Filosofia e Construção do Pensamento
Filosofia e Construção do Pensamento
Bons estudos!
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Objetivos
Conteúdo Programático
Autoria
Marli Wandermurem
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A trajetória histórica na construção do
pensamento
Nós, como seres humanos que somos, perguntamos. Questionamos por que
queremos saber como e para que as coisas existem, o que são os fenômenos, a
existência de todas as leis que regem nossa vida, entre tantos outros
questionamentos. É bem natural questionar. Como já disse Sócrates, uma vida não
questionada não merece ser vivida.
Observação
Até o final do século VIII a.C., a Mitologia era responsável para dar as explicações
para a realidade existente sobre a terra. A partir do momento em que a humanidade
começou a meditar sobre o funcionamento do universo, da vida, e a buscar
explicações racionais para o mundo, nascem os primeiros passos para o surgimento
da Filosofia.
Então, a mitologia foi o primeiro campo de explicação sobre as dúvidas das antigas
civilizações. Aliás, era a única forma de elucidar o que eram os fenômenos. A Filosofia
surgiu dentro do contexto da Mitologia Grega. Destacamos que a religiosidade
interferia e moldava o pensamento e as atitudes do povo grego, que tinham deuses
para todas as atividades que existiam em sua sociedade. A Ciência, ou o método
científico como o conhecemos hoje, nasceu dentro da Filosofia. É bom ressaltar que
as sociedades antigas também possuíam suas ciências, conhecimento voltado para a
observação empírica, diferentemente da Ciência moderna, que trabalha de forma
sistemática e racional. Ela estuda o objeto do conhecimento por meio do método
científico.
Você já conhece o período histórico que foi chamado de “era das trevas”. Essa
denominação se refere ao período em que a Filosofia ficou submetida ao domínio
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religioso da Idade Média. Foi com os pensadores, que culminam no movimento
Iluminista, que a Filosofia se liberta e abre espaço para o surgimento da Ciência
Moderna.
Convenhamos: ser e estar no Kosmos não é muito fácil de ser explicado, e você
já deve ter pensado sobre isso!
Nesta unidade também vamos refletir sobre o pensamento de alguns filósofos que
desempenharam papel importante na fundação do modelo de pensamento
transcendente. Vamos entender um pouco desses filósofos ao longo dos nossos
estudos. Eles são conhecidos como a tríade da filosofia antiga: Sócrates, Platão e
Aristóteles.
Objetivo
Conteúdo Programático
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Observe com atenção a poesia de Fernando Pessoa sobre a dúvida.
Mania da Dúvida
(Alexander Search, heterônimo de Fernando Pessoa)
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Tema 1
Do mito à ciência: reflexões sobre a história do
conhecimento
A forma de explicar a vida e o mundo passou por três fases. Para entender esse
percurso, é comum dizermos que o conhecimento humano se desenvolveu em três
fases diferentes, que são:
• Fase mítica.
• Fase filosófica.
• Fase científica.
Vivemos na era cientifica. Seria possível conhecer as antigas civilizações se elas não
tivessem produzidos seus mitos?
Todas as civilizações antigas têm seus mitos. São narrativas que dizem como elas
nasceram, trazendo, por meio de simbologias, a criação e o surgimento de um povo e
de uma cidade.
Observação
Roma, por exemplo, teve sua fundação vinculada a Remo e Rômulo, os gêmeos que
foram jogados no rio e resgatados por uma loba. Essa é uma mitologia da civilização
romana. Da mesma forma, temos o mito de fundação da Babilônia, que está descrito
nas Setes Tábuas da Criação, entre tantos outros mitos que chegaram até nós.
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“O mito — pensamento monolítico e globalizante — é dominado e domina nas
sociedades arcaicas, que são as sociedades sem Estado e as sociedades com
Estados arcaicos. Mas das sociedades arcaicas emergem outras formações sociais
mais complexas e com elas o pensamento avança: desabrocha a filosofia.”
“Há mais de meio século, os eruditos ocidentais passaram a estudar o mito por uma
perspectiva que contrasta sensivelmente com a do século XIX, por exemplo. Ao invés
de tratar, como seus predecessores, o mito na acepção usual do termo, ou como
fábula, invenção, ficção, eles o aceitaram tal qual era compreendido pelas sociedades
arcaicas, onde o mito designa, ao contrário, uma “história verdadeira” e, ademais,
extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo.”
(Eliade, 1972, p. 6)
Eliade afirma que a definição de mito não é fácil. Para ele, o mito é uma realidade
cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada por meio de
perspectivas múltiplas e complementares.
Nota
Mircea Eliade é um autor clássico, especialista em mitologia.
“O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo
primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como,
graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma
realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um
comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma
“criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala
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apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. Em suma, os
mitos descrevem as diversas, e algumas vezes dramáticas, irrupções do sagrado (ou
do sobrenatural) no Mundo.”
(Eliade, 1972, p. 9)
Quando analisamos o surgimento do mito, podemos entender que ele foi questionado
quando começa a nascer o cientificismo, que incialmente tinha o mito como fábula,
uma narrativa que não expressava verdade alguma. Contudo, os estudiosos,
especialmente das ciências sociais, como Antropologia, Sociologia, Literatura,
Psicanálise etc., destacam a relevância das narrativas míticas para a construção de
uma verdade por meio de uma linguagem simbólica.
