TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
3ª CÂMARA CRIMINAL
AC - 0002424-63.2018.8.16.0163
Apelação Criminal n° 0002424-63.2018.8.16.0163
Vara Criminal de Siqueira Campos
Apelante(s): Ministério Público do Estado do Paraná
Apelado(s): DJONATA RARTS RODRIGUES DOS SANTOS e CLAUDEMIR DE CARVALHO
DA ROCHA
Relator: Desembargador Gamaliel Seme Scaff
APELAÇÃO CRIMINAL – TRÁFICO DE DROGAS (ART. 33, CAPUT, DA
LEI Nº 11.343/2006) – SENTENÇA ABSOLUTÓRIA – INSURGÊNCIA DO
MINISTÉRIO PÚBLICO –PLEITO PELA CONDENAÇÃO DOS
ACUSADOS PELO CRIME DE TRÁFICO DE DROGAS –
IMPOSSIBILIDADE – DROGAS NÃO APREENDIDAS – AUSÊNCIA DE
LAUDO TOXICOLÓGICO DEFINITIVO OU PRELIMINAR –
MATERIALIDADE NÃO COMPROVADA – PRECEDENTES –
SENTENÇA MANTIDA – FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS
ADVOCATÍCIOS À DEFENSORA DATIVA PELA ATUAÇÃO EM
SEGUNDA INSTÂNCIA – OFERECIMENTO DE CONTRARRAZÕES.
- “(...) 1. Nos termos da jurisprudência pacificada desta Corte Superior, é imprescindível a
apreensão da droga para que a materialidade delitiva, quanto ao crime de tráfico de drogas,
possa ser aferida, ao menos, por laudo preliminar. (...)”. (AgRg no AREsp 1341356/SC, Rel.
Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 05/05/2020, DJe 11/05
/2020).
RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO.
VISTOS, relatados e discutidos estes autos de Apelação Criminal nº 0002424-
63.2018.8.16.0163, da Vara Criminal de Siqueira Campos em que é Apelante MINISTÉRIO PÚBLICO
DO ESTADO DO PARANÁ e Apelados CLAUDEMIR DE CARVALHO DA ROCHA e DJONATA
RARTS RODRIGUES DOS SANTOS.
I. RELATÓRIO.
Contam os autos que o representante do Ministério Público do Estado do Paraná,
no uso de suas atribuições legais, ofereceu denúncia contra CLAUDEMIR DE CARVALHO DA
ROCHA e DJONATA RARTS RODRIGUES DOS SANTOS, por infração ao art. 33, caput, da Lei nº
11.343/2006, pela prática, em tese, dos seguintes fatos delituosos:
“FATO I
No dia 04 de maio de 2018, em horário anterior às 09h30min, na residência localizada na rua das
Palmeiras, nº 1107, Jardim Vitória Régia, nesta cidade e comarca de Siqueira Campos/PR, os
denunciados DJONATA RARTS RODRIGUES DOS SANTOS (como autor mediato) e CLAUDEMIR
CARVALHO DA ROCHA (como autor imediato), previamente conluiados e com unidade de
desígnios, de forma voluntária e consciente, cientes da ilicitude e reprovabilidade de suas
condutas, tinham em depósito, pelo menos: 03 (três) quilos de entorpecentes não identificados nos
autos, denominados pelos traficantes como “carne”, substância capaz de causar dependência
física e/ou psíquica, proscrita, conforme Portaria n.º 344/98/SVS/MS, Anexo I – em desacordo com
determinação legal ou regulamentar, para posterior fracionamento e entrega a consumo, em
benefício da associação criminosa por eles mantida (conforme se extrai da degravação de fl. 130
do caderno investigatório, em que Djonata pede a Claudemir que separe referida quantidade de
drogas, pois um comprador da Cidade de Guarapuava viria buscar os entorpecentes).
