O termo "oppida", que é o plural de "oppidum", é uma palavra latina que se traduz para "vila"
ou "cidade"1. Remonta a fontes clássicas, sendo Júlio César um dos que a utilizou para
descrever locais fortificados na Gália no século I a.C.1.
Os oppida ganharam maior expressão na Idade do Ferro tardia na Europa, essencialmente do
século II a.C. ao século I d.C.1. Locais como Závist e Staré Hradisko são exemplos notórios1. A
sua emergência foi motivada por fatores como o surgimento de novos sistemas de comércio e
um período climático favorável1. Ao longo do século passado, foram reconhecidos como um
monumento de cariz europeu, disperso por várias áreas do continente2.
São vistos como uma tipologia de povoamento urbano anterior ao período romano2. No
entanto, esta ideia de "urbanidade" tem sido bastante debatida2.
O que foram, então, os oppida?
Geralmente, os oppida tinham, no mínimo, 25 hectares2. Eram caracterizados por muralhas
extensas2, e estabeleciam-se frequentemente em áreas elevadas2. Curiosamente, podiam
surgir fora das zonas de assentamento tradicionais2, o que pode ter sido uma estratégia para
manter o acesso a recursos primários, como florestas e ouro, e a rotas de comunicação3.
O desenvolvimento dos oppida é visto como parte de uma longa trajetória3. Embora alguns
fossem novas fundações, muitos emergiram de locais socialmente significativos já existentes,
utilizados em períodos anteriores como a Idade do Bronze3.... Estamos a falar de
aglomerações abertas com funções económicas, santuários de pequenas dimensões em
madeira, ou locais que já eram focos de assembleia social para comunidades rurais8. Portanto,
os locais escolhidos podiam ter longas histórias de significado social8.
As razões para a sua emergência estão muito provavelmente ligadas ao desenvolvimento
económico local, a novos sistemas de redistribuição de bens e a um novo sistema de trocas
comerciais de longa distância, muitas vezes trazidos pelos romanos8. A cronologia da aparição
dos oppida associa-se a um período climático relativamente mais quente do que o habitual no
século IV a.C.4. Este clima favorável pode estar ligado a um possível crescimento
populacional4, o que, por sua vez, pode ter levado à necessidade de meios mais complexos
para gerir recursos e criar locais de interação social e negociação4.
Os oppida tinham uma complexa relação com o território rural envolvente5.
Tradicionalmente, pensava-se que, apesar de terem produção especializada, dependiam
totalmente dos assentamentos rurais para a sua subsistência, recebendo produtos agrícolas
através de trocas ou tributos5. O oppidum era visto como o centro que geria recursos e
redistribuía riqueza, com os assentamentos rurais a serem a sua base agrícola de sustento5.
No entanto, investigações recentes têm posto esta ideia em causa, sugerindo que pode ter
havido agricultura no interior dos oppida5....
No oppidum de Manching, na Alemanha, encontraram-se vestígios de fertilização, indicando
que havia agricultura praticada pelos seus habitantes10. Existiriam unidades agrícolas
tradicionais e instalações de armazenamento de cereais dentro da fortificação10. Evidências
arqueobotânicas (presença de cereais como cevada e trigo) e zooarqueológicas (criação de
gado, especialmente bovino) nos oppida reforçam a ideia de uma produção agrícola
significativa praticada internamente7.... Isto sugere que talvez estas comunidades, sendo
capazes de sustentar a sua própria produção agrícola, fariam trocas com as comunidades
rurais envolventes para desenvolver contactos sociais ou obter recursos específicos7.
Os recursos naturais desempenharam um papel importante na existência e funcionamento
dos oppida14. Embora a sua presença não fosse sempre decisiva na escolha da localização, os
oppida estavam frequentemente situados em zonas de proximidade a eles14.... Recursos como
as florestas (madeira para construção, aquecimento, combustível)15, o minério de ferro
(utilizado em artesanato e armamento, presente em Manching)15, o ouro e a prata
(importantes na cunhagem de moeda, perto de Bibracte)16, e boas argilas para cerâmica eram
cruciais16. A economia de alguns oppida estava claramente ligada à exploração e
processamento destes recursos16.
os oppida inseriam-se em redes de trocas, tinham metalurgia e, por vezes, cunhagem de
moeda16. As fontes clássicas mencionam comerciantes romanos a viver nos oppida17, criando
uma imagem de um centro urbano dedicado ao comércio, de onde chegavam bens de longa
distância, como o âmbar17. No entanto, o comércio não era a única atividade17. A
coexistência de produções internas (agricultura, processamento de recursos naturais) com
trocas comerciais desafia as visões mais simplistas de uma separação total entre populações
"urbanas" e "agrícolas"17....
