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Sagarana: A Revolução Literária de Rosa

Uma breve análise

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Sagarana: A Fundação de um Universo Literário Único

Publicada em 1946, Sagarana é a obra-prima inaugural de João


Guimarães Rosa, o livro que anunciou ao mundo a chegada de um
dos mais originais e profundos escritores da língua portuguesa. Mais
do que uma coletânea de contos, é um universo completo e
complexo, onde se fundem a tradição e a invenção, o regional e o
universal, o humano e o mítico. O próprio título, uma junção do
sânscrito sagara (mar, coisa grande) com o tupi rana (à maneira de,
parecido com), já anuncia a ambição da obra: criar um "mar de
histórias" à maneira brasileira.

1. A Matriz Regional Reiventada

Sagarana está firmemente enraizada no sertão mineiro, sua


geografia, sua fauna, sua flora e, sobretudo, sua gente. Rosa parte
do regionalismo – uma tendência forte na literatura brasileira da
primeira metade do século XX – mas o transcende completamente.
Ele não está interessado em um retrato documental ou sociológico
do sertão. Em vez disso, utiliza o sertão como palco cósmico para
a encenação das grandes paixões, conflitos e questionamentos
humanos.

Os vaqueiros, jagunços, beatas e coronéis de seus contos não são


tipos regionalistas caricatos, mas arquétipos universais. A luta de
Luís de Jesus contra o touro ("O Burrinho Pedrês") é uma luta épica
pela honra; a saga de Manuel Fulô em "A Hora e Vez de Augusto
Matraga" é uma jornada espiritual de queda, purificação e redenção,
comparável às histórias bíblicas ou às tragédias gregas. O regional,
em Rosa, é a porta de entrada para o essencial.

2. A Revolução da Linguagem
A grande revolução de Sagarana ocorre na linguagem. Guimarães
Rosa não usa a língua portuguesa; ele a recria. Sua prosa é um
organismo vivo, pulsante, que incorpora:

Neologismos: Cria palavras novas a partir de radicais existentes,


como "enxergância" (visão + vagância), "impossantemente",
"entardecer".

Arcaísmos: Ressuscita palavras antigas do português, dando um


caráter atemporal e solene à narrativa.

Sintaxe inventiva: Subverte a ordem direta da frase,


aproximando-a do ritmo da fala sertaneja e do fluxo de
pensamento.

Onomatopeias e Ritmo: A linguagem é sonora, musical. A


cadência do texto imita o tropel dos cavalos, o fluir dos rios, o
sussurro do vento no cerrado ("...e o vento, com seu zunido de
prosa-com-vento...").

Essa manipulação linguística não é mero experimentalismo vazio.


Ela serve para criar uma verdade interior, uma percepção mais
profunda da realidade. A linguagem é o mundo roseano; não há
separação entre a história contada e a maneira de contá-la.

3. A Fusão do Real e do Mágico

Em Sagarana, o mundo não é governado apenas pelas leis da física,


mas também pela magia, pela lenda e pelo sobrenatural. Este
elemento, que mais tarde seria chamado de "realismo mágico", está
presente em quase todos os contos:

Em "A Volta do Marido Pródigo", a narrativa é conduzida por um


papagaio falante, um narrador não-confiável e fascinante.

"Sarapalha" é impregnado pela atmosfera alucinógena da malária,


onde a fronteira entre febre e realidade se dissolve.

"Duelo" é movido por uma força fatalista e por presságios que


conduzem os personagens para um desfecho inevitável.

"Conversa de Bois" oferece a perspectiva do mundo através da


consciência dos animais, tornando-os personagens tão complexos
quanto os humanos.

Nesse universo, o fantástico não é uma fuga da realidade, mas uma


dimensão integrante dela. O sertão roseano é um lugar onde o
mistério é parte do cotidiano.

4. Principais Contos e Seus Núcleos Temáticos


"O Burrinho Pedrês": Aparências e essência, sabedoria versus


arrogância, o valor da experiência. O velho burro Sete-de-Ouros é o
verdadeiro herói, portador de uma sabedoria silenciosa.


"A Hora e Vez de Augusto Matraga": A obra-prima do livro. Uma
parábola sobre a queda e a redenção. A trajetória de Nhô Augusto
de arrogante potentado a homem humilde que encontra sua "hora e
vez" é uma das narrativas mais poderosas da literatura brasileira,
tratando de destino, livre-arbítrio e salvação.

"Sarapalha": A claustrofobia, o ciúme doentio, o passado como


uma maldição que corrói o presente. A doença física espelha a
doença da alma.

"Duelo": A vingança como um ciclo interminável e fatalista. A


narrativa em espiral, seguindo os passos do perseguidor e do
perseguido, explora a obstinação e a impossibilidade de fugir ao
destino.

"Conversa de Bois": Uma visão de profunda empatia e lirismo


sobre o mundo animal, questionando a hierarquia entre humanos e
bichos e expondo a crueldade e a injustiça.

Conclusão: O Mar de Histórias

Sagarana é muito mais do que um livro de estreia; é a pedra


fundamental de todo o projeto literário de Guimarães Rosa. Nele,
estão plantadas todas as sementes que floresceriam em Grande
Sertão: Veredas: a linguagem revolucionária, a profundidade
filosófica, a fusão do regional com o universal e a investigação
incansável da alma humana em suas grandezas e misérias.

A obra convida o leitor a não apenas ler, mas a mergulhar em seu


"mar" de linguagem e significado. É uma experiência de leitura
ativa, onde se deve abandonar a pressa e se deixar levar pelo ritmo,
pelos sons e pelas camadas de sentido. Sagarana não conta
histórias sobre o sertão; ela é o sertão transformado em verbo, mito
e eterna literatura.

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