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Diretas Já: A Luta e a Derrota em 1984

Produção de aluno no curso de história

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Discente: José Eduardo da Silva

Docente: Áureo Busetto


Turno: Matutino

Os momentos finais das Diretas: da ebulição à frustração após a derrota da


"emenda das diretas" no congresso nacional acompanhados pelas manchetes
da Folha de São Paulo.
Introdução:

No dia 15 de março de 1985, o último general a governar o Brasil, João


Figueiredo, recusou-se a entregar a faixa presidencial ao seu sucessor ou a
descer solenemente a rampa do Planalto como previa o cerimonial –
escolheu sair do palácio pela porta dos fundos. Menos de dois meses antes,
em janeiro, numa entrevista para a televisão, ele havia feito um balanço
muito pessoal do seu governo, no qual mandou um recado curto e grosso
para os brasileiros: “Quero que me esqueçam”. Figueiredo era um
personagem destemperado, meio violento e espantosamente vulgar, que
destilava rancor ao deixar a Presidência da República. Terminou o mandato
isolado do grupo, de generais que, seis anos antes, sustentara sua
indicação para o cargo. Com a autoridade desgastada e a fama de chefiar a
administração mais impopular dos vinte anos anteriores, seu governo
também fracassou na tarefa que lhe fora destinada pelo antecessor:
desengajar os militares do controle do Executivo, sem pôr em risco o projeto
de país que vinha sendo implantado desde 1964. (SCHWARCZ, Lilia M. p
467, 2015).

O trecho exibido acima pertence à obra “Brasil: uma Biografia”, redigida por
Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, e serve como um prelúdio para o recorte
histórico presente nos objetivos deste trabalho – a ebulição do movimento das
Diretas já dentro dos últimos momentos da ditadura militar brasileira.

O período compreendido entre os anos de 1964 e 1985, do qual a história


reconhece como sendo regido pelo governo militar, atravessou diversas
características políticas, econômicas e sociais por meio de alguns famosos nomes
que representaram o governo central do país de maneira rígida e de eleição não
democrática – ou seja, o povo não opinava oficialmente a respeito das
personalidades que os representariam no poder estatal -, e é nesta problemática (a
eleição indireta dos presidenciáveis) que diversas figuras políticas e sociais do país
iriam se voltar durante o período conhecido como “abertura ou descompressão do
regime militar” e, consequentemente, durante o movimento das Diretas Já.

Iniciado ainda no ano de 1983, o movimento das Diretas reunira grupos


políticos – toda a delimitada oposição ao governo militar representada
principalmente pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e pela figura de
Ulysses Guimarães -, financeiros liberais – classe empresarial brasileira que
afastara-se do governo devido a grande inflação e problemas econômicos vividos no
período - e populares – a base civil de apoio aos militares fragmentava-se aos
poucos consoante à reversa união das forças opositoras ao regime -, formando um
grande apelo público ao direito de voto direto pelos representantes do poder
executivo.

Dentro desta questão – o movimento das Diretas Já -, o presente escrito não


pretende discutir seus antecedentes, meios e fins de forma teórica ou aprofundada,
mas sim comentar de forma delimitada cinco manchetes do periódico Folha de São
Paulo compreendidas entre os dias 01 de janeiro e 26 de abril do ano de 1984, que
registrariam o ápice e a derrota do movimento, figurando-se assim como elementos
de introdução a uma breve narrativa histórica sobre o período.

Às massas: a multidão ocupa as ruas:

Já no ano de 1983, a efervescência de um movimento de libertação das


amarras ditatoriais quanto ao direto do voto popular via-se claro dentre os
movimentos de oposição. A campanha pela anistia seguida pela abertura do
pluripartidarismo (movimentos brevemente anteriores às Diretas) vinham por ainda
mais força no descontrole dos militares diante de suas próprias propostas de
abertura ao regime, e o que era pra ser um processo controlado iniciado com o fim
do AI-5 em 1978, se tornou cada vez mais difícil aos militares.

À medida que o governo envolvia-se em cada vez mais escândalos que


afetavam a opinião pública em seu desfavor, sua popularidade diminuía em ritmo
parecido, como comenta Schwarcz:

A oposição contava com algumas vantagens. O desgaste do Executivo junto


à população, agravado pela explosão inflacionária – 211% em 1983 – e pelo
arrocho salarial, era uma delas. A outra vinha por conta dos escândalos
financeiros que corroeram a credibilidade do governo do general Figueiredo
e de seus auxiliares diretos: as fraudes do Grupo Delfin, a maior sociedade
de crédito imobiliário do país; o desvio do dinheiro público para o
conglomerado financeiro Coroa-Brastel, escândalo que envolveu os
ministros Delfim Netto e Ernane Galvêas , além do presidente do Banco
Central, Carlos Langoni [...] (SCHWARCZ, Lilia M. p 483, 2015).

Somado a isso, o movimento da oposição também encontrava forças nas


eleições para governador de 1982 – primeiro sufrágio direto para esta modalidade
desde 1965 -, onde o já PMDB (que teve seu nome alterado após a abertura do
pluripartidarismo) conseguira eleger governadores em nove estados, dentre eles
São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná.

