Literatura e filosofia: entre as razões do
sentimento e os prazeres da inteligência
Arlenice Almeida da Silva
M TEMPOS de aproximação e unifica- condutor coerente pois baseado em prin-
E ção lusófonos, com direito a reforma cípios filosóficos e estéticos que norteiam
ortográfica, o livro Melancolia e apocalip- a leitura das obras; ou seja, as leituras aqui
se, estudos sobre o pensamento português e realizadas exibem um eixo hermenêutico
brasileiro, de Leonel Ribeiro dos Santos, preciso e claro, mesmo que por vezes o
merece ser conhecido do leitor brasileiro. autor resvale para um perspectivismo de
Se bem que esse professor de Filosofia da fundo nietzschiano, recusando qualquer
Universidade de Lisboa dispense apresen- espírito de sistema e concorde com Fer-
tação no meio filosófico brasileiro, já que nando Pessoa no Livro do desassossego de
há vários anos tem dado inúmeras contri- que “os sentidos possíveis são muitos”, já
buições em universidades no Brasil. Mas que os homens exprimem apenas “uma
a obra em questão instiga especialmente nota à margem de um texto apagado de
pelo assunto, pois nela o filósofo sustenta todo”.
a existência de um pensamento estético Percebe-se tal eixo no tratamento
português – e também de um brasileiro –, que nos dá o autor para a relação en-
apontando seus dilemas e especificidades, tre literatura e filosofia. Não se trata de
o que resulta em uma significativa contri- uma disciplina iluminar a outra, nem de
buição para o tema atualíssimo da relação recobrimento ou absorção de uma pela
entre literatura e filosofia. outra, pois aqui, definitivamente, a litera-
Evidentemente, o livro pode ser lido tura não é o outro da filosofia. Trata-se,
como parte dos chamados estudos cul- ao contrário, de perceber que há desde o
turais, na linha das análises históricas surgimento da Estética no final do sécu-
das ideias de uma época ou país; mas, lo XVIII, acentua Leonel dos Santos, um
na verdade, estamos diante de exercícios remanejamento das hierarquias no cam-
rigorosos de filosofia, nos quais o autor po do conhecimento que culmina com
busca forjar conceitos que lhe permitam a efetuação de uma equivalência entre
interpretar de modo qualitativo um sig- as duas, de modo que tanto a literatura
nificativo conjunto de obras de arte e de como a filosofia são, a partir de então,
ideias estéticas. Para tal, Leonel esquiva- essencialmente produção e exposição de
se de todo procedimento quantitativo, pensamento. Assim, em Antonio Vieira,
exaustivo ou enciclopédico ao fazer uma Fernando Pessoa ou Antero de Quental,
peculiar seleção de obras que a seu ver as obras não exibem apenas forma, esti-
merecem destaque no cenário cultural. lo e aspectos retóricos, mas “substância
Ou seja, nesses ensaios escritos entre e conteúdo de pensamento”, tarefa que
1992 e 2006, o autor enfrenta os dilemas exige do crítico uma nova postura inter-
da crítica de arte de maneira constitutiva, pretativa. Essa necessidade foi apontada
isto é, no próprio ato da leitura, o que também pelo filósofo brasileiro Benedito
resulta em um método dotado de um fio Nunes, que há alguns anos investiga miu-
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damente a relação entre poesia e filosofia. tico não se confina às artes, mas afirma-se
Também ciente dessa ruptura histórica, em todo fazer e criar espontâneos.
