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Eficácia da Nutrição em Doenças Intestinais

Este artigo revisa a eficácia da terapia nutricional oral e enteral em crianças e adolescentes com doenças inflamatórias intestinais. A nutrição enteral exclusiva demonstrou ser eficaz na indução de remissão da Doença de Crohn, enquanto a nutrição enteral parcial mostrou resultados promissores, mas as modificações dietéticas orais apresentaram resultados inconclusivos. O estudo conclui que mais ensaios clínicos randomizados são necessários para validar a eficácia das intervenções nutricionais.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Eficácia da Nutrição em Doenças Intestinais

Este artigo revisa a eficácia da terapia nutricional oral e enteral em crianças e adolescentes com doenças inflamatórias intestinais. A nutrição enteral exclusiva demonstrou ser eficaz na indução de remissão da Doença de Crohn, enquanto a nutrição enteral parcial mostrou resultados promissores, mas as modificações dietéticas orais apresentaram resultados inconclusivos. O estudo conclui que mais ensaios clínicos randomizados são necessários para validar a eficácia das intervenções nutricionais.
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ARTIGO DE REVISÃO [Link]

1590/1984-0462/2020/38/2019032

TERAPIA NUTRICIONAL ORAL E ENTERAL NAS


DOENÇAS INFLAMATÓRIAS INTESTINAIS EM CRIANÇAS
E ADOLESCENTES: UMA REVISÃO DE LITERATURA
Oral and enteral nutrition therapy in inflammatory bowel
diseases among the pediatric population: a literature review
Gabriela Neves de Souzaa,* , Patrícia Ferrante Draghib , Glauce Hiromi Yonaminea

RESUMO ABSTRACT
Objetivos: Revisar a literatura quanto à terapia nutricional oral e Objectives: To review the literature on oral and enteral nutrition
enteral e verificar evidências de sua eficácia tanto para tratamento therapy and investigate the evidence of its efficacy as a treatment,
quanto para prevenção de recidivas e redução de sintomas das as well as in preventing relapses and reducing symptoms of
doenças inflamatórias intestinais em pediatria. inflammatory bowel diseases in the pediatric population.
Fonte de dados: Foi realizada pesquisa bibliográfica nas bases de Data source: We performed a bibliographic search in the PubMed,
dados PubMed, Web of Science e Literatura Latino-Americana e Web of Science, and Latin American and Caribbean Health Sciences
do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) utilizando os seguintes Literature (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da
descritores em inglês: inflammatory bowel disease, diet e diet therapy; Saúde – Lilacs) databases, using the keywords “inflammatory bowel
e os seguintes descritores em português: doenças inflamatórias disease,” “diet,” and “diet therapy” in English and Portuguese, with
intestinais e dietoterapia, com os filtros de estudo em Pediatria filters for pediatric studies published in the previous five years.
e no máximo cinco anos de publicação. Data summary: We selected 16 articles for this study, nine on
Síntese dos dados: Foram selecionados 16 artigos para este estudo, exclusive and/or partial enteral nutrition and seven on modified
sendo nove sobre o uso de nutrição enteral exclusiva e/ou parcial e sete oral diets, such as the specific carbohydrate diet (SCD) and the
sobre modificações da dieta oral, como a dieta específica de carboidratos Crohn’s Disease exclusion diet (CDED). The studies found evaluated
(SCD) e a dieta de exclusão na Doença de Crohn (CDED). Os estudos the anthropometric profile of patients and the inflammatory
encontrados avaliaram o perfil antropométrico dos pacientes e o perfil profile of diseases in children before and after the introduction
inflamatório das doenças em crianças antes e depois da introdução de of each specific nutrition therapy. All interventions presented
cada terapia nutricional específica. Em todas as intervenções, foram positive changes in these parameters; however, the results
observadas mudanças positivas nesses parâmetros, entretanto os were inconclusive regarding the efficacy of SCD and CDED in
resultados mostraram-se inconclusivos em relação à eficácia da SCD the treatment and prevention of relapses.
e da CDED no tratamento e na prevenção de recidivas. Conclusions: Exclusive enteral nutrition has proven to be
Conclusões: A nutrição enteral exclusiva mostrou-se uma terapia effective in inducing remission of Crohn’s Disease, and the use
eficaz para a indução da remissão na Doença de Crohn, e o uso of partial enteral nutrition for maintenance treatment has shown
da nutrição enteral parcial para tratamento de manutenção vem promising results. Other modified oral diets are inconclusive
exibindo resultados promissores. As demais modificações de concerning their effectiveness, requiring further randomized
dietas orais são inconclusivas a respeito de sua eficácia, sendo controlled clinical trials.
necessários mais ensaios clínicos randomizados e controlados. Keywords: Inflammatory bowel diseases; Nutritional therapy;
Palavras-chave: Doenças inflamatórias intestinais; Terapia Pediatrics.
nutricional; Pediatria.

