Capítulo 3
Venâncio e Dalva casaram apaixonados. Perdidamente. Quem via os
dois pedia a Deus uma sorte igual. O amor tem nome, mas não é nada que a
gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e
intensidades que cabem na ciência. A raiva, o medo, o ódio entortam a cara
com um jeito provável de se manifestar. Mas e o amor? O que é senão um
monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de
ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de
um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo. No caso de Venâncio e Dalva, o
gosto de cada sentido grudava os dois para mais de muitas vidas, pareciam
eternos de tão juntos. Um saboreava o outro. Viveram muito tempo assim
irrigados até que Dalva engravidou. A notícia parecia boa, amor dando fruto,
coisa mais sagrada ela e ele somados, a natureza perfeita providenciando a
continuação de tudo. Era isso que deviam sentir, e ficaram muito tempo
tentando fazer o que deviam. Insistiram na bobagem de pôr no caminho deles
a estrada dos outros. Deu no que deu. Quem pode negar, no mais honesto
olhar, que, dado um encaixe perfeito, não sobre espaço para mais nada? Era
justo demais o jeito que um juntou no outro. Venâncio, quando viu a barriga
de Dalva crescer, foi vendo crescer nele um ciúme doentio. Mas era tarde,
não comandava o curso do rio. Estava feito.
Dalva já queria aquele filho mais do que qualquer outra coisa.
Pensava nele, falava dele, entregava as mãos à barriga e dela não se afastava.
Era bercinho para cá, bordados para lá, banhos demorados voltados para o
próprio umbigo, tardes inteiras cantando canções de ninar com uma voz débil,
daquelas que os adultos fazem quando pensam encantar as crianças. Passou a
evitar Venâncio com medo de machucar o bebê, olhava mais para o espelho
do que para os olhos dele e foi alimentando nele a mais profunda convicção
de que naquela barriga crescia um ladrão que ia roubar para sempre a mulher
da sua vida.
A loucura começa como a doença, miúda. Vai se alastrando célula a
célula, ocupando tudo, destruindo a saúde, acabando com a vida de quem não
encontra recurso para deter os pensamentos ruins, fazedores dos mais
profundos infernos. O pensamento solto, insistente e amargo constrói e
antecipa a desgraça, é cruel no jeito de destruir.
Naquele dia Venâncio podia ter saído, já estava lá fora no portão,
quando pôs sentido na bexiga cheia e pesada. Voltou para mijar. Nos últimos
anos, a lembrança desse segundo, o preciso momento em que decidiu voltar,
provocava nele uma aflição sem alívio. O filho tinha nascido de manhã,
quando ele entrou no quarto, Dalva oferecia o bico do peito para o menino.
Os olhos de Venâncio pararam ali, sentiu uma dor de infidelidade, traição, a
nuca esquentou num quase desmaio. Ela punha na boca do menino o bico do
seio que era dele, o bico, acordado e nu, estava lá entumecido, pronto, sem
que ele o tivesse excitado.
A boca do neném buscava ansiosa o peito farto e úmido querendo
sugar, engolir e ainda tão sem saber. O mamilo se dobrava passando na
boquinha pequena, querendo ser pego por ela. Dalva se entregava a uma
emoção única, da mais comovente ternura. O momento dela e do filho cegou
Venâncio de uma absurda loucura. Ele arrancou o menino dos braços dela e
jogou longe, bateu em Dalva, bateu, bateu. Espancou.
Capítulo 4
Dor.