Nunes aponta para a urgência de se pensar Evidentemente, adverte Leonel dos
um novo método interpretativo, capaz de Santos, não se trata de romance de tese,
estabelecer um diálogo entre as discipli- ou de arte engajada, longe está disso sua
nas, mas que, considerando sobretudo a concepção de arte que é sempre uma for-
“guinada linguística”, ocorrida no início ma de exposição livre de uma ideia. Mas
do século XX, contemple o modo como não há tampouco nesses estudos uma
se dá a produção e a apropriação histórica análise formal de obras, como manda o
dos textos.1 Em que consiste, portanto, gosto contemporâneo, pois só apresen-
a crítica hermenêutica que encontramos tam alguns pequenos comentários sobre
em Melancolia e apocalipse? Também em estilo e retórica. O fato é que as leituras
uma confirmação da “guinada linguísti- realizadas pelo autor denunciam os limi-
ca” e na necessidade de desembocar, ao tes e impasses do debate estético contem-
fim e ao cabo, em uma inevitável análise porâneo, situando-se por isso em outra
de discurso? temporalidade, especificamente no terre-
Não exatamente. As escolhas feitas por no da gênese do conceito de autonomia
Santos recaem evidentemente em autores da obra de arte, nos tópicos que configu-
cujas obras possuem um forte acento filo- raram no final do século XVIII um cam-
sófico. Mas, para Leonel dos Santos, toda po histórico no qual a estética se consti-
autêntica obra de arte é uma “meditação tuiu pela primeira vez. Uma estética de
sobre o mundo”; ou, para usar lingua- matriz kantiana, e especialmente schille-
gem kantiana, toda obra dá a pensar. Um riana, que busca superar os dualismos en-
pensamento que não é atividade passiva, tre sensibilidade e entendimento, harmo-
recolhimento ou distanciamento, mas ges- nizando as faculdades do homem. Uma
tus, intervenção criativa no mundo; o que estética metafísica, que veicula tópicos
significa, ainda em termos kantianos, que como transcendência, harmonia, absolu-
por meio da estética, tratamos sim da arte, to, liberdade, e vê na arte uma promessa
mas, indiretamente, também da esfera da de plenitude; conceitos, por sua vez, for-
razão prática e do campo da moralidade. temente ancorados em uma filosofia da
É o que se verifica em Antonio Vieira, no natureza. Mas disso adverte-nos o autor,
qual história bíblica, história profana, len- pois, ao anunciar que a obra trata do pen-
das, messianismo, profecias são agencia- samento estético português contemporâ-
dos para “responder à urgência dos fatos neo, esclarece a curva histórica na qual
e situações do presente”; ou como diz, insere seus estudos: “o das relações entre
Leonel dos Santos, “em Vieira o sentido filosofia e literatura no pensamento euro-
passa sobretudo pela urgência de sua re- peu pós-kantiano e as poéticas e filosofias
alização efetiva na história” (p.105). Ou da natureza” (p.269).
em Eça de Queiroz, que para o autor foi Assim, não estamos especificamente
um crítico das soluções filosóficas de seu no campo das filosofias da linguagem.
tempo. Ou ainda, no tom apocalíptico de Tal olhar nostálgico, diriam alguns, é o
Vergílio Ferreira ao constatar a crise da eixo que guia a obra. É por essa razão que
consciência contemporânea; e, por fim, em um dos ensaios mais bem realizados
em Agostinho da Silva, para quem o poé- do livro, sobre Fernando Pessoa, Leo-
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nel trata apenas de Alberto Caieiro, por uma dimensão estética da filosofia, que
considerá-lo o único, e talvez o último, esta, na sua essencial tarefa de categori-
“poeta da natureza”. Com efeito, aqui o zação do real e de sistematização cate-
vínculo entre natureza e moral jamais é gorial sob princípios racionais, respon-
apresentado por ideias abstratas, mas pela de não só a um impulso lógico para o
conhecimento movido pelo sentimen-
e na própria manifestação sensível. Uma
to de verdade, mas é impelida também,
natureza entendida como antídoto à mo-
e porventura mais profundamente, por
dernidade instrumental e utilitária; uma
um instinto estético, pelo sentimento
natureza pensada como um processo de da beleza que é, na sua dimensão me-
“depuração” às avessas, permitindo um tafísica e também antropológica, uma
acesso ao simples por meio dos sentidos: variante da ideia e exigência de harmo-
“eu não tenho filosofia: tenho sentidos”, nia. (p.82)
diz Caieiro. Ou seja, é o campo do sensí-
Se não encontramos nesse vínculo en-
vel que desponta aqui em coloração críti-
tre natureza e moral, examinado caso a
