Epistemologia e Ética em Kant
Epistemologia e Ética em Kant
Sou por gosto um investigador. Sinto sede de conhecimento e a ávida inquietação de progredir, tanto
quanto a satisfação que dá qualquer aquisição. Houve um tempo em que acreditava que só isso poderia
fazer a honra da humanidade, e desprezava a plebe que tudo ignora. Este privilégio ilusório
desvaneceu-se, aprendo a honrar os homens e considerar-me-ia mais inútil que o comum dos
trabalhadores se não estivesse convencido de que a especulação a que me dedico pode conferir a tudo o
resto um valor: fazer realçar os direitos da humanidade.
(Kant Observations sur le beau et le sublime)
Início de conversa
Kant viveu no século XVIII, que é conhecido como “Século das Luzes”, em referência ao
Iluminismo que foi um movimento cultural na Europa para mobilizar o poder da razão, a fim de
reformar a sociedade e o conhecimento herdados da tradição medieval. Abarcou inúmeras tendências
e, entre elas, buscava um conhecimento apurado da natureza, com o objetivo de torná-la útil ao
homem moderno.
O iluminismo é uma atitude geral de pensamento e de ação. Os iluministas admitiam que os
seres humanos estavam em condição de tornar este mundo um lugar melhor mediante livre exercício
das capacidades humanas e do engajamento político-social.
Immanuel Kant (1724 – 1804). A epistemologia1 kantiana, bem como sua doutrina ética
causaram grandes impactos na filosofia. Kant afirmava ter tido uma “grande luz” em 1769. Essa
“grande luz” compreendia o centro de sua futura “revolução copernicana”, a qual já se apresentava
em sua Dissertação de 1770. A Dissertação apresentava-se como uma “propedêutica” da metafísica –
concebida como conhecimento dos princípios do intelecto puro.
Ele ficou conhecido por ter formulado o que ele denominou ser uma “revolução copernicana
na Filosofia”. Grande leitor do racionalista Gotfried Wilhelm Leibniz (1646 – 1716) e do empirista
inglês David Hume (1711 – 1776), Kant tratou de juntar elementos das duas correntes que mais
movimentaram a Filosofia europeia moderna em uma teoria criticista, sem cair em qualquer tipo de
relativismo.
O idealismo transcendental kantiano construiu uma complexa teia de conceitos para explicar
que nem o empirismo estava certo e nem o racionalismo explicava plenamente o conhecimento
humano. Para Kant, o conhecimento é obtido com base na percepção do que ele chamou de “coisa
em si”, que é o objeto.
Esse processo dá-se pelo que o pensador denominou intuição, e é a racionalidade, por meio
das faculdades mentais, que proporciona ao ser humano o conhecimento, pois a nossa mente é capaz
de relacionar conceitos puros aos dados da percepção.
Para Kant, há a coisa em si e o conceito transcendental, sendo a nossa relação com esses dois
elementos estritamente pessoal e psicológica, mas o fato de haver um conceito universal, que serve
de parâmetro, impede que a teoria kantiana seja relativista.
No campo moral, Kant formulou uma teoria chamada Metafísica dos costumes, baseada no
imperativo categórico, que tenta desfazer qualquer relativismo moral empregando forças para
1 - Epistemologia significa ciência, conhecimento, é o estudo científico que trata dos problemas relacionados
com a crença e o conhecimento, sua natureza e limitações. A grosso modo, a epistemologia jurídica aborda o ser humano
como um ser único, onde cada um apresenta formas distintas de pensar e agir, e por esse motivo, o Direito pode ter várias
interpretações.
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descobrir as máximas ou leis morais universais. Para Kant, existe um dever universal baseado em leis
morais e esse dever está submetido ao estrito cumprimento das leis morais em qualquer situação
racional. O ser humano ou qualquer outro ser racional deve cumprir aquilo que é estabelecido pela lei
moral.
No campo político, Kant escreveu o livro A paz perpétua, em que ele elabora um tratado de
paz e cooperação universal imaginário entre os Estados. Esse tratado, de inspiração iluminista e
republicana, visava a garantir a paz entre as nações, o respeito aos Direitos Humanos e à Vida. A
obra kantiana, publicada em 1795, influenciou fortemente a consolidação da Organização das Nações
Unidas (ONU), mais de 150 anos depois.
A revolução no modo de pensar ocorreu através de um deslocamento do centro da pesquisa
física: o objeto deixou de ser o centro da pesquisa e a razão humana tomou esse lugar central. Kant
afirma que a razão deve buscar na natureza, de acordo com o que a própria razão coloca na natureza,
o que se deve apreender da natureza. Destarte, a física foi colocada no caminho seguro da ciência,
segundo o filósofo.
Todavia, no campo da metafísica tudo se manteve confuso, pois esta permaneceu na fase pré-
científica. Questões como: existem possibilidades da metafísica constituir-se como ciência? Se for
impossível que a metafísica se constitua como ciência, qual é a causa da natureza ter dado uma
tendência tão forte à razão humana para problemas metafísicos? Qual é o caminho a ser seguido para
que a metafísica se constitua como ciência estas questões são colocadas pelo filósofo.
Antes da “revolução copernicana” feita por Kant, o conhecimento era explicado através da
suposição de que o sujeito devia girar em torno do objeto. Todavia, muitas coisas continuavam sem
explicações e por isso Kant supôs que o objeto é que deveria girar em torno do sujeito. Copérnico
realizou uma revolução análoga ao afirmar que – como muitos fenômenos permaneciam inexplicados
com a suposição de que a terra se mantinha fixa no centro do universo e que todos os planetas
giravam em torno dela – que a terra girava em torno do sol. “Kant considera que não é o sujeito que,
conhecendo, descobre as leis do objeto, mas sim, ao contrário, que é o objeto, quando é conhecido,
que se adapta às leis do sujeito que recebe cognoscitivamente” (REALE, 2005, p.358).
