para sustentar a ação coletiva, esses
elementos precisam ser criados de forma proativa e ad hoc
no decorrer do processo de mobilização.
A importância renovada da questão da unidade no con-
texto dos movimentos populares contemporâneos também
foi recentemente reconhecida por teóricos de redes como
Jeffrey Juris. Analisando o movimento Occupy, nos Estados
Unidos, Juris argumentou que este se destacou pelas “lógicas
de agregação” em contraste com as “lógicas das redes” que
Juris havia identificado antes como a característica do movi-
mento antiglobalização (2012). Ele descreve essas lógicas de
agregação como “reunião de massas de indivíduos de origens
diversas dentro dos espaços físicos”, argumentando que, “en-
quanto o uso de listas de discussão e sites pelos movimentos
por justiça global no fim dos anos 1990 e ao longo dos anos
2000 ajudou a gerar e difundir lógicas de redes dispersas,
nos movimentos #Occupy as mídias sociais contribuíram
para lógicas poderosas de agregação” ( Juris, 2012, p. 260-1).
O risco na descrição de Juris é ver essa mudança da rede
para a agregação como uma consequência das diferentes fer-
ramentas técnicas empregadas, e não como um reflexo da 91
cultura específica dos novos movimentos, seu caráter “popu-
lar” e suas ambições majoritárias. Além disso, parece suspei-
tar um pouco dessas “lógicas de agregação”, o que é reforça-
do pelo fato de a “lógica de rede”, com ênfase na diversidade,
continuar sobrevivendo.
Se as práticas dos movimentos populares contempo-
râneos instauram sérios problemas teóricos e analíticos
para pesquisadores de redes como Juris, isso se dá porque
as formas de assembleia ou reunião no espaço público que
envolvem estão em grande parte em desacordo com a visão
da sociedade como uma rede sem centros, como proposto
por Castells, mas também com a imagem de um enxame
em constante movimento, sem colmeia, como retratado
por Hardt e Negri. Como veremos nos próximos capítu-
los, os acampamentos dos indignados, da revolução egípcia,
do Occupy Wall Street, são marcados por um esforço na
construção de um sentido de centralidade e fixidez espa-
cial que, na verdade, é o oposto da difusão constitutiva das
redes e do nomadismo dos enxames. O surgimento dessas
novas formas de assembleias populares levanta questões não
apenas sobre o trabalho interno e o tipo de comunidades
constituídas dentro delas – ver, por exemplo, Feigenbaum,
Frenzel e McCurdy (2013) –, mas também sobre os pro-
cessos pelos quais essas assembleias ocorrem ou, em outras
palavras, sobre a natureza da mobilização como um processo
(e não um estado) de assembleia espacial, com sua coreogra-
fia específica e própria.
O problema da mobilização como posto na teoria do
movimento social é a questão de como as pessoas se reú-
nem, partindo de uma situação de dispersão espacial variá-
vel. Como no sentido militar do termo, a mobilização en-
92
volve uma concentração física de participantes no espaço e no
tempo, que precede a fase de combate (Clausewitz, 2004).
Para Melucci, a mobilização é “o processo pelo qual um
movimento social é criado e começa a agir”. É a operação
“pela qual um ator coletivo reúne e organiza seus recursos
em busca de um objetivo compartilhado contra a resistência
de grupos que se opõem a esse objetivo” (1996a, p. 288). De
forma similar, para Anthony Oberschall, a mobilização é “o
processo pelo qual os ativistas constroem lealdade e com-
prometimento com sua causa e reúnem seguidores, fundos e
recursos, os quais aumentam sua capacidade de agir coleti-
vamente” (1973, p. 384).
É evidente que, dentro de cada movimento social es-
pecífico, esse processo de reunião adquire dinâmicas muito
diferentes, dependendo do grau de dispersão espacial da mi-
litância que está sendo mobilizada. Há uma enorme diferen-
ça entre mobilizar um círculo de pessoas que, de certa forma,
já está parcialmente reunido em torno de locais de trabalho
comuns, bairros, cenas sociais e subculturais, e mobilizar um
círculo que, em geral, está fora desses polos comuns de agre-
gação. O movimento antiglobalização, por exemplo, contou
com a presença de cenas ativistas locais, como a descrita por
Haunss e Leach (2009), para se manter unido entre as fases
da mobilização. A situação é muito diferente dos movimen-
tos populares contemporâneos, para os quais não existe um
cenário social capaz de abranger as diversas pessoas que pre-
tende mobilizar e nos quais a criação ad hoc e a manutenção
de espaços de reunião adquirem uma importância funda-
mental. Portanto, esse processo de reunião no espaço públi-
co exige muita atenção, proporcionalmente ao grau de dis-
persão espacial e fragmentação social que tentam recompor.
As reflexões de Hannah Arendt sobre ação política e
espaço público oferecem algumas ideias úteis para enten- 93
der o processo de mobilização como a recomposição de
uma situação anterior de dispersão espacial. Para ela, a ação
– exclusivamente a ação política, em oposição a “trabalho” –
nunca acontece de forma isolada; sempre requer a constru-
ção de um sentido de “união” entre os envolvidos, manifesto
que chama de “espaço de aparência”:

O espaço da aparência passa a existir sempre que os homens


se reúnem na modalidade do discurso e da ação, portanto
precede toda e qualquer constituição formal da esfera pública
e as várias formas de governo, isto é, as várias formas possíveis
de organização da esfera pública. Sua peculiaridade reside no
fato de que, ao contrário dos espaços fabricados por nossas
mãos, não sobrevive à realidade do movimento que lhe deu
origem, desaparecendo não só com a dispersão dos homens,
como no caso de grandes catástrofes que destroem o corpo
político, mas também com o desaparecimento ou a suspensão
das próprias atividades. Onde quer que os homens se reúnam,
esse espaço existe potencialmente – mas só potencialmente,
não de fato nem para sempre. (1958, p. 199)

Arendt sugere que o espaço público não é um mero


dado ou uma arquitetura material que atua como um local,
mas uma forma de experiência resultante do processo de en-
contro e de sua recomposição de uma situação anterior de
dispersão. Em outras palavras, o espaço público precisa ser
construído e reconstruído de maneira performativa pelo ato
de reunir indivíduos dispersos.
A análise de Arendt sobre a unidade e a congregação
ressoa profundamente com a descrição de Emile Durkheim
das reuniões em tribos australianas:
94
A vida das sociedades australianas alterna entre duas fases
diferentes. Às vezes, a população está dispersa em pequenos
grupos que cuidam de seus negócios de forma independente.
Cada família vive sozinha, caçando e pescando – resumida-
mente, esforçando-se de todas as formas possíveis para suprir
suas necessidades. Em outras ocasiões, a população está con-
centrada e condensada em locais específicos por um período
que varia de muitos dias a muitos meses. Essa concentração
ocorre quando um clã ou grupo tribal é convocado a se reu-
nir; nessa ocasião, eles realizam uma cerimônia religiosa ou o
que os etnógrafos chamam de corroboree. (1965/1912, p. 162)

É famosa a descrição de Durkheim da reunião como


um momento de “efervescência coletiva” no qual as emoções
despertam. Ele observa que “o próprio fato de se reunir é
um estimulante muito poderoso. Depois que os indivíduos
são reunidos, sua proximidade gera um tipo de eletricidade
que os transporta rapidamente a um grau extraordinário de
exaltação” (1965/1912, p. 162).
Com base nessas percepções tanto de Arendt quanto de
Durkheim, podemos oferecer uma definição provisória do
processo de mobilização como um ato performático de reunião
ou congregação que recompõe espacialmente uma unidade tempo-
rária antes dilacerada e que, ao fazê-lo, cria espaço público como
forma de experiência coletiva e situada. No restante deste ca-
pítulo, conceituo as formas de mediação simbólica e organi-
zacional que intervêm nesse processo, cunhando a noção de
“coreografia de assembleia”. Ao trabalhar com esse conceito,
discuto como os processos de construção de identidade e
motivação emocional estão envolvidos para dar coerência à
espontaneidade da participação em protestos.
95

Coreografando protestos

O ato de reunião física, que em termos gerais constitui a


lógica espacial do processo de mobilização do movimen-
to social, gira em torno da construção de uma situação de
densidade física dominada pela comunicação face a face.
Contudo, por sua vez, no contexto de uma “sociedade mi-
diatizada” (Thompson, 1995), reunir fisicamente um grupo
de pessoas antes disperso dificilmente poderia ocorrer sem
um processo complexo de mediação técnica e simbólica
envolvida na convocação a distância. O ato de reunir pas-
sa a se destacar por práticas complexas de comunicação e
organização, permitindo a grupos dispersos espacialmente,
mas unidos pelos mesmos interesses ou convicções, a ação
conjunta. No campo das mídias sociais, os exemplos mais
óbvios desse processo vêm de sites como o MeetUp, que
informa os usuários sobre reuniões offline nas quais podem
estar interessados; o Doodle, um aplicativo de pesquisa usa-
do para agendar reuniões e outros compromissos; e, claro, a
popular função de evento do Facebook, usada para convidar
pessoas para várias atividades. Esses serviços atestam até
que ponto a formação de grupos sociais em nossas socie-
dades fragmentadas e dispersas depende de um processo
complexo de mediação simbólica e técnica, ou o que cha-
marei de “coreografia de assembleia”. Como argumentarei
no decorrer do livro, as formas contemporâneas de comuni-
cação de protesto, incluindo tuítes de ativistas, páginas do
Facebook, aplicativos para celular e mensagens de texto, em
grande parte giram em torno de atos de coreografia: a “posta
em cena” mediada e “roteiros” da coreografia de assembleia no
96
espaço público.
Nos últimos anos, o termo “coreografia” tem sido muito
usado por ativistas antiglobalização – incluindo John Jor-
dan, o iniciador do movimento Reclaim the Streets9 – para
se referir ao processo de organização de protestos. A histo-
riadora da dança Susan Leigh Foster (2003) cunhou o ter-
mo “coreografia de protesto” para descrever como várias for-
mas de manifestação – do ativismo anti-HIV do ACT UP
aos protestos anti-OMC em Seattle – foram marcadas por
uma “fisicalidade” semelhante à da dança (2003). Seguindo
uma sugestão da discussão de Jeffrey Alexander sobre “per-
formances sociais” (2011), minha ênfase na adoção da noção
de coreografia não está apenas na natureza corporal e espa-
cial da ação coletiva, mas também em seu caráter simbólico
e mediado, no fato de que as práticas da mídia intervêm na

9. Recuperar as ruas. [N.T.]


preparação do terreno ou do cenário para as pessoas que se
reúnem no espaço público.
Derivada etimologicamente das palavras gregas para
“dança” e “escrita”, o termo coreografia incorpora a ideia de
uma mediação simbólica da ação corporal. Assim, pode ser
usado para descrever como os movimentos populares con-
temporâneos, apesar de sua posição antiautoritária na im-
provisação e na participação criativa, dependem de uma
“escrita do movimento” ou, em termos mais gerais, de uma
“escrita da ação”, quase sempre oculta aos observadores ex-
ternos, mas muito eficaz na estruturação da forma como as
pessoas se reúnem e agem juntas no espaço público.
A coreografia de reuniões públicas nas quais as mídias
sociais são empregadas não pode ser reduzida à circulação
de informações práticas ou à logística da organização dos
protestos. A coreografia de assembleia de movimentos con- 97
temporâneos tem sua própria narrativa cultural e requer
sobretudo a construção de identificações coletivas comuns
entre os participantes, sem as quais essas informações prá-
ticas cairiam em ouvidos moucos. Ao longo da história dos
movimentos sociais, mídias como jornais, rádios e TVs
contribuíram para condensar agrupamentos simbólicos que
podem depois se materializar em agrupamentos físicos. Vá-
rios teóricos, de Melucci a Laclau, comentaram a impor-
tância da construção da identidade para facilitar a reunião
de movimentos sociais no espaço público. Para Melucci, a
construção de uma identidade coletiva é uma das primeiras
tarefas a serem tratadas durante o processo de mobilização,
junto com “a identificação de um inimigo, a definição de
um propósito e um objeto em disputa no conflito” (1996a,
p. 292). Essas diferentes fases envolvem a progressiva “fu-
são” dos participantes num corpo social comum, pois, como
Melucci sugere, pelo processo de mobilização “os diferentes
fragmentos que se juntam para formar um movimento são
integrados a um novo sistema de relações no qual os ele-
mentos originais mudam seus significados” (Melucci, 1996a,
p. 292). Assim, por meio da construção de identidades em
comum, um grupo disperso é condensado numa subjetividade
comum com a capacidade “de agir como um sujeito unifica-
do e delimitado para reter o controle sobre sua própria ação”
(Melucci, 1996a, p. 72).
Esse processo de condensação em torno de uma iden-
tidade comum não pode ser reduzido ao simples compar-
tilhamento de informações, pois envolve um “investimento
emocional” por parte dos participantes. Para Melucci, “pai-
xões e sentimentos, amor e ódio, fé e medo fazem parte de
um corpo agindo coletivamente”. Ele critica os autores que
98
veem esses aspectos da ação coletiva como “irracionais”, in-
sistindo que “não há cognição sem sentimento nem signifi-
cado sem emoção” (Melucci, 1996a, p. 72). Goodwin, Jasper
e Polletta (2001) também reafirmaram a importância das
emoções na ação coletiva. Jasper, em seu trabalho posterior,
destacou a importância de uma “energia emocional”, defini-
da como “um clima de excitação e entusiasmo” em torno de
uma identidade comum, que constitui um recurso funda-
mental para a participação em protestos ( Jasper, 2011).
Achados valiosos para a compreensão da identificação
coletiva nos movimentos sociais contemporâneos podem ser
extraídos da discussão de Laclau sobre o “populismo” como
um processo de construção do povo, conforme desenvolvido
em sua obra A razão populista (2005). Para ele, o “povo” é um
sujeito que não preexiste como um ator; precisa ser criado de
forma proativa por meio de operações discursivas específi-
cas. A criação do povo como sujeito é tarefa do “populismo”,
conceito que ele não vincula às usuais conotações negativas.
Populismo aqui é só um tipo de política que se difere da
“democrática” com sua ênfase na diferença e em questões
singulares, bem como corta o espaço político em dois, ins-
taurando o povo contra instituições corruptas incapazes de
responder às amplas mazelas sociais.
A condensação emocional das pessoas em torno de uma
identidade comum requer a presença do que Laclau chama
de “significante vazio”: um líder, uma imagem, um nome
coletivo ou talvez um lugar em torno do qual a unidade
das pessoas possa ser criada de modo performativo (1996;
2005). O significante vazio é um “significante sem signifi-
cado”, ou seja, um símbolo que foi privado de seu conteúdo
particular e, portanto, pode criar uma “cadeia de equivalên-
cia” (2005) entre diferentes grupos de pessoas com suas res- 99
pectivas reivindicações. Contra a ênfase na multiplicidade
de autores como Castells, Hardt e Negri, Laclau sugere que
o processo de mobilização implica, em grande parte, uma
reductio ad unum, uma redução da “complexidade do social”
(Laclau, 2005).
A coreografia de assembleia também envolve um pro-
cesso de precipitação material, de agrupamentos simbólicos
e físicos no espaço público. A natureza desse processo pode
ser observada na discussão de Frantz Fanon sobre o papel
desempenhado pelas estações de rádio da Frente de Li-
bertação Nacional (FLN) na organização da luta contra os
colonizadores franceses na Argélia (1959-1967). A estação
de rádio da FLN, Voz da Argélia Livre, foi, de acordo com
Fanon, “de importância capital para consolidar e unificar o
povo”. Com sua cobertura:
os fragmentos e as lascas de atos recolhidos pelo correspon-
dente de um jornal mais ou menos vinculado ao domínio
colonial, ou comunicados pelas autoridades militares opos-
tas, perderam seu caráter anárquico e se organizaram numa
ideia política nacional e argelina, assumindo seu lugar numa
estratégia geral de reconquista da soberania popular. Os atos
dispersos se encaixaram numa vasta epopeia. (1967, p. 84)

Fanon reflete longamente sobre como escutar rádio criou


um novo sentido de comunidade mediada entre as pessoas
que sustentaram a mobilização do movimento de libertação
nacional. Embora antes ter um rádio fosse considerado sinal
de cumplicidade com o regime colonial, com a Voz da Ar-
gélia Livre “o receptor de rádio perdeu sua identidade como
inimigo. O aparelho de rádio não fazia mais parte do arsenal
100
de opressão cultural dos ocupadores”. Pelo contrário, para
os argelinos, ter um rádio agora “significa pagar impostos à
nação, comprar o direito de entrar na luta de um povo unido”
(Fanon, 1967, p. 84).
O crucial, no entanto, é que o papel da rádio não parou
no nível da criação de uma comunidade simbólica; também
facilitou a reunião física de pessoas no espaço público. O
agrupamento descrito por Fanon não era só simbólico, mas
também físico, já que, dada a escassez de rádios, as pessoas
se aglomeravam em torno de um aparelho para ouvi-lo jun-
tas. Essa união dos díspares era uma ameaça fundamental
para o colonizador francês. A disseminação dessas reuniões
intimistas de fato constituiu o núcleo inicial em torno do
qual se formaria um processo de mobilização, num mundo
já “cortado em dois” ao longo de uma “linha divisória […]
evidenciada por quartéis e delegacias de polícia” (Fanon,
1965, p. 34). A rádio facilitou, assim, a precipitação material
do movimento e a transformação de públicos dissidentes em
multidões em protesto.
A noção de uma coreografia de assembleia é empregada
para destacar o caráter profundamente mediado do processo
de agrupamento físico bem representado no exemplo de Fa-
non. Do mesmo modo, refere-se ao fato de que esse processo
de mediação expressa a natureza de formas contemporâneas
de liderança indireta, emocional ou “coreográfica”, que gira
em torno de definir o cenário geral de participação, deixan-
do os participantes “navegarem” criativamente pelo espaço
criado. A liderança aqui precisa ser entendida em termos
gerais como uma influência centralizada ao longo do curso
que uma ação coletiva tomará. É evidente que, se procurar-
mos nos movimentos contemporâneos um líder carismático
que atue como “cabeça” – Gandhi ou Martin Luther King –,
não encontraremos essa pessoa singular. Mas a liderança não 101
precisa necessariamente assumir essa forma; pode adquirir
manifestações mais discretas e difusas.
Como sabemos pelo trabalho de estudiosos como Jo
Freeman, também em movimentos sociais antiautoritários
costuma haver uma elite militante que exerce influência es-
quiva na organização interna. O tipo de liderança suave e
invisível, apropriada para as organizações informais, pode ser
entendida como forma de “relacionamento dialógico” que
“busca entendimento e acordo” (Barker, Johnson e Lavalette,
2001). Essa liderança coreográfica funciona por meio de uma
lógica de consenso, em vez de comando, na qual os líderes,
em vez de darem ordens, se envolvem na “proposição a es-
sas entidades diferenciadas [que os movimentos sociais são]
como devem e podem se identificar e agir juntos”, sugerindo
“imagens coletivas” e “formas de ação e organização” (Barker,
Johnson e Lavalette, 2001) – ou em termos da metáfora da
coreografia, “roteiros”, que os participantes são convidados a
realizar. Rejeitando a espontaneidade absoluta proposta por
Castells, Hardt e Negri, o conceito de coreografia enfatiza a
importância de líderes e grupos de lideranças em dar coerên-
cia – um sentido comum de unidade, de lugar e de direção – à
ação coletiva.
A utilidade do conceito pode ser apreciada em três ní-
veis diferentes. Primeiro, permite-nos analisar a dinâmica
organizacional do processo de mobilização e perguntar quem
são os “coreógrafos” das reuniões públicas, as pessoas que as
iniciam e as orientam. Segundo, a utilidade do termo gira
em torno de sua capacidade de capturar o caráter temporal
do processo de mobilização. Sabemos pela literatura do mo-
vimento social que a mobilização é um processo dinâmico
que envolve diferentes estágios, em particular uma fase de
102
iniciação e uma de sustentação, sendo esta particularmente
importante no caso de protestos em massa em longo prazo.
Da mesma forma, podemos ver a coreografia de assembleia
como envolvendo dois momentos diferentes: a condensação
simbólica de pessoas em torno de uma identidade comum e
sua precipitação material no espaço público. Por último, mas
não menos importante, a noção de coreografia nos permite
analisar o caráter espacial do processo de mobilização e a
maneira como ela conecta participantes dispersos a locais
específicos de reunião. Podemos ver esse processo como
envolvendo a tecedura de uma “textura” espacial (Lefebvre,
1991/1974), uma sobreposição simbólica do espaço físi-
co com significados e narrativas culturais. Por sua vez, isso
pode ser dividido em dois momentos separados de tensão
emocional: um ímpeto em direção às reuniões públicas du-
rante a fase de iniciação e uma atração para essas reuniões
durante a fase de sustentação.
As maneiras pelas quais as mídias sociais podem ser
utilizadas na construção de uma coreografia de assembleia
serão analisadas em detalhes nos capítulos restantes, obser-
vando os diferentes movimentos populares de 2011, do Egi-
to à Espanha, passando pelos Estados Unidos. Para maior
comodidade da leitora e do leitor, na próxima seção incluí
uma visão geral dos estudos de casos abordados no livro e
uma linha do tempo dos eventos relevantes.

Visão geral dos estudos de caso

A revolução egípcia de 2011


Alguns dias após a bem-sucedida derrubada do presidente
tunisino, Ben Ali, em 25 de janeiro de 2011, milhares de
103
egípcios foram às ruas para protestar contra a ditadura de
Hosni Mubarak. Depois de uma revolta que durou dezoito
dias e teve como ponto central a praça Tahrir, no centro do
Cairo, Mubarak renunciou ao cargo e um conselho militar
tomou o poder. Os protestos foram celebrados como uma
demonstração da força das mídias sociais como veículo de
mobilização. Mas como as mídias sociais foram concreta-
mente utilizadas pelos ativistas? Como interagiram com
outras formas de comunicação nas ruas no processo de se
encontrar no espaço público?

O movimento dos indignados na Espanha


O dia 15 de maio de 2011 marcou o início de um movimen-
to que se inspirou no levante egípcio e do qual emprestou
táticas. Os indignados, como vieram a ser chamados, saíram
às ruas para expressar indignação com as políticas de auste-
ridade e a crise econômica que deixaram quase metade dos
jovens sem emprego. Imitando o cenário da praça Tahrir, eles
ocuparam a Puerta del Sol, no centro de Madri, por um mês,
depois de uma manifestação que, à semelhança da revolta
egípcia, fora convocada via Facebook por um grupo de jovens
ativistas com pouca experiência política anterior. O movi-
mento estabeleceu uma série de assembleias locais e orga-
nizou marchas em todo o país para coletar as reivindicações
das pessoas. Qual foi o papel das mídias sociais no processo
de mobilização? Como os organizadores usaram as mídias
sociais para colher um sentimento comum de indignação?

Occupy Wall Street nos Estados Unidos


Após convocatória lançada pela revista contracultural Adbus-
104
ters, em 17 de setembro de 2011, trezentas pessoas ocupa-
ram um pequeno parque no centro de Manhattan. Depois
de algumas semanas, conseguiram atrair a atenção da mídia
e capturar a imaginação dos cidadãos dos Estados Unidos.
Eles apelaram aos 99% da população, vítimas da crise finan-
ceira. O movimento logo se espalhou para centenas de locais
no país e fora dele, enquanto o meme do Occupy passou
a ser aplicado em diferentes campanhas e ações. Como as
mídias sociais foram usadas no processo de mobilização dos
participantes no caso do Occupy Wall Street? Como seu uso
difere daquele que caracterizou o Egito e a Espanha?
Linha do tempo

Data Evento Local


6/6/2010 Khaled Said, um blogueiro e Alexandria
empreendedor de 28 anos, é
brutalmente assassinado pela
polícia secreta em Alexandria
depois de postar na internet
um vídeo que documentava
corrupção policial. Dois dias
depois, o executivo do Google
Wael Ghonim abre uma página
no Facebook chamada Kullena
Khaled Said [Somos todos Khaled
Said].
17/12/2010 Mohammed Bouazizi, um Sidi Bouzid
vendedor ambulante de 26 anos,
ateia fogo ao próprio corpo
na pequena cidade de Sidi
105
Bouzid, no sul da Tunísia, após
ser assediado por um oficial
da polícia. Seu suicídio gera
manifestações contra o regime do
presidente Ben Ali.
14/1/2011 Ben Ali sai da Tunísia após Túnis
diversos dias de agitação no país,
pondo um fim em seus 23 anos
no poder.
25/1/2011 Aproximadamente 50 mil pessoas Cairo
tomam as ruas do Cairo no Dia
da Polícia, para protestar contra
o regime de 30 anos de Hosni
Murabak. À noite, as pessoas
são violentamente retiradas da
Praça Tahrir, mas os protestos
continuam no dia seguinte.
Data Evento Local
28/1/2011 Cerca de 1 milhão de pessoas Cairo
saem às ruas do Cairo nas
manifestações da “Sexta-Feira
Raivosa”. Após uma longa
batalha contra as forças policiais,
manifestantes ocupam a praça
Tahrir. À noite, tanques do
Exército se deslocam para a
cidade. No início da manhã, o
regime de Mubarak encerra todas
as comunicações eletrônicas,
no que ficou conhecido como
“apagão digital”.
2/2/2011 Dia da “batalha do camelo”. Cairo
Manifestantes defendem com
êxito a praça Tahrir contra o
ataque de contraventores pró-
-Mubarak e policiais à paisana.
106
11/2/2011 Mubarak renuncia depois de 18 Espanha
dias de levante, deixando o país
na mão do Conselho Supremo
das Forças Armadas (CSFA).
8/3/2011 Democracia Real Ya (Democracia Espanha
Real Já) define sua página no
Facebook que servirá como uma
plataforma organizacional dos
indignados.
15/5/2011 Centenas de milhares de Madri e
espanhóis participam das outras 57
manifestações contra a cidades da
austeridade e a corrupção Espanha
chamadas de Democracia Real
Ya. Na noite de 15 de março, 50
pessoas decidem ocupar a Puerta
del Sol, no centro de Madri.
Data Evento Local
17/5/2011 Depois do despejo do Madri
acampamento no início da
manhã, centenas de cidadãos se
encontram na Puerta del Sol e
estabelecem um acampamento
de protesto que durará um mês.
Logo outros acampamentos se
espalham pelo país.
25/5/2011 Milhares de cidadãos inundam Atenas
a praça Syntagma, em Atenas,
imitando o movimento dos
indignados espanhóis, durante
uma fase de crescente oposição
social contra as medidas de
austeridade propostas pelo
governo de Papandreou.
19/6/2011 Uma enorme manifestação ocorre Madri
em Madri e em várias cidades da 107
Espanha alguns dias depois de
as principais ocupações serem
voluntariamente levantadas por
ativistas. No verão, os indignados
organizam uma série de marchas
em todo o país e montam
assembleias de bairro.
12/7/2011 A revista contracultural Vancouver
canadense Adbusters lança em
seu site a primeira convocatória
do Occupy Wall Street.
2/8/2011 Primeira Assembleia Geral Nova York
do Occupy Wall Street, em
Bowling Green, ao lado da
estátua do touro de Wall Street.
Desentendimentos ocorrem entre
ativistas socialistas e anarquistas.
Data Evento Local
17/9/2011 Manifestantes ocupam a praça Nova York
Zuccotti, no centro de Manhattan,
perto da Bolsa de Valores de
Nova York, em Wall Street.
1/10/2011 Prisões em massa (mais de 700 Nova York
pessoas) dos manifestantes do
Occupy na ponte do Brooklyn
chamam a atenção da mídia
corporativa.
15/10/2011 Dia de ação global 15-O para Global
mudanças globais. Convocado
pelos indignados espanhóis e
promovido em todo o mundo,
em 950 cidades de 82 países.
Em Nova York, ativistas
ocupam a Times Square. Em
Londres, ativistas montam um
108 acampamento nos degraus
da catedral de São Paulo, que
manterão até fevereiro de 2012.
15/11/2011 O acampamento de protestos do Nova York
Occupy Wall Street no Zuccotti
Park é despejado pela polícia
de Nova York. Dois dias depois,
30 mil pessoas participam de
um protesto contra o sistema
financeiro nas ruas de Manhattan.
“Não somos gente de
comentar e curtir”: a
coesão revolucionária da
shabab-al-Facebook

Tudo o que fazemos é postar


no Facebook. Somos a geração
Facebook. Ponto final.
Comentário feito por um usuário na
página Kullena Khaled Said
Durante a manifestação realizada em julho de 2011
contra a continuação do regime militar, atrás de uma das
cercas verdes ao redor da praça Tahrir, um ambulante esta-
va ocupado vendendo suvenires revolucionários. Entre eles,
havia uma camiseta com os dizeres “Revolução de 25 de Ja-
neiro”, ao lado da qual havia duas palavras: “liberdade” e “Fa-
cebook”. Ali perto, na rua Talaat Harb, um grafite reproduzia 111
o logotipo azul e branco da rede social de Zuckerberg. Um
pouco mais adiante, ainda era possível distinguir letras pinta-
das desbotadas compondo a palavra “Twitter” numa lojinha.
Esses escritos pareciam bastante estranhos aos olhos
ocidentais, acostumados a ver logotipos de sites como os do
Facebook e do Twitter reluzindo numa tela de computador,
e não espalhados pelas ruas, menos ainda como conteúdo de
grafites políticos. Mas é exatamente esse constrangimento
que revela algo importante sobre a dinâmica da revolução
egípcia como um processo conduzido por uma juventude
experiente na internet, a shabab-al-Facebook [juventude do
Facebook]. Como explicarei neste capítulo, no curso da
revolução egípcia, as mídias sociais se tornaram o meio de
uma coreografia de assembleia, facilitando a união dessa ju-
ventude cosmopolita do Facebook em torno de uma iden-
tidade comum e sua precipitação material numa “juventude
de rua”. Zombada por anos pela mídia estatal como “gente
de comentar e curtir”, a geração da internet se infundiu com
um espírito missionário de salvação nacional, incitada por
páginas do Facebook, postagens em blogs e tuítes.
As mídias sociais, em particular o Facebook, funciona-
ram como campo de treinamento para essa juventude poli-
ticamente inexperiente, mas conhecedora da mídia, e como
plataforma de divulgação dos protestos. A shabab-al-Face-
book se tornou, assim, a agitadora de rua dos shaabi, as classes
mais baixas que compõem a grande maioria da sociedade
egípcia. Foi por meio dessa interação com esses grupos dos
quais estão separados pela brecha digital que a shabab-al-
-Facebook se transformou, com sucesso, no catalisador de um
processo de mobilização em massa. Se por um lado a mídia
112
social desempenhava apenas um papel limitado e bem espe-
cífico nesse processo, por outro era determinante para a coe-
são do núcleo revolucionário inicial em torno do qual vários
“anéis” de participantes agrupar-se-iam progressivamente.
Como vimos, os levantes no Egito e o anterior, na Tu-
nísia, foram celebrados na mídia como “revoluções do Fa-
cebook”, “revoluções do Twitter” ou “revoluções wiki”. Esses
rótulos ressaltam, com razão, o importante papel desempe-
nhado pela internet e pelas mídias sociais como platafor-
mas para comunicações de protesto. No entanto, ignoram o
fato de que só um círculo limitado foi efetivamente mobi-
lizado por essa mídia, como consequência dos baixos níveis
de conexão à internet. Em 2011, somente 25% das famílias
egípcias estavam conectadas, só 4% dos adultos estavam no
Facebook e apenas um grupo minúsculo, 0,15% deles, ti-
nha uma conta no Twitter (Dubai School of Government,
2011b). Como mostra o “projeto de mídia Tahrir”, que pes-
quisou o uso da mídia com mais de mil manifestantes –
principalmente de classe média –, apenas uma fração dos
que saíram às ruas foi mobilizada pelo Facebook, e um nú-
mero ainda menor pelo Twitter. Só 16% dos entrevistados
no Cairo usavam o Twitter, enquanto 42% usavam o Face-
book, apesar de que, como Wilson e Dunn pontuaram, eles
faziam parte de uma “amostra altamente conectada” (2011).
Para a grande massa de participantes do levante egípcio, a
mobilização se deu via canais mais tradicionais, como co-
municação oral e mídia de massa.
Essa evidência nos pede que tenhamos consciência do
impacto limitado das mídias sociais como meio de mobili-
zação durante a revolução egípcia. Mais positivamente, tam-
bém nos convida a verificar a contribuição específica para o
processo de mobilização daquele grupo em particular para o
qual a internet era, de fato, junto com a comunicação oral, o 113
principal meio de mobilização: os chamados jovens do Fa-
cebook. É nesse setor do movimento que vou focar aqui.
Como consequência, o relato proposto neste capítulo é reco-
nhecidamente limitado em sua cobertura e escopo. Antes de
mais nada, concentra-se nos dezoito dias do levante contra
Hosni Mubarak – e não nas ondas de protesto posteriores
–, especificamente na preparação das manifestações e nos
primeiros dias do levante. Não considero as estratégias de
comunicação da Irmandade Muçulmana ou dos sindicatos,
por mais que ambos tenham sido decisivos para o sucesso da
revolução. Por fim, não discuto o papel desempenhado pelos
meios de comunicação de massa, em particular a Al-Jazeera,
apesar de ter cumprido um importante papel na mobilização
de grandes setores da população para além da juventude de
classe média conectada (Cottle, 2011).
O capítulo começa analisando como o rígido controle do
regime de Mubarak do espaço público, antes da revolução,
obrigou os ativistas a recorrer à internet para compartilhar
sua dissidência. Entre os vários blogs e sites ativistas, um pa-
pel de liderança foi desempenhado pela página do Facebook
Kullena Khaled Said, que atuou como um site de condensa-
ção emocional para uma juventude do Facebook amplamente
não politizada antes dos protestos. Além disso, serviu como
plataforma de difusão para criar um sentido de antecipação
e um ímpeto antes da precipitação material do movimento.
Essa organização online inicial logo foi paralelizada por um
intenso esforço no mundo real para agitar os shaabi, as clas-
ses populares. Desde os primeiros dias da revolta, a comu-
nicação face a face ultrapassou as mídias sociais como meio
de escolha para o movimento. Na última seção do capítulo,
114 falo sobre o papel desempenhado pelo Twitter no levante.
Argumento que, comparado ao Facebook, ele teve um im-
pacto mais limitado e esteve voltado principalmente a atrair
atenção externa, além de desempenhar um papel de canal de
comunicação tática dentro da elite ativista. No entanto, esse
meio foi visto por alguns ativistas como portador do risco
de isolamento da sociedade egípcia dominante, retirando
tempo do trabalho nas ruas e de formas mais acessíveis de
comunicação na internet.

Deserto nas ruas, oásis na internet

As análises do papel da internet na revolução egípcia, em


geral, ignoram o fato de que sua popularidade como veículo
de organização de protestos foi uma consequência do for-
te policiamento do espaço público sob Mubarak. Natural-
mente, o autoritarismo do regime afetou todos os direitos
civis e políticos básicos. Mas, das três liberdades democrá-
ticas liberais fundamentais – de expressão, de associação e
de reunião –, a mais reprimida foi possivelmente a última
(Osman, 2010). De fato, sob Mubarak, foi permitida a exis-
tência de um punhado de partidos da oposição, incluindo o
liberal el-Wafd, o social-democrata Tagamma e o nasserista
el-Karama, embora tenham agido em grande parte como
elementos decorativos do regime, haja vista que as eleições
eram sistematicamente fraudadas. Alguns jornais da opo-
sição, incluindo Masry Al-Youm e el-Shorouq, foram auto-
rizados a operar, mesmo sendo alvos de constante assédio
legal, e com seus editores sujeitos a intimidações. O regime
tolerou sem entusiasmo a existência deles, uma vez que al-
cançavam apenas setores limitados da população egípcia e,
portanto, não ameaçavam a manutenção do consenso. O que 115
o regime não podia tolerar eram manifestações públicas nas
ruas, o que possibilitaria a criação de uma interação perigosa
entre a comunidade ativista e as classes mais baixas.
As leis de Estado de emergência mantidas quase sem
interrupção durante o domínio de Mubarak no poder visa-
vam especialmente ao direito de reunião no espaço público.
A polícia secreta, o famoso mukhabarat, era uma presença
infame cuja existência fantasmática agia como um pode-
roso dissuasor para todos aqueles que alimentavam aver-
são ao regime (Bradley, 2008). O uso de tortura, violência,
sequestros e, às vezes, assassinatos de oponentes políticos
era do conhecimento geral da população. A presença de
informantes da polícia gerou um sentimento comum de
desconfiança, mesmo entre parentes e amigos – uma expe-
riência comum sob um regime totalitário. No entanto, ape-
sar de toda a tentativa do regime de silenciar a dissidência
no espaço público, a próspera vida nas ruas e os densos la-
ços sociais nas cidades egípcias (Bayat, 2010) deram lugar
ao cultivo da oposição ao regime. As dezenas de milhares
de cafeterias ahwa no Cairo, em Alexandria e em outras
grandes cidades forneceram uma infraestrutura difusa para
alimentar a dissidência nas ruas. Não era incomum ouvir
pessoas insultando Mubarak em conversas privadas. Mas o
medo de represálias policiais limitava a dissidência a locais
e círculos privados ou semipúblicos muito específicos. A
dissidência aberta na forma de manifestações públicas foi
restrita a uma pequena comunidade de ativistas, bloguei-
ros, políticos da oposição e trabalhadores de ONGs com
limitada conexão com a população em geral.
A manifestação média durante os anos Mubarak seria
de algumas centenas de pessoas. Um local típico poderia
116
ser a escadaria da entrada do sindicato dos jornalistas e
outros sindicatos progressistas que atuavam como santuá-
rios de protesto. As pessoas se reuniam por alguns minu-
tos, desdobravam uma faixa, gritavam algumas palavras de
ordem para uma pequena audiência de transeuntes, antes
que a polícia chegasse para sufocar as pessoas num cordão
de contenção apertado. “Éramos vistos como loucos”, re-
lata Sally Zohney, 27 anos, formada em ciências políticas
pela Universidade do Cairo, que frequentava regularmente
essas manifestações. “As pessoas não estavam entendendo
por que fazíamos aquilo. Não estavam acreditando que fos-
se possível acabar com o regime de alguma forma.” A única
grande exceção durante os anos 2000 foi a manifestação
contra a guerra do Iraque, em fevereiro de 2003. Cerca de
40 mil pessoas, segundo cálculos otimistas, convergiram
para a praça Tahrir, mas logo foram dispersadas por poli-
ciais e gás lacrimogêneo. Apenas no fim dos anos 2000 é
que uma série de greves e protestos trabalhistas, incluin-
do manifestações em frente ao Parlamento, estabeleceria a
base para um popular “repertório de disputa” (Tilly, 2003)
que formou a revolução de 2011.
Tendo em mente essa “falta de hospitalidade” do espaço
público sob Mubarak, podemos entender melhor as razões
pelas quais a internet e, em especial, o Facebook passaram
a ser uma plataforma tão popular para incentivar dissen-
sos contra o regime. Usando uma imagem reconhecida-
mente estereotipada, mas ainda assim adequada, pode-se
dizer que se o espaço público egípcio havia se tornado um
deserto para grupos dissidentes, no qual eles poderiam ser
facilmente identificados e se tornar alvos, a internet passou
a ser um oásis difuso em que identidades da oposição po-
deriam se desenvolver sem ser imediatamente esmagadas
pelo Estado. 117
Na década de 2000, o setor de tecnologia da informação
e da comunicação (TIC) experimentou um crescimento sig-
nificativo no Egito (Abdulla, 2007). O Cairo testemunhou
um aumento de startups na área web e o desenvolvimento de
empresas de telefonia locais, incluindo Etisalat e Mobinil.
Um homem se tornou o rosto desse “Egito 2.0” com sua
promessa de liberalização política. Ahmed Nazif, primeiro-
-ministro de 2004 até a revolução e ex-ministro da Comu-
nicação, se esforçou muito para melhorar a conectividade à
internet. Entre 2005 e 2010, a taxa de alcance da internet
subiu de 9% para 24% dos domicílios, ainda bastante bai-
xa se comparada à dos Estados Unidos, que havia atingi-
do quase 80% em 2010, mas também subestimada graças
ao uso intenso de cibercafés (International Telecommuni-
cations Union, 2011) pelos egípcios. Percebendo que não
poderia efetivamente censurar a internet sem desencadear
uma avalanche de reprovação de seus aliados ocidentais, o
regime de Mubarak apresentou o grau relativo de liberdade
online desfrutada pelos egípcios como prova de sua agenda
de liberalização política (Hofheinz, 2005).
Ao deixar a internet relativamente aberta, o regime espe-
rava manter o apoio da jovem classe média, a nova geração de
egípcios que passou a ser conhecida como shabab-al-Facebook
(Peterson, 2011). A relativa leniência do regime em relação
ao acesso à internet não foi isenta de riscos. A expansão das
TIC treinou uma força de trabalho no uso de tecnologias de
comunicação que poderiam se tornar – e se tornaram – uma
arma perigosa nas mãos dos inimigos do regime. Além disso,
blogs e grupos do Facebook começaram a criar uma cultu-
ra de irreverência e antiautoritarismo, mais explosiva sob a
pressão do sistema autoritário ou “faraônico” do governo do
118
Egito (Salah, 2009). No fim dos anos 2000, blogueiros como
Hossam al-Hamalawy, também conhecido como Arabawy, e
Alaa Abdel Fattah começaram a atrair seguidores significa-
tivos com seus comentários cáusticos sobre a política egípcia.
Esses e outros blogueiros eram muitas vezes presos e per-
seguidos pela polícia, e o Partido Nacional Democrático de
Mubarak até criou um “Comitê Eletrônico” especificamente
para combater os ativistas da internet, enquanto outros blo-
gueiros e usuários do Facebook eram pagos para postar men-
sagens pró-regime (Ghonim, 2012). Apesar da repressão ao
ativismo digital, Nazif se vangloriava da abertura de espaços
limitados de dissidência na internet como consequência de
suas políticas. Quando questionado, em janeiro de 2009, por
um grupo de ativistas da Universidade do Cairo, o primeiro-
-ministro respondeu de forma irônica que os manifestantes
ali eram “os mesmos jovens que usavam a internet para ex-
pressar suas opiniões” (Shapiro, 2009).
Os ativistas do Cairo fizeram parte do grupo 6 de Abril,
que liderou as experimentações no uso da internet como pla-
taforma de mobilização de protestos. O grupo era compos-
to sobretudo por jovens do Cairo e de Alexandria de classe
média, liderados pelo jovem engenheiro civil Ahmed Maher.
Muitos deles se uniram ao grupo por desilusão com o Kifa-
ya [“Basta”], um movimento formado em 2005 para exigir
o fim do regime de Mubarak, mas que mostrava desacordo
em relação aos problemas econômicos mais candentes para
a maioria da população. Para resolver essa questão, o novo
movimento 6 de Abril tentou estabelecer contatos com o
movimento trabalhista. O nome do grupo foi inspirado na
data de uma greve dos trabalhadores têxteis em Mahalla el-
-Kobra, uma cidade industrial no Delta do Nilo, com a qual
os militantes expressaram solidariedade, pedindo uma greve
geral nacional em 6 de abril de 2008 (Wolman, 2008). O 119
evento foi divulgado na página do Facebook do 6 de Abril e
organizada como um flash-mob. Os apoiadores foram convi-
dados a vestir roupas pretas e a se alinhar nas ruas, de costas
para o trânsito, para expressar sua indignação com o regime.
A greve em Mahalla el-Kobra foi brutalmente reprimida
pela polícia, com um morto e centenas de feridos, enquanto
a manifestação de apoio no Cairo teve um grau limitado
de êxito. Mas o regime dessa vez tomou conhecimento e
prendeu Israa Abdel Fattah, a administradora da página do
Facebook do 6 de Abril, que passou a ser conhecida na mí-
dia egípcia como “garota do Facebook”. O fato acrescentou
um repertório de práticas de protesto que se aglutinavam
paulatinamente em torno de uma identidade revolucionária
comum, como resumido por Noor Ayman Noor, filho ati-
vista de uma figura de destaque da oposição e ex-candidato
à presidência, Ayman Noor:
O 6 de Abril estabeleceu bases para o fato de que era possível
organizar grandes protestos online. Kifaya estabeleceu bases
para o fato de que era possível ir às ruas e dizer kifaya Muba-
rak [basta de Mubarak]. O dia 25 de janeiro não aconteceu
da noite para o dia. Foram anos de coisas acumulando, de
pessoas solidificando coisas. O melhor exemplo disso é que,
em 25 de janeiro, muitas das canções que entoávamos eram
aquelas que vínhamos entoando em manifestações anterio-
res. Tudo é um acúmulo, nada acontece da noite para o dia.

