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Políticas Públicas para Sustentabilidade Urbana

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Políticas públicas em prol da sustentabilidade na

construção civil em municípios brasileiros

DOI: 10.1590/2175-3369.010.SUPL1.AO10 ISSN 2175-3369


Licenciado sob uma Licença Creative Commons
Public policies for civil construction sustainability in Brazilian municipalities

Suelem Bertollo Marques[a], Márcia Bissoli-Dalvi[a], Cristina Engel de Alvarez[a]

[a]
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES, Brasil

Resumo
O crescimento insustentável de diversas cidades no mundo e também no Brasil causa efeitos negativos
que podem interferir nos insumos fundamentais para as economias modernas, como água e energia,
sendo necessária a adoção de um modelo de crescimento mais sustentável, adequando o desenvolvimento
das cidades às novas demandas. Assim, objetivou-se com este estudo identificar e analisar, por meio de
pesquisa on-line, as políticas públicas de incentivo às práticas projetuais pautadas na sustentabilidade
nos municípios brasileiros, considerando que mudanças efetivas dependem, dentre outros aspectos, de
programas de incentivo e de legislações específicas. Como método de recorte territorial, foi adotado o
âmbito da municipalidade, no qual foram catalogadas as políticas públicas, com o registro, por fim, dos
resultados em forma de planilhas e gráficos. A região Sul apresentou um quantitativo mais expressivo de
iniciativas. Foi possível constatar também que os temas mais abordados nesse universo referem-se à água,
à energia e à mobilidade urbana. E, entre as medidas que se aplicam ao planejamento e à construção de
edifícios, as iniciativas mais frequentes são as provenientes de incentivos concedidos pelas prefeituras, a
partir do cumprimento de determinados requisitos.

Palavras-chave: Iniciativas governamentais. Políticas públicas. Sustentabilidade. Municípios brasileiros.

Abstract
The unsustainable growth of several cities, in Brazil and worldwide, implies negative effects that can interfere
with the fundamental inputs for modern economies, such as water and energy. It is necessary to adopt a more
sustainable growth model, adapting the cities development to new demands. Thereby, this study aimed to
identify and analyze through online research, public policies to encourage sustainability practices in Brazilian
municipalities, considering that changes in effective depend, among other aspects, of incentive programs and
specific legislation. We adopted the scope of the municipality as a method of territorial reduction, where public
policies were cataloged, and the results were finally recorded in the form of spreadsheets and graphs. The South
Region presented a more expressive number of initiatives. We also verified that the most frequent subjects in

SBM é arquiteta e urbanista, Universidade Federal do Espírito Santo, e-mail: suelembertollo@[Link]


MB-D é doutora em arquitetura e urbanismo, Universidade Federal do Espírito Santo, e-mail: marciabissoli@[Link]
CEA é doutora em arquitetura e urbanismo, Universidade Federal do Espírito Santo, e-mail: [Link]@[Link]

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Políticas públicas em prol da sustentabilidade na construção civil em municípios brasileiros 187

this universe refer to water, energy and urban mobility. And, among the measures applied to the planning and
construction of buildings, the most frequent initiatives are those from incentives granted by the city halls, from
the fulfillment of certain requirements.

Keywords: Governmental initiatives. Public policies. Sustainability. Brazilian municipalities.