E ainda, “Com sua revolução, portanto, Kant supôs que não é a nossa intuição sensível que se
regula pela natureza dos objetos, mas que são os objetos que se regulam pela natureza de nossa
faculdade intuitiva” (REALE, 2005, p. 358). Assim, Kant chega à conclusão de que os objetos,
enquanto são pensados, regulam-se pelos conceitos do intelecto e coadunam-se com estes. O filósofo
afirma, pois, que “das coisas, nós só conhecemos a priori aquilo que nós mesmos nelas colocamos”
(KANT apud REALE, 2005, p.358).
O descortinar na história
A missão da filosofia de Kant vai constituir em dar plena terminação ao movimento iniciado
pela atitude idealista. Segundo Manuel Garcia Morente (Fundamentos de Filosofia), era preciso que
o processo iniciado por Descartes chegasse a seu término e conclusão, ou seja, um pensador capaz de
arrematar as possibilidades contidas na atitude idealista. Mas em que consiste este idealismo? A
concepção que assinala ao “espírito” (ideias) uma posição dominante no conjunto do ser. De forma
muito reduzida e beirando uma deformação de seu sentido, seria a concepção de que existe uma parte
de mim que pensa, ou seja, um “pedaço” do homem capaz de deliberar, escolher, autonomamente,
dentre as possibilidades que o mundo oferece. Assim, pois, Kant poria o fim (se não fosse a retomada
sartreniana) de um período que se inicia com Platão.
No campo da moral, o problema básico de Kant foi descobrir o significado do que é justo e
injusto, do bem e do mal. Ao atacar o problema, acatou, como fundamental, o princípio de Rousseau,
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de que a única coisa absolutamente boa, no mundo, é a vontade humana governada pelo respeito para
com as leis morais ou a consciência de dever e, neste sentido, Kant chegou a afirmar que Rousseau
era o “Newton do mundo moral”.
No livro “A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade”, o Prof. Clóvis de Barros
Filho, explica com clareza, a ruptura do pensamento kantiano com a tradição grega. A dignidade
moral, para Kant, é uma questão de “trabalho”, de esforço, onde qualquer homem é capaz de
“escapar” do programa da Natureza, libertando-se da lógica das tendências naturais. Nascem aqui os
direitos da humanidade.
A reflexão sobre a liberdade está no coração do pensamento moral de Kant, cujas
contribuições no campo da filosofia são destaque também quando se trata de abordar as condições do
conhecimento e os limites da razão. Seus textos são herméticos (difícil de compreender). Mas não
podemos nos acovardar. Tentaremos identificar o que o autor queria dizer de mais fundamental. O
que ele destacaria se quisesse facilitar a compreensão do leitor. E, se possível, você poderá abrir a
primeira página do texto intitulado Fundamentação da metafísica dos costumes. O que dissermos até
aqui facilitará o acesso à informação. Kant não espera muito para dar o tom. Apresenta-se como
herdeiro da antropologia de Rousseau. E em ruptura com o pensamento grego. Porque o que pode ser
bom, virtuoso e digno não são os talentos naturais.
Isto é, as aptidões que temos – alguns para desenhar, outros para explicar e outros ainda para
proporcionar sensações inebriantes. Para Kant, isso não é o mais importante para definir a virtude ou
a dignidade de uma pessoa. Segundo ele, não é o fato de você ter um inegável talento, proporcionado
pela sua natureza, que o torna moralmente excelente. O que realmente importa é o uso que fará deste
talento. E sobre ele, é você quem decide.
Trata-se de uma questão de liberdade para resolver o que fazer com as aptidões que são as
nossas. As de cada um. Ainda estamos nas primeiras páginas dos Fundamentos. Se minha memória
não falhar, creio que Kant diz mais ou menos o seguinte: de tudo que pudermos conceber no mundo,
e mesmo fora dele, só há uma coisa que possa ser tida, sem restrições, como absolutamente positiva:
a boa vontade.
Assim, a inteligência, a faculdade de comparar, de discernir o particular podem ser faculdades
apreciáveis. Mas não são qualidades morais. E por que não? Porque todas estas faculdades e todos os
talentos naturais em geral podem ser colocados tanto a serviço do bem quanto do mal. Nunca são,
por eles mesmos, bons ou maus.
Assim, podemos usar a inteligência para curar, alegrar, ensinar saberes que trarão alegrias e
muito mais. Em contrapartida, também podemos usar as mesmas faculdades do espírito para enganar,
entristecer, iludir, mentir e também muito mais. Percebamos que nenhuma destas faculdades pode ser
boa em si mesma, porque tudo dependerá do uso que delas fizermos. Da vontade. Da livre
deliberação sobre um fim em detrimento de outros e que poderá ser pautada por uma boa vontade ou
não.
A boa vontade é tudo de bom, diria Kant. Todo o resto está sob suspeita. Está na boa vontade
toda a virtude e dignidade humanas, supondo, então, liberdade deliberativa. A primeira consequência
desta reflexão sobre a boa vontade é a igualdade. Igualdade entre todos nós. Perante Deus, ainda
dizem alguns. Perante a lei, garantem os textos constitucionais. A igualdade entre os homens não
saiu mais do cardápio das ideias morais.
Na moral aristocrática dos gregos, só há superioridade e inferioridade. Hierarquia, em suma.
Natural, moral e política. O poder exercido pelos melhores. Senhores e soberanos. E os piores,
escravos. Por isso, uma sociedade estratificada. Claro que continuamos desiguais em talentos. Em
recursos naturais. As faculdades do espírito, que me perdoe Descartes, são tão cruelmente
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concentradas nas mãos de dois ou três quanto as propriedades rurais em sociedades cruéis e distantes.
