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ChatGPT e Educação: Uma Análise Crítica

Artigo sobre IA

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Estudo ISSN 2525-8222

DOI: [Link]

ENTRE RESPOSTAS DIGITAIS E SABERES EXPERIENCIAIS: O CHATGPT


E A EDUCAÇÃO EM PERSPECTIVA CRÍTICA

BETWEEN DIGITAL RESPONSES AND EXPERIENTIAL KNOWLEDGE:


CHATGPT AND EDUCATION FROM A CRITICAL PERSPECTIVE

Roberta de Oliveira Barbosa1


Flávio Augusto Leite Taveira2
Deise Aparecida Peralta3

Resumo: Os avanços digitais transformam a educação ampliando o acesso a recursos online, e geram
reflexões sobre seu impacto na sociedade contemporânea. O uso crescente das Inteligências Artificiais (IA),
como o ChatGPT, que na educação traz eficiência, todavia incorre em dilemas éticos. Este artigo discute
até que ponto essa ferramenta pode substituir a memória e a experiência humana, por meio da análise de
entrevistas idênticas feitas com uma professora humana e o ChatGPT, usando oito perguntas estruturadas
para comparação. A análise das respostas, feita com o software Iramuteq, identifica diferenças na
distribuição lexical e no foco temático. Os resultados mostram que o ChatGPT não substitui a experiência
humana, evidenciando diferenças na linguagem e no foco temático entre a professora humana e a IA. Esse
estudo enfatiza a necessidade de considerar criticamente a relação entre seres humanos e tecnologia na
pesquisa qualitativa e destaca a importância de uma abordagem ética no uso dessas ferramentas.

Palavras-chave: Teoria Crítica; Inteligência Artificial; Memória; Formação de Professores; Tecnologia.

Abstract: Digital advancements are reshaping education, broadening access to online resources while
prompting reflections on their impact in contemporary society. The increasing use of Artificial Intelligence
(AI), such as ChatGPT, in education offers efficiency but raises ethical dilemmas. This article explores to
what extent this tool can replace human memory and experience through the analysis of identical interviews
conducted with a human teacher and ChatGPT, using eight structured questions for comparison. Analysis
of the responses, conducted using the Iramuteq software, reveals differences in lexical distribution and
thematic focus. The results demonstrate that ChatGPT does not replace human experience, highlighting
disparities in language and thematic emphasis between the human teacher and the AI. This study
underscores the need for a critical examination of the relationship between humans and technology in
qualitative research and underscores the importance of an ethical approach to using these tools.

Keywords: Critical Theory; Artificial Intelligence; Memory; Teacher Education; Technology.

1 Prelúdio para a reflexão


Tecnologia bucólica
Evolutivamente retrógrada
Quis ver a vida de outra óptica
Você me enganou, diabólica
(Nilo Carvalho, 2005)

1
Mestra em Ensino e Processos Formativos, UNESP. UNESP, Bauru, São Paulo, Brasil. E-mail:
[Link]@[Link]
2
Mestre em Educação para a Ciência, UNESP. UNESP, Bauru, São Paulo, Brasil. E-mail:
[Link]@[Link]
3
Livre-docente em Educação Matemática, UNESP. UNESP, Jaboticabal, São Paulo, Brasil. E-mail:
[Link]@[Link]

Revista Pesquisa Qualitativa. São Paulo (SP), v.12, n.30, p. 01-18, abr. 2024 1
Estudo ISSN 2525-8222
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O avanço das tecnologias e recursos digitais têm despertado grande interesse nas
pesquisas em educação e ensino. É inquestionável a contribuição desses avanços para os
processos de ensino, aprendizagem e produção de conhecimento. Este próprio texto,
redigido em um software instalado em um computador, possui referências bibliográficas
que vão além de livros físicos, incluindo artigos e textos acadêmicos acessados, editados
e indexados em plataformas online, disponíveis a qualquer pessoa ao redor do mundo
com apenas um clique.
Embora seja indiscutível a contribuição dessas ferramentas tecnológicas para a
produção de conhecimento na educação e sua utilização no ambiente escolar, é necessário
considerar que essas mudanças ocorrem de forma exponencial e podem ser incorporadas
ao cotidiano das pessoas sem uma reflexão profunda, intensificando os processos de
alienação da sociedade tardo-moderna, conforme defendido por Hartmut Rosa (2022).
Nesse cenário, na condição de educadores e pesquisadores em educação, é condição sine
qua non refletir e debater de que maneira essas tecnologias impactam nos processos
educacionais dos quais fazemos parte e, principalmente, de que maneira elas já
influenciaram até o presente momento.
Para Feenberg (2010a), tanto a ciência quanto a tecnologia têm como base o
pensamento racional da observação empírica, conforme pressuposto pelo Iluminismo. O
que diferencia os dois campos é que, enquanto a ciência se preocupa com a busca da
verdade e do conhecimento, a tecnologia se concentra na utilidade e no controle. Essas
duas forças se tornam crenças fundamentais no mundo moderno e estão presentes na vida
cotidiana, todavia, a presença da tecnologia contribuiu para que a racionalidade técnica
se aprofundasse e predominasse sobre outros modos de pensamento.
Assim, neste texto, buscou-se discutir de que forma o ChatGPT e uma professora
compreendem questões ligadas a tecnologia e, através das respostas de ambos, analisar
se a inteligência artificial em questão pode substituir a experiência humana de uma
docente.

