AO DOUTO JUÍZO DA ____ VARA CÍVEL DA COMARCA DE _______________/__
[comarca de competência: Foro do Consumidor]
AMÁLIA REGINA ALVES DE ASSIS, [nacionalidade], [estado civil], [profissão], inscrito no RG
sob o nº ____________________, inscrito no CPF sob o nº _________________[endereço e
domicílio], vem respeitosamente à presença de Vossa Excelência, por meio de seu procurador
signatário, que junta neste ato instrumento de procuração com endereço profissional completo para
receber notificações e intimações, propor a presente
AÇÃO REQUERENDO
RESTITUIÇÃO DE VALORES PAGOS
EM OPERAÇÃO DE CARTÃO DE CRÉDITO CONSIGNADO
E PEDIDO DE TUTELA DE URGÊNCIA
em face de,
INSTITUIÇÃO FINANCEIRA, pessoa jurídica de direito privado, inscrita no CNPJ sob o nº
__________________, sem endereço eletrônico conhecido; pelas razões de fato e de direito a seguir
expostas:
I. DOS FATOS
O Autor, é aposentado/pensionista/beneficiário do INSS – Instituto Nacional do Seguro Social.
Ocorre que em operação de crédito junto a instituição financeira Demandada, foi incluído um Cartão
de Crédito Consignado.
Os descontos mensais no benefício do Autor relativo às parcelas cobradas pela Ré, que passaram a ser
incluídas desde a data de 01/08/2023, a título de suposta fatura de cartão crédito, correspondem tão
somente ao valor mínimo da fatura mensal.
É necessário esclarecer que o Requerente não tem ideia do que é uma operação RMC – Reserva de
Margem Consignável, ademais para cartão de crédito.
O Réu desconta a parcela mínima, e o saldo restante é acrescido de abusivos encargos.
A forma como a Ré executa a operação, deixa esta impagável.
O Autor deseja a restituição de todos os valores que pagou a título do empréstimo cartão de crédito
consignado.
Está-se diante de graves violações aos Direitos do Consumidor.
Portanto, como não foi oportunizado ao consumidor de boa-fé saber sobre o conteúdo do contrato,
sendo compelido a aderir a cláusulas abusivas, de forma leonina, promove a presente ação objetivando
a restituição dos valores pagos.
Ainda, requer liminarmente a suspensão de eventuais novos descontos no benefício do Autor, da
operação de crédito abusiva.
II. COMPETÊNCIA – FORO DO DOMICÍLIO DO CONSUMIDOR
Impende anotar que o microssistema consumerista busca garantir ao consumidor o real exercício dos
direitos a ele assegurados na legislação, dentre eles, a facilitação de sua defesa. A propósito, dispõe o
artigo 6º, inciso VIII, do Código de Defesa do Consumidor, in verbis:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor: (...)
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu
favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências;
Com efeito, deve ser assegurado ao consumidor, parte, em regra, hipossuficiente no negócio jurídico e
na relação processual, o amplo acesso ao Judiciário. Tratando-se de cláusula contratual que estipula
foro de eleição capaz de inviabilizar a defesa judicial por parte dos consumidores, evidente é que
deverá ser recebido o presente feito no domicílio do demandante.
Nesse sentido:
CONFLITO DE COMPETÊNCIA – AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO –
COMPETÊNCIA DO JUÍZO DO CONSUMIDOR É ABSOLUTA E
PREVALECE SOBRE O DE ELEIÇÃO DO FORO – DOMÍCILIO DO
REQUERIDO - CONFLITO PROCEDENTE. Por se tratar de relação de consumo,
a competência é absoluta, razão pela qual pode ser conhecida até mesmo de ofício e
deve ser fixada no domicílio do consumidor, nos termos da jurisprudência
pacificada do Superior Tribunal de Justiça. (TJ-MT 10191795120228110000 MT,
Relator: GUIOMAR TEODORO BORGES, Data de Julgamento: 03/11/2022,
Segunda Turma de Câmaras Cíveis Reunidas de Direito Privado, Data de
Publicação: 04/11/2022). (grifos nossos)
Portanto, requer seja reconhecido como competente o foro de domicílio do Demandante.
III. DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS
A) DA INCIDÊNCIA DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E DA INVERSÃO DO
ÔNUS DE PROVA
Inicialmente, necessário ressaltar que há, na espécie, inequívoca relação consumerista entre as partes
litigantes, estas se amoldam com perfeição aos conceitos legais de consumidor e fornecedor, nos
termos dos arts. 2º e 3º, do CDC. Ademais, a relação estabelecida se enquadra na conceituação de
relação de consumo e justamente o CDC.
A Súmula 297 do Superior Tribunal de Justiça, dispõe:
Súmula 297 STJ: O Código de Defesa do consumidor é aplicável às instituições financeiras.
Trata-se da materialização exata do Princípio da Isonomia, segundo o qual, todos devem ser
tratados de forma igual perante a lei, observados os limites de sua desigualdade, sendo devido a
inversão do ônus da prova.
Dito isso, imprescindível é a inversão do ônus probatório, conforme dispõe o art. 6º, VIII, do CDC, in
verbis:
Art. 6º - São direitos básicos do consumidor: (...)
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu
favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências;
A inversão do ônus da prova em favor do consumidor, está alicerçada na aplicação do princípio
constitucional da isonomia, “pois o consumidor, como parte reconhecidamente mais fraca e
vulnerável na relação de consumo (CDC art. 4º, I), tem de ser tratado de forma diferente, a fim de
que seja alcançada a igualdade real entre os partícipes da relação de consumo. O inciso comentado
amolda-se perfeitamente ao princípio constitucional da isonomia, na medida em que trata
desigualmente os desiguais, desigualdade essa reconhecida pela própria lei.”
Desta feita, requer-se, desde já, o deferimento da inversão do ônus da prova, com fulcro no art. 6º,
VIII do CDC.
B) RMC – RESERVA DE MARGEM CONSIGNÁVEL
O Cartão de Crédito Consignado é um produto financeiro onde a instituição disponibiliza um crédito
em nome do consumidor para realização de compras em rede conveniada, e estipula de acordo com o
valor recebido pela da fonte pagadora do benefício, margem consignável, geralmente de 5%, valor que
será mensalmente descontado em pagamento mínimo da fatura do Cartão de Crédito.
Ocorre que como o desconto é menor, o consumidor entra em uma interminável dívida com a
instituição financeira, pois ao descontar o mínimo da fatura do benefício do Autor, o valor restante é
acrescido de juros e encargos moratórios, cumulativos, que oneram demais a operação, pois não
amortizam o saldo devedor.
Essa cobrança feita pela Ré descontando o mínimo da fatura do cartão no benefício consignável do
Requerente, é denominada Empréstimo sobre o RMC – Reserva de Margem Consignável.
C) OPERAÇÃO DE CRÉDITO QUE NÃO OFERECE SEGURANÇA AO CONSUMIDOR
No caso concreto, o cartão de crédito com constituição da reserva de margem consignável, implica em
defeito na prestação dos serviços da Requerida, conforme previsto no art. 14, §1º do CDC:
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços,
bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
§ 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar,
levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido.
Portanto, nos termos da legislação vigente, apresentando a Ré um serviço defeituoso que não oferece
segurança ao consumidor, responde a Ré no dever imediato de cancelamento deste serviço que pode
levar o Autor a experimentar grande dano e restituição de valores indevidamente cobrados.