ca exigindo legitimidade diante da racio-
caso, uma ordem linear de razões, bem
nalidade irrefreável. É por essa razão que
podemos localizar em uma linha sinuosa
Caieiro quer as “sensações verdadeiras”,
a presença do que o autor chama de pen-
o puro existir, a “paz da Natureza sem samento português. De Antonio Vieira a
gente”, “sem dentro”, só “Natureza por Agostinho Silva, haveria uma busca por
fora”, como diz em O guardador de reba- um procedimento intelectual dito por-
nhos, de 1912. tuguês; em termos mais suaves, por uma
Se a arte é poesia pensante, por sua “alma” pensante portuguesa. Não se tra-
vez a filosofia é “poética da inteligên- ta de nacionalismo tacanho, ou, no polo
cia”: “emoção acompanhada de um cer- oposto, exacerbado, mas de inserção do
to ritmo” e direcionada para a busca da nacional em um movimento cosmopoli-
verdade, diz o autor, sustentando que ta, dotado de universalidade; um nacio-
há um prazer também na apresentação nal que não imita servilmente o ideário
das ideias filosóficas. Em vários ensaios, da moda cultural, pois o reinterpreta de
especialmente no intitulado “Razões do acordo com a cor local; tal pensamento,
sentimento e prazeres da inteligência. que ora pode estar em Lisboa, ora em São
Sobre as ideias estéticas de Antonio Sér- Paulo ou no Rio de Janeiro, tampouco
gio”, Leonel dos Santos defende que há abandona o particular em sua indigên-
em todo processo de constituição de uma cia, valorizando-o nas obras ao dotá-lo
ciência elementos estéticos, sensíveis, que de universalidade e clareza. Em Antonio
enlaçam, por meio da atividade criadora, Vieira, por exemplo, Santos vê uma escri-
arte e ciência. Há prazer estético tanto na ta que, pautada pela necessidade de criar
procura da verdade como na defesa dos evidências, constitui-se em uma filosofia.
valores morais, políticos ou religiosos. E Em Vieira há pragmatismo e liberdade;
ao recuperar o pensamento de um autor desejo e esperança, ou seja, uma inter-
pouco conhecido como Cunha Seixas, venção prática orientada por uma visão
Leonel esclarece sua tese: moral do mundo. A filosofia messiânica
Tal como Kant, tal como o seu con- desse jesuíta não é, assim, anacrônica, mas
temporâneo Nietzsche, também Seixas condizente com seu tempo, na medida
parece ter assim compreendido que há em que, ao procurar reagir ao contexto
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moderno de uma primeira globalização, tradicional da literatura portuguesa –, e
Vieira vislumbra Portugal como aquele construção dramática; “uma complexa
país cuja tarefa é a de “pôr os mundos em encenação e orquestração retórica” de
comunicação” (p.13). modo a configurar uma das dimensões da
A revelação profética, presente em crise da consciência moderna, e, assim,
História do futuro, não é uma recaída apontar para o problema filosófico da dis-
medieval, mas uma forma de “realismo solução da identidade e fragmentação do
utópico”: ela é uma ação política, uma Eu. Só assim, munido desse referencial
intervenção fundamentada na inspiração histórico-retórico, seria possível perce-
divina, mas que é “uma resposta crítica ber como os versos de Caieiro colocam
à emergente razão política meramente sob suspeita o conceito hegeliano de to-
pragmática e sem horizonte teleológico, talidade, ou a ideia de uma consciência
que, acreditando ter por fim compreen- unificante absoluta, questionando radi-
dido a mecânica dos desejos e paixões calmente a estrutura central do conceito
humanas, pretende reduzir estes à ordem de modernidade. A crítica de Caieiro não
geométrica das razões” (p.44). O que desemboca em niilismo, sublinha Santos,
marca o tempo é o gesto profético, pois pois postula novamente um retorno à na-
nele a verdade revela-se na história, uma tureza; contudo, não se trata de mais um
história que valoriza sobretudo o futuro e regresso à natureza ideal, mas, agora, a
não o passado. Contudo, em Vieira, tra- uma natureza sensível, material, concreta,
ta-se sempre de um “futuro iminente”, o aquela que se descobre com os olhos, diz
do tempo da realização que se dá no pre- Santos: “Caieiro afirma com clareza sua
sente. Com a devida ressalva de que tal propensão a ‘ver’ as coisas tais como são”,
impulso messiânico, que sobreviveu, ob- seja pela rejeição dos idealismos, seja pela
serva Leonel, em Leibinz e na ideia kan- defesa de um nominalismo, do sensualis-
tiana de “um reino dos fins”, em “Vieira mo, enfim do naturalismo. “Copio a na-
é mais moral e espiritual do que político e tureza e não a interrogo, diz Caieiro.”