Foi nesse “repertório de contenção” estabelecido (Tilly,


2003) não apenas na disponibilidade de poderosas tecnolo-
gias de comunicação que foram dadas as condições para a
revolução egípcia.

120
Khaled Said: uma imagem de perfil coletiva

Era verão de 2010 e eu não gostava muito de política. Lia


as notícias, às vezes escrevia algo no Facebook. Mas ficava
nisso. Eu realmente não me importava muito com política.
Então, a página de Khaled Said começou e se espalhar mui-
to rápido. Um amigo me enviou um convite […] e come-
cei a ver as notícias e me importar muito com o que estava
acontecendo com meu país. Vi as fotos, que eram brutais.
O cara não tinha feito nada além de perguntar por que o
estavam procurando. Muitas pessoas como eu começaram a
se importar com isso depois de ver a foto do rosto de Khaled
Said, que era muito brutal, e às vezes eu pensava que aquilo
poderia acontecer comigo.
Para muitos jovens egípcios de classe média, como Mus-
tafa Shamaa, um estudante de 20 anos da Universidade do
Nilo, no Cairo, ingressar na página do Facebook Kullena
Khaled Said foi como um ritual de iniciação política que fa-
cilitou sua participação no movimento revolucionário. “Essa
página foi o que me levou à política”, diz Mustafa. As pá-
ginas Kullena Khaled Said e outras da oposição egípcia no
Facebook contribuíram para motivar e unir um círculo de
jovens que, de outra forma, não criariam essas fortes identi-
ficações políticas.
A página foi criada para protestar contra a morte de
Khaled Said, um alexandrino de classe média, de 28 anos,
apaixonado por blogs, que completara parte dos estudos nos
Estados Unidos. Em 6 de junho de 2010, Said foi pego num
cibercafé por dois policiais secretos e espancado até a morte
na rua por supostamente ter postado um vídeo que documen- 121
tava o envolvimento de membros da força policial em tráfico
de drogas. A imagem de seu rosto destruído por golpes co-
meçou a circular na internet, chamando a atenção de muitas
pessoas para a realidade brutal do Egito de Mubarak. Em
reação, postagens em blogs foram escritas; vídeos, publicados;
e páginas do Facebook, criadas. A página Kullena Khaled Said
se tornou um ponto de encontro emocional para os jovens do
Facebook, que não só sentiram compaixão por Khaled Said,
como também se identificaram com ele, pensando, como o
próprio Mustafa, “que isso poderia ter acontecido comigo”.
Teorias da conspiração ainda abundam acerca da criação
da página e de quem estava por trás dela. A versão “oficial” é
que foi criada por Wael Ghonim, um egípcio de 30 anos que
trabalha em Dubai como executivo de marketing do Google
para o Oriente Médio. O mistério em torno da página cres-
ceu pelo fato de Ghonim, no intuito de proteger sua iden-
tidade, decidir usar uma conta falsa com o nome el shaheed
(“o mártir”, como Said era considerado) e o software Tor10
para garantir o anonimato online. Ghonim era um jovem
egípcio liberal e muçulmano devoto, oriundo da classe mé-
dia egípcia e com MBA realizado na elitista Universidade
Americana, no Cairo, assim como muitos outros ativistas
digitais. No entanto, comparado com outros, Ghonim teve
uma compreensão mais clara da condição e da experiência
das classes mais baixas do país, uma vez que estudou na
pública e superlotada escola de Orman, no Cairo. “Fanáti-
co por internet” desde a tenra idade, Ghonim não tinha as
habilidades e o carisma típicos de um líder revolucionário.
Como ele próprio admitiu, achou mais fácil se relacionar
com pessoas online do que pessoalmente (Ghonim, 2012).
Mas tampouco era um novato no ativismo. Em 2009, criou
122 uma página no Facebook para apoiar a campanha presiden-
cial do ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atô-
mica (Aiea) Mohammed el-Baradei, que conhecera pessoal-
mente em sua mansão no Cairo.
A resposta à abertura da página Kullena Khaled Said foi
impressionante. Uns 36 mil usuários ingressaram nela no
primeiro dia, ajudando-a rapidamente a se tornar a página
antirregime mais popular do Facebook. A participação ma-
ciça que ela registrou foi uma prova do grau de indignação
que muitos egípcios sentiram e um indicativo de como as
páginas do Facebook eram um dos poucos lugares por meio

10. Tor é a sigla, em inglês, para The Onion Router. Esse software per-
mite aos usuários proteger os dados de navegação por meio de um
complexo processo de criptografia que esconde a origem, o conteúdo
e o destino das mensagens. Para mais informação, visite a página do
projeto em: [Link]
dos quais essa indignação podia ser canalizada. No entanto,
a popularidade da página também foi resultado das habili-
dades de marketing de Wael Ghonim e, sobretudo, de sua
capacidade de construir um discurso emotivo, convincente,
com os usuários da página. Ghonim explorou as técnicas que
havia aprendido durante o MBA e que foram aperfeiçoadas
no gerenciamento de várias páginas árabes de sucesso antes
de ele ingressar no Google. Seu modelo no planejamento
da campanha foi o clássico “funil de vendas” em três etapas:

A primeira fase foi convencer as pessoas a entrar na página


e ler as postagens. A segunda foi convencê-las a começar a
interagir com o conteúdo “curtindo” e “comentando”. A ter-
ceira foi levá-las a participar da campanha online da página
e a contribuir com o próprio conteúdo. A quarta e última
fase ocorreria quando as pessoas decidissem levar o ativismo 123
para as ruas. Essa foi minha aspiração final. (Ghonim, 2012,
p. 67-8)

O sucesso da página estava na capacidade de atrair um


público diversificado de usuários, além daqueles já politiza-
dos. Para isso, Ghonim usou o idioma egípcio ammeya, em
vez do erudito árabe padrão, e empregou abundante mate-
rial visual, como vídeos, fotos e similares, capazes de atrair
pessoas de baixa escolaridade. Além disso, evitou cuidado-
samente o tipo de linguagem confrontativa usada em outras
páginas do Facebook contra o regime egípcio, o que acredi-
tava poder desencorajar usuários não politizados. Por fim,
tentou fazer com que os usuários sentissem que não estavam
apenas “curtindo” uma página, mas engajando-se numa con-
versa. Para isso, gastou muito tempo e esforço respondendo
aos comentários dos usuários.
Por meio de seus posts – escritos em primeira pessoa,
como se o próprio Khaled Said falasse do túmulo –, Gho-
nim catalisou um processo de identificação emocional por
parte de jovens de classe média com alguém com quem eles
tinham muito a compartilhar. Exemplo desse processo de
identificação coletiva foi o fato de muitos usuários adotarem
a foto de Said como a própria foto de perfil no Facebook.
Antes da manifestação de 25 de janeiro, o engajado cartu-
nista brasileiro Carlos Latuff, a pedido de ativistas egíp-
cios, representou Said como um jovem de moletom cinza,
segurando um Hosni Mubarak do tamanho de um rato e
com aparência assustada. O perfil de Said como blogueiro
e a história de seu “martírio” fizeram dele um herói perfeito
para a shabab-al-Facebook: um líder morto em torno do qual
jovens da classe média podiam se aglutinar, na ausência de
124 heróis vivos. Assim, Said era uma figura bastante diferente
de Mohammed Bouazizi, o ambulante tunisiano da peque-
na cidade de Sidi Bouzid que, ao atear fogo em si mesmo em
17 de dezembro de 2010, em protesto contra um episódio de
repressão policial, acenderia o pavio da revolução tunisiana
e, portanto, da Primavera Árabe como um todo. Numa so-
ciedade fortemente dominada por classes como a do Egito,
os antecedentes de classe média de Said desempenharam
um papel importante na politização da parcela da população
que fora a mais relutante em expressar seu descontentamen-
to com o regime. Como sugere Mustafa Shamaa, “os prin-
cipais usuários da página eram aqueles que tinham acesso à
boa alimentação e à internet […], haviam estudado no exte-
rior, frequentaram escolas internacionais, estiveram fora do
Egito e tinham mais consciência, [mas] não se importavam
com os problemas”.
Nas palavras de Ahmed Sabry, arquiteto de 48 anos
engajado na revolução, o Facebook era para muitos uma
espécie de “campo de treinamento”, que preparava a sha-
bab-al-Facebook psicologicamente para os difíceis desafios
que a aguardavam nas ruas. Isso permitiu que seus adeptos
adquirissem confiança nas próprias habilidades sob a co-
bertura relativamente segura de uma tela de computador.
A ativista Nora Shalaby observa que a página do Facebook
“mostrava que havia muita gente pensando o mesmo, que
queria que a tortura acabasse e o regime mudasse”. A mera
existência de páginas de oposição no Facebook foi, para
muitos jovens politicamente inexperientes, prova de que
o regime de Mubarak era menos poderoso do que parecia
ser. Mustafa Shamaa relata que, “na primeira vez que assisti
à página do Khaled Said, fiquei um pouco assustada. Mas 125

então vi que eles não prenderam o administrador. Percebi


que havia alguma segurança e que poderíamos escrever o
que quiséssemos”.
Se a figura de Khaled Said permitiu que o jovem egípcio
não politizado de classe média se identificasse com um he-
rói, também permitiu que se identificasse contra um inimigo
comum – não apenas o regime como um todo, e sim, mais
especificamente, a polícia. “Nossa questão era, em primeiro
lugar, um ódio à polícia”, explica Sally Zohney. “A polícia re-
presentava tudo o que havia de errado na sociedade egípcia.”
Diferentes categorias de pessoas tinham distintos motivos
para cultivar essa raiva. Os fanáticos por futebol – torcedores
de clubes populares como Zamalek e Al Ahly – odiavam a
polícia por causa dos frequentes confrontos depois das par-
tidas (Montague, 2011).11 Os motoristas de micro-ônibus
a odiavam por eles serem constantemente alvo de multas
arbitrárias com as quais os oficiais compensavam seus salá-
rios miseráveis. Os jovens se ressentiam por causa de buscas
aleatórias e perseguições.
A página Kullena Khaled Said se transformou num palco
para coletar e catalogar a extensão da falta de apoio ao re-
gime, reunindo todas as evidências num só lugar e criando
assim uma “cadeia de equivalência” (Laclau, 2005) entre as
queixas de diferentes grupos. Como Sally Zohney relata:

Todo mundo começou a postar vídeos da brutalidade po-


licial. Coisas que as pessoas estavam filmando com os ce-
lulares: como estupravam prisioneiros, davam-lhes choques
etc. […] É impressionante entrar na página, ver dez vídeos
126 e constatar que não é um caso ou dois, é algo muito comum.
[…] Vemos a polícia rindo enquanto estapeia as pessoas, as
ofende e as faz correr nuas no chão.

A convocação para uma manifestação em 25 de janeiro,


Dia da Polícia, proporcionaria essa convergência de senti-
mentos populares contra as forças de segurança, os quais en-
contraram no Facebook uma data para se materializar.

Apresentando a revolução

O desafio organizacional enfrentado pelos administradores


de importantes páginas antirregime do Facebook era como

11. Os torcedores organizados dos times de futebol do Cairo Al Ahly e


Zamalek tiveram um papel crucial na revolução contra Mubarak.
transformar o público reunido online em manifestantes.
Embora essa tenha sido uma tarefa assustadora, em virtude
do medo da repressão policial, é notável quanto os usuários
dessas páginas estavam impacientes em passar do Facebook
para as ruas. Nora Rafea, uma ativista de 26 anos, descreve
seus sentimentos ao acessar a página Kullena Khaled Said:

Para mim, o Facebook foi tipo “opa”. Realmente precisamos


deter esse mundo virtual. Se queremos fazer algo, precisa-
mos parar com isso. Temos de ir além. Essa foi minha ideia.
É muito confortável. Sentimos que estamos apenas gritando
palavras, mas na verdade não fazemos nada. Para mim, era
como se precisássemos sair dos nossos círculos. Digo coisas
e as pessoas curtem, curtem, curtem. Elas vêm do mesmo
contexto e da mesma perspectiva, de alguma forma não re-
lacionados ao território, à realidade, às pessoas reais nas ruas. 127

O medo de pôr os usuários em risco inicialmente levou


Ghonim e o outro administrador da página, Abdel Rahman
Mansour, a “focar nas atividades online que poderíamos
promover, a instar um sentimento de otimismo e confian-
ça de que poderíamos fazer a diferença, mesmo que apenas
num mundo virtual até aquele momento” (Ghonim, 2012,
p. 67). No entanto, poucos dias após sua abertura, a página já
estava divulgando manifestações de rua.
Por sugestão de um usuário alexandrino, uma série de
“atos silenciosos” foi organizada e divulgada na página do
Facebook (Ghonim, 2012). A ideia desses atos seguiu o for-
mato do flash-mob, como os organizados em anos anteriores
pelo grupo de 6 de Abril por meio de sua própria página no
Facebook. As pessoas foram convidadas a se reunir numa
área central da cidade em determinado momento para rea-
lizar uma pequena ação coletiva. Ficavam em silêncio numa
área pública, algumas lendo o Alcorão ou a Bíblia, como
uma forma de expressar pacificamente sua indignação con-
tra o regime. No primeiro desses eventos, realizado em 19 de
junho de 2010, apenas algumas centenas participaram dos
atos no Cairo e em Alexandria, uma fração dos milhares que
responderam positivamente ao convite no Facebook. Isso foi
apenas uma prova de que as confirmações do Facebook qua-
se nunca se traduzem em presença real, um fenômeno que
também veremos em outros movimentos discutidos neste
livro. Apesar da participação relativamente baixa, o evento
foi considerado por Ghonim um sucesso moderado e uma
confirmação da possibilidade de transformar os públicos do
Facebook em multidões de manifestantes. Nos meses se-
guintes, vários outros “atos silenciosos” foram divulgados na
128
página, conquanto depois de um tempo o formato se des-
gastasse por causa da força da repetição.
Em comparação com as “posições silenciosas” de 2010,
a convocatória lançada pela página para uma manifestação
massiva no dia 25 de janeiro de 2011 foi um ato muito mais
ousado. Em seu livro autobiográfico, Ghonim explica a defi-
nição da data como uma decisão solitária tomada às pressas
na noite de 29 de dezembro. Ele havia acabado de discutir as
opções com Ahmed Maher, líder do movimento 6 de Abril,
num bate-papo na internet. Maher, porém, pediu tempo
para considerar a data e não parecia muito entusiasmado,
já que seu grupo queria concentrar esforços em 6 de abril
propriamente. Ghonim, no entanto, não resistiu à própria
vontade e postou a mensagem “25 de janeiro é Dia da Polí-
cia e um feriado nacional […]. Acho que a polícia fez o su-
ficiente este ano para merecer uma celebração especial […].
O que vocês acham?” (2012, p. 121). Com 471 curtidas e 119
comentários, a resposta dos usuários foi positiva, mas não
entusiasmada. Alguns dias depois, o bombardeio islâmico
de uma igreja copta em Alexandria, em 1º de janeiro, que
matou 21 pessoas, desviou as atenções da ideia. Isso durou
até 14 de janeiro, dia em que Ben Ali escapou da Tunísia,
quando Ghonim retomou o intento de uma ação no dia 25.
Dessa vez, a mensagem atraiu 3.022 curtidas e 1.748 co-
mentários, um claro sinal de que os usuários entusiasmados
com os eventos na Tunísia estavam prontos para a ação.
É evidente que a organização da manifestação de 25 de
janeiro, que marcaria o início da revolução de dezoito dias,
não foi realizada apenas na internet. Exigia uma base com-
plexa e trabalhosa para resolver a logística e divulgar os pro-
testos entre a população. Vendo o evento como uma “opor-
tunidade política” (Tarrow, 1994) imperdível, uma Coalizão
Revolucionária da Juventude se formou, abrangendo ativistas 129
do 6 de Abril, socialistas revolucionários, membros do grupo
de el-Baradei Associação Nacional para a Mudança e jovens
dissidentes da Irmandade Muçulmana. Como Ahmed Sa-
bry diz, a manifestação “foi muito mais organizada do que as
pessoas do Ocidente pensam. Havia vários locais de reunião
e números de telefone e de celulares para os advogados”. O
Movimento Juvenil do 6 de Abril desempenhou um papel
importante na coordenação de eventos. Eles montaram uma
“sala de guerra” num escritório próximo à praça Tahrir, de
onde coordenariam os ativistas por telefone nas diferentes
marchas. Além disso, antes do dia 25, organizaram uma sé-
rie de manifestações de ensaio em bairros populares para
experimentar diferentes táticas e testar a reação das pessoas
nas ruas. Os ativistas também tentaram convencer os gru-
pos de oposição estabelecidos a se unir a eles. Enquanto a
Irmandade Muçulmana e todos os outros partidos da opo-
sição inicialmente recusaram o convite, figuras-chave de
torcidas organizadas prometeram apoio.
A página Kullena Khaled Said, aos poucos, passou a fun-
cionar como uma espécie de megafone pelo qual, de sua base
segura em Dubai, Ghonim transmitia a um público amplo
e difuso as decisões tomadas por ativistas no Cairo e em
Alexandria. A página do Facebook se constituiu numa pla-
taforma na qual se podiam compartilhar e organizar infor-
mações, porém o mais importante era criar uma sensação de
antecipação sobre o próximo evento. Foi criado um even-
to no Facebook intitulado “25 de janeiro: revolução contra
tortura, pobreza, corrupção e desemprego”. Na sexta-feira,
21, quatro dias antes do primeiro protesto, o evento contava
com 100 mil confirmados, e muitos participantes ainda se
juntariam nos dias seguintes.
130
Será, porém, que todos aqueles que apareciam na lista
de “confirmados” realmente iriam aparecer? Ou os jovens
do Facebook permaneceriam apenas jovens do Facebook?
Essas foram as perguntas que muitas pessoas se fizeram
na véspera da manifestação, evidenciando a dificuldade de
construir um sentido de confiança online (Tarrow, 1998).
Eventos anteriores já haviam familiarizado os participantes
com o abismo entre uma contagem de confirmados no Fa-
cebook e a contagem real das ruas. O ceticismo era, assim,
muito alto: “Vi as pessoas dizendo que participariam dos
protestos, mas não acreditava que o fizessem”, relata Reda,
fotógrafo e membro da torcida do Al Ahly que foi às ruas no
dia 25. Sally Zohney percebeu que muitos de seus amigos
que haviam confirmado presença não pretendiam participar:

Antes do dia 25, havia o evento no Facebook da Revolu-


ção de 25 de Janeiro, ao qual muitas pessoas afirmavam que
compareceriam. Eu pensava: “Ok, beleza”. Depois, via quan-
tos desses eu conhecia e perguntava: “Você realmente vai?”.
E eles diziam: “Não”. “Então por que está dizendo que vai
participar no Facebook?”. “Porque somos solidários”. Assim,
comecei a perceber que, de cada vinte pessoas que confir-
mavam presença, apenas uma ou duas de fato compareciam.

O medo da repressão policial e a desconfiança mútua


entre os usuários do Facebook foram dois obstáculos im-
portantes no caminho para alcançar uma boa participação
no dia. Ghonim estava ciente do risco. Nos últimos dias que
antecederam à manifestação, ele se esforçou para combater
o derrotismo presente em alguns comentários postados na
página, como resumido na seguinte mensagem: “Ninguém
fará nada, você vai ver. Tudo o que fazemos é postar no
Facebook. Somos a geração Facebook. Ponto final” (2012, 131
p. 135). Para dissipar essa impressão, Ghonim se concen-
trou em mensagens positivas, enfatizando a determinação
das pessoas em ir às ruas, exemplificadas pela declaração:
“Não ficaremos assistindo a outras pessoas no Facebook”. O
trabalho motivacional realizado por ele na preparação dos
protestos pode ser demonstrado numa mensagem publicada
no dia 24, em que apelou ao orgulho das pessoas:

Uma pessoa decidiu não participar amanhã, ela está sentada


na frente do computador e escreve comentários no Face-
book, dizendo: as pessoas são covardes e ninguém realmente
vai participar. Como disse antes, há um fenômeno na psico-
logia chamado projeção. Você tem um problema. Para evitar
dores de consciência, está dizendo a si mesmo que todas as
pessoas são covardes. Infelizmente, meu amigo, não sou um
covarde: protestarei no dia 25 de janeiro.
O mesmo desejo de dissipar o medo e a incerteza das
pessoas marcou a ação da jovem ativista Asmaa Mafhouz,
que, antes do protesto, postou um famoso vídeo no YouTube
no qual incitava as pessoas:

Se você se considera homem, venha comigo dia 25 de janei-


ro. Quem disser que as mulheres não devem protestar por-
que serão espancadas, que tenha um pouco de honra, mascu-
linidade, e venha comigo no dia 25 de janeiro. A quem disser
que não vale a pena porque haverá apenas um punhado de
pessoas, quero dizer: “Você é a razão por trás disso e é um
traidor, assim como o presidente ou qualquer policial que
nos agride nas ruas”. (2011)

Essa convocatória ao heroísmo usou de maneira inteligen-


132 te o machismo prevalecente na sociedade egípcia como um
recurso para mobilizar jovens que temiam ser ridicularizados
pelo fato de uma jovem mulher superá-los em bravura. Na vés-
pera do protesto, vídeos e mensagens de cunhos semelhantes
confirmaram a impressão de que a coisa “seria grande” – como
Ahmed Sharqaui, um ativista egípcio da cidade de Zagazig,
afirmou. O último status publicado na página Kullena Khaled
Said na manhã do dia 25, poucas horas antes da hora marca-
da para o ato público, tinha o tom de um desafio geracional:
“Hoje vamos provar que não somos gente de ‘comentar e cur-
tir’, como eles dizem. Somos REALIDADE na Terra, esta-
mos exigindo nossos direitos e todos estamos participando”.

“Nosso povo veio às ruas!”


Se na véspera da revolução os grupos do Facebook desem-
penharam um papel crucial na organização da dissidência
contra o regime, assim que o movimento “aterrissou” nas
ruas, suas comunicações mudaram drasticamente. Como re-
sume Osama Hoon, ativista do 6 de Abril: “Antes de 25 de
janeiro, havia 80% do Facebook, 20% face a face. Depois de
25 de janeiro, 20% era Facebook e 80%, face a face”. Apesar
de toda a sofisticação alcançada pelo movimento revolucio-
nário na internet, na fase de preparação, é notável até que
ponto o esforço de mobilização se baseou numa reinvenção
criativa da antiga arte da agitação face a face. O Facebook
provou ser um ponto de encontro útil por causa dos obstá-
culos à comunicação impostos pelo regime autoritário nas
ruas. Mas, para que a revolução ganhasse apoio suficiente,
uma interação direta com as classes mais baixas nas ruas era
imperativa, em especial levando em conta a grande exclusão
digital na sociedade egípcia, da qual três quartos não têm
acesso à internet. 133
Como o próprio Ghonim afirmou em mensagem na
página do Facebook: “Chegar aos egípcios da classe tra-
balhadora não se dará pela internet e pelo Facebook”. Nas
atualizações de status que postou nos dias anteriores ao
dia 25, enfatizou a necessidade de as pessoas “saírem e se
espalharem por ruas, fábricas, mesquitas e igrejas” (2012,
p. 143). Uma mensagem publicada no dia 21 dizia: “Temos
de garantir que nossas mensagens sejam difundidas espe-
cialmente em áreas pobres. […] Todos devemos ir para as
ruas agora e diminuir o uso do Facebook”. No dia 23, o
administrador apelou mais uma vez a seus usuários para
falar com o Egito que não fazia parte da shabab-el-internet:
“Nós nos reunimos no Facebook e nossa voz está muito for-
te agora, e pode ser ouvida com clareza. […] Na terça-fei-
ra, temos de ser muitos nas ruas […], alcançar outras 60
milhões de pessoas que não têm acesso à internet”. Chegar
a essas pessoas estava sendo visto como o objetivo mais
importante das manifestações.
Os incentivos lançados por Ghonim pela página de
Khaled Said foram acompanhados por um intenso esforço
para divulgar a mensagem localmente. Assim, jovens “inter-
nautas” se transformaram em agitadores nas ruas, tentando
convencer outras pessoas de sua rede de amigos e conhecidos
a se unir aos protestos. “Nós, as pessoas da internet, fizemos
com que as pessoas comuns soubessem que algo iria acon-
tecer. Isso foi importante para o dia 25”, refletiu Abdallah,
um membro da torcida organizada do Al Ahly. “Internautas
e ativistas de Facebook foram falar com as pessoas normais
que não têm internet.” Ahmed Sabry relata que, “antes do
dia 25, estávamos panfletando, distribuindo folhetos e con-
versando com as pessoas. Eu mesmo fui cortar o cabelo e
134
convenci todos da barbearia de comparecermos no dia 25”.
Quando chegou o dia, a passagem física de manifestantes
pelas diferentes áreas do Cairo proporcionou ao movimento
uma oportunidade de agitar os shaabi, muitos dos quais se
ressentiam com o regime por causa das dificuldades econô-
micas que enfrentavam. Sair às ruas era a única maneira de
o movimento quebrar a dupla barreira da brecha digital e da
censura da mídia estatal.
De modo a maximizarem a visibilidade do movimento
nas ruas e a possibilidade de contato com a população local,
os ativistas recorreram à tática de “marchas alimentadoras”.
Em vez de se reunirem diretamente na praça Tahrir, os ma-
nifestantes eram convidados a participar de quatro pontos de
encontro em diferentes áreas do Cairo, incluindo os bairros
da classe trabalhadora de Shubra e Imbaba. Os locais exatos
foram anunciados na página Kullena Khaled Said apenas três
dias antes dos protestos, a fim de dar à polícia pouco tempo
para se preparar. Antes de irem para Tahrir, os manifestan-
tes deram várias voltas em pequenas ruas residenciais nos
bairros próximos ao ponto de montagem inicial, para reunir
mais pessoas ao longo do caminho. A tática foi explicada de
forma concisa num pequeno livreto distribuído online antes
dos protestos na sexta-feira, dia 28:

1) Reúna-se com amigos e vizinhos em ruas residenciais, longe


das forças de segurança.
2) Grite palavras de ordem em nome do Egito e da liberdade do
povo (palavras de ordem positivas).
3) Incentive outros moradores a participar (novamente com lin-
guagem positiva).
4) Saia pelas ruas principais em números muito grandes para
formar o maior agrupamento possível.
5) Dirija-se a importantes prédios do governo, enquanto grita
135
palavras de ordem positivas, para tomá-los. (Long Live Egypt,
2011)

“A ideia era que a manifestação fosse como um ônibus


guiado por todo mundo”, explica Ahmed Sabry. “Quan-
to maior a marcha, mais as pessoas ganham confiança e
querem se juntar a ela.” Os manifestantes em marcha for-
mavam, assim, não só um “encontro contencioso”12 (Tilly,
1978), mas também um encontro contagiante que iria, por
sua vez, reunir mais pessoas em sua passagem pelas ruas.
Como Nora Shalaby explica: “Sempre nos certificávamos
de passar por ruas pequenas, onde há áreas residenciais, e
não pelas grandes, onde não há prédios residenciais […]

12. Tilly (1978) cunhou o termo “encontro contencioso” (ou “encontro


confrontacional) para descrever as ações dos movimentos sociais mo-
dernos. Um encontro contencioso é essencialmente um protesto.
porque, dessa maneira, você incentivava as pessoas a descer
e ver as coisas”.
Usando essa tática, os manifestantes conseguiram reunir
um expressivo número de pessoas pelo caminho, alimentan-
do o entusiasmo entre os manifestantes e gerando a con-
fiança de que poderiam prevalecer sobre as forças policiais.
Abdallah relata o itinerário da marcha em que se juntou no
dia 25, de Gizé, na margem ocidental do Nilo:

No dia 25, fui à praça Mustafa Mahmud, em Gizé. Éramos


cerca de setecentas pessoas, bem poucas, de fato. Éramos
muito estúpidos, todos ativistas do Facebook, vindos da in-
ternet. Nós nos deslocamos para lá e eram cerca de 11 ho-
ras da manhã […]. Nós nos conhecemos e fomos a Tahrir a
pé […]. Quando chegamos à praça, éramos 50 mil pessoas.
136
Muitas vieram. Elas não sabem de nada, mas quando ou-
vem o que estamos dizendo e nos veem, juntam-se a nós.
Vieram de todos os lugares: das lojas, das ruas, de suas ca-
sas, de todos os lugares.

Para convidarem as pessoas a participar das manifes-


tações, eram repetidas continuamente “palavras de ordem
positivas”, como aysh, hurreya, wa adala egtimaya [pão, li-
berdade e dignidade], e as mais famosas el-shaab ureed iskat
el-nisam [o povo quer a queda do regime]. Essas eram ideias
com as quais os egípcios podiam se identificar facilmente.
Eles evitaram a linguagem ideológica e, em vez disso, se
concentraram em simples demandas políticas e sociais, em
particular direcionadas às mazelas da classe trabalhadora e
dos pobres. Os lemas foram acompanhados de exortações
diretas para que se unissem aos protestos, como inzil, inzil,
inzil [desça, desça, desça] e ya ahlina andamulina [nossas
famílias se unem a nós], dirigidas aos espectadores nas ruas
e às pessoas que assistiam à passagem dos manifestantes de
suas janelas e varandas. Com essas formas de comunicação
nas ruas, os jovens do Facebook criaram um contato pes-
soal com “os egípcios sem internet”, para usar as palavras de
Ghonim. Isso envolveu um processo de aprendizado, já que
para muitas pessoas, como Mohammed Saidi, 22 anos, for-
mado em ciências políticas, “foi a primeira vez que fiz isto:
conversar sobre política com estranhos na rua”.
Nos dias 26 e 27, o movimento se manteve visível no
Cairo e em Alexandria, enquanto brigas entre manifestantes
e policiais ocorriam em Suez. Toda a atenção estava concen-
trada na preparação para o dia 28: a “Sexta-Feira Raivosa”.
Os pontos de encontro para as marchas alimentadoras fo-
ram novamente divulgados na página do Facebook Kullena
Khaled Said. No entanto, a essa altura, ela havia se tornado 137
apenas um entre os muitos polos de mobilização e coorde-
nação, dos quais se destacavam organizações consolidadas
como a Irmandade Muçulmana, que enfim havia prome-
tido apoio. No dia, o formato das marchas alimentadoras
foi intensificado: mesquitas foram usadas como pontos de
encontro, e as orações de sexta-feira preestabelecidas para
o meio-dia. Nora Shalaby descreveu uma marcha saindo da
área shaabi de Dar-el-Salam:

Esperamos até que a oração terminasse. Então, um pequeno


protesto saiu da mesquita, juntamo-nos e começamos a mar-
char. De repente, do nada […] capangas começaram a apare-
cer. […] Nós nos separamos muito rapidamente. Não estáva-
mos acostumados a ser atacados por capangas […]. Ficamos
preocupados e nos escondemos. Então, decidimos ir ao Cairo
Velho para ver se poderíamos encontrar outra marcha e vi-
mos pessoas de pé, esperando que mais pessoas se juntassem
até começar a marchar. Juntamo-nos a elas e chamávamos
as pessoas nas varandas: “Juntem-se a nós! Juntem-se a nós!”

Se no dia 25 a multidão era composta de “70% a 80%


da classe média”, como disse a ativista Hannah el-Sissi,
no dia 28 “todo mundo se uniu”, incluindo os shaabi. Uma
anedota publicada por Marwa Hussein, do jornal el-Ah-
ram, testemunha a diversidade da multidão: “No dia 28,
conheci um cara que estava muito confuso com todo esse
hype no Facebook, que nem sabia o que era essa coisa de
Facebook, e no meio da manifestação tive de explicar a ele
o que era”. No dia, centenas de milhares de pessoas fo-
ram às ruas no Cairo, em Alexandria, em Suez e em outras
cidades egípcias. Muitas delegacias de polícia da capital
138 e sedes do Partido Nacional Democrático, de Mubarak,
foram incendiadas. Depois de várias horas de confronto
com a polícia, que custaram centenas de vidas perdidas,
os manifestantes ocuparam a praça Tahrir, defendendo-a
dos ataques de capangas e policiais à paisana por mais de
quinze dias, até a renúncia de Hosni Mubarak.

Esqueça o apagão digital

Na madrugada do dia 27, antes da “Sexta-Feira Raivosa”,


o governo egípcio havia tomado a atitude sem preceden-
tes de desligar todas as comunicações por internet e celular
no país (Dunn, 2011). Logo depois da meia-noite, todos os
principais provedores de serviços de internet, como Telecom
Egypt, Link, Etisalat e outros, foram apagados em questão
de minutos. O governo explorou a presença de uma série
de gargalos de infraestrutura na rede egípcia. Apenas um
fornecedor de acesso à internet, a Noor Data Networks, que
atende à bolsa de valores egípcia, não foi afetado pelo ata-
que. Nas primeiras horas do dia 28, os serviços de telefonia
móvel (Vodafone, Mobinil e Etisalat) também foram desa-
tivados na maioria das áreas do país.
O regime esperava que a medida atrapalhasse a capaci-
dade de coordenação dos ativistas e assustasse a maioria das
pessoas, tirando-as das ruas. De fato, entrevistados descre-
vem um sentimento comum de desorientação causado pela
indisponibilidade da internet e, mais importante, dos celula-
res naquele dia. Mas o desligamento não foi um golpe fatal
para o movimento. Na ocasião, muito mais pessoas saíram
às ruas do que ocorrera no dia 25. A verdade é que a decisão
do governo foi “um pouco tarde demais”, como afirma Ah-
med Sabry. Uma vez iniciado o processo revolucionário, es- 139
tabeleceu-se um automatismo espacial: “As pessoas sabiam
que precisavam ir a Tahrir”, diz Mohammed el-Agati, da
ONG Fórum Árabe por Alternativas. A praça, em vez da
internet, se tornou a principal plataforma de coordenação do
movimento revolucionário. Em resposta à repressão policial
e ao desligamento da comunicação, as pessoas estabelece-
ram uma ocupação permanente na praça. Como o blogueiro
Mahmoud Salem explicou em entrevista à emissora ame-
ricana PBS: “Quando desligaram a internet, eles reuniram
as pessoas de uma forma que nunca imaginaram” (Gilinsky,
2011). A “espessura” das redes face a face egípcias forneceu
um substituto eficaz e pronto para o Facebook e o Twitter.
O “apagão digital” falhou em interromper a coordenação
interna do movimento e se mostrou um fator mobilizador
importante, revelando a maldade do regime e motivando
muitos que ainda estavam indecisos. Nora Rafea conta a
história de seu primo, para quem o apagão foi um momento
de conversão ao movimento:

Meu primo era muito cético em relação à revolução. Antes


do dia 28, ele havia nos criticado e escrito em seu status:
“Vocês estão de brincadeira? Uma revolução pelo Facebook?
Que droga! Não há esperança […]”. Mas, no momento em
que desligaram as comunicações, ele deu um giro de 180
graus: “Ok, isso é demais, vou para a rua”. Foi um ponto de
mudança para ele […], que achou a atitude ridícula […] e
foi para as ruas. De manhã, vi sua esposa, que me contou que
ele tinha ido às manifestações. Eu não podia acreditar.

A decisão do governo também revelou a distância entre


a versão oficial do regime sobre os eventos na mídia estatal
140
e a realidade nas ruas. “Isso deixou muita gente com raiva”,
explica Mustafa Shamaa. Como se pode fazer isso? A TV
estatal diz que não há protestos e que está desligando a in-
ternet e os celulares? Para Noor Ayman Noor, a decisão do
governo foi vista como uma traição pelos jovens da classe
média: “Nos últimos anos, o regime nos deixou viciados no
celular, no computador, na internet, em tantas coisas […], e
de repente acordamos uma manhã e não temos nada […].
Muitas pessoas, incluindo aquelas que não estavam pensan-
do ir às ruas, quando viram a polícia fazendo o que fizeram,
disseram que precisavam ir”.
Se algumas pessoas saíram às ruas com raiva das ações
do governo, outras saíram principalmente por questões prá-
ticas: procurar amigos e parentes com quem não poderiam
entrar em contato por conta do bloqueio das comunicações.
Conforme discutido no Capítulo 1, os celulares introduzi-
ram formas de microcoordenação (Ling, 2004) que remo-
delaram nossas interações sociais cotidianas. Quando os
serviços móveis foram desligados, a capacidade de micro-
coordenação foi bastante prejudicada, obrigando as pessoas
a ir às ruas se quisessem entrar em contato com seus pares.
Mustafa Shamaa ilustra esse ponto em seu testemunho: “Al-
guns dos meus amigos se somaram aos protestos porque o
telefone estava desligado e não conseguiram contatar seus
irmãos e irmãs. Então, foram aos protestos procurá-los e
fizeram os números aumentarem. Conheço muitas pessoas
que fizeram isso […]. Meu primo, por exemplo, veio aos
protestos à minha procura, e isso fez mesmo diferença”.
O apagão da internet tornou impossível seguir os even-
tos pela página ou conversar ao telefone com os amigos nas
ruas. A decisão do governo eliminou, assim, a possibilida-
de de uma audiência passiva, embora solidária. Para vis-
lumbrar o que estava acontecendo, era preciso ir às ruas. A 141
opção pelo apagão, portanto, demonstrou o papel ambíguo
das modernas tecnologias de comunicação no processo de
mobilização e até que ponto elas também podem ser usadas
para manter uma conexão virtual com o ativismo sem nun-
ca se unir a ele fisicamente.
Com o bloqueio das comunicações, a ocupação na pra-
ça Tahrir se tornou um evento comunicativo face a face de
imersão. “Não tínhamos ideia de que o mundo estava nos
seguindo, não tínhamos ideia do que a mídia estava dizendo,
o que a TV estava dizendo, o que a Al-Jazeera estava re-
portando, o que as pessoas nas ruas estavam fazendo”, lem-
bra Sally Zohney. “Estávamos vivendo em outra dimensão.”
Muitos de meus entrevistados relataram com melancolia
a experiência de irmandade nacional e de cruzamento de
classes na praça, os encontros que tiveram com pessoas que
nunca teriam conhecido de outra maneira. Como Nora Sha-
laby relata, a praça reunia “pessoas de diferentes origens, de
diferentes classes, apenas sentadas juntas conversando”. Para
alguns ativistas, como Sally Zohney, foi frustrante quando o
governo desfez o apagão após cinco dias:

Realmente lamento que eles tenham trazido a internet de


volta durante a revolução […]. Isso dividiu as pessoas […].
Ao protestar, você acha que todo mundo está com você […].
E mesmo que não os veja, acha que todos estão com o mesmo
espírito, solidários e empolgados […]. Mas, então, trouxeram
de volta o Facebook, e você via pessoas escrevendo “basta de
criminosos nas ruas” […], e você começa a discutir no Face-
book e diz: “Não sou uma criminosa. Por que me chamam de
criminosa?”. E eles respondem: “Sim, você é uma criminosa
se faz isso”. Pessoas disputavam quem era realmente patrióti-
142
co, quem era isto ou aquilo, blá-blá-blá […]. Isso criou mais
divisões […]. Em algum momento, eu não queria mais usar
a internet, exceto por informações: “Ok, amanhã vamos por
esse caminho”. Eu não queria entrar em debates, não que-
ria que as pessoas me acusassem, ou ver pessoas hostis […].
Sempre que vejo uma pessoa com uma foto de Mubarak
como perfil, essa pessoa não é mais minha amiga.