Estes são os precedentes dos Tribunais Estaduais, sobre casos semelhantes:
EMPRÉSTIMO CONSIGNADO, COM RESERVA DE MARGEM
CONSIGNADA MEDIANTE A IMPOSIÇÃO DE CARTÃO DE
CRÉDITO – Instituição financeira que, no âmbito de empréstimo
consignado em benefício previdenciário, libera o empréstimo via
despesa contraída em cartão de crédito – pensionista, que
pretendia contratar apenas empréstimo consignado - Inexistência
de prova de que houvera o saque de dinheiro, para fins de
cobrança das faturas mensais de Cartão de Crédito, a título de
Reserva de Margem Consignável – Indicativo claro de que o
consumidor não pretendia contratar esse produto, mas, apenas, o
empréstimo consignado – Cobrança de valores mensais a título de
cartão de crédito, pensando, o consumidor, que estava pagando as
prestações mensais do empréstimo consignado – Encargos
financeiros que seriam infinitamente menores, caso se aplicassem
apenas os encargos pertinentes ao empréstimo consignado –
Prática, em apuração pelo País, que revela expediente que engana
o consumidor, o qual, pensando que está a contratar empréstimo
consignado, está contratando a Reserva de Margem Consignável,
mediante a imposição ilegal de cartão de crédito – Instrução
Normativa nº 28/2008, do INSS, em cujo art. 15, inciso I se
observa que não basta a contratação da Reserva de Margem
Consignável, impondo-se que o consumidor solicite formalmente o
cartão de crédito. Exigência, ainda, pela citada Instrução nº
28/2008, de que, nas operações de cartão de crédito no seio dos
empréstimos consignados, sejam informados o valor, número e
periodicidade das prestações, a soma total a pagar com o
empréstimo pessoal ou cartão de crédito, bem assim a data do
início e fim do desconto (art. 21, incisos IV a VI) – Inexistência
dessas informações, de tal sorte que o beneficiário se torna cativo
da instituição financeira, tornando impagável a dívida e eternos os
descontos das parcelas – Cartão de crédito travestido de
Empréstimo Consignado – Valor mínimo da fatura – Pagamentos
debitados em contracheque – – Transferência, bancária que não
se coaduna com a modalidade CRÉDITO – TED que não diz
respeito a operação de cartão de crédito - Falha na prestação do
serviço – Violação aos princípios da confiança, da boa-fé objetiva,
da transparência, da cooperação, da informação qualificada e,
também, do fim social do contrato – Aplicação dos artigos 4º e 6º
do Código de Defesa do Consumidor – Vedação em condicionar
um serviço ao fornecimento de outro (venda casada), bem assim
de prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, em
razão da idade, condição social, saúde ou conhecimento deste
para impingir-lhe produtos ou serviços – Proibição de exigir, do
consumidor, vantagem manifestamente excessiva, iníqua ou
abusiva – Inteligência dos artigos 39, incisos I, IV e V, 51, inciso
IV, e 52, do Código de Defesa do Consumidor - Violação ao direito
básico do consumidor em ter informações claras e adequadas
sobre os produtos e serviços ( Código de Defesa do Consumidor,
art. 6º, inciso III)– Relativização do pacta sunt servanda pelo
Código de Defesa do Consumidor - Descontos indevidos, a título
de despesas de cartão de crédito, em benefício previdenciário, de
pessoa idosa e de pouca instrução - Existência de liminar, em ação
civil pública, para que o recorrido, e outras instituições
financeiras, cesse o expediente ilegal – Dano moral caracterizado
– Indenização no valor de R$ 7.500,00 – Capacidade econômica do
recorrido – Devolução em dobro dos valores descontados
indevidamente – Má-fé caracterizada – Inteligência do art. 42,
parágrafo único, do Código de Defesa do Consumidor –
Precedentes – Manutenção da respeitável sentença – Recurso
desprovido.
(TJ-SP - RI: 10040553720228260541 SP 1004055-
37.2022.8.26.0541, Relator: Fernando Antonio de Lima, Data de
Julgamento: 01/12/2022, 1ª Turma Cível e Criminal, Data de
Publicação: 01/12/2022)
III. DA TUTELA DE URGÊNCIA
O CPC dispõe em seu artigo 300, §2º a tutela de urgência:
Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver "elementos que evidenciem a
probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo”.
[...]
§ 2º A tutela de urgência pode ser concedida liminarmente ou após justificação prévia.
Com base nas alegações ora expendidas, bem como na evidente lesão e legislação vigente, imperiosa
necessidade do deferimento da tutela de urgência pretendida, para a finalidade de cessar
imediatamente os descontos de RMC do Autor, relativo a Cartão de Crédito Consignado, ante o
defeito na prestação dos serviços e o oferecimento de produto que não oferece segurança ao
consumidor, sob pena de fixação de multa.
Os fatos declinados ensejam o deferimento da medida cautelar pleiteada, eis que presentes os
requisitos autorizadores de sua concessão, ou seja:
O FUMUS BONI IURIS, que se resume na plausibilidade da existência do direito invocado por um
dos sujeitos da relação jurídico-material, ou seja, nos elementos demonstrados pelo Autor, de um
produto que traz insegurança ao consumidor.