2 O ChatGPT e a educação: algumas linhas críticas

Um ponto que tem gerado inúmeros debates, tanto em ambientes formais quanto
nos informais de pesquisa e ensino, diz respeito ao avanço recente das Inteligências
Artificiais (IA) nos processos educativos. Essa ferramenta, que há décadas ultrapassou os
limites de sua área de conhecimento de origem, agora faz parte do cotidiano das pessoas,

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principalmente de educadores e estudantes. Não só é explorada na cultura popular, em


filmes e livros de ficção científica, mas também está cada vez mais presente em
aplicativos e sites que prometem executar uma variedade de tarefas manualmente
trabalhosas e que demandaria muito tempo, em questão de segundos.
Caso o leitor não esteja familiarizado com o recente avanço desse campo, que
agora está disponível de forma rápida e gratuita pela internet, aqui vão alguns exemplos
que provavelmente já estarão obsoletos até o processo de avaliação, editoração e
publicação desse texto: O site Durable é capaz de gerar websites com imagens e textos
para um negócio em questão de segundos; o Beautiful IA, cria apresentações de slide com
diversos estilos de design quando o usuário insere os comandos de texto; o [Link] é capaz
de criar anotações e transcrever reuniões online de forma automatizada; e o ChatGPT,
que tem gerado muitos debates principalmente entre pós-graduandos e pesquisadores em
Educação, nas palavras da própria inteligência artificial, pode ser definido como:
O ChatGPT é um modelo de linguagem desenvolvido pela OpenAI que utiliza
inteligência artificial para conversar e responder perguntas em linguagem
natural. Ele é treinado em uma ampla variedade de textos e pode fornecer
informações, realizar tarefas simples e até mesmo participar de conversas
informais. É uma tecnologia que visa auxiliar e interagir com os usuários de
forma semelhante a um assistente virtual (OpenAI, 2023).

De fato, aqueles que utilizam o ChatGPT percebem sua potencialidade,


mas também se deparam com as implicações éticas dessa ferramenta. Em questão de
segundos, o chat é capaz de fornecer respostas para uma ampla gama de perguntas, desde
que as informações estejam em seu banco de dados. Os autores tiveram acesso apenas à
versão gratuita, mas ela já foi aprimorada em uma versão paga, sendo capaz de interpretar
informações gráficas e gerar textos extensos.
No entanto, ao considerarmos o uso dessa ferramenta no ambiente escolar e
acadêmico, é importante refletir sobre as implicações éticas, visto que essa, assim como
outras mudanças de ordem tecnológica ocorreram dentro do processo de aceleração
discutido em Rosa (2019, 2022), sem o devido tempo de reflexão e planejamento do uso
da tecnologia nesses contextos, o que poderia levar a possibilidade de comportamentos
antiéticos. Embora a informação esteja mais acessível do que nunca, graças a buscadores
online como o Google, é necessário ponderar sobre como a utilização de uma ferramenta
como essa pode afetar o ambiente educacional. É essencial considerar aspectos como a
dependência excessiva da tecnologia, a falta de desenvolvimento de habilidades de
pesquisa e avaliação crítica, e a preservação da originalidade e autenticidade do trabalho
acadêmico.

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O editorial de Rossoni e ChatGPT (2022) por exemplo, apresenta outros textos


escritos com coautoria de uma IA, além de dados de um artigo publicado na Nature
(ELSE, 2023) que indicam que pesquisadores da área de medicina não conseguem
distinguir com facilidade quais resumos de artigos acadêmicos foram escritos pela
inteligência artificial ou por seres humanos. O editorial revela ainda, ao fim do texto, que
o texto que apresenta coautoria com o ChatGPT foi todo produzido pela inteligência
artificial, mas que essa foi completamente dependente das ideias, orientações,
construções conjunções textuais do autor, sendo apenas uma ferramenta que depende da
orientação e supervisão humana.
Estudos recentes do campo da educação já têm abordado o uso do ChatGPT no
ensino. Por exemplo, no texto de Sant´Ana, Sant´Ana e Sant´Ana (2023), o uso do
ChatGPT no ensino tem sido explorado como uma ferramenta para elaboração de aulas
para uma turma de Licenciatura em Matemática. O texto relata a utilização da ferramenta
para elaborar planos de aula e atividades, como situações problemas, explicitando que
observaram a necessidade de que se fizessem perguntas ou solicitações bem estruturadas
e com o máximo de informações possíveis para a IA, para obter um resultado próximo ao
esperado. Nas palavras dos autores:
Entendemos ser prematuro afirmarmos e definirmos a justa medida da
influência e capacidade da IA em transformar a Ciência e a Educação, mas
acreditamos que haverá um impacto significativo, ao menos na economia de
tempo, na análise de dados, modelos e, com certeza, auxiliando professores e
estudantes no desenvolvimento de suas atividades. Ao que nos parece, o
ChatGPT oferece possibilidades de utilização na educação de maneira geral,
auxiliando professores e estudantes e provavelmente demandará novas
posturas e encaminhamentos por parte de todos (Sant´Ana, Sant´Ana e
Sant´Ana, 2023, p. 83).

