AULA 3
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
PROTEÇÃO INTEGRAL À
INFÂNCIA E A JUVENTUDE
MARCOS REGULATÓRIOS DO
ECA
Profª Lilian Ianke Leite
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
TEMA 1 – DEFINIÇÃO DE PRINCÍPIO NO ORDENAMENTO JURÍDICO
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é o Diploma Legal 1 que
tutela os direitos e deveres de crianças e adolescentes em nosso país, e desde
sua promulgação tem efetuado significativas alterações jurídicas e sociais,
embasadas na doutrina/princípio da proteção integral.
O ECA é orientado por alguns princípios, os quais serão elencados adiante,
possibilitando uma melhor compreensão do tema. Entretanto, antes de especificar
os princípios que norteiam o Estatuto da Criança e do Adolescente, faz-se
necessário explicitar o significado de princípio junto ao ordenamento2 jurídico
brasileiro.
O estudo sobre o assunto é de extrema importância para que o Conselheiro
Tutelar se habitue com os termos utilizados no dia a dia jurídico e se aproprie da
compreensão necessária para desempenhar de forma precisa sua função. O
jurista e Ministro Mauricio Godinho Delgado (2009, p. 18) caracteriza princípios
como:
Diretrizes gerais induzidas e, ao mesmo tempo, indutoras do Direito;
proposições fundamentais induzidas e indutoras do Direito. São
diretrizes centrais que se inferem de um sistema jurídico e que, após
inferidas, a ele se reportam, informando-o; por isso é que se pode dizer
que consubstanciam comandos jurídicos instigadores do universo do
Direito.
Nas palavras de Celso Antônio Bandeira de Mello (2000, p. 747), princípio
é, por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro
alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes
normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata
compreensão e inteligência exatamente por definir a lógica e a
racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá
sentido harmônico.
Para Siqueira Júnior (2004, p. 161-162), os princípios “exercem função
importantíssima dentro do ordenamento jurídico-positivo, já que orientam,
condicionam e iluminam a interpretação das normas jurídicas em geral, aí
incluídos os próprios mandamentos constitucionais”.
Depreende-se, portanto, que os princípios são a base para o ordenamento
jurídico, uma vez que orientam, servem de parâmetro e auxiliam na compreensão
e na aplicação das normas em geral, direcionando os operadores do direito.
1 Expressão utilizada no meio jurídico para referir-se à uma Lei, Decreto, Código, no intuito de
evitar novamente sua menção.
2 Conjunto de normas de um Estado.
2
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
Assim, considerando que o ECA é norteado por diversos princípios que
muitas vezes são confundidos com os próprios direitos e garantias previstos na
Constituição Federal, é forçoso reconhecer que o Conselheiro, no exercício de
suas atribuições, tenha pleno conhecimento de cada um deles, para atuar de
modo que crianças e adolescentes possam ser tratados como sujeitos de direito,
com o efetivo cumprimento da doutrina da proteção integral, objeto de estudo do
próximo tema.
TEMA 2 – A DOUTRINA/O PRINCÍPIO DA PROTEÇÃO INTEGRAL
O ECA está embasado na doutrina da proteção integral3, a qual fora
instituída com a promulgação da Constituição Federal de 1988.
Sobre este princípio, Ribeiro, Santos e Souza (2010, p. 30) discorrem:
O princípio da proteção integral da criança e do adolescente, de
irrecusável força normativa, além de se revestir de eficácia positiva ou
simétrica, inspira e favorece um arcabouço de efetivações que responde
positivamente à materialização dos direitos fundamentais garantidos na
CRFB/1988 e na legislação infraconstitucional, o que, em uma
perspectiva pública de concretização, deve resultar em canalização de
recursos públicos, políticas de apoio e medidas protetivas aos seus
destinatários.
