Grad+ Rev. Grad. USP, vol. 7, n.
1, nov 2023
IMAGINÁRIO TECNOLÓGICO E
INTELIGÊNCIAS ARTIFICIAIS:
O CHATGPT NA EDUCAÇÃO
Rogério de Almeida1*
¹Professor Titular da Faculdade de Educação da USP
*Autor para correspondência: rogerioa@[Link]
SEÇÃO PONTO DE VISTA
O imaginário tecnológico pode ser pensado desde tempos imemoriais, antes mesmo da
invenção de utensílios, ferramentas, dispositivos que prolongam o corpo humano e amplificam
sua gestualidade própria, como o desejo de transformação da matéria. Ações como “romper;
escavar; agregar/reunir; cobrir; erguer; abrir; desfazer; refazer” fazem parte de uma natureza que
é, nas palavras de Artur Rozestraten (2017, p. 25), “tão pragmática quanto onírica, tão empírica
quanto delirante, tão produtiva quanto especulativa, sendo sempre eminentemente simbólica ou
criadora de significados”. Desse modo, a tecnologia envolve um “saber fazer, gerado e orientado
primordialmente pela imaginação, logo pelo desejo de transformação da matéria, antes mesmo
da necessidade ou do pragmatismo utilitário” (Ibidem, p. 189).
Essa forma inovadora de conceber a técnica e a tecnologia – como produto da imagina-
ção e não de uma necessidade pragmático-utilitária – é fundamental para entendermos como
à gestualidade humana, que transforma a matéria, se agregam ferramentas, depois máquinas
movidas por água, vento, força animal, depois máquinas com motor e energia fóssil, elétrica,
depois máquinas eletrônicas que automatizam a produção, até chegarmos às máquinas inteli-
gentes e à perspectiva de uma superinteligência artificial.
O imaginário da máquina é, portanto, irrigado tanto pelas inovações técnicas e científicas
quanto pelo delírio, pelos sonhos e pela inspiração. Como pontua Juliana Michelli Oliveira
(2019, p. 277):
“a máquina é a materialização de ficções. Permite que novas formas encontrem lugar no
real. É um veículo a partir do qual o homem realiza sonhos – de voar, de transpor limites, de
eternizar vozes e imagens, de fabricar outros homens [...]”. (OLIVEIRA, 2019, p. 277)
1 Bolsista Produtividade CNPq-2 e membro da Câmara de Avaliação Institucional (CAI) da USP.
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Desse modo, a tecnologia pode ser pensada na perspectiva da materialidade do corpo,
como extensão e aperfeiçoamento da gestualidade humana. No entanto, quando chegamos aos
artefatos inteligentes, às máquinas que utilizam Inteligência Artificial (IA), trata-se de um outro
tipo de extensão e aperfeiçoamento, não mais físico, mas cognitivo, portanto, abstrato. Sabemos
que na tradição judaico-cristã e nas concepções filosóficas dualistas, como a de Descartes, há
uma separação entre corpo e alma ou máquina e espírito. No entanto, as novas tecnologias têm
mostrado empiricamente no século XXI o que as filosofias do século XX já haviam apontado: a
superação da dualidade cartesiana e o abandono do idealismo platônico, que sobrevalorizava o
abstrato em relação ao físico (Pagotto- Euzebio; Almeida, 2022).
Assim, se as máquinas estenderam materialmente a gestualidade física, as Inteligências Arti-
ficiais (IAs) prolongam, por sua vez, as operações mentais humanas. Não todas elas, mas sobretudo
as ligadas à capacidade de armazenamento de dados (memória), processamento de informações
(cognição) e combinação de elementos díspares a partir de certa lógica (criatividade).
Já estávamos acostumados, desde o século passado, ao processamento de dados, aos cálcu-
los, enfim, à programação dos computadores, mas de certo modo essas ações eram predetermi-
nadas tanto na origem quanto nos resultados, como bem sabe qualquer pessoa que tenha lidado
com uma planilha de cálculos ou um software de processamento de textos. Para usarmos uma
metáfora apropriada, o computador tem funcionado uma tecnologia periférica, permanecendo
o humano como o centro do domínio, do comando, da vontade e, sobretudo, do controle do
pensamento e das ações.
