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Miguel se ha convertido en Michael y la salvaci6n ahora radica en una mdquina de
escribir que se va oxidando. Las imagenes visuales de la primera secci6n del poema-
rio -las gaviotas de Antonioni, la trizadura de la habitaci6n, <Hiroshima, mon
amour>> y el mapa de Amsterdam en el muro- son reemplazadas por imagenes de
bibliotecas y de libros. La ciudad se ha transformado en un <<infierno simdtrico>
y los recuerdos de mtsica y maestros en cables de alta tensi6n, rieles que no van
a lado alguno, jeringuillas con placer de doscientos d6lares y cuerpos que se estre-
llan contra el pavimento. El objeto punzante que provocard la aniquilaci6n del
amante ya no es el lipiz de hacer cuentas, sino la aguja sucia de una hipodermica:
Desnuda
bajo un cuadro de Modigliani
tu madre limpia la jeringa con lentitud
y me sonrie como un horno crematorio (p. 47).
En El mapa de Amsterdam Enrique Giordano explora todas las variaciones del
tema del amor y la destrucci6n. Canto de nostalgia y elegia a los sueios devastados,
presenta el amor y la creaci6n como inicas posibilidades de salvaci6n. A trav6s del
viaje del personaje central, el Alejandro-poeta-amante, Giordano recrea los sueios
y fracasos de una generaci6n en dos extremos del continente. Consciente de su escri-
tura, el texto alude constantemente a su procedimiento discursivo. Frecuentemente
menciona el tdrmino <variaci6n>, leit-motiv del libro en sus multiples niveles. Se
habla de <<una <<Todas
gaviota (que) vuela perdida / sobre todas las variaciones del gris>>
(p. 41), se conocen las variaciones del silencio / todas las contradicciones del
dolor>> (p. 45). Como en un poema sinf6nico, el autor juega con motivos que se
repiten, con frases que se reiteran, en una combinaci6n de espejos que se multipli-
ca al infinito y confiere gran cohesi6n a todo el texto.
Con una carta que nos devuelve a la caja china exterior, El mapa de Amsterdam
se cierra como se habia abierto. Enrique, ahora con un apellido, Giordano, envia
los poemas de Alejandro a una editorial chilena para su publicaci6n. Felizmente,
Libros del Maiten lo publicaron de inmediato.
MARITHELMA COSTA
Lehman College.
Rui BARBOSA: Cartas a Noiva, prefdcio de Maria Jose de Queiroz. Rio de Janeiro:
Fundagio Casa Rui Barbosa/Civilizacao Brasileira, 1982.
A epistolografia amorosa de figuras ilustres, nunca um dos generos literdrios
mais prediletos do puiblico leitor, 6, na dpoca atual, coisa que se restringe, quase
exclusivamente, a edic6es destinadas a bibliotecas de pesquisas e aos acervos de
bi6grafos e demais estudiosos. Mdxime quando se trata da correspondencia senti-
mental de um estadista, advogado ou orador oitocentista tido por modelo da retidto
civica e religiosa e pouco propenso, ao que parece, as efusoes do coragio.
As Cartas a Noiva de Rui Barbosa nio constituem nenhuma excelo a regra.
Nao foram, nem serao em edicoes futuras, um best-seller popular dos que abalam,
vez por outra, o mundo literdrio brasileiro. Para um puiblico contemporineo, pouco
afeito a formalidade dos costumes romanticos e ao estilo florido dos bilhetes amoro-
sos dos antepassados, tais epistolas, a maioria delas redigidas he quase um s6culo
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numa linguagem pouco condizente com os gostos atuais, hao de possuir escassos atra-
tivos. O critico literario e o historiador, por6m, sentirao, a meu ver, um grande
deleite ao folhearem e digerirem o presente volume, pelo que revela nao s6 dos
valores e do c6digo epistolografico da 6poca mas tamb6m da vida intima e da fala
amorosa do c6lebre homem piblico.