Com a revolução, os jovens do Facebook saíram às ruas


e contribuíram para abrir um espaço público em que dife-
rentes classes podiam interagir, o que não conseguiam fazer
nas mídias sociais, um reduto da classe média. No entanto,
quando Mubarak renunciou, em 11 de fevereiro, o espaço
excepcional de encontro que a revolução havia criado se
dissolveu. A ocupação foi quase imediatamente levantada,
e o “pessoal do Facebook” que iniciara a revolução voltou,
em grande parte com relutância, à dispersão das próprias
amizades mediadas. Eles reapareceriam às vezes durante
as várias ondas de protestos que, mais tarde, teriam como
alvo os novos detentores do poder: os governantes militares
do Conselho Supremo de Forças Armadas (CSFA), che-
fiados pelo ex-ministro da Defesa de Mubarak, o marechal
Mohammed Hussein Tantawi.

Os paxás do Twitter

No Egito, a palavra “paxá” tem várias conotações complexas.


É usado na vida cotidiana da mesma forma que a expressão
em inglês sir. Mas a palavra ainda mantém seu significado
original como o título honorífico da aristocracia otomana
que governou o Egito por séculos. Como Galal Amin ob-
serva em seu livro mais recente, Egypt in the Era of Hosni 143
Mubarak (2011), essa classe se manteve distante dos feitos
da população local. Os paxás eram de origem turca e, com
frequência, exibiam esse elemento estrangeiro. Para alguns
participantes da revolução, como Mohammed “Saidi”, os
ativistas egípcios do Twitter que se tornaram famosos no
Ocidente após a revolta não passam disso: “paxás”, uma elite
ativista indiferente, apartada dos sentimentos dos egípcios
comuns. Mesmo que não se compreenda o ódio de classe
que parece subjacente em opiniões como a de Saidi, é óbvio
que durante a revolução o uso do Twitter foi em grande par-
te restrito a uma pequena comunidade ativista de algumas
centenas e que teve um impacto limitado na mobilização
em geral. Se, como Mustafa Shamaa diz, “a revolução teria
acontecido sem o Facebook”, o mesmo se aplica ainda mais
fortemente ao Twitter.
A taxa de penetração da página de microblog no Egito
é muito baixa: atingia apenas 0,15% em novembro de 2011
(Dubai School of Government, 2011b). Naturalmente, a
“taxa de aceitação” no conjunto dos participantes dos pro-
testos revolucionários é muito maior do que isso. Mas, das
vinte pessoas que entrevistei no Cairo, só cerca da metade
estava no Twitter (enquanto quase todas estavam no Face-
book), apesar de minha amostragem de entrevistados ser
composta exclusivamente por ativistas das classes média e
média alta, o grupo demográfico com o mais alto grau de
conectividade a novas mídias. De fato, o uso ideal do Twitter
exige um telefone potente que, em razão do custo, é inaces-
sível para a maioria dos egípcios, incluindo muitos da classe
média. Além disso, implica um nível mais alto de educação e
melhor conhecimento da língua inglesa do que o Facebook.
144
Como observa Hannah El-Sissi: “Não se pode usar muito o
Twitter se se fala árabe. Coisas como hashtag e os principais
recursos do Twitter não podem ser usados se​​ você só tiver um
teclado árabe”. De fato, durante a revolução de dezoito dias,
a maioria dos tuítes com hashtags populares como #jan25,
#tahrir, #egypt foi escrita em inglês (Wilson e Dunn, 2011).
Desde a queda de Mubarak e a crescente popularidade
conquistada pelo Twitter após o levante, mais pessoas co-
meçaram a escrever em árabe ou no idioma local ammeya,
mas os principais tuiteiros continuam escrevendo em inglês.
Dada a audiência limitada que poderia ser alcançada em
casa pelo Twitter, seu principal papel era, portanto, o de ser
sobretudo um meio de obter “atenção externa” (Aday et al.,
2010), “como um recurso essencial para dar informações ao
mundo exterior, perpetuando a sensação de que o mundo
estava assistindo àquilo, que foi um fator importante para
o moral e a coordenação na base” (Wilson e Dunn, 2011,
p. 1252). Durante os dias da revolução, famosos ativistas
tuiteiros, como Gigi Ibrahim (@Gsquare86) e Mahmoud
Salem (@sandmonkey), permitiram que as pessoas no exte-
rior seguissem, minuto a minuto, os eventos que aconteciam
nas ruas egípcias. Além de ser um canal para o mundo ex-
terior, o Twitter também serviu como meio de coordenação
dentro da elite ativista, para a qual passou a constituir uma
espécie de “quartel-general de informações do movimento”,
como Ahmed Sabry explica. Na descrição da ativista e tui-
teira Nora Shalaby: “O Twitter dá um relato imediato […].
Vá por aqui, não vá por aqui; tente pegar essa entrada, não
aquela, porque lá não seria possível entrar […]. Não vá a essa
área porque está cheia de capangas […]. Estávamos tentan-
do obter o máximo de informações possível para as pessoas
virem e saberem o que estava acontecendo”.
Esse uso tático do Twitter seria aperfeiçoado nos pro-
testos que ocorreram após a revolução, contra o CSFA. 145
Por exemplo, durante os confrontos na rua Mohammed
Mahmoud, em novembro de 2011, em que mais de setenta
manifestantes foram mortos, os ativistas usaram a hashtag
#TahrirNeeds para compartilhar informações sobre medica-
mentos e outros materiais exigidos pelos hospitais de cam-
panha, além de outras questões logísticas. Mais importante
do que essas possibilidades táticas foi o papel do Twitter na
criação de um sentido de coesão emocional na comunidade
de ativistas de classe média alta, como ilustrado pela seleção
de mensagens publicadas no livro Tweets from Tahrir (Nunns
e Soueif, 2011). Na véspera dos protestos de 25 de janeiro,
@TravellerW confessou: “Estou preocupado com o amanhã,
e é exatamente por isso que irei – não podemos deixar e
não deixaremos que eles nos assustem. #25Jan”, enquanto
@monasosh condensou bem as emoções da véspera em três
palavras: “Assustado, animado e esperançoso #Jan25”.
Se por um lado o Twitter forneceu uma plataforma para
gerar um sentido de solidariedade dentro da elite ativista, o
uso intensivo dele, no entanto, gerou o risco de esses líde-
res se isolarem de sentimentos e experiências dos egípcios
mais pobres e menos conectados à internet. A maioria dos
principais tuiteiros do Egito é filha de famílias ricas da clas-
se média alta, que quase sempre vivem em bairros luxuo-
sos como Nasr City, Heliopolis, Maadi, Zamalek, e educa-
dos em escolas inglesas e depois na exclusiva Universidade
Americana, no Cairo. Suas frequentes visitas aos Estados
Unidos e ao Reino Unido para receber prêmios ou participar
de programas de TV atraíram duros comentários de dentro
do movimento e acusações de que estavam distanciados da
experiência das pessoas comuns no Egito.
Enquanto alguns desses tuiteiros se tornaram estrelas
146
ativistas no exterior, eles são quase desconhecidos no Egito
– prova disso é o fato de a maioria dos meus entrevistados
egípcios nunca ter ouvido falar deles. Um indicativo desse
descompasso entre fama global e relativa obscuridade do-
méstica é o fato de que os poucos ativistas do Twitter que
concorreram às eleições parlamentares de 2011 foram der-
rotados. Entre eles, estava o espirituoso blogueiro e tuiteiro
Mahmoud Salem (@sandmonkey), que conta com 70 mil
seguidores no Twitter, mas conseguiu garantir apenas 16 mil
votos no círculo eleitoral de Heliopolis.
Nos meses que se seguiram à revolução, alguns ativistas
reconheceram esse perigo de desconexão quanto à popula-
ção em geral e desenvolveram novas práticas combinando
mídia social com agitação nas ruas. De fato, para alguns, a
quantidade de tempo dedicada à manutenção de seus fluxos
no Twitter trazia o risco de desperdiçar uma energia precio-
sa que poderia ser usada em atividades de base ou em formas
mais acessíveis de comunicação na internet. Esse problema
foi denunciado explicitamente pelo ativista Hassan Hamad,
um dos promotores da conta de Twitter Shara’a (#tweetsha-
re3), que se traduz em português como “tuíte as ruas”. Como
parte dessa iniciativa, jovens ativistas de classe média são
convidados a participar de atividades de rua, a discutir po-
lítica com transeuntes aleatórios, enquanto documentam o
evento no YouTube e no Twitter. Por meio desse tipo de in-
teração, os ativistas esperam romper os círculos fechados de
pessoas de pensamentos convergentes que inevitavelmente
tendem a se agrupar nas mídias sociais. Entrevistado pelo
jornal estatal egípcio al-Ahram, Hamad afirmou:

O Twitter é realmente apartado da rua, é como se houvesse


um oceano entre eles. No Twitter, estão estes formadores de
opinião com milhares de seguidores. Esses formadores de
opinião quase sempre são ativistas que têm as próprias cren- 147

ças políticas e ideológicas desde o início e tuítam o que acre-


ditam ser certo, refletindo ou não as ruas. Esses seguidores
retuítam e acreditam nisso, criando uma lacuna entre eles e
a rua, o que inclui todos os grupos políticos, sociais, e classes
sociais. (El Gundy, 2012)

Para Salma Hegab, ativista de 21 anos e cofundadora do


#tweetshare3, “é verdade que os ativistas têm pensado muito
em falar entre si e que perderam o contato com a população
egípcia em geral. Muitos se fecharam num mundo confor-
tável da internet no qual há apenas ativistas”. O fato é que,
como Nour Ayman Nour observa, “os círculos da internet se
tornam uma sala de eco em que todos escutam um ao outro;
escutam os próprios pontos de vista sendo devolvidos. E,
às vezes, há uma crescente divisão entre a comunidade na
internet e as pessoas nas ruas”. Após a revolução, enquanto
os protestos continuam contra o domínio militar, os ativistas
egípcios ainda estão tentando encontrar um equilíbrio entre
o uso das mídias sociais, as mídias locais e as atividades de
rua. Ao fazerem isso, criam um híbrido: um espaço público
mediado, como sinalizado pelo aparecimento de hashtags
do Twitter em pichações nas paredes do Cairo durante qual-
quer nova onda de mobilização contra o conselho militar.

Conclusão

As mídias sociais tiveram um papel determinante na revolu-


ção egípcia, mas não exaustiva. Foram cruciais para motivar
o núcleo ativista do movimento, a chamada shabab-al-Face-
book, e para construir uma coreografia de assembleia a fim de
facilitar sua reunião no espaço público. No entanto, a mídia
social sozinha não teria “feito o truque” sem que os jovens
148
ativistas conectados à internet também estivessem envolvidos
em agitações nas ruas de forma a encurtar a brecha digital
e se envolver com as classes mais baixas. Quando as mídias
sociais não são usadas em conjunto com a comunicação face
a face, podem exacerbar as tendências sociais em direção à
fragmentação e ao isolamento, como visto no caso dos “paxás
do Twitter”. Em conclusão, vale a pena oferecer uma obser-
vação geral sobre o papel desempenhado pelas mídias sociais
na construção da coreografia de assembleia durante a revo-
lução egípcia e sobre os ativistas digitais que atuaram como
coreógrafos. A revolução tem sido frequentemente descrita
por especialistas e jornalistas como sem liderança e espontâ-
nea. De fato, essa suposta “falta de liderança” é o que a tornou
tão atraente para ativistas antiautoritários em toda a Europa
e nos Estados Unidos. O relato proposto neste capítulo su-
gere uma imagem mais complexa. Ainda que a revolução não
tenha despertado um líder carismático singular que atraísse
toda a atenção – mesmo que Wael Ghonim tenha chegado
perto –, foi caracterizada pelo papel de liderança assumido
por um setor da sociedade, a shabab-al-Facebook, que passou a
atuar como catalisador do processo de mobilização em massa.
Além das mídias sociais e da comunicação de rua, uma
grande variedade de outras formas de comunicação também
desempenhou um papel na mobilização dos participantes.
É claro que os canais de televisão, em particular a Al-Jazee-
ra e seu spin-off egípcio, Al-Jazeera Mubashir, se tornaram
um meio de comunicação de massa para a canalização de
informações sobre os eventos (Miles, 2011; Cottle, 2011).
Também se poderia dizer mais sobre o papel dos jornais e
da mídia de rua, como folhetos e cartazes, que tiveram um
papel igualmente importante na ecologia da comunicação
do movimento. Dado o escopo muito específico deste capí-
tulo, no entanto, esses elementos não puderam ser conside-
rados. O que é significativo para os propósitos deste livro é 149
o fato de o levante egípcio e seu uso das mídias sociais como
ferramentas “coreográficas” que ele primeiro introduziu te-
rem inspirado movimentos similares no Ocidente. Como
veremos nos próximos capítulos, ativistas na Espanha e nos
Estados Unidos foram motivados pelo desejo de imitar e
desenvolver o “modelo Tahrir”. Em alguns casos, todavia,
não compreendendo a especificidade do caso egípcio, fa-
lharam em aprender com os erros cometidos pelos ativistas
desse país. No capítulo seguinte, tratarei dos indignados da
Espanha e da tentativa deles de importar para o Ocidente
o modelo de protesto de Tahrir, junto com as práticas de
mídia social que ele pôs em primeiro plano.
“Não estamos no Facebook,
estamos nas ruas!”:
colhendo a indignação

Porque somos mais humanos.


Porque somos mais dignos.
Porque somos mais respeitáveis.
Porque somos mais.
Vídeo do YouTube do Democracia Real Ya
promovendo as manifestações do dia 15
de maio de 2011
Enquanto o mundo ainda estava sob o feitiço da Pri-
mavera Árabe, um novo movimento social, inspirado nos
eventos ocorridos na Tunísia e no Egito, fez sua aparição
tumultuada numa Europa endividada. A Espanha, um dos
países europeus mais afetados pela crise econômica global,
se tornou o primeiro local no Ocidente a adotar o “modelo
Tahrir” de protesto popular, com sua combinação de mí- 153
dias sociais e protestos em massa. A partir de 15 de maio
de 2011 – conhecido na Espanha como 15-M –, dia em
que as primeiras manifestações foram convocadas em 58 ci-
dades espanholas, iniciou-se uma “#revolução”, ou melhor,
uma “#revoluçãoespanhola” em “#sol”, como seus apoiadores
celebravam na linguagem das hashtags do Twitter. Após as
manifestações, um punhado de protestantes ocupou a Puer-
ta del Sol, no centro de Madri. Recusando-se a sair, logo
se juntaram a milhares de outras pessoas convocadas pela
mídia social.
Os manifestantes reunidos no centro de Madri, e logo
em dezenas de cidades espanholas, passaram a ser conhe-
cidos como indignados, em razão do folheto Indignez vous!
(2010), de autoria do político francês nonagenário Stephane
Hessel, que, ao exortar os jovens a se opor à injustiça econô-
mica, havia inspirado alguns dos pioneiros do movimento.
Rejeitando qualquer identificação de esquerda/direita, eles
anunciaram que não se sentiam representados pelos partidos
e pelos sindicatos e estavam optando por uma forma de de-
mocracia participativa, ou “democracia 2.0”, usando o Face-
book e o Twitter. “Ninguém espera a #revoluçãoespanhola”,
dizia um cartaz de um manifestante, usando uma máscara de
Guy Fawkes, do filme V de vingança, introduzindo um slogan
que seria retuitado e republicado centenas de vezes. Mas por
que ninguém a esperava? Onde a “indignação” se escondia
antes de se tornar pública nas cidades da Espanha? Qual foi
o papel da mídia social em trazer essa indignação à tona?
Neste capítulo, discuto o papel das mídias sociais na
mobilização dos indignados espanhóis. Mostrarei como as
mídias sociais contribuíram para formar uma coreografia
154
de assembleia semelhante a uma “colheita de indignação”,
e como a concentração física e simbólica de um círculo de
ativistas, unidos por um sentido comum de vitimização e in-
dignação em torno de praças públicas como a Puerta del Sol,
atua como um símbolo do “povo”. Mídias sociais como Fa-
cebook e Twitter contribuíram para transformar sentimen-
tos individuais de raiva numa identidade coletiva animada
pelo desejo de voltar às ruas após anos de desmobilização.
A tensão emocional que sublinhou essa coreografia foi ex-
pressa em slogans como “Vá para a rua” e “Não estamos no
Facebook, estamos nas ruas”, refletindo um desejo genera-
lizado de sair de uma situação de isolamento e passividade
que caracterizava a sociedade espanhola em meio à crise.
O movimento dos indignados, ou 15-M, tem sido descri-
to pelos próprios integrantes por meio da imagem de redes.
Por exemplo, em seu livro Nosotros los indignados (Álvarez
et al., 2011), Klaudia Álvarez, coordenadora de comuni-
cação do Democracia Real Ya, o retrata como um “cérebro
em rede” composto de “inteligências conectadas”. O próprio
Castells (2009), em discurso proferido no acampamento de
protesto na Plaza de Catalunya, em Barcelona, descreveu o
movimento como uma forma de resistência contra a “mani-
pulação de cérebros”13 e apresentou o surgimento dos indig-
nados como tendo sido possibilitado pelo maior escopo de
organização de base disponível no sistema contemporâneo
de “autocomunicação em massa”.
Como afirmei no Capítulo 1, desconfio dessa com-
preensão cognitivista dos movimentos sociais como redes
de cérebros, e meu objetivo aqui é recuperar um sentido do
papel do corpo e das emoções no processo de mobilização
contemporânea. No caso específico do movimento dos in-
dignados, é a emoção da “indignação” que merece se tornar
o foco da análise. Curiosamente, o movimento também é 155
descrito pelos próprios participantes como “um estado de
ânimo”, como visto na experiência coletiva de entusiasmo
em todas as acampadas (os acampamentos de protesto). Mas
como essa emoção foi aproveitada e desencadeada pelos or-
ganizadores do movimento?

Reuniões alcoólicas e downloads ilegais

Para entender a ascensão do movimento dos indignados e as


razões do alto grau de participação que atraiu, precisamos
levar em consideração a gravidade excepcional da situação
econômica da Espanha na época. Ao lado de Portugal, Itália,

13. Citação retirada da fala de Manuel Castells na Plaza de Catalunya em


Barcelona, 27 maio 2011. Disponível em: [Link]
tch?v=2nWa32CTfxs&feature=related. Acesso em: 13 out. 2020.
Irlanda e Grécia, a Espanha foi considerada um dos Piigs14
para usar o rótulo infame aplicado por analistas financeiros
aos países europeus cujas classificações e dívidas despenca-
ram na esteira da crise financeira de 2007-2008. Dos indica-
dores econômicos nacionais, o mais impressionante no caso
espanhol era o desemprego juvenil: 41% em 2010 e alcan-
çando 47% no terceiro trimestre de 2011 (Eurostat, 2011),
o mais alto da Europa. No entanto, como sempre acontece
com os movimentos sociais, essas queixas por si só não po-
dem explicar o surgimento dos indignados (Buechler, 2000).
Se assim fosse, por que o povo espanhol não se mobilizou
antes de 15 de maio de 2011, sendo que tais problemas já
estavam presentes?
Perguntando aos ativistas que participaram do mo-
vimento 15-M as razões da falta de mobilização anterior,
muitas vezes se obtém como resposta uma variedade de ad-
156
jetivos como “chapados”, “anestesiados”, “estúpidos”, “parali-
sados” – todos termos que transmitem a ideia de uma socie-
dade, e de sua juventude em particular, incapaz de expressar
seu descontentamento com os efeitos da crise econômica.
Meus entrevistados quase sempre descreveram a Espanha
como um país em que as pessoas tentavam esquecer os pro-
blemas entregando-se aos prazeres da vida noturna e de seu
bar de tapas.15
Essa resignação generalizada também deve ser atribuída
em grande parte à incapacidade das instituições e das or-

14. Piigs é uma sigla que engloba Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e
Espanha, todos países europeus com altas dívidas públicas ou déficits
no orçamento.
15. Bar de tapas são estabelecimentos tradicionais na Espanha em que
são servidas gratuitamente pequenas porções de tira-gosto aos clien-
tes para acompanhar seus drinques.
ganizações de se tornar um ponto focal na mobilização de
demandas populares emergentes. O Partido Socialista Es-
panhol (PSOE), de José Luiz Zapatero, abraçou a resposta
neoliberal à crise, cortando gastos públicos e reduzindo os
direitos trabalhistas. Os sindicatos, por sua vez, foram acu-
sados de oferecer apenas uma resposta tímida aos planos de
austeridade do governo, tendo em vista a proximidade tradi-
cional com os socialistas. Enquanto na Grécia, em 2010, dez
greves gerais ocorreram, na Espanha houve apenas uma, e
mesmo essa teve impacto limitado. Além da “esquerda insti-
tucional” de partidos e sindicatos, os grupos radicais de base
decorrentes do movimento antiglobalização pareciam passar
por uma fase de latência. Apesar desses pontos baixos, os
centros sociais ocupados legal e ilegalmente, como Tabaca-
lera, Patio Maravillas e Casablanca, em Madri, mantiveram
o papel de postos avançados da cultura e da sociabilidade al- 157
ternativas, vindo a ser um recurso importante para sustentar
a ocupação na Puerta del Sol.
A Espanha é conhecida em todo o mundo por sua pujan-
te vida nas ruas. No entanto, no período anterior ao floresci-
mento do movimento dos indignados, o país fora submetido
a uma intensa higienização do espaço público, inspirada pelo
“medo de multidões”, que afetou reuniões políticas e sociais
no espaço público. Sofía de Roa, jornalista de 32 anos, ativa
no movimento 15-M e membro da organização Estado de
Malestar, relata como o governo e a mídia começaram a es-
tigmatizar qualquer protesto no espaço público:

Antes dos protestos do 15-M, houve uma greve de traba-


lhadores do metrô aqui em Madri. Os jornais e a TV os
retratavam como criminosos só porque estavam exercendo
o direito de protestar. O mesmo aconteceu com os trabalha-
dores de controle de tráfego aéreo. Independentemente do
que se pensa de certa luta […], o governo respondeu emitin-
do um decreto sobre protestos, enviando uma mensagem à
sociedade de que tomassem cuidado ao protestar. O enten-
dimento geral era de que, se você protestasse, devia ser um
pouco louco. E muitas pessoas progressistas também ficaram
desiludidas, porque no passado havia muitos protestos que
não deram em nada.

Essa estigmatização de reuniões públicas também afe-


tou práticas subculturais de sociabilidade juvenil, como
exemplificado pela campanha do governo contra o botellón,
literalmente “garrafão” – um encontro ao ar livre no qual
grandes grupos de jovens passam a noite em praças públicas,
bebendo, conversando e ouvindo música (Baigorri e Fer-
158 nández, 2004). A prática surgiu na década de 1980 entre
estudantes e jovens que queriam evitar os altos custos dos
estabelecimentos “legais”. Sua crescente popularidade nos
anos 2000 levou à criação de leis nacionais e regionais con-
tra o botellón. Em resposta, em 2006, os jovens se organiza-
ram pela web para realizar uma série de macro-botellones que
atraíram milhares de participantes. Os organizadores dei-
xaram claro que viam a proibição não só como uma medida
contra o “vandalismo”, como o governo dizia, mas também
como um ataque velado à liberdade de reunião e ao uso do
espaço público.
Diante dessa estigmatização das reuniões públicas, nos
meses anteriores ao 15-M, um vislumbre de esperança para
os radicais veio de uma série de campanhas online que pro-
testavam contra as restrições à chamada “liberdade na in-
ternet”. O governo de Zapatero editou a Lei Sinde – que
visava restringir o compartilhamento de arquivos num país
que fora apelidado de paraíso da pirataria pelos lobistas da
indústria da mídia –,16 irritando muitos ativistas digitais, que
se organizaram online para se opor à aprovação da lei. A
campanha recebeu um reforço depois que os cabos diplomá-
ticos dos Estados Unidos divulgados pelo Wikileaks revela-
ram que o governo espanhol estava se submetendo à pressão
das principais majors estadunidenses. Vendo isso como uma
traição ao mandato popular, os ativistas espanhóis começa-
ram a usar as hashtags #leysinde, #redresiste e #nolesvotes
para se opor à aprovação da lei. Vários blogs e sites populares
de download, como o Cinetube e o Series Yonkis, escurece-
ram suas páginas em protesto. Pessoas alteraram as fotos de
perfil no Twitter e no Facebook para uma imagem projetada
pelo cartunista Eneko, representando a internet como uma
pomba em perigo.
Depois de derrotada no Senado em dezembro de 2010,
159
a lei foi finalmente aprovada em fevereiro de 2011. Em res-
posta, um grupo de ativistas, incluindo Ricardo Galli, pro-
fessor da Universidade das Ilhas Baleares, e Carlos Sánchez
Almeida, conhecido na Espanha como “advogado dos hac-
kers”, criou o site [Link]. No dia 16 de fevereiro,
lançaram um manifesto pedindo às pessoas que não votas-
sem nos partidos que haviam aprovado a Lei Sinde nas elei-
ções locais seguintes, agendadas para 22 de maio. Em nota
postada no blog do advogado Javier de la Cueva, um dos
criadores da campanha, o grupo propôs “desenvolver […]
iniciativas de cidadãos baseadas na auto-organização de cé-
lulas territoriais independentes e reproduzíveis”. A nota foi
concluída com uma passagem tecnoutópica, alegando que

16. Ver, por exemplo: Ending the Open Season on Artists, The Eco-
nomist, 17 fev. 2011. Disponível em: [Link]
node/18184458. Acesso em: 13 out. 2020.
“a existência da internet torna desnecessária a representação
tradicional: um cidadão já pode se representar sem utilizar
uma voz alienígena” (Cueva, 2011). Centenas de grupos fo-
ram criados no Google Groups para difundir a informação
localmente, tendo como alvo os candidatos específicos dos
“partidos traidores”. A campanha “No les votes” logo foi
além da questão da “liberdade na internet”. Um mapa do
Google foi posto no site, documentando vários casos de cor-
rupção, e o grupo divulgou fotos acusando os dois principais
partidos espanhóis de se unir na resistência à transparência
e na manutenção de seus privilégios.
A campanha “No les votes” permaneceu no nível de
uma contestação difusa online e nunca conseguiu se mate-
rializar em manifestações de rua (Sampedro e Haro, 2011).
No entanto, na época de seu desenvolvimento, várias outras
160
campanhas estavam surgindo, enfatizando a importância de
se reapropriar do espaço público, e acabaram por também
influenciar o surgimento dos indignados: Juventud Sin Fu-
turo, Estado de Malestar, Plataforma de Afectados por la
Hipoteca e Democracia Real Ya.
A Juventud Sin Futuro ( JSF) era uma coalizão radical
de estudantes e movimentos juvenis que incorporava ativis-
tas de esquerda de diferentes ideologias. Em seu site, des-
crevia-se como uma organização de “jovens afetados pelo
desemprego e pela precarização” e se apoiou na palavra de
ordem “sem trabalho, sem casa, sem medo”. A novidade veio
do uso inovador que fez das mídias sociais como Twitter e
Facebook como veículos de mobilização. Ao mesmo tem-
po, também manteve uma forte base local. Como Segundo
González, integrante do grupo, explicou: “Sempre usamos
mídias sociais, mas também sempre tivemos um plano de
ação física, porque somos uma organização com alguma tra-
dição e estamos enraizados em diferentes universidades do
país”. A JSF organizou uma manifestação no dia 7 de abril
que, embora tenha contado com apenas alguns milhares, se-
ria vista, em retrospecto, como um importante ensaio para
os protestos de 15 de maio.
Não tão ideologicamente explícito quanto a JSF, mas
ainda reconhecidamente “progressista” em seus discursos e
imagens, o Estado de Malestar era um grupo de ativistas
em luta contra o desemprego e cortes nos serviços públicos.
Desde o início de 2011, vinha realizando protestos toda sex-
ta-feira na Plaza Callao e na Puerta del Sol, no centro de
Madri, e em outras trinta cidades espanholas. No entanto,
como Sofía de Roa admite, “nossos protestos de sexta-feira
tiveram apenas um grau limitado de sucesso. As pessoas pas-
savam e olhavam brevemente com curiosidade ou desdém e
seguiam em frente”. Esse grupo também se concentrou no
161
uso das mídias sociais em suas comunicações – o próprio
logotipo assumia a forma do polegar para cima do Face-
book revertido num polegar para baixo e acompanhado das
palavras no me gusta, e todas as suas performances seriam
postadas regularmente no YouTube.
Menos inovadora em termos de comunicação foi a Pla-
taforma de Afectados por la Hipoteca (PAH), um grupo
fundado em fevereiro de 2009 para defender o direito das
pessoas à moradia e a protestar contra o despejo de “vítimas
de hipotecas”. A PAH constituiu um elo importante com a
tradição do movimento dos direitos à habitação 13-M, que,
em 2006 (de 13 de maio a junho), realizou uma série de pro-
testos em praças públicas organizados por SMS e e-mails
(Sampedro e Haro, 2011). Embora todas essas campanhas e
organizações tenham desempenhado um papel importante
na preparação dos protestos do 15-M, o grupo que ganhou
mais destaque foi o Democracia Real Ya (DRY), original-
mente estabelecido online como uma campanha contra a
austeridade e a corrupção. O DRY, o último ator a apare-
cer na cena ativista, também seria aquele que passou a atuar
como ponto focal no processo de mobilização do movimen-
to dos indignados.

“Somos pessoas normais e comuns”

Somos como você: pessoas que acordam todas as manhãs


para estudar, trabalhar ou procurar um emprego, pessoas que
têm família e amigos, pessoas que trabalham duro todos os
dias para proporcionar um futuro melhor para aqueles que
nos cercam. Alguns de nós se consideram progressistas; ou-
162
tros, conservadores. Alguns de nós são religiosos; outros,
não. Alguns de nós têm ideologias definidas, outros são apo-
líticos, mas todos estamos preocupados e indignados com
as perspectivas políticas, econômicas e sociais que vemos ao
nosso redor: corrupção entre políticos, empresários, ban-
queiros, deixando-nos indefesos, sem voz. Essa situação se
tornou normal, um sofrimento diário, sem esperança. Mas,
se unirmos forças, podemos mudar isso. É hora de mudar as
coisas, é hora de construir uma sociedade melhor juntos.17

Esse trecho do manifesto do Democracia Real Ya, pu-


blicado na página do grupo no Facebook, ilustra bem a iden-
tidade coletiva que veio definir sua atuação online. Alegando

17. Democracia Real Ya, Manifesto do Democracia Real Ya, 16 mar.


2012.
transcender o espectro de esquerda-direita, a intenção de-
clarada do DRY era representar todas aquelas pessoas que,
a despeito de suas posições políticas e estilos de vida, foram
afetadas pelos estragos da crise econômica e pela política
de austeridade imposta pelo governo Zapatero. Por meio do
caráter inclusivo, alguns diriam impreciso, de sua identidade,
o DRY se tornaria nos meses que antecederam ao 15-M
um polo de atração para milhares de jovens não politizados,
criando uma plataforma de condensação emocional para
transformar experiências individuais de frustração e indig-
nação em paixão política coletiva.
O núcleo inicial do Democracia Real Ya foi resultado
de um encontro online entre dois jovens: Fabio Gandara,
de 26 anos, e Pablo Gallego, de 23. Gandara e Gallego se
enquadravam na categoria de “graduados sem futuro”, de
Paul Mason (2012). O primeiro se especializou em direito 163
público, e depois de trabalhar por um tempo num famo-
so escritório de advocacia em Barcelona, foi demitido. Teve
uma pequena experiência ativista, participando do Fórum
Social Europeu em Paris, em 2003, e depois se juntou aos
protestos espontâneos contra o Partido Popular de José Ma-
ría Aznar, após o atentado em Madri em março de 2004.
O segundo, recém-formado na Escola de Administração da
Universidade de Cádiz, não tinha experiência ativista prévia.
O que o motivou a se engajar foi vivenciar, em primeira mão,
o terrível estado do mercado de trabalho espanhol. “Percebi
que as coisas estavam muito ruins e não havia solução para
nada”, explica.
A história do surgimento do Democracia Real Ya se
atrela a dois manifestos individuais, ambos publicados onli-
ne meses antes de o movimento dos indignados se materiali-
zar nas ruas. Em outubro de 2010, Gandara publicou o pró-
prio manifesto num grupo no Facebook chamado “Yo soy
un/a joven español/a que quiere luchar por su futuro” que
mais tarde ganhou o nome de Juventud en Acción. “Este
não é um movimento de esquerda nem de direita. Não ade-
rimos a nenhum grupelho teórico, seja marxista, seja neole-
ninista, seja anarquista. Somos simplesmente jovens”, procla-
mou Gandara no manifesto.18 Embora só tenha conseguido
atrair um punhado de signatários na época, o manifesto já
prefigurava, em seu tom e ingenuidade, a recusa pós-ideo-
lógica das identificações de esquerda e direita que deveria
ser uma característica fundamental do Democracia Real Ya.
Sem conhecer o manifesto de Gandara, no início de 2011,
Gallego publicou o seu próprio no blog pessoal que possuía.
“Um maio de 1968 na Espanha é possível” era a frase que
abria seu “Manifiesto Juventud”. Em linguagem simples,
164 quase amadora, o manifesto pedia aos jovens espanhóis que
abandonassem seu estado de passividade, lutassem contra a
corrupção, contra um sistema bipartidário estagnado e con-
tra os sindicatos, em grande parte subservientes ao Parti-
do Socialista no poder. Gandara encontrou o manifesto de
Gallego, e eles passaram a conversar online. Juntos, decidi-
ram criar um novo grupo no Facebook chamado “Platafor-
ma de coordinación de grupos pro-movilización ciudadana”.
“Inicialmente, éramos poucas pessoas: eu, Pablo e mais
uma”, relata Gandara. “Pouco a pouco, pessoas envolvidas
em diferentes movimentos, do movimento da internet ao
dos estudantes, começaram a se juntar ao nosso fórum”.
Nessa fase, o grupo se organizou exclusivamente online
usando o serviço de mensagens do Facebook como meio de

18. Excerto do Manifesto do grupo no Facebook “Yo soy un/a joven es-
pañol/a que quiere luchar por su futuro”.
coordenação. Como Gandara explica, a estratégia acordada
dentro do grupo era “usar o poder da internet e a estrutura
da web para nos organizar em nível estadual e desenvolver
uma mobilização cívica para protestos em massa em toda a
Espanha”. “Inicialmente, tive um papel de liderança no gru-
po”, explica Gandara, acrescentando com sinceridade que
“não havia administrador que tivesse um papel preponde-
rante. Havia um debate toda vez que uma decisão precisava
ser tomada.”
Uma vez que o grupo conseguiu atrair mais pessoas, co-
meçou a “fazer brainstorms, anotando ideias específicas ou
palavras de ordem, e a discutir qual era a mudança social e
política específica que estávamos reivindicando”. Durante as
sessões de bate-papo no Facebook, foi cunhado o lema “De-
mocracia real já: não somos mercadorias nas mãos de polí-
ticos e banqueiros”, do qual, mais tarde, seria tirado o nome 165
do grupo. Então, começou um “trabalho de bombardeio”,
como lembra Gandara: “Entrávamos em fóruns na internet
de debate social e político para ver o que estavam dizendo
naquele grupo e comentar sobre o que diziam, convidando
as pessoas a participar e postando comentários nos grupos
do Facebook, publicando em perfis de qualquer tipo e en-
viando e-mails para associações, ONGs e grupos políticos,
contando um pouco dessa ideia”.
A identidade do grupo se centrou na ênfase tecnoliber-
tária das possibilidades de democracia participativa ofere-
cidas pela web, do tipo que antes havia sido evocado pela
campanha “No les votes”, como pode ser percebido pela
ênfase do grupo na abertura para novos membros. Mas o
grupo também se esforçou para evitar ser identificado como
“político”, enfatizando constantemente seu caráter “cívico”.
Por esse motivo, como explica Gallego, em todas as comuni-
cações, palavras que pudessem parecer “muito políticas” ou
“muito ideológicas” eram cuidadosamente evitadas e subs-
tituídas por uma linguagem mais coloquial, como aquelas
usadas em mensagens de status do Facebook. Para Gallego,
o “segredo do sucesso do DRY era o uso de eufemismos”:

Um eufemismo [por exemplo] é dizer que os que estão em-


baixo são contra os que estão em cima, em vez de falar sobre
luta de classes. Você está dizendo o mesmo […], mas não
está assustando as pessoas. O uso de uma nova linguagem
tem sido fundamental para o sucesso do movimento. […]
No momento em que os cidadãos estão individualizados e
vulneráveis diante do sistema, é hora de criar um agrupa-
mento de pessoas unidas não por afinidade ideológica, mas
por afinidade de protesto.
166
O mesmo tipo de espírito anti-ideológico inspirou o
design do site e do material publicitário do grupo. A cor
principal usada como pano de fundo, tanto no site quanto
em sua publicidade, era um amarelo-neutro. Esse tom, se-
melhante ao usado nas comunicações públicas do Estado
espanhol, foi o mesmo adotado pelo Estado de Malestar e
pela Juventud Sin Futuro, na tentativa de escapar de identi-
ficações ideológicas rígidas. Um estilo semelhante caracte-
rizou o logotipo do grupo, que carregava só a sigla do nome
da organização, DRY, em grandes letras. Escrito com uma
fonte de estêncil, o logotipo ecoou suavemente a linguagem
subversiva do grafite e da arte de rua, dando à identidade do
grupo um caráter criativo, jovial e discreto.
A marca online do grupo, com foco quase obsessivo
na inclusão, registrou o desejo de se afastar da identidade
subcultural antagônica do movimento antiglobalização e da
esquerda radical em geral. Aitor Tinoco, um dos principais
organizadores do DRY em Barcelona, afirma com orgulho
que “fomos capazes de abandonar bandeiras e ideologias e
conversar sobre problemas concretos para mobilizar os ci-
dadãos”. Embora em alguns setores essa abordagem pós-
-ideológica tenha gerado acusações ao DRY de “infantili-
dade política”, foi também, sem dúvida, o que permitiu ao
grupo e à sua página no Facebook se tornarem “um lugar
para ir além”, como Sofía de Roa pontua.
Evitando uma orientação ideológica clara, o DRY devia
a coerência de sua identidade a um apelo direto ao povo
contra o sistema – um movimento que ressoava profunda-
mente com a descrição de populismo de Ernesto Laclau
como a construção de uma unidade popular contra insti-
tuições distantes e corruptas (2005). A ilustração mais cla-
ra dessa orientação é oferecida por um vídeo do YouTube 167
usado para dar o pontapé na manifestação de 15 de maio.
No centro, há um tabuleiro de xadrez no qual um conjunto
padrão de peças pretas é dominado por uma massa de peões
brancos. Isso foi acompanhado por uma série de legendas
que, depois de listarem uma série de reivindicações sobre
corrupção e desemprego, afirmam em espanhol: “Porque so-
mos mais humanos, porque somos mais dignos, porque so-
mos respeitáveis”, terminando com “porque somos mais”.19
Essa orientação majoritária, visível nesse vídeo como em
toda a comunicação do DRY, destacava constantemente a
separação entre “políticos e banqueiros” e “pessoas comuns”,

19. Tradução do espanhol de um trecho do vídeo do Democracia Real Ya


postado no YouTube: Anonymous, Porque somos más, toma la calle,
8 abr. 2011. Disponível em: [Link]
fFFpGF3E. Acesso em: 13 out. 2020.
como ilustrado por uma mensagem contundente postada na
página do Facebook em 3 de abril: “Políticos e banqueiros
ladrões, lembrem que vocês não são nada e nunca serão nada
sem o povo!”.
Vendo na campanha uma oportunidade de superarem a
divisão e a inércia, diferentes grupos decidiram pôr seu peso
na convocatória do 15-M, lançada pelo DRY. A chamada foi
finalmente apoiada por milhares de usuários da internet e por
duzentas organizações da sociedade civil, incluindo grupos
bem estabelecidos, como o antiglobalização Attac e a ONG
ambientalista Ecologistas en Acción, mas não por sindicatos.