*Autora correspondente. E-mail: gnevessouza.9@[Link] (G.N. Souza).


a
Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
b
Centro Universitário Saúde ABC, Faculdade de Medicina do ABC, Santo André, SP, Brasil.
Recebido em 04 de fevereiro de 2019; aprovado em 28 de maio de 2019; disponível on-line em 21 de maio de 2020.
Terapia nutricional nas doenças inflamatórias intestinais: revisão

INTRODUÇÃO de nutrição enteral exclusiva e/ou parcial e sete modificações


A cronicidade da inflamação do trato gastrointestinal (TGI) da dieta oral.
interfere diretamente na qualidade de vida e no estado nutricio-
nal do indivíduo com doenças inflamatórias intestinais (DII). Nutrição enteral exclusiva
Acredita-se que a alimentação esteja envolvida na indução da A nutrição enteral exclusiva (NEE) tem sido amplamente estu-
inflamação, bem como em sua remissão.1 A hipótese é a de dada e recomendada como uma das terapias de primeira linha
que os alimentos — ou a exclusão de alguns deles — podem para indução da remissão da DC luminal. A terapia consiste
modular a resposta do TGI à inflamação, favorecendo a micro- em oferecer uma dieta líquida nutricionalmente completa, poli-
biota intestinal saudável.2 Por isso, intervenções dietéticas são mérica ou oligomérica (semielementar ou elementar), por um
boas opções de tratamento, tanto do ponto de vista médico período de seis a oito semanas, de forma exclusiva, por sonda
quanto do paciente. nasogástrica ou via oral.4,5
Terapias nutricionais que envolvam nutrição enteral (NE), Na maioria dos estudos avaliados, preconizou-se o uso de
modificação de carboidratos e fibras alimentares vêm sendo fórmulas poliméricas, ficando reservadas as fórmulas elemen-
discutidas e prescritas no meio pediátrico como propostas tares àqueles que não toleraram as dietas com proteína intacta.
terapêuticas e preventivas para crises de atividade inflamató- Da mesma forma, foi preferencialmente utilizada a via oral para
ria na Doença de Crohn (DC) e retocolite ulcerativa (RCU).3
Assim, faz-se necessário um levantamento bibliográfico crítico
sobre as dietoterapias existentes e seus resultados, a fim de nor-
tear o profissional em sua escolha terapêutica. Bases de Bases
Este trabalho teve como objetivos realizar uma revisão dados cruzadas
(n=57) (n=20)
bibliográfica da literatura sobre a terapia nutricional oral e ente-
ral e verificar evidências de sua eficácia tanto para tratamento
quanto para prevenção de recidivas e redução de sintomas da
Referências duplicadas
DII em Pediatria. excluídas (n=5)