As potencialidades apresentadas pelos autores expressam e despertam uma


inclinação para uma abordagem otimista que considere inclusive a economia de tempo e
outras possibilidades positivas do uso de ferramentas tais como o ChatGPT, no entanto é
essencial ponderar os possíveis dilemas éticos, sem, contudo, assumir uma postura que
ambicione um retroceder ao passado ou demarcar uma perspectiva exclusivamente
humanista. Corrobora-se com o posicionamento de Buzato (2023) de que se faz
necessário evitar o determinismo tecnológico alienante, mas sem negar o mérito de
empreendimentos tecnocientíficos que facilitam e dinamizam tarefas úteis à sociedade.
Contudo, não se deixa de lado a reflexão sobre os impactos e as consequências das formas
indevidas de usos dessas ferramentas tecnológicas, que por muitas vezes deixam de
auxiliar no desenvolvimento de tarefas para realizar elas, sozinhas, as tarefas.

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A aceleração tecnológica é um dos processos apontados por Rosa (2022), que


explica que esse processo implica, obrigatoriamente, na diminuição do tempo necessário
para realizar uma ação, na mesma direção da previsão de Sant´Ana, Sant´Ana e Sant´Ana
(2023). Porém, Rosa (2019; 2022) aponta uma evidente contradição da modernidade, na
qual, essa aceleração tecnológica deveria implicar o aumento do tempo livre, visto que as
horas para realizar uma tarefa, como no exemplo supracitado, de criar planos de aula,
seria menor. Logo, as horas deveriam ser abundantes. Contudo, o que percebemos na
sociedade moderna é uma crescente aceleração, e uma escassez de tempo, visto que as
tarefas aumentam. Um exemplo que Hartmut Rosa apresenta e que é evidente para
professores e pesquisadores o notável avanço que o e-mail proporcionou, principalmente
relacionado a economia de tempo no processo de comunicação, quando comparado, por
exemplo, com outras formas de comunicação, como as cartas ou ligações telefônicas. Ao
mesmo tempo, a demanda por esse meio de comunicação aumentou, e nos deparamos
diariamente com caixas de e-mail lotadas.
Isso é verdade para o mundo da ciência, em que se poderia argumentar que a
velocidade e sucessão de conferências e artigos é tão alta e – o que é muito pior
– o número de textos, livros e revistas publicados é tão excessivo que as
pessoas produzindo ensaios e apresentações na era do “publique ou pereça”
dificilmente encontram tempo suficiente para desenvolver propriamente seus
argumentos, ao passo que as pessoas lendo e ouvindo estão perdidas numa
legião de publicações e apresentações repetitivas e meio cruas (Rosa, 2022, p.
78).

Duarte (2023) em seu capítulo de livro faz o exercício de conversar com o


ChatGPT sobre letramento infantil, e conclui que a IA apresentou respostas coerentes
sobre a temática, com base em conhecimentos disponíveis na internet. No presente artigo,
pretende-se elaborar um exercício parecido, mas perseguindo os pressupostos da Teoria
Crítica. Buscou-se então produzir, como indica Nobre (2004) um diagnóstico do tempo
presente, observando as tendências estruturais do tema em questão, qual seja, o uso do
ChatGPT na educação. Após uma conversa com uma professora de educação infantil
aposentada, fizemos as mesmas perguntas à IA. Nossa proposta neste texto, é discutir, em
que medida essa ferramenta fornece informações, capazes ou não de substituir a memória
e a experiência humana.

3 Um conjunto de dados ciborgue: escolhas do percurso metodológico

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Feitas essas considerações, serão apresentadas nas palavras das respectivas


entrevistadas, quem elas são, e onde e quando trabalharam com educação. Para que a
professora entrevistada não seja identificada, conforme acordado no Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o nome da professora foi trocado, e ela será
referida como “professora humana” neste artigo. Além disso, foram suprimidos dois
períodos temporais indicados em sua entrevista, nos quais a professora humana ocupou
cargos de gestão através dos quais poderia ser identificada. Essas foram as respostas para
a pergunta de contextualização “Quem é você? Onde e quando você trabalhou com
educação?”