terreno” (p.70). É evidente que não se trata, como
Em Eça de Queiroz, Leonel encontra reconhece o próprio autor, de uma na-
um olhar português sobre o mundo, um tureza impassível, captada por um olho
“sensato realismo crítico” que se equili- primitivo e ingênuo, e descrita em suas
brando entre os idealismos abstratos em minudências; mas de outra, sentimental,
voga e os pessimismos niilistas, afirma-se sintetizada, submetida ao olhar racional,
em uma abordagem que não se afasta da e de certa forma depurada. Um sensível
vida e da ação efetiva. Em Fernando Pes- transformado em sentimento na obra,
soa, na figura matricial de Alberto Caiei- pois, afirma Caieiro, só diante de uma
ro, como vimos, há no poeta da natureza forma artística é possível “sentir a nature-
também um crítico da civilização; mas za”. Ou, ainda, nos termos da estética in-
para percebê-lo o crítico deve operar com telectualizada de Antonio Sérgio, a obra
uma compreensão histórica e filosófica é a desordem superada, “a elaboração do
do processo de formação dos heterôni- caos do sentimento feita pela razão”.
mos. Pois, na dicção pessoana, o que há O que Leonel Ribeiro dos Santos vai
é uma associação consciente e estratégica assim delineando é um perfil intelectual
entre heteronímia – aliás, procedimento que se caracteriza pela busca de um equi-
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líbrio entre o sensível e o racional. Per- uma estética neorromântica. Se há, por sua
sonificado no apolíneo Caieiro, o pensa- vez, no romantismo português um forte
mento português constitui-se tendendo acento religioso, trata-se de uma “teolo-
para a moderação, a harmonia, a simplici- gia negativa”, diz o autor, na qual o co-
dade, a disciplina e o dever moral. Valores nhecimento de Deus abre campo para um
que são acompanhados de independência impulso de criação e de liberdade. Ainda,
intelectual e afã de liberdade, pois a assi- se o pensamento português acentua os
milação feita pelo pensamento português campos da subjetividade e do sensível, ele
dos sistemas filosóficos em voga é sempre é também civilizatório, como em Vieira
crítica. E jamais provinciano, por tratar- ou em Agostinho da Silva, por encarnar
se de um percurso filosófico que busca como missão a difusão por outras terras
participar das tendências mais gerais da do espírito de liberdade e de criação.