“A revolução começa em 15 de março”

Além de serem empregadas na construção de uma identi-


168
dade comum, no início do movimento 15-M, as mídias so-
ciais também eram usadas como meio de gerar um ímpeto
emocional em relação ao protesto, estimulando o entusias-
mo das pessoas e construindo um sentimento contagiante
de antecipação para o próximo evento. “O mais importante
sobre essas novas ferramentas era dar às pessoas uma ilu-
sión”, explica Fabio Gandara, “uma ilusión de que podería-
mos mudar as coisas”. Curiosamente, a palavra ilusión em
espanhol tem um duplo significado, sendo o mais imediato
“esperança” e o segundo, “ilusão”. Essa ambiguidade captura
bem a maneira pela qual os ativistas do DRY motivaram
os participantes em potencial, apresentando uma espécie de
profecia autorrealizável sobre o sucesso das manifestações.
Desde a abertura da página do Facebook no início de março
de 2011, dois meses antes dos protestos, os organizadores
haviam trabalhado duro para dar a impressão de que os pro-
testos seriam “enormes”. Apesar dos recursos escassos que
tinham à disposição e protegidos pelo anonimato do nome
coletivo do grupo no Facebook, conseguiram provocar um
clima de euforia coletiva entre os usuários.
A página se tornou um local para o acúmulo de uma
energia emocional ( Jasper, 2011), capaz de motivar as pes-
soas a dar o salto para as ruas e superar o isolamento e a pas-
sividade. Uma charge publicada pela popular revista satírica
El Jueves, em apoio ao DRY, alguns dias antes do dia 15 de
maio, ilustrou a ideia reforçada por essa linha de ação. Ela
mostra um homem acima do peso, com os olhos colados na
tela do computador, numa espécie adaptada de rede social,
bem na linha do estereótipo do espectador de TV grudado
no sofá. Em vez da TV, é a internet que alimenta seu vício.
“Estou no Second Life”, diz o personagem, “vou a muitas
manifestações”.20 Contra essa percepção de uma apatia ge- 169
neralizada, é significativo que a campanha tenha adotado
uma simples, mas sugestiva, palavra de ordem: “Ocupe as
ruas!”. Da mesma forma como aconteceu com a shabab-al-
-Facebook no Egito, jovens espanhóis conectados à internet
foram convocados a se transformar de reclusos usuários de
Facebook a jovens politicamente ativos nas ruas.
Apenas alguns dias depois da abertura da página do Fa-
cebook, os administradores já estavam lançando mensagens
ousadas como “A revolução começa em 15 de maio”21 e “15
de maio é nosso dia!”. Quase todos os dias eles informavam

20. Imagem postada no Facebook do Democracia Real Ya.


21. Esta e as seguintes mensagens foram selecionadas de um arquivo em
PDF da página do Facebook do Democracia Real Ya: [Link]
[Link]/democraciarealya. As postagens foram traduzidas do
espanhol.
sobre o crescente número de apoiadores. Aqui estão alguns
exemplos das mensagens motivacionais transmitidas: “Me-
nos de 48 horas depois... Já somos 500!”. “Em menos de 4
dias já somos mais de 1 mil! Sigamos crescendo!”. “Rumo
aos 10 mil!”. O aumento no apoio, ainda que nem de longe
tão importante quanto na página Kullena Khaled Said, dis-
cutida no Capítulo 2, era invariavelmente comemorado pe-
los administradores da página como uma indicação clara de
uma grande participação nas próximas manifestações. “Isso
vai ser grande”, escreveu o administrador em 27 de março.
As mensagens de status eram abundantes em pontos de ex-
clamação e smiles, exibindo uma exuberância que se mostrou
muito eficaz em atrair a atenção dos usuários e aumentar sua
motivação para agir.
Os administradores exploraram habilmente os recursos
170
interativos do Facebook, esforçando-se para “dar às pessoas
a impressão de que, graças a esses instrumentos, elas podiam
participar diretamente” dos assuntos públicos, da mesma
forma direta com a qual podiam postar uma mensagem ou
uma foto, como Fabio Gandara explica. Eles apresentaram
seu grupo como sendo completamente espontâneo, sem li-
derança, e reafirmaram continuamente que “estava aberto à
participação de todos e todas que quisessem se engajar”. As
mensagens de status postadas muitas vezes convidavam os
participantes a ajudar nos esforços de mobilização, compar-
tilhando a página e convidando seus amigos a curtir. “Con-
vide todos os seus amigos à página. No 15 de maio a rua tem
de ser nossa”, pedia a segunda mensagem de status postada.
“Está custando chegar aos 11 mil. Não é possível, precisa-
mos difundir!” foi uma das exclamações durante a segunda
semana de existência da página, quando o crescimento do
número de membros parecia estar diminuindo.
Dezenas ou centenas de comentários se seguiam a cada
uma dessas atualizações de status, às vezes elogiando os ad-
ministradores, raramente os criticando, quase sempre con-
tribuindo para o sentido coletivo de exaltação. Como Wael
Ghonim fez com a página de Khaled Said, os administrado-
res do DRY passaram muito tempo reconhecendo e respon-
dendo aos comentários, de modo a sustentar a impressão de
que os usuários estavam participando de uma conversa inte-
rativa, em vez de simplesmente curtir o conteúdo oferecido
para eles. Além disso, pediam repetidamente que os usuários
contribuíssem com o conteúdo na forma de textos, fotos e
vídeos. Em 29 de abril, por exemplo, os usuários foram soli-
citados a gravar um vídeo explicando seus motivos para ir às
ruas no dia 15. Dezenas responderam ao convite, contando
suas próprias experiências pessoais de frustração com o sis-
tema econômico e político, dando assim uma série de rostos 171
e nomes a um movimento-fantasma que ainda estava para
aparecer fisicamente.
Além da página do DRY, nos meses que antecederam
ao protesto, vários outros canais, incluindo diferentes pági-
nas do Facebook, blogs e sites, contribuíram para divulgar a
convocação. Comparado ao Egito, onde teve um papel me-
nor como meio de mobilização, o Twitter teve na Espanha
um papel importante em atrair atenção para o movimento e
criar conversas entre ativistas, jornalistas, blogueiros, acadê-
micos e simpatizantes. Nas semanas anteriores ao dia 15, a
hashtag #15M se tornou várias vezes trending topic no Twit-
ter naquele país, o que gerou novas ondas de entusiasmo,
provocando uma avalanche de tuítes e mensagens do Fa-
cebook relacionados. Essa e outras hashtags, como #indig-
nados, #tomalacalle, #spanishrevolution, se tornaram uma
via para compartilhar a raiva reprimida contra o “sistema” e
para um cultivo coletivo de esperança sobre a capacidade das
pessoas de reagir. “No #15M, podemos ser 10 mil, 100 mil
ou 1 milhão, mas sempre seremos um a menos sem você”,
lia-se numa mensagem postada na conta do DRY no Twit-
ter alguns dias antes dos protestos e retuitada 58 vezes. O
tuíte “Democracia real agora: por que estamos de saco cheio”
apareceu no dia 13 de maio na conta oficial do Twitter da
revista El Jueves, usando uma linguagem despojada bastante
típica nos dias anteriores ao dia 15.
A campanha de lançamento foi, em grande parte, uma
operação baseada na web. Mas, como havia acontecido no
Egito, quando o dia do protesto se aproximou, os organiza-
dores mudaram progressivamente seus esforços em direção
à comunicação nas ruas. Os ativistas do DRY e de outros
grupos como Estado de Malestar e Juventud Sin Futuro es-
172
tavam convencidos de que o movimento tinha de se tornar
visível nas ruas, a fim de atrair os espanhóis excluídos pela
brecha digital. As operações de mobilização passaram pro-
gressivamente a abranger o que Fabio Gandara chama de
trabalho a pé nas ruas. Como Sofía de Roa explica: “Pouco
a pouco, as pessoas trabalharam na divulgação na internet,
e nos últimos meses a divulgação do evento saltou para as
ruas na forma de pôsteres, debates, conferências, propa-
ganda boca a boca e tudo mais, porque era necessário fazer
comunicação também nas ruas. Havia cartazes em todas as
cidades, e o boca a boca funcionou muito bem”.
Grupos locais imprimiram cartazes disponibilizados na
página do DRY ou produzidos por eles mesmos e os coloca-
ram nas principais vias e praças públicas por toda a Espanha.
O objetivo dos organizadores locais como Asun, um ativista
de Salamanca, era “começar a tornar o movimento visível
nas ruas, onde as pessoas passariam e veriam um cartaz que
tínhamos colocado, inclusive aqueles que não acessavam in-
ternet ou não tinham uma conta no Facebook”.
A campanha de comunicação de rua foi importante por-
que as manifestações do dia 15 estavam sendo organizadas
não só em Madri e Barcelona, mas num total de 58 cidades
em todo o país. A fim de garantirem uma participação de-
cente, os organizadores foram convencidos a chegar às pes-
soas em cada local, para além da base nuclear do movimento.
Para estimularem essa campanha nas ruas, “diferentes gru-
pos locais foram criados, e houve reuniões presenciais em
diferentes cidades. Dessa forma, fizemos a transição da rede
para a realidade física, e esses dois níveis foram complemen-
tares”, explica Fabio Gandara. Essas reuniões tiveram a par-
ticipação de ativistas experientes, mas também acolheram
muitas pessoas para quem essa foi a primeira experiência
política. Aitor Tinoco lembra que “foi a primeira vez que eu 173
não estava vendo os mesmos rostos ao redor da mesa”.
Durante todo o trabalho de preparação para o primeiro
dia de protesto, a principal debilidade parecia ser a escassez
de cobertura dos meios de comunicação de massa. A TV
nacional e a imprensa desprezaram quase por completo o
evento. Na verdade, os ativistas não contavam muito com o
uso da mídia de massa como um canal de mobilização. Es-
tavam convencidos de que, usando a internet e trabalhando
localmente, “poderiam superar Público, El País e qualquer
outra TV e jornal”, como afirma Roa. No entanto, visto o
amplo apoio que o protesto estava reunindo, acharam ade-
quado também tentar usar esse canal, a fim de ampliar seu
alcance. Nas semanas anteriores à manifestação, Gallego,
Gandara e outros porta-vozes do movimento apareceram
em vários programas de rádio. Mas quando alguns dias antes
do protesto deram uma coletiva de imprensa oficial, ficaram
surpresos com o fato de apenas dois meios de comunicação
aparecerem: Público (esquerda) e El País (centro-esquerda).
“Perguntamos a nós mesmos o que havíamos feito de erra-
do”, diz Gandara. O desinteresse da mídia de massa pro-
vocou reações iradas entre muitos tuiteiros ativistas. Mas,
paradoxalmente, também pareceu confirmar o sentido de
valor dos organizadores: como se o protesto que estava por
vir fosse tão significativo que eles precisavam ser censurados,
uma visão refletida em vários tuítes circulando na época: “As
primeiras páginas de hoje estão ignorando os protestos. Es-
tão demonstrando que a grande imprensa é parte do pro-
blema”, escreveu um usuário do Twitter na manhã do dia
15. Poucas horas antes do início dos protestos, o usuário @
grcanosa, um engenheiro industrial, condensou a indignação
coletiva contra a mídia nacional: “Quando num país há 60
174 manifestações simultâneas e isso não aparece na mídia, algo
está ocorrendo, não?”.

Um sol magnético

Quando cheguei à rua Alcalá e vi todas aquelas pessoas, fi-


quei muito feliz. Ver que havia pessoas de diferentes idades,
que estava crescendo, que éramos muitos […]. Agora que
estou contando isso, fico arrepiada. Realmente, fiquei tão
feliz! Quando chegamos à Puerta del Sol, as pessoas come-
çaram a colocar grandes cartazes nos prédios. As pessoas lá
estavam incrivelmente felizes! Lembro que, no fim da ma-
nifestação, encontrei alguns amigos. Sentamos na praça, e
muitas pessoas também começaram a sentar. Isso foi estra-
nho, porque normalmente após o fim de uma manifestação
se volta para casa.
O relato de Sofía de Roa sobre sua experiência durante
a manifestação de 15 de maio reflete o sentimento de ale-
gria ao testemunhar um movimento alimentado online ma-
terializando-se nas ruas do centro de Madri. No dia, cerca
de 50 mil pessoas marcharam nas ruas somente na capital
espanhola, enquanto milhares de outras foram às ruas em
mais 57 cidades. A grande participação logo provocou co-
moção nas redes sociais. Imagens das manifestações foram
divulgadas para combater aqueles que diriam se tratar de
“cinco ou seis” (como o tuíte do usuário @kurioso), e acusa-
ções furiosas foram direcionadas aos grandes canais de TV
por não cobrirem os protestos. Mas foi o que aconteceu no
fim da noite que transformou a manifestação do 15-M, um
evento isolado no início, em uma onda de protestos. Em vez
de voltarem para casa no fim do ato, alguns participantes
decidiram acampar na Puerta del Sol. A praça, no centro de 175
Madri, foi transformada numa acampada, um acampamento
de protesto que, também graças às intensas mensagens nas
redes sociais que irradiavam dela, passou a atuar como um
agrupamento magnético ou um local de tendência quase irresis-
tível para os milhares de espanhóis que se amontoaram para
lá nos dias seguintes.
“Mais de 100 pessoas dormindo no sol em Madri. Com-
partilhe e participe!”. Foi assim que @Anon_VV, uma conta
espanhola no Twitter, conectada ao grupo internacional de
hackers Anonymous, deu a notícia. Depois de conflitos com
a polícia no final da manifestação, cinquenta pessoas decidi-
ram passar a noite na praça. Apesar de relutar em se envolver
em ações potencialmente ilegais, para manter sua reputação
de frente moderada no movimento indignado, o Democracia
Real Ya deu seu selo de aprovação à ocupação em sua página
no Facebook. No entanto, pessoas como Gallego e Gandara
decidiram ficar à margem para não “interferir no processo
espontâneo” das assembleias populares que se desenvolve-
ram no acampamento. De fato, dada a falta de experiência
de ativismo nas ruas, esses ativistas digitais tiveram pouco a
dizer sobre como o acampamento se desenvolveu. O papel
principal na criação do acampamento e de seu sistema de as-
sembleias gerais e grupos de trabalho foi desempenhado por
pessoas da chamada ocupa, ou cena de ocupações de Madri.
A tomada da praça foi comemorada como “espontânea”,
no sentido de que ninguém a havia planejado com antece-
dência. Mas, como Carmen Haro Barba, assessora de im-
prensa do centro social Tabacalera, um dos principais pontos
da cena ativista em Madri, destaca: “Enquanto, para alguns,
essa foi a primeira experiência política, a maioria das pes-
soas que dormiu lá naquela noite era formada por ativistas
176
experientes, parte do tecido ativo desta cidade. Muitos deles
militavam em centros sociais, pessoas para quem a política
é uma atividade em tempo integral”. Centros sociais como
Tabacalera, Patio Maravillas e Casablanca, todos localizados
a curta distância da Puerta del Sol, contribuíram para a lo-
gística e forneceram materiais para montar o acampamento
e garantir sua continuidade. Não obstante toda a importância
da comunicação na internet para estender a mão aos parti-
cipantes em potencial e preparar o cenário para os protestos,
a construção e a manutenção do acampamento exigiram um
conhecimento que os ativistas digitais que lançaram a cam-
panha não tinham. Como já ocorrera no Egito, uma vez que
o movimento “acampou”, o foco da comunicação e da or-
ganização passou progressivamente da internet para as ruas.
O ponto de inflexão para transformar a manifestação
num acampamento de protestos completo ocorreu no dia
17 de maio, quando, no início da manhã, a polícia chegou
para limpar a praça. “Vivo num país onde se pode acampar
para ver Justin Bieber, mas não para defender seus direi-
tos”, comentou @TheDirtyMachine, de maneira sarcástica.
Se um episódio de repressão policial deu ao movimento seu
primeiro impulso, um segundo deu à ocupação de Puerta del
Sol uma aura de legitimidade que, nos dias seguintes, atraiu
um fluxo de milhares de apoiadores para o acampamento.
Hashtags do Twitter como #nonosvamos e #yeswecamp
(um trocadilho com o slogan de Barack Obama, Yes we can)
se tornaram um canal para expressar apoio aos ocupantes e
divulgar informações sobre como ajudar a ocupação.
O número de tuítes publicados por dia com a hashtag
#15M subiu para 58 mil no dia 17, chegando a mais de 200
mil nas vésperas das eleições locais do dia 22. Uma apresen-
tação em vídeo preparada por um grupo de pesquisadores da
Universidade de Zaragoza representa o fluxo de tuítes como 177
um brilho de luz azul saindo de Madri, atingindo o clímax
no dia anterior às eleições. Essa visualização captura a ma-
neira pela qual o entusiasmo experimentado por aqueles que
ocupavam a praça foi irradiado para aqueles que seguiam in-
tensamente os acontecimentos de longe. Nos dias seguintes,
muitos desses seguidores da internet se tornariam partici-
pantes reais, somando-se à ocupação em período integral ou
em meio período. Como Sofía de Roa relata:

Na segunda-feira, quando houve o despejo durante a noite,


uma convocatória nas redes sociais pediu a todos que fossem
às ruas às 20 horas, na Puerta del Sol. E às 20 horas havia
mais pessoas do que no dia 15 de maio, o que significa que
foi realmente impressionante (sobretudo porque era uma
noite de segunda-feira, e não um fim de semana). Naquela
terça-feira, o apoio nas redes sociais estava crescendo expo-
nencialmente, com muitas pessoas dizendo “eu vou!”, “eu
vou!”, “eu vou!”. E as pessoas estavam de fato vindo.

No fim da tarde do dia 17, a primeira Assembleia Geral


após a reocupação decidiu erguer uma acampada. Em ques-
tão de horas, a Puerta del Sol foi transformada numa adap-
tação espanhola da praça Tahrir com um círculo de barracas
no centro – uma imagem poderosa que, mais tarde, seria
popularizada não pelas mídias sociais, e sim divulgada por
jornais e TV.
Desde os primeiros dias do acampamento, as mídias so-
ciais – o Twitter, em particular – construíram e sustentaram
uma atração emocional pela ocupação, facilitando a mobili-
zação contínua de apoiadores e simpatizantes. “Urgente! É
necessário ir a #acampadasol agora, estão fechando os aces-
178
sos”, escreveu @SpainRevolt no dia 18, quando os ocupantes
haviam acabado de montar a infraestrutura básica do acam-
pamento e temiam um novo despejo. Mais tarde naquele
dia, outro usuário incitou as pessoas a participar: “Estamos
em #acampadasol e precisamos de mais pessoas. Temos de
nos mobilizar e não deixar os políticos fazerem o que que-
rem, por favor”. Mensagens semelhantes foram enviadas nos
dias que se seguiram, informando as pessoas sobre as neces-
sidades do acampamento – que aceitava apenas doações de
materiais e recusava as monetárias –, deixando as pessoas
atualizadas sobre os eventos que estavam ocorrendo, além
de manter uma conversa contínua entre aqueles que estavam
na praça e aqueles que, por qualquer motivo, não puderam
participar da ocupação ou que ainda não podiam fazê-lo.
Exemplo de como essas e outras mensagens semelhan-
tes contribuíram para gerar simpatia generalizada e aumen-
tar os números de envolvidos é a história de Asun, ativista
de 40 anos que se juntou aos protestos na Puerta del Sol
depois de se inteirar sobre eles no Facebook. “Soube pelo
Facebook que as pessoas haviam decidido ficar”, lembra ele,
que participara dos protestos de quinze minutos em Sala-
manca e foi para Madri assim que soube que ativistas ti-
nham montado um acampamento de protesto no local. “Foi
uma decisão muito rápida, porque eu não sabia que isso iria
acontecer. Eu disse a mim mesmo: ‘Se há uma ponta de es-
perança, não posso desperdiçá-la’”. Para muitos espanhóis,
as ocupações na Puerta del Sol e em dezenas de outras pra-
ças pareciam um evento imperdível, que precisava ser vivido
pessoalmente, não só pelas mídias sociais. Mensagens em
hashtags como #sol e #15M contribuíram para transformar
os quarteirões em pontos de encontro contagiantes ou mag-
néticos, criando um espetáculo mediado do qual emanava um
sentimento irresistível de alegria capaz de transformar “es- 179
pectadores” em “atores”.
Quando visitei o acampamento Puerta del Sol, na noite
de 20 de maio, no auge da ocupação, o que mais me impres-
sionou foi a enorme densidade corporal na praça. Agrupa-
mentos de pessoas tentavam adentrá-la pelas sete estradas
que conduziam a ela. Dentro da praça, a multidão era quase
sufocante – de fato, havia rumores de que muitas pessoas
desmaiaram por causa da aglomeração. “Por favor, tentem
ir para as ruas e praças laterais”, implorava uma voz vinda
de um megafone no acampamento. “Precisamos ir para além
da Sol a fim de evitar a aglomeração.” Também fiquei im-
pressionado com o sentimento de comunhão que emanava
da assembleia geral, realizada todas as noites no centro da
praça. As intervenções – feitas por pessoas de diferentes fai-
xas etárias e classes sociais, com duração não superior a al-
guns minutos, para cumprir as regras da assembleia – quase
sempre envolviam um testemunho da experiência de difi-
culdades pessoais no meio da crise econômica e quase inva-
riavelmente finalizavam com uma fórmula ritual yo también
soy un indignado. Era como se a indignação, antes dispersa
geograficamente e mantida unida apenas na web, estivesse
sendo fisicamente “colhida”, armazenada num local, e rece-
besse um nome coletivo, um ponto focal físico, um lugar de
ancoragem no espaço público.

A rede não era a praça

Os acadêmicos espanhóis José Manuel Sánchez Duarte


e Victor Sampedro Blanco interpretaram as ações do mo-
vimento dos indignados como uma espécie de transferência
180
para as ruas de práticas de cooperação desenvolvidas pela
primeira vez na web. O argumento deles é resumido na afir-
mação de que, antes de 15 de maio, “a rede era a praça”:

A lógica da internet foi transferida para a vida pública; a par-


tir daí, quem não entende a primeira não consegue entender
o que está acontecendo. Nós também não, mas percebemos
que as práticas da rede – autoconvocação, deliberação em
fóruns, consumo de contrainformação, tecedura de redes
afetivas e eficazes para produzir e operar nas esferas peri-
férica e digital – precisam se tornar tangíveis. Os traços da
comunicação digital – cooperação, instantaneidade, autoa-
limentação, horizontalidade, descentralização, flexibilidade,
dinamismo e interconexão – estão presentes em assembleias
e acampamentos. (2011)
Os acampamentos de protesto na Puerta del Sol e em
várias outras praças do país não podem, no entanto, ser en-
tendidos como simples transposição para o espaço público
de práticas estabelecidas pela primeira vez na web. Em vez
disso, conforme documentado no decorrer deste capítulo,
as mídias sociais envolveram uma coreografia emocional
que efetuou uma profunda transformação da experiência
de solidariedade e cooperação construída entre um público
online e a colheita simbólica e física da indignação indi-
vidual. Por outro lado, as práticas desenvolvidas na praça
foram caracterizadas por uma imersão e corporalidade que
tinham pouco em comum com o tipo de “proximidade vir-
tual” construída na web no momento anterior aos protestos.
O processo de mobilização atingiu seu clímax com a rea-
propriação do espaço público e a reinvenção da tradição da
política de rua, que, em certa medida, se desenvolveu com- 181
petitivamente com a cultura do ativismo digital, decisiva na
fase inicial.
O proclamo frequentemente ouvido “não estamos no
Facebook, estamos nas ruas” veio expressar a alegria gerada
pela redescoberta de um sentido de comunhão física que re-
verteu a dispersão espacial e comunicacional sintetizada por
interações nas mídias sociais. Em vez de postar mensagens
de status, as pessoas colavam centenas de post-its na entrada
da estação subterrânea de Sol, onde grupos de pessoas pa-
ravam para lê-las. Em vez de se meterem em discussões nos
fóruns da internet, os participantes mergulharam em comis-
sões, grupos de trabalho e assembleias – práticas inventadas
muito antes do surgimento da internet. Em vez de navega-
rem por centenas de fotos de perfil, familiarizaram-se com o
rosto de outras pessoas. Em vez das cutucadas do Facebook,
recorriam a abraços coletivos, como aqueles vistos durante
os primeiros dias do acampamento. Não havia dúvida, entre
a maioria das pessoas que entrevistei, de que as interações
face a face na praça eram muito superiores àquelas mantidas
na web, que eram vistas por muitos como um risco de exa-
cerbar o isolamento e a solidão. Como disse José Ordóñez,
um manifestante de 30 e poucos anos: “Só quando se vai a
uma assembleia é que a solidão desaparece. Na web, corre-se
o risco de ficar isolado”. Assim, embora as mídias sociais
tenham sido, sem dúvida, importantes para levar as pessoas
para “lá”, uma vez reunidas fisicamente no espaço público,
era como se estivessem quase envergonhadas com a maneira
pela qual lá chegaram.
Os acampamentos de protesto se tornaram centros na
rede, pontos físicos que ancoravam um movimento difuso.
Como observa Aitor, do DRY, “é por isto que os acampa-
182
mentos têm sido tão importantes: para superar a fragmen-
tação da rede, para sair dessa atomização social que se reflete
bem na própria estrutura da rede”. Ele descreve as quadras
ocupadas como um local de “encarnação” e como estágios
para um processo de “recomposição social” em que um novo
corpo social seria formado. Esse processo de recomposição
passou a girar em torno de uma concentração simbólica e
material, cuja densidade corporal sufocante experimentada
na Puerta del Sol, no auge do protesto, foi a manifestação.
A importância dos centros físicos como pontos focais para
a ação dos movimentos populares contemporâneos vai na
contramão das reivindicações de descentralização e multipli-
cidade irredutível feitas por muitos ativistas inspirados por
pessoas como Deleuze, Negri e Castells, alérgicos a centrali-
zações de qualquer tipo. No entanto, é um elemento decisi-
vo para a compreensão do movimento dos indignados e seu
caráter “popular” ou “populista”. A Puerta del Sol, junto com
outras ocupações importantes, como a da Plaza de Catalun-
ya, em Barcelona, virou um “ponto nodal” a partir do qual
transformou um público-fantasma numa multidão tangível.
Não devemos esquecer que, para a Espanha, a Puerta
del Sol é o centro geográfico e jurídico do país. É o “qui-
lômetro zero”, o ponto do qual todas as distâncias são me-
didas e o ponto de partida para a rede radial de estradas.
Mas também é a “praça nacional”, equivalente à praça da
Bastilha para a França, a praça do Parlamento para a Grã-
-Bretanha e a praça Tahrir para o Egito – ou seja, o lu-
gar em que, várias vezes ao longo da história, as pessoas
reivindicaram ou se revoltaram contra o governo nacional.
Tendo em mente essa profunda conotação simbólica, pode-
mos entender por que o mero nome Sol parecia dizer tanto
sobre a unidade do movimento, sua manutenção, apesar da
diversidade interna e da recusa a formas de delegação e re- 183
presentação. Esse topônimo se tornou uma hashtag popu-
lar nos tuítes de ativistas do (#sol, #acampadasol), material
para nomeação de domínio ([Link], [Link]), uma
abreviação para o movimento como um todo e um ponto de
referência imaginário para todos aqueles que não estavam
fisicamente presentes “na Sol”, mas que estavam orientados
a isso, acompanhando de perto os eventos por meio das mí-
dias sociais e de massa.
Como um sol, com seus raios irradiando pelo espaço, a
praça, durante o auge da ocupação, parecia de alguma forma
capaz, graças à densidade corporal que atraía, de resgatar
uma nação economicamente oprimida e politicamente hu-
milhada. Para Helena, uma ativista engajada no acampa-
mento Sol, “Puerta del Sol, com seus sete raios esotéricos,
foi o ponto de partida para o despertar da Espanha e da
humanidade”. Essa dimensão quase religiosa não deve ser
negligenciada, dado que o acampamento Sol, entre as tantas
comissões (voltadas para muitas pessoas) e grupos de traba-
lho, tinha um dedicado ao “amor e à espiritualidade”.
Naturalmente, o poderoso espaço ritual construído no
acampamento por meio da ocupação não durou para sem-
pre. Depois de quase um mês, em 19 de junho, os indigna-
dos decidiram levantar acampamento, em vista da pressão
sobre quem o mantinha e das crescentes queixas de hotéis e
vendedores locais. Mas, como expressão do apego emocio-
nal do movimento à praça, deixaram para trás o InfoSol –
um ponto de informações feito de material reciclado – para
prolongar a permanência do movimento para além de sua
presença corporal, embora esse “monumento” popular fosse
logo destruído pela polícia espanhola.
Depois de levantar as principais ocupações, o movimen-
184
to se concentrou em “estender-se”, espalhando a “indigna-
ção” acumulada em espaços simbólicos como Puerta del Sol
e Plaza de Catalunya. Ativistas montaram assembleias em
diferentes bairros das grandes cidades, enquanto manifes-
tantes indignados atravessavam a Espanha para incentivar
a criação de assembleias em remotas cidades do país. Foi
uma tentativa notável de dar ao movimento uma presença
capilar em toda a sociedade espanhola, construindo estru-
turas organizacionais locais. Não obstante, essa ênfase na
descentralização, que em grande parte reproduzia práticas
e discursos dominantes durante o período antiglobalização,
também trazia o risco de privar o movimento de sua concen-
tração, da densidade física e simbólica para a qual trabalhou
arduamente. Enquanto em Madri os ativistas decidiram
continuar realizando uma assembleia semanal na Puerta del
Sol, em Barcelona decidiram se mudar completamente para
os bairros, sem manter uma assembleia central. Essa decisão
provou ser “um completo haraquiri”, nos termos de Aitor
Tinoco. “Descentralizamos nossa luta pelos bairros e, assim,
perdemos um foco central.”
Tendo em mente o papel vital das praças ocupadas
como centros rituais e foci organizacionais do movimento,
em vez de nós numa rede, podemos apreciar o papel desem-
penhado pelas mídias sociais durante a fase de sustentação
da ocupação, além da fase de iniciação discutida nas seções
anteriores. As mídias sociais ajudaram a sustentar uma sen-
sação de atração emocional pelos protestos em massa. Pá-
ginas, tuítes e postagens do Facebook estavam envolvidos
na tecedura contínua de uma textura emocional em torno
dos espaços públicos ocupados, conectando esses lugares a
públicos dispersos. As transmissões ao vivo pelo site [Link]
receberam quase 10 milhões de visitas durante a primeira
semana dos protestos,22 no momento em que o conselho da 185
cidade de Madri desligou a webcam na Puerta del Sol, na
tentativa de ocultar os protestos. Centenas de vídeos posta-
dos no YouTube transmitiram a experiência de entusiasmo
coletivo na praça, enquanto vários sites dedicados, incluin-
do [Link] e [Link], apareceram para dar
a apoiadores e simpatizantes relatórios oportunos sobre o
que estava acontecendo.
Esses e outros sites também permitiram que o movi-
mento se conectasse com aqueles que, por qualquer motivo,
não podiam participar dos protestos. Como explica Luís,
um ativista envolvido na comissão de comunicação da acam-
pada em Barcelona: “Na praça física existem 2 mil pessoas.
Mas nossa página no Facebook recebeu 2 milhões de visi-
tas em quinze dias, com pessoas de todas as partes do país,

22. Número retirado da página [Link].


que estão se conectando, compartilhando e agradecendo”.
As formas difusas e distantes de engajamento que os acam-
pamentos conseguiram atrair pelas redes sociais permitiram
que “aqueles que não podiam comparecer fisicamente se
sentissem parte do movimento”, como observa Teresa, uma
web designer freelancer envolvida no movimento.

Conclusão

O movimento 15-M na Espanha foi caracterizado pelo


uso intenso e entusiasmado das mídias sociais como meio
de mobilização. Ao usarem redes sociais como Facebook e
Twitter, ativistas construíram conversas emocionais resso-
nantes pela internet e conseguiram aproveitar uma indig-
nação coletiva generalizada, transformando-a numa pai-
186
xão política que impulsionou uma ação coletiva no espaço
público. Os organizadores do movimento teceram juntos
uma “coreografia de assembleia” que facilitou a reunião de
um círculo de ativistas diversificado e disperso ao redor da
Puerta del Sol e de outras principais praças ocupadas pelo
movimento, transformadas em pontos simbólicos de con-
vergência. No processo, as páginas do Facebook e os feeds
do Twitter construíram identidades coletivas flexíveis, ca-
racterizadas por um apelo à “normalidade” – como na auto-
definição do DRY como “pessoas normais e comuns” –, com
o objetivo de interceptar usuários em potencial, a despeito
de suas afiliações políticas e culturais.
Naturalmente, o processo de mobilização no movimen-
to dos indignados não se resumia ao Twitter e ao Facebook,
por mais que esses meios de comunicação permitissem que
os organizadores chegassem a diversos setores da sociedade
espanhola e explorassem o imaginário participativo da web
2.0. Similarmente ao que aconteceu no Egito, os ativistas
logo recorreram à agitação nas ruas para ir além do núcleo
ativista do movimento e quebrar a barreira da brecha digital.
Além disso, estações de televisão como La Sexta e jornais
centristas e progressistas como El País e Público contribuí-
ram para moldar a imagem dos indignados, mobilizar pessoas
e construir um consenso para os indignados em toda parte.
Numa pesquisa de opinião publicada pelo El País em 5 de
junho de 2011, 66% dos espanhóis expressaram sua simpatia
pelos indignados e 81% concordaram que eles estavam certos
de “indignar-se” (Garea, 2011). Tais números demonstram
que os indignados cumpriram, em grande parte, suas maio-
res ambições e atraíram um diverso séquito de apoiadores e
simpatizantes. Além disso, graças às inúmeras ocupações lo-
cais para além das praças principais, o movimento também 187
conseguiu criar infraestruturas locais acessíveis para pessoas
de fora das áreas metropolitanas. Comparado ao movimento
antiglobalização, cujo potencial de mobilização estava res-
trito em grande parte aos jovens urbanos da classe média,
isso constitui uma conquista importante.
Não obstante o sucesso inicial, o movimento 15-M co-
meçou a arrefecer nos últimos meses de 2011. As assem-
bleias locais de bairro viram seus números diminuírem
progressivamente, e, dentro do próprio movimento, as dife-
renças se tornaram mais agudas entre os chamados mode-
rados, identificados com o Democracia Real Ya, e os mem-
bros mais “radicais”, representados pelos chamados ativistas
okupas enraizados no movimento de moradia. No momento
da redação deste texto, o movimento celebrava seu primeiro
aniversário anual com protestos a partir de 12 de maio, mas
estava internamente dividido entre seus iniciadores, lidera-
dos por Fabio Gandara, que decidira transformar o Demo-
cracia Real Ya numa organização legal, e outros que queriam
que o movimento permanecesse uma “rede” sem nenhuma
estrutura formal.
A incômoda questão da liderança está surgindo e sendo
discutida abertamente. Esse é um testemunho do fato de
que os indignados, como outros movimentos desse tipo, não
eram e não são “sem líderes”. Como vimos no decorrer deste
capítulo, um punhado de jovens ativistas digitais, como Fa-
bio Gandara e Pablo Gallego, tiveram um papel decisivo na
direção das ações do movimento, “montando o cenário” ou
“coreografando” os protestos. Ainda que as ações desses ati-
vistas dificilmente fossem visíveis nos espaços públicos que
ajudaram a criar, a maneira como usaram as mídias sociais
para construir identidades coletivas e alimentar uma ten-
são emocional em relação à participação moldou a maneira
188
como o movimento surgiu e se desenvolveu.
“A hashtag que (não)
iniciou uma revolução”: a
laboriosa soma dos 99%

Pensando em tirar minha bunda


preguiçosa da cama para ir ao
#occupywallstreet na cidade. Mas
minha cama é muito confortável :(
Tuíte publicado em 22 de setembro de
2011
“Tudo começou de maneira inocente com uma posta-
gem de 13 de julho no blog instigando as pessoas ao #Occu-
pyWallStreet, como se algo assim (hashtag do Twitter e tudo
mais) fosse possível. Acontece que, com energia suficiente
e um sentido aguçado de como usar as mídias sociais, isso
realmente é” (Berkowitz, 2011). A citação de um relatório
da Reuters resume bem o mito criado em torno da ascensão 191
do Occupy Wall Street na grande mídia. Segundo a histó-
ria, um dia alguém publicou uma hashtag no Twitter e, de-
pois de algum tipo de mágica nas mídias sociais, nasceu um
movimento social. De fato, como veremos neste capítulo, o
surgimento do Occupy Wall Street foi um processo muito
mais “bagunçado” do que esse tipo de representação sugere.
Se a Adbusters, a revista de contracultura canadense que pu-
blicou a convocação para um protesto no dia 17 de setem-
bro, esperava que a hashtag #OccupyWallStreet, junto com
os “briefings táticos” publicados em seu site, desencadeasse
uma “revolução”, não foi esse o caso. No dia anunciado para
o protesto, dos 20 mil “redentores, rebeldes e radicais” que
haviam sido convocados, apenas 300 apareceram. O movi-
mento passou a funcionar e chamou a atenção do público
estadunidense e do mundo somente depois de um processo
lento e confuso de organização nas ruas e após redefinir sua
identidade como um movimento popular (e não de contra-
cultura) representando os “99%” – ou seja, todos aqueles que
estavam sofrendo as consequências da crise econômica.
O surgimento do Occupy Wall Street foi caracterizado
por um desenvolvimento tortuoso, no qual as mídias sociais
foram usadas apenas parcialmente como meio para uma co-
reografia de assembleia, montando o cenário para protestos
públicos, e muitas vezes se tornaram mais um tipo de canal
para a reverberação dos eventos na rua. Paradoxalmente, no
país onde empresas de redes sociais como Twitter e Facebook
têm suas sedes, os ativistas falharam inicialmente em usá-las
de forma efetiva como meio de “coreografar” o movimen-
to antes de sua materialização no espaço público. As mídias
sociais só ganharam relevância durante a fase de sustentação
192
do movimento, sendo usadas para criar um sentido de atração
para as ocupações e para evocar a solidariedade entre os “ocu-
pantes físicos” e os “ocupantes na internet”, entre ativistas
que estavam nas ruas e os que seguiam os eventos a distância.
O Occupy Wall Street (ou Occupy, na forma mais curta,
e OWS, na sigla em inglês) se seguiu à revolta egípcia e aos
indignados espanhóis, em quem a Adbusters se inspirou para
fazer a convocatória inicial. No dia 17 de setembro, mani-
festantes se reuniram no Zuccotti Park, a algumas dezenas
de metros da Bolsa de Valores de Nova York, e a ocupação
logo inspirou dezenas de outros acampamentos nos Estados
Unidos. Aos poucos, o movimento passou a abranger um
círculo diversificado de pessoas, incluindo operários, desem-
pregados, aposentados, pobres, sem-teto, todos representan-
tes daqueles 99% pelos quais o movimento pretendia lutar.
Antes de ser despejado do Zuccotti Park e da maioria dos
outros acampamentos, entre novembro e dezembro de 2011,
o movimento conseguiu garantir um grau impressionante de
apoio público. De acordo com uma pesquisa publicada pelo
The New York Times em meados de outubro de 2011, 46% dos
cidadãos americanos concordaram com as razões apontadas
pelos ocupantes para sua ação (Zeleny e Thee-Brenan, 2011).
Mesmo que as mídias sociais sozinhas não possam ex-
plicar o surgimento e o relativo sucesso do Occupy Wall
Street, é evidente que desempenharam um papel importan-
te na mobilização e na coordenação dos participantes. Não
surpreendeu que esse aspecto do movimento tenha provo-
cado um enorme hype na mídia. Jornalistas de tecnologia e
gurus das mídias sociais debateram ansiosamente a respeito
de qual dispositivo de mídia social melhor representava o
movimento. Entediados com o Twitter, alguns desses es-
pecialistas aplaudiram a adoção, por parte dos ativistas, da
alternativa “anarquista” do Twitter, o Vibe ( Jeffries, 2011a), 193
assim como do serviço de localização FourSquare (The
Washington Post, 2011). As empresas de mídia social logo
pularam na onda tecnoutópica, na esperança de encontrar
no Occupy um impulso de relações públicas muito neces-
sário para seus serviços recém-lançados ( Jeffries, 2011b).23
Como nos capítulos anteriores, não estou muito inte-
ressado nas possibilidades técnicas dessas ferramentas, e sim
nas práticas culturais que os ativistas desenvolveram em seu
uso. Destacarei como, similarmente ao que se sucedeu no
Egito e na Espanha, as mídias sociais foram determinantes
para a construção de uma coreografia de assembleia, facilitan-
do o encontro dos participantes no espaço público e gerando
uma tensão emocional em relação à participação. Começo

23. Um exemplo de startup de mídia social tentando engajar os ocupantes


é o serviço de mensagem massivo Celly.
descrevendo a crise do espaço público que caracterizou a so-
ciedade estadunidense no início do Occupy e a incapacidade
das organizações estabelecidas de atuar como base para a
construção de uma campanha popular contra a política de
austeridade. Olhando para a interação entre a Adbusters e
os organizadores nas ruas, argumento que a campanha de
lançamento falhou na criação do ímpeto emocional inicial que
caracterizou os protestos no Egito e na Espanha. A fixação
da data – 17 de setembro – não foi acompanhada inicial-
mente pela construção de uma identidade popular ressonante
ou pelo acúmulo de um sentimento de antecipação capaz de
motivar um círculo ativista disperso a sair às ruas. Durante
a fase inicial, toda a atenção dos organizadores estava no
Twitter, enquanto o Facebook, que representava o trampo-
lim para os outros dois movimentos, foi inicialmente des-
194
prezado. Só mais tarde, quando o movimento montou suas
barracas no Zuccotti Park, a página We Are the 99 Percent do
Tumblr passou a atuar como um ponto de encontro emocio-
nal para a construção de uma identidade popular inclusiva e
a geração de um impulso à participação.
Na segunda parte do capítulo, passo a analisar o papel
desempenhado pelas mídias sociais na sustentação dos pro-
testos quando a ocupação do Zuccotti Park começou. Aqui,
o Twitter foi de fato usado para tecer uma conversa emo-
cional e sustentar um sentido de solidariedade entre os ocu-
pantes físicos e seus apoiadores distantes ou “ocupantes da
internet”. No entanto, em grande medida, as interações nas
mídias sociais não conseguiram transformar simpatizantes
em participantes reais. Na seção final do capítulo, discuto
o uso do Twitter como dispositivo tático durante eventos
de protesto e situações de emergência, como o despejo dos
ocupantes do parque na noite de 15 de novembro. Sugiro
que o uso do Twitter, nessa ocasião, apontou a presença de
um grupo de organizadores principais, ou “coreógrafos”, o
que contradiz as afirmações do movimento de que não havia
liderança, mas espontaneidade absoluta.