A Constituição Federal reconheceu crianças e adolescentes como sujeitos
de direitos, criando um sistema de proteção para que tais direitos sejam
obrigatoriamente cumpridos. Nas palavras de Mendes (2006, p. 24):
Com isso, o que se pretendeu foi, exatamente, possibilitar melhores
condições de vida aos mais fracos, no caso, os menores, que vinham
sofrendo enormes desigualdades sociais. Estabeleceu-se, assim,
direitos sociais, os quais, conforme bem preleciona JOSÉ AFONSO DA
SILVA, “como dimensão dos direitos fundamentais do homem, são
prestações proporcionais pelo Estado direta ou indiretamente,
enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores
condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a
igualização de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se
ligam aos direitos de igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos
direitos individuais”.
Um dos mais conhecidos e conceituados juristas, Guilherme Nucci (2015,
citado por Marcenaro, 2016) aborda o princípio em estudo aduzindo:
Significa que, além de todos os direitos assegurados aos adultos, afora
todas as garantias colocadas à disposição dos maiores de 18 anos, as
crianças e os adolescentes disporão de um plus, simbolizado pela
3 Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.
3
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
completa e indisponível tutela estatal para lhes afirmar a vida digna e
próspera, ao menos durante a fase de seu amadurecimento.
Em outras palavras, o princípio da proteção integral é a junção de todos os
direitos fundamentais assegurados aos adultos, destacando-se a necessidade de
o Estado, a família e a sociedade priorizarem a proteção de crianças e
adolescentes.
TEMA 3 – PRINCÍPIO DA PRIORIDADE ABSOLUTA E DA PREVALÊNCIA DOS
INTERESSES
Os princípios estudados neste tema podem ser considerados como os
basilares da doutrina da proteção integral, razão pela qual merecem uma atenção
especial por parte dos Conselheiros.
O Conselheiro Tutelar deve velar para que estes princípios sejam
devidamente cumpridos pelo Poder Público, pelas famílias e pela sociedade, pois
estão diretamente ligados aos direitos fundamentais garantidos pela Constituição
Federal.
3.1 Princípio da prioridade absoluta
O princípio da prioridade absoluta é autoexplicativo, visto que estabelece
que crianças e adolescentes tenham prioridade quanto à efetivação de direitos e
garantias não só pela família e pelo Poder Público, mas pela sociedade em geral.
Este princípio está disposto na primeira parte do art. 227 da Constituição
Federal (Brasil, 1988, grifos nossos):
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à
criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o
direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda
forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão.
A Constituição Federal é denominada no meio jurídico como a Lei Maior,
estando hierarquicamente acima de todas as outras legislações presentes no
país. Sendo assim, não há dúvidas de que a prioridade mencionada no artigo
supracitado deva ser obrigatoriamente cumprida pela sociedade como um todo.
De igual modo, o ECA também consagra o princípio sob análise, e
exemplifica as situações em que crianças e adolescentes terão prioridade, ao
4
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
dispor no parágrafo único do art. 4º quanto à preferência no atendimento em
serviços disponibilizados pelo Poder Público quanto à promoção de políticas
sociais e assistenciais, ao recebimento de proteção e socorro em circunstâncias
de risco e à destinação de recursos públicos em todas as áreas relacionadas com
a proteção destes:
Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do
poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos
direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao
esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:
a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;
b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância
pública;
c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais
públicas;
d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas
com a proteção à infância e à juventude. (Brasil, 1990)
Apenas alguns exemplos foram destacados de forma meramente
explicativa, mas a prioridade do atendimento à criança e ao adolescente é
irrestrita. Nas palavras de M. J. Digiácomo e I. de A. Digiácomo (2017, p. 7):
A presente disposição legal, também prevista no art. 227, caput da CF,
encerra o princípio da prioridade absoluta à criança e ao adolescente,
que deve nortear a atuação de todos, em especial do Poder Público, para
defesa/promoção dos direitos assegurados a crianças e adolescentes. A
clareza do dispositivo em determinar que crianças e adolescentes não
apenas recebam uma atenção e um tratamento prioritários por parte da
família, sociedade e, acima de tudo, do Poder Público, mas que esta
prioridade seja absoluta (ou seja, antes e acima de qualquer outra),
somada à regra básica de hermenêutica, segundo a qual ‘a lei não
contém palavras inúteis’, não dá margem para qualquer dúvida acerca
da área que deve ser atendida em primeiríssimo lugar pelas políticas
públicas e ações de governo (como, aliás, expressamente consignou o
parágrafo único, do dispositivo sub examine). O dispositivo, portanto,
estabelece um verdadeiro comando normativo dirigido em especial ao
administrador público, que em suas metas e ações não tem alternativa
outra além de priorizar - e de forma absoluta - a área infanto-juvenil,
como vem sendo reconhecido de forma reiterada por nossos Tribunais
[...].