Mas já sabemos que quando o assunto é moral isso não tem muita importância. Porque os talentos,
sejam eles quais forem, não têm, por eles mesmos, nenhuma relevância moral.
Podemos ser gênios canalhas. E virtuosos lerdinhos. Feios, brutos e malvados. Lindos heróis
ou vilões. O que importa mesmo é a liberdade para decidir bem. Fazer um bom uso desses talentos
que são os nossos. Sejam eles quais forem. E essa liberdade todos nós temos. Somos, portanto,
igualmente livres para uma boa vontade.
Para além da nossa natureza. Essa sim, cruel e injusta. Perceba o quanto a ideia de igualdade
se choca com a perspectiva naturalista da moral aristocrática. A segunda consequência desta
liberdade como boa vontade é o desinteresse. A ação virtuosa se confunde com a ação
desinteressada. A liberdade, como vimos, é a capacidade de descolar da natureza. E, de certa forma,
opor-lhe alguma resistência. Ora, o que entendemos por nossa natureza? O ritmo de nosso
peristaltismo?
A incrível propensão para micoses? Ou dores de cabeça, quando venta muito? Exemplos de
manifestação da nossa natureza? Sim, sem dúvida. Mas que têm pouco a ver com liberdade. Talvez
porque nestes exemplos não haja algo a que resistir. Por isso, a natureza que vai nos importar para
entender a liberdade e a moral kantiana se materializa nas nossas inclinações.
Que podem fazer com que nos ocupemos exclusivamente de nós mesmos. Da nossa
particularidade. Assim, descolar dela, ou resistir a ela, implica levar em conta os interesses dos
outros, dando-lhes lugar. Para isto, é preciso colocar-se entre parênteses. Considerar outros desejos
além dos próprios. E tal auto-limitação supõe que não sejamos 100% egoístas.
Esta reflexão está presente no nosso cotidiano. Todos sabemos distinguir uma conduta
interessada de outra oposta. E atribuímos mais dignidade moral à segunda. Tudo porque sendo
modernos, somos kantianos sem saber. Por isso achamos tão interessante quando alguém nos faz um
favor aparentemente motivado pelo nada, sem expectativa de retorno. A terceira consequência desta
liberdade é o universalismo. A vontade, para ser uma boa vontade, deve se justificar universalmente.
O dever, que resulta de uma atividade intelectiva, deve valer para qualquer um. No lugar de
um Deus universal, uma razão universal ou pelo menos capaz de parir o universal. Neste ponto, o
senso comum moral se afasta do kantismo. Porque é muito comum encontrar justificativas que se
fundam na parcialidade do julgamento moral. O certo e o errado dependem muito de cada um,
decreta o palpiteiro, com ares de erudição. Além do senso comum, pensadores legítimos, arautos da
pós-modernidade, consideram que um dos principais pontos de ruptura entre o pós e o simplesmente
moderno reside neste ponto, da universalidade moral.
Michel Maffesoli, representante reconhecido desta corrente pós-moderna, afirma que a
sociedade de hoje é politeísta, em relação à sociedade moderna, monoteísta. E com este politeísmo
não revela somente a possibilidade de servir ou seguir vários deuses, mas também valores, formas de
julgamento moral. Mas, voltemos a Kant, que diz algo como: faça de tal maneira que a máxima que
preside a sua ação possa ser universalizada. Possa ser transformada em lei. Eis a fórmula do
imperativo categórico. Perceba a tangência entre esse universalismo e o desinteresse. Afinal, toda
pretensão de universalidade implica a negação da própria particularidade. A resistência frente aos
próprios interesses. Ao egoísmo. Para levar em conta o interesse geral, o bem comum, é preciso
considerar o interesse dos outros.
Descolar da própria natureza egoísta. Importa lembrar aqui que esta consideração do interesse
do outro não é natural. Exige esforço. Para ser livre, ter boa vontade, considerar o outro e buscar o
universal, é preciso remar contra a corrente, ir na contramão, estar, a todo o tempo, focado no
respeito ao dever. Desta forma, enquanto para os gregos a virtude corresponde à atualização dos
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talentos naturais, à realização da natureza em nós, para o pensamento moderno de Kant a virtude é
uma resistência ou oposição a essa mesma natureza. A luta contra a natureza em nós. Disposição que
se aprende. Que se fabrica. Por não ser inata, exige educação, porque a matéria bruta é sombria.
Igualdade, desinteresse e universalidade. Consequências da liberdade, fundamento da boa vontade e
de todo edifício moral de Kant. Parece atrativo.
Mas não é tão simples. A tal liberdade, fundamento de tudo, não é muito fácil de explicar.
Torna-se também um problema de conhecimento. Tem a ver com os próprios limites da razão
teórica. Para além da razão prática. Para Kant, a liberdade está um pouco além da fronteira do que
podemos conhecer. Pensar sobre ela nos leva a uma antinomia.
A um conflito da razão com ela mesma. Conhecer alguma coisa, explicar uma ocorrência
quer dizer apontar suas causas. Porque todo efeito tem uma causa determinante, que o faz ser o que é.
Ou o que só poderia ser. Assim, dadas certas causas, agindo sobre determinado mundo, os efeitos
serão inexoráveis. Como ocorre com todos os fenômenos naturais – chuva que chove, o faz com a
intensidade, a temperatura da água, a duração estritamente determinada por causas meteorológicas.
Então, a única pergunta que pode surgir no espírito de vocês é: se tudo no mundo é
estritamente determinado, por que o homem, ao agir, poderia ser livre, escapando assim a esta rede
de causalidades? Guarde estas inquietações. Nunca espere da filosofia mais do que ela pode oferecer.
Para respostas indiscutivelmente certas não faltarão gurus e dezenas de livros nas estantes das
livrarias. Aqui a pegada é outra.