Introdução Para Martins & Cândido (2015, p. 401),


[...] uma cidade será mais sustentável, quanto
Desde a década de 1960, já era evidente que o melhor for sua a continuidade material dos
modelo de desenvolvimento adotado resultou no fluxos e dos estoques de recursos, a qualidade de
crescimento insustentável de diversas cidades no mundo vida, a legitimação e a reprodução das políticas
(Meadows et al., 1972), causando, posteriormente, públicas urbanas [...].
alguns efeitos, como as mudanças climáticas, a poluição
ambiental e o risco de esgotamento de recursos naturais Percebe-se que o conceito de sustentabilidade é
(água e energia). Especialmente em relação à finitude bastante complexo, sendo necessária a incorporação
de novas tecnologias às tradicionalmente utilizadas,
dos recursos naturais e aos impactos ambientais e
associado à disseminação de novos hábitos que
sociais causados desde o período da industrialização,
surgem a partir de processos de tomada de decisões
é perceptível a necessidade de mudança de paradigma
(Camioto et al., 2014).
no modelo de desenvolvimento que vem sendo adotado No setor da construção civil, existem métodos
(Wan Alwi et al., 2014; Hussey & Pittock, 2012). que contribuem para a implementação dos preceitos
Saccaro (2016) afirma que, no contexto do Brasil, sustentáveis, com a proposição da avaliação do
o crescimento insustentável tem afetado diretamente desempenho ambiental e da sustentabilidade de
todas as regiões. Em relação à oferta de água, por edifícios, normalmente formados por um conjunto
exemplo, observa-se que, no Nordeste e no Sudeste, de protocolos definidos por indicadores e critérios.
ocorrem casos de desertificação em razão do uso Tais métodos surgiram inicialmente para avaliar o
inapropriado do solo. Por sua vez, ocorrências, como efetivo impacto ambiental das construções, bem como
as secas prolongadas nas regiões Sul e Sudeste, para fomentar a consciência da responsabilidade do
provavelmente ampliadas em função da extrema setor, visando também proporcionar uma avaliação
redução da vegetação do cerrado, contribuem para do uso dos recursos naturais e da carga ecológica
a irregularidade das chuvas. demandada (Cole, 2007).
Esse desequilíbrio vem desencadeando problemas Posteriormente a esses métodos foram incorporados
ambientais, como a crise hídrica vivenciada atualmente os aspectos relacionados às questões econômicas
em diversas cidades, a qual está relacionada também e sociais, considerando que os três aspectos de
abordagem são indissociáveis em qualquer setor
com a crise energética. Essa correlação, entre outros
produtivo. Os critérios, geralmente, são agrupados por
fatores, ocorre em função do modelo energético brasileiro
similaridade de conteúdo em categorias. Alguns desses
adotado a partir de hidrelétricas. Esse processo atinge,
métodos oferecem certificações aos empreendimentos
além do conforto e do bem-estar dos usuários em avaliados, de modo a incentivar a adoção efetiva dos
geral, também o setor econômico, considerando a temas abordados. São também considerados importantes
influência desses aspectos na produção, o inevitável bases referenciais para o projetista.
aumento das tarifas e a contribuição para a ampliação Uma forma mais efetiva de adoção dos princípios
dos índices inflacionários (Saccaro, 2016). da sustentabilidade na construção civil é a atuação dos
Embora seja indiscutível a necessidade de mudanças governos e das municipalidades nas respectivas políticas
no modelo de desenvolvimento até então adotado nas públicas. Mesmo que sejam iniciativas pontuais, elas
cidades, o crescimento sustentável – que consiste, entre estruturam as questões sustentáveis e conduzem, na
outros aspectos, na adoção de medidas alternativas prática, à aplicabilidade delas (Seabra et al., 2013).
que impactem o mínimo possível o meio ambiente – Diversos governos, por meio de legislação específica,
ainda é visto como um dos maiores desafios para o vêm buscando punir, com multas e proibições, atividades
século atual (Seabra et al., 2013). que causem significativos impactos ambientais e,

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188 Marques, S. B., Bissoli-Dalvi, M., & Alvarez, C. E.