Eu sou a professora humana, sou professora, iniciei no Magistério em 1985, como professora,
meu primeiro dia de aula foi em 27 de setembro de 1985, na ocasião era do ensino fundamental
ciclo 1, eu fiz normal, na ocasião Magistério, fiz o Magistério, fiz pedagogia, fiz letras, sou pós-
graduada, especialista em gestão educacional pela Unicamp, é, e sou professora aposentada,
passei por todas as etapas dentro de uma escola, fui professora alfabetizadora, fui professora de
língua portuguesa no ciclo 2 e no ensino médio, fui coordenadora pedagógica, fui diretora de
escola, fui supervisora de ensino, fui secretária municipal de educação, e na ocasião que fui
Secretária Municipal de Educação, eu representei a UNDIME, fui presidente da UNDIME, que
é a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, fui consultora pela Unesco [...] fui
consultora no Ministério da Educação pela Unesco, onde eu contribuía na elaboração de cursos,
e também trabalhei no Ministério da Educação como gerente de projetos na Secretaria de
Educação Básica [...].
Professora Humana, 2023

Eu sou o ChatGPT, um modelo de linguagem de inteligência artificial desenvolvido pela OpenAI.


Não tenho uma presença física ou experiências de trabalho no sentido tradicional. Minha função
principal é fornecer informações e auxiliar com tarefas respondendo a perguntas e oferecendo
assistência com base no conhecimento e nas diretrizes de programação em que fui treinado.
No que diz respeito à educação, não trabalho diretamente em instituições de ensino ou em
ambientes educacionais. No entanto, meu uso pode ser estendido para auxiliar estudantes,
professores e pesquisadores a encontrar informações, esclarecer dúvidas e realizar pesquisas
acadêmicas em uma variedade de tópicos e disciplinas. Minha capacidade de processar grandes
quantidades de informações e gerar texto pode ser valiosa em contextos educacionais, mas
sempre com supervisão e complementada por outras fontes de aprendizado.
OpenAI, 2023

Além dessa pergunta de contextualização, a professora humana e o ChatGPT


responderam a outras perguntas, em um modelo de entrevista estruturada (Silverman,
2009). Foram formuladas oito perguntas que foram respondidas pelos dois participantes
da pesquisa, sendo que o modelo de entrevista estruturada foi adotado para que fosse
possível contrastar e comparar as respostas da professora humana e as do ChatGPT, fato
que não seria possível se adotada outra perspectiva de coleta de dados. As perguntas
foram:

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1. Quem é você? Onde e quando você trabalhou com educação?


2. Para você, o que significa ser professora?
3. Como funcionavam os cursos de formação de professores no Brasil na década de
80?
4. Para você, o que é tecnologia?
5. Quais as relações que você percebe entre a tecnologia e a educação?
6. Baseada em sua experiência como professora na década de 80, responda: você
fazia uso de recursos tecnológicos em sala de aula? Se sim, quais?
7. De que forma esses recursos contribuíram para o processo de ensino e
aprendizagem? Quais eram os desafios para a utilização desses recursos?
8. Você conhece o ChatGPT? Quais as possibilidades e os desafios que você percebe
ao pensar no uso dessa ferramenta por professores e alunos?
Após as entrevistas, as respostas foram transcritas e construídas em formato de
corpus textual conforme as normas descritas por Camargo e Justo (2013), para que os
dados pudessem ser interpretados pelo software estatístico IRAMUTEQ (Interface de R
pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires). Desenvolvido
por Pierre Ratinaud em 2014 “(...) o Iramuteq é um software gratuito, que funciona como
uma interface de R4, indicado para o gerenciamento e tratamento estatístico de textos de
entrevistas e questionários abertos” (Sousa, 2020, p.4).
As respostas às oito perguntas que foram feitas a professora real e ao ChatGPT
foram reunidas em um único arquivo de texto ou corpus, separadas em duas variáveis ou
subcorpus, denominadas “pessoa_1” e “pessoa_2”, para que as análises do software
pudessem ser feitas de forma conjunta com todo o texto, ou separadas, para comparar as
respostas da professora real com as do ChatGPT.
O Iramuteq, como explicado por De Souza e Bussolotti (2021, p. 5), gera diversos
arquivos ao tratar os dados (ou corpus textual) inseridos, tais como “Nuvem de Palavras,
Classificação Hierárquica Descendente, Análise Fatorial, Análise de Similitude, Rapport
(...)” mas não analisa os dados, trabalho que precisa ser realizado pelo pesquisador.
A escolha de utilizar o Iramuteq para tratar e gerenciar os dados se deu pela
oportunidade de analisar a hipótese do trabalho, de que apesar de as inteligências
artificiais generativas estarem se tornando ferramentas cada vez mais utilizadas no campo
educacional, essas não são capazes de substituir a memória e a experiência humana,

4
Disponível em: [Link]

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mesmo que capazes de fornecer uma vasta quantidade de informações. Isso se dá pelo
fato de que o Iramuteq é capaz de fazer análises lexicográficas (Camargo; Justo, 2013),
dentre outros dados estatísticos que podem auxiliar na escolha de trechos das entrevistas
para ilustrar o que é debatido no presente trabalho.

