Políticas Públicas para Sustentabilidade Urbana
Políticas Públicas para Sustentabilidade Urbana
[a]
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES, Brasil
Resumo
O crescimento insustentável de diversas cidades no mundo e também no Brasil causa efeitos negativos
que podem interferir nos insumos fundamentais para as economias modernas, como água e energia,
sendo necessária a adoção de um modelo de crescimento mais sustentável, adequando o desenvolvimento
das cidades às novas demandas. Assim, objetivou-se com este estudo identificar e analisar, por meio de
pesquisa on-line, as políticas públicas de incentivo às práticas projetuais pautadas na sustentabilidade
nos municípios brasileiros, considerando que mudanças efetivas dependem, dentre outros aspectos, de
programas de incentivo e de legislações específicas. Como método de recorte territorial, foi adotado o
âmbito da municipalidade, no qual foram catalogadas as políticas públicas, com o registro, por fim, dos
resultados em forma de planilhas e gráficos. A região Sul apresentou um quantitativo mais expressivo de
iniciativas. Foi possível constatar também que os temas mais abordados nesse universo referem-se à água,
à energia e à mobilidade urbana. E, entre as medidas que se aplicam ao planejamento e à construção de
edifícios, as iniciativas mais frequentes são as provenientes de incentivos concedidos pelas prefeituras, a
partir do cumprimento de determinados requisitos.
Abstract
The unsustainable growth of several cities, in Brazil and worldwide, implies negative effects that can interfere
with the fundamental inputs for modern economies, such as water and energy. It is necessary to adopt a more
sustainable growth model, adapting the cities development to new demands. Thereby, this study aimed to
identify and analyze through online research, public policies to encourage sustainability practices in Brazilian
municipalities, considering that changes in effective depend, among other aspects, of incentive programs and
specific legislation. We adopted the scope of the municipality as a method of territorial reduction, where public
policies were cataloged, and the results were finally recorded in the form of spreadsheets and graphs. The South
Region presented a more expressive number of initiatives. We also verified that the most frequent subjects in
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this universe refer to water, energy and urban mobility. And, among the measures applied to the planning and
construction of buildings, the most frequent initiatives are those from incentives granted by the city halls, from
the fulfillment of certain requirements.
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políticas públicas que abordam os aspectos inerentes respectivamente — e também concentra os maiores
à sustentabilidade em edificações e seu entorno, os polos de desenvolvimento do Brasil. Na Tabela 1,
quais incluem programas municipais, incentivos e leis, estão representados os quantitativos de iniciativas
sendo os percentuais expostos na Figura 2. públicas identificadas por região brasileira.
A região Sudeste teve a maior representatividade Nota-se que, apesar de a região Sudeste possuir a
na amostragem. Nela estão contidos os Estados de maior quantidade de municípios, a região Sul apresenta
maior densidade demográfica do país – São Paulo a maior média. Isso pode ser um indicativo de que,
e Rio de Janeiro, com 166,23 e 365,23 hab/km2, nesta última região, há uma maior preocupação com
o discurso da sustentabilidade. Por outro lado, a
região Norte apresenta a pior média. Quando é feita
uma análise complementar para verificar a média de
iniciativas por habitantes, a região Sul mantém seu
destaque entre as demais. Entretanto, a média por
habitante não se mostra proporcional à média por
município, com a pior média por habitante sendo a
da região Sudeste.
Tabela 1 - Quantidade de iniciativas públicas identificadas em prol da sustentabilidade nas edificações por regiões brasileiras, com destaque para os
resultados da região Sul
Média de Relação de
N° de N° de
Municípios com mais de 500 mil hab. e capitais de N° de iniciativas iniciativas a
Região municípios iniciativas
Estado habitantes1 por cada 100 mil
por região por região
município hab.
N Porto Velho (RO), Rio Branco (AC), Manaus (AM), Boa Vista (RR), 6.011.313 8 16 2,00 2,70
Ananindeua (PA), Belém (PA), Macapá (AP) e Palmas (TO).
NE São Luís (MA), Teresina (PI), Fortaleza (CE), Natal (RN), João 13.760.132 11 49 4,45 3,60
Pessoa (PB), Jaboatão dos Guararapes (PE), Recife (PE), Maceió
(AL), Aracaju (SE), Feira de Santana (BA) e Salvador (BA).