MÉTODO Artigos avaliados por


A pesquisa bibliográfica foi realizada entre os meses de maio e título e resumo (n=72)
agosto de 2018 nas bases de dados PubMed, Web of Science
e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da
Saúde (Lilacs) utilizando os descritores em inglês: inflamma- Artigos excluídos:
tory bowel disease, diet e diet therapy; e os descritores em por- – Trabalhos que não
utilizaram nenhuma
tuguês: doenças inflamatórias intestinais e dietoterapia, cru-
intervenção
zando-se com os filtros de estudos em Pediatria e no máximo nutricional (n=20);
cinco anos de publicação, sendo aceitos artigos em inglês, – Estudos de caso,
espanhol e português. cartas editoriais,
revisões, estudos
Após triagem por leitura de títulos e resumos, foram excluí-
feitos exclusivamente
dos trabalhos que não usaram nenhuma intervenção nutricional, com adultos e estudos
estudos de caso, cartas editoriais, revisões, estudos feitos exclu- mistos com crianças e
sivamente com adultos, trabalhos duplicados e estudos mistos adultos com mais de
um terço da população
com crianças e adultos com mais de um terço da população
adulta ou diferença de
adulta ou diferença de idade maior que 20 anos. idade maior que 20
anos (n=36)
Intervenções dietéticas nas
doenças inflamatórias intestinais
O total de 57 artigos foi encontrado nas bases de dados, outros Artigos incluídos na
20 foram obtidos por meio de buscas cruzadas. Após as exclu- revisão (n=16)
sões, 16 artigos foram selecionados para este estudo, todos na
língua inglesa (Figura 1). Dos 16 artigos, nove abordam o uso Figura 1 Fluxograma da seleção de artigos.

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Souza GN et al.