A forma de ver o mito veio mudando desde o começo do século XX. Já citamos o
pesquisador Mircea Eliade, mas há outros nomes de estudiosos, como Freud, Yung,
Heidegger, Lévi-Strauss e Bultmann, que entendem o mito como uma verdade que é
narrada por meio de uma linguagem simbólica. Assim, o mito pode ser compreendido
como uma forma literária que consegue trazer explicação complexa às questões que
envolvem a complexidade da vida, da morte, do bem e do mal.
Tanto Croatto (2010) como Eliade (2000) entendem o mito como o relato de um
acontecimento cuja finalidade é dar sentido a uma realidade significativa para a vida.
Ele se manifesta em linguagem simbólica, buscando, em metáforas e analogias, uma
forma de alcançar a interioridade humana.
O mito não é uma mentira: ele é uma narrativa que usa linguagem simbólica no intuito
de trazer significado com respostas para fenômenos complexos sobre a vida e o
mundo em que vivemos. Porém, chegou uma época em que o mito sozinho já não
dava conta de explicar as dúvidas sobre a cosmologia. As dúvidas sobre o que é o
mundo começam a fomentar muitas perguntas, e assim nasce a Filosofia.
Nota
Há um consenso de que a Filosofia nasce da mitologia grega.
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“ Também aquele que ama o mito é, de certo modo, filósofo.”
Saiba mais
Alguns filmes têm seu roteiro desenvolvido inspirado nas temáticas mitológicas das
civilizações antigas, como as nórdicas, as gregas, as egípcias etc., por exemplo: O
senhor dos anéis, Êxodo: deuses e reis, Hércules, Fúria de titãs, Troia, Thor etc.
O que é a Filosofia?
A filosofia abre um novo caminho para o conhecimento, não mais guiada pela ótica da
crença, como na narrativa mítica. Seu caminho é guiado pela lógica do Logos. Trata-
se das primeiras rupturas com a mitologia. Os pensadores que buscam uma
explicação lógica para os fenômenos, desvinculadas das divindades, são
denominados de pré-socráticos, grupo cuja preocupação era entender mais a
natureza, que denominaram de Physis.
Eles foram se dando conta de que o Kosmos possuía elementos constitutivos que
deviam ser investigados de forma racional e lógica acerca de sua natureza e
movimento.
Nota
A ruptura com a mitologia foi realizada de forma gradual.
Ressaltamos que a filosofia lida com conceitos. Cada proposta filosófica se debate
com termos que conduzem sua forma de produzir o saber. Os pré-socráticos
trouxeram para o debate os conceitos de Logos, Arché e Physis. Esses termos
estavam vinculados à sua busca por entender a cosmologia, isto é, o mundo físico.
Veja que a palavra “cosmologia” é composta por Cosmos, que significa mundo
ordenado, e logia vem da palavra logos, termo que significa pensamento racional.
Assim, os conceitos estão vinculados à busca pelo conhecimento racional da ordem
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do mundo ou da natureza. Tanto o termo arché como Physis eram usados para
designar a substância da composição da natureza.
Sócrates define o antes e o depois nos estudos da filosofia estabelecendo a era pré-
Sócrates. Se antes as dúvidas eram direcionadas à substância do Kosmos, com
Sócrates o olhar se desloca para a Ontologia, que significa “Ser Humano”. Com esses
filósofos nasce a ideia de que o humano é constituído de corpo e alma. Sócrates e
Platão têm a mesma opinião sobre a construção humana, contudo Aristóteles discorda
deles, o que vamos ver mais adiante,
Fique atento para entender as teorias dessa tríade nas temáticas seguintes!
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um grande filósofo, Sócrates não deixou escritos; suas ideias foram registradas por
Platão, seu principal discípulo. Os registros estão em forma de diálogos, como uma
conversa entre mestre e aluno.
Como podemos ver, foi um longo caminho percorrido até chegarmos ao método
científico.
O surgimento da Ciência Moderna inaugura um novo lugar para explicar as coisas. Ela
nasce trazendo um objeto de investigação e um método.
Importante lembrar que, durante a Idade Média, a Filosofia ficou aprisionada nas mãos
das instituições cristãs. Isso ocorreu com a cristianização do Império Romano, que,
aliás, baniu os filósofos que não estivessem de acordo com a explicação dogmática da
igreja. Muitos migraram para o Oriente. Nesse período, quem comandava o
conhecimento era a Teologia; a Filosofia entrava como auxiliar.
Observação
Atos como os do imperador Justiniano (483-565) — que governou o lado oriental
(Bizantino) do Império Romano — que, por volta do ano 529, oficializou o cristianismo
como religião oficial e, com isso, baniu as atividades filosóficas e quaisquer outras
expressões religiosas em toda a região do império. A partir dessa data a filosofia só se
expressou como uma auxiliar da teologia cristã.
Na Era Medieval, era perigoso pensar. Você conhece a expressão “caça às bruxas”?
Vem dessa época. Pois é, o medievo foi a era da Inquisição, que queimava hereges,
bruxas e punia todos os atos que eram classificados como algo que ofendia a Deus.
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uma Filosofia conhecida como Medieval, com expoentes como Agostinho, logo no
início; Abelardo que era professor na Universidade de Paris; e, posteriormente, Tomás
de Aquino, para citar alguns importantes.
Saiba mais
No filme Em nome de Deus (1988), que relata o nascimento da Universidade de
Paris, Abelardo, protagonista da obra, foi um dos principais filósofos da era medieval.