Atualmente, é comum nos depararmos com situações expostas pela mídia
relativas a atendimentos precários e até mesmo a ausência de atendimento junto
a hospitais e postos de saúde da rede pública.
Diante disso, imaginemos o seguinte cenário: um homem e seu filho de 5
anos são baleados e levados desacordados a um hospital onde não há vagas. No
dia a dia, ambos seriam levados ao hospital mais próximo no intuito de obter
atendimento adequado. Ocorre que, de acordo com o princípio em foco e a
5
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
situação narrada, o hospital deve prestar atendimento imediato à criança, sob
pena de sofrer sanções judiciais e administrativas.
Imaginemos agora que o estado de saúde de pai e filho são graves, e que
somente um deles poderá ser atendido. Neste caso, a assistência deve ser dirigida
obrigatoriamente ao filho.
Passemos a outro exemplo, apenas alterando os sujeitos envolvidos, sendo
eles um policial e um adolescente baleados em tentativa de assalto.
Impreterivelmente, a assistência prioritária seria do adolescente. Infira que, neste
caso, o ato infracional cometido pelo adolescente não pode ser um obstáculo ao
efetivo cumprimento do direito ao atendimento prioritário estabelecido pelo ECA,
como muitos creem.
A ideia de que crianças e adolescentes que cometem ato infracional
perdem os direitos e garantias previstos no Estatuto é totalmente errônea. Todos
devem ter consciência de que se trata são pessoas em desenvolvimento e, como
tal, devem ter não só garantidos, mas principalmente cumpridos os direitos que
lhes são inerentes.
Neste ponto, imperioso destacar que o Conselheiro deve zelar para que o
princípio da prioridade absoluta seja devidamente exercido, independentemente
da situação com a qual se deparar. Deve ter em mente que exerce função de
grande valor social, sendo de sua responsabilidade a observância do efetivo
cumprimento de direitos e garantias à cidadãos em formação. Isto é,
independentemente da situação e da circunstância, sempre que crianças e
adolescentes estiverem envolvidos, todas as ações deverão, obrigatoriamente,
priorizar seu atendimento e bem-estar.
3.2 Princípio da Prevalência dos Interesses
O princípio da prevalência dos interesses é tão importante quanto o
princípio da prioridade absoluta, e está previsto no art. 6º do Estatuto da Criança
e do Adolescente (Brasil, 1990):
Art. 6º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a
que ela se dirige, as exigências do bem comum, os direitos e deveres
individuais e coletivos, e a condição peculiar da criança e do adolescente
como pessoas em desenvolvimento.
6
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
Considerando-se que crianças e adolescentes são pessoas em
desenvolvimento, a interpretação das normas do Estatuto deve predominar
sempre em favor de seus interesses.
Ao comentar sobre o tema, Ishida (2003, citado por Mendes, 2006, p. 48)
esclarece:
O artigo em tela menciona a forma como se deve interpretar o Estatuto.
O fim social é o de proteção integral da criança e do adolescente e o
bem comum é o que atende aos interesses de toda a sociedade. Os
direitos e deveres individuais e coletivos são elencados no ECA, relativos
à criança e ao adolescente.
Entendemos que a ‘condição peculiar da criança e do adolescente’ deve
ser o principal parâmetro na aplicação das medidas na Vara da Infância
e da Juventude. Obedecidos os critérios legais, as autoridades devem
procurar as medidas mais adequadas à proteção da criança e do
adolescente.