Reivindicando a Primeira Emenda

A Primeira Emenda concede a todo nova-iorquino o direi-


to de se manifestar, mas isso não dá a ninguém o direito
de dormir num parque ou ocupá-lo, excluindo outros. Os
manifestantes tiveram dois meses para ocupar o parque com
barracas e sacos de dormir. Agora terão de ocupar o espaço
com o poder de seus argumentos. (Bloomberg, 2011)

Quando, na manhã de 15 de novembro de 2011, o pre-


feito de Nova York, Mike Bloomberg, foi a uma coletiva de 195
imprensa para justificar o despejo do acampamento de pro-
testo no Zuccotti Park, no centro de Manhattan, realizado
poucas horas antes pelo Departamento de Polícia de Nova
York, achou adequado apelar a esses nobres valores de saúde
e segurança pública. No entanto, ficou claro para qualquer
pessoa com algum conhecimento da história estaduniden-
se recente que sua ação não fora só “administrativa”, e sim
profundamente política e ideológica. O despejo foi apenas
o evento mais recente de um histórico de ataques ao direito
de reunião, estimulado pelo “medo das multidões” sobre o
qual Mike Davis muito escreveu (ver, por exemplo, 1992a).
Os jovens ativistas só precisavam lembrar a repressão policial
dos protestos contra a convenção nacional republicana, em
2008. Os mais antigos podiam se lembrar de eventos hoje
lendários, como o despejo violento do People’s Park, em Ber-
keley, em maio de 1969, pelo então governador da Califórnia,
Ronald Reagan, que enviou a Guarda Nacional para impedir
que um grupo de moradores e estudantes ocupassem um pe-
daço de terra abandonado perto do campus de Berkeley.
O despejo no People’s Park foi a inauguração de um lon-
go ciclo político que marcou “o fim do espaço público” na so-
ciedade estadunidense (Mitchell, 1995). Diferentes estudio-
sos e especialistas denunciaram como, nas décadas seguintes,
o domínio da doutrina neoliberal envolveu um ataque con-
tínuo a espaços de encontro político e sociabilidade alterna-
tiva (Putnam, 2000; Brenner e Theodore, 2002). As conse-
quências da ideologia neoliberal para o espaço público foram
bem descritas por Mike Davis, que sublinha a “destruição de
qualquer espaço urbano verdadeiramente democrático” por
parte do neoliberalismo. Para Davis, “os espaços públicos das
novas megaestruturas e de shoppings substituíram as ruas
tradicionais e suplantaram sua espontaneidade. Dentro de
196 shoppings, centros comerciais e complexos culturais, as ati-
vidades públicas são classificadas em compartimentos estri-
tamente funcionais sob o olhar das forças policiais privadas”
(1992a, p. 155). A convocatória para “ocupar” escolhida pelos
ativistas teve como premissa esse sentimento de crise do es-
paço público e a convicção de que, para criá-lo de novo, não
havia outra maneira senão ocupá-lo “fisicamente”.
A ausência de um espaço público estabelecido para ex-
pressar demandas públicas se tornou visível desde o início
da crise econômica global. Da mesma forma que os indigna-
dos espanhóis, a principal razão para o surpreendente nível
de apoio obtido pelo Occupy Wall Street foram as terríveis
condições econômicas nos Estados Unidos, em sua pior cri-
se desde 1929. Como os ativistas do Occupy viriam a dizer
e popularizar, em trinta anos de neoliberalismo, os ricos fi-
caram mais ricos e os pobres, mais pobres. De acordo com a
Secretaria de Orçamento do Congresso, entre 1979 e 2007,
o 1% mais rico dos americanos viu seus ganhos aumentarem
em 275%, enquanto o restante viu apenas um aumento de
60%, junto com a elevação do custo de vida (Pear, 2011).
Com a eclosão da crise econômica de 2008, a situação da
desigualdade econômica ficou mais amarga para a maioria
dos americanos, afetada pelo desemprego, pela perda de suas
casas e pela queda nos ganhos. O desemprego atingiu uma
taxa recorde de 10% em 2009 (Norris, 2009), a mais alta
desde a Grande Depressão, caindo para 8,6% em dezembro
de 2011, mas ainda bem acima dos níveis pré-crise (Ram-
pell, 2011). As esperanças levantadas por Barack Obama
durante sua campanha presidencial de 2008 logo azedaram.
Obama demonstrou que não era um novo Roosevelt, deter-
minado a domar um capitalismo fora de controle, mas um
político centrista cauteloso, pronto para se comprometer na
economia com os republicanos e com a preocupação de não
antagonizar com as corporações estadunidenses, de onde o 197
primeiro presidente afro-americano atraiu muito financia-
mento de campanha.
Confrontadas com essa terrível situação econômica, as
organizações da sociedade civil americana, incluindo sindi-
catos e grupos ativistas estabelecidos, têm sido incapazes de
oferecer uma resposta convincente e abrangente. Nos trinta
anos desde que Reagan assumiu o poder e o neoliberalis-
mo se tornou a filosofia política dominante em Washing-
ton, os sindicatos americanos foram derrotados batalha após
batalha, de modo semelhante ao que aconteceu no Reino
Unido desde a época de Margaret Thatcher. Eles agora re-
presentam apenas 11% da força de trabalho no setor priva-
do e 25% da força de trabalho do governo. É verdade que
eventos como os protestos de Wisconsin de 2011 podem
ser lidos como um sinal de renovação dentro do movimento
trabalhista dos Estados Unidos. No entanto, os sindicatos
em geral permaneceram muito frágeis e corporativistas para
conseguir liderar uma poderosa campanha nacional contra
a política de austeridade. Além dos sindicatos, outros mo-
vimentos sociais que poderiam constituir um ponto focal de
aglutinação não estavam à altura do desafio. O movimento
antiguerra desmoronou após as lutas internas, e a “guerra ao
terror” desapareceu progressivamente da agenda de notícias.
O conjunto de grupos de ação direta como DAN e Ya Bas-
ta, descritos por David Graeber em seu livro Direct Action
(2009), era muito pequeno e subcultural para constituir uma
plataforma para a convergência de dissidentes populares.
Paradoxalmente, nos anos recentes, é a direita estadu-
nidense, e não a esquerda, que tem liderado a reinvenção de
uma política das ruas, como mostra o movimento Tea Party.
Desde janeiro de 2009, centenas de protestos ocorreram em
diferentes partes do país posicionando-se contra os efeitos
198 da crise econômica e o que os participantes consideraram
um nível excessivo de intervenção do governo na economia.
O movimento chegou ao auge na marcha dos contribuintes
no dia 12 de setembro de 2009 em Washington, na qual
a equação entre “Obama” e “socialismo” atraía toda bron-
ca. Alguns invejosos ativistas de esquerda definiram o fe-
nômeno do Tea Party como um movimento elitista, isto é,
orquestrado e financiado por organizações poderosas. Mas
é inegável que o Tea Party conseguiu explorar uma veia de
descontentamento causado pela crise econômica, o que, em
grande parte, o Occupy Wall Street também faria.
Como na Espanha e no Egito, alguns vislumbres de es-
perança para os progressistas nos Estados Unidos, nos últi-
mos anos, também vieram do ativismo online. Desde o fim
dos anos 1990, a “cultura livre” (Kelty, 2008), desenvolvida
por hackers, defensores de software de código aberto e ati-
vistas de direitos da internet, passou a ser uma grande inspi-
ração para o desenvolvimento de novas formas de ativismo.
O principal representante dessa cultura política tecnoutó-
pica emergente é o grupo de hackers Anonymous. “Anony-
mous”, um “substantivo em massa” usado por vários hackers
ao redor do mundo para assinar suas ações, se originou em
2003 de um encontro online entre hackers compartilhan-
do fotos engraçadas no imageboard do site 4chan. O grupo
iniciou sua atividade participando de brincadeiras online,
como desfigurar a página inicial da Associação Americana
de Epilepsia com um vídeo chamativo. Só mais tarde o gru-
po chegou a adquirir um perfil político por meio de ataques
aos sites de agências e corporações governamentais – quase
invariavelmente acompanhados por seu logotipo de “terno
sem cabeça” e pela assinatura “Somos Anônimos. Somos
legião. Não perdoamos. Não esquecemos. Aguarde-nos” –,
bem como por seu apoio ao Wikileaks e a Julian Assange.
Usando máscaras de Guy Fawkes, inspiradas no filme V 199
de Vingança, pessoas que se identificam com o Anonymous
também deram um salto para as ruas nos últimos anos, numa
demonstração de que mesmo os hackers não se contentam
em apenas “habitar” o ciberespaço. Desde os protestos do
Projeto Chanology, de 2009, contra a Igreja de Cientologia,
e sua censura a um vídeo do YouTube com um Tom Crui-
se abobalhado, o Anonymous convidou repetidamente seus
apoiadores a sair às ruas para protestar contra corporações e
organizações as quais consideram que batem de frente com
seus ideais de transparência e liberdade de informação. O
Occupy Wall Street foi, até hoje, a campanha pública mais
importante que o Anonymous pôs nas costas. Em anteci-
pação aos protestos, o grupo hacker postou um vídeo no
YouTube convidando seus apoiadores a inundar as ruas do
centro de Manhattan no dia 17 de setembro. De manei-
ra semelhante ao que aconteceu no Egito e na Espanha, as
práticas ativistas digitais desenvolvidas por grupos como o
Anonymous, com ideais de anonimato e organização sem lí-
deres, tiveram profunda influência no surgimento de Occu-
py Wall Street, que reconstruo na seção a seguir, analisando
a interação entre os organizadores online e nas ruas.

Adbusters e as pessoas nas ruas

No dia 17 de setembro, queremos ver 20 mil pessoas inunda-


rem o sul da ilha de Manhattan, armarem barracas, cozinhas,
barricadas pacíficas e ocuparem Wall Street por alguns me-
ses. Uma vez lá, precisamos repetir uma simples reivindica-
ção com uma pluralidade de vozes. (Adbusters, 2011)

Tudo começou como um tiro no escuro. Dessa vez, a


200
trombeta da guerra não foi soada por um grupo recém-for-
mado de graduados desempregados que se conheciam por
redes sociais, como foi o caso do Democracia Real Ya, nem
por um administrador anônimo do Facebook, como na re-
volução egípcia. Em vez disso, a iniciativa foi tomada por
um conhecido meio alternativo, a revista canadense anticon-
sumista Adbusters. Em 13 de julho, o site da revista abordou
sua rede de apoiadores – 90 mil redentores, rebeldes e radicais
– pedindo que 20 mil se transformassem num exército revo-
lucionário, reunindo-se em Wall Street, o centro financeiro
do mundo. A convocatória sugeriu que, “se ficarmos lá, 20
mil pessoas, semana após semana, contra todos os esforços
da polícia e da Guarda Nacional para nos expulsar de Wall
Street, seria impossível para Obama nos ignorar. Nosso go-
verno seria forçado a escolher publicamente entre a vontade
do povo e o lucro das empresas”.
Contra as alegações de espontaneidade e falta de lide-
rança que desde então foram associadas ao movimento, o
Occupy, no início, era uma campanha cuidadosamente or-
questrada, cujos logotipo, cópia e imagem haviam sido pro-
fissionalmente embalados pela criativa equipe de arte da
Adbusters. A ideia por trás dessa convocatória era explorar
o que eles viam como “uma mudança nas táticas revolucio-
nárias” introduzidas pelo levante egípcio e pelos indignados
espanhóis, “uma mistura de Tahrir com as acampadas da Es-
panha”. Como vimos nos dois capítulos anteriores, os movi-
mentos egípcio e espanhol foram “revoluções” com uma data
definida, pré-anunciada no Facebook com bastante antece-
dência. A convocatória da Adbusters era ambiciosa ao “dese-
nhar” uma revolução, com quase nenhuma consulta prévia
com os grupos políticos já estabelecidos nas ruas.
Por trás do lançamento da campanha, havia o trabalho
de duas pessoas importantes dentro da Adbusters. A primeira 201
era Kalle Lasn, fundador e principal editor da revista, um
histriônico cineasta e roteirista de 69 anos. A segunda, Mi-
cah White, ativista de 29 anos de Berkeley e editor sênior
da revista. Curiosamente, Micah devia muito de sua fama
como escritor à sua dura crítica ao “cliqueativismo”, uma
forma de ativismo limitada à internet praticada por organi-
zações como MoveOn e Avaaz (White, 2010). Ele também
criticou o Facebook, ao qual culpa pela “comercialização da
amizade”. No entanto, após as revoluções na Tunísia e no
Egito, viu motivos de esperança nas possibilidades abertas
pelo uso das mídias sociais e sugeriu que “a tecnologia pode
gerar as barricadas do século XXI” (White, 2011).
O chamado para ocupar Wall Street não foi a primeira
tentativa da Adbusters de assumir o poder das corporações.
Desde sua fundação, em 1989, a revista era um canal de de-
bate e experimentação visual para uma equipe de culture jam-
mers, ativistas da mídia dedicados a zombar da cultura mains-
tream por meio de paródias publicitárias, também conhecidas
como subvertising, celebradas nas páginas do livro No logo, de
Naomi Klein (2000). Por volta da virada do milênio, tornou-
-se uma das potências intelectuais e criativas do movimento
antiglobalização. No entanto, a ideia de “dar o pontapé ini-
cial” num movimento popular, seguindo o exemplo dos le-
vantes árabes e dos indignados espanhóis, estava muito além
de tudo o que havia tentado antes. “Há vinte anos estamos
pedindo uma revolta global”, explica Kalle Lasn, “e quando
aconteceu a turbulência na Grécia e em outras partes da Eu-
ropa e depois no Egito e na Tunísia, vimos uma oportunida-
de.” Diferentemente do que havia acontecido na Espanha e
no Egito, a data de 17 de setembro foi escolhida por motivos
puramente práticos: “Era tempo suficiente para deixar o feed
do Twitter louco e para que a página do Facebook se ergues-
202 se, e tentamos fazer isso o mais rápido possível”, explica Lasn.
No lançamento do Occupy Wall Street, os esforços da
Adbusters estavam todos centrados na comunicação, e não
efetivamente na organização do evento, como se esperasse
que a publicidade por si só fosse suficiente para criar a oca-
sião necessária para um movimento popular se materializar.
O próprio nome da campanha foi transformado em hashtag
– #OccupyWallStreet – para facilitar sua viralização. A
Adbusters trabalhou com cuidado a iconografia da campa-
nha, incluindo a imagem de uma bailarina dançando sobre a
famosa escultura de touros de Wall Street. Além disso, Lasn
e White decidiram que o movimento deveria ter apenas
“uma reivindicação”, de modo a imitar o que viam como
a razão do sucesso da revolução egípcia. Se lá a demanda
tenaz era a renúncia de Hosni Mubarak, os revolucionários
estadunidenses contentar-se-iam em exigir uma comis-
são presidencial sobre os crimes do sistema financeiro. Em
resposta às críticas levantadas pelos leitores em seu fórum
online, no entanto, a Adbusters decidiu que as pessoas que
fossem às ruas de Nova York é que deveriam escolher sua
única reivindicação. Os que se reuniram no Zuccotti Park
acabaram decidindo que não queriam exigir nada, temen-
do que isso pudesse legitimar os que estavam no poder, que
nada tinham para lhes oferecer, pensaram.
O lançamento improvisado da campanha da Adbusters
não foi bem-sucedido com a comunidade ativista local em
Nova York. Foi visto por muitos como uma operação ingê-
nua, uma vez que não levava em conta os recursos materiais
necessários para pôr a campanha em funcionamento. No
entanto, os ativistas locais também reconheceram a “oportu-
nidade política” (Tarrow, 1994) que o chamado abriu e sen-
tiram uma espécie de dever de organizar os protestos para
aqueles que provavelmente chegariam a Lower Manhattan 203
no dia definido pela Adbusters. O sentimento então predo-
minante entre os organizadores nas ruas é bem representado
por David Graeber, ativista anarquista e antropólogo que
teve muita influência na fase de alimentação do movimen-
to entre agosto e início de setembro, e que se declarou o
“criador” do slogan “Somos os 99%”: “O pessoal da Adbusters
disse que tinha 90 mil assinantes e esperava receber 20 mil”,
contou numa entrevista para a Vanity Fair. “A gente pensou:
ok, certo. Esses caras não entendem que essas coisas não
acontecem na internet. Para torná-la real, é preciso ter uma
organização real nas ruas” (Lalinde et al., 2012).
Não demorou muito tempo, depois que a convocatória
inicial foi lançada, para que a “organização real nas ruas”
começasse a se materializar. Assim, David Kroll, ativista e
editor associado do site de contrainformação TomDispatch,
relata as primeiras tentativas de organização em Nova York:
Meses antes de os primeiros ocupantes aparecerem no Zuc-
cotti Park, no sul de Manhattan, antes da chegada dos fur-
gões de notícias e dos sindicatos, antes de Michael Bloom-
berg, Michael Moore e Kanye West aparecerem, um grupo
de artistas, ativistas, escritores, estudantes e organizadores se
reuniram no quarto andar da 16 Beaver Street, um espaço
para artistas perto de Wall Street, para falar sobre mudar o
mundo. Havia nova-iorquinos na sala, mas também egípcios,
espanhóis, japoneses e gregos. Alguns tinham participado do
levante da Primavera Árabe; outros se envolveram nos pro-
testos que estavam pegando fogo em toda a Europa. Mas
ninguém na 16 Beaver sabia que estava prestes a acender
uma faísca de um movimento de protesto que varreria os
Estados Unidos e alimentaria revoltas semelhantes em todo
o mundo. (Kroll apud Van Gelder e staff de YES! Magazine,
2011, p. 16)
204

Para Kroll, “sem o grupo com pessoas de diversas partes


do mundo que se reuniu na 16 Beaver e mais tarde criou a
Assembleia Geral da Cidade de Nova York, talvez não hou-
vesse um Occupy Wall Street como o conhecemos hoje”. Por
sua vez, é justo dizer que, sem o chamado da Adbusters, a
pequena e altamente subcultural cena ativista em Nova York
dificilmente teria encontrado uma forma de superar suas di-
visões sectárias e lançar uma campanha ambiciosa e inclusiva
como “Occupy”. É inegável que o chamado da revista agiu
pelo menos como uma provocação que agitou a passividade
e as divisões dentro da comunidade ativista estadunidense.
Além da cena anarquista reunida em torno de espaços
contraculturais como 16 Beaver, ABC No Rio e C-Squat – os
dois últimos foram fechados para reforma na época –, outros
grupos com orientação de esquerda formaram o desenvolvi-
mento do movimento nascente. A ideia de um acampamento
de protestos já havia sido testada por um pequeno grupo de
ativistas socialistas chamado New Yorkers against Budget
Cuts.24 De 14 de junho a 5 de julho de 2011, eles monta-
ram um acampamento em frente à prefeitura para protes-
tar contra um programa de cortes no orçamento planejado
pelo prefeito Bloomberg e chamaram a manifestação, onde
a polícia não permitia armar barracas, de “Bloombergville”
(Chen, 2011), inspirando-se nos Hoovervilles, as favelas que
se multiplicaram rapidamente durante a Grande Depressão,
da década de 1930, batizadas com o nome do presidente
Herbert Hoover, responsável pela desgraça econômica. Além
desse grupo, vários outros contribuíram para a preparação do
terreno para o movimento que surgia, incluindo o recém-for-
mado grupo ativista US Day of Rage,25 que recebeu o nome
como referência aos dias de fúria da Primavera Árabe e pedia 205
a derrubada do sistema de financiamento partidário.
Quando, em 2 de agosto, esses diferentes grupos se re-
uniram na primeira assembleia geral convocada na Bowling
Green, perto da estátua dos touros, houve algumas faíscas.
Os socialistas organizaram a assembleia como uma reunião
com oradores. David Graeber e outros anarquistas, vendo o
rumo que as coisas estavam tomando, convidaram as pessoas
a abandonar a reunião. “Comecei a dar tapinhas no ombro
de pessoas que pareciam tão irritadas quanto eu e disse: se fi-
zéssemos uma assembleia geral de verdade, você viria?”, con-
tou Graeber à Vanity Fair. “Acabamos formando um círculo,
e nesse ponto todos desertaram. Havia talvez sessenta ou
setenta pessoas.” (Lalinde et al., 2012). O grupo que se uniu

24. Nova-iorquinos contra cortes no orçamento. [N.T.]


25. Dia da raiva estadunidense. [N.T.]
naquele dia começou a se encontrar regularmente no Bat-
tery Park e depois na Tompkins Square. Assim, o primeiro
núcleo da assembleia geral de Nova York, que atuaria como
o principal órgão de decisão do movimento, foi formado e
começou a trabalhar na organização dos protestos.

Como não fazer uma campanha de


lançamento nas mídias sociais

“Pusemos a hashtag […] e foi uma explosão”, afirma Kalle


Lasn, o “cérebro-pai” do Occupy Wall Street, descrevendo o
lançamento do movimento no verão de 2011. Na verdade,
porém, não houve de fato uma grande explosão nas redes
sociais no período de dois meses e meio entre a primeira
convocatória da Adbusters e a ocupação do Zuccotti Park.
206
Comparado aos ativistas no Egito e na Espanha, o núcleo
original dos organizadores do Occupy, em geral, falhou em
construir um sentido de antecipação em torno do “desem-
barque” do movimento no espaço público. O nível de aten-
ção no Facebook e no Twitter ficou quase estável até que o
movimento apareceu. Como a empresa de mídia social So-
cial Flow observou num relatório sobre a comunicação ter
se dado por meio da hashtag #OccupyWallStreet: “Estamos
acostumados a ver uma rápida disseminação de informações
no Twitter, mas o que vemos neste caso é uma construção
muito lenta” (Lotan, 2011b). Além disso, de acordo com o
mesmo relatório, muitos dos usuários que usavam inicial-
mente a hashtag eram tuiteiros espanhóis vinculados ao mo-
vimento dos indignados, ansiosos para ver que suas ondas
haviam atravessado o Atlântico, e não pessoas nos Estados
Unidos. Somente entre fins de setembro e início de outubro,
depois de dois episódios de repressão policial e uma ameaça
de despejo, o Occupy começou a atrair atenção nas mídias
sociais e, eventualmente, na mídia convencional.
Existem várias razões para o relativo fracasso da cam-
panha de lançamento do Occupy. A cobertura quase ine-
xistente dos meios de comunicação de massa antes dos pro-
testos constituiu um grande obstáculo à conscientização da
maioria da população. Indiscutivelmente, no entanto, a falta
de apoio popular foi consequência de uma atitude elitista
nas comunicações do movimento, refletida em sua depen-
dência excessiva no Twitter e em seu esnobismo em rela-
ção ao Facebook, um site com um número muito maior de
usuários. Começando pela Adbusters, os organizadores do
Occupy pareciam entender mal a lição do uso das mídias
sociais no Egito e na Espanha, onde o Facebook, em vez do
Twitter, tinha sido a principal plataforma para o lançamento 207
do movimento antes de seu surgimento no espaço público.
Desde o início, o Occupy foi concebido como um “movi-
mento do Twitter”, como evidencia o próprio nome pensa-
do como uma hashtag: #OccupyWallStreet. Como destacou
um relatório publicado em outubro de 2011 pela empresa de
mídia social Attention, “os dados mostram claramente que o
Twitter é a rede social em que todas as conversas do Occu-
py estão acontecendo”. O Twitter tinha 82,5% das menções
relacionadas ao Occupy Wall Street, enquanto o Facebook
tinha escassos 2,8%, segundo o relatório (Chambliss, 2011).
Muitas das principais páginas do Facebook só foram esta-
belecidas quando o movimento já havia ocupado o Zuccotti
Park. Entre eles, a página Occupy Together, que serviu de pla-
taforma para conectar todas as ocupações que cresciam nos
Estados Unidos, aberta apenas no dia 24 de setembro.
A presença do movimento no Facebook antes dos
protestos do dia 17 foi limitada à página do Occupy Wall
Street, operada pelos organizadores em Nova York, e a um
evento para o dia 17, criado pela Adbusters. O desempenho
de ambas as páginas na fase de preparação do protesto foi
muito decepcionante.26 A página do OWS em Nova York27
havia sido criada em 9 de agosto, na época das primeiras as-
sembleias gerais. No entanto, no dia 17 de setembro, conse-
guiu atrair apenas 891 curtidas. Compare isso com a página
Kullena Khaled Said, no Egito, que atraiu 36 mil usuários no
primeiro dia! A página do Facebook do OWS começou a
receber tráfego significativo somente depois que os ativistas
ocuparam o Zuccotti Park no dia 17, com uma progressão
rápida, embora não explosiva, nos dias seguintes.
Observando o tipo de mensagens postadas pelo admi-
208 nistrador durante a fase inicial, não é difícil entender por
que os usuários da internet não curtiram a página do Fa-
cebook do Occupy Wall Street. Suas mensagens de status
careciam daquele componente emocional que, como vimos,
era a marca registrada tanto da página de Kullena Khaled
Said, no Egito, quanto da página do Democracia Real Ya,
na Espanha.
O administrador da página do Occupy escrevia com pou-
ca frequência, e suas mensagens de status eram telegráficas e
sem apelo, geralmente acompanhadas por súplicas irritan-
tes do tipo “compartilhem, compartilhem, compartilhem”.

26. A análise das páginas de Facebook do Occupy foi conduzida por meio
do arquivo das páginas em formato PDF antes da condução da análi-
se qualitativa de textos e imagens postados.
27. Disponível em: [Link] Acesso
em: 14 out. 2020.
Número de curtidas na página no Facebook do Occupy Wall Street
Data Número de curtidas
12 de setembro 374
13 de setembro 382
14 de setembro 401
15 de setembro 449
16 de setembro 526
17 de setembro 891
18 de setembro 2.174
19 de setembro 3.391
24 de setembro 13.585
Os dados usados foram fornecidos por Michael Premo, que atualmente
é coadministrador da página, embora não tenha sido o responsável por
administrá-la no início.

Abaixo estão alguns exemplos das primeiras postagens: 209

Faltam onze dias para visitarmos Wall Street no dia 17 de


setembro. Curtam este vídeo e compartilhem – 6 de setembro
[apenas uma pessoa curtiu o vídeo e ninguém compartilhou].

Compartilhem, compartilhem, compartilhem [com um link


para um artigo sobre os “super-ricos” nos Estados Unidos] –
7 de setembro [apenas cinco pessoas curtiram e ninguém
compartilhou ou respondeu].

Compartilhem, compartilhem, compartilhem. 17 de setem-


bro é real. – 8 de setembro [apenas quatro pessoas curtiram
e ninguém compartilhou ou respondeu].28

28. As mensagens citadas foram todas selecionadas da principal página


no Facebook do Occupy Wall Street: [Link]
cupyWallSt.
Como a leitora e o leitor poderão perceber, as mensagens
não foram exatamente pensadas para criar uma conexão
emocional com as pessoas. Elas tinham um tom informativo
e frio que dificilmente provocaria entusiasmo dos usuários.
Muitas vezes, consistiam apenas em links para artigos ou
vídeos, sem nenhuma introdução contextualizando-os. No
geral, essas comunicações via Facebook terminavam sendo
um monólogo pouco inspirado e pouco inspirador, que não
se valia dos recursos interativos das redes sociais e, portanto,
não gerava essa conversa coletiva e um sentimento conta-
giante de entusiasmo que havia desempenhado um papel
crucial no Egito e na Espanha.
Essa insipidez também caracterizou a página de eventos
no Facebook aberta pela Adbusters, que conseguiu garantir
cerca de 20 mil confirmações e 150 mil convites antes do
210 primeiro dia de protesto, mas apenas uma pequena fração
desses participantes realmente compareceu.29 Também nesse
caso, as mensagens de status do administrador eram mar-
cadamente sem vida, e havia pouca conversa entre usuários
antes do dia 17. O desempenho decepcionante em relação
ao uso do Facebook como ferramenta de campanha pode
ter sido reflexo da falta de habilidades organizacionais e de
carisma por parte de alguns ativistas. Mas, em geral, desabo-
nou o fato de que os organizadores do Occupy inicialmente
não consideravam o Facebook um canal importante em suas
comunicações. Como consequência, não interagiram com

29. O número de confirmações mencionadas aqui constava na página do


Facebook no dia 12 de janeiro de 2012, quando a análise foi conduzi-
da. É provável que o número de confirmações antes de 17 de setem-
bro de 2011, primeiro dia de ação contra Wall Street, fosse menor que
esse, dado que o evento permaneceu aberto para mais confirmações
até 31 de dezembro de 2011.
uma base de audiência muito grande, na qual poderiam ser
encontrados muitos “recrutas” possíveis e que, em compara-
ção com o Twitter, se aproximavam mais demograficamente
aos 99% por quem o movimento pretendia lutar.
Mesmo no próprio Twitter, todavia, no qual os ativis-
tas investiram muito mais energia, os resultados também
foram inicialmente decepcionantes. Eles não conseguiram
criar um sentimento de entusiasmo antes dos protestos que
pudesse garantir uma participação expressiva no primeiro
dia de ação. De fato, a hashtag #OccupyWallStreet nunca
chegou perto de se tornar um trending topic, como ocorreu
com a hashtag #15M na Espanha. Alguns tuiteiros levanta-
ram a suspeita de que a hashtag não era tendência por causa
da censura do Twitter, que naquela época estava recebendo
investimentos da poderosa empresa bancária JPMorgan. O
Twitter, junto com vários analistas independentes, rebateu 211
a acusação, apontando a complexidade do algoritmo que
define quais tópicos se tornam tendências (Lotan, 2011a).
Independentemente se o Twitter censurou ou não a hashtag
do Occupy, será que isso era tão importante para chamar a
atenção das pessoas para o movimento?
É evidente que o movimento começou a ganhar con-
siderável atenção no Twitter apenas quando os ocupantes
armaram suas barracas no Zuccotti Park e a polícia iniciou
as repressões, conforme sugerido em outra passagem do já
citado relatório da empresa de mídia social Attention:

Na primeira semana, a média de menções diárias foi de mo-


destas 18,8. Poucas pessoas estavam falando sobre o Occupy
Wall Street. Após o início da ocupação, em 17/9, e até 23/9,
a média de menções diárias aumentou em 2004%. Na se-
mana seguinte, o aumento foi de 97% em relação à semana
anterior, e, na semana seguinte à prisão do Brooklyn Bridge,
houve um aumento de 216% na média de menções diárias.
(Chambliss, 2011)

Assim, o que fez o movimento “viralizar” nas mídias


sociais não era o que estava acontecendo “independente-
mente” na chamada “esfera do Twitter”. Eventos nas ruas é
que reverberaram na rede social. Como já vimos no caso dos
indignados e da revolução egípcia, a violência policial contra
manifestantes foi decisiva para atrair a atenção da internet,
ganhando novos adeptos e simpatizantes.
Dois eventos vieram a constituir o ponto de inflexão
para a crescente visibilidade do Occupy nas redes sociais e
na grande mídia: o ataque de spray de pimenta pelo oficial
da NYPD Anthony Bologna e a prisão em massa na pon-
212 te do Brooklyn em 1º de outubro. No dia 26 de setembro,
Bologna foi pego por uma câmera jogando spray de pimen-
ta em três mulheres ativistas sem motivo aparente durante
uma pequena manifestação perto de Wall Street. O vídeo
logo recebeu milhares de acessos no YouTube30 e gerou mui-
tos comentários em programas de TV como o Daily Show,
de Jon Stewart, e emissoras liberais como MSNBC e CNN.
O segundo episódio foi a prisão de mais de setecentos mani-
festantes durante uma marcha na ponte do Brooklyn, em 1º
de outubro. Ironicamente, a própria marcha foi organizada
pelo Occupy em protesto pelas ações de Anthony Bologna
na semana anterior. Numa demonstração de más habilida-

30. The Other 99 Percent, Peaceful Female Protestors Penned in the


Street and Maced! (#OccupyWallStreet video), 24 set. 2011. Dispo-
nível em: [Link]
ture=[Link]. Acesso em: 14 out. 2020.
des em termos de relações públicas, o Departamento de Po-
lícia de Nova York provocou uma nova onda de indignação
ao optar por uma prisão em massa do tipo que a cidade não
testemunhava havia muitos anos. Esses episódios ressaltam
como o papel das mídias sociais no caso do Occupy era mais
um meio de facilitar a repercussão de episódios que aconte-
ciam nas ruas, e não de preparar o terreno simbolicamente
para os protestos. Paradoxalmente, no país de origem do
Twitter, do Facebook e de várias outras empresas de mídia
social, os ativistas mostraram pouca capacidade de explorar
o poder emocional das redes sociais.
Para entender a debilidade da campanha inicial nas
mídias sociais, no entanto, também precisamos levar em
conta a confusão que, desde o princípio, estava no centro 213

da identidade do Occupy Wall Street. Essa identidade foi


dividida entre o imaginário contracultural radical propos-
to pela publicidade da Adbusters e a identidade populista
subjacente ao slogan “Somos os 99%”, cunhado por David
Graeber durante a reunião inicial de organização em agos-
to. Somente depois que a ocupação física começou, a iden-
tidade do movimento acabou se cristalizando em torno de
uma orientação majoritária, com o objetivo de representar
o povo como um todo, em vez de um grupo de “redento-
res, rebeldes e radicais”. Um papel-chave nesse processo foi
desempenhado pelo blog We Are the 99 Percent do Tumblr,
cuja contribuição para o processo de mobilização está do-
cumentada na seção a seguir.
Um Tumblr para os 99%

Fui condenado por crimes duas vezes, não tenho emprego e


devo mais de US$ 10 mil de despesas médicas. Sou os 99%
– 15 de setembro.

Meus pais se endividaram para que eu pudesse me formar. A


dívida é de mais de US$ 100 mil e não tenho perspectivas de
emprego. Sou os 99% – 25 de setembro.

Tenho 20 anos e não encontro emprego porque não tenho


experiência. Não tenho experiência porque não consigo en-
contrar um emprego. Sou os 99% – 27 de setembro.

Sou mãe solteira de quatro filhos, estudante universitária,


214 estoquista, sinto fome todos os dias. Sou os 99% – 28 de
setembro.31

Essas frases são uma seleção de centenas de “mensagens


fotográficas” postadas no Tumblr We Are the 99 Percent. A
ideia por trás do projeto era simples: coletar histórias de to-
dos aqueles que se sentiam parte dos 99%, todos aqueles que
se consideravam vítimas da crise econômica, independente-
mente de suas afiliações políticas ou culturais.
A maioria dos posts era feita pelos “graduados sem fu-
turo” que Paul Mason retrata como uma espécie de sujeito
revolucionário dos movimentos populares contemporâneos
(2012). Mas, entre as centenas de postagens, havia também

31. Todas as mensagens aqui listadas foram selecionadas da coleção dis-


ponível no Tumblr. Disponível em: [Link]
com. Acesso em: 14 out. 2020.
histórias de pessoas com diferentes estilos de vida: mães tra-
balhadoras incapazes de sustentar os filhos, trabalhadores
mais velhos chegando ao fim da carreira sem a perspectiva
de uma aposentadoria, pessoas que precisavam de cirurgia e
não podiam pagar por isso, estadunidenses de diferentes ori-
gens étnicas, classes e idades confessando que estavam pas-
sando fome regularmente ou que estavam “a um salário de
virar sem-teto”, como numa das mensagens. Para esse grupo
diversificado de pessoas – que compartilhavam em comum a
situação econômica e uma raiva contra o 1% de super-ricos
responsáveis ​​pela crise econômica –, o site passou a ser um
ponto de condensação emocional, um muro de lamentações no
qual a identidade de um movimento recém-nascido poderia
ser aglutinada.
O blog no Tumblr foi criado por um ativista de 28 anos
de Nova York, que se tornou conhecido apenas como Chris, 215
e sua amiga Priscilla Grim, uma ativista de 36 anos espe-
cialista em mídias sociais. Eles abriram o Tumblr no início
de agosto, mas começaram a publicar posts somente em 15
de setembro, dois dias antes da ocupação do Zuccotti Park.
A página, portanto, teve pouca influência durante a fase de
iniciação da campanha e só começou a ganhar impulso efe-
tivamente no fim de setembro, na mesma época em que o
movimento começou a ser manchete na grande mídia. No
texto publicado na página inicial do blog, eles propuseram
uma descrição simples, mas convincente, dos 99%:

Somos os 99%. Estamos sendo expulsos de nossas casas. So-


mos forçados a escolher entre as compras e o aluguel. Nos é
negado atendimento médico de qualidade. Estamos sofren-
do com a poluição ambiental. Estamos trabalhando longas
horas por salários baixos e sem direitos, isso quando temos
trabalho. Não estamos recebendo nada, enquanto os outros
1% estão recebendo tudo. Somos os 99%.32

Os usuários da internet que se identificaram com essa


descrição foram solicitados a se fotografar segurando uma
pequena placa com uma mensagem de no máximo uma fra-
se. Porém, quase todas as mensagens acabaram tendo várias
linhas, como se refletissem um excesso de sensações e senti-
mentos incapazes de ser contidos numa declaração concisa.

Faça um cartaz. Escreva sua situação, não mais que uma fra-
se […]. Então, tire uma foto sua segurando o cartaz e envie
para nós. Os 99% foram postos um contra o outro, lutando
pelas migalhas que o 1% deixa para trás. Mas estamos todos
lutando. Estamos todos batalhando. É hora de reconhecer-
216 mos nossas lutas comuns, nossas causas comuns. Faça parte
dos 99% e diga ao 1% que você existe.

Ao tirarem uma foto de si mesmos com um cartaz e


enviá-la à página, os usuários podiam aderir simbolicamente
à identidade dos 99%, adicionando a própria história indivi-
dual a uma reunião coletiva de raiva e indignação. Ao mes-
mo tempo, foram convidados a deixar de lado as divisões em
termos de orientações políticas ou culturais, o que encontra
eco com a discussão de Laclau sobre a capacidade de “sig-
nificantes vazios” (como o slogan “Somos os 99%”) de criar
uma “cadeia de equivalência” conectando múltiplas questões
ao longo do círculo de ativistas de um movimento.

32. Descrição do website disponível na homepage do Tumblr. Disponível


em: [Link] Acesso em: 14 out. 2020.
A identidade construída na página do Tumblr era mui-
to diferente daquela que se refletia no vínculo inicial com
a Adbusters e na publicidade que ela produziu. A imagem
da bailarina dançando sobre o touro evocou o formato dos
enérgicos “partidos de protesto” do movimento antiglobali-
zação e sua cultura do “faça você mesmo” (ver, por exemplo,
McKay, 1998). Outra imagem usada para acompanhar os
briefings táticos da Adbusters retratava um ativista hipster
com um lenço e uma máscara de esqui, correndo em direção
a um alvo – implicitamente, Wall Street. Essa iconografia
era visualmente deslumbrante, e o idioma usado nas convo-
catórias e nos briefings táticos estava repleto da estética pro-
vocativa e autoirônica que caracterizaram a saída da Adbus-
ters da cultura enferrujada da velha esquerda. Mas, apesar de
toda a sua beleza e criatividade, essa publicidade não captu-
rou a dor sentida de muitas pessoas nos Estados Unidos. A 217
Adbusters estava, em suma, reeditando o imaginário de uma
“política do prazer” (McKay, 1998), que agora estava vencida
e fora de sintonia com a experiência cotidiana dos estaduni-
denses na época da pior crise econômica desde 1929.
O conteúdo do Tumblr 99 Percent rompeu esse ima-
ginário declaradamente minoritário e voluntarista. O site
contribuiu para espalhar o meme dos 99% e dar a essa iden-
tificação ilusória e abrangente uma imagem concreta: uma
série de rostos e histórias com os quais as pessoas podiam
se relacionar, sentir compaixão e se identificar. O slogan dos
99% gira fundamentalmente em torno da criação de uma
identidade popular, cuja coerência está na oposição entre os
excluídos e o 1% dos super-ricos. A operação cultural “po-
pulista” em jogo aqui é semelhante à alegação de se tratar
de “gente comum e normal” feita por ativistas espanhóis do
Democracia Real Ya, antes dos protestos de 15 de maio. Al-
gumas pessoas criticaram o fato de o slogan reduzir as iden-
tificações políticas a um fator numérico (Campagna, 2011).
Outras destacaram o risco de eliminar diferenças entre vá-
rias categorias de pessoas dentro do movimento, em parti-
cular minorias étnicas e sexuais (Tate, 2011). Além disso, é
claro que esse nome coletivo se relaciona a um sentido de
identidade nacional, uma vez que o número 99% se refere
à distribuição de renda na economia dos Estados Unidos, e
não à economia global. O que incomoda alguns é a inten-
ção de representar a maioria dos estadunidenses, e não uma
minoria oprimida ou idealista. Essa ambição majoritária, no
entanto, é a diferença entre o Occupy e o movimento anti-
globalização, o que sem dúvida permitiu ao primeiro mo-
bilizar um círculo ativista diverso, para além de jovens de
classe média.
218 Ao coletar num só lugar as histórias de americanos de
diferentes classes, o Tumblr 99 Percent se tornou um ponto
de encontro simbólico para uma comunidade dispersa de
usuários convocada a reconhecer que seus problemas não
eram apenas individuais, mas uma consequência da injus-
tiça estrutural do sistema econômico para o qual não havia
“solução biográfica” (Beck, 1992), só coletiva. Como Shawn
Carrie, ativista do Occupy, aponta:
Eles sempre dizem que, se não temos um emprego, é porque
não somos bons ou não temos experiência suficiente. Eles
ensinam que tudo é responsabilidade nossa, mas acho que o
que as pessoas percebem agora é que se trata de uma ques-
tão sistêmica. Uma coisa é uma pessoa não ter um emprego,
outra coisa é quando milhares e milhões não têm emprego.
Não é só porque as pessoas não estão trabalhando, é porque
o sistema está quebrado.
Esse processo de identificação popular se replicou em
muitas das discussões que ocorreram no acampamento de
protesto no Zuccotti Park, onde, no decorrer de pequenas e
grandes reuniões, assim como na vida cotidiana do acampa-
mento, as pessoas compartilhavam histórias e medos. Para
Bill Wasik, o editor-chefe da revista Wired:

Aquelas fotos de americanos em dificuldades virtualizaram


a ocupação; os manifestantes na rua eram apenas o símbolo
visível da gigantesca multidão subterrânea de estaduniden-
ses que lutavam para sobreviver. O que é revolucionário de
todas essas reuniões – o que permanece perigoso e magnífico
nelas – é a maneira como representam um grupo desconec-
tado se conectando, um megassubterrâneo que elimina sua
invisibilidade e se corporifica, espantosamente, no espaço
físico. (Wasik, 2011) 219

Nas manifestações físicas e na web, o movimento “do-


cumentou a desgraça” – nas palavras de Shane Gill, membro
da equipe de relações públicas do Occupy –, uma demons-
tração visível de como as coisas andavam mal no país.