Observa-se que os filósofos travam uma queda de braço com o controle da instituição
religiosa cristã acerca do aprisionamento do conhecimento. Para eles, a liberdade de
pensamento só seria possível com o distanciamento entre Igreja e Estado. O
Iluminismo afirma que é o uso da razão, e não o da fé, que vai proporcionar a
construção de uma sociedade liberta, solidária e igualitária. Nasce, assim, o processo
de secularização, isto é, o mundo fora do controle da religião.
A secularização faz surgir um estilo de vida social. Foi nesse processo que houve a
perda do controle da religião, que era a responsável pelo controle da sociedade; ao
perder essa função, criou-se o estado laico, regido por direito próprio e uma legislação
que integra todas as instituições que o compõem, inclusive as instituições religiosas.
O Iluminismo não veio do nada. A partir do século XVI, muitos movimentos travaram
batalhas em torno da liberação do campo do pensamento, muitas descobertas
trouxeram questionamentos acerca do ser humano e do mundo, entre eles o
Renascimento, Humanismo, Naturalismo e o descobrimento de novos continentes.
Todos nós sabemos que as transformações trazem muitas dúvidas: quem explicaria os
novos questionamentos? Uma transformação de pensamento importante foi a
descoberta de que a Terra não é o centro de nada, mas mesmo que a Igreja investisse
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em excomungar as pessoas, não havia como desconstruir o que se tinha descoberto.
Nada mais era certo. O universo é infinito! E o humano, o que é?
A filosofia nunca foi destronada. Sempre ocupou o lugar de reflexão. Por certo, com o
cientificismo, surgiram novas epistemologias, como antropologia, sociologia,
psicologia, pedagogia etc., cada uma delas com um olhar específico para seu objeto
de estudo.
Saiba mais
Para enriquecer nossa discussão, acesse Mito, o nada que é tudo (café filosófico).
O que seria da poesia sem o recurso simbólico literário? Para nossa reflexão,
fiquemos com a composição A raça humana, de Gilberto Gil.
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A raça humana (Gilberto Gil)
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Tema 2
Platão: a fundação do modelo de pensamento
transcendente
Vamos entender um pouco sobre o que Platão nos deixou como legado sobre a teoria
do conhecimento. De fato, se estamos na busca pela compreensão da construção do
pensamento ocidental devemos entender um pouquinho das ideias de Platão.
Platão viveu no período que vai do ano 428 a 348 a.C. Nasceu em Atenas, dentro de
uma família aristocrática. Foi discípulo de Sócrates e herdeiro de suas ideias, que as
redigiu em forma de diálogos. Fundou a Academia em Atenas, uma escola de
Filosofia, pela qual passou um gênio da Filosofia: Aristóteles. Suas ideias
influenciaram as filosofias na era Medieval, como Agostinho e Tomás de Aquino.
Platão construiu ideias que diferenciaram o mundo sensível do mundo inteligível. Para
entender as formas de construção de pensamento que iniciou com Sócrates, é
necessário ver um pouco do contexto sócio-histórico que gerou tais questionamentos
sobre o conhecimento.
Chauí (2006) diz que Atenas tornou-se o centro da vida social, política e cultural da
Grécia, vivendo seu período de esplendor. Nesse período de desenvolvimento de
Atenas, floresceu a democracia, e a filosofia vai desempenhar um papel importante,
especialmente sobre o que significa ser uma democracia e como viver nela. Isso
requeria o autoconhecimento. Assim, foi com o desenvolvimento de Atenas como um
grande centro político que a Filosofia inicia com seus conceitos sobre o ser humano e
como ele conhece.
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período socrático é antropológico, isto é, voltado para o conhecimento do homem,
particularmente de seu espírito e de sua capacidade para conhecer a verdade. O
retrato que a história da Filosofia possui de Sócrates foi traçado por seu mais
importante aluno e discípulo, o filósofo ateniense Platão.”
A voz filosófica de Sócrates foi registrada por meio dos diálogos com Platão. Contudo,
qual é a importância de estar falando da construção filosófica de Platão em pleno
século XXI?
Podemos iniciar respondendo que, nos diálogos de Platão com seu mestre Sócrates,
fica evidente que é na consciência da própria ignorância que está o começo da
Filosofia, mas a ignorância não significa falta de capacidade para a busca do
conhecimento. Por isso que a Filosofia investe na procura pela essência verdadeira da
coisa, da ideia, do valor, de modo que a definição do conceito não deve vir por meio
da nossa opinião que temos sobre: nós mesmos, as coisas, as ideias e os valores.
Ora, opiniões estão vinculadas às pessoas e, como somos diferentes, não temos a
mesma resposta dada à mesma pergunta. É por isso que a Filosofia não tem interesse
em opinião, ela cria conceitos.
“A opinião varia de pessoa para pessoa, de lugar para lugar, de época para época. É
instável, mutável, depende de cada um, de seus gostos e preferências. O conceito, ao
contrário, é uma verdade intemporal, universal e necessária que o pensamento
descobre, mostrando que é a essência universal, intemporal e necessária de alguma
coisa.”
Por isso, a Filosofia não pergunta se tal ou qual coisa era bela, porque podemos dar
nossa opinião que seria pessoal.
Nota
Quando o filósofo pergunta “O que é a beleza?”, ele quer saber sobre a essência, isto
é, definição do conceito de belo. Assim como outros valores, tais como: verdade,
felicidade, amor, amizade etc.
É com Sócrates, Platão e Aristóteles que a Filosofia toma forma como Episteme. Isto
é, um campo de conhecimento fincado na racionalidade. Especialmente porque o
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interesse não é somente entender do que o mundo é constituído, mas o que é o ser
humano que habita esse mundo.