Após essa breve introdução acerca das novidades trazidas pela filosofia kantiana,
abordaremos a obra que temos por objeto de análise bem como os problemas propostos para o
presente trabalho.
A obra kantiana Fundamentação da metafísica dos costumes tem por objeto pesquisar e
determinar o princípio supremo da moralidade. A primeira seção abarca a passagem do
conhecimento racional comum acerca da moralidade ao conhecimento filosófico. Kant propõe-se a
delimitar o princípio supremo da moralidade através de análise, de modo que fique exposto como
esse princípio supremo se apresenta em toda consciência humana.
O objetivo deste texto é: 1) a análise da boa vontade e de como essa noção extingue a
contradição existente entre a felicidade – enquanto considerada como fim último – e a razão –
enquanto incapaz de alcançar a felicidade; e 2) expor o percurso argumentativo kantiano acerca da
noção de dever e também a relação deste com a boa vontade e com o Imperativo Categórico na obra
Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1974).
Na primeira seção, o filósofo parte, pois, do seguinte pensamento: “Não é possível conceber
coisa alguma no mundo, ou mesmo fora do mundo, que sem restrição possa passar a ser considerada
boa, a não ser uma só: uma boa vontade” (KANT, 1974, p. 53). Neste pequeno trecho, pode-se notar
uma crítica às éticas da virtude e utilitarista, já que a boa vontade, segundo a doutrina kantiana, é
concebida como cumprimento das exigências do dever moral motivado pelo próprio dever, e não por
uma vontade tomada como benevolente e generosa – este ponto será melhor apresentado ao longo
deste “texto”.
De acordo com o filósofo, a faculdade de julgar, a coragem, a inteligência, etc, não são coisas
boas de modo absoluto, pois o valor delas depende de seu uso. O mesmo pensamento se aplica à
noção de felicidade – a qual não é um bem em si – e que pode ser a origem da corrupção para o
homem que não possui uma boa vontade. Vale apontar aqui que o que torna uma vontade boa é a
própria natureza do querer. Kant entende por boa vontade “não um mero desejo, mas o apelo a todos
os meios que estão ao nosso alcance” (Kant, 1974, p. 54) e afirma, ainda, que a boa vontade possui
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Uma ação cumprida por dever tira seu valor moral não do fim que por ela deve ser alcançado, mas da
máxima que a determina. Este valor não depende, portanto, da realidade do objeto da ação, mas
unicamente do princípio do querer, segundo o qual a ação é produzida, sem tomar em conta nenhum
dos objetos da faculdade apetitiva (de desejar) (KANT, 1964, p. 60).
O fim visado pode ser bom, todavia, o que importa é a regra através da qual o homem pauta
sua ação. O objeto visado não é o que confere valor moral ao ato, mas a razão pela qual se quer
atingi-lo. Por conseguinte, o valor moral do ato encontra-se na intenção. Essa intenção deve, pois, ser
destituída de um fim visado, isto é, deve-se ter a intenção de fazer o que se deve fazer. A partir dos
dois princípios da moralidade expostos acima, Kant define a noção de dever: “O dever é a
necessidade de cumprir uma ação por respeito à lei” (KANT, 1974, p.60).
Fazem-se necessários móveis para que o homem possa agir. Entretanto, esse móvel não pode
ser extraído da sensibilidade, pois nenhuma ação que procede do móvel extraído da sensibilidade
pode ser qualificada como moral. O móvel da ação – para quem quer agir por dever – encontrado na
doutrina kantiana é “senão o respeito à lei que lhe ordena cumprir o dever. É, pois somente a
representação da lei, num ser racional, que pode determinar a boa vontade” (PASCAL, 2008, p.122).
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Neste ponto, surge o problema de saber qual é a constituição dessa lei – a qual não considera
o efeito que se espera de sua própria representação e que deve determinar a vontade de modo a
denominá-la boa, sem restrições e de modo absoluto. Segundo a doutrina kantiana, em qualquer lei
pode-se considerar a forma – universalidade do preceito – e o seu conteúdo – o objeto visado.
Todavia, a ação moral não extrai seu valor de um fim objetivado, o que significa que a lei
moral deve ser considerada de acordo com a forma. A obediência à lei não depende de seu conteúdo.
Assim, resta à vontade “a conformidade universal das ações a uma lei em geral que deva servir-lhe
de princípio; noutros termos, devo portar-me sempre de modo que eu possa também querer que a
minha máxima se torna em lei universal” (KANT, 1974, p. 62). Fica, pois, evidente, o formalismo
kantiano: a conformidade com a lei em geral constitui o princípio da boa vontade. A razão comum
sempre tem este princípio diante dos olhos.
Kant sustenta que não é difícil saber agir moralmente, pois cada pessoa pode reconhecer, em
cada momento, aonde se encontra o dever, a condição de uma boa vontade ao questionar a si próprio
se quer que máxima alcançada se torne uma lei universal: “Ficaria satisfeito se minha máxima
valesse como lei universal” (KANT, 1974, p.63). Assim, a análise do conhecimento moral comum
capacita-nos a descobrir o princípio supremo da moralidade.
Com isso, a acepção de liberdade está concatenada à vontade, pois esta é a causa dos seres
vivos enquanto seres dotados de razão. A definição de liberdade que propomos é negativa, pois,
infecunda o conhecimento de sua essência. A causalidade traz consigo as leis segundo as quais
evocamos de causa.
Assim “a liberdade, se bem que não seja uma propriedade da vontade segundo leis naturais,
não é por isso, desprovida de lei, mas, tem antes de ser uma causalidade segundo leis imutáveis,
ainda que de uma espécie particular; pois, de outro modo uma vontade livre seria um absurdo”.
(KANT, 1974, p. 243).