As Inteligências Artificiais, conquanto não ocupem (ainda?) esse centro, passam a exercer
uma nova força sobre ele, daí convocar um imaginário próprio, não mais atrelado à ideia de
extensão do corpo ou das habilidades periféricas da mente, mas associado ao pensamento, à cria-
tividade e à produção de conhecimento e obras de arte. Está menos ligado, portanto, ao imaginá-
rio industrial, povoado de máquinas operadas por humanos, como nos Tempos Modernos (1936)
de Chaplin, e mais próximo dos autômatos, ou mesmo dos robôs, embora sem as formas imagi-
nariamente concebidas para eles, já que os bots (palavra derivada de robot em inglês) funcionam
como um programa que executa tarefas automatizadas, repetitivas e pré-definidas, substituindo
atividades humanas, mas de maneira mais rápida.
No entanto, quando se trata do desenvolvimento da Inteligência Artificial, o temor que
povoa o imaginário é o da possível autonomia que esses artefatos podem vir a adquirir. O Hal
9000, a IA que tem vontade própria e sentimentos, nas criações de Arthur C. Clarke e Stanley
Kubrick, respectivamente como livro e filme, materializa bem esses temores advindos das IAs. A
ideia subjacente à ficção é que poderemos, enquanto criadores, vir a ser comandados pela vonta-
de dessas criaturas, que passariam a atender seus próprios desejos e a utilizar a sua inteligência
para tomar decisões que nos subordinariam a elas.
Há, subjacente a esse imaginário, um diálogo com o mito de Prometeu, Golem e Fran-
kenstein, metáforas culturais que encarnam o modelo da criatura que se volta contra o criador, o
que está na base também da decisão de Cronos de devorar seus filhos ou de Laio em ordenar o
sacrifício de Édipo. Mas há também uma implicação filosófica, geralmente expressa pela dico-
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tomia entre natureza e artifício. A ideia de que a inteligência humana é natural (quando não
sobrenatural, divina etc.) justifica, por exemplo, o pretenso domínio do homem sobre as demais
espécies naturais. Seria de se supor, em decorrência, que as IAs, enquanto artifício humano,
significariam uma transgressão à natureza, o que ensejaria um subsequente castigo.
Numa outra perspectiva filosófica, que abole a distinção entre natureza e artifício, a ideia
de transgressão seria em si uma contradição em termos, o que reforçaria a possibilidade de que,
pelo acaso subjacente à condição de todo vivente, novas formas de vida sejam criadas, como
efetivamente tem se criado ao longo de bilhões de anos. O fato de que o humano, enquanto uma
espécie vivente, seja o agente dessa criação – pela manipulação genética ou de máquinas – é um
dado semelhante à operação que as abelhas fazem ao polinizar as flores. Em outras palavras,
admitido filosoficamente a ação do acaso, todos os artifícios se equivalem, o que torna palpável
um mundo habitado por robôs das mais variadas formas, como o futuro parece apontar2.
Se esse cenário já estava previsto, ao menos em termos ficcionais e imaginários, o Chat-
GPT (Generative Pre-trained Transformer) inicia, por assim dizer, sua concretização. Não se
trata apenas de uma IA que escreve textos com sentido, a partir do comando humano, mas de
uma IA que se alimenta de textos produzidos e disponibilizados na rede e utilizados para seu
treinamento. Portanto, há tanto previsibilidade quanto imprevisibilidade nos textos que são e
serão produzidos, a depender do aprendizado do chatbot, dos textos aos quais tem acesso. Nesse
sentido, podemos obter uma boa síntese do pensamento foucaultiano acerca das sociedades de
controle, caso solicitemos à IA que a produza, mas também podemos receber uma lista de livros
que o autor não escreveu, se essa mesma IA entender que deve criar essa lista e não extraí-la de
um banco de dados.
Essa (im)previsibilidade do ChatGPT o coloca, por mais que realize processamento de
bancos de dados, no domínio da criatividade, entendida como estratégias para resolver proble-
mas ou mesmo combinação coerente, ainda que com graus de aleatoriedade, de elementos díspa-
res. No caso de poemas, letras de música, sugestão de harmonias e outras possibilidades de textos
ficcionais, a proposta é deliberadamente criativa, ainda que os resultados de modo geral sejam
– por ora – decepcionantes.