FATO II
No dia 10 de maio de 2018, em horário anterior às 11h50min, na residência localizada na rua das
Palmeiras, nº 1107, Jardim Vitória Régia, nesta cidade e comarca de Siqueira Campos/PR, os
denunciados DJONATA RARTS RODRIGUES DOS SANTOS (como autor mediato) e CLAUDEMIR
CARVALHO DA ROCHA (como autor imediato), previamente conluiados e com unidade de
desígnios, de forma voluntária e consciente, cientes da ilicitude e reprovabilidade de suas
condutas, tinham em depósito: (i) 45 (quarenta e cinco) gramas da droga conhecida como
“Cocaína” (princípio ativo Eritroxylum coca), mencionada pelos traficantes como sendo de melhor
qualidade, e mais (ii) 150 (cento e cinquenta gramas) da mesma droga, (esta, no entanto, de
qualidade inferior) - substâncias capazes de causar dependência física e/ou psíquica, proscrita,
conforme Portaria n.º 344/98/SVS/MS, Anexo I – em desacordo com determinação legal ou
regulamentar, em benefício da associação criminosa por eles mantida (conforme se extrai da
degravação de fl. 173 e 176 do caderno investigatório).
FATO III
No dia 13 de maio de 2018, em horário anterior às 15h00min, na residência localizada na rua das
Palmeiras, nº 1107, Jardim Vitória Régia, nesta cidade e comarca de Siqueira Campos/PR, os
denunciados DJONATA RARTS RODRIGUES DOS SANTOS (como autor mediato) e CLAUDEMIR
CARVALHO DA ROCHA (como autor imediato), previamente conluiados e com unidade de
desígnios, de forma voluntária e consciente, cientes da ilicitude e reprovabilidade de suas
condutas, adquiriram, de pessoa identificada como “tio”, residente na cidade de Santo Antônio da
Platina/PR, 450g (quatrocentos e cinquenta gramas) da droga conhecida como “Cocaína”
(princípio ativo Eritroxylum coca) - substância capaz de causar dependência física e/ou psíquica,
proscrita, conforme Portaria n.º 344/98/SVS/MS, Anexo I – pelo valor de R$ 27,00 (vinte e sete
reais) a grama, totalizando o montante de R$ 12.150,00 (doze mil, cento e cinquenta reais), em
desacordo com determinação legal ou regulamentar, para posterior fracionamento e entrega a
consumo, em benefício da associação criminosa por eles mantida, (conforme se extrai da
degravação de fls. 190/192 do caderno investigatório, em que Claudemir e Djonata fazem a
contabilidade de quanto ainda falta pagar pelo fornecimento da droga).
FATO IV
No dia 13 de maio de 2018, em horário anterior às 15h00min, na residência localizada na rua das
Palmeiras, nº 1107, Jardim Vitória Régia, nesta cidade e comarca de Siqueira Campos/PR, os
denunciados DJONATA RARTS RODRIGUES DOS SANTOS (como autor mediato) e CLAUDEMIR
CARVALHO DA ROCHA (como autor imediato), previamente conluiados e com unidade de
desígnios, de forma voluntária e consciente, cientes da ilicitude e reprovabilidade de suas
condutas, tinham em depósito: (i) 25 (vinte e cinco) gramas de “Cocaína” (princípio ativo
Eritroxylum coca) e (ii) 10 (dez) quilogramas da droga conhecida como “Maconha” (princípio
ativo Cannabis Sativa Lineus) - substâncias capazes de causar dependência física e/ou psíquica,
proscrita, conforme Portaria n.º 344/98/SVS/MS, Anexo I – em desacordo com determinação legal
ou regulamentar, para posterior fracionamento e entrega a consumo, em benefício da
associaçãocriminosa por eles mantida (conforme se extrai da degravação de fls. 190/192 do
caderno investigatório).
FATO V
No dia 27 de maio de 2018, em horário anterior às 15h08min, na residência localizada na rua das
Palmeiras, nº 1107, Jardim Vitória Régia, nesta cidade e comarca de Siqueira Campos/PR, os
denunciados DJONATA RARTS RODRIGUES DOS SANTOS (como autor mediato) e CLAUDEMIR
CARVALHO DA ROCHA (como autor imediato), previamente conluiados e com unidade de
desígnios, de forma voluntária e consciente, cientes da ilicitude e reprovabilidade de suas
condutas, tinham em depósito: 60g (sessenta gramas) de “Crack” (princípio ativo Eritroxylum
coca) - substância capaz de causar dependência física e/ou psíquica, proscrita, conforme Portaria
n.º 344/98/SVS/MS, Anexo I – em desacordo com determinação legal ou regulamentar, para
posterior fracionamento e entrega a consumo, em benefício da associação criminosa por eles
mantida (conforme se extrai da degravação de fl. 369 do caderno investigatório).” (mov. 1.1)
Após os trâmites processuais, em 13 de novembro de 2019, sobreveio a sentença,
julgando improcedente a pretensão punitiva para absolver Claudemir Carvalho da Rocha e Djonata
Rarts Rodrigues dos Santos, com fulcro no art. 386, inciso VII do CPP (mov. 135.1).