administração da dieta, com sonda para os pacientes que não mantiveram a recomendação de seis a oito semanas de NEE
aceitaram o sabor da fórmula ou que estavam impossibilitados como protocolo, e a maioria deles conseguiu incentivar os par-
de utilizar a via oral.6-12 ticipantes a completarem as oito semanas. De Bie et al., em
Quando comparada com o uso de corticoides sistêmicos ou 2013, utilizaram a terapia nutricional por apenas seis sema-
anti-TNF (fármaco imunomodulador), a NEE parece ser tão nas e demonstraram efetividade da dieta em termos de remis-
eficaz quanto os medicamentos para indução da remissão clí- são, porém foi constatado aumento de sintomas nas primei-
nica da DC, caracterizada por redução do índice de atividade da ras semanas após o fim do curso de NEE, e foram verificadas
doença (pediatric Crohn’s Disease activity index — PCDAI).6,8,10,12 altas taxas de recidiva apesar do uso frequente de azatioprina
Além disso, existem as vantagens de minimizar efeitos adversos, (fármaco imunossupressor) como tratamento de manutenção,
de melhorar o estado nutricional e de promover recuperação da sugerindo que poderia ter havido melhores benefícios do uso
mucosa intestinal em crianças, analisada pela dosagem de cal- prolongado da NEE.14
protectina fecal, que se distingue como um marcador inflama- Analisando-se aspectos clínicos e laboratoriais, viu-se que
tório sensível da mucosa intestinal, sendo bem correlacionado o curso de NEE melhorou significativamente peso, albumina,
com achados endoscópicos.6,7,10-14 Apesar de a melhora clínica velocidade de hemossedimentação (VHS), hemoglobina e hema-
ser semelhante à das diferentes terapias, não houve comparação tócrito, com diminuição de marcadores de inflamação como
de remissão endoscópica de mucosa nos estudos. proteína C-reativa (PCR) e calprotectina fecal.7,10,14
Soo et al., em 2013, compararam a densidade mineral óssea Grover et al. perceberam que a NEE também foi capaz de
(DMO) corrigida para idade e estatura, por meio de densito- promover boa resposta endoscópica com redução das taxas de
metria por dupla emissão de raios X (DEXA), entre um grupo recidiva, hospitalização, necessidade de anti-TNF e ressecção
que recebeu NEE e outro que recebeu corticoide como terapia cirúrgica em um ano após a remissão.11
de indução de remissão por seis a oito semanas. Foram anali- Apesar de a patogênese da DII ser complexa, alguns estu-
sadas as mudanças na DMO (no início do estudo e após 12 a dos indicam relação direta com a disbiose principalmente por
18 semanas de acompanhamento) nos dois grupos, e, embora intermédio da desregulação da indução do sistema imune, o
não tenha havido diferença estatística, a mudança no z-score foi que reforça a necessidade de intervenções dietéticas que atuem
maior nos pacientes que receberam NEE em comparação com de forma protetiva contra a inflamação intestinal.15-17 Os meca-
os que receberam corticoide. Os autores sugeriram que provavel- nismos pelos quais a NEE age no intestino, porém, ainda não
mente o resultado tenha relevância clínica, já que a mudança na são bem esclarecidos. Alguns estudos apontam para modifica-
DMO foi perto de 0 no grupo que recebeu corticoide, e ainda ção da microbiota intestinal, redução da exposição da mucosa
afirmaram que o uso prolongado de altas doses do medicamento a antígenos alimentares provenientes da dieta convencional,
pode provocar prejuízos no crescimento e na perda de massa diminuição da síntese intestinal de mediadores inflamatórios
óssea, especialmente nos adolescentes. Nesse mesmo estudo, após por causa da redução do fornecimento de gordura e maior
um ano de acompanhamento, não houve diferença nas taxas de fornecimento de micronutrientes ao intestino inflamado.7,9,13
remissão e recidiva entre os grupos, mas o­ bservou‑se melhora O que também ainda não está claro é se a localização da
do peso para idade no grupo que recebeu NEE.12 doença influencia no resultado do tratamento nutricional.
Depois de alcançada a remissão da DC com a utilização Atualmente, recomenda-se o uso da NEE para qualquer topo-
de NEE ou corticoide por um período de seis a oito semanas, grafia da DC luminal.5
Hojsak et al., em 2014, analisaram a influência de alguns fato- Segundo a ESPGHAN, a NEE não é indicada para pacien-
res (como idade, peso para estatura, uso de medicamentos e de tes com RCU.5 A European Society for Clinical Nutrition and
NEE) na duração do período de remissão e observaram que, Metabolism (ESPEN) afirma que essa dieta parece ser segura e
após um ano, somente a NEE se mostrou como um fator pro- é recomendada apenas como terapia adjuvante ao tratamento
tetor contra a recidiva da doença. Além disso, a duração do nutricional padrão em pacientes com RCU grave.4 Não foram
período de remissão foi significativamente maior nos pacientes encontrados estudos recentes sobre o uso de NEE em pacien-
que utilizaram a NEE como terapia de indução do que naque- tes pediátricos com RCU.
les que recorreram a corticoides.8
Quanto ao período de uso da NEE, a European Society Nutrição enteral parcial
for Paediatric Gastroenterology Hepatology and Nutrition A nutrição enteral parcial (NEP) consiste no fornecimento de
(ESPGHAN) recomenda que seja de pelo menos seis sema- uma fórmula líquida nutricionalmente balanceada, com a fina-
nas, embora a cicatrização de mucosa seja observada em geral lidade de complementar a dieta composta de alimentos sólidos
após oito semanas.5 Todos os estudos analisados nessa revisão (sendo irrestrita ou de exclusão), e está sendo estudada como

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Terapia nutricional nas doenças inflamatórias intestinais: revisão