Por fim, e antes de tratar das IAs atualmente disponíveis e, mais detidamente, do impacto
que podem ter na Educação e no Ensino, principalmente as IAs generativas de textos, como o
ChatGPT, convém registrar a hipótese de que essas inteligências venham um dia a ultrapassar a
humana, inaugurando assim o que James Lovelock batizou de Novaceno, cujo imaginário aponta
que, “revertendo a lógica de dominação do homem em relação à máquina, em Novaceno, os
humanos são considerados como ferramentas do universo para a fabricação das espécies supe-
rinteligentes, cuja missão é o aprimoramento do conhecimento sobre o cosmo” (Oliveira, 2023,
p. 233). Se esse imaginário, como tantos outros que se tornaram realidade, vier a se realizar, as
2 Para uma discussão mais aprofundada da dicotomia humano-natureza e a filosofia do acaso, remeto ao livro
que escrevi com Marcos Sidnei Pagotto- Euzebio, Introdução à Filosofia da Educação: uma tradição literária,
editado pela Edusp e publicado em 2022, especialmente a Parte V.
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máquinas serão autônomas, estarão aptas a criar, por exemplo, outras máquinas, aperfeiçoando
e modificando o que hoje entendemos por inteligência. Poderão ocupar o centro dos processos
cognitivos e, sobretudo, o governo do planeta e dos humanos, que se tornarão, em analogia aos
animais de estimação, uma espécie de pets dos robôs.
OUTRAS INTELIGÊNCIAS
Os movimentos recentes que de algum modo buscam controlar as IAs, seja por meio de
proibição, como ocorreu na Itália3, ou de regulamentação, como proposto ao congresso norte-
-americano4, além de outros países que começam a debater a questão, como o Brasil, ou mesmo
um acordo entre os desenvolvedores, para não acelerarem o lançamento de novas plataformas
sem os devidos testes e mensuração de possíveis consequências, dão o tom geral da preocupação
com o que está por vir.
De maneira geral, percebe-se o poder de desinformação que as IAs podem ocasionar,
a serviço de determinados interesses. No caso das imagens, as IAs, como a Midjourney, são
capazes de produzir fotos realistas de cenas que jamais ocorreram, como comprovam as fotos
de Trump5, Macron6 e do próprio Papa7. O fato de um prêmio de fotografia ter sido concedido
a uma imagem que, depois, admitiu-se, fora criada por IA8, intensifica a percepção de que, cada
vez mais, será difícil separar o que procede da criação humana e o que advém da máquina.
Em si, isso não é uma novidade, a novidade é o modo como essas inteligências têm, não
somente dado saltos de evolução, como se tornado acessíveis para as pessoas comuns, já que o
acesso e o uso têm sido facilitados. Por exemplo, há décadas convivemos com filmes que apresen-
tam efeitos especiais computadorizados. No início, era simples reconhecê-los, depois não mais,
mas esse aspecto do filme não alterava o fato de que os efeitos potencializavam uma situação já
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ficcional. E, ademais, não era criado pelo espectador, mas por um conjunto de especialistas. A
nós, chegava apenas o resultado. O mesmo pode ser dito, por exemplo, das IAs geradoras de som.
As baterias eletrônicas da década de 1970 e 1980, por exemplo, eram facilmente reconhecíveis e
respondiam a um propósito estético, além de serem programadas por profissionais. Atualmente,
não há audiófilo ou baterista/percursionista capaz de identificar se um som de bateria foi gerado
por máquina ou humano. A situação é similar à que ocorre no livro Androides sonham com ovelhas
elétricas?, de Phillip K. Dick, levada ao cinema com o título de Blade Runner. Na ficção, não é
possível distinguir um humano de um androide, pois mesmo as memórias, que seria um diferen-
cial humano, podem ter sido implantadas. De todo modo, essa situação já havia sido prevista por
Allan Turing (1969), na década de 1950, em seu jogo da imitação. Em uma situação hipotética,
uma máquina seria considerada pensante se respondesse a questões como um humano, de tal
forma que fosse impossível reconhecer se a resposta foi dada por máquina ou humano, como já
ocorre atualmente.
No entanto, se pode haver indistinção entre os produtos humanos e os da IA, quanto ao
processo as diferenças são enormes, quer pela velocidade de processamento das IAs, quer pelo
comprometimento ético, ou mesmo pelas consequências ainda imprevistas, mas que começam a
se delinear no horizonte. Uma delas é a perspectiva de crescimento do PIB global em 7% previs-
tos para os próximos 10 anos, às custas das IAs e do fechamento de 300 milhões de empregos.
Quando o processo de automação nas indústrias realizado pela robótica fez encolher postos nas
fábricas, a justificativa era que se tratava de trabalhadores não qualificados. A recomendação era,
portanto, investir em educação para qualificar a mão de obra. Contudo, na presente situação,
trata-se sobretudo da substituição de empregados qualificados. A estimativa é que dois terços dos
empregos dos EUA e da Europa estão expostos a algum grau de inteligência artificial9. Podería-
mos citar, a título de exemplo, a substituição de advogados na análise de processos ou o uso da IA
para explorar petróleo em alto-mar, atividades que envolvem alto grau de complexidade10.