Embora, a liberdade seja a propriedade da vontade, ela é em todas as ações uma lei para si
mesma, diferencia apenas o princípio de não agir segundo nenhuma outra máxima que não seja
aquela que possa ter-se a si mesma por objeto como lei universal. A fórmula do imperativo
categórico é o princípio da moralidade; Vontade livre e vontade submetida às leis morais
simultaneamente são semelhantes. Pressupondo a liberdade da vontade, segue-se que a moralidade
com o seu princípio, pode ser considerado analítico, visto que, a vontade provavelmente é aquela
cuja pode conter-se em si mesma na qual é considerada como lei universal.
De acordo com a doutrina kantiana não se trata de conceber a moral no sentido de analisar o
princípio supremo da moralidade, tal como delineia-se na consciência humana. “Não é possível
conceber coisa alguma no mundo, ou mesmo fora do mundo, que sem restrição possa ser considerada
boa, a não ser: uma boa vontade”. (PASCAL, 1985, p. 111).
Posteriormente, um dos traços característicos que fundamenta o ponto de partida no
pensamento kantiano é a questão da moralidade a qual significa o princípio supremo. Por
conseguinte, a conformidade como a lei, de certo modo constitui o princípio de uma boa vontade. E
por outro lado, a partir dessa afirmação é que se consiste o formalismo kantiano. Afinal, evidencia-se
também a oposição do ponto de vista da legalidade ou da formalidade através da lei, tendo presente
que o ponto de vista da moralidade autêntica reside na pura intenção.
Pelo fato da moralidade residir na pura intenção, nos remete a refletir acerca da vontade, por
isso, se torna impossível falar de liberdade sem falar de moral, e de liberdade sem falar de vontade,
pois, ambas estão correlacionadas. (PASCAL, 1985, p. 119). “A vontade, com efeito, é a faculdade
de agir segundo certas regras. Estas regras constituem máximas, se são subjetivas ou válidas para a
vontade do sujeito; constituem leis, se são objetivas, ou válidas para a vontade de todo o ser
racional”.
Além disso, conforme a teoria kantiana, a vontade é a capacidade que o indivíduo possui a
faculdade de agir segundo certas regras implicando-se na moral. A partir dessa afirmação estas regras
constituem máximas que podem ser denominadas como a lei moral. “Quando se trata de valor moral,
o que importa não são as ações exteriores que se veem, mas os princípios internos da ação, que não
se veem”. (PASCAL, 1985, p. 117).
Sendo a autonomia o princípio da dignidade da natureza humana da qual implica na razão, é
compreensível também perceber que Kant faz da autonomia princípio supremo de moralidade, sendo
que, implica respectivamente, a vontade e o respeito à pessoa humana e principalmente a sua
dignidade, ademais somente é possível pensar a liberdade na perspectiva de Kant, a partir da reflexão
moral.
Portanto, a moral pressuponha necessariamente a liberdade (em seu sentido mais estrito)
como propriedade de nosso querer, enquanto ela aduz aos princípios, práticos originários, presente
em nossa razão como dados a priori desta mesma razão, os quais seriam absolutamente impossíveis
sem o pressuposto, da liberdade; e uma vez que, contra isso, a razão especulativa tenha demonstrado
que esta liberdade não pode de fato ser pensada, então o primeiro pressuposto, isto é, a moral,
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deveria necessariamente ceder ao segundo, ou seja, ao pressuposto cujo contrário contém uma clara
contradição e, por conseguinte, a liberdade, e com ela a moralidade (cujo contrário não tem nenhuma
contradição, se já não for pressuposta a liberdade). (REALE, 2005, p. 407).
Portanto, como acima foi exposto, a liberdade no pensamento kantiano, somente pode ser
pensada através da reflexão moral. Dessa forma, a autonomia da vontade e a liberdade são
simultâneas é impossível pensar autonomia da vontade sem pensar a liberdade, ambas estão em
consonância uma com a outra.
Por isso, tendo discorrido sobre a relação kantiana de liberdade que implica na moral e
autonomia da vontade que se refere à liberdade, percebe-se que esses aspectos culminam de seu
pensamento que é importante para a modernidade, pelo modo como ele aborda então se torna
pertinente falar de liberdade na atualidade e principalmente na modernidade é uma temática em que
nota-se que o ser humano se preocupa muito com essa questão de ser livre. Mas, para ser livre é
preciso agir também de acordo com a ética e moral, a liberdade está intimamente ligada a esses
parâmetros.
Dessa maneira, a liberdade só poderá ser pensada corretamente, se a compreendermos de fato,
como propriedade de um ser. Com isso, as percepções dos filósofos da modernidade tematizam a
liberdade como reflexão em torno da ética e da moral em que se demonstra a filosofia um autêntico
saber humano.
Logo, a lei moral kantiana tem necessidade de ser absoluta, pois todo agir tem que valer como
condição universal para todos os seres racionais. Nesse sentido a moralidade não pode vir da
antropologia, nem da abstração de dados empíricos, mas deve-se deduzi-la de um ente racional.
Somente na aplicação da lei moral é que se pode abordar questões antropológicas, e, também, o
conceito de felicidade. Quando se trata da eficácia da lei para um ser racional finito, aparece
novamente o conceito de felicidade. A felicidade, que é um fim perseguido por todos, é uma
necessidade natural, fato que remonta a seu status de a priori, visto que a felicidade natural está
presente em todos os seres racionais.
Para Kant, o conceito de vontade boa contém em si o conceito de dever. O dever é uma ação
da vontade boa que não pode ser constatado empiricamente. O valor moral de uma ação consiste em
executá-la por dever e não por inclinação ou interesses particulares. Fazer o bem por inclinação ou
por interesse não possui nenhum valor moral, mas apenas valor contingente, mas, ao contrário, se a
prática do bem é por dever a ação é valorativa. Dutra (2002, p. 35) afirma que: “A vontade boa pode
ser considerada uma condição formal do valor moral da ação, e pode ser estabelecida a priori”.