própria filosofia. A tendência de retornar O pensamento brasileiro, infelizmen-
a Kant, por exemplo, pode ser constata- te, é pouco analisado no livro, seja porque
da em vários ensaios, especialmente sobre não se encontram nele os nomes obriga-
Antero de Quental. Após forte adesão ao tórios, seja porque o autor entende o pro-
hegelianismo, Antero de Quental opera cesso cultural pela matriz cosmopolita, e
um retorno a Leibniz, lido por intermé- porque, assim, privilegia nos pensadores
dio de Eduard von Hartmann, e, depois brasileiros os momentos de universalida-
a Kant, no intuito de defender especial- de. Daí os estudos referirem-se apenas a
mente o “imperativo da liberdade moral Gonçalvez de Magalhães, Miguel Reale,
da consciência individual”. Cunha Seixas, e ao português Agostinho da Silva, quan-
por seu turno, autor de O pantiteísmo do esse esteve no Brasil. Em Gonçalvez
na arte, 1883, se, de um lado, apresenta de Magalhães, considerado “fundador”
certo “formalismo árido e vazio”, de ou- da filosofia brasileira, e autor do românti-
tro, exibe uma “genuína intencionalidade co “Suspiros poéticos e saudades”, Leo-
arquitetônica e um impulso para a har- nel dos Santos surpreende uma obra dita
monia”, que em muito o aproxima dos de intervenção cultural, “é pelo Brasil, e
procedimentos kantianos. só para o Brasil que escrevemos”, afirma
Equilíbrio, clareza, independência, Magalhães. Todavia, não há nas ideias su-
harmonia: eis as prerrogativas do pensar blinhadas referências concretas ao cenário
estético português. Uma trama bem ur- brasileiro, mas a repetição da mesma ca-
dida entre as razões do sentimento e os racterística encontrada nos demais auto-
prazeres da inteligência; ou, ainda nos res analisados, ou seja, a presença de um
termos de Antero de Quental, “a ideia humanismo moralizador diante do avan-
poética sai tanto mais abundante e livre ço das ciências positivas, e também aqui a
quanto mais clara e lógica é a ideia filo- defesa de uma filosofia do equilíbrio; um
sófica”. Será que podemos nomear tal ecletismo que procura corrigir ou com-
sobriedade de uma vocação clássica? Se pletar “as limitações do sensualismo pelo
há uma tendência clássica na estética de espiritualismo, e vice-versa, realizando as-
Antonio Sérgio, nos pensadores da Esco- sim a fusão de ambos numa só doutrina”
la Portuense, como Teixeira de Pascoaes, (p.113).
Aarão de Lacerda e Leonardo Coimbra, Já em Miguel Reale, Leonel Ribeiro
Leonel dos Santos encontra, ao contrário, dos Santos encontra um poeta e filósofo
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responsável não só por um pensamento termos de Santos, “capaz de lidar com
jurídico fecundo, mas por abordar ques- todos os sistemas, protagonizar em si
tões estéticas de modo autoral, que lhe mesmo dialecticamente os vários siste-
possibilitaram a seu modo também retor- mas, miscigenando-os, transaccionando-
nar a Kant, para com ousadia corrigir “a os, fazendo-os comunicar uns com os
estreiteza e o enviesamento da noção de outros, corrigindo-os e completando-os
experiência em Kant”. Analisando obras uns pelos outros, tarefa eclética esta para
como O Belo e outros valores e Experiên- a qual se considerava o português parti-
cia e cultura, Santos demonstra como cularmente dotado” (p.382).
Miguel Reale acentua a importância da Ora, se o que predomina no livro é
faculdade da sensibilidade para o conhe- o tom otimista, diante de obras que exi-
cimento de um modo geral, ao sustentar bem equilíbrio, moderação e harmonia
que ela não deva ser entendida como uma e de autores capazes de combinar espí-
faculdade passiva, isto é, apenas receptiva, rito especulativo e defesa de liberdade,
mas como uma faculdade ativa, responsá- por que o título Melancolia e apocalipse?
