🐉 O Dragão e o Último Horizonte
O céu estava tingido de vermelho, como se o próprio mundo
sangrasse. Entre montanhas negras e rios de cinzas, um dragão de
escamas antigas observava o horizonte com olhos cansados. Seu
nome se perdera nos ventos da história, mas os homens o chamavam
de Último Fôlego. Ele era o último de sua espécie, um sobrevivente
em um mundo que já não acreditava em lendas.
Por eras, o dragão guardara segredos de tempos anteriores ao
surgimento dos reinos humanos. Contudo, agora, nada restava além
de ruínas e ossos. Ele voava sobre cidades mortas, lembrando-se de
quando crianças corriam livres e os sinos ecoavam festas. Agora,
apenas o silêncio reinava, cortado pelo rugido distante do vento.
Naquela mesma terra devastada, um cavaleiro sem bandeira e sem
nome caminhava. Seu elmo estava amassado, sua espada, quebrada;
seus olhos, vazios. Não buscava glória nem vingança. Apenas
caminhava, pois parar significava ser engolido pela desesperança.
Quando ergueu os olhos para o céu, encontrou o dragão. E, por um
instante, sentiu que havia encontrado um propósito: seguir aquela
criatura até o fim.
Os dias se tornaram semanas, e o cavaleiro acompanhava o dragão
pelas terras destruídas. Às vezes, observava-o caçar, às vezes apenas
o seguia de longe, como se a besta fosse uma estrela-guia. Não havia
entre eles palavras, apenas a estranha sensação de que seus destinos
se entrelaçavam.
Certa noite, o dragão pousou em uma planície arruinada, onde
árvores mortas se erguiam como ossos carbonizados. O cavaleiro,
exausto, aproximou-se. Então, para seu espanto, ouviu uma voz que
não vinha da boca do monstro, mas de dentro de sua mente.
— Por que me segues, homem? — perguntou o dragão, com a força
de um trovão contido.
O cavaleiro, surpreso, demorou a responder. Por fim, murmurou:
— Porque não sei mais por que viver. Mas ao te seguir, sinto que
ainda há algo a buscar.
O dragão o olhou longamente. Em sua sabedoria milenar, percebeu a
dor de um ser que havia perdido tudo, mas ainda caminhava. E, de
repente, compreendeu: o cavaleiro representava aquilo que o mundo
esquecido precisava — alguém que, mesmo quebrado, continuava
avançando.
— Então escute, humano — disse o dragão. — O horizonte não é
apenas o fim da estrada, mas também o início do que pode nascer.
Enquanto houver passos, ainda haverá caminhos.
Naquela noite, cavaleiro e dragão permaneceram juntos, não como
guardião e súdito, mas como dois sobreviventes em busca de sentido.
E quando o sol nasceu, tingindo de dourado as ruínas cinzentas, algo
mudou. O cavaleiro não caminhava mais sem propósito. E o dragão,
outrora último e solitário, descobriu que não estava realmente
sozinho.
Assim, lado a lado, seguiram rumo ao horizonte. Talvez não
encontrassem respostas. Talvez o mundo jamais fosse restaurado.
Mas cada passo, cada batida de asas, era uma afirmação silenciosa: a
vida ainda tinha valor.
E no silêncio eterno das terras devastadas, dois viajantes — um
homem e um dragão — reacenderam a chama esquecida da
esperança.