154 NOVA G R A M Á T I C A DO P O R T U G U Ê S C O N T E M P O R Â N E O
e) oração completiva nominal:
Comprei a consciência de que sou
Homem de trocas com a natureza.
(M. Torga, CH, 11.)
Estou com vontade de suprimir este capítulo.
(Machado de Assis, OC, 1,509.)
Observações:
1. a) O complemento nominal pode estar integrando o sujeito, o predicativo,
o objeto direto, o objeto indireto, o agente da passiva, o adjunto adverbial, o aposto
e o vocativo.
2. a) Convém ter presente que o nome cujo sentido o complemento nominal
integra corresponde, geralmente, a um verbo transitivo de radical semelhante:
amor da pátria amar a pátria
ódio aos injustos odiar os injustos
COMPLEMENTOS VERBAIS
OBJETO DIRETO
1. O bjeto direto é o c o m p le m e n to de u m v e rb o tra n s itiv o d ire to , o u seja,
o c o m p le m e n to q u e n o rm a lm e n te v em lig ad o ao v e rb o sem p re p o siç ã o e
in d ica o ser p a ra o q u a l se d irig e a ação v erb al.
Pode ser representado por:
a) su b stan tiv o :
Vou descobrir mundos, quero glória e fama!...
(Guerra Junqueiro, S, 12.)
Não recebo dinheiro nenhum.
(C. Drummond de Andrade, CB, 82.)
b) pronome (substantivo):
O s jo rn a is nada p u b lic a ra m .
(C. Drummond de Andrade, CA, 135.)
Nunca o interrompi.
(Alves Redol, BSL, 68.)
FRA SE, ORAÇÃO, PERÍODO 155
— Visto-me num instante e vou te levar de carro.
(Vianna Moog, T, 80.)
c) numeral:
— Já tenho seis lá em casa, que mal faz inteirar sete?
(C. Drummond de Andrade, CB, 31.)
Nunca achou dois ou três?
(A. Abelaira, NC, 62.)
d) palavra ou expressão substantivada:
Tem um quê de inexplicável.
(Gonçalves Dias, PCPE, 230.)
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos.
(F. Pessoa, OP, 206)
Perscrutava na quietude o inútil de sua vida.
(Autran Dourado, IA, 36.)
e) oração substantiva (objetiva direta):
Não quero que fiques triste.
(J. Régio, SM, 295.)
Veja se consegue o mapa dos caminhos.
(A. M. Machado, C/, 244.)
2. Saliente-se, ainda, que na constituição do objeto direto podem entrar mais
de um substantivo ou mais de um dos seus equivalentes:
Tomara-lhe a mulher e a terra, mas mandara-lhe entregar o milho e
as abóboras que nela encontrara.
(Castro Soromenho, C, 3.)
Discreto e cauteloso, raramente diz “sim” ou “não”categóricos; prefere
o vamos ver protelatório e reflexivo.
(A. M. Machado, /T, LI.)
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OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO 2
1. O objeto costuma vir regido da preposição a:
direto
a) com os verbos que exprimem sentimentos:
Não amo a ninguém, Pedro.
(C. dos Anjos, M, 196.)
Só não amava a Jorge como amava ao filho.
(J. Paço d’Arcos, CVL, 156.)
b) para evitar ambiguidade:
Sabeis, que ao Mestre vai matá-lo.
(M. Mesquita, LT, 66.)
c) quando vem antecipado, como nos provérbios seguintes:
A homem pobre ninguém roube.
A médico, confessor e letrado nunca enganes.
2. O objeto direto é o b rig a to ria m e n te p re p o s ic io n a d o q u a n d o ex p resso p o r
p ro n o m e p esso al o b líq u o tô n ic o :
Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero.
(F. Pessoa, OP, 218.)
Rubião viu em duas rosas vulgares uma festa imperial, e esqueceu a
sala, a mulher e a si.
(Machado de Assis, OC, 1,679.)
OBJETO DIRETO PLEONÁSTICO
1. Quando se quer chamar atenção para o objeto direto que precede o verbo,
costuma-se repeti-lo. É o que se chama obieto direto pleonástico, em cuja
constituição entra sempre um pronome pessoal átono:
: Sobre o emprego do ouieto direto preposicionado em português, veja-se a excelente
monografia de Karl Heinz Delille. Die geschichtliche Entwicklung des präpositionalen
Akkusativs im Portugiesischen. Bonn, Romanisches Seminar der Universität, 1970.