SE Belo Horizonte (MG), Contagem (MG), Juiz de Fora (MG), 32.786.244 18 62 3,44 1,90
Uberlândia (MG), Vitória (ES), Duque de Caxias (RJ), Nova Iguaçu
(RJ), Rio de Janeiro (RJ), São Gonçalo (RJ), Campinas (SP),
Guarulhos (SP), Osasco (SP), Ribeirão Preto (SP), Santo André
(SP), São Bernardo do Campo (SP), São José dos Campos (SP),
São Paulo (SP) e Sorocaba (SP).
S Curitiba (PR), Londrina (PR), Florianópolis (SC), Joinville (SC) e 4.975.852 5 28 5,60 5,60
Porto Alegre (RS).
CO Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Aparecida de Goiânia (GO), 6.407.339 5 13 2,60 2,00
Goiânia (GO) e Brasília (DF).
Total 47 168 - -
Nota: 1Somatório dos habitantes das cidades catalogadas no recorte por região.
Fonte: Elaboração própria (2017).
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que uma política pode abordar mais de um tema e, dado o cenário de crise hídrica e energética vivenciado
portanto, ser quantificada mais de uma vez, visto que no país (Tabela 4).
o objetivo principal é encontrar e mapear os temas É importante destacar que mais de 70% do universo
que vêm sendo mais discutidos atualmente no país. de políticas catalogadas nesse grupo pertence à
É possível perceber que os temas “água”, “educação categoria “Incentivos”, a qual se mostra proeminente
ambiental”, “resíduos” e “urbanismo” são abordados em todas as regiões. Fica evidente a eficiência desse
em todas as categorias, porém o tema “urbanismo” se tipo de iniciativa, de modo que, ao apresentar uma
destaca em relação aos demais. Inicialmente, a divisão recompensa imediata, desperta o interesse na adoção
em categorias gerou dois grupos de classificação, ou de medidas em prol da sustentabilidade. Normalmente,
seja, grupo 1, relacionado às políticas públicas voltadas
isso não ocorre de maneira espontânea em razão de
para o edifício, e grupo 2, relacionado às políticas
essas medidas demandarem determinado tempo
públicas direcionadas para o entorno do edifício, os
para terem seu investimento totalmente ressarcido.
quais compreenderam 28,6% e 71,4%, respectivamente,
Em etapa posterior, foi realizado o mapeamento, por
do universo de iniciativas identificadas (Tabela 3).
região, das políticas catalogadas no grupo 1 (Figura 3).
No grupo 1, observa-se o destaque para políticas
de “Incentivos”, evidenciando a importância para o Observa-se que os temas de destaque em todas as
provimento de benefícios quando se trata do edifício, regiões são “água” e “energia”, reiterando que há uma
visto que envolve, principalmente, o investimento do tendência para replicação dos problemas nacionais
empreendedor. Isso reforça a ideia de que estímulos no âmbito da municipalidade. Por exemplo, na região
que fornecem algum benefício para o proprietário, Nordeste, onde ocorrem casos de desertificação e
como incentivos fiscais, ou ainda o recebimento de secas constantes, as políticas são voltadas, em sua
selos pelo cumprimento de determinados quesitos são maioria, para o tema “água”.
fortes aliados à implementação da sustentabilidade
na construção civil.
Quanto aos resultados obtidos no grupo 2, chamou
a atenção a ênfase aos “Programas” em prol da
sustentabilidade, o que condiz com o fato de que, por se
tratar de um grupo que abrange medidas que se aplicam
ao entorno dos edifícios, em geral requer medidas
advindas de investimentos das respectivas prefeituras.
Grupo 1: políticas públicas sobre o edifício
As 48 políticas identificadas foram agrupadas
em 12 temas de abordagem similar. Estes foram
citados 128 vezes, com destaque para os temas
“água” e “energia”, evidenciado que representam uma Figura 3 - Temas de abordagem do grupo 1 por região
preocupação que corrobora uma tendência nacional, Fonte: Adaptada de Universidades (2017).