O mundo dicotômico de Platão é conhecido como a teoria das ideias ou teoria das
formas. Ele define o mundo sensível como o lugar onde os seres humanos vivem,
mas há o outro mundo, o inteligível, onde habitam as ideias. Em outras palavras,
segundo Platão, há um mundo habitado pelas pessoas e outro pelas ideias.
O mundo sensível funciona como uma cópia imperfeita do mundo ideal. Assim, nós
viveríamos em mundo no qual lidamos com as coisas imperfeitas, sendo que, para
cada uma dessas coisas, haveria uma imagem perfeita no mundo das ideias.
Por exemplo:
Quando vemos um cavalo, que está no nosso mundo material, o que está
diante de nossos olhos seria apenas uma cópia da imagem perfeita de
cavalo do mundo das ideias, que é o mundo inteligível.
Tudo que é ideal e real está no mundo inteligível, isto é, habita o mundo das
ideias. Tudo que habita o mundo material é aparência, são apenas sombras.
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Assim como seu mestre Sócrates, Platão entende que o ser humano é composto por
duas partes: corpo e alma.
Sobre esse olhar para o ser humano, destacamos a citação a seguir, do professor Jair
Antunes (2011):
“ Sócrates acredita que a alma tudo sabe, e se tudo sabe, então não tem que
aprender, mas tem apenas que recordar aquilo que ela sempre soube, mas que
esqueceu ao mergulhar nas profundezas do rio do esquecimento. O processo do
conhecimento é então o de reconhecimento, ou mais precisamente, de rememoração,
da recordação daquilo que ela já sabia anteriormente, em vida anterior. Por isso,
Sócrates dirá que conhecer é recordar, é rememorar aquilo que a alma já sabe, mas
que esqueceu ao passar a fazer parte do mundo sensível. Neste sentido, a filosofia de
Sócrates (enquanto teoria da reminiscência) tem um telos, uma finalidade, que é o
caminho ao qual a alma tem que percorrer no mundo sensível presa a um corpo, a fim
de novamente reencontrar-se com a Ideia do Bem.”
Marilena Chauí (2006) define o inatismo como algo com que nascemos, que está
alocado em nós desde o nascimento em nossa inteligência; não somente os
princípios racionais, mas também algumas ideias verdadeiras, que, por isso,
são ideias inatas. Já o empirismo, afirma que a razão, com seus princípios,
seus procedimentos e suas ideias, é adquirida por nós por meio da experiência.
Para Platão, a alma pertence ao mundo das ideias e o corpo, ao mundo material, que
é permanente e imperfeito. Nosso corpo habita e acessa o mundo sensível, de modo
que tudo que vemos aqui é uma imitação, uma cópia imperfeita daquilo que existe no
mundo das ideias.
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Em outras palavras, podemos exemplificar as ideias de Platão da seguinte
forma: quando vemos um objeto, estamos diante de cópias projetadas da
ideia de objeto visto. Isso porque há uma ideia perfeita, verdadeira e
permanente desse mesmo objeto no mundo inteligível (ideias). Contudo,
por meio dos nossos sentidos, só acessamos as tentativas de atingir esse
ideal. Pelos sentidos, não conseguimos acessar o real.
Nota
Estudaremos os conceitos que permeiam os estudos de Descartes mais adiante na
disciplina.
Observação
Quando lemos a obra de Platão, podemos ver que muitas de suas ideias são
trabalhadas por meio de diálogos. Aliás, todos os escritos sobre as ideias de Sócrates
são dialogadas. Era a forma com que ele escrevia sua filosofia.
Como alguém analfabeto, que nunca tinha visto tal problema, conseguiria resolver
uma questão tão complexa? Com isso, Platão confirma o inatismo, isto é, a teoria da
reminiscência, uma vez que o escravo de Mênon só teve que buscar em sua razão,
lembranças daquilo que já era inato nele.
A teoria do inatismo está também no diálogo A República, no qual esboça a sua ideia
no mito de Er, a que chama de teoria da reminiscência, que postula que já se nasce
com a razão e as ideias verdadeiras. O papel da Filosofia, então, seria relembrar das
ideias que já estão em nossas almas.
Observação
O mito de Er
O pastor Er, da região da Panfília, morreu e foi levado para o Reino dos Mortos. Ali
chegando, encontra as almas dos heróis gregos, de governantes, de artistas, de
seus antepassados e amigos. Ali, as almas contemplam a verdade e têm o
conhecimento verdadeiro. Er fica sabendo que todas as almas renascem em outras
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vidas para se purificarem de seus erros passados até que não precisem mais voltar
à Terra, permanecendo na eternidade. Antes de voltar ao nosso mundo, as almas
podem escolher a nova vida que terão. Algumas escolhem a vida de rei, outras de
guerreiro, outras de comerciante rico, outras de artista, de sábio. No caminho de
retorno à Terra, as almas atravessam uma grande planície por onde corre um rio, o
Lethé (que, em grego, quer dizer esquecimento), e bebem de suas águas. As que
bebem muito esquecem toda a verdade que contemplaram; as que bebem pouco
quase não se esquecem do que conheceram. As que escolheram vidas de rei, de
guerreiro ou de comerciante rico são as que mais bebem das águas do
esquecimento; as que escolheram a sabedoria são as que menos bebem. Assim,
as primeiras dificilmente (talvez nunca) se lembrarão, na nova vida, da verdade que
conheceram, enquanto as outras serão capazes de lembrar e ter sabedoria, usando
a razão (Chauí, 2006, p. 86).