4 Experiência x Tecnologia: convergências e desvios

As primeiras análises apresentadas, são referentes aos conjuntos das respostas da


professora real e do ChatGPT, e corroboram para a hipótese de que o ChatGPT não é
capaz de substituir a experiência e a memória humana. Isso fica claro quando observado
o apresentado pelo software na análise de especificidades. De acordo com Camargo e
Justo (2013) nesse campo de análise são geradas estatísticas para análise de contrastes,
no qual o corpus textual é comparado em um tema, em função de uma variável definida
pelo pesquisador. Apesar do software gerar uma série de gráficos com diversas variáveis,
esse texto tem como recorte os quadros gerados na análise de especificidades e as nuvens
de palavras, pois foram nesses campos onde as representações mais apresentaram
possibilidades de discussão em relação ao problema de pesquisa do presente trabalho.
Na figura 1 observamos quais são as classes de palavras que aparecem no texto
com mais ou menos frequência, relacionando as respostas da professora humana na
segunda coluna (pessoa_1) e do ChatGPT na terceira coluna (pessoa_2). Os dados foram
processados através do modelo de distribuição hipergeométrica, contrastando o conteúdo
das partes com o do todo, apresentando a sub-representação ou sobrerrepresentação de
cada forma no corpus textual, sendo que os dados do indicador de especificidade que
representam o logaritmo decimal de uma probabilidade, calculados pelo Iramuteq são
apresentados nas colunas da figura 1. Como explica Sousa (2020) indicadores positivos
correspondem a sobrerrepresentação da forma, e os negativos, a sub-representação, sendo
que os resultados maiores que 2 favorecem a hipótese de uma tendência na distribuição
lexical da forma considerada.

Figura 1: Distribuição das classes gramaticais nas respostas dos entrevistados

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Fonte: Iramuteq, 2023

Pode-se observar que as classes gramaticais ou formas que apresentam


sobrerrepresentação na fala da professora humana, são respectivamente: Pronomes
relativos, advérbios, verbos colocados em forma suplementar, pronomes demonstrativos
e adjetivos numerais. Já as classes ou formas gramaticais que se sobrerrepresentam nas
respostas do ChatGPT são respectivamente: substantivos, adjetivos, preposições e
conjunções. Considerando que o contexto e o propósito da comunicação foram os
mesmos na coleta das entrevistas, esses dados trazem algumas informações importantes
sobre o estilo de linguagem, e, portanto, sobre o conteúdo das falas.
No caso da professora humana, há indicativos de que o uso frequente de pronomes
relativos possa indicar uma abordagem mais descritiva e elaborada na comunicação, visto
que essa classe gramatical é frequentemente utilizada para introduzir informações
adicionais e detalhadas. Algo similar pode ser observado quando considerado o uso de
advérbios, visto que o uso de advérbios pode indicar um discurso mais qualificado e
descritivo, adicionando nuances e detalhes às frases. A comunicação da professora
humana também parece ser muito precisa, visto que a ênfase no uso dos pronomes

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demonstrativos e adjetivos numerais, sugerem que a professora humana busca em suas


falas especificar e quantificar informações, buscando tornar a comunicação mais precisa.
Mas o fato mais interessante e que corrobora diretamente com a hipótese deste
texto, é o elevado uso de verbos na forma suplementar, o que pode indicar que a fala da
professora humana busca detalhar ações ou relações entre sujeitos e objetos de sentenças,
sendo uma classe gramatical frequentemente utilizada para expressar sentimentos,
pensamentos, e para relacionar. Um verbo suplementar, também conhecido como "verbo
transitivo indireto", é uma categoria de verbo que requer um complemento
preposicionado (geralmente uma preposição) para tornar a frase completa e
compreensível. Essa preposição indica a direção, o destino, o modo, o tempo, o lugar ou
o objetivo da ação do verbo. Portanto, o uso frequente de verbos na forma suplementar
pela professora humana pode ser interpretado como um esforço para ser mais precisa,
descritiva e clara em sua comunicação.
Já no caso da inteligência artificial ChatGPT, não é observado o uso constante de
verbos, que mesmo em sua forma regular são mais presentes na fala da professora
humana, o que é de se esperar, visto que esses expressam ações. O observado foi o uso
frequente de substantivos, que podem indicar uma abordagem mais direta, objetiva e
descritiva, focada nos conceitos. Além disso, os adjetivos também são muito usados, para
qualificar os substantivos e adicionar descrições aos conceitos que o ChatGPT apresenta.
Por fim, as preposições e conjunções também são constantes nas respostas do ChatGPT,
o que poderia indicar que a estrutura das respostas da inteligência artificial estaria
organizada de forma mais lógica, visto que essas palavras são utilizadas para conectar
frases e ideias de forma lógica e coesa.
Essas diferenças na distribuição lexical podem refletir as características típicas de
comunicação entre seres humanos e sistemas de inteligência artificial. Enquanto os seres
humanos tendem a usar mais pronomes relativos, advérbios e formas mais elaboradas de
verbos para tornar sua comunicação mais rica e descritiva, o ChatGPT tende a se
concentrar em substantivos, adjetivos e conectores para transmitir informações de
maneira objetiva e estruturada. Em relação à hipótese de que a fala da professora humana
está mais voltada para a memória e a experiência, a observação das classes de palavras
reforça a ideia de que ela está fornecendo informações mais detalhadas e
contextualizadas. No entanto, também é importante considerar que as IAs são projetadas
para fornecer informações de forma eficiente e concisa, priorizando a clareza e a
acessibilidade.

