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Cenários para Cidades Regenerativas 2040

O artigo propõe um modelo para a transição de sistemas agroalimentares urbanos convencionais para modelos regenerativos na Bacia do Prata até 2040, reconhecendo a insustentabilidade do modelo linear atual. Três cenários são apresentados: Tendencial, Colapso Sistêmico e Transição Regenerativa, sendo este último o foco do estudo, que se baseia em cinco dimensões interconectadas: ecológica, econômica, social, cultural e de governança. A transição é considerada viável e desejável, exigindo vontade política e rearranjo de valores sociais para construir cidades mais resilientes e justas.

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Cenários para Cidades Regenerativas 2040

O artigo propõe um modelo para a transição de sistemas agroalimentares urbanos convencionais para modelos regenerativos na Bacia do Prata até 2040, reconhecendo a insustentabilidade do modelo linear atual. Três cenários são apresentados: Tendencial, Colapso Sistêmico e Transição Regenerativa, sendo este último o foco do estudo, que se baseia em cinco dimensões interconectadas: ecológica, econômica, social, cultural e de governança. A transição é considerada viável e desejável, exigindo vontade política e rearranjo de valores sociais para construir cidades mais resilientes e justas.

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Sustentabilidade Multidimensional em Sistemas Agroalimentares Urbanos:

Modelagem de Cenários para a Transição para Cidades Regenerativas na Bacia


do Prata em 2040
CARLOS ALBERTO RIBEIRO
DR.ª FERNANDA SILVA MENDES
RESUMO
Este artigo apresenta um modelo teórico-prático complexo para a transição de sistemas
agroalimentares urbanos convencionais para modelos regenerativos e multidimensionalmente
sustentáveis, com foco aplicado na região da Bacia do Prata. Reconhecemos a insustentabilidade do
modelo atual, linear (extrair-produzir-descartar) e altamente dependente de insumos externos,
propondo em seu lugar uma abordagem circular e multifuncional. O estudo utiliza a metodologia de
modelagem de cenários (prospectiva), construindo três cenários plausíveis para 2040: (1) Cenário
Tendencial/Business-as-Usual; (2) Cenário de Colapso Sistêmico; e (3) Cenário de Transição
Regenerativa (o foco do artigo). Para este último, elaboramos um framework detalhado baseado em
cinco dimensões interconectadas: (a) Ecológica: agricultura urbana e periurbana (AUP),
agroecologia, ciclagem de nutrientes; (b) Econômica: circuitos curtos de comercialização,
valorização de produtos locais, economia solidária; (c) Social: soberania alimentar, justiça
ambiental, inclusão social; (d) Cultural: resgate de saberes tradicionais, hábitos alimentares
saudáveis; e (e) Governança: políticas públicas integradas, participação social. Concluímos que a
transição é tecnicamente viável e socialmente desejável, exigindo, porém, uma vontade política
coordenada e um profundo rearranjo nos valores societais, posicionando a AUP como eixo
estruturador de cidades mais resilientes, justas e regenerativas.
Palavras-chave: Agricultura Urbana e Periurbana (AUP). Soberania Alimentar. Cidades
Regenerativas. Prospectiva. Bacia do Prata.
ABSTRACT
Multidimensional Sustainability in Urban Agro-Food Systems: Scenario Modeling for the
Transition to Regenerative Cities in the La Plata Basin by 2040. This article presents a complex
theoretical-practical model for the transition from conventional urban agro-food systems to
regenerative and multidimensional sustainable models, with an applied focus on the La Plata Basin
region. We recognize the unsustainability of the current linear model (take-make-dispose), highly
dependent on external inputs, proposing in its place a circular and multifunctional approach. The
study uses the methodology of scenario modeling (prospective), constructing three plausible
scenarios for 2040: (1) Trend Scenario/Business-as-Usual; (2) Systemic Collapse Scenario; and (3)
Regenerative Transition Scenario (the focus of the article). For the latter, we developed a detailed
framework based on five interconnected dimensions: (a) Ecological: urban and peri-urban
agriculture (UPA), agroecology, nutrient cycling; (b) Economic: short food supply chains,
valorization of local products, solidarity economy; (c) Social: food sovereignty, environmental
justice, social inclusion; (d) Cultural: reclaiming traditional knowledge, healthy eating habits; and
(e) Governance: integrated public policies, social participation. We conclude that the transition is
technically feasible and socially desirable, requiring, however, coordinated political will and a
profound rearrangement of societal values, positioning UPA as a structuring axis for more resilient,
fair, and regenerative cities.
Keywords: Urban and Peri-urban Agriculture (UPA). Food Sovereignty. Regenerative Cities.
Foresight. La Plata Basin.
1 INTRODUÇÃO
O século XXI é marcado por um paradoxo urbano global: jamais as cidades concentraram tanta
riqueza e innovation, mas jamais se mostraram tão vulneráveis. Esta vulnerabilidade é
particularmente aguda no que tange aos sistemas agroalimentares. As metrópoles modernas
operam sob uma lógica linear de metabolismo, importando massivamente alimentos, água e energia
de hinterlands cada vez mais distantes e exportando resíduos e poluição, em um modelo
insustentável, injusto e profundamente frágil perante choques externos, como evidenciado pela crise
desencadeada pela pandemia de COVID-19 e por eventos climáticos extremos (IPCC, 2022).
A região da Bacia do Prata, uma das mais urbanizadas e produtoras de commodities agrícolas do
globo, personifica este paradoxo. Enquanto exporta milhões de toneladas de grãos, suas principais
cidades (como Buenos Aires, Montevidéu, Rosário, Curitiba e Porto Alegre) enfrentam desafios de
insegurança alimentar, desertificação alimentar em bairros periféricos, dependência de cadeias
logísticas globais vulneráveis e graves passivos ambientais relacionados aos resíduos orgânicos e ao
uso do solo.
Este artigo propõe uma ruptura com este modelo. Partimos da premissa de que a crise dos sistemas
alimentares urbanos é, na verdade, uma janela de oportunidade para uma transformação profunda
em direção a cidades regenerativas – aquelas que não apenas minimizam impactos negativos, mas
geram externalidades positivas líquidas para os sistemas ecológicos e sociais nos quais estão
inseridas (MANG; REED, 2012). O cerne desta transformação reside na reconceitualização da
Agricultura Urbana e Periurbana (AUP) de um nicho marginal para um eixo estratégico de
planejamento urbano-integrado.
O problema de pesquisa que orienta este trabalho é: que caminhos (cenários) podem conduzir as
metrópoles da Bacia do Prata a sistemas agroalimentares regenerativos e
multidimensionalmente sustentáveis até 2040, e que framework teórico-prático pode orientar