ao mesmo tempo, estão estimulando práticas que Metodologia


cooperem para mudar esse contexto. No Brasil, por
exemplo, especificamente no Rio de Janeiro, foi criado A metodologia desta pesquisa foi pautada em
o Qualiverde (Rio de Janeiro, 2011), que é um projeto quatro etapas, conforme a Figura 1.
que visa à certificação ambiental voluntária e objetiva Na etapa 1, foi realizado o embasamento conceitual,
incentivar empreendimentos novos ou existentes que com consulta a documentos, sites específicos, periódicos
indexados etc., buscando, além dos conceitos fundamentais
contemplem ações e práticas sustentáveis destinadas
para a pesquisa, identificar os aspectos e os métodos
à redução dos impactos ambientais, promovendo a
adotados nos principais instrumentos de avalição de
busca por eficiência energética, desempenho térmico
sustentabilidade. Os critérios e os temas abordados
e gestão da água (Rio de Janeiro, 2012). Os edifícios contribuíram para a obtenção de uma base referencial
que atenderem aos critérios estabelecidos e obtiverem que embasou a pesquisa bibliográfica e documental,
a certificação podem ter incentivos fiscais, como a realizada por meio da internet, em que foram catalogados
redução no valor do IPTU (Imposto Predial e Territorial as abordagens e os aspectos relacionados ao conceito
Urbano) e do ITBI (Imposto de Transmissão de Bens de sustentabilidade de edificações que estivessem
Imóveis). Já em Belo Horizonte, destaca-se o Selo BH presentes em tais ferramentas. Observa-se que as
Sustentável, que é uma política pública que objetiva a ferramentas de avaliação de sustentabilidade das
redução das emissões dos gases de efeito estufa por edificações possuem indicadores que, eventualmente,
induzem a ações que interferem na qualidade urbana,
meio da implementação de ações de sustentabilidade
assim como as políticas públicas relacionadas à gestão
ambiental em empreendimentos existentes e/ou a serem
urbana tendem a interferir diretamente nas edificações.
implantados no município (Belo Horizonte, 2012).
A adoção de bicicletários nos edifícios é um exemplo
de medida que pode contribuir para os problemas de
mobilidade urbana, enquanto o Qualiverde (Rio de
Objetivo
Janeiro, 2011), citado anteriormente, é um exemplo
de incentivo proposto pela administração pública
O objetivo desta pesquisa foi identificar os aspectos que pode influenciar diretamente na edificação.
inerentes às políticas públicas adotadas em municípios Assim, os resultados da pesquisa, embora centrados
brasileiros que estimulam a implementação de na avaliação de sustentabilidade dos edifícios,
práticas sustentáveis na construção civil, vinculadas também trouxeram contribuições relacionadas ao
a programas municipais, incentivos ou legislações. contexto da cidade. No âmbito internacional, foram

Figura 1 - Síntese de metodologia


Fonte: Elaboração própria (2017).

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estudados o BREEAM Building Research Establishment O resultado do levantamento proporcionou ainda