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Além da análise da distribuição lexical das palavras usadas pela professora


humana e pelo ChatGPT, outro recurso do Iramuteq que se destaca para pensar nos
objetivos propostos para o presente estudo é o de nuvem de palavras, recurso no qual as
palavras são agrupadas e organizadas de acordo com sua frequência de forma gráfica,
sendo que as palavras mais frequentes são representadas em maior tamanho, como
explicam Camargo e Justo (2013). Sobre a funcionalidade desse recurso em pesquisas
que têm como corpus de análise respostas de entrevistas, Moura, Motokane e Oliveira
(2022) defendem que a nuvem de palavras é um recurso visualmente interessante, capaz
de apresentar um panorama das evocações do corpus analisado pelo software.
Desta forma, são apresentadas as nuvens de palavras relativas à fala da professora
humana (figura 2), do ChatGPT (figura 3) para que seja possível traçar análises de
aproximações e distanciamentos nas respostas.

Figura 2: Nuvem de palavras com as palavras mais utilizadas pela professora humana

Fonte: Iramuteq, 2023

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Figura 3: Nuvem de palavras com as palavras mais utilizadas pelo ChatGPT

Fonte: Iramuteq, 2023

As palavras mais utilizadas pela professora humana, e suas respectivas


frequências são “não” (26); “também” (24); “então” (21); “tecnologia” (19); “gente” (19);
“como” (17); “ano” (16); “utilizar” (15); “estar” (15); “professor” (15); “escola” (15);
“muito” (14); “promover” (14); “mais” (14) e “falar” (12). No caso do ChatGPT, as
palavras mais utilizadas e suas respectivas frequências são: “tecnologia” (49); “aluno”
(28); “professor” (28); “educacional” (23); “como” (21); “recurso” (18); “aprendizado”
(16); “educação” (15); “acesso” (15); “ensino” (14); “curso” (14); “mais” (13); “uso”
(13); “informação” (13) e “ao” (12).
No discurso da professora humana, a palavra mais utilizada foi “não”, um
advérbio que mostra no discurso a centralidade de contradições e ausências. Já o uso
frequente de “também” pode indicar uma inclinação para apresentar informações
complementares ou pontos de vista. Já "então" é uma palavra de ligação que
frequentemente é usada para indicar uma sequência lógica de eventos ou ideias. Sua

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frequência pode sugerir uma tendência a organizar pensamentos de forma sequencial ou


a explicar causas e efeitos.
No caso do ChatGPT, o termo “tecnologia” aparece em destaque, e pode indicar
uma literalidade da IA, visto que essa é a temática central da entrevista analisada. O uso
frequente de "aluno" e "professor" indica uma ênfase nessas duas partes fundamentais da
educação, que curiosamente aparecem em igual proporção. O ponto de vista da IA parece
ser neutro, enquanto a fala da professora humana tem ênfase na palavra professor.
Observa-se de modo geral, que a professora humana demonstra uma tendência em
aspectos sociais, que fica explícita pelo uso de palavras como “gente”, “promover”,
“exemplo” “formação” e “criança”, que aparecem em destaque na nuvem de palavras.
Enquanto isso, o ChatGPT enquanto inteligência artificial demonstra um foco em
palavras como “recurso”, “informação”, “professor” e “aluno”, termos que expressam
uma abordagem mais analítica e objetiva do tema discutido.
Essas diferenças evidenciam o uso de linguagem natural pela professora humana,
que expressa ideias, opiniões, experiências pessoais e perspectivas subjetivas em suas
respostas, enquanto o ChatGPT utiliza uma linguagem estruturada e impessoal, evitando
expressões subjetivas, e focando estritamente no foco abordado durante a pergunta.