Fortificados no meio político, a oposição uniria forças dentre os partidos


recém-formados e que não apoiavam a situação, sob as figuras de Ulysses
Guimarães – “eleito” o garoto propaganda das Diretas -, Lula e Doutel de Andrade,
para conquistar de vez a opinião popular, e iniciada no ano de 1984, a grande
caravana em prol das Diretas Já mobilizaria mais de um milhão de pessoas no norte,
nordeste e centro-oeste brasileiro. Contudo, no sudeste o reforço de Leonel Brizola,
Fernando Henrique Cardoso e do futuro presidente, Tancredo Neves, viria a trazer a
soma de 2,8 milhões de manifestantes¹, fatos que marcariam o ápice das
manifestações em prol das Diretas, e que teriam dois principais marcos retratados
pela grande mídia da época – a aglomeração de mais de 300 mil pessoas na Praça
da Sé em São Paulo no dia primeiro de janeiro de 1984 (ato veiculado pela Folha de
São Paulo como a primeira grande movimentação das Diretas no sudeste), e a soma
de aproximadamente um milhão de pessoas na cidade do Rio de Janeiro no dia 11
de abril do mesmo ano - quase às vésperas da votação da emenda -, fato também
veiculado pela Folha de São Paulo sob a manchete “No Rio, mais de 1 milhão pelas
diretas”.

A repressão ao movimento: o fim do sonho?

No dia 18 de abril de 1984, a Folha de São Paulo noticiava que o “Governo


ameaça reagir a ‘pressões’”, indicando que os militares não estavam aquém ao
movimento que propunha as eleições diretas e existiriam tentativas de boicotes por
conta dos militares diante da grande efervescência do movimento. E então, uma
semana antes da votação da dita emenda, o general presidente João Baptista
Figueiredo decreta estado de emergência no Distrito Federal, em Goiânia e em nove

¹ SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. No caminho da democracia: a transição para


o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar. In: Brasil: uma biografia. São
Paulo: Cia das Letras, 2015, p. 483.
municípios do entorno da capital do país, com o objetivo de isolar Brasília, evitar
manifestações pró-Diretas e intimidar o Congresso Nacional. O direito de reunião é
suspenso e se estabelece a censura aos noticiários de rádio e TV.

Todavia, a história mostraria que o enfraquecimento da representação militar


no governo perante o contínuo crescimento (principalmente atrelado às camadas
populares) da oposição, faria com que a petição das Diretas Já chegasse ao
congresso sob o retrato da famosa Emenda Dante de Oliveira, que seria votada no
dia 26 do mesmo mês.

Em 25 de abril, a Folha de São Paulo noticia “Congresso repele cerco policial


e vota hoje a emenda das diretas”, e no dia seguinte a emenda é derrubada no
congresso nacional:

Mas, se o governo dos militares havia se desgastado, sua base de apoio


político ainda não se desagregara, [...]. E, embora os votos favoráveis
tenham sido em maior número, a emenda foi rejeitada, por não obter
maioria qualificada de dois terços. Recebeu 298 votos a favor, 63 votos
contrários e três abstenções. Centro e treze deputados se ausentaram.
Faltaram 22 votos. Eram os deputados do partido governista soterrando a
possibilidade de uma transição política que fugia ao seu controle.
(SCHWARCZ, Lilia M. p 484, 2015).

“A nação frustrada! Apesar da maioria de 298 votos, faltaram 22 para aprovar


diretas” – numa primeira página emblemática, a Folha de São Paulo trazia a derrota
do movimento das Diretas Já (do qual havia se tornado porta voz “oficial”) com claro
pesar no dia 26 de abril, colocando ainda junto da página as posições de voto,
favoráveis ou não, dos deputados na votação da emenda.

A ‘derrota vitoriosa’ e conclusão:

Apesar de não passar pelo congresso, o movimento das Diretas Já deu força
a uma aliança entre a oposição e parte do partido que dava sustentação ao regime
militar (ARENA), abrindo espaço para a candidatura da dupla de Tancredo Neves e
José Sarney nas eleições indiretas de 1985, como comenta o cientista político
Brasílio Sallum Junior em entrevista à UNIVESP em 2015:
Não é que os militares desistiram, assim, ou decidiram sair do poder. Eles
começaram a não conseguir controlar a situação. A base civil do aparato
militar rachou. O regime desencadeou um processo de liberalização, um
processo de “mudança” que eles imaginavam que era controlada, mas eles
perderam o controle da situação. [...] O movimento das diretas, digamos,
fracassou no seu objetivo específico, mas foi extraordinariamente vitorioso
do ponto de vista global por que fez com que o processo todo pendesse em
favor da oposição [...]. (JUNIOR, Brasílio Sallun. 10’11” à 10’38” e 11’46” à
12’03”, 2015).

Portanto, mesmo tendo sua emenda representativa (a emenda Dante de


Oliveira) fracassada, todo o processo conhecido como Diretas Já aqui evidenciado
através de manchetes do jornal Folha de São Paulo, fora imprescindível para a
redemocratização progressiva do Brasil, figurando como o maior movimento popular
nas ruas da história do país e servindo como exemplo da união política e popular
durante os momentos finais da ditadura militar no país.
Fontes:

Manchete do dia 01 de janeiro de 1984.

Manchete do dia 11 de abril de 1984.


Manchete do dia 18 de abril de 1984.

Manchete do dia 25 de abril de 1984.


Manchete do dia 26 de abril de 1984.
Bibliografia:

SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Cia das
Letras, 2015.

JUNIOR, Brasílio Sallun. Entrevista concedida a UNIVESP. In: 1985 - 30 anos de


democracia: Diretas já. São Paulo, 6 out. 2015.

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