terapia de manutenção com o objetivo de prolongar o tempo são limitadas quanto ao seu uso em Pediatria, não sendo indi-
de remissão da DC, mas não há ainda consenso ou recomen- cado como monoterapia na manutenção de remissão da DC.5
dação sobre seu uso.4,5 A maioria dos estudos encontrados para NE apresen-
Konno et al., em 2015, demonstraram que a oferta de tou limitações, como o delineamento retrospectivo, pesqui-
pelo menos 30 kcal/kg/dia de dieta elementar como terapia sas em centros únicos, e com possíveis perdas de dados, já
de manutenção (após indução da remissão) apresentou efeito que as informações foram obtidas em prontuário médico.
protetor contra recidiva, controlando complicações, adiando Além disso, a população amostral era heterogênea e grande
a necessidade cirúrgica e o uso de medicamentos (corticoi- parte dos participantes utilizou tratamento medicamentoso
des, imunossupressores e anti-TNF), sem diferença entre concomitante, o que propõe a necessidade de realização de
localização ou fenótipo da doença. Porém, em conjunto com estudos prospectivos, como ensaios clínicos controlados, com
a dieta, foram utilizados aminossalicilatos, que modulam a randomização estratificada (de acordo com uso de medica-
secreção de citocinas pró-inflamatórias, sendo um viés para mento) e multicêntricos.
o resultado final.13
Duncan et al., em 2014, utilizaram NEE para indução da Dieta específica de carboidratos
remissão da DC, e após oito semanas, os pacientes foram enco- A dieta específica de carboidratos (specific carbohydrate
rajados a consumir 25% do volume inicial da dieta (polimérica diet — SCD) foi descrita em 1920 por Hass como terapia
ou oligomérica, dependendo das condições do paciente) até para doença celíaca e foi posteriormente estudada nas DII.18
completar um ano de acompanhamento. Após seis meses, os Consiste na restrição da maioria dos carboidratos (como amido,
pacientes que receberam NEP isoladamente como tratamento polissacarídeos e dissacarídeos — exceto monossacarídeos), com
de manutenção mantiveram a remissão clínica mais significati- aumento do consumo de proteínas e gorduras, pois se acredita
vamente em comparação com o grupo que não recebeu nenhum que os poli- e os dissacarídeos estejam implicados na indução
tratamento (6/6 vs. 2/13, respectivamente, p=0,003). O grupo da resposta inflamatória e acidez do TGI, uma vez que a má
que recebeu NEP+azatioprina apresentou taxa de remissão três absorção desses carboidratos resulta no crescimento expressivo
vezes maior do que o grupo sem tratamento. Ao final de um de bactérias e leveduras.19
ano de acompanhamento, foi observado que o uso de NEP foi Alguns estudos mostraram associação positiva entre SCD
comparável ao de azatioprina. Apesar dos resultados promisso- e DII, com redução dos sintomas e da inflamação e modifica-
res, a baixa adesão à NEP (31% dos participantes) demonstra ção nos padrões antropométricos. Foram encontrados cinco
o fator limitante da palatabilidade e da monotonia de sabor trabalhos em Pediatria que descreveram o uso da SCD como
nessa modalidade de tratamento.9 tratamento dietético e seus possíveis desfechos.
Gavin et al., em 2018, demonstraram que o uso de NEP Obih et al., em 2016, revisaram os prontuários de 26 crian-
como tratamento de manutenção por 4 meses após a remissão ças com DII que receberam a SCD concomitantemente ao tra-
proporcionou taxa de recidiva similar nos que receberam dieta tamento medicamentoso com imunossupressores; desses pron-
convencional. Além disso, verificou-se que a NE aumentou o tuários, apenas seis tinham o diagnóstico de RCU. As crianças
risco para sobrepeso nos pacientes.6 foram acompanhadas por 24 meses em relação aos parâmetros
Em uma coorte prospectiva realizada no Canadá e nos bioquímicos de VHS, PCR e albumina (como marcadores infla-
Estados Unidos, 90 pacientes foram divididos em três grupos matórios) e hematócrito (como marcador para anemia), além
de acordo com a terapia de indução da remissão: NEP, NEE e da avaliação antropométrica, com índice de massa corpórea
anti-TNF. Ao final de oito semanas, os resultados foram posi- (IMC) e velocidade de crescimento (VC). Tanto nos pacien-
tivos para NEE e anti-TNF no que diz respeito à cicatrização tes com diagnóstico de DC quanto de RCU, houve melhora
de mucosa, e a NEE ainda se mostrou superior à NEP em ter- no padrão inflamatório sérico, com redução na VHS e PCR e
mos de qualidade de vida e redução da inflamação intestinal, aumento de albumina. Observou-se também melhora da ane-
avaliada pela queda da calprotectina fecal, apesar de a ingestão mia (com aumento do hematócrito) e do estado nutricional
calórica ter sido maior no grupo que recebeu NEP.10 (aumento do IMC e VC normal). Entretanto, dos seis pacien-
Não obstante os resultados promissores em termos de tempo tes com RCU, apenas três responderam positivamente à SCD
de recidiva, são necessários mais estudos para ratificar a indi- (os outros três foram descontinuados do estudo, pois não apre-
cação da NEP, além de estabelecer a dose e a duração ótimas sentaram resultado satisfatório, voltando ao tratamento con-
para manutenção da remissão. Por ora, esse tipo de tratamento vencional). Apesar de a SCD mostrar-se positiva em ambas as
é uma opção para auxiliar a manter a remissão em pacientes patologias, o número amostral de RCU é relativamente baixo
com doença leve e baixo risco de recidiva, mas as evidências quando comparado com DC.20