Environmental Assessment Method (BREEAM, 2016), a classificação das políticas conforme a influência
o CASBEE — Comprehensive Assessment System delas em edifícios ou nos espaços urbanos, surgindo,
for Built Environment Efficiency (CASBEE, 2016), o assim, dois grupos: grupo 1, políticas públicas sobre
GREEN STAR — Green Building Council of Australia o edifício, no qual se enquadram aquelas que atuam
(GREEN STAR, 2016), o LEED — Leadership in Energy diretamente no planejamento ou na construção
and Evironmental Design (Green Building Council dele, como a instalação de painéis solares e telhado
Brasil, 2016) e o SBTool — Sustainable Building Tool verde, por exemplo; e o grupo 2, políticas públicas
(SBTOOL, 2016), além da AQUA — Alta Qualidade sobre o entorno do edifício, por exemplo, medidas
Ambiental (Processo Aqua Construção Sustentável, de planejamento e gestão municipal, de educação
2016) e da ASUS — Avaliação da Sustentabilidade ambiental e medidas urbanísticas (que envolvem o
(UFES, 2016) no âmbito nacional. entorno imediato do edifício).
Na etapa 2, efetuou-se o recorte territorial. Na etapa 4, realizou-se a catalogação dos resultados
Estabeleceu‑se previamente, para este estudo, uma obtidos, utilizando gráficos e tabelas, possibilitando,
amostragem dos municípios brasileiros com população assim, o agrupamento de acordo com a similaridade
mínima de 500 mil habitantes, bem como todas as de temas. Com o intuito de obter uma análise
capitais dos Estados, considerando os dados do Instituto
complementar, foi realizado um ranking dos dez
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2016).
municípios que mais se destacaram neste estudo e dos
Na etapa 3, foi realizado o levantamento das políticas
dez municípios que menos se destacaram em relação
públicas existentes nos municípios previamente
à quantidade de políticas, comparando-os com os
selecionados que incentivam práticas sustentáveis
seus respectivos IDHM (Índice de Desenvolvimento
na construção civil. Essa etapa ocorreu por meio
Humano Municipal). Para a seleção dos municípios,
de pesquisa on-line, utilizando como elemento de
foi considerada a quantidade de políticas catalogadas
busca o nome do município em questão, seguido
e, no caso de empate, foi selecionada a cidade que
de palavras‑chave predefinidas: “sustentabilidade”,
possuía o maior número de habitantes.
“sustentável”, “leis de sustentabilidade”, “lei sustentável”,
“iniciativa sustentável”, “programa de sustentabilidade”
e “IPTU verde”.
Resultados
Esse processo totalizou sete formatos de buscas de
informações em cada município, sendo estabelecido
Os resultados obtidos consideram, inicialmente,
o limite de duas páginas de resultados por pesquisa.
Esse limite foi definido em função da constatação de que, a identificação dos municípios e as respectivas
após a segunda página, os resultados normalmente se políticas adotadas em prol da sustentabilidade. Estas
repetem ou, então, não são satisfatórios. É importante foram subdivididas em categorias, posteriormente
ressaltar que a pesquisa se limita às políticas catalogadas de acordo com os temas abordados e
provenientes do município, sendo descartadas aquelas mais uma vez separadas em dois grandes grupos de
de abrangência nacional ou estadual. influência. Em ambos foi feito um diagnóstico do tema
As políticas públicas identificadas foram agrupadas de destaque por região. Como estudo complementar,
de acordo com a similaridade temática, em três foi avaliada a relação entre os resultados da pesquisa
categorias: Programas, que incentivam o cidadão — que sugerem uma relação de equivalência maior ou
a tomar determinadas decisões, sem, contudo, menor da qualidade de vida dos usuários — e o IDHM.
fornecer recompensas, e não exigem obrigatoriedade
no cumprimento deles; Incentivos, nos quais as
políticas oferecem algum tipo de recompensa pelo Municípios e políticas públicas
cumprimento de alguma diretriz, como descontos
fiscais ou selos; e Leis, que estimulam a adoção de O Brasil possui 5.570 municípios (IBGE, 2016).
determinadas medidas por meio da obrigatoriedade, Considerando os que possuem acima de 500 mil
sem prover recompensas. Em todas as categorias, habitantes e todas as capitais dos Estados, o levantamento
foram consideradas políticas públicas já aprovadas resultou em uma amostragem de 47 municípios,
ou em processo de aprovação. além de identificar 168 iniciativas vinculadas às

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190 Marques, S. B., Bissoli-Dalvi, M., & Alvarez, C. E.

políticas públicas que abordam os aspectos inerentes respectivamente — e também concentra os maiores
à sustentabilidade em edificações e seu entorno, os polos de desenvolvimento do Brasil. Na Tabela 1,
quais incluem programas municipais, incentivos e leis, estão representados os quantitativos de iniciativas
sendo os percentuais expostos na Figura 2. públicas identificadas por região brasileira.
A região Sudeste teve a maior representatividade Nota-se que, apesar de a região Sudeste possuir a
na amostragem. Nela estão contidos os Estados de maior quantidade de municípios, a região Sul apresenta
maior densidade demográfica do país – São Paulo a maior média. Isso pode ser um indicativo de que,
e Rio de Janeiro, com 166,23 e 365,23 hab/km2, nesta última região, há uma maior preocupação com
o discurso da sustentabilidade. Por outro lado, a
região Norte apresenta a pior média. Quando é feita
uma análise complementar para verificar a média de
iniciativas por habitantes, a região Sul mantém seu
destaque entre as demais. Entretanto, a média por
habitante não se mostra proporcional à média por
município, com a pior média por habitante sendo a
da região Sudeste.

Categorias e temas abordados


nas políticas públicas

As iniciativas foram agrupadas por similaridade


Figura 2 - Percentual de iniciativas inerentes às políticas públicas adotadas em três categorias relacionadas às políticas públicas,
por regiões brasileiras ou seja, Programas, Incentivos e Leis, como pode ser
Fonte: Adaptada de Universidades (2017). observado na Tabela 2.