Assim, todas as normas do ECA serão interpretadas e principalmente
aplicadas em benefício das crianças e dos adolescentes. Não obstante, ressalta-
se a possibilidade de flexibilização quanto à aplicação das normas do Estatuto,
mas sempre primando pelo melhor interesse das crianças e dos adolescentes,
conforme abaixo exemplificado.
Sobre o assunto, podemos citar o seguinte exemplo:
Em caso específico de procedimento, os genitores pleitearam a busca e
apreensão de seu filho que estava sob a guarda de tio do mesmo. O
termo de guarda estava expirado, mas o menor estava há mais de dois
anos sob os cuidados do tio. Assim, a interpretação literal levaria ao
deferimento do pedido dos genitores. Contudo, uma análise à luz da
norma levaria a outro entendimento, posto que, sob a vigência do
Estatuto, prevalece a avaliação e situação do menor e,
consequentemente, a decisão deve ser balizada sempre em seu favor.
(Ishida, 2003, citado por Mendes, 2006, p. 49)
O ECA estabelece no art. 224 que o sustento, a guarda e a educação dos
filhos menores compete aos pais (Brasil, 1990). Assim, no exemplo citado acima,
interpretando fielmente a lei, a guarda seria concedida aos pais.
Todavia, em virtude da prevalência dos interesses da criança, o Magistrado
poderia decidir pela permanência da guarda junto ao tio, após analisar o caso
concretamente e certificar-se de que tal medida configuraria o melhor a criança.
Veja que no caso em estudo a questão não se restringe somente ao ponto
de vista legal, mas também à questão social e psicológica, dentre outras. Ou seja,
deve-se levar em conta inúmeros fatores, como por exemplo a idade da criança,
4 Art. 22. Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-
lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações
judiciais. (Brasil, 1990)
7
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
a afetividade existente com o tio e demais familiares que com ele residam, o
período de convivência naquele lar, a rotina existente. Enfim, é necessário avaliar
todas as possíveis variáveis para se tomar a melhor decisão.
Observa-se, portanto, que nem sempre a expressa previsão legal configura
o melhor para crianças e adolescentes, podendo ocorrer a flexibilização da
aplicação das normas do Estatuto ante as peculiaridades de cada caso, e os
Conselheiros devem atentar-se quanto a estas, defendendo sempre os direitos da
criança e do adolescente.
TEMA 4 – PRINCÍPIO DA BREVIDADE E DA EXCEPCIONALIDADE
Os princípios da brevidade e da excepcionalidade estão relacionados com
a internação, a qual se constitui em medida privativa de liberdade para
adolescentes (12 a 18 anos) e estão elencados no art. 121 do ECA:
Art. 121. A internação constitui medida privativa da liberdade, sujeita aos
princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar
de pessoa em desenvolvimento. (Brasil, 1990)
Todavia, antes de discorrer sobre tais princípios, é necessário esclarecer
que a internação só poderá ser aplicada5 ao adolescente quando o ato infracional,
que é a conduta descrita como crime ou contravenção penal, for cometido
mediante grave ameaça ou violência a pessoa, quando ocorrer a reiteração de
outras infrações graves ou por descumprimento reiterado e injustificável da
medida anteriormente imposta.
Deste modo, considerando que a internação priva o adolescente de sua
liberdade, tem-se que esta é a medida mais rigorosa de todas as previstas no
Estatuto. Em razão disso, o princípio da brevidade estabelece que a internação
ocorrerá pelo menor tempo possível, observado o período máximo de três anos,
conforme determina o parágrafo 3º do art. 1216.
Já o princípio da excepcionalidade institui que a internação será aplicada
quando inexistir outra medida socioeducativa cabível ao caso (Fonseca, 2014).
Segundo M. J. Digiácomo e I. de A. Digiácomo (2017, p. 2010) , a internação é
5 Art. 122. A medida de internação só poderá ser aplicada quando: I - tratar-se de ato infracional
cometido mediante grave ameaça ou violência a pessoa; II - por reiteração no cometimento de
outras infrações graves; III - por descumprimento reiterado e injustificável da medida
anteriormente imposta. (Brasil, 1990)
6 Art. 121. A internação constitui medida privativa da liberdade, sujeita aos princípios de brevidade,
excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.