FRA SE, ORAÇÃO, PERÍODO
Palavras cria-as o tempo e o tempo as mata.
(J. Cardoso Pires, D, 300.)
Árvore, filho e livro, queria-os perfeitos.
(Vianna Moog, T, 330.)
2. O objeto direto PLEONÁSTico pode também ser constituído de um pro
nome átono e de uma forma pronominal tônica preposicionada:
A mim, ninguém me espera em casa.
(J. Régio, CL, 52.)
Quantas vezes, viandante, esta incolor paisagem
Não te mirou a ti, a ti também sem cor!
(A. de Guimaraens, OC, 194.)
Mas não encontrou Marcelo nenhum. Encontrou-nos a nós.
(D. Mourão-Ferreira, 1,23.)
OBJETO INDIRETO
1. O bjeto indireto é o c o m p le m e n to de u m v e rb o tra n sitiv o in d ire to , isto é,
o c o m p le m e n to q u e se liga ao v e rb o p o r m e io d e p rep o siç ã o .
Pode ser representado por:
a) substantivo:
Duvidava da riqueza da terra.
(N. Pinon, CC, 190.)
Necessitamos de uma cabeça bem firme na terra, bem fincada na
terra!
(A. Abelaira, NC, 74.)
b ) p r o n o m e (su b sta n tiv o ):
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!
(F. Espanca, S, 24.)
Inserir-se em Roma é mais difícil do que incorporar a si o sentimento
de Roma.
(A. A. de Melo Franco, AR , 25.)
158 NOV A G R A M Á T I C A DO P O R T U G U Ê S C O N T E M P O R Â N E O
c) numeral:
Os domingos, porém, pertenciam aos dois.
(E Namora, GS, 113.)
Se o meu barbeiro é, como creio, verdadeiro, a viúva do defunto com
pôs-se com o matador, e o ministério público com ambos, de modo
que o homicida granjeou pacificamente suas terras.
(C. Castelo Branco, OS, 1,93.)
d) palavra ou expressão substantivada:
Mas — quem daria dinheiro aos pobres?
(C. Lispector, BF, 138.)
Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu.
(E Pessoa, OP, 14.)
e) oração substantiva (objetiva indireta):
— Não te esqueças de que a obediência é o primeiro voto das noviças.
(J. Montello, DP, 236.)
A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de
que ambas estavam no carro.
(C. Lispector, LF, 90.)
2. Como o o b j e t o d i r e t o , o o b j e t o i n d i r e t o pode ser constituído de mais
de um substantivo ou mais de um dos seus equivalentes:
Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si
mesmo.
(Machado de Assis, OC, II, 288.)
Embora, não perceba grande coisa do que ouve, está sempre a precisar
disto e daquilo.
(M. J. de Carvalho, AV, 54.)
O bservação:
Não vem precedido de preposição o o b j e t o i n d i r e t o representado pelos pro
nomes pessoais oblíquos me, te, lhe, nos, vos, lhes, e pelo reflexivo se. Note-se que o
pronome oblíquo lhe (lhes) é essencialmente o b i e t o i n d i r e t o :
FRA SE, ORAÇÃO, PERÍODO 159
— Você não me está insinuando que não vai aceitar?
(Vianna Moog, T, 390.)
As noites não lhe trouxeram repouso, mas deram-lhe, em contrapartida,
tempo para a meditação.
(J. Paço d’Arcos, CVL, 1177.)
Luís Garcia dera-se pressa em visitar o filho de Valéria.
(Machado de Assis, OC, 1,336.)
A propósito do emprego dos pronomes oblíquos (tônicos e átonos), bem como
do modo por que se podem combinar, leia-se o que dizemos no capítulo 11.
OBJETO INDIRETO PLEONÁSTICO
Com a finalidade de realçá-lo, costuma-se repetir o objeto indireto . Neste
caso, uma das formas é obrigatoriamente um pronome pessoal átono. A outra
pode ser um substantivo ou um pronome oblíquo tônico antecedido de pre
posição:
A mim ensinou-me tudo.
(F. Pessoa, OP, 145.)