A carta -pelo menos a carta confidencial- desempenha, em certa medida, o
papel de confissao, de mem6ria, porquanto despe e retrata sem adornos a almas,
o Amago do missivista. E um desabafo livre de inibicoes e artificialidades feito a
outro ser humano, desabafo esse que, via de regra, nao se destina a divulga9ao pu-
blica. Assim, o bilhete amoroso, sobretudo quando existe uma separacao fisica, vem
a ser um dialogo do Eu com um Tu amado, umrn dialogo secreto, particular, com
o Outro ausente, um encontro sucedineo realizado na esperanca de aplacar as sauda-
des sentidas pelo apaixonado correspondente. <<A ilusao da presenca, sugerida pelo
dialogo, alivia-o das angustias da solido>>, escreve Maria Jose de Queiroz, num
estudo critico que prefacia o volume. <<Trata de povoar, com o solil6quio, o vazio
a que se sente condenado (p. 35).
A maior parte de correspondencia amorosa aqui publicada data do ano 1876,
epoca em que a futura <Aguia de Haia>> deixa a cidade natal de Salvador, Bahia,
para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Celebrara-se o noivado de Rui (tinha ape-
nas 27 anos) com Maria Augusta pouco antes da sua partida para a Corte. A morte
prematura da mae, bem como a coincidencia de a noiva possuir o mesmo nome de
batismo desta, levam o jovem advogado a ver na bondade, beleza, candura e pureza
da prometida uma continua9ao de tais qualidades maternas. Opera-se nele, segundo
Queiroz, uma <transferencia de afeto>> da figura idealizada da finada genitora para
a da jovem noiva. Tal fen6meno pervaga a sua correspondencia com a Maria Augus-
ta e ha de durar a vida inteira. Destarte, a vida no Rio, que chega a representar-lhe
uma especie de desterro da bem-amada, 6 apenas um reflexo, uma duplicago per-
versa da separaco do cold materno, de uma Idade Dourada para a qual ha de
tornar. Ainda a bordo do navio <Habsburg>> a caminho do Rio, ele escreve: <<Teu
nome, noiva formosa e pura, 6 o nome de minha mae. Como ela iluminou os pri-
mneiros anos de minha vida, tu seras a estrela da que me resta! Como ela foi o anjo
da guarda do meu passado, tu seras o do meu futuro, e j6 es o do meu presente!
Os sentimentos que ela semeou em mim tu os colheras! Querida noiva, o nome de
minha me foi Deus quem to escolheu, como foi decerto Ele tamb6m que te quis
minha esposa! Noiva de minha alma, o nome de minha Mae, que tu tens, 6 a ben-
gio dela ao nosso amor, a protecao do c6u a nossa alianga, a garantia das esperan-
cas de n6s dois>> (p. 68). Diga-se de passagem que 6 bern conhecida a ligagao do
marianismo no Brasil com o Parnasianismo e o Positivismo entao reinantes.
A prosa ruiana que aparece nessa sua correspondencia intima corn a noiva de
fato nao difere substancialmente da empregada pelos seus coetaneos, quer no classi-
cismo da linguagem, quer no c6digo simb6lico ou metaf6rico do falar amoroso.
O noivo dirige-se a bem-amada tratando-a de tu e valendo-se amiude de hipocoristi-
cos e de outros vocativos carinhosos: <Cota>,
noiva, <<casta
<<minha<<a <<minha
noiva>, <<formosa flor de minha vida>,
Cota, muito querida
minha estrela, o meu norte,
o meu anjo-da-guarda>>. Serve-se de uma sintaxe correta, formal, florida e, nos tem-
pos atuais, um tanto bombastica, na qual prevalecem os periodos longos; as excla-
mac6es e interrogac6es ret6ricas; as ap6strofes; a colocaao enclitica dos pronomes
obliquos (confesso-te, dou-te, sou-lhe agradecido, etc.); a mes6clise, lembrar-se-ia,
dar-te-a, fa-lo-ei, etc.); a combinacao dos pronomes obliquos (no-lo, mo, mas, to,
lhas, etc.); e a anteposigo do pronome obliquo ao adverbio de negaao (que me
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nao agrada). Estilo clissico, escorreito, apurado, sim. No entanto, nao admira que
haja nele um certo elemento grandiloqiiente. E de notar, a esse respeito, que Rui
Barbosa, apesar das diferengas esteticas e de escola, nasceu s6 dois anos depois de
Castro Alves, tendo-se criado em plena 6poca romAntica e condoreira e aderindo
mais tarde, a exemplo do ilustre conterraneo, a campanha abolicionista.