[...] § 3º Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos. (Brasil,
1990)
8
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
medida privativa de liberdade por excelência, “somente deverá ser aplicada em
casos extremos, quando, comprovadamente, não houver possibilidade da
aplicação de outra medida menos gravosa (cf. art. 122, §2°, do ECA), devendo
sua execução se estender pelo menor de tempo possível”.
Exemplificando: se um adolescente portando um revólver rende uma
pessoa no intuito de roubar-lhe o carro e desfere disparos contra esta, resultando
em sua morte, haverá a aplicação da medida de internação ante a prática de ato
infracional análogo ao crime de roubo com resultado morte, mais conhecido como
latrocínio, previsto no art. 157, parágrafo 3º, inciso II do Código Penal Brasileiro7
(Brasil, 1940).
Neste caso, será aplicada a medida de internação, tendo em vista que o
ato infracional ocorreu mediante grave ameaça e violência à pessoa, resultando
na morte desta (caso extremo = princípio da excepcionalidade).
Entretanto, tal medida observará o princípio da brevidade e, considerando
as peculiaridades do caso, o Juiz poderá aplicar o menor tempo previsto para o
seu cumprimento.
TEMA 5 – PRINCÍPIOS DA GRATUIDADE, DA SIGILOSIDADE E CONVIVÊNCA
FAMILIAR
Neste tema serão abordados mais três princípios que norteiam o Estatuto
da Criança e do Adolescente, quais sejam: princípio da gratuidade, da sigilosidade
e da convivência familiar, sendo este último de extrema importância para o
desenvolvimento psicossocial da criança e do adolescente.
Ante a importância conferida ao princípio da convivência familiar, neste
tema serão apresentados também os conceitos de família e as diferentes
configurações existentes na sociedade contemporânea.
Tal estudo é necessário para que o Conselheiro tenha sabedoria ao
deparar-se com as diversas situações que envolvem a família da criança e do
adolescente, atuando de modo a protegê-los de danos psicológicos, morais e ou
físicos.
7 Art. 157. Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência
a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência:
Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
[...]
§ 3º Se da violência resulta:
I – lesão corporal grave, a pena é de reclusão de 7 (sete) a 18 (dezoito) anos, e multa;
II – morte, a pena é de reclusão de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, e multa. (Brasil, 1940)
9
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
5.1 Princípio da convivência familiar
O princípio da convivência familiar confunde-se com o direito fundamental
que leva o mesmo nome e que é garantido pelo art. 227 da Constituição Federal8.
Nas palavras de Ribeiro, Santos e Souza (2010, p. 29):
A convivência familiar é direito que não depende da norma para ser
compreendido: é congênito e natural para todas as pessoas, e muito
mais claro e manifesto quando se trata da convivência garantida às
crianças e adolescentes com seus pais, avós, irmãos e demais membros
da família. Um ambiente de afeto e segurança é o adubo ideal para
florescer a decência e outras virtudes do espírito, tão imprescindíveis e
urgentes à sociedade, à cidadania e à própria pessoa.
No ECA, o princípio em questão está previsto no art. 19, com a seguinte
redação:
Art. 19. É direito da criança e do adolescente ser criado e educado no
seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta,
assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente que
garanta seu desenvolvimento integral. (Brasil, 1990)
A convivência familiar propicia o desenvolvimento afetivo, cultural, moral,
psíquico, social e religioso, e influencia diretamente a formação da personalidade
das crianças e dos adolescentes. É junto à família que, inicialmente, são
estabelecidas as relações de afeto, de amor, de respeito, de confiança e de
proteção.
Esse princípio-direito é tão importante, que o legislador se acautelou de
incluir no artigo citado a “família substituta”, que se origina pela guarda, tutela ou
adoção, mas que é tão fundamental para o desenvolvimento de crianças e
adolescentes quanto a família natural.