O coração do Occupy

Um pequeno parque no centro de Manhattan de que poucas


pessoas tinham ouvido falar se tornaria o “coração pulsante”
do OWS, o ponto focal de um espaço difuso de participação.
Para o movimento, essa pequena praça com piso de grani-
to e árvores decorativas, desprovida de luz do sol por causa
da presença dos altos prédios ao redor, passou a represen-
tar várias coisas ao mesmo tempo. Por um lado, tornou-se
um espaço comunitário para os que estavam diretamente
engajados e um ponto físico de encontro para aqueles que
queriam se engajar ou estavam interessados em ver o mo-
vimento com os próprios olhos. Por outro, também era, de
forma significativa, um local mediado com o qual as pessoas
se envolviam a distância após a atividade pelo Twitter, pelo
Facebook e pelas transmissões ao vivo na web, além da co-
bertura oferecida pela grande mídia. Uma mensagem escrita
num pedaço de papelão preso a uma árvore no meio do par-
que expressava este segundo papel do lugar, com os dizeres:
“Este é o palco do povo”.
Ao entrar no Zuccotti Park pela primeira vez, no dia 5
de novembro, vindo da estação de metrô Fulton Street, fi-
quei inicialmente um pouco decepcionado. “É isso?”, pensei
comigo mesmo. Tendo ouvido e visto tanto sobre o parque
220
na TV e na internet antes de chegar lá, foi um choque cons-
tatar como o acampamento era pequeno em comparação
com os que eu vira na Espanha e no Egito. No entanto, o
próprio acampamento e a pequena comunidade de algumas
centenas de pessoas que o ocupavam ou passavam lá grande
parte do tempo eram apenas um setor em interação social
muito maior. O parque se tornou um local simbólico e uma
fonte de identificação para um público disperso de simpa-
tizantes após suas ações na mídia e na internet. Para David,
pesquisador italiano de tecnologia da informação que traba-
lha nos Estados Unidos:

Zuccotti era mais um símbolo de milhares de pessoas dis-


tribuídas pelo mundo, e a presença maciça da grande mídia
confirmava a impressão de que algo relevante globalmente
estava acontecendo. Percebi uma presença massiva de smart-
phones, câmeras digitais, além de operadores de transmissão
por toda parte. Quase se podia ouvir o fluxo dos tuítes e das
postagens do Facebook espalhando-se de lá.

O que possibilitou o Zuccotti Park se tornar uma es-


pécie de “espetáculo da mídia” (Kellner, 2012), mais preci-
samente um “espetáculo da mídia social”, foi a riqueza da
experiência face a face que as pessoas poderiam desfrutar
nele e sua excepcionalidade no contexto da sociedade es-
tadunidense. Para Stephanie, jovem cineasta que dedicou
meio período ao movimento, foi “uma coisa meio que linda
e emocionante, que não acontece no espaço público de Nova
York. O espaço público aqui não é utilizado como no resto
do mundo”. Ela conta uma das primeiras noites que passou
no Zuccotti Park:

Havia pessoas que talvez estivessem lá apoiando um sin- 221


dicato, ou que estavam lá com cartazes dizendo que eram
professores […]. Apenas ficamos lá e conversamos, foi uma
linda noite de outono […], ficamos lá, numa parte alta do
parque […] e ouvíamos as conversas de outras pessoas. Ha-
via muitos debates, e alguns diziam: “Isso é besteira, moro
neste bairro, saia daqui”. Ao que alguém se aproximava e
respondia: “Fala aí, vamos conversar, não queremos e não es-
tamos tentando incomodá-lo, estamos tentando ajudá-lo”.
Era como um espírito, algo com vida, realmente encorajador.

Muitos dos entrevistados com quem conversei em Nova


York após o despejo me disseram quanto sentiam saudade
das conversas cara a cara que tiveram no parque: interações
que não tinham substituto nas mídias sociais ou em fóruns
da web. Como Shawn Carrie descreve: “Podia-se conversar
com alguém com quem nunca se teria conversado na vida,
alguém com quem nunca se teria deparado e conversado.
Porque havia esse espaço, público, que foi ativado para dis-
cussões públicas”. O acampamento era para os participantes
aquilo que, segundo Richard Sennett, se espera que uma ci-
dade seja: “Um ambiente no qual os estrangeiros provavel-
mente se encontram” (1977, p. 48).
Em torno desse ambiente imersivo face a face experi-
mentado pelos ocupantes, havia um espaço emocional difuso,
atravessado por tuítes, mensagens no Facebook e transmissões
ao vivo. Depois que os ativistas estabeleceram o acampamen-
to no dia 17, as hashtags no Twitter como #OccupyWallS-
treet, #OccupyWallSt, #OWS e #OccupywallstreetNYC se
tornaram um canal para conectar pessoas de fora e de dentro
do acampamento. As atas das assembleias gerais eram tuita-
das ao vivo por tuiteiros de movimentos importantes como
222
@DiceyTroop, enquanto outros mantinham as pessoas in-
formadas sobre os diferentes eventos que aconteciam no par-
que. Esses feeds do Twitter de alguma forma são lidos como
o batimento cardíaco do movimento, subindo e descendo de
acordo com a evolução da situação. O conteúdo dos tuítes e
o clima geral que transmitiam podiam indicar euforia ou di-
ficuldade, dependendo dos eventos no local. Como Michael
Premo, ativista envolvido no Occupy em Nova York, relata:
“A única coisa sobre essas ferramentas é que elas forneciam
uma plataforma melhor para irradiar o amor e a emoção que
estavam acontecendo lá […]. Acho que mudou a textura dos
tuítes […]. Havia um tipo diferente de relevância em termos
de irradiação para muitas pessoas […] e também o grande
número de pessoas que estavam tuitando”.
Um exemplo do tipo de conversa emocional entre os que
estavam no acampamento e os que estavam fora era ofere-
cido por uma seleção de tuítes enviados no dia 24, um dos
dias mais difíceis das primeiras semanas. As fortes chuvas
tornavam a vida mais difícil para os que dormiam no parque:
“Precisamos de guarda-chuvas!
“#OccupyWallStreet Guarda-chuvas grandes! Pfv RT”,
implorou um ativista. “#OccupyWallStreet Quantas pessoas
estão lá hoje? Está crescendo? Na mesma?”, perguntou um
simpatizante preocupado. Garantias vieram prontamente.
“Nenhuma pessoa sobrou. Os 99% prevalecerão! #Occupy-
WallStreet #ourwallstreet #takewallstreet”, escreveu um dos
ocupantes. “Número de cabeças ainda acima de 200, apesar
do tempo. #OccupyWallStreet #ourwallstreet #takeback-
wallstreet #takewallstreet”, adicionou outro. No fim do dia,
quando parou de chover, alguém achou oportuno agrade-
cer ao grupo de hackers Anonymous pelo alívio: “A chuva
parou no #octoberWallStreet! Obrigado anon por hackear
o clima ;)”. Outro tuiteiro agradeceu à “magia hippie” em 223
vez dos conhecimentos de informática. Mais tarde, os ocu-
pantes usaram o Twitter para solicitar aos simpatizantes que
pedissem pizzas na Liberato Pizza’s, nas proximidades, cujo
nome ressoava positivamente com o do antigo (e adequado)
Zuccotti Park: Liberty Plaza.33 Depois de ser inundado com
pizzas naquela noite, alguém tuitou descaradamente “#oc-
cupywallstreet – comemos outras coisas além de pizza”.
Os fluxos do Twitter ajudaram a manter um sentido de
solidariedade entre “ocupantes físicos” e “ocupantes de inter-
net”, como Julian, ativista de 24 anos, chama os apoiadores
que não passaram muito tempo no Zuccotti Park ou nunca
estiveram lá. Os apoiadores costumavam enviar mensagens
de encorajamento como “Hoje é um bom dia para a revo-
lução! Para todos aqueles em #OccupyWallStreet! Fiquem

33. Praça da Liberdade. [N.T.]


firmes!”, ou “#OccupyWallStreet já era tempo… YES!”. Ou-
tros usuários incentivavam as pessoas a participar da ocupa-
ção ou de um dos muitos eventos e ações realizadas dentro
e ao redor do acampamento. “Ouvi dizer que #occupywalls-
treet tem #cookies, melhor se apressar e ir buscar alguns”,
lia-se numa mensagem enviada no dia 27. Por fim, outros
tuitaram para “cadastrar-se”, usando a metáfora utilizada
pela mídia social de localização FourSquare, como exem-
plificado por mensagens como “Acabei de chegar a #Occu-
pyWallStreet representando o Brooklyn!”. Ou: “Eu estava
indo para cá [link], mas vou acabar indo para #occupywalls-
treet”. No total, todas essas mensagens contribuíram para
criar uma atração emocional em torno da ocupação, facilitan-
do o fluxo contínuo de apoiadores, simpatizantes, turistas e
curiosos, numa espécie de peregrinação contínua que durou
224
até o acampamento ser despejado.
Além do simbolismo mediado, o parque também era
um ponto de acesso físico, uma espécie de cabine de recru-
tamento, para os interessados em ingressar no movimento.
Crucial nesse sentido foi a localização do parque no meio
da Lower Manhattan, um lugar atravessado não apenas por
banqueiros, mas também por trabalhadores da construção
civil, como os empregados do canteiro de obras da Freedom
Tower, zeladores, garçons e garçonetes que trabalhavam por
ali, além de turistas estadunidenses e estrangeiros em visita
à Big Apple. Para o ativista do OWS Shane Gill:

Inicialmente, as pessoas vinham ao parque por conta desse


primeiro dia de ação que havia sido convocado. Nos dias se-
guintes, houve um entusiasmo crescente que provavelmente
atraiu o círculo ativista mais típico, mas depois se consoli-
dou também entre aqueles que estavam fora dele e queriam
participar fisicamente das coisas. Então eles assim fizeram
nos primeiros dias e semanas […]. Em parte, a localização é
central na parte baixa de Manhattan […]. Há um tráfego in-
tenso, muitos pedestres, e acho que isso reuniu muita gente.

Assim também era a impressão de outro ativista do Oc-


cupy, Shawn Carrie: “Para pessoas de fora, que não estão
no movimento, se quiserem saber mais, sabem aonde ir. Se,
por exemplo, descobriram a respeito lendo um jornal, mas
ainda não estão envolvidas, sabem aonde ir para se infor-
mar melhor e se engajar”. Como os comentários sugerem,
a presença do Zuccotti Park e, em seguida, de centenas de
acampamentos, grandes e pequenos, em todo o país, foi de-
terminante para permitir que pessoas de fora vissem o mo-
vimento com os próprios olhos e para que os organizadores
tivessem um ponto de alcance à população em geral. 225
A interação face a face entre ocupantes e pessoas de fora
foi, no entanto, dificultada pelo policiamento rigoroso na
área. As barricadas erguidas pelo Departamento de Polícia
de Nova York e a torre de observação branca, apelidada de
“Torre da Guerra nas Estrelas” (Writers for the 99%, 2012),
demarcaram o local como uma espécie de área do crime a ser
frequentada por seu próprio risco. Durante minha visita ao
Zuccotti Park no início de novembro de 2011, notei como
os visitantes permaneciam, na maioria das vezes, fora do pe-
rímetro barricado do acampamento e se contentavam em ti-
rar fotos de pessoas segurando placas de papelão, geralmente
de caixas de pizza, ou da pitoresca quantidade de barracas,
como se estivessem visitando um estranho zoológico ativis-
ta. Poucos desses visitantes se engajaram no acampamento
para além dessa interação superficial. Por outro lado, muitos
ocupantes se esforçavam para envolver essas pessoas. Um
dia, notei um grupo de jovens ativistas do sexo masculino
gritando repetidamente para a multidão que passava: “Não
seja esse cara! Não seja esse cara!”. O sentido da mensagem
deles era aparente: não fique do lado de fora observando o
que fazemos: envolva-se, junte-se a nós. No entanto, o con-
vite pareceu não encontrar muitos ouvidos receptivos. Como
Caiti Lattimer, participante de 23 anos, comentou comigo:
“É preciso muita coragem para alguém que não está envol-
vido ir lá porque é intimidador. Tudo é intimidador quando
há um grande grupo de pessoas envolvidas”.
No caso do Occupy Wall Street, a ampla simpatia pelo
movimento, conquistada pelas redes sociais, entre outras
formas, falhou em grande parte em se traduzir em partici-
pação física massiva. Em comparação ao Egito e à Espanha,
a participação nos diferentes protestos dos Estados Unidos
226
e a participação diária no acampamento foram equivalentes
a cerca de um décimo ou menos. Enquanto os indignados
espanhóis e o movimento revolucionário egípcio protago-
nizaram protestos com mais de 1 milhão de participantes,
os do Occupy nunca foram acima das dezenas de milhares.
Muitos simpatizantes se contentaram com os eventos no
porto seguro de suas telas de computador. Julian, ativista de
25 anos e professor de uma escola primária de Nova York,
por exemplo, conta sobre uma colega que nunca havia ido
ao Zuccotti Park ou a qualquer uma das ocupações, mas se
tornou uma seguidora obsessiva do movimento online.

Ela lê o feed de notícias em tempo real por horas, horas e


horas, sabe tudo o que está acontecendo agora […]. É en-
graçado. Ela diz: “Meu Deus, você sabe o que aconteceu em
Oakland?”. “Não!” “Então, entro no meu e-mail e digo: mer-
da!”. Então ela me envia um e-mail dizendo que Zuccotti
pode ser despejado a qualquer momento […]. E me pergun-
to: “Como você sabe essa merda toda?”.

Como Caiti Lattimer observa: “A internet permitiu às


pessoas esse tipo de voyeurismo […], que as pessoas assistis-
sem ao movimento de longe e o acompanhassem diariamen-
te sem ter de estar lá […]. Portanto, presumo que haja muitos
apoiadores velados do Occupy Wall Street”. A dificuldade de
transformar simpatizantes em apoiadores reais, já observada
por Klandermans (1984), é um lembrete para o fato de que as
novas formas de conexão são facilitadas pelo uso das mídias
sociais, e a crescente disponibilidade de informações que elas
oferecem não se traduz automaticamente em participação,
a menos que os organizadores sejam capazes de criar uma
poderosa conexão emocional com esses constituintes.
227

Dentro do Twitter

Vimos como o Twitter e outras mídias sociais foram muito


importantes para sustentar um espaço emocional em torno
do movimento OWS, conectando ocupantes e simpatizan-
tes. No entanto, há outro aspecto do Twitter que precisa ser
discutido: seu papel tático como plataforma de coordenação
em tempo real durante a ação e em situações de emergência.
Embora no Egito essa rede tenha tido uma relevância me-
nor, dada sua penetração limitada entre os manifestantes, o
caso do Occupy foi diferente. Quase todas as pessoas que
entrevistei em Nova York tinham um smartphone e eram
usuárias do Twitter.
Os organizadores do Occupy criaram várias contas no
Twitter para ser usadas na circulação de informações táticas.
Durante diferentes ações em Wall Street e em outras partes
da cidade, essas contas forneceram uma cobertura minuto
a minuto dos eventos. Às vezes, iam mais longe, dando às
pessoas instruções ou sugestões específicas sobre o que fa-
zer ou sobre como se desvencilhar das tentativas de controle
de multidões por parte da polícia, numa espécie de versão
ativista do Comando, Controle e Comunicação militar. As-
sim, por exemplo, ativistas experientes seriam treinados no
acampamento para trabalhar no “reconhecimento”, andando
alguns metros à frente de uma marcha para tuitar ou enviar
detalhes sobre as manobras das forças policiais. Shawn Car-
rie, gerente da conta nomeada @OWS_tactical, relata como
empregou o Twitter durante a ação realizada em 17 de de-
zembro de 2011 contra a National Defense Authorization
Act – NDAA,34 uma lei que libera fundos para a defesa. O
228
objetivo da ação foi a Grand Central Station, para a qual as
pessoas foram convidadas a convergir em grupos dispersos:

A polícia não sabia de onde vinha […], porque todo mundo


estava se movendo ao mesmo tempo, então eles não conse-
guiam definir o centro disso […]. Assim, a partir da minha
conta tática, eu inseria algo como “táticas”, dando às pessoas
dicas sobre o que fazer, como agir de forma discreta […] ou
esperar na fila e fingir ser um turista […], apenas se escon-
der, agir com indiferença e não parecer suspeito.

Esse uso do Twitter como dispositivo tático aparece à


primeira vista como uma confirmação da visão da coordena-
ção de movimentos como uma rede ou um enxame, confor-
me descrito por Arquilla e Ronfeldt em seu ensaio seminal

34. Lei de Autorização de Defesa Nacional. [N.T.]


sobre “guerra de redes” (2001). A ideia básica é que os dis-
positivos de mídia móvel permitem a coordenação descen-
tralizada dos participantes, conforme sugerido pela própria
afirmação de Carrie no comentário mencionado de que a
polícia não conseguia “definir um centro”. Entretanto, nesse
tipo de operação de coordenação, muitas vezes tende a haver
um centro de comunicação nevrálgico, assim como ocorre
com um Exército. Com base nas entrevistas que conduzi
com vários ativistas do Occupy que estiveram altamente
envolvidos, constata-se que as principais contas táticas do
Twitter eram administradas por um grupo de organizado-
res do movimento composto de vinte pessoas. Essas pessoas
também tendiam a estar envolvidas nas operações nas ruas,
na assembleia geral e nas diferentes comissões. Durante a
ocupação no Zuccotti Park, esse grupo principal utilizou um
espaço de um escritório disponibilizado pelo Sindicato dos 229
Professores de Nova York. Houve muita controvérsia entre
os ocupantes sobre a existência desse espaço, que a grande
mídia logo chamou de “QG do Occupy” ou “QG de im-
prensa do Occupy” (Captain, 2011), uma vez que sua pre-
sença era contrária às afirmações de que não havia líderes.
A ilustração mais clara do uso dessa “sala de guerra do
Twitter” para a coordenação centralizada de “operações de
combate” é oferecida pelos eventos da noite de 15 de no-
vembro, quando o NYPD despejou violentamente manifes-
tantes da praça. Andrew “Foo” Conner, um dos principais
organizadores, conseguiu sair antes de a polícia cercar o
acampamento. Depois de se encontrar com outras pessoas
no escritório, Conner ajudou a direcionar a multidão dis-
persa para uma área comum de reunião. Vale a pena relatar
longamente essa noite:
Fomos encarregados de localizar os acampados dispersos e
trazê-los de volta para, acho, uma coerência […]. Porque você
deve lembrar que perdemos mais ou menos mil pessoas que
dormiam lá à noite, e a polícia estava fazendo seu melhor
para controlar as pessoas de um lado e expulsá-las do ou-
tro, assim como do outro lado da ponte. E nos dispersaram
[…]. Mas não havia como nos dispersarem, porque morá-
vamos no Zuccotti Park! Não podíamos ir para casa […];
havia uma mentalidade muito estranha. Então, as pessoas
estavam nos ligando porque sabiam que estávamos seguros,
e usamos o Twitter para fazer todo o possível. O que acabou
acontecendo é que enviamos três mensageiros de bicicleta e
eles conseguiram encontrar pessoas em cada um dos grupos
que protestavam e obter seus números de telefone. Usamos o
Twitter. Depois, com os três mensageiros de bicicleta, obten-
do números e com os e-mails, conseguimos levar todos de
230
volta a Broadway e Pine. Nesse ponto tínhamos um mapa na
parede, tentando descobrir onde todos estavam, porque ha-
via cerca de cinco grupos diferentes separados. Pelo Twitter,
dissemos que bastava ir a Broadway e Pine. Fomos capazes
de pegar uma situação ruim para nós e transformá-la numa
situação mais ou menos boa.

O testemunho de Conner é interessante por pelo menos


duas razões. A primeira é que essa cena mostra que a prática
da coordenação não corresponde à ideia de um movimento
completamente sem lideranças – à noite, o processo de reu-
nir os ocupantes era liderado por um punhado de ativistas.
Em segundo lugar, essa coordenação mediada centralizada
se tornou urgente pelo fato de o movimento ter perdido sua
base fixa no espaço, ter sido privado do mínimo de coorde-
nação oferecido pelo acampamento, que atuava como uma
espécie de farol. Uma vez privado de seu “ponto nodal” no
espaço, o movimento teve de recorrer a um ponto mediado
para poder atuar em conjunto.
Os principais organizadores que entrevistei foram, em
sua maioria, honestos ao admitir as contradições dessa situa-
ção. De fato, eles mesmos tentaram desenvolver protocolos
para tornar o gerenciamento das principais contas do Twit-
ter mais “horizontal”. No entanto, as restrições práticas des-
se tipo de trabalho pareciam impossibilitar a manutenção
de um ideal tão elevado. Essa tensão se reflete na descrição
de Shawn Carrie do gerenciamento da conta principal do
Twitter @OccupyWallStNYC, que, na época da entrevista,
em dezembro de 2011, contava com 300 mil seguidores:

Talvez haja vinte pessoas com acesso e talvez oito dessas pos-
sam aprovar […], o que é um sistema de privilégios e per- 231
missões. Todo mundo tem acesso à conta. Há uma estrutura
na qual qualquer pessoa pode escrever tuítes, mas eles são
postos numa lista que precisa ser aprovada, e todo o grupo
olha eles […]. Isso acontece o tempo todo […]. É uma lista
em execução […]. Usamos um programa para simplificar.
Alguém envia algo que deseja ser tuitado e todo o grupo tem
a possibilidade de ver […] e podem editar isso. Basicamente,
temos um processo aberto para editar nossos tuítes.

Carrie acrescentou que o grupo tentou tornar o acesso


a essa conta mais aberto, o que foi praticamente impossível:

Estamos sempre trazendo mais pessoas […]. Definitiva-


mente, não queríamos que fossem poucas pessoas […], por-
que uma pessoa não pode fazer todo o trabalho em todas as
contas do Twitter […]. Mas, claro, não podemos tornar isso
completamente democrático, senão seria uma bagunça. Mas
é uma forma muito justa e horizontal de exercer um proces-
so de consenso. E queríamos que fosse assim.

A discrepância entre a afirmação do movimento em re-


lação à não existência de lideranças e suas próprias práti-
cas organizacionais não parecia se limitar apenas ao uso do
Twitter, tendo uma influência mais geral em todo o movi-
mento. Formalmente, a vida do Occupy em Nova York foi
regulamentada por meio de uma assembleia geral realizada
três vezes por semana (Writers for the 99%, 2011). No en-
tanto, no dia a dia da ocupação, havia um pequeno grupo de
ativistas experientes e envolvidos que as pessoas procuravam
para “resolver as coisas”. Como Stephanie relata:

Surgiram líderes que são pessoas com a capacidade de estar


232 presentes e participar dessa maneira típica, em todas as re-
uniões, durante todo o dia, ou que têm acesso a um espaço
valioso da internet, ou que têm acesso ao Occupywallstreet.
org. Eles podem não ter consentimento de qualquer gru-
po maior em relação ao que estão fazendo, mas, como têm
aquele valioso espaço na internet para o qual as pessoas re-
correm e olham, tornam-se líderes à sua maneira.

Embora em sua publicidade o OWS tenha reivindicado


com frequência ser um “movimento sem líder”, suas práticas
organizacionais viram um punhado de lideranças emergi-
rem em sua evolução diária. Aqueles que tiveram acesso aos
principais canais de comunicação do movimento se torna-
ram automaticamente “líderes de opinião” e organizacionais.
No capítulo comparativo a seguir, discutirei como essa pre-
sença contínua de líderes é uma característica mais geral dos
movimentos populares contemporâneos.
Conclusão

As vicissitudes do Occupy Wall Street demonstram que a


“mágica das mídias sociais” não funciona a menos que seja
acompanhada por uma narração ressonante, capaz de mo-
tivar as pessoas a sair às ruas. Embora desde o início os
organizadores, a começar por Kalle Lasn e sua equipe na
Adbusters, tenham depositado muita esperança no poder de
mobilização das redes sociais e no Twitter, não consegui-
ram usar essa mídia como meio para uma “coreografia de
assembleia” montando o cenário para os protestos públicos.
Somente quando o movimento se tornou visível no espaço
público é que começou a receber atenção nas mídias sociais
e da grande mídia. A página We Are the 99 Percent no Tumblr
contribuiu para forjar uma identidade popular muito dife-
rente daquela minoritária e voluntarista promovida pela 233
Adbusters. O Twitter foi adotado para construir um sentido
de solidariedade entre os ocupantes físicos e os internautas,
bem como para coordenar as ações dos participantes duran-
te as ações e em situações de emergência.
O Occupy foi associado a reivindicações anarquistas de
não liderança absoluta. No entanto, como foi visto ao ana-
lisar o “QG do Twitter”, as práticas de comunicação e or-
ganização do movimento contradizem as reivindicações de
não liderança e espontaneidade absoluta, muitas vezes feitas
por ativistas, sobretudo em relação ao uso das mídias sociais.
Conquanto estas permitissem conversas participativas den-
tro e ao redor do movimento, como aconteceu em outros
movimentos, essas conversas foram conduzidas e moderadas
por um punhado de organizadores principais que gerencia-
vam contas influentes do Facebook e do Twitter vinculadas
ao movimento. Tais ativistas passaram a assumir o papel
de coreógrafos invisíveis que, usando as mídias sociais para
divulgarem planos e eventos do movimento, tiveram muita
influência na formação de suas manifestações. Se os espaços
ativistas criados pelo Occupy e por outros grupos são de fato
caracterizados internamente por um elemento participativo,
sua iniciação e sua manutenção demandam o trabalho de
alguns ativistas comprometidos.
Há vários aspectos que não foram possíveis de abordar
neste capítulo por motivos de espaço. Especificamente, tal
como nos capítulos anteriores, foi o caso do papel da mídia
convencional como um canal de mobilização, mesmo que,
como Shane Gill diz, seja “a maneira pela qual a maioria dos
americanos conseguiu saber sobre o Occupy”. Além disso, a
discussão neste capítulo tem um alcance geográfico limitado,
pois concentrei toda a minha atenção ao Occupy Wall Street,
234
em Nova York. Como os indignados espanhóis, o movimento
Occupy demonstrou uma capacidade notável de se estender
por todo o território nacional, criando uma rede difusa de
acampamentos de protesto locais, permitindo que aqueles
que vivem fora da cidade de Nova York e outros centros me-
tropolitanos participassem fisicamente dos protestos.
Surge, porém, uma pergunta mais geral sobre o futuro
do Occupy. No momento da redação deste texto, em 2012,
todas as principais ocupações haviam sido despejadas. Os
ativistas estavam se preparando para novas ações agendadas
para maio. Mas, no conjunto, o movimento, agora privado
de seu fator de novidade, parecia estar passando por uma
fase de latência. Isso mais uma vez sublinha a dificuldade de
sustentar um movimento popular contemporâneo, em es-
pecial quando acompanhado de uma recusa categórica em
explorar novas formas de organização formal para dar mais
continuidade a uma campanha. O futuro do Occupy e de
movimentos semelhantes dependerá em grande parte do
grau em que conseguirem reinventar suas atividades além
da tática do acampamento em longo prazo e repensar o uso
das mídias sociais para facilitar novas formas de reunião no
espaço público.

235
“Siga-me, mas não me
peça para liderá-lo”,
organização líquida e
liderança coreográfica
“Vou apenas dizer uma coisa que é muito importan-
te: não temos líderes, ok?” Assim escreveu um usuário
numa das páginas do Democracia Real Ya no Facebook,
em resposta a um pedido meu de entrevista com ele. Ele
recusou, mas sua resposta foi possivelmente mais rica do
que qualquer outra entrevista que eu poderia ter realizado.
239
O comentário resume em poucas palavras a ideia funda-
mental que domina o discurso ativista contemporâneo. Do
movimento pró-democracia que derrubou Mubarak aos in-
dignados da Puerta del Sol, passando pelos ocupantes do
Zuccotti Park, os ativistas enfatizam que não têm líderes e
apelam à espontaneidade da participação como fonte fun-
damental de sua legitimidade. O Occupy Wall Street, por
exemplo, afirma corajosamente em sua publicidade se tratar
de um “movimento de resistência sem líderes”.35 Mas é as-
sim mesmo? É verdade que as mídias sociais permitem que
os movimentos sociais contemporâneos se tornem espaços
horizontais e sem líderes?

35. Excerto retirado de um panfleto em 6 nov. 2011 no Zuccotti Park,


Nova York.
Este capítulo procura desenvolver uma análise compa-
rativa do uso das redes sociais nos diferentes movimentos
e contextos nacionais discutidos neste livro, com foco na
questão crucial e controversa da liderança nas práticas de
mídias sociais. O alvo da minha crítica é o discurso da falta
de liderança e a ideologia do horizontalismo que domina
o ativismo contemporâneo. Os “horizontalistas” acreditam
que, graças à disponibilidade de modernas tecnologias de
comunicação, os movimentos sociais não precisam do tipo
de estrutura de comando linear característica das organiza-
ções burocráticas. Em vez disso, podem confiar numa forma
de “inteligência de enxame” (Hardt e Negri, 2005), na qual,
nas palavras de Shawn Carrie, “ninguém é um líder porque
todo mundo é um líder”.
240
A análise desenvolvida nos capítulos anteriores já con-
tradiz essa visão dos movimentos contemporâneos como
sem liderança, identificando indivíduos e grupos que tive-
ram um papel central nos vários processos de mobilização.
Desde administradores do Facebook como Wael Ghonim
no Egito e Fabio Gandara e Pablo Gallego na Espanha, a
proeminentes ativistas com milhares de seguidores, como o
egípcio Mahmoud Salem, também conhecido como Sand-
monkey, os ativistas de mídias sociais moldaram profunda-
mente as ações dos movimentos sociais ao longo das fases de
iniciação e sustentação. Por mais que esses e outros ativistas
de mídia social recusem o rótulo de líderes, o trabalho co-
municativo e organizacional que conduziram pelo Facebook
e pelo Twitter equivale a uma forma de liderança, como uma
influência centralizada no desenrolar da ação coletiva (Bar-
ker, Johnson e Lavalette, 2001).
Para entender o funcionamento dessa forma de lideran-
ça “suave”, começo afirmando que, dentro dos movimentos
contemporâneos, o uso das mídias sociais não pressagia o
fim da organização como tal, mas o surgimento de formas
de organização “líquidas”. Nesse modelo, decorrente de uma
crítica a organizações tradicionais ou “sólidas”, a comunica-
ção e a organização se tornam quase indistinguíveis, e os “co-
municadores” de um movimento também se transformam
automaticamente em seus organizadores e líderes. Apesar
da ideologia igualitária dos movimentos populares contem-
porâneos, as formas de comunicação que caracterizam as
mídias sociais são definidas por uma “distribuição da lei de
poder”, na qual um punhado de pessoas controla a maior
parte do fluxo da comunicação. Esse desequilíbrio revela a
presença de fato de uma forma de liderança, que faz uso do
ambiente participativo e interativo das mídias sociais para 241
canalizar e desencadear a emotividade dos participantes.
A natureza dessa liderança “coreográfica” fica mais clara
quando se observa o uso do Facebook e do Twitter por ati-
vistas. O Facebook, como vimos, foi empregado como algo
semelhante a um acampamento de recrutamento e treina-
mento, a fim de facilitar a condensação emocional e a iden-
tificação comum de um jovem de classe média em grande
parte não politizado. O Twitter, por outro lado, tem sido
usado sobretudo como veículo para a coordenação interna
“ao vivo” dentro da elite ativista, além de seus muitos usos
“externos”, inclusive como meio para jornalistas cidadãos
documentarem a brutalidade policial. Graças ao seu menor
alcance comparado ao Facebook, esse meio – a rede social
mais popular na comunidade ativista – corre o risco de iso-
lar os líderes do movimento dos setores menos informados
pela internet em seu círculo de influência. O uso das mídias
sociais pelos ativistas revela, assim, a tendência inerente da
comunicação mediada a se isolar mesmo enquanto conecta-
dos (Ling, 2004), com consequências possivelmente nefastas
para o desenvolvimento da ação coletiva.
Na seção final deste capítulo, refletirei sobre a relação
entre mídias sociais, espaço público e localidade. Argumento
que a mídia social pode ser vista como envolvida em “práti-
cas focais” (Borgmann, 1984), que direcionam a atenção das
pessoas para lugares e eventos específicos, reunindo simboli-
camente muitos indivíduos dispersos em torno das mesmas
ações. Lugares simbólicos como os ocupados pelos protestos
em massa dos movimentos populares de 2011 passam a ser
pontos nodais na textura da participação dos movimentos
sociais contemporâneos. Eles aparecem sob o disfarce de lí-
deres impessoais, referentes espaciais fixos compensando a
242 ausência de uma liderança visível e a efemeridade de suas
práticas organizacionais líquidas.

Organização líquida

A única coisa nova sobre essas ferramentas é que não sou


mais membro de uma organização, e sim de uma causa ou
um movimento. Não é preciso ter uma associação física nem
ir à reunião. Não estou mais organizando as coisas no under-
ground; faço tudo pela internet. Obtenho as instruções […],
e se elas me convencerem, eu mesmo começo a desempenhar
um papel, a contar a amigos e à família. Sei qual é o objetivo:
difundir as informações e começar a transmiti-las às pessoas.
Começo a criar com as ferramentas que tenho, a espalhar as
informações pelo boca a boca o máximo que posso. Envio
mensagens de texto para todos os contatos, envio e-mails
para meu pessoal, me comunico com colegas de trabalho.

Esses comentários de Ahmed Samih, ativista de direitos


humanos envolvido no movimento revolucionário no Cai-
ro, resumem bem como ativistas no Egito, na Espanha e
nos Estados Unidos veem o uso das mídias sociais como
provocadoras de novas formas de organização. O que Sa-
mih descreve aqui é uma situação em que a filiação estável
numa organização é substituída pelo engajamento comunicativo
contínuo com o “movimento” em geral. Nessa situação de “de-
sintermediação”, ativistas individuais (observe a referência
repetida de Samih a “eu”, no singular), em vez de grupos, são
vistos como as unidades básicas do movimento, responsáveis
por transmitir mensagens para suas redes pessoais de amigos 243
e conhecidos.
O imaginário evocado por Samih ressoa com a descrição
de Clay Shirky das mídias sociais que permitem “organizar
sem organizações” (2008). É notável como a simples menção
à palavra “organização” é capaz de levantar suspeitas entre os
ativistas, como testemunhei em algumas das entrevistas. A
ideia de que “organizações se tornaram um obstáculo para
a organização” (Invisible Committee, 2009, p. 7) tem uma
forte ressonância em muitos dos ativistas que entrevistei na
Espanha, no Egito e nos Estados Unidos, os quais constan-
temente apresentam sua política como o oposto das ações
de instituições de grande escala, como bancos, corporações e
agências estatais, com suas formas de comunicação de cima
para baixo. Além disso, também criticam as instituições de
organizações populares de massa, como partidos políticos,
sindicatos e outras formas estabelecidas de associação.36 Por
fim, na maioria das vezes, recusam a opção de construir no-
vas organizações formais para buscar ações no longo prazo
acerca das questões levantadas pelos movimentos sociais.
Isso se tornou evidente na onda de desaprovação provocada
pela decisão de alguns membros do núcleo do Democra-
cia Real Ya, incluindo Fabio Gandara, de registrar o grupo
como uma organização legal nos primeiros meses de 2012.
Pode-se dizer que, ao valorizarem a liberdade de expressão
(na internet) e a liberdade de reunião (nas praças públicas),
os movimentos contemporâneos têm muito menos interesse
em explorar a liberdade de associação.
Um meio de identificar a especificidade das formas de
organização facilitadas pelo uso das mídias sociais é pelo
uso do termo “orgânico”, por parte de ativistas egípcios, para
marcar a diferença em relação às organizações estabelecidas,
244 em particular à Irmandade Muçulmana. “Eles são muito
mecânicos, nós somos muito orgânicos”, diz o ativista egíp-
cio Noor Ayman Noor, referindo-se à análise de Tom Bur-
ns e G. M. Stalker em Management of Innovation (1961).
Funciona como o “trânsito no Cairo”, explica Mahmoud
al-Banna: “É escandaloso quando se olha para ele, mas há
uma ordem, um padrão.” Opiniões semelhantes podem ser
ouvidas do outro lado do Atlântico, entre os ativistas do Oc-
cupy Wall Street. Assim Will, ativista de 25 anos de San
Diego envolvido no OWS Nova York, expressa sua descon-
fiança em relação a “organizações hierárquicas”:

36. De fato, a relação entre movimentos sociais e populares e organiza-


ções tradicionais é mais complexa do que o espírito antiorganizacio-
nal prevalecente no discurso ativista. Por exemplo, o Occupy Wall
Street colaborou com sindicatos, enquanto no levante egípcio orga-
nizações como o 6 de Abril e a Irmandade Muçulmana tiveram um
importante papel na sustentação dos protestos.
Tradicionalmente, estamos acostumados a organizações hie-
rárquicas, como governos, que são muito de cima para baixo
ou como empresas. Essas organizações divulgam suas ideias
pela mídia, que pode usá-las para uma discussão. Pode-se
ter um debate sobre isso estar errado e isso estar certo, mas
apenas dentro desses dois limites fixos. E todo mundo está
apenas repetindo suas opiniões, não importa se assistem à
CNN, à Fox News ou a outra grande mídia. Não há muito
pensamento independente. O sistema hierárquico supõe que
nós, como indivíduos, não somos capazes de nos organizar,
que precisamos de ajuda.