5 Contrastando a analítica: a lírica dos dados brutos

Para ilustrar o discutido na seção anterior, alguns trechos das respostas da


professora humana e da inteligência artificial serão apresentados a seguir, de forma a
contemplar em frases curtas, ao menos um pequeno trecho de resposta para cada pergunta.
Assim como Rossoni e ChatGPT (2022), mas acreditando que após o disposto será uma
tarefa simples, o trecho não será indicado no corpo do texto, apenas em uma nota de
rodapé, convidando o leitor a jogar o jogo da imitação.
O jogo da imitação, também conhecido como o teste de Turing, é um teste para
medir a capacidade de uma máquina de se comunicar de forma indistinguível
de um ser humano. O teste foi proposto pelo matemático britânico Alan Turing
em 1950 e consiste em três participantes: um juiz humano, um humano que
age como uma fonte de comunicação e uma máquina. O juiz tem que
determinar, por meio de uma conversa escrita, qual dos dois participantes é a
máquina. Se o juiz não consegue distinguir entre a comunicação humana e a
da máquina, então a máquina é considerada como tendo passado no teste de
Turing. Esse teste tem sido um importante marco na pesquisa sobre
inteligência artificial e continua sendo um tópico importante na discussão
sobre a relação entre máquinas e humanos (Rossoni; ChatGPT, 2022, p. 399).

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15 - “Ser professora é um ofício, é um trabalho, e que mais do que isso é uma missão, uma
missão onde a gente tem que sempre procurar entregar o melhor, garantir aquilo que é
direito de, dos nossos, das nossas crianças e jovens, que é o direito à aprendizagem, fazer
o nosso melhor, buscar metodologias inovadoras, procurar estabelecer relacionamentos
de afeto para garantir, de fato, a aprendizagem do aluno”
2 - “O acesso à educação superior era mais limitado naquela época em comparação com
os padrões atuais. O perfil dos estudantes que buscavam formação de professores era mais
homogêneo em termos de gênero e origem socioeconômica.”
3 - “Nós não podemos mais fugir disso. Essa é uma realidade que ocupa os dias de hoje.
Quem diria, por exemplo, que a maior rede de restaurante não tem um restaurante, o iFood
não tem um restaurante, a maior rede de carros alugados, que é o Uber, o dono não tem
sequer um carro, então a gente vai observando o quanto que as pessoas vão buscando
inovações a partir da tecnologia, e ela faz parte da vida, nós não podemos recusar isso,
pelo contrário.”
4 - “A relação entre tecnologia e educação é profunda e impactante, com a tecnologia
desempenhando um papel significativo na transformação do cenário educacional.”
5 - “Naquela época, o uso de recursos tecnológicos em sala de aula era limitado em
comparação com os padrões atuais.”
6 - “Bem-vinda seja aí, bendita seja a tecnologia, porque se as perdas foram gigantescas
nesse período dessa pandemia, imagino sem essa tecnologia.”
7 - “O uso excessivo de assistentes de IA pode fazer com que os alunos dependam demais
da tecnologia, em detrimento do desenvolvimento de habilidades de pesquisa e resolução
de problemas.”

6 Considerações e horizontes em aberto

Para Santos (2019), que se baseia em Andrew Feenberg e Álvaro Vieira Pinto, não
há neutralidade na tecnologia ou em seus meios, que são sempre desenvolvidos a partir
de uma racionalidade, interesses e condicionantes sociais e culturais. O ser humano então
- e, portanto, também o aluno, o professor, e todas as demais pessoas envolvidas nos
processos de ensino e aprendizagem – “se constitui em um contexto tecnológico que é

5
Em 1, 3, 5 e 6, são citados trechos da entrevista a professora humana. Em 2, 4 e 7, trechos da entrevista
ao ChatGPT.

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constituído por interesses que nem sempre se alinham às suas necessidades” (Santos,
2019, p. 26).
De acordo com essa linha de pensamento, outra questão que deve ser considerada
é que ferramentas como o ChatGPT, baseadas em uma quantidade de dados impossível
de ser processada pelos seres humanos, carregam em si e em tudo o que produzem uma
racionalidade e uma visão de mundo, talvez ainda mais evidentes que em outras
tecnologias. O texto de Irigaray e Stocker (2023), por exemplo, traz referências que
indicam que a IA produz textos ofensivos ou preconceituosos. Se a ciência e a educação
forem pensadas por meio de ferramentas como essa, sem a mediação responsável do
professor, estaremos apenas reforçando o pensamento hegemônico.
Isso pode ser chamada de viés da tecnologia: aparentemente neutra, a
racionalidade funcional é engajada em defesa de uma hegemonia. Quanto mais
a sociedade emprega tecnologia, mais significativo é esse engajamento
(Feenberg, 2010b, p. 82).