É importante notar que, apesar de partilharem algumas características comuns (tamanho,
muralhas, papel central), os oppida apresentavam diferenças significativas devido à sua
dispersão pela Europa18. A forma e extensão areal variavam19. Existem locais bem definidos e
fortificados (como na Gália central) que contrastam com complexos mais polifocais e dispersos
(no Sul da Grã-Bretanha ou Europa Oriental)19. Alguns oppida ocupavam uma única
característica geográfica, enquanto outros eram mais dispersos e com múltiplos focos19.
Isto leva-nos à questão do "urbanismo"19. A associação do urbanismo aos oppida vem da
atribuição do seu nome por autores clássicos como Júlio César, que os traduziam como
"cidade" ou "vila"20. A bibliografia mais tradicional baseava-se em características
estandardizadas de urbanismo, mas esta abordagem tornou-se pouco eficaz dada a
diversidade dos oppida20. Nas últimas décadas, procuraram-se conceptualizações mais
flexíveis, vendo os oppida como "aglomerações numericamente significativas de pessoas que
vivem permanentemente juntas num assentamento que cumpre funções de lugar central para
um território mais vasto"21. A sua interpretação como assentamentos de baixa densidade,
mas importantes nas dinâmicas sociais, é uma das hipóteses21.
Finalmente, vamos abordar o declínio e fim dos oppida23. No fim da Idade do Ferro, a
expansão do Império Romano teve um impacto significativo, impondo um modelo de
urbanismo romano em grande parte da Europa ocidental24. Muitos oppida foram
abandonados e as suas populações mudaram-se para localidades próximas mais adequadas ao
modelo romano24. Exemplos incluem Gergovie e Corent, substituídos por Augustonemetum, e
Pommiers, trocado por Augusta Suessionum24. Outros foram diretamente substituídos por
cidades romanas na mesma localização, como Bourges e Metz na França, e Silchester e
Colchester na Britânia24. A continuidade no local pode ser interpretada como um
reconhecimento, por parte das autoridades romanas, da importância social, política e
administrativa que o aglomerado já tinha25.
No entanto, o fim dos oppida não foi unicamente causado pelos romanos25. Outros fatores
potenciais incluem instabilidade interna (talvez devido à grande quantidade de população,
como em Manching)25, localização desfavorável25, distância das melhores rotas
económicas25, dependência de alimentos externos25, epidemias25, anos de más colheitas25,
ou mesmo consequências indiretas da expansão romana, como mudanças nas redes de
comércio e instabilidade da rede mais ampla de oppida26.
Tal como a sua génese, o fim dos oppida não foi um movimento com características únicas
aplicáveis a todos26. Cada oppidum, consoante a sua localização, recursos, produção agrícola,
e outros fatores, teve um fim único26.
A ideia de que o fim dos oppida foi parte de um processo cíclico de nucleação e dispersão no
fim da Idade do Ferro contradiz a tese de uma progressão linear interrompida por Roma27. O
seu final foi, sem dúvida, precipitado pela conquista romana e pela imposição de novas
estruturas urbanas, mas os declínios devem ser analisados individualmente, dada a sua
complexidade e a singularidade dos possíveis fatores internos e externos envolvidos27.... É
importante referir que o seu desaparecimento não significou a dissolução da sua importância,
pois vários oppida, ou os locais que ocuparam, mantiveram papéis simbólicos e práticos no
período de ocupação romana, como em Bibracte28.
Em conclusão29:
O debate sobre a "urbanidade" dos oppida foi central, mas as interpretações atuais procuram
ir além dessas etiquetas, focando-se no significado dos oppida nas dinâmicas sociais em
mudança e na sua relação com a organização social existente29. A economia dos oppida
estava profundamente ligada à gestão de recursos, ao artesanato, à transformação de
recursos naturais, à produção agrária interna e ao comércio (regional e de longa distância)29.
O fim dos oppida teve diversas razões e problemáticas associadas, únicas a cada região e a
cada oppidum30. Para compreender estes aglomerados da Idade do Ferro, é crucial perceber
que, apesar de alguns traços em comum, tanto o seu funcionamento quanto o seu fim foram
fortemente influenciados pelo meio que os rodeava30. Cada oppidum é único e deve ser
estudado num contexto alargado, mas também de forma singular31.