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Outro estudo analisou o uso da SCD como terapia exclu- Apesar dos resultados positivos dos estudos apresentados,
siva em sete pacientes com DC utilizando os mesmos parâme- os autores mostram que eles não são conclusivos em dizer que
tros bioquímicos e antropométricos. Os autores constataram ambas as dietas asseguram a remissão das DII. Fatores como
também melhora na resposta inflamatória, com diminuição da número amostral pequeno, desenho retrospectivo da maioria
PCR, aumento da albumina e hematócrito. Após três meses dos estudos, combinação de dieta e tratamento medicamentoso
do início da dieta, notaram-se redução dos sintomas clínicos impedem o estabelecimento de recomendações. Essas limita-
e ganho de peso. A VC dos pacientes manteve-se conforme a ções levam a ESPGHAN a não indicar esse tipo de intervenção
normalidade.21 para crianças com essas doenças.5 Entretanto, mesmo sendo
Além dos parâmetros bioquímicos, antropométricos e clíni- intervenções dietéticas restritivas e inconclusivas a respeito de
cos, um estudo realizado em Atlanta, com nove pacientes com seus efeitos tanto no período de indução quanto no de remis-
DC, avaliou a integridade da mucosa (por meio de endoscopia) são, deve-se considerar a viabilidade da dieta, não apenas do
e inflamação (pelo score de Lewis) nos pacientes que recebiam ponto de vista médico, mas também do paciente, pois se trata
SCD+tratamento medicamentoso, por um período de 12 a de intervenções em que a dieta oral é priorizada, proporcio-
52 semanas. Os resultados dos parâmetros bioquímicos e antro- nando todos os benefícios sociais da alimentação oral.
pométricos foram parecidos com os de outros estudos. Os pesqui-
sadores notaram melhora na mucosa intestinal com cicatrização Dieta de exclusão na Doença de Crohn
de úlceras após 12 semanas de tratamento. Após a 52ª semana, A dieta de exclusão na Doença de Crohn (Crohn’s Disease exclu-
apenas sete pacientes continuaram no estudo e apresentaram sion diet — CDED) consiste em oferecer frutas, verduras e
redução no índice de atividade da DC, entretanto a inflamação legumes, alguns tipos de carne e carboidratos, sendo limitada
de mucosa pelo score de Lewis estava maior do que na 12ª semana ou excluída a ingestão de gordura animal, carnes processadas
em quatro pacientes. Entre os demais, dois apresentaram cicatri- (inclusive peixe), glúten, laticínios, emulsificantes, enlatados e
zação da mucosa e um continuou a apresentar melhora.22 alguns monossacarídeos. Seu uso é preconizado em conjunto
Como a SCD é uma dieta restritiva que exige alterações no com NE, constituída de fórmula polimérica que forneça 50%
padrão alimentar, tornando-a dificultosa em longo prazo, alguns da ingestão calórica diária.5,25,26