No estágio atual em que se encontram as economias mundiais, parece não haver alternati-
va para a situação, ao menos não na lógica capitalista vigente, pois pela primeira vez na história
da humanidade boa parte da geração de riquezas não necessitará de trabalho humano. Como
a imensa maioria da população mundial vive e sobrevive do exercício laboral remunerado, isso
significa que o humano está em vias de se tornar obsoleto do ponto de vista produtivo. O que é
paradoxal, no entanto, é que a economia depende do consumo dessa população trabalhadora, a
mesma que, sem emprego, deixa de consumir.
Não causa surpresa, portanto, o alerta que dirigentes e cientistas fazem sobre os riscos
advindos das inteligências. Em documento recente, afirmam que as consequências podem ser
similares às oriundas de pandemias ou guerra nuclear, isto é, colocam em risco a própria huma-
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nidade11. No início de 2023, outros agentes já haviam solicitado uma pausa na divulgação dessas
novas tecnologias em desenvolvimento12. De fato, a distopia, tão presente em livros de ficção
científica, filmes e séries, tem passado da ficção à realidade. E os que encabeçam esses discursos
não são os apocalíticos, em alusão aos polos propostos por Umberto Eco (2006) frente ao desen-
volvimento das tecnologias (apocalípticos e integrados), mas justamente os integrados, isto é, os
próprios desenvolvedores dessas tecnologias, os quais, sem sombra de dúvida, sabem exatamente
as possíveis consequências do que está em processo de criação.
AS INTELIGÊNCIAS NA EDUCAÇÃO E NO ENSINO
Como ocorre em outros setores da sociedade, parece inevitável que as IAs participem
dos processos educativos, angariando também tanto entusiastas quanto críticos, e por razões
diversas. Num sentido mais amplo, para além do evidente interesse financeiro de empresas que
desenvolvem essas maquinarias, está em questão o próprio entendimento que se tem de educa-
ção. Os defensores das IAs enaltecem a possibilidade de um aprendizado adaptado às caracte-
rísticas e necessidades individuais, enquanto os críticos apontam justamente para a perda do
senso de coletividade, com complexos desdobramentos sociais, o que, no extremo, ampliariam
as desigualdades educacionais.
No relatório de 2023 da UNESCO sobre o uso de tecnologias na Educação, a preocupa-
ção com o impacto das IAs é acentuada, com destaque para o fato de que tais ferramentas, como
o ChatGPT e outros Chatbots, desestimulam os estudantes a pensar, a pesquisar, a encontrar
soluções13. O problema reside no fato de que, ao gerar textos, imagens e realizar outras tarefas, as
IAs inibem o processo, a experiência, a aprendizagem, entregando pronto um produto que pode
ser melhor do que o aluno seria capaz de gerar, mas inútil do ponto de vista educacional, já que
o estudante efetivamente não aprendeu como realizá-lo.
Portanto, o que está em questão é justamente a concepção de educação na contempora-
neidade. Questão que se torna mais notória quando nos atentamos para os argumentos dos que
defendem o uso das IAs na Educação. De maneira geral, apontam como principais benefícios a
identificação das dificuldades de cada estudante; uma orientação de ensino mais personalizada;
elaboração de exercícios; correção de provas; pesquisa rápida de informações; enfim, e em poucas
palavras, propõe-se a ser uma ferramenta para aumentar a produtividade do professor e dos alunos.
E é aqui que está o cerne da questão. As IAs, aplicadas à Educação, tendem a reforçar
concepções empiristas, behavioristas e tecnicistas, pelas quais a função dos processos formativos
é desenvolver habilidades e competências, aplicar conceitos e fórmulas, mapear ou esquematizar
informações. Nessa perspectiva, que visa a uma formação generalista, que atenderia às exigências
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de desempenho futuro no mercado de trabalho, o ensino é mais importante que a educação, isto
é, a instrução, a transmissão de conhecimento e os modos de aplicá-lo importam mais do que a
formação e o desenvolvimento físico, intelectual, social e cultural dos estudantes. Resta pouco
espaço, nessas concepções vigentes, para a experiência, para a dúvida, para o erro, para a análise
e a investigação, para a pesquisa e o teste de hipóteses, enfim, para o pensamento crítico e o
desenvolvimento do conhecimento.