O gráfico a seguir demonstra como Platão estruturou sua teoria das ideias.
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“O sábio é, portanto, aquele que, tendo atingido a visão ou o conhecimento do Bem
pela via da dialética, isto é, da ascensão de sua alma até o plano mais elevado e mais
abstrato do real, é capaz de agir de forma justa. Pois ao conhecer o Bem, conhece
também a Verdade, a Justiça e a Beleza. É por este motivo que a concepção ética de
Platão ficou conhecida como “metafísica do Bem”. A forma do Bem é, por conseguinte,
o fundamento da ética.”
(Marcondes, 2007, p. 12)
Platão pontua que a Filosofia é a única capaz de dar luz aos governantes e libertá-los
de suas ignorâncias em relação à verdade. Essa teoria está bem explicitada no Mito
da Caverna.
O mito da caverna é um dos textos de Platão mais conhecidos; ainda é muito real na
atualidade. Especialmente quando nos recuamos para entender e investigar a
verdade, escolhendo reagir a pensar no lado da sombra.
Objetos sensíveis
OPINIÃO CIÊNCIA
Imaginação | Crença Pensamento | Inteligência
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O mito da caverna
(Fonte: Adaptação de PLATÃO. A República. 9. ed. Bauru: Edipro, 2001. Livro VII.)
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Tema 3
Aristóteles e a fundação do indivíduo
Então, estamos com mais um dos filósofos que compõem a tríade da Filosofia Antiga.
Agora trazendo a contribuição de Aristóteles. Por certo, esse foi um dos gênios da
Filosofia na era antiga. Aristóteles é considerado um filósofo completo, pois seu campo
de estudos incluía Metafísica, Física, Astronomia, Lógica, Biologia, Ética e Política.
Aristóteles viveu no período que compreende os anos de 384 a 322 a.C., pertencia a
uma família de médicos da cidade de Estagira, ao norte da Grécia.
Nota
Seu pai era médico de Felipe, rei da Macedônia.
O filósofo foi aluno da Academia de Platão em Atenas, permanecendo ali por cerca de
20 anos. Após a morte de Platão, saiu da academia e fundou sua própria escola: o
Liceu.
Nota
Consta em sua biografia que foi professor do filho de Felipe, Alexandre, que veio a se
tornar um dos maiores conquistadores do mundo antigo.
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Uma das novidades é que ele não usa o diálogo para produzir suas obras. Elas estão
organizadas em forma de tratados, nos quais registrou suas investigações acerca de
muitos assuntos.
Nota
Chauí (2006) pontua que, na percepção de Aristóteles, não há uma ruptura entre o
conhecimento sensível e o intelectual, ele estabelece uma continuidade entre eles.
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A professora Marilena Chauí define, da seguinte forma, a filosofia de Aristóteles:
Essa obra é conhecida como Metafísica, termo oriundo do grego tá méta tá phýsica,
que significa “depois da física”.
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Ser humano + Corpo = Alma
Matéria Forma
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Vamos entender como a felicidade é trazida para ser pensada pela teoria aristotélica,
começando pelo destaque a seguir, da citação do professor Marcondes:
A felicidade só pode ser vivida por meio da ética, virtude e valores. Em outras
palavras, conhecer algo implicava em agir eticamente de acordo com esse
conhecimento. É desse lugar que pode viver a eudaimonia.
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Notamos que, na teoria de Aristóteles, o conhecimento é um processo em parte da
sensação que passa pela imaginação e acaba no entendimento. Todo esse processo
recebe o nome de abstração, pois o entendimento atua sobre as imagens, separando
tudo o que tem elas de particular e concreto para formar o conceito.
A teoria aristotélica não é mais a ideia platônica que estava no outro mundo: sua teoria
é abstraída da imagem.
O ato de conhecer está vinculado ao processo de viver bem e, por isso, Aristóteles
deixou muitos escritos sobre ética e política. Na sua visão, a ética e a política não
podem ser separadas, porque ambas constituem a chamada filosofia prática e ética.
A ética é fundamental, sendo vista como o lugar de reflexão filosófica sobre as ações
humanas.
É por meio da forma reflexiva da vida que o ser humano pode alcançar a
Eudaimonia.
A felicidade se identifica com vida vivida por meio dos princípios éticos que, atrelado à
atividade intelectual, conduz o ser humano a uma forma plena de vida. Por isso que
sua filosofia acentua o valor da virtude. Trata-se de um valor que está ligado ao
conhecimento.
Na explicação de Chauí (2006), Aristóteles criou a lógica propriamente dita, que ele
chamava de analítica. A lógica aristotélica é um instrumento que antecede o
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exercício do pensamento e da linguagem, oferecendo-lhes meios para realizar o
conhecimento e o discurso.
Enfim, pelo que vimos neste tema, podemos entender como as ideias de Aristóteles
são tão necessárias para entender o ato de filosofar. Especialmente porque suas
teorias foram retomadas e discutidas por diversos filósofos na era medieval e
moderna.
Saiba mais
ÉTICA A NICÔMACO
O conceito de felicidade
(Aristóteles, 1991, p. 7)
Para Aristóteles, a felicidade era algo peculiar ao ser humano. Ele considera a
felicidade como “a mais desejável de todas as coisas, sem contá-la como um bem
entre outros” (Livro I, cap. 6). Marcondes (2007) diz que a noção de felicidade é central
à ética aristotélica e, que, por esse motivo, é caracterizada como “ética eudaimônica”.
