**“Uma pérola embrulhada num papel alumínio furado.
”**
Esse foi um dos principais jogos da minha infância. E como toda boa lembrança dessa
época, eu tinha guardado God of War 2 num pedestal, achando que era uma obra-prima
absoluta. Mas rejogar ele, depois de adulto, foi como reassistir *Sharkboy e
Lavagirl* e perceber o quão tosco era. Algumas magias só funcionam quando a gente é
criança (mesmo quando o jogo definitivamente não é pra criança). Assim como a
maioria das crianças pobres da época, eu joguei uma versão pirata de GW2 e só
consegui ir até a famigerada parte da ponte com o Ícaro (onde o jogo travava e a
gente ficava só sonhando com o resto da história). Só há uns dois anos atrás tive a
chance de rejogá-lo completo e, sinceramente, o gosto foi meio amargo.
*(Antes de tudo, aviso que vou mencionar alguns spoilers do comecinho, mas confia:
não muda nada na sua experiência. O roteiro desse jogo é uma bagunça tão tosca que
nem contar tudo do começo ao fim estragaria a jornada.)*
A narrativa já começa com a Gaia soltando uma narração dramática, herança do
primeiro jogo, que vai continuar enchendo o saco até o God of War 3. Os roteiristas
jogaram a máxima do "mostre, não conte" no lixo. Quando eu era criança, isso nem me
incomodava (até porque eu não entendia quase nada do que era dito), mas hoje em
dia, especialmente depois de aprender mais sobre storytelling, eu só consigo
revirar os olhos. No início, você enfrenta o Colosso de Rhodes (vulgo moeda de 1
real) e perde seu poder de ficar grandão, mas do nada, repito: do nada, Kratos
resolve parar no meio do caos pra brincar com as duas concubinas espartanas da
primeira cutscene e aí começa o minigame clássico do "bolinha, bolinha, bolinha".
Tipo, por quê?
- **Cory Barlog**: Precisamos de uma ideia de minigame urgentemente para cobrir a
falta de puzzles e inimigos nessa parte. Sugestões?
- Queda de braço?
- **Cory Barlog**: Não.
- ...Competição de bebida?
- **Cory Barlog**: Horrível.
- Tente não gozar.
- **Cory Barlog**: ISSO, PORRA!
Eu entendo que os deuses do Olimpo tinham suas... preferências, mas qual era o
propósito disso ali? Claramente os roteiristas só colocaram o que deu na telha, sem
filtro algum.
E olha que não para por aí. Kratos, que já derrotou Ares, subiu a Caixa de Pandora
e fez o diabo no primeiro jogo, por algum motivo sente a necessidade de se provar
pro Zeus. Ele simplesmente aceita a ordem sem pestanejar e faz tudo como mandado.
Aí, quando tem a chance de usar a Lâmina do Olimpo contra o Colosso, ele não usa.
Decide entrar dentro do gigante de bronze. Porque sim. Coerência? Zero.
E esses furos de roteiro são só o começo. Tipo, o Colosso atravessa a cidade em
minutos, sendo que ele anda devagar pra caramba. Ele sente dor e grita, mas... ele
é feito de metal. Não tem nervo, nem cordas vocais. E a gente sabe disso porque,
sim, a gente entra dentro dele.
Resumindo: a história é genérica, cheia de clichês, mal escrita, e trata a
mitologia grega de forma tão superficial e mal feita que é melhor nem tentar usar
esse jogo como referência cultural. Os desenvolvedores claramente priorizaram
outros aspectos — e honestamente? Ainda bem.
Porque onde o jogo brilha mesmo é na gameplay. God of War 2 é um dos melhores
exemplos de hack 'n slash da era PS2. Jogabilidade simples, fácil de aprender, e
absurdamente divertida. Foi o motivo pelo qual tantas crianças (inclusive eu)
ficavam viciadas. Não existe sensação melhor do que jogar GW2 numa noite qualquer
com uma coquinha gelada e uma pizza do lado. É o tipo de jogo que você joga no
automático — pelo menos nas dificuldades mais baixas.
Mas se você resolve se aventurar nas dificuldades Deus e Titã, o jogo muda. No modo
Espartano (o que eu jogava na infância), dava pra vencer só no spam de quadrado e
bolinha. No modo Deus, já exige entender bem as mecânicas: usar os poderes, rolar
na hora certa, defender... É aqui que o jogo realmente mostra sua complexidade. Já
no modo Titã, além de tudo isso, você precisa ser um mestre zen da paciência.
Só que aí entra o “jank” de jogo antigo. No modo Titã, você vai passar raiva não só
pela dificuldade absurda, mas por bugs bizarros: inimigos que somem mas continuam
te batendo, portas que não abrem, puzzles que não funcionam, e até uns clássicos
como a Espiral Infinita e a estátua flutuante. Lembra da ponte do Ícaro? Aquilo era
só o começo do sofrimento.
Falando nos inimigos, numa escala *Chains of Olympus → Ascension* (ou seja, de
menos irritante pra mais insuportável), God of War 2 fica num meio termo. Ele tem
sim seus momentos de raiva, como as malditas Górgonas que petrificam, as Sirenes, o
Bárbaro e o Teseu (segunda fase), mas nada que precisasse de um patch de
balanceamento. A dificuldade é desafiadora, mas não injusta — pelo menos na maior
parte do tempo.
A trilha sonora, por outro lado, é um espetáculo à parte. É uma das mais icônicas
dos videogames, no mesmo patamar de clássicos como *The Legend of Zelda*, *Final
Fantasy* ou *Halo*. Ela mistura orquestra épica com elementos dramáticos e sombrios
que casam perfeitamente com o clima mitológico e violento do jogo. É o tipo de
música que gruda na memória e eleva a experiência, mesmo quando o roteiro não
ajuda.
No fim das contas, God of War 2 é um jogo bom? É. Maravilhoso? Em termos de
gameplay, com certeza. Ele é divertido, viciante e atemporal nesse aspecto. Mas
quando você tira os óculos da nostalgia e presta atenção na história, vê que ele
tem problemas bem sérios. Ainda assim, ele tem um lugar especial no meu coração.
Poderia estar fácil no meu top 5 de jogos da infância... se o topo já não tivesse
dono. Porque o meu jogo da infância é *Shadow of the Colossus*. E esse, ao
contrário de GW2, só ficou melhor com o tempo.