esta transição? Para respondê-lo, adotamos a metodologia da prospectiva estratégica por cenários,
permitindo-nos explorar futuros alternativos e identificar alavancas e barreiras para a mudança
desejada.
Nosso objetivo geral é modelar cenários futuros para os sistemas agroalimentares da região e propor
um framework multidimensional para a transição regenerativa. Objetivos específicos incluem: (a)
diagnosticar a insustentabilidade do modelo atual; (b) construir três cenários prospectivos para
2040; (c) elaborar, para o cenário desejável, um framework detalhado baseado nas dimensões
ecológica, econômica, social, cultural e de governança; e (d) extrair recomendações estratégicas
para atores políticos e sociais.
A justificativa deste estudo reside em sua abordagem sistêmica e prospectiva. Ao integrar múltiplas
dimensões da sustentabilidade e ao olhar para o longo prazo, oferece um roteiro holístico e
pragmaticamente orientado para gestores públicos, planejadores urbanos, movimentos sociais e
empreendedores que almejam construir cidades mais resilientes e justas na Bacia do Prata.
2 REVISÃO DA LITERATURA: A INSUSTENTABILIDADE DO MODELO VIGENTE E
AS BASES PARA UMA TRANSFORMAÇÃO
2.1 A Crise do Modelo Linear Convencional
O sistema agroalimentar globalizado e industrial é frequentemente criticado por sua
insustentabilidade multidimensional (IPES-FOOD, 2016):
• Ecológica: Alto consumo de energia fóssil (para transporte, fertilizantes), perda de
biodiversidade, contaminação por agrotóxicos, degradação do solo e geração massiva de
resíduos orgânicos não aproveitados.
• Econômica: Concentração de renda na ponta da cadeia (grandes distribuidores),
vulnerabilidade a flutuações de preços globais e desmonte de economias locais.
• Social: Insegurança alimentar (acesso a alimentos nutritivos), perda de empregos rurais,
condições precárias de trabalho e "desertos alimentares" em áreas urbanas carentes.
• Cultural: Erosão de saberes tradicionais relacionados à produção e preparo de alimentos,
homogeneização das dietas e perda de variedades alimentares locais.
2.2 Conceitos-Chave para uma Alternativa: Agroecologia, Soberania Alimentar e Cidades
Regenerativas
Em oposição a este modelo, emergem conceitos estruturantes:
• Agroecologia: Uma ciência, um conjunto de práticas e um movimento social que aplica
princípios ecológicos ao desenho de sistemas alimentares, promovendo a biodiversidade, a
reciclagem de nutrientes e a resiliência (ALTIERI, 2002).
• Soberania Alimentar: O direito dos povos a definir suas próprias políticas e estratégias de
produção, distribuição e consumo de alimentos, garantindo que sejam culturalmente
apropriados e produzidos de forma sustentável (VIA CAMPESINA, 1996). Vai além do
conceito de segurança alimentar (acesso quantitativo).
• Cidades Regenerativas: Um conceito que avança beyond a sustentabilidade (manter o
status quo) para buscar um impacto positivo líquido. Uma cidade regenerativa reconecta os
fluxos de recursos (alimento, água, energia) com seu bioregion, fechando ciclos e
promovendo o florescimento da vida.
A Agricultura Urbana e Periurbana (AUP) é a pedra angular prática para operacionalizar estes
conceitos no tecido urbano, promovendo a re-localização da produção de alimentos.
3 METODOLOGIA: MODELAGEM DE CENÁRIOS PROSPECTIVOS
A prospectiva por cenários é uma metodologia que visa explorar futuros possíveis e plausíveis, e
não prever um único futuro. Ela ajuda a entender incertezas e a tomar decisões mais robustas no
presente (GODET, 2000). O processo envolveu:
1. Identificação de Variáveis-Chave e Atores: Foram listadas as forças motrizes (drivers) que
impactam os sistemas alimentares urbanos (ex.: políticas públicas, mudança climática,
hábitos de consumo, tecnologia).
2. Análise de Incertezas e Predefinições: As variáveis foram classificadas em predefinições
(tendências prováveis de continuar) e incertezas críticas (fatores com futuro imprevisível
mas de alto impacto).
3. Construção dos Cenários: Combinando diferentes desfechos para as incertezas críticas,
construímos três cenários narrativos e coerentes para 2040, servindo como ferramentas de
aprendizado e debate.
4 ANÁLISE E RESULTADOS: OS TRÊS CENÁRIOS PARA 2040
4.1 Cenário 1: Business-as-Usual (BAU) – A Aceleração da Insustentabilidade
Neste cenário, as tendências atuais se aprofundam. A agricultura industrial e o poder das grandes
redes de varejo se consolidam. A AUP permanece como atividade marginal de nicho. As cidades da
Bacia do Prata tornam-se ainda mais dependentes de alimentos importados de longa distância. A
desigualdade no acesso a alimentos saudáveis aumenta, assim como a geração de resíduos. Eventos
climáticos extremos causam rupturas frequentes e graves nas cadeias de abastecimento, levando a
picos de preço e crises de desabastecimento. É um cenário de alta vulnerabilidade e baixa
resiliência.
4.2 Cenário 2: Colapso Sistêmico – A Ruptura
Uma convergência de crises – econômica, climática, energética e sanitária – supera a capacidade de
adaptação do sistema vigente. A globalização retrocede bruscamente. As cadeias de suprimentos
internacionais entram em colapso. As cidades enfrentam escassez aguda de alimentos e convulsões
sociais. A AUP emerge não por escolha, mas por necessidade de sobrevivência, de forma
desorganizada e insuficiente. É um cenário caótico de sofrimento e regressão social.
4.3 Cenário 3: Transição Regenerativa – O Caminho da Resiliência (Cenário Foco)