Irresignado, o representante do Ministério Público interpôs recurso de apelação
pleiteando, em suma, a reforma da r. sentença para o fim de condenar os réus Claudemir de Carvalho da
Rocha e Djonata Rarts Rodrigues dos Santos pela prática dos crimes de tráfico de drogas previsto no art.
33, caput, da Lei nº11.343/06, por cinco vezes, eis que suficientes as provas produzidas (mov. 158.1).
Os acusados apresentaramcontrarrazões ao recurso (mov.163.1 e 173.1).
Instada a se manifestar, a ilustre representante da douta Procuradoria Geral de
Justiça, Procuradora Eliane Maria Penteado de Carvalho Hoffmann, pronunciou-se pelo conhecimento e
provimento do recurso (mov. 12.1, dos autos do recurso).
É o relatório, no que interessa.
II. VOTO E SUA FUNDAMENTAÇÃO.
QUANTO AO JUÍZO DE PRELIBAÇÃO.
O recurso é tempestivo e reúne todos os pressupostos de admissibilidade,
intrínsecos e extrínsecos, pelo que deve ser conhecido.
QUANTO AO PLEITO CONDENATÓRIO – MATERIALIDADE E
AUTORIA DELITIVA.
Sustenta o Ministério Público, em suma, que restou suficientemente demonstrado
nos autos a materialidade e autoria delitiva dos increpados Claudemir e Djonata, pelo crime de tráfico de
drogas previsto no art. 33, caput, da Lei 11.343/2006, requerendo, portanto, a reforma da sentença para
condená-los. Afirma que a prova documental, a degravação das interceptações telefônicas e os
depoimentos dos policiais são suficientes para a condenação.
Entretanto, de detido estudo do caderno processual, a despeito do posicionamento
do Parquet, tenho, todavia, que a r. sentença não merece reparos.
Explico.
O Policial Militar Lauro Cesar Ribeiro da Silva, ouvido em juízo, relatou que:
“em relação ao fato um, na conversa pela interceptação telefônica, Churck conversa com
Claudemir, mas ele havia tentado contato com Neguinho. Que eles pagariam cento e cinquenta
reais para um cara de Guarapuava vir pegar a droga. Eles usavam os termos carne, camisa, pó,
farinha, uma vez falaram ‘pulei com o gado no mato’, que tinham escondido a droga no mato, eles
usavam vários termos. Como Churck não conseguiu contato com Neguinho ele ligou para
Claudemir e perguntou se ele tinha essa ‘moeda’, esse dinheiro para pagar o rapaz que ia fazer o
corre, como eles falavam. Claudemir falou que já tinha dado cento e cinquenta reais, mas Churck
falou que isso era outra história, agora era para a pessoa de Guarapuava. Sobre o fato dois,
recorda que na conversa Claudemir passa para Churck que misturou meia da ruim e meia da boa,
mas havia ficado só o gosto da ruim, então não compensava misturar as drogas, que ele tentou
misturar para não perder a ruim. Churck perguntou quanta droga tem, Claudemir fala que tem
150g da ruim e 45g da boa, tinha 70, Claudemir vendeu 20 para um moleque e deu 5 para
neguinho, dai sobrou 45g. Essas 70g era uma droga que eles foram buscar em Curitiba, mas eles
fugiram de moto e não conseguiram pegá-los. Neguinho também vendia, ele pegou 5g para vender.