Tabela 1 - Quantidade de iniciativas públicas identificadas em prol da sustentabilidade nas edificações por regiões brasileiras, com destaque para os
resultados da região Sul

Média de Relação de
N° de N° de
Municípios com mais de 500 mil hab. e capitais de N° de iniciativas iniciativas a
Região municípios iniciativas
Estado habitantes1 por cada 100 mil
por região por região
município hab.
N Porto Velho (RO), Rio Branco (AC), Manaus (AM), Boa Vista (RR), 6.011.313 8 16 2,00 2,70
Ananindeua (PA), Belém (PA), Macapá (AP) e Palmas (TO).
NE São Luís (MA), Teresina (PI), Fortaleza (CE), Natal (RN), João 13.760.132 11 49 4,45 3,60
Pessoa (PB), Jaboatão dos Guararapes (PE), Recife (PE), Maceió
(AL), Aracaju (SE), Feira de Santana (BA) e Salvador (BA).
SE Belo Horizonte (MG), Contagem (MG), Juiz de Fora (MG), 32.786.244 18 62 3,44 1,90
Uberlândia (MG), Vitória (ES), Duque de Caxias (RJ), Nova Iguaçu
(RJ), Rio de Janeiro (RJ), São Gonçalo (RJ), Campinas (SP),
Guarulhos (SP), Osasco (SP), Ribeirão Preto (SP), Santo André
(SP), São Bernardo do Campo (SP), São José dos Campos (SP),
São Paulo (SP) e Sorocaba (SP).
S Curitiba (PR), Londrina (PR), Florianópolis (SC), Joinville (SC) e 4.975.852 5 28 5,60 5,60
Porto Alegre (RS).
CO Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Aparecida de Goiânia (GO), 6.407.339 5 13 2,60 2,00
Goiânia (GO) e Brasília (DF).
Total 47 168 - -
Nota: 1Somatório dos habitantes das cidades catalogadas no recorte por região.
Fonte: Elaboração própria (2017).

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Tabela 2 - Políticas públicas divididas em categorias

Quantitativos de iniciativas por categorias


Categorias Quantidade Percentual %
Programas 76 45,24
Incentivos 63 37,50
Leis 29 17,26
Total 168 100
Fonte: Elaboração própria (2017).

Dentro da categoria “Programas”, foram encontradas


políticas diversas em prol da sustentabilidade que
variam entre planos municipais, movimentos etc.,
como o Projeto Fortaleza Sustentável (Fortaleza/CE), Gráfico 1 - Temas abordados na categoria “Programas”
que objetiva “[...] promover a educação ambiental e Fonte: Elaboração própria (2017).
disseminar a importância da adoção de práticas que
visem a sustentabilidade nos negócios, na mobilidade e
na vida urbana [...]” (Projeto Fortaleza Sustentável, 2016).
Já a categoria “Incentivos” é aquela que apresenta
políticas de incentivo à sustentabilidade a partir de
recompensas, como os projetos em que as prefeituras
disponibilizam, por um valor eventualmente simbólico,
bicicletas para uso compartilhado, estimulando a
mobilidade urbana sustentável. O “Bike Vitória” (Bike
Vitória, 2016) é um exemplo desse tipo de incentivo
adotado no Espírito Santo. Outro exemplo dessa
categoria é o denominado IPTU Verde, que envolve leis
complementares e decretos que fornecem benefícios
tributários, por exemplo, descontos fiscais, ao morador
que adotar medidas sustentáveis determinadas pelo
munícipio.
Na categoria “Leis”, foram identificadas políticas Gráfico 2 - Temas abordados na categoria “Leis”
que obrigam ou norteiam a cidade a aderir medidas Fonte: Elaboração própria (2017).
em prol da sustentabilidade, como a Política Municipal
de Meio Ambiente na cidade de Campinas (Campinas,
2016), que tem como objetivo auxiliar a gestão ambiental
municipal ao assegurar a preservação do meio ambiente
e o desenvolvimento sustentável. No Recife (PE), existe
a Lei nº 18.112/2015, que obriga, para aprovação de
projeto de arquitetura, a previsão de telhado verde e
de reservatórios para captação de águas pluviais em
edificações habitacionais multifamiliares com mais
de quatro pavimentos e em não habitacionais com
mais de 400 m2 de área de coberta (Recife, 2015).
Também foram catalogados os temas abordados
pelas políticas públicas, e, então, organizou-se o
agrupamento dos temas por similaridade, como Gráfico 3 - Temas abordados na categoria “Incentivos”
mostram os Gráficos 1, 2 e 3. É importante ressaltar Fonte: Elaboração própria (2017).