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Grupo 2: iniciativas relacionadas ao entorno do por exemplo, o uso da bicicleta de modo compartilhado,
edifício oferecido pelas prefeituras, bem como a melhoria da
Já no grupo das iniciativas relacionadas ao entorno infraestrutura para esse tipo de veículo. Assim como
das edificações, o maior destaque foi para o tema no grupo 1, foi feito o mapeamento por região das
“urbanismo”, conforme dados da Tabela 5. iniciativas catalogadas no grupo 2, conforme dados
Pelo fato de o tema “urbanismo” envolver diversos apresentados na Figura 4.
conceitos, estes também foram classificados, tendo Nota-se que o tema “urbanismo” se mostra
se destacado os aspectos relacionados à “mobilidade proeminente em todas as regiões, demonstrando
a problemática que abarca essa abordagem para o
urbana”. As iniciativas analisadas, nesse contexto da
desenvolvimento sustentável das cidades. É possível
mobilidade sustentável, mostram que as políticas
constatar que o tema tem sido destaque nas
públicas urbanas estão voltando sua atenção para
discussões inerentes ao tema “sustentabilidade”
sistemas de veículos não motorizados, estimulando,
em todo o país.
Tabela 4 - Temas abordados no grupo 1, com destaque para os temas
“água” e “energia” Relação entre os resultados e o IDHM
Tabela 5 - Temas abordados no grupo 2, com destaque para o tema “mobilidade” e, dentro dele, o subtema “mobilidade urbana”
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Quanto aos temas abordados nas políticas públicas em 15 de novembro de 2016, de [Link]
referentes ao edifício, chamou a atenção as iniciativas technical-standards
da categoria “Incentivos”, revelando a importância da
Camioto, F., Mariano, E. B., & Rebelatto, D. A. N. (2014).
relação iniciativa pública versus cidadão, em razão
Efficiency in Brazil’s industrial sectors in terms of energy
de consistir na concessão de benefícios. Ainda nesse
and sustainable development. Environmental Science & Policy,
contexto, dentro dos diversos temas abordados, a análise
37, 50-60. [Link]
reforçou uma tendência nacional de preocupação,
dado o destaque para os temas “água” e “energia”. Campinas. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal do
Ao analisar as políticas públicas que atuam no Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
entorno dos edifícios, o subtema de maior destaque foi (2016). Política Municipal de Meio Ambiente - PM2A.
“mobilidade urbana”, abordado no tema “urbanismo”, Campinas: Prefeitura Municipal. Recuperado em 13 de
demonstrando, por exemplo, a preocupação com as dezembro de 2016, de [Link]
consequências perniciosas relacionadas aos veículos meio-ambiente/politica_meio_ambiente.php
automotores – por exemplo, emissão de gases, ruídos,
Cole, R. J. (2007). Building environmental assessment
custo, entre outros fatores – por meio do incentivo aos
methods: redefining intentions and roles. Building
meios de transportes considerados de baixo impacto,
Research and Information, 33(5), 455-467. [Link]
como os veículos não motorizados.
org/10.1080/09613210500219063.
Também foi possível constatar que o IDHM não
possui relação direta, no contexto deste estudo, na Comprehensive Assessment System for Building
formação de cidades mais sustentáveis, contrariando Environmental Efficiency – CASBEE. (2016). CASBEE tools.
a hipótese originalmente formulada. Conclui-se que, Recuperado em 15 de novembro de 2016, de [Link].
em geral, os temas mais abordados pelas políticas [Link]/CASBEE/english
estão relacionados com o quadro de crises do país,
Green Building Council Brasil. Leadership in Energy and
inclusive quando comparado à abordagem desses
Environmental Design – LEED. (2016). Certificação LEED.
temas por região. Embora já existam essas políticas
Reparado em 16 de novembro de 2016, de [Link]
governamentais voltadas diretamente para a construção
[Link]/[Link]
de edifícios, elas ainda acontecem de forma incipiente,
em comparação com as políticas que se apresentam Green Building Council of Australia – GREEN STAR. (2016).
de forma indireta, voltadas para o entorno deles. Rating system. Recuperado em 15 de novembro de 2016,
de [Link]
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