Salienta-se ainda que a família é considerada a base da sociedade pela
Constituição Federal9, dispondo de proteção especial pelo Estado.
Diante disso, é extremamente necessário que os Conselheiros Tutelares
possuam entendimento sobre a importância da família na vida de crianças e
adolescentes, bem como sobre o princípio em questão.
8 Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao
jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão. (Brasil, 1988)
9 Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. (Brasil, 1988)
10
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
5.1.1 Conceito de família
Na Antiguidade, a família era retratada somente como o grupo de pessoas
ligadas pela consanguinidade, as quais se sujeitavam sempre ao ascendente mais
velho. Naquela época, a família se confundia com o patrimônio pela possibilidade
que tal ascendente possuía de fazer o que bem entendesse com os membros de
sua família, podendo, inclusive, vendê-los.
Atualmente, em consequência de todas as alterações ocorridas na
sociedade, tem-se um conceito completamente diferente de família.
Sobre o assunto, Gonçalves (2011, p. 17) entende:
Lato sensu, o vocábulo família abrange todas as pessoas ligadas por
vínculo de sangue e que procedem, portanto, de um tronco ancestral
comum, bem como as unidas pela afinidade e pela adoção. Compreende
os cônjuges e companheiros, os parentes e afins, [...] As leis em geral
referem-se à família como um núcleo mais restrito, constituídos pelo pai
e sua prole.
Vê-se, portanto, que família não é somente o grupo de pessoas ligadas
pelo mesmo sangue, mas também pela afinidade, incluindo-se a adoção. Desse
modo, a família pode ser constituída por diferentes configurações, sustentadas
por laços da afetividade. Convém mencionar que famílias compostas por casais
homoafetivos são igualmente protegidas pelo Estado.
5.1.2 Dos núcleos familiares existentes
O art. 226 da Constituição Federal (Brasil, 1988) prevê a multiplicidade dos
núcleos familiares, os quais são protegidos pelo Estado. Em razão disso, a Lei
n. 12.010/2009 (Nova Lei da Adoção) alterou o art. 25 do Estatuto (Brasil, 1990),
dando origem à classificação trinária de família, quais sejam: família natural,
família extensa ou ampliada e família substituta (Silva, 2012, p. 32).
O art. 25 do ECA (Brasil, 1990) reconhece como família natural aquela
composta pelos pais (juntos ou individualmente) e seus filhos. Nas palavras de
Ribeiro, Santos e Souza (2010, p. 32):
A família natural compreende o ambiente ou espaço social preenchido
por pessoas ligadas entre si pela comunhão da identidade genética ou
por força do parentesco consanguíneo. É onde a história do indivíduo é
contada pela natureza que lhe ofereceu e impôs uma determinada
origem biológica. Pode nascer do casamento, da união estável, ou do
núcleo formados pelos ascendentes e descendentes.
11
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
Convém observar que a expressão natural tem a intenção de diferenciar
este grupo familiar dos demais.
A família extensa ou ampliada está descrita no parágrafo único do art. 25
do ECA (Brasil, 1990), compreendendo os parentes próximos com os quais as
crianças e os adolescentes convivem. Tal núcleo estende-se para além dos pais
e filhos.
Sobre esse grupo familiar, Rossato e Lépore (2009, p. 34) explicam:
Essa nova forma de arranjo familiar caracteriza-se por, além de ter como
núcleo a unidade pais e filhos, ou unidade casal, abarcar também os
parentes próximos que convivem e mantêm vínculos de afinidade e
afetividade com a pessoa em desenvolvimento. Sob esse aspecto, ela
se aproximaria muito do que tradicionalmente se chama, na doutrina
civilista, de grande família.
A última modalidade de grupo familiar previsto é o da família substituta.
Esta possui três espécies: a tutela, a adoção e a guarda, e está elencada no art.
28 do ECA10.
Todavia, a inserção de crianças e adolescentes em família substituta é
medida excepcional, pois a legislação prioriza a manutenção destes no seio de
sua família natural ou extensa.
