JUÍZO DE DIREITO DA XXI DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL DA
COMARCA DA CAPITAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.
Processo nº ...
GELE BEM, ora recorrente, já devidamente qualificado nos autos da ação que
lhe move em face de LÚCIA RAPUNZEL, ora recorrida, vem por seu advogado
devidamente constituído (procuração anexa), com base no artigo 41 da Lei 9.099 de
1995 ao juízo apresentar:
RECURSO INOMINADO
Requerendo processamento do recurso e remessa a Turma Recursal deste Juizado
Especial, para o fim de reexame das questões suscitadas e sentença, conforme
fundamentos jurídicos e razões anexas.
Nestes termos,
Pede deferimento.
LOCAL, DATA
Advogado/OAB
RAZÕES DO RECURSO INOMINADO
Processo nº: ...
Ação: INDENIZATÓRIA
RECORRENTE: GELE BEM
RECORRIDA: LÚCIA RAPUNZEL
TURMA RECURSAL DO RIO DE JANEIRO
EMÉRITOS JULGADORES
I. RESUMO DOS FATOS
Lúcia Rapunzel é uma consumidora que adquiriu uma geladeira da marca Gele
Bem, a qual foi instalada pela assistência técnica da fabricante. No entanto, cerca de
15 dias após a instalação, Lúcia notou que os produtos armazenados na geladeira
estragaram rapidamente. Ao verificar o funcionamento da geladeira, percebeu que ela
não estava gelando adequadamente e que o congelador não estava formando gelo.
Diante do problema, Lúcia entrou em contato com a Gele Bem e solicitou a
troca do produto, argumentando que não comprou um produto usado e que não era
cabível o conserto. A fabricante informou que a assistência técnica buscaria o produto
para verificar o problema, mas Lúcia recusou a oferta de conserto e insistiu na troca
imediata ou no reembolso do valor pago.
Em resposta, a Gele Bem ofereceu duas opções para a consumidora: uma
geladeira mais cara, com a complementação do valor por parte de Lúcia, ou uma mais
barata, com a devolução da diferença pelo fabricante. Lúcia não aceitou nenhuma das
propostas e decidiu ingressar com uma ação judicial requerendo a restituição imediata
do valor pago pelo produto (R$ 1.500), a restituição dos valores dos produtos
estragados (R$ 500) e uma indenização por danos morais no valor de R$ 5.000.
O processo tramitou regularmente e, ao final, o MM. Magistrado proferiu
sentença, julgando procedente o pedido autoral, condenando a fabricante ao total dos
valores pleiteados pela Autora.
Deste modo, não restou alternativa ao Recorrente senão a interposição do
presente recurso inominado.
II. PRELIMINAR DE INCOMPETÊNCIA DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL
Desde já, cumpre destacar que o MM. Juízo a quo foi incompetente para apreciar
a presente demanda, uma vez que se faz necessária a realização de perícia técnica para a
devida análise das alegações da autora.
Com efeito, é sabido que o procedimento adotado pelos Juizados Especiais
Cíveis é sumaríssimo, e, portanto, não comporta a realização de prova pericial. No
entanto, a presente demanda envolve questões técnicas relativas ao funcionamento do
produto adquirido, que somente poderiam ser devidamente esclarecidas por meio de
perícia.
Nesse sentido, ressalta-se que, nos termos do art. 420 do CPC, "a prova pericial
consiste em exame, vistoria ou avaliação", e, portanto, não pode ser dispensada no
presente caso.
Portanto, diante da necessidade de realização de prova técnica para a análise dos
fatos narrados na petição inicial, requer-se que seja reconhecida a incompetência do
Juizado Especial Cível para processar e julgar a presente demanda, determinando-se a
remessa dos autos para a Vara Cível competente.
III. DA FUNDAMENTAÇÃO JURÍDICA
A sentença merece ser reformada, uma vez que a Recorrida não preencheu os
requisitos para o recebimento da indenização pleiteada.
Com relação ao mérito da causa, é importante mencionar que a relação entre o
fabricante e o consumidor é regida pelo Código de Defesa do Consumidor.
Inicialmente, deve ser destacado que a Recorrida não comprovou que o
problema apresentado pela geladeira era de fato um defeito de fabricação e não um mau
uso do produto.
Além disso, a Recorrida não deu oportunidade à Recorrente de solucionar o
problema, uma vez que recusou o conserto oferecido pela empresa e exigiu a troca do
produto ou a devolução do dinheiro, mesmo sem ter comprovado a existência de um
defeito de fabricação.
Destaca-se, ainda, que o recorrente agiu de boa-fé ao oferecer a recorrida a
possibilidade de troca do produto, ainda que não possuísse o modelo exato que a mesma
adquiriu. Ademais, ofereceu outras opções de troca, com complementação ou devolução
de valor, conforme artigo 18, § 4º do Código de defesa do Consumidor, o que
demonstra a preocupação do recorrente em solucionar o problema da recorrida.
É importante frisar, ainda, que a recorrida não apresentou qualquer laudo técnico
que comprovasse que o produto estava com defeito ou que a sua recusa em aceitar a
troca oferecida era justificável. Ainda assim, a sentença condenatória entendeu que a
recorrente deveria arcar com valores de restituição e dano moral, sem apresentar
fundamentação adequada.
Conforme jurisprudência consolidada no TJSP, a responsabilidade civil do
fabricante, prevista no art. 12 do CDC, só se configura quando o dano decorre de defeito
do produto, sendo que a simples alegação de mau funcionamento, sem apontar qualquer
vício ou defeito no bem, não é suficiente para caracterizar a responsabilidade da
requerida. Nesse sentido, destaca-se o julgado proferido nos autos do Agravo de
Instrumento nº 2016728-20.2019.8.26.0000, em que se decidiu que 'não há que se falar
em inversão do ônus da prova na hipótese em que a parte autora não se desincumbiu do
ônus que lhe incumbia de comprovar o defeito do produto', a seguir:
"Agravo de Instrumento. Ação de Indenização. Responsabilidade Civil.
Fabricante. Defeito do produto. Mau funcionamento. Inocorrência de defeito.
Inversão do ônus da prova. Descabimento. I. A responsabilidade civil do
fabricante, prevista no art. 12 do CDC, só se configura quando o dano
decorre de defeito do produto, sendo que a simples alegação de mau
funcionamento, sem apontar qualquer vício ou defeito no bem, não é
suficiente para caracterizar a responsabilidade da requerida. II. Não há que se
falar em inversão do ônus da prova na hipótese em que a parte autora não se
desincumbiu do ônus que lhe incumbia de comprovar o defeito do produto.
III. Recurso desprovido." (TJSP, Agravo de Instrumento nº 2016728-
20.2019.8.26.0000, Relator Des. Gomes Varjão, julgado em 25/09/2019).
Diante do exposto, é imprescindível que a presente decisão seja reformada, de
modo a garantir que o Recorrente seja resguardado de prejuízos irreparáveis.
IV. DOS PEDIDOS
Com base no exposto, requer o reconhecimento do recurso para:
a) Acolher preliminar suscitada, reconhecendo a incompetência do Juizado
Especial Cível para processar e julgar a presente demanda,
determinando-se a remessa dos autos para a Vara Cível competente;
b) Ultrapassando a preliminar seja dado provimento ao recurso para
reformar a sentença recorrida, a fim de que seja julgado improcedente os
pedidos formulados pela recorrida;
c) Condenação em custas e honorários advocatícios.
Nestes termos,
Pede deferimento.
LOCAL, DATA
Advogado/OAB