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que uma política pode abordar mais de um tema e, dado o cenário de crise hídrica e energética vivenciado
portanto, ser quantificada mais de uma vez, visto que no país (Tabela 4).
o objetivo principal é encontrar e mapear os temas É importante destacar que mais de 70% do universo
que vêm sendo mais discutidos atualmente no país. de políticas catalogadas nesse grupo pertence à
É possível perceber que os temas “água”, “educação categoria “Incentivos”, a qual se mostra proeminente
ambiental”, “resíduos” e “urbanismo” são abordados em todas as regiões. Fica evidente a eficiência desse
em todas as categorias, porém o tema “urbanismo” se tipo de iniciativa, de modo que, ao apresentar uma
destaca em relação aos demais. Inicialmente, a divisão recompensa imediata, desperta o interesse na adoção
em categorias gerou dois grupos de classificação, ou de medidas em prol da sustentabilidade. Normalmente,
seja, grupo 1, relacionado às políticas públicas voltadas
isso não ocorre de maneira espontânea em razão de
para o edifício, e grupo 2, relacionado às políticas
essas medidas demandarem determinado tempo
públicas direcionadas para o entorno do edifício, os
para terem seu investimento totalmente ressarcido.
quais compreenderam 28,6% e 71,4%, respectivamente,
Em etapa posterior, foi realizado o mapeamento, por
do universo de iniciativas identificadas (Tabela 3).
região, das políticas catalogadas no grupo 1 (Figura 3).
No grupo 1, observa-se o destaque para políticas
de “Incentivos”, evidenciando a importância para o Observa-se que os temas de destaque em todas as
provimento de benefícios quando se trata do edifício, regiões são “água” e “energia”, reiterando que há uma
visto que envolve, principalmente, o investimento do tendência para replicação dos problemas nacionais
empreendedor. Isso reforça a ideia de que estímulos no âmbito da municipalidade. Por exemplo, na região
que fornecem algum benefício para o proprietário, Nordeste, onde ocorrem casos de desertificação e
como incentivos fiscais, ou ainda o recebimento de secas constantes, as políticas são voltadas, em sua
selos pelo cumprimento de determinados quesitos são maioria, para o tema “água”.
fortes aliados à implementação da sustentabilidade
na construção civil.
Quanto aos resultados obtidos no grupo 2, chamou
a atenção a ênfase aos “Programas” em prol da
sustentabilidade, o que condiz com o fato de que, por se
tratar de um grupo que abrange medidas que se aplicam
ao entorno dos edifícios, em geral requer medidas
advindas de investimentos das respectivas prefeituras.
Grupo 1: políticas públicas sobre o edifício
As 48 políticas identificadas foram agrupadas
em 12 temas de abordagem similar. Estes foram
citados 128 vezes, com destaque para os temas
“água” e “energia”, evidenciado que representam uma Figura 3 - Temas de abordagem do grupo 1 por região
preocupação que corrobora uma tendência nacional, Fonte: Adaptada de Universidades (2017).

Tabela 3 - Iniciativas agrupadas em relação ao edifício e seu entorno

Iniciativas organizadas quanto aos grupos de análise


Grupo 1 - edifício Grupo 2 - urbano
Categorias
Quantidade Percentual % Quantidade Percentual %
Programas 2 4,16 74 61,67
Incentivos 35 72,92 28 23,33
Leis 11 22,92 18 15,00
Total 48 100 120 100
Fonte: Elaboração própria (2017).