O PERICULUM IN MORA, que se revela pelo dano irreparável que no caso pode ser apontado
como: violação ao princípio da dignidade da pessoa humana, ao princípio da razoabilidade, afronta a
segurança jurídica da verba de caráter alimentar, seu benefício auferido mensalmente.
IV. DA ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA GRATUITA
O Autor é pessoa pobre na acepção do termo e não possui condições financeiras para arcar com as
custas processuais e honorários advocatícios sem prejuízo do próprio sustento, razão pela qual desde
já requer o benefício da Gratuidade de Justiça, assegurados pela Lei nº. 1060/50 e consoante o art. 98,
caput, do CPC:
Art. 98. A pessoa natural ou jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos
para pagar as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios tem direito à
gratuidade da justiça, na forma da lei
Para tal benefício, junta declaração de hipossuficiência e comprovante de renda, os quais demonstram
a inviabilidade de pagamento das custas judiciais sem comprometer sua subsistência, conforme clara
redação do CPC:
Art. 99. O pedido de gratuidade da justiça pode ser formulado na petição inicial, na contestação,
na petição para ingresso de terceiro no processo ou em recurso.
(...)
§ 3º Presume-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida exclusivamente por pessoa
natural.
Assim, por simples petição, sem outras provas exigíveis por lei, faz jus a parte Autora, ao benefício da
gratuidade de justiça, com fulcro no artigo 5º, LXXIV da Constituição Federal e pelo artigo 98 do
CPC, requer seja deferida a gratuidade de justiça a parte Autora.
V. DOS PEDIDOS
Diante o exposto, requer à Vossa Excelência:
A. Requer seja concedida TUTELA DE URGÊNCIA, com fulcro nos artigos 300 e 497 do
CPC, para o fim de cessar imediatamente os descontos de RMC do Autor, relativo a
Cartão de Crédito Consignado, ante o oferecimento de um produto defeituoso que não
apresenta segurança ao consumidor, sob pena de fixação de multa, o que deve ser
reconhecido por este juízo, tendo em vista, principalmente os documentos anexos que
comprovam a verossimilhança dos fatos declinados nesta peça processual;
B. Requer que seja o Réu citado para que, querendo, conteste a presente ação no momento
processual oportuno, sob pena de revelia e confissão;
C. Requer a inversão do ônus da prova, em favor do Autor, nos termos do artigo 6º, VIII do
CDC, por se tratar de relação de consumo, onde fica, por consequência, evidenciada a
vulnerabilidade deste;
D. Requer a produção de todos os meios de prova em direito admitidos, notadamente a prova
documental, testemunhal e depoimento pessoal do representante do Réu, sob pena de
confissão ficta, reiterando, ainda, o pedido de inversão do ônus da prova, nos termos do
preceituado no artigo 6º, inciso VIII, do Código de Defesa do Consumidor;
E. A total Procedência da presente ação, para:
I. Tornar definitiva a ordem liminar pleiteada, cancelando-se a operação de contrato
de cartão de crédito com reserva de margem consignável RMC, com a
consequente restituição dos valores cobrados do consumidor no importe de R$
1.281,12 em razão do oferecimento de produto defeituoso que não apresenta
segurança ao consumidor (CDC art. 14, §1º);
F. A condenação do Réu ao pagamento das custas e demais despesas processuais, inclusive em
honorários advocatícios sucumbenciais, que deverão ser arbitrados por este Juízo,
conforme norma do artigo 85 do CPC;
G. A concessão do benefício da justiça gratuita, por ser a parte autora pessoa sem condições de
arcar com as custas, honorários advocatícios e demais despesas processuais, ademais neste
momento, sem prejuízo ao sustento próprio e de sua família consoante declaração anexa.
H. Em homenagem ao princípio da razoável duração do processo, o Promovente opta pela
realização de audiência conciliatória.
Dá-se à causa o valor de R$ 1.281,12.
Nestes termos, pede e espera deferimento.
Cidade, 24 de abril de 2025.
ADVOGADO
OAB/UF