Nosso autor menciona:
Uma ação praticada por dever tem seu valor moral, não no propósito que com ela se quer atingir, mas
na máxima que a determina: não depende, portanto da realidade do objeto da ação, mas somente do
princípio do querer segundo o qual a ação, abstraindo de todos os objetos da faculdade de desejar, foi
praticada […] dever é a necessidade de uma ação por respeito à lei […] ora, se uma ação realizada por
dever deve eliminar totalmente a influência da inclinação e com ela todo o objeto da vontade nada mais
resta à vontade do que a possa determinar do que a lei objetivamente e subjetivamente. KANT (1974, p.
208).
O valor moral de uma ação não está no efeito que dela decorre, mas no querer e no agir
conforme a lei e não por inclinação. O princípio do agir moral é que possa querer que a máxima da
ação seja universal. E para saber se a ação praticada tem valor moral válido basta questionar-se se
essa é possível de tornar-se universalizável.
Dutra (2002, p. 35) expressa que: “A vontade boa é um conceito que diz respeito ao
acatamento subjetivo da lei moral”. Logo, esse acatamento é que implica a moralidade da ação, onde
uma ação praticada por interesse possui valor contingente e não moral. O valor moral da ação é
definido pela motivação da lei e não pelo interesse empírico. Evidencia-se assim que a vontade boa é
um dos elementos fundamentais do dever e que pode ser estabelecida a priori. A vontade boa é
considerada o primeiro aspecto do dever.
Na “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”, Kant ressalta que o dever possui um
segundo aspecto, a lei moral:
[…] todos os conceitos morais têm sua sede e origem completamente a priori na razão; […] que não
podem ser abstraídos de nenhum conhecimento empírico e por conseguinte puramente contingente; que
exatamente nessa pureza da sua origem reside a sua dignidade para nos servirem de princípios práticos
supremos (KANT 1974, p. 35).
As leis morais devem valer para todos os seres racionais, e, é também, desses seres racionais
universais que devessem deduzi-las. Trata-se então de descrever a faculdade prática da razão,
partindo das regras universais até o conceito de dever então ele afirma:
Cada coisa da natureza age segundo leis. Só um ser racional tem capacidade de agir segundo a
representação das leis, isto é, segundo princípios, ou: só ele tem uma vontade. Como para as ações das
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leis é necessária à razão, a vontade não é outra coisa senão a razão prática. Se a razão determina
infalivelmente à vontade, as ações de um tal ser, que são conhecidas como objetivamente necessárias,
são também subjetivamente necessárias, isto é, a vontade é a faculdade de escolher só aquilo que a
razão, independentemente da inclinação, reconhece como praticamente necessária, quer dizer como
bom (KANT (1974, p. 217).
Logo, se a razão não determina por si a vontade, mas está sujeita a condições empíricas e se a
vontade não é conforme a razão, suas ações são totalmente contingentes.
Os imperativos da razão
Os imperativos da razão podem ser hipotéticos ou categóricos. Os imperativos se exprimem
pelo verbo dever (sollen), e mostram assim a relação de uma lei objetiva da razão para uma vontade.
Os imperativos afirmam se seria bom ou não deixar de praticar qualquer coisa. Os imperativos
hipotéticos e categóricos são distintos.
Nosso autor, menciona em que consiste o imperativo hipotético e categórico: Os imperativos
hipotéticos representam a necessidade de uma ação possível como meio de alcançar outra coisa que
se quer. O imperativo categórico seria aquele que nos representa uma ação como objetivamente
necessária, por si mesma, sem relação com qualquer finalidade. KANT (1974, p. 218)
Os imperativos são fórmulas da determinação da ação que é necessária segundo um princípio
de uma vontade boa. Se a ação é boa apenas como meio para outra coisa, então o imperativo é
hipotético. Porém se ação é boa em si, e é uma vontade conforme a razão, então o imperativo é
categórico. O imperativo mostra que a ação é boa em vista de qualquer intenção sendo ela possível
ou real. O imperativo categórico independe de qualquer intenção, mas a ação é necessária em si, e
por isso também que é válido como princípio prático.
O imperativo categórico pode também ser chamado de imperativo da moralidade, porque esse
não se relaciona com a matéria da ação, mas com a forma, e também porque a ação é boa em si, na
sua disposição. Para que a moralidade não seja vã, é preciso demonstrar que é necessário o
imperativo categórico e a autonomia da vontade.
Kant (1974, p. 223) afirma que há apenas um imperativo categórico: “Age apenas segundo
uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”. É desse
imperativo que provêm os imperativos de dever, e também a lei moral. Em todas as ações praticadas
pelo homem tal imperativo deve estar presente, para assim estabelecer critérios. Se a ação praticada é
possível que seja tomada como universal. Há ações praticadas pelo homem que são contrárias as leis
da razão e por isso não podem ser universalizáveis, e essas ações só são possíveis porque o homem
age pela liberdade. Evidencia-se assim que o conceito de dever é um conceito que possui um
significado, e contêm uma legislação para as ações do homem, exprimindo-se no imperativo
categórico. Então se questiona: é possível esse imperativo categórico?
2 - Etimologia: advém do alemão Noumenon, plural noumena, palavra criada pelo filósofo alemão Immanuel
Kant a partir do grego nooúmena usada por Platão ao falar da ideia, propriamente ‘aquilo que é pensado, pensamento’.
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O ser racional, como inteligência, conta-se como pertencente ao mundo inteligível, e só chama vontade
sua causalidade como causa eficiente que pertence ao mundo inteligível. Por outro lado. tem
consciência de si mesmo como parte do mundo sensível, no qual suas ações se encontram como meros
fenômenos daquela causalidade KANT (1974, p. 248).