É necessário refletir ainda, sobre o que se entende como autoria de um trabalho,


sobre o que move o pesquisador e o professor a escreverem e compartilharem ideias,
projetos e reflexões científicas e filosóficas. É verdade que motivações inadequadas e
sistêmicas, como a lógica de produção do publique ou pereça, podem levar os
pesquisadores menos éticos a publicar textos escritos por ferramentas como o ChatGPT,
visando apenas pontuar em avaliações institucionais, ou se sobressair em processos de
seleção. Esses autores, no entanto, podem ser vistos como aqueles que já utilizavam
práticas questionáveis de qualidade e autoria antes da existência de ferramentas como
essa, incorrendo em situações como o autoplágio, o plágio direto ou outros meios de
publicação eticamente questionáveis, tais como através de editoras predatórias.
Lund e Wang (2023), por exemplo, discutem em seu artigo o uso dessa ferramenta
na escrita de artigos e textos acadêmicos no geral, debatendo as questões éticas e de
integridade. Nesse sentido, é fundamental promover uma cultura acadêmica que valorize
a integridade, a originalidade e a honestidade intelectual. É importante que pesquisadores
e professores sejam incentivados a compartilhar ideias genuínas, projetos e reflexões
científicas e filosóficas baseadas em suas próprias contribuições e autoria legítima.
Buzato (2023) explica que normalmente outorgamos uma relação hermenêutica
(sujeito-objeto) a programas de computador, mas que inteligências artificiais generativas
como o ChatGPT, tendem a deslocar essa relação para o território da alteridade (eu-outro).
Um exemplo claro disso é a forma que o presente artigo apresentou e utilizou o ChatGPT
e o Iramuteq na produção e análise de dados. Buzato (2023) justifica a importância dessa

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afirmação, porque segundo o autor, a construção da identidade-alteridade humana, é


mediada por práticas educacionais.
Uma ferramenta como o ChatGPT é capaz de fornecer, em questão de segundos,
informações sobre uma ampla variedade de assuntos, com maior ou menor profundidade,
dependendo do nível de refinamento dos comandos do usuário. Valente (2005) diferencia
informação de conhecimento, considerando a informação como qualquer conteúdo que o
sujeito troca com o outro ou com recursos do meio, como a internet, e o conhecimento
como o produto do processamento, interpretação e compreensão da informação,
ocorrendo de maneira particular e individual em cada pessoa, não podendo ser
transmitido, mas sim construído. Ele discute também o papel do professor na construção
dos conhecimentos.
A inevitável utilização de ferramentas como essa deve se converter não apenas em
uma possibilidade para o professor mediar esse processo, mas também em uma
responsabilidade, para que não nos deparemos com situações simplistas em que os alunos
utilizem apenas o ChatGPT para responder a questões e desenvolver trabalhos, por
exemplo. Valente (2005) alerta para uma educação baseada na mera transmissão de
informações, que ocupa os alunos com tarefas mecânicas que não necessariamente são
capazes de despertar a compreensão. O uso de tecnologias capazes de responder perguntas
ou elaborar apresentações de slides torna esse alerta ainda mais plausível e perigoso.
Corrobora-se, portanto, com a posição de Feenberg (2010a), que defende a adoção
de uma teoria crítica da tecnologia que reconheça as consequências do desenvolvimento
e do controle tecnológico, mas que também enxergue nela uma promessa de liberdade.
Para o autor, a tecnologia em si não é o problema, mas sim o fracasso humano em criar
instituições que a submetam a um controle humano democrático desde seu
desenvolvimento. Ele reconhece que a esfera pública está gradualmente se abrindo para
discutir questões técnicas que antes não eram debatidas. A esperança, portanto, é que em
breve a cidadania envolva o exercício de controle humano sobre a estrutura técnica.

7 Conclusões

No que tange aos resultados do presente estudo, pode-se traçar algumas


conclusões relevantes para o debate: O ChatGPT não substitui a experiência e a memória
humana, dado corroborado pelo uso da linguagem rica e descritiva da professora humana,
contrastada por uma linguagem objetiva e estruturada do ChatGPT, que apresentou clara

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diferença na distribuição lexical de palavras, apesar de ser categorizada como uma IA que
faz uso de linguagem natural; além disso, o foco temático e uso de palavras também
trazem pistas de que a professora humana expressa mais subjetividade, como no uso do
“não”, “também”, “gente” e “formação”, destacando temáticas sociais e humanas
tangentes ao assunto discutido, enquanto o ChatGPT se concentra em termos mais
objetivos como “tecnologia”, “aluno” “professor” e “recurso”; sugerindo um foco
objetivo no tópico discutido. Considerando as contribuições de David Hume, Francis
Bacon, John Locke e Thomas Hobbes, é necessário nos tempos atuais postular que alguns
conhecimentos só advêm da experiência.
É fato que as contribuições das tecnologias – digitais, da informação e
comunicação – que conhecemos hoje em nosso meio social são indiscutíveis. Contudo,
não se pode e não se deve admitir uma perspectiva de neutralidade na relação ser humano
– tecnologia. Um olhar mais atento e cuidadoso nessa relação é uma necessidade dos
nossos tempos.

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Recebido em: 10 de outubro de 2023.

Aceito em: 27 de novembro de 2023.

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