— Quem lhe disse a você que estavam no palheiro?
(C. de Oliveira, AC, 119.)
Aos meus escritos, não lhes dava importância nenhuma.
(G. Amado, HMI, 190.)
O bservação:
Enquanto a preposição que encabeça um a d j u n t o a d v e r b i a l possui claro valor
significativo, a que introduz um o b i e t o i n d i r e t o apresenta acentuado esvaziamento
de sentido. Comparem-se estes exemplos:
Cantava para os amigos. Não duvides de mim.
Viajou para São Paulo. Não saias de casa.
Nas duas primeiras orações, em que introduzem o b j e t o i n d i r e t o , as preposi
ções para e de são simples elos sintáticos. Nas duas últimas, introduzindo a d i u n t o s
a d v e r b i a i s , servem para indicar, respectivamente, o lugar para onde e o lugar donde.
A propósito, leia-se o que escrevemos no capítulo 15.
160 NOVA G R A M Á T I C A DO P O R T U G U Ê S C O N T E M P O R Â N E O
PREDICATIVO DO OBJETO
1. Tanto o objeto direto como o indireto podem ser modificados por
predicativo . O predicativo do obieto só aparece no predicado verbo -
- nominal , e é expresso:
a) por substantivo:
Uns a nomeiam primavera. Eu lhe chamo estado de espírito.
(C. Drummond de Andrade, FA, 125.)
Chamo-me Aldemiro.
(I. Lisboa, MCN, 94.)
b) por adjetivo:
Os trabalhadores da Gamboa julgam-no assombrado.
(O. Mendes, P, 140.)
Naquele ano Ismael achou o avô mais macambúzio.
(Autran Dourado, TA, 41.)
2. Como o predicativo do sujEiTO, o do obieto pode vir antecedido de
preposição, ou do conectivo como:
Quaresma então explicou porque o tratavam por major.
(Lima Barreto, TFPQ, 215.)
Considero-o como o primeiro dos precursores do espírito moderno.
(A. de Quental, C, 313.)
Observação:
Somente com o verbo chamar pode ocorrer o p r e d i c a t i v o d o o b je t o in d ir e t o :
A gente só ouvia o Pancário chamar-lhe ladrão e mentiroso.
(Castro Soromenho, V. 220.)
Chamam-lhe fascista por toda a parte.
(C. dos Anjos, M, 277.)
Com os demais verbos que admitem esse predicativo (por exemplo: crer, eleger,
encontrar, estimar, fazer, julgar, nomear, proclamar e sinônimos), ele é sempre um
FRA SE, ORAÇÃO, PERÍODO
modificador do o b j e t o d i r e t o . Baseados nesse fato, filólogos como Epifânio da
Silva Dias e Martinz de Aguiar preferem considerar o complemento no caso — seja
expresso pelo pronome lhe, seja por um substantivo antecedido de preposição —
c o m o OBJETO DIRETO.
AGENTE DA PASSIVA
1. A gente o complemento que, na voz passiva com auxiliar, designa
da passiva é
o ser que pratica a ação sofrida ou recebida pelo sujeito. Este complemento
verbal — normalmente introduzido pela preposição por (ou per) e, algumas
vezes, por de — pode ser representado:
a) por substantivo ou palavra substantivada:
— Esta carta foi escrita p o r um m a r i n h e i r o americano.
(F. Namora, DT, 120.)
Um jornal é lido p o r muita g e n te .
(C. Drummond de Andrade, CB, 30.)
b) por pronome:
Ele d e la é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
(F. Pessoa, OP, 117.)
A mesma oração foi p o r m i m proferida em São José dos Campos,
minha cidade natal.
(Cassiano Ricardo, VTE, 26.)
c) por numeral:
Tudo quanto os leitores sabem de um e de outro foi ali exposto por
a m b o s , e p o r a m b o s ouvido entre abatimento e cólera.
(Machado de Assis, OC, II, 212-213.)
Não devem ser escutadas por todos; têm de ser ouvidas p o r um .
(J. Paço d’Arcos, CVT, 350.)
d) por oração substantiva:
E se a primeira pode não encontrar partidários incondicionais, a
segunda é certamente subscrita p o r q u a n t o s t e n h a m u m a e x p e r i ê n