Como esses comentários ilustram, a rejeição a organiza-


ções sólidas é acompanhada por um esforço de desinterme-
diação e um investimento em formas de organização de bai-
xo para cima ou “organização aberta” ( Jordan, 2002) entre 245
“indivíduos” em vez de grupos. Essas formas de organização
“líquidas” enfatizam a importância do engajamento direto e
autêntico – valores que fazem parte da herança do anarquis-
mo (ver, por exemplo, Vaneigem e Nicholson-Smith, 1983).
A noção de “liquidez” (Bauman, 2000) aplicada a es-
sas formas de organização tem uma forte ressonância com o
caráter efêmero das próprias mídias sociais. As mensagens
contínuas nas redes sociais costumam ser descritas como
streaming – um programa de TV em inglês da Al-Jazeera
sobre mídia social e ativismo foi apropriadamente intitulado
The Stream. Ao seguir tuítes postados com hashtags popu-
lares ou mensagens de status do Facebook, a impressão é a
de um fluxo comunicativo em constante mudança, que às
vezes pode deixar as pessoas atônitas com a sobrecarga de
informações. Como argumentarei na Conclusão, esse cará-
ter líquido do fluxo de informações nos movimentos sociais
contemporâneos levanta questões importantes sobre sua
sustentabilidade no longo prazo.
No âmbito da organização líquida praticada pelos mo-
vimentos contemporâneos, as mídias sociais intervêm na
expansão e na intermediação de conexões entre redes de
amizade. Os relacionamentos flexíveis são caracterizados
por uma informalidade ou por um “personalismo”, que Paul
Lichterman (1996) descreve como “um modo de falar e agir
que destaca um eu único e pessoal”. Para o autor, “o per-
sonalismo supõe que a própria individualidade tenha valor
inerente, para além das realizações materiais ou sociais”. As
mídias sociais são meios pelos quais um engajamento alta-
mente pessoal com movimentos sociais pode ser construído,
ao mesmo tempo que rejeitam uma identidade coletiva es-
tável e bem definida, um elemento que Lichterman vê em
246
oposição ao personalismo.
Nos movimentos sociais contemporâneos, com ênfase
na informalidade e na adoção da “amizade” como estrutura
para a interação interpessoal, a comunicação e a organização
se tornam praticamente impossíveis de ser separadas uma da ou-
tra – são tão unidas, tão entrelaçadas, que acabam indistinguí-
veis. De certa forma, a comunicação também é sempre um
meio de organização, como argumenta, entre outros, Fran-
çois Cooren em The Organizing Property of Communication
(2000). Mais uma vez, podemos pensar na afirmação de Lê-
nin do jornal como um “organizador coletivo” (1969/1902).
Curiosamente, quando Lênin foi acusado de pensar que
poderia fazer um partido com um jornal, respondeu que
não tinha essa intenção. O jornal era só uma ferramenta nas
mãos do partido, a manifestação visível de uma entidade
que não podia ser reduzida a esse meio. Para alguns ativistas
contemporâneos, ao contrário, parece que as estruturas or-
ganizacionais de um movimento podem ser completamente
subsumidas por páginas do Facebook, tuítes e outras formas
efêmeras de comunicação.
O que estamos testemunhando aqui é, portanto, não
apenas uma equivalência entre organização e comunicação,
mas também uma inversão de sua relação mútua. “Organi-
zamo-nos de certa maneira e nos comunicamos de acordo
com ela”, disse Dario Azzelini, uma das principais figuras
do grupo socialista alemão Fels, durante minha pesquisa an-
terior sobre a cultura do movimento antiglobalização (Ger-
baudo, 2010, p. 86). Ativistas contemporâneos poderiam
inverter a afirmação: comunicamo-nos de certa maneira e
nos organizamos de acordo com ela. É a comunicação que
organiza, e não a organização que se comunica. Como coro-
lário, os “comunicadores” também se tornam automatica- 247
mente “organizadores”, dada a influência que podem ter por
meio de suas comunicações no desenrolar da ação coletiva.
Quando um administrador influente do Facebook publica
uma mensagem de status, ele ou ela não está só expressando
uma opinião, mas também convidando a um tipo de res-
posta emocional dos usuários da página. Da mesma forma,
quando um ativista e tuiteiro envia uma mensagem sobre
um incidente envolvendo a polícia, ele ou ela não está só
“informando”, mas também provocando uma reação física
daqueles que recebem a mensagem. Esses ativistas digitais
não estão “dando ordens” a ninguém. No entanto, suas men-
sagens influenciam a maneira como as pessoas agem juntas,
definindo a cena em que sua ação coletiva se manifesta ou,
para usar os termos empregados neste livro, construindo
uma coreografia de assembleia.
Líderes relutantes

Se entre os ativistas contemporâneos a palavra “organização”


levanta suspeitas, a palavra “líder” é capaz de provocar uma
rejeição imediata. Ativistas do mundo árabe, da Europa e
dos Estados Unidos costumam afirmar que os movimentos
dos quais participam são “sem liderança” ou “horizontais”,
tratando isso como um elemento crucial em sua identidade
e sentido de valor. Além disso, muitos acreditam, sobretudo,
que o uso das mídias sociais é o que ajuda os movimentos
a alcançar a meta da não liderança. Um exemplo vindo de
minhas entrevistas realizadas em outros países ilustra bem
essa crença. Tim, organizador do grupo britânico antiauste-
ridade UK Uncut, afirma que “Facebook e Twitter nos per-
mitem ser verdadeiramente horizontais”.
248 Mas, apesar de afirmações como essa, a adoção das mí-
dias sociais nos movimentos contemporâneos não possibilita
que eles se tornem sem liderança ou horizontais automati-
camente. Elas não introduzem, como por mágica, condições
equitativas. Muito pelo contrário, é por meio do uso das mídias
sociais que novas formas de liderança são construídas. É verdade
que as redes sociais permitem a comunicação participativa,
porém esse recurso não significa que todos tenham o mesmo
grau de influência na ação coletiva e que a hierarquia não
exista. Em vez disso, os principais administradores do Fa-
cebook e tuiteiros ativistas passam a adquirir um grau des-
proporcional de influência na comunicação do movimento
e, portanto, na coreografia de suas ações. Sem dúvida, a li-
derança construída nesse nível é mais difusa do que aquela
concentrada numa pessoa só e caracterizada por um caráter
carismático (Weber, 1978) e “orgânico”, no qual “a autori-
dade é estabelecida por consenso” (Burns e Stalker, 1961).
No entanto, continua sendo uma forma de liderança com
uma centralizada, ainda que distribuída, influência no de-
senrolar da ação coletiva.
A confusão subjacente à ideologia do “horizontalismo”
pode ser rastreada até uma equação errônea entre organi-
zação informal ou “líquida” e não liderança. O pressuposto
é que, se não há um presidente eleito, com status legal, isso
significa automaticamente que não há líderes ou grupos de
líderes. Essa ideia já fora contestada por Burns e Stalker
(1961) em seu estudo clássico de organizações “orgânicas”,
em oposição às “mecânicas”, nas quais afirmavam que for-
mas de estratificação continuavam a existir. Esse mesmo
fenômeno foi observado pela teórica feminista Jo Freeman
em seu ensaio clássico Tirania das organizações sem estrutura
(1972), citado no Capítulo 1. Muitas das observações fei-
tas por Freeman, ao comentar o movimento feminista nos 249
Estados Unidos na década de 1970, poderiam ser aplica-
das perfeitamente aos movimentos sociais contemporâneos.
Apesar das reivindicações de não liderança, líderes ou or-
ganizadores centrais continuam a existir, e possivelmente
sempre existirão de uma forma ou de outra, uma vez que o
caráter dinâmico do processo de mobilização sempre impli-
ca a presença de desequilíbrios e assimetrias.
Afirmar que esses movimentos têm líderes não significa
negar que sejam altamente participativos e que criem espa-
ços genuínos de autoexpressão. Esse recurso é bem repre-
sentado pelas assembleias gerais (AGs), que passaram a ser
uma marca registrada dos indignados espanhóis e do Occupy
Wall Street. As AGs, como alternativa aos atos com uma lis-
ta prescrita de oradores, ofereceram às pessoas comuns um
palco para expressar suas preocupações, ouvir suas histórias
e contribuir para a tomada de decisões coletivas. Mecanis-
mos como as AGs são usados, em grande parte, para reforçar
o horizontalismo e a falta de liderança. No entanto, seria
ingênuo pensar que a mera presença delas transforma, por
mágica, os movimentos sociais em espaços horizontais de
participação. Isso ocorre pelo menos por duas razões.
Primeiramente, as próprias AGs, junto com plataformas
organizacionais semelhantes, são afetadas pelo dilema da
“hierarquia de engajamento”, descrita por Haunss e Leach,
em relação ao cenário de ação direta autônoma na Alemanha
(2009). Isso significa que, ainda que esses órgãos de tomada
de decisão sejam, em teoria, abertos a todos, de facto tendem
a ser frequentados principalmente por pessoas muito envol-
vidas no movimento. Aqueles que têm compromissos pro-
fissionais ou familiares, e por esse ou outros motivos acabam
impossibilitados de comparecer regularmente, podem se sen-
250
tir escanteados. Por outro lado, uma influência desproporcio-
nal chega a ser adquirida por aqueles que têm o que pode-
ríamos chamar de “privilégio da presença”, ou seja, tempo e
energia para participar plenamente das ações do movimento.
Em segundo lugar, no dia a dia dos movimentos sociais,
a organização prática da ação coletiva depende da inter-
venção de participantes experientes e engajados, ou orga-
nizadores centrais, responsáveis por “fazer as coisas”, como
diz Stephanie, uma ativista do Occupy. Em outras palavras,
existe um abismo entre a tomada de decisões e a execução
das diferentes atividades do movimento. Esse fenômeno fica
evidente no nível das comunicações, como vimos no caso da
administração das contas táticas no Twitter do OWS – os
ativistas adotaram originalmente procedimentos “horizon-
tais”, mas logo tiveram de restringir o acesso às contas uma
vez que se tornariam “uma bagunça” se ficassem completa-
mente abertas.
A presença de uma liderança nos movimentos populares
contemporâneos é mais evidente na fase de sua iniciação,
nos meses e nas semanas antes de se tornar publicamente
visível, o que em alguns casos – mas não em todos – coinci-
de com a fase em que o impacto das mídias sociais é o mais
alto. No início do processo de formação dos movimentos
populares contemporâneos, encontramos recorrentemente
um número reduzido de pessoas, apenas uma ou duas res-
ponsáveis ​​pelo desencadeamento do processo de mobiliza-
ção: Wael Ghonim, o administrador do Kullena Khaled Said;
Pablo Gallego e Fabio Gandara, os primeiros iniciadores da
página de Facebook do Democracia Real Ya; e Kalle Lasn
e Micah White, editores da Adbusters. Naturalmente, esses
iniciadores não criaram os movimentos sozinhos. Se fossem
apenas eles, não teria existido nenhum movimento. No en-
tanto, essas pessoas, em colaboração com outros ativistas e 251
em interação com usuários entusiastas da internet, lançaram
uma ideia que, aos poucos, passou a atuar como o núcleo
inicial de um encontro simbólico que, mais tarde, precipita-
ria um encontro material num protesto em espaço público.
O nível de influência desses ativistas variou muito de
acordo com as circunstâncias específicas dos movimentos
sociais que contribuíram para iniciar. Por exemplo, Lasn e
White tiveram muito pouco a dizer quando a organização
nas ruas começou em Nova York, inclusive porque estavam
agindo a distância: um de Vancouver e outro de Berkeley.
No caso da revolta egípcia e dos indignados, os líderes ti-
veram um papel evidente na orientação da campanha de
lançamento, do começo ao fim. Trabalhando como admi-
nistradores de suas páginas no Facebook, Ghonim, Gan-
dara e Gallego moldaram a identidade de um movimento
nascente e tiveram muito poder para definir a ação nos es-
tágios iniciais de desenvolvimento. No entanto, assim que
o movimento chegou ao espaço público, perderam grande
parte dessa influência. Dado que sua liderança foi canalizada
exclusivamente por meio de uma página no Facebook, assim
que as pessoas passaram a não precisar mais do Facebook
para se reunir depois que encontraram um lugar para isso,
um local físico, como a praça Tahrir ou a Puerta del Sol,
esses líderes perderam grande parte do controle em relação
ao que se seguiu. Da mesma forma, influentes “ativistas tui-
teiros”, sobretudo em países com altas taxas de penetração
no Twitter, como Espanha e Estados Unidos, tiveram in-
fluência na sustentação da ação dos participantes nas ruas,
não só na forma de coordenação tática, mas por meio da
construção de uma tensão emocional em relação à partici-
pação em protestos.
252
As novas formas de liderança emergentes no campo do
ativismo digital encontram paralelo na importância contínua
da liderança nas ruas. Uma vez que um movimento está nas
ruas, há mais espaço para que participantes comuns moldem
sua ação, pois indivíduos e grupos influentes ficam fisica-
mente submersos “numa multidão muito maior”. Também
nesse nível, no entanto, muitas vezes encontramos grupos de
lideranças engajados em dar à ação coletiva um sentido de
unidade e direção. No caso do Egito, por exemplo, um papel
de liderança foi desempenhado por vários grupos políticos
organizados, como a Irmandade Muçulmana e o movimento
6 de Abril. Além disso, torcedores organizados de futebol
do Al Ahly e do Zamalek, com suas estruturas piramidais,
foram decisivos para coordenar e travar brigas de rua com
a polícia. No caso da Espanha, ativistas de ação direta da
cena dos okupas contribuíram para formar a organização das
acampadas, aproveitando a experiência anterior no movimen-
to antiglobalização e em protestos de ação direta. Por fim, os
ativistas envolvidos na minúscula, mas barulhenta, comuni-
dade anarquista de Nova York tiveram um papel de liderança
no gerenciamento da montagem das assembleias gerais.
Como vimos no Capítulo 4, sem as pessoas que se co-
nheceram no espaço de artes da 16 Beaver, em Nova York,
em agosto de 2011, “não haveria um movimento Occupy
como conhecemos hoje” (Kroll apud Van Gelder, 2011,
p. 16). Mas o que eram aquelas pessoas senão líderes de al-
gum tipo? Ou o fato de a maioria deles ser anarquista exclui
de forma automática essa possibilidade? Pessoalmente, estou
convencido de que anarquistas históricos como Errico Ma-
latesta, Mikhail Bakunin e Nestor Makhno também eram
isso: líderes. Pessoas que “lideraram” e iniciaram movimen-
tos sociais, inspirando ações e agindo como pontos focais ou
centros simbólicos que anarquistas espalhados pelo espaço 253
geográfico tinham como referência. O papel desempenhado
por ativistas contemporâneos – e por ativistas digitais em
particular – é muito semelhante.
É irônico que as mídias sociais comumente mantidas
para facilitar a não liderança que os movimentos contem-
porâneos buscam se tornem o meio pelo qual novas formas
de liderança surgem. Esse fenômeno reflete o fato de que, ao
contrário do que teóricos como Castells pensam, a internet
é tudo, menos um ambiente de comunicação não hierárqui-
co. Como observaram diferentes analistas, incluindo Yochai
Benkler (2006) e Clay Shirky (2010), a comunicação na web
é caracterizada por uma “distribuição da lei de poder”, na
qual uma minúscula minoria de usuários produz o conteúdo
que a grande maioria consome – a Wikipedia, em que apenas
2% dos usuários contribuem com produção de conteúdo, é
um exemplo (Shirky, 2010). A mesma tendência hierárquica
ressalta a comunicação no Twitter. Isso é exemplificado pela
distribuição de mensagens com a hashtag #jan25 usada por
ativistas egípcios durante a revolta contra Mubarak. Chris-
topher Wilson e Alexandra Dunn (2011) descobriram que,
entre mais de 106.563 usuários únicos que usavam a hashtag,
a maioria das mensagens foi enviada por 200 “contas de po-
der”. Da mesma forma, um estudo de tuítes relacionados
aos indignados espanhóis, conduzido pela Universidade de
Zaragoza, na Espanha, descobriu que o funcionamento dos
fluxos do Twitter conectados ao 15-M contradizia a ideolo-
gia de igualdade proposta pelo movimento. Os pesquisado-
res recuperaram uma “tendência à estrutura hierárquica”, na
qual um pequeno grupo de “formadores de opinião” reunia
a maior parte da atenção (Borge-Holthoefer et al., 2011).
Em suma, as redes sociais se transformaram em um
254
meio pelo qual a liderança é exercida de maneira oculta, de
modo a manter uma impressão de espontaneidade absoluta
e cumprir os critérios do horizontalismo. Esse fenômeno é
ilustrado pela controvérsia em torno da existência do “QG”
do Occupy Wall Street, o espaço de um escritório perto do
Zuccotti Park, onde uma dúzia de ativistas trabalhava nas
comunicações, conforme descrito no Capítulo 4. Alguns
militantes anarquistas ficaram muito bravos com a existên-
cia desse espaço, que viam como um centro de comando que
tentava controlar o movimento. É claro que esse espaço era
muito problemático para eles por ser a prova material de
que, apesar de toda a conversa sobre ausência de liderança
que povoava a publicidade do Occupy Wall Street, a sobre-
vivência cotidiana e a relevância pública do movimento de-
pendiam fundamentalmente do trabalho de um grupo com-
prometido de ativistas experientes em mídia. Pelo menos
no caso do Occupy Wall Street, em Nova York, as pessoas
não estavam tentando tornar essa presença de um grupo de
organizadores essenciais um segredo inviolável. Em outras
palavras, o escandaloso não era a presença de organizadores,
e sim o fato de eles estarem “alojados” num espaço específico,
em vez de invisíveis na multidão ou escondidos atrás de uma
tela de computador, em algum lugar da cidade.
Curiosamente, muitas contas do Facebook e do Twitter
usadas por movimentos sociais contemporâneos se valem do
anonimato ou adotam nomes coletivos, contribuindo para
a impressão de falta de liderança, mas costumam ser ope-
radas por um grupo principal de organizadores. As mídias
sociais criam a impressão de que ninguém está liderando
porque se supõe que sejam inerentemente “participativas” e
que, ao usá-las, as pessoas estão se comunicando, interagin-
do, compartilhando e “participando”. No entanto, consagradas 255
na comunicação “simples”, existem formas de liderança “suave”,
que fazem uso do caráter interativo e participativo do ambiente
da web 2.0. Um indicativo desse fenômeno é a afirmação do
ativista egípcio Ahmed Sabry, arquiteto de 48 anos, de que
“o Facebook era o nosso campo de treinamento e o Twitter,
o nosso quartel-general”. Interessante aqui é a oposição en-
tre estruturas físicas para organização – um campo de trei-
namento e um QG como edifício – e canais de comunicação
“imateriais” e efêmeros, como o Twitter e o Facebook, que
parecem uma celebração da organização líquida. Em outras
palavras, o Facebook foi usado pelos líderes do movimento,
ou, para usar um termo mais neutro, pelos “organizadores”
ou “ativistas”, no sentido de mobilizar pessoas de fora do
espaço de participação, enquanto o Twitter era importante
para fins de organização interna.
O Facebook era nosso campo de treinamento...

Quando Mark Zuckerberg desenvolveu a primeira versão


do Facebook em Harvard, o que pretendia era atender ao
desejo de jovens estudantes por paquera e amizade (Kirkpa-
trick, 2010). De fato, esse ainda é, em grande parte, o tipo de
desejo que anima a maioria dos usuários do Facebook. Para
muitos movimentos sociais contemporâneos, no entanto, a
mais popular de todas as redes sociais passou a ser uma pla-
taforma para organização política e mobilização em massa
– o equivalente ao que a página de contrainformação In-
dymedia foi para o movimento antiglobalização, como um
ponto de contato entre ativistas, apoiadores e simpatizan-
tes, uma arena para discussões públicas. O contraste entre
o Indymedia e o Facebook evidencia imediatamente uma
256 diferença importante entre esses movimentos. Enquanto os
ativistas que usavam o Indymedia estavam se dirigindo a
um público já politizado, os ativistas contemporâneos que
usam o Facebook tentam “recrutar” e treinar – preparar para
a ação política nas ruas – um número de seguidores entre
jovens não politizados, representado pela shabab-al-Facebook
egípcia, discutida no Capítulo 2.
Como vimos, antes da aparição do movimento no espaço
público, páginas do Facebook e grupos como Kullena Khaled
Said e Democracia Real Ya agiram como um ponto de en-
contro emocional em torno do qual se condensava uma iden-
tidade comum capaz de reunir simbolicamente um círculo
diversificado de participantes dispersos e individualizados.
Além disso, têm sido um trampolim para a construção de
um ímpeto que facilita o “salto para as ruas”, nas palavras de
ativistas espanhóis. O uso do Facebook varia muito entre os
movimentos sociais estudados neste livro. Conquanto a rede
tenha desempenhado um papel-chave na insurreição egípcia
e uma função importante no caso dos indignados espanhóis,
quase não teve participação na fase preparatória do Occupy
Wall Street, em razão do desprezo dos ativistas estaduniden-
ses. O motivo pelo qual os ativistas recorrem ao Facebook
para “recrutar” participantes é bastante fácil de entender de
uma perspectiva puramente estratégica. O Facebook é a mais
popular de todas as redes sociais, alcançando 1 bilhão de
usuários globais em 2011. Poucas mídias dão acesso a um
público maior, e certamente não da maneira interativa que ele
permite. Nos países considerados neste estudo, as taxas de pe-
netração no Facebook variam bastante. Nos Estados Unidos,
42% dos adultos estavam no Facebook em 2011, enquanto
na Espanha a taxa de penetração era de 33,5%.37 Comparado
a esses países, o Egito tem uma porcentagem muito peque-
na de usuários do Facebook: apenas 4% da população adulta, 257
embora em constante crescimento (Dubai School of Gover-
nment, 2011c). Não obstante essas diferenças, na época do
estudo, o Facebook era, nos três países, a rede social com o
maior número de usuários – no caso do Egito, por exemplo,
uma ínfima parcela de 0,15% era usuária do Twitter. Assim,
ao usarem o Facebook como base para seus esforços de mo-
bilização, os ativistas estavam concentrados na única rede em
que poderiam alcançar o maior número de usuários.
A popularidade conquistada pela rede como platafor-
ma de recrutamento, no entanto, não se limita ao tamanho
de sua base de usuários. Indiscutivelmente, o que torna esse
meio tão eficaz para atrair pessoas, incluindo aquelas sem

37. Os dados sobre o alcance na internet foram tirados do International


Telecommunications Union (2011), do Facebook (2011) e do Arab
Social Media Report (2011).
experiência anterior de participação política, é o fato de per-
mitir que os ativistas acessem as redes sociais locais “reais”
das pessoas. Em geral, o Facebook é usado para mediar o
relacionamento e o engajamento com uma comunidade lo-
cal de amigos e conhecidos, “articular conexões que tenham
alguma base offline” (Ellison et al., 2011, p. 134) e manter e
estender o capital social dos usuários” (Bourdieu, 1984). De
fato, muitos daqueles com quem meus entrevistados intera-
giram no Facebook eram amigos reais ou conhecidos pró-
ximos, em vez de “amigos do Facebook”. Assim, Malcolm
Gladwell se equivoca em parte ao afirmar que as mídias so-
ciais permitem apenas a construção de “laços fracos” – ou
pelo menos está errado quanto ao tipo de interação em que
as pessoas se engajam no Facebook.
Simultaneamente, mesmo esses “laços fracos” podem vir
258
a se tornar um veículo de mobilização. Como o sociólogo
Mark Granovetter (1974) afirmou: é por meio de laços fra-
cos que a informação é transmitida entre grupos, e não só
dentro deles. Para Caiti Lattimer, ativista do Occupy:

O Facebook permite que se compartilhem coisas com pes-


soas conhecidas apenas. […] O interessante é que ele permite
que se revelem opiniões privadas e próprias para as pessoas
com quem muitas vezes você só se encontrou uma vez e so-
bre quem não conhece nada. Assim, por exemplo, das 2 mil
pessoas de quem sou amigo no Facebook, tenho um relacio-
namento próximo com vinte delas, talvez trinta, com sorte.

Foi notável que muitas das pessoas que entrevistei no


Egito e na Tunísia, e em menor escala na Espanha e nos
Estados Unidos, tenham ido à primeira manifestação por si
mesmas. Fathma Righi, ativista tunisiana de 24 anos, lembra
que, em 14 de janeiro – o dia dos protestos decisivos na ca-
pital –, foi sozinha “porque nenhum dos meus amigos che-
gava”. Para Fathma, como para outros entrevistados, a mera
intenção declarada de se fazer presente proferida por muitos
nas páginas revolucionárias de Facebook de que ela partici-
pava parecia suficiente para convencê-la a aparecer. No seu
caso, foi também porque sentiu que “todos os tunisianos
eram meus irmãos. Eu não precisava estar com amigos. Eu
não estava com medo”. O Facebook passou a ser, para ela,
um termômetro do humor da nação, em vez de um mero
canal para interagir com as amigas.
O uso do Facebook como ferramenta de mobilização re-
flete as possibilidades tecnológicas desse meio e as formas
peculiares de apropriação que os ativistas criaram, trans-
formando-o de um símbolo de entretenimento corporativo
numa ferramenta de resistência. Desnecessário dizer que esse 259
processo não foi sem atritos. Os ativistas tiveram de enfrentar
repetidas censuras por parte desse serviço corporativo, como
o fechamento de páginas e contas. Além disso, precisavam
inventar novas formas de engajamento comunicativo, adap-
tadas aos meios de interação permitidos na rede. Isso tem
sido visível nas imagens e nas linguagens adotadas pelos ati-
vistas ao usar esse recurso e para penetrar em sua audiência.
Acima de tudo, o Facebook é um meio que privilegia
material visual, fotos, vídeos e curtidas. Como Segundo
González, membro da Juventud Sin Futuro, na Espanha,
observa: “No Facebook, não se lê um texto de seis parágra-
fos, você não compartilha isso. Ninguém faz isso. Mas se
você escreve uma frase em uma imagem, as pessoas com-
partilham. É uma cultura de imagens, de instantaneidade”.
Para o ativista do Occupy Andrew Conner, o desafio de usar
a rede como um canal de mobilização é o fato de que o “Fa-
cebook tem um público idiota”: “Se você publicar uma foto
estúpida ou um post bobo, sempre haverá mais curtidas do
que um post político que diga: ‘Isso é realmente importante,
venha hoje à noite ao parque’. O problema é que é incons-
ciente. Mais pessoas vão gostar da imagem de um gato do
que de uma mensagem do OWS dizendo que estamos sen-
do despejados”.
Apesar, porém, da leveza e, às vezes, da vulgaridade de seu
conteúdo, é justamente esse caráter não político e de massas
do Facebook, junto com a amplitude de sua base de usuários,
que o torna um local tão poderoso para a organização social.
Ali, ativistas podem fazer conexões com outras pessoas fora
da restrita comunidade ativista, pessoas que não comparti-
lharão automaticamente de seu idealismo e compromisso.
Como Ethan Zuckerman afirmou em sua própria “teo-
260
ria do gato fofo das mídias sociais”, ainda que a web 2.0
tenha sido projetada “para compartilhar fotos de gatos en-
graçados”, isso não significa que não seja adequada para o
ativismo. “Existe um verdadeiro desafio no mundo dos ga-
tos engraçadinhos. Tornar viral o ativismo provavelmente
significa torná-lo engraçado, além de político e comovente”
(2008). Em outras palavras, os ativistas precisam ser capa-
zes de se apropriar do tipo de comunicação predominan-
te nessas plataformas para os próprios objetivos. Como os
movimentos contemporâneos devem ser “populares”, dada a
pretensão de representar o povo, sua atuação no Facebook ao
menos os força a lidar com um público que usa redes sociais
sobretudo para fins de entretenimento, e não por questões
políticas. Da mesma forma, o uso de redes sociais dedicadas
a ativistas – como a espanhola N-1 adotada pelo movimento
dos indignados – só aumenta o risco de isolamento deles em
relação à sociedade em geral, deixando-os numa bolha.
Em segundo lugar, no Facebook, os ativistas recorreram
à linguagem informal e íntima que caracteriza a comunica-
ção entre os usuários. Como vimos nos capítulos anteriores,
ativistas como Wael Ghonim e Fabio Gandara criaram in-
terações emocionalmente carregadas com seu público para
sustentar um processo de identificação coletiva entre pessoas
que compartilham um sentido comum de vitimização diante
de um sistema de poder injusto. As identidades construídas
nas páginas do Facebook foram caracterizadas por essa pro-
funda abrangência que Ernesto Laclau considera uma carac-
terística dos movimentos populistas (2005). No caso da pá-
gina Kullena Khaled Said, foi a figura do próprio Khaled Said
que constituiu o ponto nodal inicial no processo de identifi-
cação. Mais tarde, a página recorreu ao imaginário da nação
e do egípcio para construir uma identificação mais ampla,
enquanto a força policial, odiada por diferentes setores da 261
sociedade egípcia, passou a atuar como um ponto focal ne-
gativo, fortalecendo o sentido de solidariedade entre os par-
ticipantes. Da mesma forma, no caso do Democracia Real
Ya, a autoidentificação como “pessoas comuns e normais” foi
bastante flexível. O que lhe deu alguma coerência, além do
apelo ao imaginário da ciberdemocracia e a promessa de par-
ticipação irrestrita, foram ataques verbais vibrantes dirigidos
a banqueiros e políticos. A coerência dessas identidades de-
pendia, portanto, não de alguma forma de solidez interna,
mas da oposição “nós versus eles”: as pessoas contra o sistema.
No caso do Occupy Wall Street, o processo de constru-
ção de identidade popular encontrou espaço não no Face-
book, mas principalmente no Tumblr We Are the 99 Percent,
que, ao publicar fotos e histórias de americanos em dificul-
dades, conseguiu capturar a imaginação de muitos apoiado-
res e simpatizantes. No Occupy, o Facebook foi inicialmente
desprezado como plataforma de mobilização. Quando usa-
do, havia poucos sinais da narrativa emocional convincente,
tão importante no Egito e na Espanha. No entanto, também
no caso do Occupy Wall Street, desde a primeira semana
de ocupação, os organizadores perceberam a importância
de melhorar a presença no Facebook e explorar o potencial
de condensação emocional. Aqui também a identidade dos
99% foi caracterizada por uma profunda indeterminação,
apesar da aparente precisão matemática. O que lhe deu cer-
ta coesão foi, mais uma vez, a oposição a um inimigo – nesse
caso, os financiadores de Wall Street.
Além de servir como um ponto de encontro emocional
para a construção de uma identidade popular, o Facebook
foi apropriado como “trampolim” para a participação em
protestos. Os líderes do movimento na Espanha e no Egito
262
– isso de novo não se aplica aos Estados Unidos – usaram o
Facebook para estimular um ímpeto para os próximos pro-
testos capaz de convencer as pessoas a irem às ruas. O fenô-
meno foi observado na análise das ações de Wael Ghonim,
no Egito, e Fabio Gandara e Pablo Gallego, na Espanha.
Esses “administradores ativistas” do Facebook evocavam
constantemente um sentimento entusiasmado de antecipa-
ção, um sentido de urgência sobre a necessidade de ir para
as ruas e um sentido de otimismo sobre a participação. A es-
sência geral dessas mensagens é resumida por um dos posts
na página do Democracia Real Ya, em março, dois meses
antes dos protestos, que proclamava “Isso vai ser grande!” e o
bombástico “A revolução começa no dia 15 de maio”. Como
Andrew Conner afirma: “É preciso fingir entusiasmo até
haver um verdadeiro entusiasmo”. Da mesma forma, vimos
o esforço que Wael Ghonim fez para combater o derrotismo
de alguns membros da página, reafirmando constantemente
sua confiança na honestidade dos usuários sobre a intenção
de participar do protesto de 25 de janeiro.
De fato, a questão da confiança é crucial para entender
os problemas com os quais os ativistas precisam lidar no uso
das mídias sociais. O psicólogo social Bert Klandermans
(1984) observou que uma das coisas que mais convencem
indivíduos a participar de protestos é “a impressão de que
outras pessoas também participarão”. Mas um dos princi-
pais problemas com a organização online é que a falta de
contato pessoal pode se tornar um obstáculo à construção da
confiança (Tarrow, 1998), dificultando a certeza dos usuários
em relação às intenções de outras pessoas. De certa forma,
pode-se ver a popularidade da função de contagem de con-
firmações nas páginas de eventos do Facebook como uma
tentativa de lidar com essa desconfiança constitutiva das in-
terações online, transmitindo a impressão de que “seremos 263
muitos”. Naturalmente, como vimos nos diferentes estudos
de caso, essas contagens quase nunca refletem o número real
de pessoas que participará das manifestações. Nos protestos
no Egito, na Espanha e nos Estados Unidos, compareceram
entre 10% e 50% dos que confirmaram presença no evento
do Facebook. No entanto, as confirmações, com toda a sua
capacidade de superestimar, dão a impressão, ou pelo menos
a ilusão necessária, de que existe um entusiasmo por trás do
evento e de que não haverá apenas alguns poucos enfrentan-
do forças policiais esmagadoras.

... o Twitter era nosso QG

“Hoje em dia, a maioria dos ativistas parece usar o Twitter”,


diz o militante egípcio Nour Ayman Nour. Isso resume bem
as evidências que emergiram de nossos diferentes estudos de
caso, pelo menos se, por “ativistas”, estivermos nos referindo
a participantes de movimentos sociais bastante envolvidos
ou de seus principais organizadores (Oberschall, 1973). Se o
Facebook é o equivalente ao que o Indymedia foi para o mo-
vimento antiglobalização, pode-se dizer que o Twitter agora
é análogo ao que as listas de discussão eram para os ativistas
anteriores: uma plataforma para organização e coordenação
internas. Mais uma vez, as diferenças entre as duas mídias
são evidentes pelo caráter móvel, em tempo real, do Twitter
e porque a rede de microblog tem um caráter generalista e
não específico para ativistas, sem requerer uma assinatura
especial, assim como serviços de correio ativistas, como Ri-
seup38 ou Aktivix.39
Como vimos, com rapidez e concisão, o Twitter se mos-
264
trou atraente para os ativistas como meio de transmissão das
atualizações minuto a minuto sobre os eventos que ocorrem
nas ruas, uma espécie de movimento equivalente ao C3 mili-
tar (Controle, Comando e Comunicações) – um quartel-ge-
neral do movimento, para usar a própria definição do ativis-
ta egípcio Ahmed Sabry –, ou um canal para comunicações
táticas internas sobre os movimentos das forças de seguran-
ça, sobre ataques e outros incidentes e sobre as necessidades
dos acampamentos de protesto, como suprimentos médicos
e equipamentos técnicos. Sally Zohney relata que “o Twitter
foi para mim a atualização minuto a minuto de 25, 26 e 27
de janeiro. Eu disse ok […], estamos nos reunindo na cidade
de Nasr naquela área e devemos evitá-la porque há polícia
etc.”. Da mesma forma, na Espanha, os manifestantes na

38. Disponível em: [Link] Acesso em: 15 out. 2020.


39. Disponível em: [Link] Acesso em: 15 out. 2020.
Puerta del Sol usaram o Twitter para dar atualizações sobre
ataques policiais e informar os apoiadores sobre as necessi-
dades materiais do acampamento. No Occupy Wall Street,
o Twitter foi adotado como ferramenta para todos os fins,
com o objetivo de coordenar pessoas no decorrer de mani-
festações, organizar suprimentos e divulgar ações. Para os
movimentos contemporâneos, o Twitter passou a ser um
centro ou ponto focal em suas comunicações em tempo real,
uma plataforma única, em que todas as informações podem
ser coletadas e reunidas num local disponibilizado a um pú-
blico disperso de participantes e simpatizantes.
Como também aconteceu com o Facebook, a importân-
cia do Twitter variou nos três contextos nacionais diferentes.
Embora tenha tido apenas um impacto limitado no Egito,
refletido sobretudo pela baixa taxa de penetração nesse país,
foi muito importante na Espanha e ainda mais nos Estados 265
Unidos, países com índices de penetração bem superiores (a
taxa de penetração do Twitter era de 7% nos Estados Unidos
em 2011 e, embora não tenha conseguido encontrar núme-
ros confiáveis para a Espanha, pode-se estimar um número
um pouco menor do que esse). Além da taxa de penetra-
ção, seria preciso considerar também a “taxa de aceitação”:
a porcentagem de manifestantes que usaram o serviço. Na
ausência de dados relevantes e confiáveis, é compreensível
que essa taxa de aceitação seja muito maior do que a de pe-
netração, haja vista a prevalência de uma população jovem e
de classe média entre os manifestantes.
Ainda que o uso do Twitter como dispositivo tático te-
nha sido bem documentado (ver, por exemplo, Aday et al.,
2010), nenhuma atenção foi dada à sua contribuição para a
construção emocional de um sentimento de união nos mo-
vimentos sociais. Esse fenômeno pode ser visto em muitas
conversas no Twitter entre aqueles que estão “nas ruas” e
aqueles que estão acompanhando eventos a distância.
Alguns ativistas também tentaram usar o Twitter como
ferramenta para ativar e recrutar participantes em potencial,
uma tarefa quase sempre feita via Facebook. No entanto, isso
se provou um fracasso, como vimos no caso da campanha de
lançamento excessivamente focada no Twitter do Occupy.
Em grande parte, isso é uma consequência da arquitetu-
ra comunicativa do site, por meio da qual, como Ahmed
Samih pontua, “faz-se comunicação direta em grupo sobre
assuntos muito específicos”, porque “é organizado em torno
de problemas com hashtag”. Quando ocorrem incidentes ou
eventos notáveis nas ruas, os fluxos do Twitter, como aqueles
usados por ativistas, mostram centenas de mensagens troca-
266
das a cada minuto. No entanto, essas discussões geralmente
atraem a atenção de uma fração de todos os participantes.
A especificidade das conversas no Twitter também pode
ser um obstáculo quando se trata de alcançar pessoas de fora
da comunidade ativista. Pessoas que seguem hashtags como
#OWS, #Tahrir ou #indignados não são exatamente usuá-
rios comuns da internet nem do Twitter. A menos que essas
hashtags se tornem trending topics, o que raramente aconte-
ce, os usuários precisam procurá-las de maneira proativa, o
que pressupõe que já tenham interesse no tema. Embora a
comunicação no Twitter reúna pessoas em torno de ques-
tões de interesse comum e permita discussões focadas, essa
especificidade também traz o risco de isolar os ativistas em
sua própria “comunidade virtual murada” (Ling, 2004). Isso
é algo de que os ativistas egípcios, em particular, tomaram
conhecimento, motivando o desenvolvimento de novas prá-
ticas de comunicação ativista, como #tweetashara3,40 que
combina novas práticas de mídia com o repertório clássico
de agitação ao nível das ruas.
A predileção dos ativistas pelo Twitter não pode ser
reduzida apenas a questões técnicas ou à suposta superio-
ridade da rede em relação ao Facebook; precisa ser enten-
dida como um reflexo do desejo dos ativistas por distinção
(Bourdieu, 1984) em relação à massa vulgar de usuários do
Facebook. Por meio do engajamento com o Twitter, os par-
ticipantes podem obter certo status, um “capital simbólico”,
nos termos de Bourdieu, que em grande parte se resume ao
fato de o Twitter ser mais exclusivo do que o Facebook, con-
siderando, entre outros fatores, sua ênfase nas informações
textuais. Dois testemunhos de ativistas ilustram esse ponto.
Elizabeth, participante do Occupy Wall Street, explica:
267
Não gosto do Facebook, não acredito nele. Acho uma óti-
ma ferramenta de negócios, mas, pessoalmente, não gosto da
ideia de que as pessoas ganhem dinheiro assistindo ao que
fazemos. Tenho problemas com isso. O Twitter talvez faça
a mesma coisa, mas o que se consegue lá é a notícia a cada
segundo. Essa é a coisa mais valiosa. Portanto, se você quer
notícias, o melhor é usar o Twitter, em vez de ir a qualquer
site ou até aos jornais.

Opinião similar tem Khaled, ativista egípcio de 24 anos:

Não sou um grande fã do Facebook, então não sigo de per-


to. Eu tinha uma conta e depois a desativei, porque naquele
momento o Facebook era muito pessoal: as pessoas tiravam

40. Tuitar as ruas. [N.T.]


fotos de biquíni, isso e aquilo, e publicavam. Era uma ferra-
menta importante para se conectar com velhos amigos, mas,
ao mesmo tempo, senti que era uma perda de tempo. Todo
mundo estava apenas se exibindo. Não senti muita substân-
cia nisso, o que me irritou. Não quero fazer isso, é perda de
tempo. Há coisas mais importantes que preciso fazer.

É fácil simpatizar com esse sentimento de frustração


diante da ociosidade que caracteriza tantas interações no
Facebook. Essa “descurtida” em relação ao Facebook, no en-
tanto, também evidencia o risco inerente do que Bourdieu
(1984) chama de “afinidades eletivas”, ou seja, a tendência
de “reunir pessoas que combinam” – nesse caso, ativistas com
outros ativistas.
Esse risco de isolamento, que, como visto no Capítulo 1,
268
é um efeito colateral negativo do aumento das possibilida-
des de conexão oferecidas pelas mídias sociais, é bem cap-
turado no testemunho da ativista egípcia Sally Zohney, que
explica a diferença entre as formas de interação disponíveis
no Twitter e no Facebook:

No Twitter, segue-se e é seguido por pessoas com opiniões


muito semelhantes […]. No Twitter, envolve-se com uma co-
munidade de pessoas que pensam da mesma forma. Com o
Facebook é diferente, porque são amigos. Por isso, geralmen-
te são pessoas que conhecemos antes da revolução, amigos ou
amigos de amigos que conhecemos na escola ou no trabalho.
Portanto, são pessoas que não têm necessariamente a mesma
mentalidade ou as mesmas ideologias. Então, elas entram em
muitos atritos, discussões e outras coisas. […] Minha irmã,
por exemplo, desfez amizade com muita gente durante a re-
volução, amigos que ela tinha desde o ensino médio.
Como Sally continua explicando, “todo mundo que se-
guimos na linha do tempo é igual. Então, achamos que todo
mundo no Egito pensa da mesma forma que nós e quer a re-
moção do CSFA. Todos queremos isso. Mas depois percebe-
mos que essas são as únicas pessoas que pensam como eu; o
resto do país não pensa o mesmo”. Esse risco de ficar fechado
numa “bolha ativista” é particularmente evidente nas intera-
ções dos ativistas no Twitter, mas, embora em menor grau, o
mesmo também se aplica ao Facebook. Isso não significa que
este seja melhor ou mais eficiente que o Twitter por causa da
arquitetura comunicativa específica ou dos serviços que ofere-
ce. Não é uma questão de tecnologia, eficiência ou qualidade
de serviço, e sim de práticas sociais e culturais transmitidas
por esse novo meio. Como vimos antes, as mídias sociais – e o
Twitter em particular – refletem a tendência das comunicações
móveis de “nos unir” enquanto “nos separa” (Ling e Campbell, 269
2011). Essa ameaça é um lembrete da importância contínua da
comunicação nas ruas, que, via de regra, continua sendo a me-
lhor maneira pela qual os movimentos sociais podem alcançar
a sociedade em geral, sem a mediação da grande mídia.

Locais de tendência

Para entender melhor a dinâmica dos movimentos sociais


contemporâneos, precisamos dissecar a complexa interação
entre mídias sociais, espaço público e localidade, sugerida
pela metáfora da coreografia. Os estudos de caso considera-
dos neste livro ressaltam como a ascensão das mídias sociais
não implica uma diminuição da importância da política de
rua ou da comunicação face a face nos espaços físicos. A co-
municação nas ruas – sob a forma de agitação face a face,
panfletagem e práticas similares – continua a desempenhar
um papel-chave como meio de mobilização. Como visto no
contexto da revolução egípcia, foi fundamental para o suces-
so da revolução a interação face a face, nas ruas do Cairo, en-
tre a shabab-al-Facebook e os shaabi, as classes mais baixas. Da
mesma forma, os indignados espanhóis, depois de iniciarem
a campanha de lançamento para o 15-M, logo investiram na
criação de grupos locais responsáveis ​​por chegar às pessoas
que não tinham conexão com a internet ou uma conta no
Facebook. No caso do Occupy, esse trabalho de mobilização
nas ruas teve um papel menor em comparação com o Egito e
a Espanha, mas ativistas também recorreram a pôsteres, pan-
fletos e redes de contatos pessoais para mobilizar as pessoas.
Em suma, conquanto as mídias sociais fossem importantes
para unir um grupo ativista de jovens da classe média, a co-
270
municação nas ruas foi o que permitiu que esses movimentos
se expandissem e se tornassem verdadeiramente “populares”,
quebrando a barreira da brecha digital e permitindo que os
membros da chamada “geração da internet” se engajassem
com “aqueles que não têm uma conta no Facebook”, para
usar a expressão do ativista do Occupy Andrew Conner.
Além de explorarem as formas existentes de espaço pú-
blico, os ativistas também se engajaram ativamente na cria-
ção de novos contextos de proximidade. Ao contrário da
visão de teóricos da rede como Castells, que argumentaram
que as novas mídias trazem consigo automaticamente uma
diminuição da importância do lugar, o uso das mídias sociais
pelos ativistas contemporâneos se relaciona, em grande par-
te, à reconstrução e à facilitação de formas de proximidade
física. Elas contribuem para a construção de um sentido de
localidade política ou de uma “localidade de rede” política
(Gordon e Souza e Silva, 2011), dando ao movimento uma
base no espaço público. Locais públicos ocupados, como
Puerta del Sol, praça Tahrir, Zuccotti Park – mas também
a praça Syntagma, em Atenas, ou a praça Kashba e a ave-
nida Bourghiba, em Túnis –, adquiriram uma importância
simbólica extraordinária nos movimentos contemporâneos,
como espaços para a reunião de um círculo ativista que não
se sente representado pelas organizações e pelas instituições
existentes. As intensas mensagens sobre esses lugares por
meio de páginas do Facebook, fluxos do Twitter e blogs
ativistas os transformaram no que poderíamos chamar –
brincando com a noção do Twitter de trending topic – de
trending places: locais de tendência, áreas para encontros mag-
néticos, assembleias face a face, cujo poder sedutor depende,
em grande parte, do intenso fluxo de mensagens que irradia
deles, o que, por sua vez, atrai pessoas em sua direção.
Com frequência, as mídias sociais são culpadas por nos 271
distrair daquilo que devemos fazer ou por nos inundar de
mensagens, aumentando a miséria da sobrecarga de infor-
mações. Em seu uso ativista, no entanto, costumam servir
como um meio de “concentrar” a atenção e as emoções das
pessoas, funcionando como o que o teórico da tecnologia
Albert Borgmann (1984) chamou de “práticas focais”, prá-
ticas que nos “recentram”, dando-nos um sentido de locali-
zação no mundo. Daí a popularidade de hashtags do Twitter
com o nome de locais específicos associados aos movimen-
tos, como #Tahrir, #Sol, #Zuccotti, que então se tornam alvo
de um investimento emocional, exemplificado por mensa-
gens como “Eu acredito em #Tahrir”.41 Podemos voltar aqui
a Paolo Virno (2004), citado no Capítulo 1, que, brincan-
do com o termo grego topos, o qual abrange tanto o lugar

41. Tuíte do usuário @Aujo808, 14 nov. 2011.


(como em topologia) quanto o idioma (como em tópico),
afirmou que a multidão não tem um local em comum, mas
uma linguagem comum. De certa forma, é como se, com os
movimentos contemporâneos, fosse necessário reverter tal
afirmação. Nos movimentos populares contemporâneos, é
como se o topos de tópico fosse idêntico ao topos de lugar.
Questões em discussão como “questões de preocupação”
(Latour, 2005) dificilmente podem ser extraídas dos locais
específicos em que os ativistas lutam contra eles.
Como consequência desse pesado investimento simbólico
nas praças ocupadas, o espaço de participação dos movimen-
tos populares contemporâneos adquire uma estrutura concên-
trica e centrípeta que ressoa com a descrição da “textura” de-
senvolvida por Henri Lefebvre (1991/1974) em A produção do
espaço. De acordo com o autor, as texturas são “compostas por
um grande espaço coberto por redes ou teias”. Embora mol-
272 dadas por processos comunicativos que, por natureza, são am-
plos, elas tendem a se concentrar em lugares ou “monumentos
[que] constituem os pontos fortes, o nexo ou as âncoras dessas
redes […], as propriedades de uma textura espacial são fixadas
num único ponto: santuário, trono, assento, cadeira presiden-
cial ou similar” (Lefebvre, 1991/1974, p. 222, 225). Da mesma
forma, as praças ocupadas nos protestos contemporâneos pa-
recem uma espécie de “monumento” no centro da textura da
participação. São pontos fixos que transfixam, que capturam
e atraem o público da internet a distância. Junto com os “sig-
nificantes vazios” que dominam as comunicações online dos
ativistas e as identidades que constroem, esses lugares ofere-
cem “significantes completos”, cheios de histórias, tradições
políticas e densidade corporal ou “efervescência coletiva” das
reuniões populares (Durkheim, 1965/1912). Diante da flexi-
bilidade e da fluidez das estruturas organizacionais dos mo-
vimentos contemporâneos, mas também da indeterminação
das identidades que esses movimentos constroem por meio
das interações nas mídias sociais, o papel desses lugares como
pontos focais é o que permite que os movimentos se unam e
se mantenham juntos.
A leitora e o leitor poderão perguntar neste momento:
lugares específicos sempre foram importantes para movi-
mentos revolucionários? O que torna os locais de protesto
contemporâneos tão excepcionais? É verdade que todas as
revoluções tiveram seus lugares simbólicos que adquiriram
uma qualidade quase sagrada para os movimentos investidos
nelas: a Bastilha em 1789, o Palácio de Inverno em outubro
de 1917, a Sorbonne em maio de 1968. No entanto, com os
movimentos de “ocupação de praças” de 2011, parece haver
algo mais cativante. As praças ocupadas se transformaram
em palcos para apresentações de protesto e fontes de iden-
tificação para os movimentos sociais que delas se apropria-
ram, pontos nodais capazes de manter juntos movimentos 273
que, de outra forma, seriam privados de uma sólida estrutura
organizacional. Assim, lugares como Zuccotti Park, Puerta
del Sol e praça Tahrir passaram a agir como “líderes im-
pessoais”, compensando a falta de uma liderança visível e
a relutância dos líderes em ser vistos como tais. Não sendo
capaz de se apegar a uma bandeira, a um partido político ou
a um culto à personalidade, e tendo de moderar a liquidez
das comunicações nas mídias sociais, o movimento social
contemporâneo se apega a um lugar, como o palco de sua
história, o berço (e túmulo) do seu desenvolvimento.