A felicidade é, portanto, algo absoluto e autossuficiente, sendo também a finalidade da
ação.
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Tema 4
O objeto do pensamento na lógica estoica dos
teóricos gregos e romanos
Nós vivemos!
Viver é uma arte?
Como já tinha dito Sócrates, uma vida não refletida não merece ser vivida. A vida é um
lugar de reflexão. Por isso, é um dos lugares de onde partem nossos
questionamentos. É refletindo que buscamos o sentido de nossa vida.
É esse o assunto de nossa temática. Falaremos sobre uma filosofia que teve grande
influência na construção do pensamento ocidental, pois trouxe para o debate os
problemas que mais afligem as pessoas. Aliás, vamos notar que o interesse estoico
não são as grandes questões da humanidade, como o surgimento do universo ou
sobre o que existia antes dele, ou sobre os grandes tratados sobre ontologia,
metafísica da filosofia antiga. Para o estoico, nada dessas grandes discussões era tão
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relevante se a vida não faz sentido, isto é, se a pessoa não entendeu a arte de viver.
As pessoas lidam com as incertezas da vida, os anseios do coração, e nem sempre
procuram respostas para as contradições do existir. A arte de viver está em entender
como lidar com as contradições e manter o controle sobre elas.
É por isso que a filosofia estoica deve ser trazida para a reflexão. Entender a proposta
filosófica do estoicismo é fundamental porque é ela que tem a proposta da arte de
viver.
E o que é viver?
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E aí, o que você achou da resposta de Gonzaguinha?
O termo “estoicismo” vem de Hélas, que era uma antiga região onde se fixaram
as cidades-estados da Grécia e o povo era denominado de helenos.
Você sabia que Roma sabia a arte de guerrear, mas não dominava a arte de filosofar?
É isso mesmo. Apesar do domínio político da região, Roma não consegue suplantar a
cultura helênica grega. Ao contrário, ela a absorveu, adotou o conceito dos seus
deuses e não conseguiu superar a língua grega koiné em toda a região dominada pelo
helenismo.
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do ethos grego, incentivavam-se a prática do atletismo, que era uma característica do
helenismo, como uma postura social civilizada, e também se estimulavam as artes,
especialmente a poesia, a música, a escultura e a pintura.
A cultura helênica vai do início do Império Macedônico, por volta do ano de 332 a.C.,
até o início da Filosofia Medieval, porque há influência grega nos escritos de Agostinho
de Hipona, que era um retórico, antes de tornar-se bispo da religião cristã. Por certo,
houve a influência da Filosofia Grega e das escolas fundadas no início do helenismo,
que permaneceu durante o Império Romano, na região. Era pela língua grega koiné
que se passava a erudição dos escritores e se definiam os conceitos, inclusive os
relacionados à religião cristã. Somente com a cristianização do Império Romano que
se traduziu o texto sagrado para o latim, utilizando a Septuaginta (LXX), que estava na
língua grega, para a língua latina. Essa tradução é conhecida como Vulgata, escrita no
século IV, no ano de 382.
O surgimento dessa forma de viver está baseado na cultura helênica, que já não vivia
segundo os conceitos da tríade filosófica da Idade Antiga, porque diziam que a
felicidade estava em viver moralmente na sociedade. Já a tese helenística diz que o
que conduz à felicidade está no próprio ser humano e não fora, nas coisas externas. A
pessoa helênica não precisa de uma polis politicamente organizada, nem de riquezas,
alma imortal, nem de deuses, nada além dele mesmo para ser feliz. A única coisa da
qual depende é de sua razão, que está nele, para guiá-lo na condução de um caminho
correto, de onde ele constrói sua arte de viver.
Essa é a proposta do estoicismo. Para eles, a felicidade real depende da pessoa, tudo
que precisa é voltar-se para si e desempenhar tudo o que depende dele.
O helenismo marcou uma época. Foi de dentro das escolas helenísticas que nasceram
as filosofias que estavam envolvidas com a arte de viver. Entre elas, o estoicismo, que
nasceu na Grécia; contudo, seu desenvolvimento foi intensificado em Roma.
Para o estoico, não se constrói a arte de viver feliz sem entender a ordem cósmica.
Sua forma de pensar está arrolada a três pontos, que são: o Kosmos, a razão e a
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ética. Esses três pontos devem estar sempre unidos. É importante observar o conceito
de Kosmos na proposta filosófica estoica. Nas palavras de Chauí (2006), os estoicos
têm o mundo como sua cidade e as pessoas são cidadãos desse mundo, que é
ordenado, lógico e racional. Entende que o humano é um micro dentro do
macrocosmo, sendo o Kosmos uma essência viva. É ordenado e estruturado, regido
por suas leis, que o torna belo e harmônico.
A filosofia estoica utiliza a natureza como lugar de refletir suas teorias sobre a vida. É
uma filosofia cosmopolita, pois suas teorias estavam voltadas para entender a
natureza, o ser humano e as relações entre eles. É em harmonia com a essência viva
e ordenada da natureza que o humano que se entende parte integradora desse lugar,
desenvolve uma reflexão por meio da razão e, por meio da ética, cria a arte de viver
feliz.
É com o objetivo de responder sobre a arte de viver bem, que o estoicismo surge com
sua proposta. Como vimos, nasce no período helênico, uma cultura na qual se
desenvolveu o pensamento de que viver depende do próprio ser humano. Assim, os
questionamentos estoicos giram em torno de “como viver?” ou “o que é ser um
cidadão do Kosmos?”.