Sobre o fato três, quem era responsável por comprar drogas era Djonata, essa foi uma das poucas
vezes que Neguinho comprou a droga, sempre Djonata comprava e Neguinho buscava. Aí eles
passavam para Claudemir e ele passava para os moleques dele distribuírem na cidade. Nessa
ocasião neguinho comprou 450g a vinte e sete reais, dentro da cadeia o Churck ficou brabo e ligou
perguntando para Claudemir quanto eles ainda deviam para o Tio, ele repassou que tinha dado um
tanto de maconha em troca e havia pago com dinheiro, mas Claudemir não sabia como foi o acerto
da maconha e do dinheiro, pois Neguinho que tinha feito o negócio. Aí Djonata fala ‘como estamos
devendo três mil ainda, se já pagamos tanto’. Aí Claudemir diz que também não sabe e que tinham
que falar com Neguinho. Churck fica brabo, fala que não era mais para fazerem isso, pois tinha
dado problema. Nesta ocasião acabou a droga e Neguinho tomou a iniciativa de comprar e depois
avisou o Churck. Sobre o Fato quatro, diz que a droga foi continuidade do fato três, eles iam
passar os 10kg de maconha para pagar a droga que pegaram de Tio e eles tinham em depósito
mais 35g. Sempre passavam a contabilidade das drogas nas conversas. Acredita que as 25g de
cocaína foram pegas com Neguinho em Ibaiti. Tinha 150g de crack para buscarem em Londrina,
então Churck pediu que Neguinho levasse as 25g, pois a droga fica escondida aqui, era de
Claudemir, Neguinho e Djonata. Os três eram a frente da associação, então Neguinho levaria essas
25g de cocaína para levantar dinheiro e trazer as 150g de crack, só que Neguinho foi pego em
Ibaiti com essas 25g de cocaína, então depois eles mandaram o Uber (Renato) trazer as 150g de
crack. Toda negociação constou da degravação, Neguinho, sua esposa e Felipe Beraldo foram
presos em Ibaiti em posse dessa droga. Felipe Beraldo foi levado para assumir a droga se
acontecesse da polícia pegá-los. Tanto que o advogado avisou Churck que os três estavam presos e
Churck falou que Felipe foi junto para assumir a droga, se ele não assumisse cortariam a cabeça
dele. Sobre o fato cinco, entendeu que foi bem na época da greve dos caminhoneiros e estava
faltando cocaína para eles, nessa conversa Claudemir fala para Churck que ainda tem 60g de dura
(Crack), Chuck comenta que se a greve não acabar, eles estavam ferrados, pois estava faltando
droga, não sabe onde as 60g estava escondida. No dia que prenderam Claudemir, apreenderam
bastante droga, não dá para saber se essa droga estava no meio, a movimentação deles era muito
grande. No dia da prisão dele tinha cocaína, maconha e crack, era bastante quantidade. O fato três
fala que 450g de cocaína eles compraram do Tio, eles pagaram com um pouco de maconha e um
pouco de dinheiro. Eles faziam esses rolos, se estava sobrando uma droga e faltando outra eles
trocavam. Foram quatro meses de investigação, nesse tempo a primeira apreensão já foi de 10kg
de maconha, eles pagaram dois moleques para buscar e Neguinho foi de batedor” (mov. 113.3).
O Policial Militar Vicente Bento dos Santos Neto, declarou em juízo que:
“(...) participou da investigação. Sobre o fato um, recorda que Djonata queria conversar com
Neguinho, mas não estava conseguindo, então pediu que Claudemir depositasse esse dinheiro para
um rapaz de Guarapuava que buscaria a droga para revender naquela cidade. A droga estava em
poder de Claudemir e os demais da associação. Com relação ao fato dois, eles falam que tinha 45g
da boa e 150g da ruim. Claudemir fala que fez uma mistura, mas não deu certo, ele fez uso para
testar. Voltando ao fato um, eles estavam desconfiando do grampo e começaram a usar expressões.
Maconha falavam que era carne, usavam farinha, bolo. Sobre o fato três, eles começaram a entrar
em desacerto, pois Neguinho deu 10kg de maconha para pagar essas 450g, deu mais um pouco em
dinheiro e Djonata estava brabo, pois eles não estavam conseguindo quitar as 450g de cocaína.
Não conseguiram identificar quem era o Tio de quem eles compraram as drogas, acha que ele
tinha grande movimentação de drogas na cidade. Acha que Cleber quem buscou a droga, o Churck
que estava preso era quem comprava a droga, a maioria das vezes Cleber buscava a droga e trazia
para Claudemir esconder no mato e distribuir. Sobre o fato quatro, os 10kg de maconha acha que é
a droga que pagaram o tio, os 25g o Neguinho ia levar para Londrina e ele foi preso em Ibaiti.