Quando necessário, a família substituta desempenha a tarefa de suprir o
desamparo e o abandono na vida de crianças e adolescentes que não tiveram a
assistência dos pais biológicos, necessários ao seu pleno desenvolvimento (Silva,
2012, p. 34-35).
Quanto a esta modalidade de família, Ribeiro, Santos e Souza ensinam:
é a que se forma excepcionalmente, como sucedâneo da família natural,
quando esta se desfaz ou deixa de ser ambiente adequado para a
criança ou o adolescente. No alcance definido pela Lei, manifesta-se por
meio dos institutos da guarda, tutela ou adoção, após procedimento
judicial próprio.
Inquestionavelmente, todas as modalidades de família aqui descritas estão
protegidas por Lei e farão parte do dia a dia do Conselheiro Tutelar, que terá a
responsabilidade de conhecê-las, de orientá-las e ampará-las sempre que
necessário, tendo em vista o zelo dos direitos da criança e do adolescente.
10 Art. 28. A colocação em família substituta far-se-á mediante guarda, tutela ou adoção,
independentemente da situação jurídica da criança ou adolescente, nos termos desta Lei. (Brasil,
1990)
12
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
5.2 Princípio da gratuidade
O ECA garante o acesso à Justiça, por qualquer de seus órgãos, e garante
também, por meio do princípio da gratuidade, a assistência judiciária gratuita.
O princípio em estudo está disposto no art. 141, parágrafo 1º do Estatuto,
dispondo que:
Art. 141. É garantido o acesso de toda criança ou adolescente à
Defensoria Pública, ao Ministério Público e ao Poder Judiciário, por
qualquer de seus órgãos.
§ 1º. A assistência judiciária gratuita será prestada aos que dela
necessitarem, através de defensor público ou advogado nomeado.
(Brasil, 1990)
Deste modo, sempre que houver a necessidade de crianças e adolescentes
socorrerem-se do Poder Judiciário, terão garantido tal acesso por meio de
advogado nomeado pelo Juízo ou por defensor público, com isenção ao
pagamento de honorários advocatícios. Além disso, esse princípio também
garante a isenção ao pagamento de custas e emolumentos, conforme dispõe o
parágrafo segundo do mesmo artigo, vejamos:
Art. 141. É garantido o acesso de toda criança ou adolescente à
Defensoria Pública, ao Ministério Público e ao Poder Judiciário, por
qualquer de seus órgãos.
[...]
§ 2º As ações judiciais da competência da Justiça da Infância e da
Juventude são isentas de custas e emolumentos, ressalvada a hipótese
de litigância de má-fé. (Brasil, 1990)
Denota-se, portanto, que o acesso à Justiça por crianças e adolescentes
não será dificultado por ausência de recursos financeiros.
No dia a dia, é possível observar a efetivação deste princípio com a atuação
de advogados nomeados, defensores públicos ou mesmo promotores de justiça,
em processos em que crianças e adolescentes poderiam ter direitos violados pela
ausência de condições financeiras.
Uma situação que tem se tornado recorrente e que pode exemplificar o
princípio em estudo é o ajuizamento de ação por meio da Defensoria Pública, no
intuito de obter determinado medicamento ou tratamento de saúde, sem que os
familiares da criança ou do adolescente tenham que dispor de recursos
financeiros para tanto.
Como se nota, o Poder Público tem a obrigação de garantir e efetivar o
acesso à Justiça, sendo esta mais uma função do Conselheiro no exercício de
suas atribuições.
13
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
5.3 Princípio da sigilosidade
Por meio do princípio da sigilosidade garante-se a privacidade dos registros
relativos aos adolescentes em conflito com a lei, permitindo que somente pessoas
autorizadas tenham acesso a tais registros. Essa medida objetiva poupá-los de
preconceitos em virtude dos atos cometidos (Fonseca, 2014).
Este princípio está disposto no art. 143 do ECA, ao estabelecer:
Art. 143. É vedada a divulgação de atos judiciais, policiais e
administrativos que digam respeito a crianças e adolescentes a que se
atribua autoria de ato infracional.