Como vimos nos estudos sobre Aristóteles, ele entendia a ética associada à ação
prática, que não podia ser separada da política, de modo que as práticas éticas e
virtuosas do ser humano definem o lugar onde ele pode ser avaliado.
Nota
Essa teoria foi descrita na Ética a Nicômaco.
Alexandre viveu por algum tempo em Épiro, com sua mãe, quando seu pai, Felipe II,
se casou com a sobrinha de Átalo, um nobre macedônio, em 337 a.C. Olímpia volta
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para sua terra com Alexandre, que ficou por um ano se falar com o pai. Retorna à
Macedônia em 336 a.C., quando o pai foi assassinado, possivelmente por vingança de
Olímpia. É sabido que Alexandre tinha conhecimento do assassinato e ele assume o
poder com 20 anos de idade, conquistando um dos maiores impérios conhecidos.
Unificou seu império por meio da língua koiné, um dos pilares da cultura helênica.
A razão é um dos pilares dessa filosofia. Já que o desequilíbrio na vida está muito
associado às emoções, a racionalidade é empregada para lidar com as sensibilidades
emocionais, pois são elas que causam as reações que fazem da vida um lugar de paz
ou a expulsa do paraíso. Por isso, a razão é fundamental, e, no estoicismo, usa-se a
razão para controlar a emoção. Suas teorias objetivam o controle das emoções para
evitar os vícios das paixões e cultivar as virtudes.
De forma bem simples, podemos dizer que o estoicismo traz a ideia de que a forma de
ser feliz reside na própria pessoa, independentemente das circunstâncias externas,
que, apesar de existirem, não podem nos impedir de sermos felizes. Isso porque as
circunstâncias serão vividas de acordo com a reação que daremos a elas.
Sêneca viveu entre os anos 4 a.C.-65 d.C., foi filósofo, escritor e político.
Nascido em família ilustre e criado em Roma, onde estudou retórica e
filosofia. Sua vida foi bem conturbada pelas tragédias, esteve exilado em
Córsega, onde viveu até 49 d.C. Volta para Roma e, durante os anos de 54
e 62 d.C., foi conselheiro de Nero. Foi condenado ao suicídio, por Nero,
em 65 d.C.
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Filósofos estoicos
Sêneca
Nota
Nessa corrente de pensamento, a pergunta sobre o que é o ser humano é sempre
posta em discussão.
Epicteto
Epicteto foi o segundo nome do estoicismo romano. Nasceu escravo por volta de 55
d.C., em Hierápolis, foi jovem para Roma e serviu na casa de Epafrodito, um
secretário de Nero (37-68). Sua sabedoria alcançou destaque e ensinou em Roma até
94 d.C.
Sua filosofia inspirou o imperador Marco Aurélio, que deixou uma espécie de diário,
publicado após sua morte, com o nome Meditações. Nesse diário, fica claro que teve
influência da filosofia do escravo.
Marco Aurélio
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Qual foi o legado desses três pensadores estoicos?
São eles a origem da concepção sobre a possibilidade de uma vida feliz somente em
harmonia com a natureza, pois o ser humano é parte integrante da natureza. Para
eles, o Kosmos é uma totalidade, é ordenado, é belo, é realidade e é justo.
A vida está em estreita relação com a natureza, portanto, a sabedoria estoica está na
forma de agir de acordo com a natureza. Ainda que o ser humano seja um fragmento
dentro do Kosmos, a forma de alcançar a plenitude é: não se perceber como
fragmento. Deve-se ter consciência de que é um elo unido ao total. Por meio da união
com o Kosmos: ordenado, harmônico e belo, o ser humano se integra a essa harmonia
cósmica e vive em plenitude.
Aqui, vale destacarmos que o conceito de Deus não é voltado para a transcendência,
como consta na concepção de transcendência vivida pelas religiões que acreditam
num Deus “de fora”, como aquele que transcende. Os estoicos, por sua vez, tinham
uma visão de imanência, de um divino que está dentro, integrado ao ser humano. É
vivido no interior e não no exterior. Portanto, o ser humano é parte do Kosmos que é
ser animado, dotado de consciência, inteligência e razão. Todos esses atributos
também integram a pessoa quando ela se sente parte de um total.
Para eles, os fenômenos naturais são fatos e, por isso, nem podem ser classificados
como bons ou maus. Do Kosmos, pode vir o caos, mas dele também vêm todos os
benefícios, especialmente todas as nossas necessidades para promover a vida.
Nota
Podemos perceber que as escolas estoicas se preocupavam menos com os conceitos
e mais com exercícios práticos de sabedoria.
Sobre isso, destacamos o trecho a seguir, extraído das Meditações. Veja o que diz
Marco:
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“Que a imagem de tua vida inteira não te perturbe jamais. Não sonhes com todas as
coisas dolorosas que provavelmente te aconteceram, mas, a cada momento presente,
pergunta: o que há de insuportável e de irreversível neste acontecimento? Lembra-te,
então, de que não é nem o passado, nem o futuro, mas o presente que pesa sobre ti.”
Estoicismo entende que a vida só pode ser no “agora”. Não valorizam a esperança por
estar projetada no futuro. É preciso ter cuidado com a esperança, especialmente
quando ela estiver apontando para algo que achamos que é uma falta.
Viver o dia, sem estar no fragmento que gera a falta, é estar em harmonia com a
felicidade. Esperar por algo sem viver o presente de forma harmônica é adiar a
felicidade.