Estavam ele, Eliane e Felipe Beraldo. Depois, o uber veio com 150g de crack e foi preso. Essas 25g
é a droga que Cleber foi preso em Ibaiti. Ele trabalhava junto com Claudemir e Djonata e era o
responsável pelo transporte da droga. Djonata é o cabeça de tudo. Os 25g estavam com Cleber
porque ele ia levar para Londrina e pegar as 150g de crack. Eram muitas conversas, eles tinham
muita droga. Não sabe se a droga comprada com o Tio foi apreendida, pois eles passavam drogas
para todas as cidades da região. Não sabe se essa droga está dentre as que foram apreendidas na
casa de Claudemir. Várias drogas foram apreendidas com os acusados, mas não dá para saber se
as drogas mencionadas na denúncia foram apreendidas. Participou das operações e quando
prenderam Claudemir ele tinha muita droga em depósito”. (mov. 113.4)
O Policial Militar Walter Fernandes, em juízo, relatou que:
“sobre o fato um, Churck liga para Claudemir e pede para ele separar 3kg da droga, pois iriam
mandar por um rapaz de Guarapuava, ele já tinha depositado o dinheiro na conta do Neguinho,
mas ele não conseguia contato. O Claudemir ia adiantar o dinheiro para o cara vir buscar a droga.
Sobre o fato dois, eles falam em 45g de cocaína da boa, mas um ou dois dias antes, Neguinho, a
esposa e Claudemir tinham ido em Curitiba e buscado 70g de cocaína, tentaram os abordar, mas
eles fugiram, ficaram escondidos, depois Churck fala com Claudemir que das 70g, tinham vendido
20g para um rapaz e Neguinho tinha pegado 5g, então sobrou 45g e tinha mais 150g da cocaína
ruim. Claudemir tentou misturar a boa e a ruim, mas não deu certo. Sobre o fato três, Churck
conversa com Claudemir, mas em conversa anterior ele conversa com Neguinho e eles falam sobre
essa aquisição. Primeiro ele adquire 450g de cocaína de Tio. Eles pagaram 50g, depois 100g e
para quitar a dívida deram mais 10kg de maconha, mas no final das contas eles ainda estavam
devendo mais três mil reais, daí Churck fala que Neguinho se atrapalhou na negociação, na mesma
conversa eles perguntam quanto tem de droga e quanto eles tem que pegar. Churck fala que a
associação devia uns vinte mil reais em drogas. Claudemir fala de mais 22kg que pegaram uma vez
e estavam devendo, eles tinham bastante movimentação. Sobre o fato quatro, os 10kg de maconha
provavelmente foram os 10kg que repassaram para o Tio. Já os 25g de cocaína são os que
Neguinho, Zé Cueca e Eliane foram presos em Ibaiti enquanto estavam indo para Londrina. Sobre
o fato cinco, é uma conversa que Churck liga para Claudemir e pergunta quanta droga tem em
estoque, ele fala que tem 60g de crack e estava faltando cocaína. Eles reclamam porque nesta
época estava acontecendo a greve dos caminhoneiros e acertam alguém para trazer mais drogas.
Depois de uns dias um rapaz foi preso com a cocaína que estava trazendo para eles venderem.
Essa pessoa foi presa com 48g de cocaína. As 60g de crack ficaram em posse de Claudemir, pois
era ele quem cuidava”. (mov. 113.5)
Por sua vez, o acusado Claudemir Carvalho da Rocha, perante o juízo alegou que:
“(...) não sabe sobre o fato um. Não pegava drogas para vender. Já tinha pagado as cinco gramas
que tinha pegado, não deu dinheiro para esse cara que falaram, nem sabe quem é o cara. Não
tinha 3kg de entorpecentes em sua casa. Não sabe o que é carne. Falaram que foi com o
interrogado, mas não foi, nem se recorda quem é o cara. O Djonata ligou uma vez. Sobre o fato
dois, pegou cocaína para usar, mas eram umas 10g da ruim e umas 15g da boa, não era esse tanto
descrito na denúncia. A quantidade da droga está errada, tinha drogas apenas para manter o vício
e para vender um pouco. Sobre o fato três, não foi ele quem comprou nem negociou, nem sabe
quem é tio, esses fatos não são verdadeiros. Sobre o fato quatro, nega que tinha maconha, pegava
carocinho pequeno para usar. Esses 10kg não estavam com ele. Sobre o fato cinco, também não
tinha esse tanto de crack, pegava apenas umas cinco gramas, depois parou de pegar porque vicia.