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Grupo 2: iniciativas relacionadas ao entorno do por exemplo, o uso da bicicleta de modo compartilhado,
edifício oferecido pelas prefeituras, bem como a melhoria da
Já no grupo das iniciativas relacionadas ao entorno infraestrutura para esse tipo de veículo. Assim como
das edificações, o maior destaque foi para o tema no grupo 1, foi feito o mapeamento por região das
“urbanismo”, conforme dados da Tabela 5. iniciativas catalogadas no grupo 2, conforme dados
Pelo fato de o tema “urbanismo” envolver diversos apresentados na Figura 4.
conceitos, estes também foram classificados, tendo Nota-se que o tema “urbanismo” se mostra
se destacado os aspectos relacionados à “mobilidade proeminente em todas as regiões, demonstrando
a problemática que abarca essa abordagem para o
urbana”. As iniciativas analisadas, nesse contexto da
desenvolvimento sustentável das cidades. É possível
mobilidade sustentável, mostram que as políticas
constatar que o tema tem sido destaque nas
públicas urbanas estão voltando sua atenção para
discussões inerentes ao tema “sustentabilidade”
sistemas de veículos não motorizados, estimulando,
em todo o país.
Tabela 4 - Temas abordados no grupo 1, com destaque para os temas
“água” e “energia” Relação entre os resultados e o IDHM

Objetivando fornecer uma análise complementar


Grupo 1
para este estudo, foi realizada a comparação
Tema Quant.1 Percentual %
dos resultados obtidos com o IDHM. Para tanto,
Acessibilidade 2 1,56 foram analisados os dez municípios que mais se
Água 31 24,22 destacaram neste estudo e os dez municípios que
Áreas verdes 17 13,28 menos se destacaram, como mostra a Tabela 6.
Certificação 9 7,03
É válido ressaltar que, na classificação do Atlas
Coleta seletiva 1 0,78
Educação ambiental 1 0,78
Emissões 4 3,13
Energia 27 21,09
Materiais 15 11,72
Mudanças climáticas 2 1,56
Resíduos 14 10,94
Telhado verde 5 3,91
Total 128 100
Nota: Quantidade de citação de determinado tema.
1
Figura 4 - Temas de abordagem do grupo 2 por região
Fonte: Elaboração própria (2017). Fonte: Adaptada de Universidades (2017).

Tabela 5 - Temas abordados no grupo 2, com destaque para o tema “mobilidade” e, dentro dele, o subtema “mobilidade urbana”

Grupo 2 Subtema Quant. Percentual %


Tema Quant. Percentual % Acessibilidade 2 3,9
Educação ambiental 21 17,5 Áreas verdes 9 17,31
Gestão 30 25,0 Mobiliário urbano 4 7,7
Reciclagem 17 14,2 Mobilidade urbana 36 69,2
Urbanismo 52 43,3 Projeto modelo 1 1,9
Total 120 100 Total 52 100

Fonte: Elaboração própria (2017).

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194 Marques, S. B., Bissoli-Dalvi, M., & Alvarez, C. E.

Tabela 6 - Ranking dos municípios e relação com IDHM

Ranking dos municípios versus IDHM


Ranking Região Município Qtde. iniciativas Qtde. hab.1 IDHM2
1º SE Rio de Janeiro (RJ) 9 6.498.837 0,799
2º NE Fortaleza (CE) 8 2.609.716 0,754
3º S Curitiba (PR) 8 1.893.997 0,823
4º NE Recife (PE) 6 1.625.583 0,772
5º NE Teresina (PI) 6 847.430 0,751
6º SE Santo André (SP) 6 712.749 0,815
7º S Londrina (PR) 6 553.393 0,778
8º S Florianópolis (SC) 6 477.798 0,847
9º SE São Paulo (SP) 5 12.038.175 0,805
10º NE Salvador (BA) 5 2.938.092 0,759
[...]
38º N Ananindeua (PA) 2 510.834 0,718
39º N Palmas (TO) 2 279.856 0,788
40º SE Contagem (MG) 1 653.800 0,756
41º CO Cuiabá (MT) 1 585.367 0,785
42º N Macapá (AP) 1 465.495 0,733
43º N Rio Branco (AC) 1 377.057 0,727
44º SE Nova Iguaçu (RJ) 0 797.435 0,713
45º SE Osasco (SP) 0 696.382 0,776
46º SE Ribeirão Preto (SP) 0 674.405 0,8
47º N Boa Vista (RR) 0 326.419 0,752
Nota: 1A quantidade de habitantes é uma estimativa de 2016 fornecida pelo IBGE (2016). 2Foi considerado o IDHM calculado no censo do ano 2010 fornecido pelo Atlas Brasil (Atlas
do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2010).
Fonte: Elaboração própria (2017).