“É preciso conciliar nossa vontade com os acontecimentos de tal maneira que nenhum
acontecimento ocorra contra nossa conveniência, e que também não haja nenhum
acontecimento que ocorra quando não o desejamos. A vantagem para aqueles que
estão assim prevenidos é de não falhar em seus desejos, de não se deparar com o
que detestam, de viver interiormente uma vida sem dificuldade, sem temor e sem
perturbação [...]”
(Epicteto, 2014)
Princípio-chave
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“Mesmo que você vivesse três mil anos, ou até mesmo trinta mil, lembre-se de que a
única vida que um homem pode perder é a que está sendo vivida nesse momento; e
que ele não pode ter nenhuma outra vida além daquela que perde.”
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Encerramento
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A filosofia antiga nasceu com Sócrates, contudo, ele foi um filósofo que não escreveu
seus conceitos. Sua obra vai ser escrita por Platão. A proposta filosófica tem
centralidade no autoconhecimento. Sócrates inicia essa jornada, quando retira do
Templo de Apolo, em Delfos, a expressão “conhece-te a ti próprio”. Por isso, sua
proposta filosófica afirma que só podemos conhecer alguma outra coisa, depois de
nosso autoconhecimento.
• A palavra Filosofia se encarrega de dizer que devemos ter amor pelo saber.
Ela une os termos amor e sabedoria (Philos + Sofia).
• A Filosofia abre um caminho para o autoconhecimento, pois nos conduz por
um caminho lógico e racional.
• A Filosofia nos ajuda a entender os conceitos, porque são importantes para o
autoconhecimento. Conceitos não se firmam em opinião ou senso comum, eles
estão vinculados a uma busca pelo conhecimento racional.
• A Filosofia é o lugar para se buscar e entender o conhecimento, especialmente
porque é o conhecimento que nos guia na descoberta de si mesmo. Como diz
Platão, sem o conhecimento, vive-se nas sombras, a luz da Filosofia é o que
nos liberta da caverna (senso comum) e nos condiciona a ver a luz.
Na filosofia de Aristóteles:
• O ser humano é um ser político, isto é, ele é um ser sociável, sem isso, deixa
de ser humano. É um ser dotado da capacidade racional. É desse lugar que ele
pratica a eudaimonia, que se efetiva a partir de uma ação virtuosa por meio da
ética.
• A ética é ensinada, não é inata, ela resulta no hábito de sua prática. Se
almejamos a felicidade, é preciso que criemos hábitos conduzidos pela ética.
Enfim, para Aristóteles, a ética está intrínseca na felicidade, assim como a felicidade
está intrínseca na ética. Como ser político-social, o local de praticar a ética é na
sociedade, em relação com as outras pessoas. Ética e felicidade estão na base do
exercício da cidadania, portanto, nós temos a missão de viver a ética e construir a
autorrealização como lugar de viver a felicidade.
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O estoicismo deixou uma marca de integridade moral que deve
ser vivida a qualquer prova. Para o estoico, a integridade, a paz
de espírito, a autonomia, a felicidade depende apenas de nós
mesmos. Na nossa sociedade atual, em que há uma crise
moral, perpassada por corrupção, fake news entre tantas
situações complexas, essa corrente filosófica afirma que está
na reflexão racional, sobre nós mesmos, por meio da
integridade ética, o lugar onde é possível viver feliz. Como
você entende a reflexão e como ela pode nos auxiliar a viver
uma vida harmônica?
A reflexão é um ato de pensar que não nos deixa apenas reagir, mas nos obriga a
criar uma resposta lógica e racional sobre as questões que são trazidas para uma
reflexão.
É essa a proposta do estoicismo, que acredita que a arte de viver uma vida feliz está
na capacidade de reflexão sobre os atos da vida.
Resumo da Unidade
Nossa discussão nesta Unidade 1 foi em torno das temáticas sobre os contextos
históricos filosóficos de como veio sendo construído o conhecimento. Vimos como o
mito se evoluiu para a Filosofia e como ela, com seu objeto questionador, levou à
nova concepção da racionalidade, da qual brotou a ciência metodológica.
Entendemos que o mito não é uma mentira, ele é uma narrativa em linguagem
simbólica. Vimos que a Filosofia deixou suas marcas no Ocidente com a tríade
Sócrates, Platão e Aristóteles. Eles compuseram as teorias sobre o mundo, o
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humano, a política, a ética, entre tantos outros assuntos que ainda são relevantes
para as discussões filosóficas atuais.
Na temática dois, entendemos um pouco mais sobre a teoria de Platão, uma vez
que ele deixou um grande legado de produção filosófica e foi um dos interlocutores
do pensamento ocidental. Identificou um mundo visível, isto é, um mundo das
aparências; e o mundo inteligível (das ideias). Seu legado foi uma complicada
construção de pensamento quando instaurou o modelo por excelência do que é
transcendência, essa forma de pensar vai alimentar conceitos religiosos da idade
média.
Por fim, vimos a proposta de filosofia estoica voltada para entender as dificuldades
da vida. Uma filosofia que buscava refletir sobre a essência da vida, que deve ser
guiada pela razão. Os estoicos tinham uma concepção de vida que só poderia ser
feliz em harmonia com o Kosmos. Para eles, o Kosmos é ordenado, é belo, é
realidade e é justo. Viver o momento é um dos princípios estoicos, nem o passado e
nem o futuro são lugares de estar, porque não tem nada a ofertar à vida, de que
deve ser plena no “agora”.
Referências da Unidade
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