Pegava de cinco em cinco gramas para vender. Nunca viu Djonata, ele ligou uma vez apenas
pedindo um dinheiro que um cara ia buscar, mas não devia para eles. O endereço Rua das
Palmeiras, n. 1177 é da casa e sua mãe, nem ficava lá, ficou lá uns tempos depois que foi preso.
Pegava cinco gramas de crack, mas parou de pegar porque estava dependente. A cocaína pegava
para usar e vendia um pouco para comprar fraldas para a filha, pois não podia trabalhar já que
era foragido. É usuário e estava viciado em cocaína. Pegava pouca droga para manter o vício e
comprar leite e fraldas para a filha”. (mov. 113.2)
O acusado Djonata Rarts Rodrigues dos Santos, em juízo alegou que:
“não conhece nenhum Claudemir. Não tem conhecimento sobre as drogas da denúncia, não tem
relação com eles. Não conhece Siqueira Campos e nunca esteve no endereço mencionado na
denúncia. Está preso a mais de cinco anos em Londrina. Não tem apelidos, não tem nenhum
conhecido na cidade de Siqueira, nunca ouviu falar de Claudemir e nunca nem entrou em contato
com ele. Nunca ouviu falar na pessoa de Tio”. (mov. 119.48)
Pois bem.
Conforme depreende-se dos autos, não há elementos suficientes para condenação
dos apelados, em razão da ausência de provas da materialidade do delito.
Explico.
Não se discute a presença de fortes indícios de que os apelados se dedicavam ao
tráfico de drogas, todavia, nos presentes autos, não há prova da materialidade do crime tipificado no art.
33, caput, da Lei nº 11.343/06.
Importante destacar que se deve respeito ao princípio da correlação ou da
congruência, segundo o qual o acusado só poderá ser condenado pelos fatos descritos na peça acusatória.
In casu, a denúncia trata apenas do crime de tráfico de drogas e não ao crime de
associação para o tráfico. Faz-se tal destaque porque, caso a imputação fosse relacionada ao art. 35 da Lei
de Drogas, as interceptações telefônicas, somadas aos depoimentos dos policiais, poderiam
hipoteticamente constituir prova suficiente da materialidade do delito, todavia, tais elementos probatórios
são insuficientes para atestar a materialidade do crime de tráfico de drogas.
Isso porque, para se comprovar a materialidade do crime de tráfico de drogas, é
imprescindível a apreensão do entorpecente para que possa ser aferido, ao menos, por laudo preliminar.
Não é o que se constata nos presentes autos. Como bem apontado pelo juízo a quo:
No caso dos autos, embora mencionada a traficância, não foi apreendida substância entorpecente
que possibilitasse a realização de prova pericial – e possível laudo de constatação preliminar –,
não sendo possível reconhecer a materialidade do delito de tráfico no presente feito.
Embora excepcionalmente o Superior Tribunal de Justiça admita a comprovação
do crime de tráfico de drogas em situações nas quais não haja o laudo toxicológico definitivo, é certo que
se exige ao menos a presença do laudo de constatação provisória da droga, o que sequer ocorreu no caso
concreto.
Não se olvida também do teor do art. 167 do CPP, que dispõe que “não sendo
possível o exame de corpo de delito, por haverem desaparecido os vestígios, a prova testemunhal poderá
suprir-lhe a falta”. No entanto, nos presentes autos, não foi apreendida nenhuma droga durante as
investigações, não se tratando, portanto, de desaparecimento de vestígios do crime, pois eles sequer
existiram.
Segundo a jurisprudência de nossa Corte Superior:
“AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. TRÁFICO DE DROGAS E
ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO. AUSÊNCIA DE APREENSÃO DE SUBSTÂNCIAS
ENTORPECENTES. INEXISTÊNCIA DE PROVA DA MATERIALIDADE PARA O CRIME DE
TRÁFICO. IMPRESCINDIBILIDADE. PRECEDENTES DESTA CORTE. ABSOLVIÇÃO DO
CRIME DE TRÁFICO. DECISÃO MANTIDA. 1. Nos termos da jurisprudência pacificada desta
Corte Superior, é imprescindível a apreensão da droga para que a materialidade delitiva, quanto
ao crime de tráfico de drogas, possa ser aferida, ao menos, por laudo preliminar. 2. No caso, a
Corte de origem manteve a condenação do agravado e dos corréus, pelo crime de tráfico de
drogas, sem nenhum laudo pericial apto a comprovar a materialidade do crime - notadamente
porque nenhuma droga foi apreendida durante a investigação -, dissentindo, assim, da orientação
sedimentada nessa Corte, razão pela qual deve ser mantida a decisão agravada, que absolveu o
agravado e os demais corréus da imputação relativa ao crime de tráfico de drogas. 3. Agravo
regimental improvido”. (AgRg no AREsp 1341356/SC, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR,
SEXTA TURMA, julgado em 05/05/2020, DJe 11/05/2020). (Grifo nosso).