Por essas razões, não surpreende que que as escolas estadunidenses já tenham incluído o
ChatGPT à rotina da sala de aula, com a justificativa de que, por ser inevitável, deve ser apro-
veitada com inteligência14. O que se alega é que as IAs generativas cada vez mais estarão presen-
tes no mundo do trabalho, o que justifica que se aprenda a utilizá-las desde cedo15. A própria
OpenAi, desenvolvedora do ChatGPT, criou um guia para orientar seu uso nas escolas: para
conversas desafiadoras, simulando um debate ou uma entrevista de emprego; para criação de
questionários, testes e planos de aula a partir de materiais curriculares; para tradução e correção
de textos traduzidos; para ensinar o pensamento crítico, limitando o próprio grau de confiabili-
dade às respostas fornecidas pela IA16.
O que parece ser consenso é que, de um lado, as IAs generativas (textos, imagens etc.) são
inevitáveis na educação (dentro ou fora da escola) e, de outro, que não substituem o professor.
Embora haja experimentos voltados para tutoria, educação à distância e aplicativos de ensino,
são vistos como auxiliares, como ferramentas, todavia incapazes de dispensar a mediação huma-
na, pelo menos por enquanto, já que o futuro das inteligências artificiais e, possivelmente, das
superinteligências, seja tão nebuloso quanto o próprio destino da humanidade.
Em termos práticos, o que se sabe é que o ChatGPT (e seus congêneres) funciona mal
como oráculo, com respostas pouco confiáveis, o que requer a mediação de professores em caso
de ser utilizado para pesquisa. O chatbot pode citar livros que não existem, confundir termos ou
ignorar informações importantes. Por outro lado, é mais hábil em resumos e sínteses, consegue
corrigir textos, sugere ideias para iniciar uma redação, ou mesmo continuá-la ou encerrá-la,
explica trechos de difícil interpretação, faz traduções e, sobretudo, mantém uma conversa que
pode ser interessante e instrutiva. E a conversação é um meio importante de formação. Então, de
modo geral, os usos educacionais mais adequados devem valorizar o processo, a retroalimentação
entre aluno e máquina; em vez de pedir para a IA fazer, devem interagir, num processo em que
um interfere na ação do outro, de maneira que um texto, por exemplo, resulte híbrido. E, sobre-
tudo, não devem prescindir da atuação e mediação do professor17.
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De todo modo, embora a ênfase das sociedades atuais e da formação escolar reproduza
ideais de desenvolvimento, produtividade e desempenho, reconhece-se que a educação é um
processo muito mais abrangente e complexo do que o ensino, a instrução ou a aquisição de habi-
lidades e competência. O humano se torna humano por meio da experiência, da vivência, das
relações com outros humanos (e agora também com máquinas e robôs), no contato com a ficção,
a literatura, o cinema, as artes de modo geral, por meio da língua, da linguagem, das emoções, da
imaginação e, também, do pensamento crítico.
Nesse sentido, Allan Turing estava certo, as máquinas podem pensar, mas não pensarão
como humanos, pois não são humanas, portanto, não vivem dilemas éticos, não experimentam
dissonâncias cognitivas, não padecem de obsessões nem se deleitam com sonhos e devaneios;
podem escrever poesias, mas não sabem o que é o enlevo poético, o prazer estético ou mesmo
como desenvolver um pensamento crítico. Duvido, por fim, que saibam ou venham a saber como
educar, pois é pela educação que nos tornamos humanos.
REFERÊNCIAS
BECCARI, M. O mito do Fim do Mundo: Imaginação & Educação. São Paulo: FEUSP, 2023. Dis-
ponível em: [Link] Acesso em
24/08/23.
ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 2006.
OLIVEIRA, Juliana Michelli S. A vida das máquinas: o imaginário dos autômatos em O método
de Edgar Morin. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. São
Paulo, 2019.
OLIVEIRA, Juliana Michelli S. Além da imaginação: uma introdução ao imaginário das supe-
rinteligências artificiais no Novaceno. In: ARAÚJO, A. F.; ALMEIDA, R.; ROZESTRATEN, Artur
Simões. Representações: imaginário e tecnologia. Tese de Livre-docência. Faculdade de Arqui-
tetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2017.
TURING, Alain M. ¿Puede pensar una máquina? In: NEWMAN, James R. El mundo de las, mate-
maticas. Volume 6, p. 36-60. Barcelona-Mexico D. F.: Ediciones Grijalbo, S. A. 1969.
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