Brasil (Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, Conclusão


2010), a faixa de 0,700 a 0,799 é considerado um
IDHM alto, e a faixa de 0,800 a 1,000, muito alto, No âmbito do recorte territorial estabelecido, a
sendo este último o topo da classificação. região Sudeste foi a que teve maior representatividade
Nota-se que o IDHM não é diretamente proporcional nesta pesquisa, quando analisada sob o aspecto
à quantidade de políticas públicas em prol da quantitativo. Entretanto, após o levantamento
sustentabilidade catalogadas nos municípios. Infere‑se das políticas governamentais nos 47 municípios
ainda que a sustentabilidade não está relacionada selecionadas, a região Sul se destacou com a maior
de modo direto aos conceitos abordados pelo IDHM. média de iniciativas por município. Isso indica que
Verificou-se que há cidades com um alto índice de IDHM, a quantidade de população estimada dos municípios
mas que não possuem nenhuma política catalogada, não está diretamente relacionada com a quantidade
enquanto há cidades com índices menores nas quais de iniciativas em vigor; tampouco tem relação com
foram verificadas a existência de políticas voltadas o nível de desenvolvimento da região, visto que a
para o incentivo à sustentabilidade no ambiente região Sudeste, considerada a mais desenvolvida do
construído, como é o caso de Ribeirão Preto (SP) e país, apresentou menos ações efetivas por município
Teresina (PI), respectivamente. do que as regiões Sul e Nordeste.

urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana (Brazilian Journal of Urban Management), 2018, 10(Supl. 1), 186-196 194/196
Políticas públicas em prol da sustentabilidade na construção civil em municípios brasileiros 195

Quanto aos temas abordados nas políticas públicas em 15 de novembro de 2016, de [Link]
referentes ao edifício, chamou a atenção as iniciativas technical-standards
da categoria “Incentivos”, revelando a importância da
Camioto, F., Mariano, E. B., & Rebelatto, D. A. N. (2014).
relação iniciativa pública versus cidadão, em razão
Efficiency in Brazil’s industrial sectors in terms of energy
de consistir na concessão de benefícios. Ainda nesse
and sustainable development. Environmental Science & Policy,
contexto, dentro dos diversos temas abordados, a análise
37, 50-60. [Link]
reforçou uma tendência nacional de preocupação,
dado o destaque para os temas “água” e “energia”. Campinas. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal do
Ao analisar as políticas públicas que atuam no Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
entorno dos edifícios, o subtema de maior destaque foi (2016). Política Municipal de Meio Ambiente - PM2A.
“mobilidade urbana”, abordado no tema “urbanismo”, Campinas: Prefeitura Municipal. Recuperado em 13 de
demonstrando, por exemplo, a preocupação com as dezembro de 2016, de [Link]
consequências perniciosas relacionadas aos veículos meio-ambiente/politica_meio_ambiente.php
automotores – por exemplo, emissão de gases, ruídos,
Cole, R. J. (2007). Building environmental assessment
custo, entre outros fatores – por meio do incentivo aos
methods: redefining intentions and roles. Building
meios de transportes considerados de baixo impacto,
Research and Information, 33(5), 455-467. [Link]
como os veículos não motorizados.
org/10.1080/09613210500219063.
Também foi possível constatar que o IDHM não
possui relação direta, no contexto deste estudo, na Comprehensive Assessment System for Building
formação de cidades mais sustentáveis, contrariando Environmental Efficiency – CASBEE. (2016). CASBEE tools.
a hipótese originalmente formulada. Conclui-se que, Recuperado em 15 de novembro de 2016, de [Link].
em geral, os temas mais abordados pelas políticas [Link]/CASBEE/english
estão relacionados com o quadro de crises do país,
Green Building Council Brasil. Leadership in Energy and
inclusive quando comparado à abordagem desses
Environmental Design – LEED. (2016). Certificação LEED.
temas por região. Embora já existam essas políticas
Reparado em 16 de novembro de 2016, de [Link]
governamentais voltadas diretamente para a construção
[Link]/[Link]
de edifícios, elas ainda acontecem de forma incipiente,
em comparação com as políticas que se apresentam Green Building Council of Australia – GREEN STAR. (2016).
de forma indireta, voltadas para o entorno deles. Rating system. Recuperado em 15 de novembro de 2016,
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