No mesmo sentido, o entendimento já adotado por esta Egrégia Corte:
“EMENTA – APELAÇÕES CRIMINAIS – RECURSOS INTERPOSTOS PELA DEFESA – CRIME
DE TRÁFICO DE DROGAS – ARTIGO 33, CAPUT, DA LEI 11.343/2006 – APELO 01 – PEDIDO
DE ABSOLVIÇÃO POR AUSÊNCIA PROBATÓRIA – ACOLHIMENTO, ABSOLVIÇÃO POR
FUNDAMENTO DIVERSO – AUSÊNCIA DE LAUDO TOXICOLÓGICO DEFINITIVO –
MATERIALIDADE NÃO COMPROVADA – ABSOLVIÇÃO (ARTIGO 386, INCISO II, DO
CPP) – PRECEDENTES DO STJ – RECURSO CONHECIDO E PROVIDO – APELO 02 –
PLEITO DE APLICAÇÃO DA CAUSA DE DIMINUIÇÃO PREVISTA NO ARTIGO 33, §4º, DA LEI
11.343/2006 EM PATAMAR MÁXIMO – RECURSO NÃO CONHECIDO – INTEMPESTIVO –
ABSOLVIÇÃO QUE SE IMPÕE A AMBOS OS RÉUS – ARTIGO 580 DO CPP”. (TJPR - 3ª C.
Criminal - 0002408-31.2018.8.16.0189 - Pontal do Paraná - Rel.: Desembargador João Domingos
Küster Puppi - J. 01.02.2019). (Grifo nosso).
“APELAÇÃO CRIME – TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO –
ABSOLVIÇÃO – RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO. PRETENSÃO DE CONDENAÇÃO –
IMPROCEDÊNCIA - AUSÊNCIA DE LAUDO TOXICOLÓGICO DEFINITIVO –
IMPRESCINDIBILIDADE DA PROVA TÉCNICA – INSUFICIÊNCIA DE PROVA DA
MATERIALIDADE DOS DELITOS DE TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O
TRÁFICO – CONJUNTO PROBATÓRIO INCAPAZ DE JUSTIFICAR O DECRETO
CONDENATÓRIO – APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO ‘IN DUBIO PRO REO’ – SENTENÇA
MANTIDA – RECURSO NÃO PROVIDO”. (TJPR - 4ª [Link] - 0001920-86.2015.8.16.0058 -
Campo Mourão - Rel.: Desembargador Rui Bacellar Filho - J. 15.08.2019). (Grifo nosso).
“RECURSO EM SENTIDO ESTRITO – REJEIÇÃO PARCIAL DA DENÚNCIA POR
AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA MATERIALIDADE DELITIVA – RECURSO
INTERPOSTO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO – INICIAL ACUSATÓRIA
DESACOMPANHADA DO LAUDO TOXICOLÓGICO (SEJA PROVISÓRIO OU
DEFINITIVO) – POSICIONAMENTO PACÍFICO DA CORTE SUPERIOR QUANTO A
IMPRESCINDIBILIDADE DO LAUDO TOXICOLÓGICO PARA COMPROVAÇÃO DA
MATERIALIDADE DO CRIME DE TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES –
PRECEDENTES DO STJ E DESTA CORTE – DECISÃO MANTIDA – RECURSO CONHECIDO
E DESPROVIDO”. (TJPR - 5ª [Link] - 0000070-31.2019.8.16.0163 - Siqueira Campos - Rel.:
Desembargador Luiz Osório Moraes Panza - J. 04.04.2019). (Grifo nosso).
Se ao menos houvesse depoimentos de usuários que adquiriam essas drogas, aí sim
haveria uma prova mais concreta da materialidade, porém, considerando os fatos narrados na denúncia e
a não apreensão da droga, impossibilitando assim a realização de qualquer laudo toxicológico, “infere-se
que a prova testemunhal e as interceptações não têm o condão de suprir a ausência do laudo definitivo,
relevando-se sua importância na demonstração da autoria e não da materialidade delitiva”, como bem
frisado pela D. Magistrada na r. sentença absolutória.