protocolos utilizam a liberação da dieta por tempo determinado Não se sabe por qual mecanismo essa terapia age, mas é
(quando os sintomas e parâmetros bioquímicos se encontram proposto que a exclusão de alguns alimentos pode diminuir a
estáveis) a pedido do paciente e com base em suas preferências translocação bacteriana e impedir a ação pró-inflamatória de
alimentares. Essa liberação geralmente consiste na modificação alguns componentes dietéticos, facilitando até mesmo a ação
da SCD (modified specific carbohydrate diet — mSCD), com dos medicamentos.25,26 Não há evidência para seu uso como
introdução de um ou dois alimentos proibidos por semana ou terapia de indução de remissão.5
dia, entretanto não há consenso sobre a prescrição desse pro- Foram encontrados dois trabalhos recentes sobre o uso da
tocolo, pois não se sabe se este garante a remissão da inflama- CDED e da NE em Pediatria, realizados pelos mesmos autores
ção e sintomas da doença. em Israel. Sigall-Boneh et al., em 2014, analisaram o forneci-
Por isso, Burgis et al., em 2016, analisaram os efeitos da mento de CDED+NE pelo período de seis semanas e obtive-
SCD por 12 meses e os efeitos após a mSCD por oito meses ram respostas positivas, como alcance da remissão clínica entre
em 11 pacientes. O estudo demonstrou melhora nos valores a maioria dos pacientes pediátricos, melhora do PCDAI, PCR,
de albumina, VHS e hematócrito, assim como em parâme- VHS, albumina e peso após 12 semanas de acompanhamento
tros antropométricos, mesmo após a utilização da mSCD. em pacientes com doença leve ou moderada. Por ser um padrão
Houve aumento no peso dos pacientes, com pequena redução institucional, todos os pacientes utilizaram imunomodulador,
sem significância estatística após a liberação.23 não ficando claro se a indução da remissão ocorreu de fato pelo
Wahbeh et al., em 2017, avaliaram, além dos parâmetros fornecimento das dietas.25
bioquímicos e antropométricos, a cicatrização da mucosa no Já em 2017, Sigall-Boneh et al. avaliaram o fornecimento
TGI alto e baixo (com uso de endoscopia) em sete pacientes da mesma terapia nutricional pelo mesmo período e obser-
que recebiam tanto a SCD quanto a mSCD. Notou-se que, varam que essa estratégia pode induzir a remissão da DC ou,
em ambas as dietas, a maioria dos pacientes manteve a PCR pelo menos, favorecer resposta clínica, avaliada pela queda
de acordo com a normalidade, com albumina, hematócrito e do indicador de atividade da doença Harvey‑Bradshaw index
calprotectina fecal levemente alterados. Não houve alteração (HBI) e queda dos marcadores inflamatórios. Segundo os
no IMC, e os autores não observaram cicatrização da mucosa autores, os desfechos positivos deram-se pela redução
em nenhum paciente.24 da exposição do intestino a fatores desencadeantes de