Parágrafo único. Qualquer notícia a respeito do fato não poderá
identificar a criança ou adolescente, vedando-se fotografia, referência à
nome, apelido, filiação, parentesco, residência e, inclusive, iniciais do
nome e sobrenome. (Brasil, 1990)
De acordo com esse princípio, é permitido ainda que processos envolvendo
crianças e adolescentes tramitem em segredo de Justiça, sendo totalmente
restrito o acesso aos autos, sejam eles físicos ou eletrônicos.
Também é totalmente vedada a divulgação de dados que possam
identificar a criança ou o adolescente, sendo proibida a publicação de fotos, de
seu nome e sobrenome, ou mesmo as iniciais destes. Proíbe-se também a
menção quanto à filiação, ao parentesco e ao local onde residem. Nesses casos,
o intuito é proteger as crianças e os adolescentes de todos os malefícios que tal
exposição possa ocasionar-lhes.
Diariamente são noticiadas pela mídia situações de violência e agressão
envolvendo crianças e adolescentes. Todavia, fotos, nomes ou quaisquer outros
dados que possam identificá-los não são divulgados.
Um exemplo claro do princípio da sigilosidade é a divulgação de imagens
em telejornais sobre prisões de pessoas e adolescentes envolvidas com o tráfico
de drogas. Em tais imagens verifica-se que o adolescente infrator nunca tem seu
rosto exibido, o que já não acontece com os adultos.
Por fim, é importante frisar que a prática de ato infracional não autoriza a
violação do direito de imagem que as crianças e os adolescentes possuem, o qual
é devidamente protegido pelo ECA e pela Constituição Federal.
14
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.
Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988.
_____. Decreto-Lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 31 dez. 1940.
_____. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Diário Oficial da União, Brasília, DF,
17 jul. 2019.
DELGADO, M. G. Os princípios na estrutura do direito. Revista do Tribunal
Superior do Trabalho, Porto Alegre, ano 75, n. 3, p. 17-34, jul./set. 2009.
DIGIÁCOMO, M. J.; DIGIÁCOMO, I. de A. Estatuto da criança e do adolescente
anotado e interpretado. 7. ed. Curitiba: Ministério Público do Estado do Paraná,
2017.
FONSECA, J. de B. Princípios norteadores do ECA. Jusbrasil, 2014. Disponível
em: <[Link]
eca>. Acesso em: 12 fev. 2019.
GONÇALVES, C. R. Direito Civil Brasileiro: direito de família. 8. ed. São Paulo:
Saraiva, 2011.
MARCENARO, A. Princípios do ECA (Lei nº 8.069/90). Jusbrasil, 2016.
Disponível em: <[Link]
incipios-do-eca-lei-n-8069-90>. Acesso em: 12 fev. 2019.
MENDES, M. P. A doutrina da proteção integral da criança e do adolescente
frente à Lei 8.069/1990. 183 f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006. Disponível em:
<[Link] Acesso
em: 12 fev. 2019.
MELLO, C. A. B. de. Curso de Direito Administrativo. 12. ed. São Paulo:
Malheiros Editores, 2000.
RIBEIRO, P. H. S.; SANTOS, V. C. M.; SOUZA, I. de M. Nova lei da adoção
comentada. Leme: J. H. Mizuno, 2010.
15
Email: brunamuzzi18@[Link]
Aluno: Bruna Rodrigues Muzzi
ROSSATO, L. A.; LÉPORE, P. E. Comentários à lei nacional da adoção: Lei
12.010, de 3 de agosto de 2009, e outras disposições legais: Lei 12.003 e Lei
12.004. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009.
SILVA, F. D. Adoção por casais homoafetivos. 83 f. Trabalho de Conclusão de
Curso (Graduação em Direito) – Universidade Norte do Paraná, Arapongas, 2012.
SIQUEIRA JUNIOR, P. H. Função dos princípios constitucionais. Revista do
Instituto dos Advogados de São Paulo, São Paulo, v. 7, n. 13, jan./jun., 2004.
16