Logo, pode-se somente conhecer as coisas na medida em que aparecem no âmbito do espaço
e tempo, ou seja, como fenômenos, e não como noumenos. A questão que se levanta com esse fato é
se é possível conhecer a coisa-em-si, ou seja, o noumenon. Não se pode conhecer a coisa-em-si, mas
ela é possível de ser pensada, pois o noumenon é o fundamento dos fenômenos. Kant menciona:
… porque o mundo inteligível contém o fundamento do mundo sensível, e, portanto das suas leis, sendo
assim, com respeito a minha vontade, (que pertence ao mundo inteligível), imediatamente legislador e
devendo também ser pensado como tal, resulta daqui que, posto por um lado me conheça como ser
pertencente ao mundo sensível, terei, como inteligência, de reconhecer-me à lei do mundo inteligível,
isto é, a razão, que na ideia de liberdade contém a lei desse mundo, e, portanto a autonomia da vontade;
por conseguinte terei de considerar as leis do mundo inteligível como imperativos para mim e as ações
conforme este princípio como deveres. KANT (1974, p. 249).
Somente assim são possíveis os imperativos categóricos, porque a ideia de liberdade faz com
que o homem seja membro do mundo inteligível.
Se não houvesse distinção entre fenômenos e noumenos, não se poderia dizer que, enquanto
age-se sob as leis da natureza não se é livre, e ao mesmo tempo se a ação praticada pela lei é livre.
Sendo assim, é possível pensar a liberdade como condição da moralidade dos atos. A vontade tida
como fenômeno, é submetida às leis da natureza e não é livre, mas a vontade pensada como coisa-
em-si, ou seja, como vontade autônoma, é livre. Então se percebe que a liberdade como ideia da
razão ainda que não seja conhecida é possível ser pensada.
Enquanto o homem dá-se a si mesmo a lei moral, enquanto o homem está submetido à lei que
ele mesmo criou, enquanto participante do mundo inteligível, ele é livre. Isso é autonomia da
vontade. E só assim é possível o imperativo categórico. Kant mostra que a liberdade é plausível de
ser pensada mesmo que não seja conhecida.
… O conceito de uma causalidade traz consigo o de leis segundo as quais, por meio de uma coisa que
chamamos causa, tem de ser colocada outra causa que se chama efeito, assim a liberdade, […] não é
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desprovida de lei, mas têm de ser causalidade segundo leis imutáveis, […], pois de outro modo uma
vontade livre seria absurda. Ou ainda- a vontade é em todas as ações uma lei para si mesma. KANT
(1974, p. 243),
Logo, isso caracteriza o princípio de não agir por máximas que não possam ser tomadas como
leis universais. Isso é o imperativo categórico e o princípio da moralidade. Assim não é plausível
atribuir a liberdade à vontade do homem, se não for possível de atribuí-la a todos os seres racionais.
Pois, a moralidade serve de lei, somente para os seres racionais, então a liberdade tem de valer para
todos os seres racionais. Pois a liberdade é demonstrada como propriedade dos seres racionais
dotados de vontade.
Immanuel ressalta:
Todo ser que não pode agir senão sob a ideia da liberdade, é por si mesmo, em sentido prático,
verdadeiramente livre, quer dizer para ele valem todas as leis que estão inseparavelmente ligadas a
liberdade exatamente como se a sua vontade fosse definida como livre em si mesma. […] a todo ser
racional que têm uma vontade temos que atribuir-lhe necessariamente também a ideia de liberdade sob
a qual ele unicamente pode agir (KANT 1974, p. 244).
A vontade dos seres racionais tem que ser considerada livre em si mesma, pois não é possível
que ela como autor dos seus princípios deixe-se influenciar por módulos estranhos, e a vontade desse
ser racional só pode ser vontade própria sob a ideia de liberdade. Portanto, a ideia de liberdade está
ligada inseparavelmente ao conceito de autonomia, e esse é o princípio da moralidade o qual está na
base das ações dos seres racionais. Logo, não se pode pensar a lei moral sem a ideia da liberdade e
vice-versa.
voar e submeter-se a lei da gravitação, isto é, deve agir dentro da lei. Sheen (1947, p. 38) também
menciona: “Somos verdadeiramente livres quando obedecemos a finalidade ou a lei que fomos
criados, […] alcance-se a real liberdade, não agindo fora da lei, mas dentro dela”.
A relação que existe entre liberdade e responsabilidade moral é uma relação de
complementaridade, em que estão ligados entre si. Sendo assim, pode-se questionar sobre os atos
humanos, acerca de sua moralidade e sobre a responsabilidade do homem por seus atos. Leclerq
(1967, p. 376) afirma que: “[…] os atos só têm caráter moral na medida em que nele intervém a
liberdade; e seu caráter moral diminui na proporção que diminui a intervenção do livre-arbítrio”.
Logo, a moralidade dos atos consiste em fazer o uso da liberdade. Quando a liberdade é privada, não
há responsabilidade moral. Portanto, o homem é responsável pelos atos que pratica com liberdade.
Vasquez complementa:
Atos propriamente morais são aqueles nos quais podemos atribuir ao agente uma responsabilidade não
só pelo que se propôs a fazer, mas também pelos resultados ou consequências da sua ação. Mas o
problema da responsabilidade moral está estreitamente relacionado, por sua vez com o de necessidade e
liberdade humanas, pois somente admitindo que o agente tenha certa liberdade de opção e decisão é que
se pode responsabilizá-lo pelos seus atos (VASQUEZ (1996, p. 91).