Este é o cenário desejável e plausível, construído a partir de escolhas políticas conscientes e
investimentos estratégicos. Nele, as metrópoles da Bacia do Prata embarcam em uma transição
deliberada para sistemas alimentares regenerativos. O framework para esta transição assenta em
cinco dimensões interligadas:
• Dimensão Ecológica: A AUP é massivamente incentivada, utilizando telhados, espaços
ociosos, hortas comunitárias e cinturões verdes periurbanos sob princípios agroecológicos.
Implementa-se a compostagem descentralizada de resíduos orgânicos, fechando o ciclo de
nutrientes. A permeabilidade do solo e a biodiversidade urbana aumentam
significativamente.
• Dimensão Econômica: Circuitos curtos de comercialização (feiras livres, CSA -
Comunidade que Sustenta a Agricultura, vendas diretas) são fortalecidos. Desenvolvem-se
mercados que valorizam os produtos locais, agroecológicos e da sociobiodiversidade. A
economia solidária ganha escala, gerando emprego e renda inclusivos.
• Dimensão Social: A soberania alimentar torna-se um princípio orientador das políticas
públicas. Programas de abastecimento alimentar (como compras institucionais para escolas e
hospitais) priorizam agricultores familiares urbanos e periurbanos. Combate-se os desertos
alimentares com políticas específicas. A AUP promove inclusão social, terapia ocupacional e
fortalecimento comunitário.
• Dimensão Cultural: Resgatam-se e valorizam-se saberes tradicionais sobre plantas
alimentícias não convencionais (PANC), sementes crioulas e preparos culinários. Programas
de educação alimentar e nutricional nas escolas reconectam as crianças à origem dos
alimentos. A dieta torna-se mais diversa, saudável e culturalmente rica.
• Dimensão de Governança: Criam-se marcos legais e políticas públicas integradas
(envolvendo secretarias de agricultura, meio ambiente, planejamento urbano e assistência
social) para fomentar a AUP. Conselhos municipais de segurança alimentar e nutricional
ganham poder deliberativo. A gestão é participativa, envolvendo poder público, produtores e
consumidores.
5 DISCUSSÃO
A modelagem dos cenários deixa claro que o futuro não está escrito. O Cenário Tendencial (BAU) é
a projeção da inércia atual e leva a um aprofundamento da crise. O Cenário de Colapso é um risco
real diante da convergência de crises planetárias. O Cenário de Transição Regenerativa, portanto,
não é uma utopia, mas uma necessidade estratégica para evitar o colapso e construir um futuro
próspero.
A viabilidade deste cenário depende criticalmente da vontade política e do engajamento social. As
barreiras são significativas: interesses econômicos consolidados no agronegócio exportador, uma
cultura de consumo alienada, a segmentação da gestão pública e a especulação imobiliária que
pressiona as áreas periurbanas. No entanto, as oportunidades são igualmente poderosas: a crescente
conscientização dos cidadãos, a demanda por alimentos saudáveis, o potencial de geração de
emprego verde, os benefícios ambientais mensuráveis e o imperativo climático.
O framework multidimensional proposto oferece um roteiro para action. Ele demonstra que a
transição não é apenas técnica, mas profundamente política e cultural, requerendo uma abordagem
intersetorial e participativa.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES
Este artigo demonstrou que a transição para sistemas agroalimentares urbanos regenerativos na
Bacia do Prata é não apenas desejável, mas fundamental para a resiliência futura de suas
metrópoles. Através da prospectiva, mapeamos caminhos alternativos e elaboramos um framework
detalhado para operacionalizar a mudança desejada.
Concluímos com recomendações estratégicas direcionadas a diferentes atores:
• Para Gestores Públicos: Criar marcos legais e políticas integradas; incluir a AUP nos
planos diretores; instituir programas de compras institucionais; investir em infraestrutura
para compostagem e feiras.
• Para a Sociedade Civil e Movimentos Sociais: Ampliar a advocacy por soberania
alimentar; criar e fortalecer redes de consumidores conscientes; promover a educação
alimentar e a ocupação de espaços para hortas.
• Para Pesquisadores e Universidades: Desenvolver pesquisas aplicadas em agroecologia
urbana; atuar em extensão universitária apoiando comunidades; quantificar os benefícios
multifuncionais da AUP.
O ano de 2040 pode parecer distante, mas as sementes para o futuro resiliente devem ser plantadas
no presente. A escolha entre os cenários está, em grande medida, em nossas mãos.
REFERÊNCIAS
ALTIERI, M. A. Agroecology: the science of natural resource management for poor farmers in
marginal environments. Agriculture, Ecosystems & Environment, v. 93, n. 1-3, p. 1-24, 2002.
GODET, M. A caixa de ferramentas da prospectiva estratégica. Lisboa: CEPES, 2000.
IPCC. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working
Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change.
Cambridge University Press, 2022.
IPES-FOOD. From uniformity to diversity: a paradigm shift from industrial agriculture to
diversified agroecological systems. International Panel of Experts on Sustainable Food
Systems, 2016.
MANG, P.; REED, B. Designing from place: a regenerative framework and methodology. Building
Research & Information, v. 40, n. 1, p. 23-38, 2012.
VIA CAMPESINA. The Right to Produce and Access to Land. Food Sovereignty: A Future
Without Hunger, 1996.

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