Conclusão

A organização líquida praticada por ativistas contemporâneos


no uso das mídias sociais não significa automaticamente a
eliminação da liderança. Pelo contrário, a adoção das mídias
sociais entre ativistas é acompanhada pelo surgimento de for-
mas de liderança branda e emocional, em geral indiretas e in-
visíveis, mas mesmo assim eficazes em dar à ação coletiva um
grau de coerência e um sentido de direção. É esse tipo de li-
derança suave e dialógica que o termo “coreografia” se esforça
para capturar. Assim, os feitos dos movimentos contemporâ-
neos se baseiam numa profunda contradição entre o discurso
da falta de liderança e da horizontalidade, de um lado, e de
práticas organizacionais em que a liderança continua a existir,
embora de forma dialógica ou interativa, de outro. Possivel-
mente, sempre continuará a existir, graças ao caráter assimé-
trico do processo de mobilização e à necessidade de pontos
focais no processo de reunião de pessoas no espaço público.
Uma questão adicional a ser levada em consideração é
o fato de que as formas de liderança suave e organização
líquida possibilitadas pelo uso das mídias sociais, ainda que
274
eficazes na criação de cenários para ação e na coreografia de
eventos de protesto específicos no curto prazo, podem se
mostrar ineficazes no longo prazo em direcionar a ação co-
letiva dos movimentos sociais. Esse risco foi destacado pe-
las crises experimentadas pelos três movimentos discutidos
neste livro, uma vez que suas principais ocupações, da praça
Tahrir ao Zuccotti Park, foram elevadas e depois privadas
daquele mesmo espaço ao qual, em grande parte, deviam a
identidade e o sentido de unidade. As consequências e os
limites desse modelo de organização líquida e a liderança
coreográfica “invisível” subjacente serão discutidos na Con-
clusão, que analisará suas implicações teóricas e políticas,
prestando particular atenção ao aspecto da sustentabilidade
dos movimentos sociais contemporâneos.
Conclusão

Eu acredito em #Tahrir
@aujo808, 14 de novembro de 2011
“As ruas são capital morto”, proclamou o coletivo
artístico Critical Art Ensemble (1996), em 1995, explican-
do que “uma força de oposição conquistar pontos-chave
no espaço físico não ameaça uma instituição”. Em vez de
ataques físicos, será necessário organizar ataques virtuais;
em vez de ocupações físicas, ocupações virtuais; em vez de
manifestações físicas, manifestações virtuais. Esse chamado 277
foi indicativo do espírito predominante entre muitos gru-
pos ativistas em meados dos anos 1990. Francis Fukuyama
acabara de anunciar que havíamos chegamos ao “fim da his-
tória” (1992), e o grito de guerra de Thatcher “não há alter-
nativa” ainda soava verdadeiro para a maioria da população
dos países ocidentais. O colapso financeiro global de 2008
ainda estava longe, e a bolha da “nova economia” ainda não
estourara. Os únicos vislumbres de esperança para os radi-
cais vinham das montanhas do sudeste do México, onde os
zapatistas haviam começado sua insurreição, para a qual o
Critical Art Ensemble forneceu suporte virtual invadindo
páginas na internet do governo mexicano.
Em face da latência social e política e do esvaziamento
do espaço público dos protestos políticos que caracteriza-
ram esses anos, a ascensão da internet veio a ser aclamada
como abertura de um novo espaço em que uma “cultura
livre” (Kelty, 2008) poderia se desenvolver. Enquanto John
Perry Barlow, do Grateful Dead, via a web como uma nova
“fronteira eletrônica”, muitos ativistas lhe deram as boas-
-vindas como um novo playground político. A ascensão
do “hackerativismo” levou muitos a verem a internet como
uma fuga do espaço público vazio (McCaughey e Ayers,
2003). Fechados em seus quartos, com os olhos fixos em te-
las cintilantes, navegando em milhares de sites e bancos de
dados, invadindo servidores governamentais e corporativos,
os ativistas formariam comunidades virtuais e travariam
batalhas contra o Estado corporativo por meio das brechas
do ciberespaço, como os personagens de um romance de
William Gibson.
As práticas de mídia social dos movimentos popula-
278 res de 2011 nos exortam a nos afastar dessa visão escapista
da internet como um espaço virtual no qual nos refugiar
da crise do espaço público. O que estamos testemunhando
agora é um uso das redes sociais a serviço da reapropria-
ção do espaço público físico (Lefebvre, 1991/1974), em vez
de sua substituição por um virtual, um uso que tentamos
capturar com a noção de “coreografia de assembleia”. Nes-
se nível, a escolha do termo “coreografia” sugere que esse
processo de reconstrução do espaço público não é com-
pletamente espontâneo e improvisado. De fato, apesar das
repetidas reivindicações de não liderança, os movimentos so-
ciais contemporâneos têm os próprios “coreógrafos”, que não são
idênticos a “dançarinos” ou participantes. Como acontece na
dança, nos movimentos contemporâneos, esses coreógrafos
ou “líderes suaves” não são os mais visíveis no palco, ou pelo
menos não tomam o centro do palco, por assim dizer. Mas,
ao aproveitarem a emocionalidade dos participantes e dire-
cioná-la, suas ações têm influência profunda na exibição da
ação coletiva. Nesta Conclusão, quero refletir sobre as im-
plicações teóricas e políticas do uso das mídias sociais nos
movimentos populares contemporâneos. Para isso, vou me
concentrar em três questões fundamentais que emergiram
do estudo anterior: o caráter emocional da mídia social nos
movimentos sociais, a tensão entre espontaneidade e orga-
nização e a ameaça de efemeridade.

A coesão emocional do “povo”

Lendo os milhares de mensagens de status de Facebook,


comentários, tuítes e postagens em blogs que anteciparam e
depois comemoraram o “pouso” ou o “salto de paraquedas”
279
dos movimentos populares de 2011 no espaço público, é
comum encontrar expressões espaciais metafóricas como
“pular para fora”, “pular para baixo” ou “romper a bolha do
ativismo na internet”. Essas mensagens refletem a constru-
ção de um esforço emocional para se afastar de um sentimen-
to de isolamento, dispersão e passividade que os ativistas
veem como a marca da experiência social não só em regi-
mes autoritários como o Egito de Mubarak, mas também
em sociedades vitimadas pelo ataque neoliberal a todas as
formas de espaço público. Diante dessa situação de crise do
espaço público, as mídias sociais se tornaram canais emocionais
para reconstruir um sentido de união entre um ativismo espa-
cialmente disperso, de modo a facilitar sua união física no espaço
público. Essa descoberta contraria muitos estudos sobre novas
mídias, que tendem a localizá-las numa “realidade virtual”,
num “ciberespaço” (McCaughey e Ayers, 2003) ou numa “rede
de cérebros” (Castells, 2009) destacada da realidade geográfica.
Mas isso é corroborado por pesquisas recentes que identificam um
renascimento da localidade em novas práticas de mídia (Gordon
e Souza e Silva, 2011).
Não há dúvida de que, para quase todos os ativistas que
entrevistei, a internet sozinha não é a solução para a cri-
se do espaço público. Na verdade, embora os movimentos
discutidos neste livro tenham visto seus primeiros núcleos
emergirem em discussões online, são marcados por uma
sensação de vergonha por se tratar de públicos baseados na
internet: “Não somos pessoas de comentar e curtir”. Ex-
plorando essa vergonha, até o regime de Mubarak tentou
desmerecer a credibilidade do movimento pró-democracia,
ridicularizando-o como “povo do Facebook”, revolucioná-
rios de poltrona que nunca teriam feito aquele salto “das
280 telas para as ruas”. “Não estamos no Facebook, estamos
nas ruas”, gritaram os indignados espanhóis em resposta,
expressando a convicção de que o espaço físico, em vez do
virtual, é o principal locus da política de base. “Essa não
é uma ciberutopia”, diz Shane Gill em linha semelhante,
criticando os “tecnoutópicos” que querem reduzir o movi-
mento às suas comunicações na internet.
É verdade que o Democracia Real Ya e outros grupos
realizam algumas de suas reuniões online, e que os grupos
Occupy usam serviços de videoconferência e de voz como
o Mumble para se engajar em formas de interação que
transcendem os limites físicos da localização. Mas o mais
emocionante e “contagioso” sobre esses movimentos, o que
capturou a imaginação do público, não são as sessões de dis-
cussão abstratas nos fóruns da internet, e sim os acampa-
mentos de protesto, as assembleias, as manifestações, os atos
e marchas populares no local – variações múltiplas de uma
política das ruas realizada “ombro a ombro”, em vez de peer
to peer.42 A comunicação na internet e nas mídias sociais, em
particular, são importantes apenas como meios para facilitar
essas reuniões. Essas tecnologias não podem substituir o es-
paço público por uma “esfera pública virtual” (Papacharissi,
2002), mas somente redefinir um novo sentido de espaço
público, remodelando a maneira como as pessoas se reúnem
nas ruas. Quando não estão conectadas à construção de reu-
niões públicas, as redes sociais também podem correr o risco
de isolar ativistas de um amplo círculo do movimento, como
vimos ao falar sobre a obsessão dos ativistas pelo Twitter no
capítulo anterior.
Para entender o trabalho dessa reconstrução mediada
do espaço público operado por ativistas no uso nas mídias
sociais, é crucial apreciar o caráter emocional e não “in- 281
formacional” dessa operação. Ativistas digitais como Wael
Ghonim, no Egito, e Fabio Gandara, na Espanha, explo-
raram habilmente o caráter pessoal das mídias sociais, sua
capacidade de se tornar canais de proximidade e, ao mesmo
tempo, de conversas públicas. Eles usaram as mídias sociais
para construir uma tensão emocional, conectando as intera-
ções altamente dispersas e individualizadas que as pessoas
mantinham por meio do Facebook, do Twitter e de outras
mídias sociais à imersão corporal das reuniões coletivas.
Essas formas de comunicação contribuíram para criar um
contagioso sentido de antecipação ou ímpeto antes dos pro-

42. Peer to peer é uma arquitetura de redes de computadores em que cada


um dos pontos ou nós da rede funciona tanto como cliente quanto
como servidor, permitindo compartilhamentos de serviços e dados
sem a necessidade de um servidor central. [N.T.]
testos e uma atração emocional em torno das manifestações
em massa para sustentar a participação após o desembarque
do movimento no espaço público.
A qualidade emocional das comunicações nos movi-
mentos contemporâneos precisa ser entendida em conjunto
com o caráter “popular” desses movimentos. Em sua discus-
são sobre “populismo”, Laclau (2005) já havia observado que
a construção simbólica do “povo” como sujeito político tem
uma profunda dimensão “afetiva”. Como vimos em nos-
sos estudos de caso, as redes sociais podem ser usadas para
construir um sentido de solidariedade dentro de um círculo
ativista diversificado, compartilhando um sentido comum
de indignação, raiva, frustração e percepção de vitimização
compartilhada diante de um sistema corrupto. As mídias
sociais passam a ser o polo de “aglutinação”, ou melhor, de
282 “concentração”, desses sentimentos individuais, transfor-
mando-os em paixões políticas dentro de uma narrativa de
reunião popular.
As implicações dessa qualidade emocional das formas
de mobilização praticadas pelos movimentos populares
contemporâneos giram em torno da necessidade de se afas-
tar de entendimentos tecnodeterministas e cognitivistas
das mídias sociais como canais de informação, desenvol-
vidos por teóricos como Clay Shirky (2008; 2010) e Ma-
nuel Castells (2009). Essa linha de análise popularizou a
visão das mídias sociais como uma espécie de dispositivo
C3 (Comando, Controle e Comunicação) dos movimen-
tos sociais contemporâneos, conferindo-lhes uma vanta-
gem tecnológica sobre um aparato estatal lento. Essa visão
entende os movimentos sociais como grupos insurgentes
quase militares, enxames ou multidões inteligentes (ver,
por exemplo, Arquilla e Ronfeldt, 2001; Rheingold, 2003;
Hardt e Negri, 2005), reduzindo suas comunicações a puras
questões de eficiência.
É verdade, como foi documentado em diferentes mo-
mentos deste livro, que movimentos contemporâneos usam
as mídias sociais também para fins táticos, isto é, “práticos”:
trocar informações sobre a situação nas ruas e compensar
a falta de uma estrutura de comando linear. No entanto, a
comunicação tática também tem uma dimensão emocional
profunda, como visto, por exemplo, no uso do Twitter pelos
ativistas do Occupy para a coordenação após o despejo do
Zuccotti Park. Apesar de tudo, como foi demonstrado no
decorrer do livro, o papel mais importante das redes sociais
reside na construção de um sentimento emocional de união
entre os participantes dispersos, e não na coordenação de
operações de “combate” nas ruas. 283
Essa qualidade emocional do uso ativista das mídias
sociais é um lembrete do fato de que o entendimento das
comunicações nos movimentos sociais não pode ser redu-
zido a fatores puramente técnicos e, mais importante, que
não pode haver “conserto tecnológico” para o problema da
ação coletiva. Nenhum aplicativo do Android ou do iPho-
ne, nenhum software de mapeamento, nenhum serviço de
mensagem instantânea ou rede social, nenhum sistema de
alerta de detenções, nenhuma plataforma de votação online
jamais resolverá tecnicamente a questão da ação coletiva, de
como mobilizar e organizar pessoas. Isso pode muito bem
ser o sonho de um web designer, mas, da mesma forma, tam-
bém deve ser sempre o pesadelo de um ativista. O sucesso
dos movimentos populares ainda está, em grande parte, na
habilidade de organização de seus ativistas e na capacidade
de criar uma sensação convincente de união capaz de iniciar
a unidade de um círculo ativista díspar. Podemos afirmar
que os movimentos contemporâneos poderiam se dar bem
o suficiente sem as possibilidades táticas oferecidas pelas
redes sociais. Mas do que não podem prescindir é (ou se
saem melhor com) a capacidade de tais mídias se tornarem
instrumentos de uma narração emocional capaz de motivar os
indivíduos a irem para as ruas.

Espontaneidade por design

A mudança “da rede para as ruas” não foi realizada apenas


por motivos instrumentais, a fim de atravessar a brecha di-
gital e engajar as (muitas) pessoas “que não estão no Face-
book”. É também um reflexo da valorização antiautoritária
284
dos movimentos populares contemporâneos em relação ao
imediatismo e às relações face a face. Esses movimentos
lutam contra instituições que julgam ser burocráticas, alie-
nantes, piramidais, superestruturadas e opacas. Rejeitando
a distância entre as pessoas e o poder que essas instituições
estabelecem, os movimentos contemporâneos se caracteri-
zam por um esforço de franqueza de inspiração anarquista:
ação direta, democracia direta, contato humano direto. Essa
franqueza como um desejo de desintermediação é visível na
desconfiança dos movimentos em relação aos mecanismos
de delegação e representação das organizações tradicionais e
na adoção de formas líquidas de organização.
O paradoxo, porém, é que essa desintermediação e in-
teração personalizada, projetadas para permitir a constru-
ção de imediatismo e relações humanas “autênticas”, têm
como premissa processos complexos de mediação técnica e
simbólica, dos quais as redes sociais são só as manifestações
mais evidentes. É de fato notável como, apesar das reivindi-
cações de espontaneidade feitas por esses movimentos, eles
são caracterizados por tentativas de gerenciar ou projetar a
“revolução” que, historicamente, é sem precedentes – como
exemplificado pelo uso do Facebook para fixar datas de pro-
testos. Quando no passado aconteceu de pessoas anuncia-
rem “a revolução” nesta ou naquela data, como fizeram Wael
Ghonim, no Egito, e Fabio Gandara e Pablo Gallego, na
Espanha? É como se, no contexto de uma sociedade “mediatiza-
da”, o imediatismo (por definição, a ausência de mediação) não
pudesse ser sustentado sem ser de todo mediado. É nesse nível de
mediação que se desenvolvem formas de liderança suaves,
indiretas e invisíveis ou “coreográficas”.
Os ativistas precisam perpetuamente dissipar as teorias
da conspiração que alegam que há alguém ou algo “por trás” 285
de seus protestos – seja Israel, CIA, Hamas ou Sérvia (sic!),
no caso do Egito; o Partido Democrata, o dinheiro de Geor-
ge Soros ou “os canadenses” (sic!), no caso do Occupy; ou o
Partido Socialista (PSOE), ou mesmo os jesuítas (sic!), no
caso dos indignados espanhóis. A suspeita que os movimen-
tos sociais precisam combater repetidas vezes é a ideia de
que suas iniciativas são apenas um empreendimento “forja-
do”, fantoches ingênuos de alguém que os manipula por trás.
Naturalmente, essas teorias da conspiração são ridículas e
contribuem para propagandear positivamente o movimento,
mostrando quão obtusos são seus oponentes políticos. No
entanto, estes estão certos ao levantar a suspeita de que tais
movimentos não são completamente “espontâneos” e que,
de certa forma, “alguém puxa as cordas”. Mas os “ventrílo-
quos” aqui são os próprios participantes, em particular os
membros mais comprometidos, que dedicam muito tempo
ao movimento e se tornam seus comunicadores e organiza-
dores, ou “líderes”.
Os movimentos sociais contemporâneos enfatizam
muito a contribuição ativa dos participantes individualmen-
te, mas não existe participação irrestrita e espontaneidade
“pura” (Gramsci, 1971). É verdade que assembleias gerais,
acampamentos de protesto, comissões de trabalho e afins
são espaços que permitem a autoexpressão e a improvisa-
ção. Mas aqui deparamos com um paradoxo: para que essa
espontaneidade se desdobre, é necessário um trabalho oculto de
montagem de cenário conduzido por um núcleo de organizadores
principais, em torno do qual outros círculos podem se cristalizar
aos poucos e sem cuja presença eles aparentemente não se cris-
talizariam. A espontaneidade dos movimentos contempo-
286 râneos é, portanto, organizada, justamente por ser mediada
num contexto no qual comunicação e organização se tor-
nam quase indistinguíveis uma da outra.
O problema ético levantado por esse tipo de liderança
“coreográfica” não é a presença de líderes como tais, e sim
a negação categórica da existência de líderes de qualquer
tipo. O que me preocupa com essa negação é a capacidade
de incentivar a falta de responsabilidade entre os líderes do
movimento. Veja, por exemplo, Wael Ghonim, que sempre
rejeitou com veemência o rótulo de líder. “Esta é a Revolu-
ção 2.0: ninguém era um herói porque todo mundo era um
herói”, escreveu em 13 de fevereiro de 2011, num tuíte re-
tuitado mais de cem vezes. Sem dúvida, há alguma verdade
nessa afirmação. A revolução egípcia teve sucesso por causa
da participação heroica e criativa de centenas de milhares
de pessoas, centenas das quais perderam a vida durante os
gloriosos “dezoito dias” e depois. Mas quem poderia negar
que Ghonim, ao lado de muitos ativistas influentes, como
Ahmed Maher, do 6 de Abril, teve um papel importante
na formação do surgimento do movimento? Na verdade, ele
era um líder de algum tipo, um administrador do Facebook
e um “líder do Facebook” que, ao lado de muitos líderes nas
ruas, foi fundamental para abrir aquele espaço participativo
que constituía o palco da revolução egípcia.
Num aspecto negativo, no entanto, Ghonim também foi
fundamental para fechar esse espaço. Quando Mubarak re-
nunciou, em 11 de fevereiro, Ghonim tuitou: “Missão cum-
prida! Obrigado a todos os bravos jovens egípcios. #Jan25”.
Ironicamente, isso simulava a mensagem que alguns anos
antes fora enviada por um porta-aviões de George Bush, que
se arrependeria depois de pensar que a Guerra do Iraque
terminara. Da mesma forma, os egípcios logo perceberam 287
que não haviam vencido, ou não tão plenamente quanto
esperavam. Eles aprenderam por experiência própria que
o Conselho Militar (CSFA) que sucedeu Mubarak não era
tão diferente de seu falecido mestre. Mais tarde, lamenta-
riam ter deixado a praça sem garantir que o alto escalão
militar não ficasse no lugar do ditador. Como relata a ati-
vista egípcia Nora Shalaby, muitas pessoas no movimento
se ressentiram em relação a Ghonim por seu famoso tuíte,
precisamente por causa da percepção de que sua página no
Facebook teve tanta influência na ação das pessoas que, ao
enviar a mensagem, ele convenceu muitos de que era hora
de ir para casa.
O tuíte de Ghonim não era apenas uma opinião, por mais
que fingisse ser isso. Sua mensagem teve um efeito emocio-
nal concreto, ainda que indireto e invisível: contribuiu para a
criação de um clima de celebração coletivo que levou muitas
pessoas a pensar que realmente a revolução havia atingido
seus objetivos e que poderiam voltar para suas próprias vidas.
Este é o problema dos “antilíderes” (Bennett, 2011), ou lí-
deres relutantes, dos movimentos sociais contemporâneos: ao
se recusarem a admitir que são líderes, podem ser isentados
quando fazem algo errado. O problema, em outras palavras,
é irresponsabilidade, o mesmo que Jo Freeman identificou
ao olhar para o movimento feminista das décadas de 1960
e 1970. Parece que estamos sempre enfrentando os mesmos
problemas, e a tecnologia da comunicação não cumpriu sua
promessa de corrigir problemas organizacionais por meio de
suas maravilhosas possibilidades.
Minhas observações sobre a liderança de facto nos mo-
288
vimentos considerados neste livro não devem ser tomadas
como moralistas. Não tenho nada além de elogios às pes-
soas que se empenham tanto na criação e na manutenção
dos vários movimentos e por todo o seu trabalho quase
invisível de coreografar as ações coletivas. Além disso, não
acho que líderes, “organizadores” ou participantes altamen-
te engajados e influentes – se assim preferir – não estejam
cumprindo ou estejam traindo os ideais de seus movimen-
tos. Pelo contrário, acho que são os ideais e, em particular, a
ideologia do “horizontalismo” que estão “traindo” os ativis-
tas pela incapacidade de captar empiricamente a essência
das práticas reais que ocorrem nas ruas. Em outras pala-
vras, essa não é uma crítica “imanente” do tipo adorniana
(Adorno, 1976): a de não cumprir os ideais de alguém. É,
por assim dizer, transcendental: uma crítica de não “pen-
sar” sobre as práticas.
Em resumo, eu argumentaria que os ativistas não pre-
cisam mudar suas práticas comunicativas e organizacionais
para torná-las mais “horizontais”; eles não precisam traba-
lhar sob a compulsão otimista de alcançar uma igualdade
utópica de engajamento que nunca será realizada por mais
que tentemos. Em vez disso, precisamos inventar novos con-
ceitos e novas práticas mais adequados para capturar o fato de
que, apesar de todos os seus ideais participativos, o processo de
mobilização sempre envolve desigualdades e assimetrias nas
quais há pessoas que mobilizam e pessoas que são mobilizadas,
pessoas que lideram e pessoas que seguem, e as duas categorias só
se sobrepõem parcialmente. Isso não é um convite a que re-
tornemos aos antigos dogmas tranquilizadores do leninismo
com seu essencialismo de classe, sua teoria do partido de
vanguarda e afins, e sim um apelo à invenção de novas ma-
neiras de entender os processos pelos quais os movimentos 289
sociais são desencadeados e guiados, processos que não se
encaixam no imaginário de redes horizontais. A metáfora
da coreografia pode ser só um dispositivo teórico a ajudar no
desenvolvimento desse entendimento alternativo.

Entre efemeridade e continuidade

No cerne da cultura dos movimentos sociais contemporâ-


neos, existe uma terceira tensão fundamental: aquela entre
efemeridade e fixidez. Por um lado, os movimentos po-
pulares contemporâneos são caracterizados por formas de
organização “líquidas”, em que o uso das mídias sociais por
páginas de redes sociais é voltado para substituir as ten-
dências autoritárias de organizações “sólidas” como par-
tidos e sindicatos, no esforço de evitar a “lei de ferro da
oligarquia” (Michels, 1999). Por outro, esses movimentos
exigem a evocação de um sentido de localidade ou “loca-
lidade líquida”, o que envolve conceder-lhes um grau de
fixidez, um “ponto nodal” em sua textura de participação.
Como vimos no Capítulo 5, a escolha das mídias so-
ciais pelos ativistas como meio preferido de comunicação é
paralela à adoção de uma cultura de instantaneidade, per-
feitamente compatível com as redes sociais como Twitter e
Facebook, com foco no “aqui e agora” – ou, em termos mais
negativos, com sua efemeridade constitutiva. Esses meios
de comunicação podem, portanto, ser vistos como o equiva-
lente contemporâneo às tradicionais “efemérides” dos movi-
mentos, como panfletos e cartazes. De fato, são ainda mais
efêmeros – “efemérides efêmeras”, por assim dizer. É notável
como, em seu uso ativista, as mídias sociais ficam fortemente
290 ligadas a ações ou eventos específicos, como exemplificado
pela funcionalidade dos eventos do Facebook que se tornou
tão popular entre ativistas. Depois que esses eventos termi-
nam, as mensagens a eles vinculadas desaparecem no lixo
eletrônico e passam a ser de interesse apenas do pesquisador
ou dos curiosos anormais, sem mencionar que são muito di-
fíceis de recuperar. Indicativo aqui é o fato de que só é possí-
vel voltar cinco dias em busca de tuítes anteriores. “Últimas
coisas em primeiro lugar” seria um slogan adequado para o
Twitter, um meio que concentra constantemente os usuários
nas últimas notícias e eventos.
Além da efemeridade alimentada ativamente por meio
do uso de mídias sociais, os movimentos contemporâneos
também são caracterizados por um desejo de continuidade
e permanência, como atestado, sobretudo, por suas ocupa-
ções de longo prazo em espaços públicos. As práticas reali-
zadas nas praças ocupadas passam a assemelhar-se a rituais
de reuniões populares e de enraizamento, remanescentes
do plantio da árvore da liberdade em praças públicas du-
rante a Revolução Francesa. A construção desses centros
pelos movimentos, que vai contra a lógica das visões da so-
ciedade contemporânea como uma “rede sem centros”, nos
insta a abandonar as desculpas pela dispersão subjacente
à teorização de Castells e Hardt e Negri, dando atenção
à importância contínua de práticas de “centralização” em
grupos sociais (Laclau, 2005).
Esse compromisso em estabelecer pontos fixos no espa-
ço público marca uma clara ruptura com as práticas do mo-
vimento antiglobalização. Os protestos anteriores seguiram
a lógica do “protesto de cúpula” – convocados pelas listas
de discussão e por sites do Indymedia, uma coalizão diver- 291
sificada de ativistas que convergia de diferentes cantos do
Ocidente para o mesmo lugar, a fim de contestar a ordem
global. Depois de mais ou menos uma semana de vida em
comunidade e brigando com a polícia, os participantes vol-
tavam para suas cenas ativistas locais, para suas ocupações e
centros sociais. Invertendo essa orientação, os movimentos
populares contemporâneos são marcados pelo desejo de se
tornar quase sempre visíveis no espaço público, como forma
de sustentar uma interação direta cotidiana com aqueles de
fora do movimento, com os transeuntes, com o “povo”. Re-
jeitando o espírito nômade do movimento antiglobalização,
o protesto passa de um “evento” para uma ocupação dura-
doura “total”, procurando dar ao movimento uma ancora-
gem física para não ser lavado pelas peculiaridades de uma
época de liquidez social.
O processo de localização, no qual as comunicações por
mídia social estão fortemente envolvidas, não ocorre sem
riscos. Quarteirões ocupados, acampamentos de protesto,
atos massivos e geografias públicas que eles constroem
também podem se tornar um objeto de “fixação”, como no
sentido de “fixação mental”. O foco quase obsessivo em tais
“locais de tendência” pode prejudicar a capacidade de um
movimento social se reinventar e generalizar suas práticas.
Além disso, uma vez privados do ponto central de atra-
ção e do farol de coordenação que as ocupações massivas
proporcionam, seja por repressão policial, seja por colapso
interno, os movimentos contemporâneos correm o risco de
se dissipar rapidamente. O desafio aqui é bem condensado
por um tuíte enviado pela ativista egípcia Nora Rafea em
julho de 2011, durante um dos vários protestos na praça
292 Tahrir após a revolução de dezoito dias, no qual afirmou
que “Tahrir é um estado de espírito”. O que ela quis dizer
foi: “Tahrir é mais que a praça. Saia da praça. Se você acha
que a revolução é só a praça, está equivocado”. A palavra
“Tahrir” e a hashtag do Twitter “#Tahrir” condensaram um
espírito revolucionário, que não pode ser reduzido ao lugar
conhecido como praça Tahrir, no centro do Cairo, mas que,
ao mesmo tempo, é difícil de extrair do lugar e das expe-
riências associadas a ele.
Para concluir, a questão estratégica que desafia os movi-
mentos sociais contemporâneos e seu uso das mídias sociais
hoje é a de como manter um grau de continuidade uma vez
que, por qualquer motivo, não possam mais contar com o
papel desempenhado pelas praças ocupadas como pontos
nodais em suas texturas de participação. Encontrar soluções
para esse dilema envolverá um repensar organizacional pro-
fundo – havia sinais de que isso já estava ocorrendo no mo-
mento em que o livro foi publicado – e, ao mesmo tempo,
repensar as maneiras pelas quais várias formas de comunica-
ção de protesto e mídias sociais, em particular, são utilizadas
como meios de mobilização. Quaisquer que sejam as solu-
ções, o compromisso desses movimentos com a reconstrução
simbólica de um novo sentido de espaço público continuará
sendo de fundamental importância nos próximos anos, tan-
to no Ocidente quanto no Mundo Árabe.

293
Apêndice
Este livro se baseia em oitenta entrevistas realiza-
das com ativistas, participantes de movimentos sociais e
simpatizantes. Os entrevistados foram recrutados com base
no tempo passado em locais de protesto, na identificação de
possíveis candidatos à entrevista inicial e, em seguida, no
procedimento de amostragem “bolas de neve”, com o objeti-
vo de garantir a diversidade e o equilíbrio em termos de gê- 297
nero, idade e nível de engajamento nos movimentos. As en-
trevistas seguiram um formato semiestruturado e duraram
entre meia hora e duas horas. Começaram reconstruindo a
formação pessoal dos entrevistados e a experiência de parti-
cipação deles em movimentos sociais, antes de passar ao uso
das mídias sociais para fins de protesto e às reflexões sobre
oportunidades e ameaças dessas formas de comunicação.
Depois, os entrevistados receberam as transcrições das
entrevistas por e-mail, para garantir que tudo o que disseram
foi transcrito corretamente e permitir que eu ou eles agre-
gassem mais informações. As entrevistas foram inicialmen-
te codificadas com um método de codificação aberta, pelo
qual uma série de temas e subtemas foram progressivamente
identificados. Nenhum dos entrevistados solicitou anonima-
to. No entanto, alguns pediram que apenas o primeiro nome
fosse usado, conforme ilustrado na lista que se segue.
Além dessas entrevistas, o livro se baseia em notas et-
nográficas coletadas durante visitas de campo aos diferen-
tes lugares abordados e numa análise do material de mídia
social arquivado, incluindo páginas de Facebook e feeds do
Twitter. Numa fase inicial, o material foi codificado por si
próprio, separadamente das entrevistas. Mais tarde, alguns
códigos mestres abrangentes foram identificados para cons-
truir uma narrativa interpretativa geral.

298
Estados Unidos – Occupy Wall Street

Nome Sobrenome Idade Cidade Grupo Profissão


1 Malav Kanuga 32 Nova York Occupy Pesquisador
2 Linnea Palmer Paton 23 Nova York Occupy Estudante
3 Caiti Lattimer 22 Nova York Occupy Estudante
4 Mark - 25 San Diego Occupy Escritor de
viagens
5 Noah - 28 Nova York Occupy Estudante
6 Richard - 42 Nova York Occupy Ativista
comunitário
7 Elizabeth - 46 Nova York Occupy Professora
8 Thanu - 27 Nova York Occupy Estudante
9 Julian - 25 Nova York Occupy Professor
10 David Boardman 33 Nova York - Designer de TI
11 James - 22 Nova York Occupy Desempregado
12 Andrew Conner 26 Nova York Occupy Organizador de 299
eventos
13 Shawn Carrie 23 Nova York Occupy Desempregado
14 Laurel - 27 Nova York Occupy Estudante
15 Emily Kokernak 36 Nova York - Captadora de
recursos
16 Shane Gill 32 Nova York Occupy Desempregado
17 Stephanie - 27 Nova York Occupy Cineasta
18 Kalle Lasn 70 Vancouver Occupy Editor-chefe da
Adbusters
19 Cari - 32 Nova York Occupy -
20 Michael Premo 30 Nova York Occupy Ativista
comunitário
Egito – Movimento revolucionário

Nome Sobrenome Idade Cidade Grupo Profissão


1 Hannah El-sissi 22 Cairo - Estudante
2 Marwa Hussein 32 Cairo - Jornalista
3 Ahmed Samih 38 Cairo - Trabalhador
de ONG
4 Noor Ayman Noor 22 Cairo - Músico
5 Kamal - 28 Cairo - Empregado
6 Mohammed “Saidi” 22 Cairo - Jornalista
7 Nora Rafea 25 Cairo - Trabalhadora
de ONG
8 Nora Shalaby 32 Cairo Socialista Arqueólogo
Revolucionário
9 Sally Zohney 27 Cairo - Trabalhadora
de ONG
10 Mahmoud Al-Banna 24 Cairo Socialista Estudante de
300 arquitetura
11 Mustafa Al-Shamaa 21 Cairo Socialista Estudante
12 Ahmed Sabry 41 Cairo - Arquiteto
13 Osama Hoon 42 Cairo 6 de Abril Segurança
14 Abdallah - 26 Cairo Torcedor do Al Contador
Ahly
15 Salma Hegab 21 Cairo Tweetashare3 Estudante
16 Mohammed El-Agati 43 Cairo Fórum Trabalhador
Árabe por de ONG
Alternativas
17 Ahmed Sharquaui 22 Zagazig 6 de Abril Estudante
18 Khaled - 24 Cairo - Professor
19 Carlos Latuff 43 Brasil - Cartunista
ativista
20 Ali Hamad 22 Cairo - Profissional
de turismo
Espanha – Movimento 15-M

Nome Sobrenome Idade Cidade Grupo Profissão


1 Laura Blanco 28 Madri - Pesquisadora
2 Taiz - 28 Madri - Desempregada
3 Luís Ordóñez 37 Madri - Autônomo
4 Sofía de Roa 32 Madri EDM Jornalista
5 Segundo González 25 Madri JSF Estudante
6 Asun Villar 48 Madri DRY Desempregado
7 Aitor Tinoco 28 Barcelona DRY Desempregado
8 Gregorio Herrero 72 Málaga - Aposentado
9 Feliz Herrero 70 Málaga - Aposentado
10 Fabio Gandara 27 Madri DRY Advogado/
desempregado
11 Pablo Gallego 23 Madri DRY Desempregado
12 Pablo Rey Mantoz 32 Madri/ - Pesquisador
Boston 301
13 Ana Turull 27 Barcelona - Arquiteta
14 Vicente Martin 33 Barcelona - Desempregado
15 Jorge Izquierdo 36 Barcelona - Profissional
de TI
16 Helena Candelas 40 Madri - Desempregada
17 Teresa Marcos 26 Madri - Web designer
freelancer
18 Carmen Haro Barba 24 Madri Tabacalera Pesquisadora
19 Marina - 28 Madri - Designer
20 Francisco - 30 Madri - Professor
Outras entrevistas (Reino Unido, Tunísia, Grécia)

Nome Sobrenome Idade Cidade Grupo Profissão


1 Tim Bernard - 28 Londres UK Uncut Estudante
Student
2 Bernard Goyer 24 Londres Movimento Estudante
estudantil
3 Kirsten Forkert 32 Londres Movimento Professora
estudantil universitária
4 James Haywood 23 Londres Movimento Estudante
estudantil
5 John Jordan 43 Londres Climate Camp Ativista
6 Brian - 23 Londres Movimento Estudante
estudantil
7 Ahmed - 24 Túnis Movimento Estudante
revolucionário
8 Mohammed - 42 Túnis Movimento Contador
revolucionário
302
9 Haithem - 28 Túnis Movimento Professor
revolucionário universitário
10 Hamza - 23 Túnis Movimento Estudante
revolucionário
11 Ismail - 27 Túnis Movimento Trabalhador
revolucionário
12 Fathma Arrighi 26 Túnis Movimento Empregada
revolucionário
13 Ibrahim - 32 Túnis Movimento Empregado
revolucionário
14 Dimitris - 24 Atenas Aganaktismenoi Estudante
15 Krinis - 42 Atenas Aganaktismenoi Pesquisador
16 Erasmos - 37 Atenas Aganaktismenoi Estudante
17 Georgios - 46 Atenas Aganaktismenoi Desempregado
18 Nikos - 27 Atenas Aganaktismenoi Desempregado
19 Eleni - 32 Atenas Aganaktismenoi Professora
20 Sissy - 48 Atenas Aganaktismenoi Política
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Gerbaudo, Paolo
Redes e ruas : mídias sociais e ativismo
contemporâneo / Paolo Gerbaudo ; tradução Dafne Melo.
-- 1. ed. -- São Paulo : Editora Funilaria, 2021.

Título original: Tweets and the Streets


ISBN 978-65-993680-0-4

1. Ativismo 2. Ciências sociais 3. Mídias digitais


4. Movimentos sociais 5. Redes sociais I. Título.

21-56929 CDD-302.4
Índices para catálogo sistemático:

1. Redes sociais : Sociologia 302.4

Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129


Escrito no calor do momento das manifestações ocorridas
no ciclo de protestos dos anos 2010, a partir da observação
direta do autor, este livro busca entender como as tecnolo-
gias digitais de informação e comunicação, especialmente
as redes sociais, influenciaram as práticas de ação coletiva
de movimentos e organizações sociais, ativistas e indivíduos
conectados em rede. Buscando escapar do determinismo
tecnológico que muitas vezes impera em análises desse tipo,
seja pelo tecno-otimismo, seja pelo tecnopessimismo, Paolo
Gerbaudo olha atentamente para as práticas e ações comu-
nicativas que se desenrolaram nas redes e nas ruas, indo na
direção contrária daqueles que enxergaram nesse ciclo de
protestos apenas manifestações espontâneas, construídas
a partir de práticas horizontais e sem liderança. Formado
politicamente pelos ideais colaborativos do movimento al-
termundista, o pesquisador italiano contribui com o debate
sobre ações coletivas digitalmente mediadas ao identificar
novos tipos de lideranças contemporâneas.

[março de 2021, Editora Funilaria]

Tipografia: Adobe Caslon Pro


Papel capa: Cartão Supremo 300 g/m2
Papel miolo: Pólen Soft 80 g/m2
Impressão: Cromosete

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