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Terapia nutricional nas doenças inflamatórias intestinais: revisão

inflamação. Porém, como no outro estudo, existe viés, já favoráveis ao uso de probióticos em conjunto com tratamento
que todos os pacientes fizeram uso de anti-TNF desde o padrão para indução da remissão em RCU na Pediatria. Nenhuma
início do tratamento.26 das sociedades indica seu uso na DC.4,5
O pequeno número de estudos longitudinais sobre o uso da Não há recomendação para o uso de prebióticos, sim-
CDED é um fator limitante para qualquer tipo de indicação. bióticos ou ômega-3 nas DII. Já o uso de fibras alimenta-
Ainda assim, alguns estudos demonstraram que existe associa- res é positivo para melhora das funções gastrointestinais,
ção entre baixo risco para desenvolvimento de DII e dieta com podendo ser efetivo na RCU e, quando associado à tera-
alto consumo de fibras, frutas, verduras e legumes e entre risco pia padrão, pode auxiliar no tratamento de manutenção da
aumentado de DII e dieta rica em ácido linoleico, gordura e doença. Não deve ser recomendada restrição de fibras em
proteína animal e açúcar refinado. Como as dietas ocidentais pacientes com DII, salvo para aqueles que apresentem fenó-
apresentam características de risco para o desenvolvimento de tipo estenosante da doença.4,5
DII, pressupõe-se que dietas de exclusão ou restrição de certos Estudos envolvendo a suplementação de curcumina vêm
tipos de alimento, como a CDED ou as dietas semivegetaria- sendo descritos na literatura como estratégia no tratamento
nas, possam auxiliar na redução de sintomas e no prolonga- das DII. Acredita-se que por intermédio de sua ação anti-in-
mento do tempo de remissão, porém mais estudos são neces- flamatória e antioxidante seja possível alcançar a remissão na
sários para validar o seu uso.3,27-29 RCU,33-35 bem como a redução dos sintomas e marcadores
inflamatórios na DC,36 entretanto não há consenso sobre seu
Dieta low fermentable oligo-, di- and poder nutracêutico nem sobre a dosagem segura recomendada.37
mono-saccharides and polyol A ESPGHAN diz que a curcumina pode ser considerada no
A discussão dos fermentable oligo-, di- and mono-saccharides tratamento da RCU, tanto para indução quanto para remis-
and polyol (FODMAPs) na DII (baixo teor de carboidratos são, mas ainda é necessário estabelecer uma dosagem segura de
fermentáveis, como oligossacarídeos, dissacarídeos, monos- suplementação em Pediatria.38
sacarídeos e polióis)30 fundamenta-se em duas hipóteses que Não foram encontrados estudos recentes sobre suplemen-
envolvem sua digestão. Acredita-se que os FODMAPs sejam tação na DII.
moléculas osmoticamente ativas, o que causa aumento de água O estudo da terapia nutricional oral e enteral nas DII é
intraluminal no intestino delgado, distensão abdominal e con- complexo e está sendo cada vez mais discutido. A NEE con-
sequentemente aumento do trânsito orocecal, prejudicando a tinua sendo uma terapia tão eficaz quanto os medicamentos
absorção. Outra hipótese é que os FODMAPs atingem a parte para indução da remissão na DC em pediatria, e o uso da NEP
do colón que não os absorve, ocasionando rápida fermentação para tratamento de manutenção vem ganhando mais relevân-
pelas bactérias colônicas, levando a flatulência, inchaço e des- cia, especialmente pela possibilidade de diminuição do uso de
conforto por meio do aumento da produção de gás e disten- medicamentos nessa fase da doença.
são.31,32 Logo, uma dieta com baixo conteúdo de FODMAPs Para essa revisão, foram encontrados poucos estudos ori-
seria benéfica para controle de sintomas. Apesar dessas espe- ginais e recentes, com número pequeno de participantes e
culações, não foi encontrado nenhum estudo recente que uti- alguns vieses de métodos, como discutido ao longo do traba-
lize essa dieta em crianças com DII e a ESPGHAN não reco- lho. Essas limitações não permitem a indicação das dietas via
menda o seu uso.5 oral para indução da remissão ou prevenção de recidivas nos
pacientes com DII, principalmente pelo uso concomitante
Suplementação nas de medicamentos durante o tratamento. Possivelmente, essas
doenças inflamatórias intestinais intervenções podem auxiliar no controle de sintomas das DII,
Especialistas afirmam que não existem dietas específicas para mas ensaios clínicos randomizados e controlados são neces-
a fase de remissão das DII, porém algumas estratégias podem sários para estabelecer indicações seguras e eficazes para o
auxiliar, como o uso da cepa de Escherichia coli Nissle, 1917 e público pediátrico.
da VSL#3 (mistura de bactérias acidoláticas e bifidobactérias).
Esses probióticos podem ser considerados para manter a remis- Financiamento
são em pacientes com RCU.4,5 O estudo não recebeu financiamento.
Além disso, a ESPEN afirma que os probióticos são efe-
tivos para induzir a remissão da RCU de leve a moderada. Conflito de interesses
A ESPGHAN mostra que as evidências são limitadas, mas Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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Rev Paul Pediatr. 2020;38:e2019032
Souza GN et al.

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© 2020 Sociedade de Pediatria de São Paulo. Publicado por Zeppelini Publishers.


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