Em resumo, a leitura dos autos revela que há muito pouco para sustentar uma
sentença penal condenatória, não sendo razoável condenar os apelados com base em indícios, pois não é
possível fundamentar uma condenação em meras presunções. Como ensina a doutrina:
“Convicção e presunção: são termos vagos em matéria de prova no processo penal, mas aptas
para a instauração de uma investigação, que é apenas um procedimento preliminar à ação penal.
Convicção significa uma persuasão íntima, uma crença em algo, por vezes totalmente desfalcada
de provas concretas que a liguem à realidade; presunção é uma mera suspeita ou a opinião de
alguém baseada nas aparências, o que também evidencia a possibilidade de estar dissociada do
realmente ocorrido. Para a condenação, não bastam. O juiz formará sua convicção
fundamentada com base em provas seguras, enquanto a presunção deve ser desprezada para a
condenação do réu”[i] (Grifo nosso)
Além disso, a presunção da inocência é uma presunção juris tantum (que
prevalece até prova em contrário), com natureza jurídica de salvo conduto a todo cidadão. Esse salvo
conduto é dirigido ao Estado – por ser este o detentor do monopólio do direito de punir (jus puniendi) –
como a lembra-lo que esse cidadão não poderá ser privado de sua liberdade sem que antes responda a
uma acusação formal promovida por agente desse Estado, observado o devido processo legal, assegurado
o contraditório e a ampla defesa em que, ao final, o Estado-Juiz afaste aquela presunção de inocência
com base na prova discutida no processo. Se a prova examinada não se revelar segura para apontar
categoricamente a autoria de um delito, a condenação deve ser afastada por insuficiência de provas, pois
menor dano haverá para a sociedade, ver absolvido por falta de provas um eventual culpado, a ver
condenado um inocente por conta de um erro judiciário.
É indubitável que alguém que pratique um fato típico deva ser punido de acordo
com os ditames da lei, desde que reste comprovada a materialidade e autoria delitivas. No entanto,
diversa é a situação constante dos presentes autos e, como se sabe, para legitimar a absolvição não é
necessária a certeza da inocência, bastando acreditá-la possível ou configurada a incerteza da culpa.
Assim, nego provimento ao recurso de apelação.
QUANTO AOS HONORÁRIOS.
A defesa de Claudemir Carvalho da Rocha pleiteia pela fixação de honorários
advocatícios a defensora nomeada nas contrarrazões de apelação.
A Dra. Fabíola Helen Wendpap Chueire, OAB/PR nº 23.347, foi nomeada no mov.
45.1 para promover a defesa de Claudemir de Carvalho da Rocha desde a defesa preliminar,
apresentando inclusive contrarrazões ao recurso de apelação interposto pelo Ministério Público.
Com vistas à Resolução Conjunta nº 15/2019-PGE/SEFA, bem como o trabalho
exercido, o tempo despendido, a responsabilidade e o zelo do profissional, a natureza da causa e atento
aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, fixa-se o importe de R$ 600,00 (seiscentos reais)
para a Defensora a título de honorários advocatícios.
CONCLUSÃO.
À luz do exposto, proponho o conhecimento e não provimento do recurso de
apelação interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ, com a fixação de
honorários advocatícios à defensora dativa por sua atuação em segunda instância no valor de R$ 600,00
(seiscentos reais), conforme a tabela de honorários prevista na Resolução Conjunta nº 15/2019 – PGE
/SEFA.
É como voto.
DISPOSITIVO
Ante o exposto, acordam os Desembargadores da 3ª Câmara Criminal do TRIBUNAL
DE JUSTIÇA DO PARANÁ, por unanimidade de votos, em NEGAR PROVIMENTO ao recurso de
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ.
O julgamento foi presidido pelo (a) Desembargador José Carlos Dalacqua, sem voto,
e dele participaram Desembargador Gamaliel Seme Scaff (relator), Desembargador Mario Nini Azzolini e
Desembargadora Cristiane Tereza Willy Ferrari.
21 de março de 2024
Desembargador Gamaliel Seme Scaff
Relator
[i] NUCCI, Guilherme de Souza. Código de processo penal comentado. 13. ed. rev., atual., e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2014,art. 5º, item 25.