De fato, revela-se, no transcurso desse seu primeiro <exilio , atrav6s da corres-
pondencia amorosa aqui publicada, um Rui Barbosa desconhecido, bemn diferente
da estitua <<calcificada dos foros brasileiros e internacionais a qual se encontra nos
livros de hist6ria. Vislumbra-se, pois, um Rui muito mais humano, um ser de carne
e osso que respira e chora, que sente anelos, ansiedades, inseguranca, decepc6es e
nostalgia. Presenciamos, pela primeira vez, nao s6 os eventos hist6ricos brasileiros
da 6poca, dos quais participou o jovem baiano, mas tambem os pequenos dramas
de bastidores tantas vezes ignorados mas que freqiientemente os influenciam. Assis-
timos ao idjlio a distancia dos noivos, a angistia ocasionada pela sua separacio,
as vit6rias e derrotas de um Rui mono e aos resultantes momentos de regozijo e de
pessimismo que ele compartilha com a futura esposa. E percebe-se, por toda essa
leitura, que, ao contririo dos correspondentes mediocres, que costuman se refugiar
nos lugares-comnuns do estilo epistolar da sua epoca, o politico, tribuno e jornalista
novato, se bem que nao se afaste muitos passos dos canones estilisticos imperantes,
chega, nos melhores momentos, a transcender a maquinalidade, a impessoalidade
impostas pela obediencia cega a tais conven96es. Assim cria uma fala epistolografica
amorosa pr6pria, mas somente em parte, uma parole que se distingue, em alguns
aspectos -mas nao totalmente- da langue, ou falar, vigente.
Tarnmbm figuram no presente volume algumas cartas escritas anos depois a espo-
sa por um Rui Barbosa jt maduro, na ocasiao do seu exilio politico na Argentina
(1893) e na da sua participacio da II Conferencia da Paz, celebrada em Haia (1907),
bem como a correspondencia epistolar e telegrdfica trocada dentro do Brasil pelos
dois c8njuges durante o periodo 1911-19. Apesar de um certo valor documental, tais
comunicag6es, no entanto, acrescentam pouco a fala amorosa do pr6-homem, ji
fixada nas epistolas da 6poca anterior. O livro conclui com um indice onomtstico
de todas as pessoas mencionadas nas cartas e no ensaio critico.
Ao terminarmos a leitura das Cartas a Noiva de Rui Barbosa, sentimo-nos mais
c8nscios do lado intimo, oculto de um homem piblico, ha muito despojado pelos
livros de hist6ria de sua humanidade, de seus desejos e motivac6es, a maneira de
um her6i dpico, ser feito de puras acies mas essencialmente opaco. Se bem que
tenhamos, no caso de Rui, nao s6 a hist6ria das facanhas mas tambem a palavra
escrita do jurista, do orador e do jornalista, mesmo assim tem predominado a ima-
gem de uma figura dinamica, apaixonada pelas causas, sim, mas altamente raciona-
lista, de um homem de acao isento das paixoes e fraquezas pr6prias do homo sa-
piens. Com a publicapio de sua correspondencia amorosa, vemo-nos obrigados, por-
tanto, a reconhecer-lhe a condigio de homem imperfeito passivel de emo 6es e
falhas e a restituir-lhe, de uma vez por todas, a inteireza da alma.
BOBBY J. CHAMBERLAIN
University of Pittsburgh.