Assim sendo, não se deve julgar determinado ato segundo uma regra sem antes analisar as
condições que propiciaram certa ação. Se houve para o indivíduo possibilidade de opção, torna-se
possível atribuir-lhe uma responsabilidade moral. Logo, pode-se levantar a seguinte indagação: quais
as condições necessárias e suficientes para poder atribuir ao indivíduo uma responsabilidade moral
pelos seus atos? Vasquez evidencia duas condições fundamentais: Que o sujeito não ignore nem as
circunstâncias nem as consequências da sua ação, ou seja, que seu comportamento possua um caráter
consciente. E que a causa de seus atos esteja nele próprio e não em outro agente que o force a agir de
certa maneira, […], ou seja, que sua conduta seja livre (VASQUEZ 1996, p. 92).
Assim o conhecimento e a liberdade é que permitem legitimar a responsabilidade moral, caso
contrário, se há falta de liberdade e conhecimento, o indivíduo não possui responsabilidade moral.
Pois, quem não possui consciência para agir, não pode ser responsável pelos seus atos.
É fundamental para que o indivíduo seja responsável por seus atos que ele não sofra nenhuma
coação externa, isto é, que a ação praticada provenha de dentro da própria pessoa e não de fora. Pois
quando o indivíduo encontra-se sob coação ou pressão, perde o controle de seus atos. O indivíduo é
isento de responsabilidade moral quando não teve possibilidade de agir de outra maneira.
A reflexão acerca da liberdade encontra-se inclusa no Projeto da Modernidade, onde os
termos autonomia, emancipação e liberdade estão relacionados entre si, e também são bases de tais
reflexões. Pensar a liberdade não é possível sem fazer alusão a esse Projeto, no qual os três termos
distintos determinam o mesmo sentido, a maioridade do homem.
A liberdade é um pressuposto básico para que o homem seja responsável por seus atos e suas
escolhas. É dentro da Modernidade que o homem busca emancipar-se, ser autônomo e livre. O
período moderno é chamado também de período antropocêntrico, onde o homem é capaz de fazer
suas escolhas e praticar suas ações, e é dentro da Modernidade que lhe é oferecido a possibilidade de
emancipar-se e ser autônomo, enfim, conquistar sua liberdade.
Conclusão
Portanto, evidencia-se que é livre aquele que é capaz de agir conforme as leis da razão, visto
que o conhecimento se fundamenta no entendimento e na sensibilidade. A razão oferece princípios
para a ação.
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A condição necessária para a liberdade é que as ações do homem sejam fenômenos, pois
assim são consideradas efeitos da liberdade.
A liberdade teórica é concebida como espontaneidade e a liberdade prática é compreendida
como autonomia, que é o poder da vontade de ser lei para si mesma. O conceito prático da liberdade
está ligado de forma intrínseca ao conceito de vontade. E a liberdade prática só existe na relação com
a razão.
A liberdade compreendida como autonomia da vontade mostra que todo ser racional tem que
dar a si mesmo a própria lei, e obedecer a essa lei criada por ele mesmo. Por isso, não há liberdade de
agir contra a lei, mas de agir conforme a lei criada pelos seres racionais. O agir é a faculdade
existente nos entes racionais, pois esses são capazes de agir segundo leis e princípios, ao contrário do
simples atuar das coisas.
Na teoria kantiana, o agir moral baseia-se em dois princípios: “Que agir moralmente consiste
em agir com base em regras universalizáveis, que qualquer outro ser racional possa adotar como
suas; que devemos agir com base em regras universalizáveis pela simples razão de sermos racionais”
(ALMEIDA, 2012, p. 94). A ação moral é válida quando é praticada com base no imperativo
categórico: “Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo
como princípio de uma legislação universal” (KANT, 1974, p. 42). O agir moral consiste em
cumprir a lei pela razão, pois a ação praticada por interesse ou por inclinação possui valor
contingente e não moral. As leis morais devem valer para todos os seres racionais e é deles que
devesse deduzi-las.
A ideia de liberdade está ligada inseparavelmente ao conceito de autonomia, e esse é o
princípio da moralidade. A lei moral não existiria se não houvesse a liberdade. Logo é impossível
pensar a lei moral separada da liberdade. Ser livre é ser capaz de obedecer a lei moral. A liberdade
não é o direto de fazer o que se quer, mas é o direito de fazer o que se deve; agir por dever é ser livre.
Então a liberdade não é a ausência de leis, mas é o agir conforme a lei.
A moralidade dos atos humanos está em fazer o uso da liberdade. Quando não há liberdade
para escolher e agir, não se pode atribuir valor moral à ação. Para que o ato possua valor moral o
indivíduo não pode ser coagido, ou impulsionado a agir de determinada maneira, que não seja
próprio dele.
Quando se viola a humanidade como fim, viola-se a dignidade que todos os seres racionais
possuem. A razão para respeitar a dignidade do outro não tem relação com algo particular do outro,
mas sim porque o respeito é universal por uma capacidade racional também universal. O homem que
age pela razão, segue uma lei moral, ou seja, um imperativo categórico, uma lei moral universal
criada, escolhida e compartilhada por todos os seres racionais, assim sendo na realidade prática
realmente livre.
Portanto, agir racionalmente por dever e obedecer às leis é ao mesmo tempo garantir a
liberdade. “Dignidade moral tem como primeira característica o desinteresse” (Kant).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALMEIDA, G. Moralidade e racionalidade na teoria moral kantiana. Porto Alegre: UFRGS/
Goethe/ CBA, 1992, p. 94.
DELEUZE, Gilles. A filosofia crítica de Kant. Trad. Germiniano Franco. Lisboa, Edições 70, 2000.
DUTRA, D.V. Kant e Habermas: A reformulação discursiva da moral Kantiana. Porto Alegre:
Edipurs, 2002, p. 11-107.
FAGGION, Andréa Luisa Bucchile. O imperativo categórico como realização da necessidade
lógica da razão. Revista Filosofia, Curitiba, v.15, n.17, p. 43-53, jul./dez. 2023.
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