vel pelo domínio da criatividade, ou seja, Adverte-nos o autor no prefácio que o tí-
da capacidade humana de criar formas e tulo refere-se apenas ao primeiro ensaio,
instaurar significados. “O artista é, antes sobre Vieira, e não ao livro como um
de tudo, afirma Miguel Reale, um cria- todo. Contudo, nos outros ensaios, espe-
dor de modelos, de estruturas significan- cialmente sobre Vergílio Ferreira, pode-
tes como puras percepções objetivadas.” mos notar um contraponto ao otimismo,
Para Leonel dos Santos, a leitura original e supor outros autores e obras das quais
da Estética transcendental de Kant reali- Santos estaria intencionalmente se esqui-
zada pelo filósofo brasileiro possibilitou- vando. Nesse ensaio encontramos num
lhe forjar um “novo equilíbrio” entre a tom crepuscular se não a afirmação ge-
reflexão clássica, a estética do século XIX neralizada da morte da arte, pelo menos
e as concepções contemporâneas (positi- a ideia do fim do mito da arte autônoma,
vistas, sociológicas e semióticas). sugerindo que o melhor de certa forma
Por último, encontramos o ensaio so- já passou, restando apenas relembrar com
bre Agostinho da Silva, filólogo e poeta nostalgia o seu momento de glória ou
português que esteve no Brasil entre as ansiar por um novo “renascimento”. Eis
décadas de 1940 e 1950, participando da o diagnóstico negativo de Vergílio Fer-
fundação de várias universidades, como a reira, endossado por Leonel dos Santos
de Brasília, e integrando o “grupo de São sobre a situação contemporânea da arte
Paulo”, do qual faziam parte Miguel Rea- no século XX: “a arte não morre porque
le, Luis Washington Vita, entre outros. a filosofia ou a ciência lhe tomam o lu-
Seja aqui no Brasil, ou quando do seu re- gar, mas morre de si própria, por uma
torno a Portugal, destacam-se nas ideias espécie de suicídio autofágico”. Assim,
de Agostinho da Silva o tom provocador, o modernismo, nas palavras de Vergílio
a habilidade de cultivar paradoxos e a de- Ferreira, “foi uma grande noite”, um ex-
fesa da liberdade de criação, especialmen- perimentalismo estéril e vazio, sinalizan-
te no campo pedagógico – daí a alcunha do um momento de “afasia da velhice”
de “pedagogo da liberdade”. Defesa feita da arte. Daí o resgate empreendido por
sempre em método eclético, isto é, nos Leonel dos Santos da estética antimo-
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to histórico exemplar no qual o campo
artístico constituía-se combinando força
livre com ordem; em termos schilleria-
nos, “perfeição combinada com liberda-
de”. Uma ordem dada pela forma livre e
não por uma forma de poder. E, se havia
uma exigência da verdade nessa ordo, ela
se dava no campo dos possíveis, no das
conjecturas. Em outros termos, ser clás-
sico hoje significaria afirmar que o belo é
um direito, um dever-ser, ou, em termos
schillerianos, que o estado intermediário
de liberdade estética merece ser postula-
do, pois é uma disposição livre para uma
intenção moral ou para o conhecimento;
ou seja, o estético refere-se ao todo de
SANTOS, Leonel Ribeiro dos. Melancolia e
nossas faculdades, a um “grau zero” em
apocalipse. Estudos sobre o pensamento que “sensibilidade e razão são simultane-
português e brasileiro. Lisboa: Imprensa amente ativas”, pois não se “comportam
nacional, Casa da Moeda, 2008. 427p.
em face do outro como poder”.2
O empreendimento hermenêutico as-
sim situado historicamente, porém, não
dernista de Leonardo Coimbra, a valori- exigiria perguntar também pela historici-
zação da polêmica que instaura Antonio dade do texto, ou seja, pela relação desse
Sérgio nas páginas da Seara nova contra com o presente? Em Melancolia e apo-
o irracionalismo “modernista” do “pre- calipse encontramos uma hermenêutica
sencismo”, e o fato de Alberto Caieiro, o parcial, pois o livro aposta excessivamente
antimodernista e crítico da modernidade na via eclética que acaba por neutralizar
que sonha com um retorno à natureza, e os contextos históricos nos quais as inter-
não o oposto Álvaro de Campos, ser con- pretações se inscrevem; as tensões entre
siderado o “mais português dos poetas”. arte e sociedade pelas quais ocorrem as
Daí também o silêncio nesses estudos em intervenções culturais são apenas indi-
torno de nomes como Almada Negreiros cadas, não ficando demonstrado como
ou Mário de Sá-Carneiro. efetivamente se dá o debate cultural no
O que significa ser clássico no século tempo. No lugar, sobressai excessivamen-
XXI? Um platonismo revisitado com di- te o pressuposto, aliás, da filosofia moral
reito à oposição entre aparência e verda- kantiana de valorização do aspecto moral
de? Uma estética pautada pela exigência das determinações estéticas. Mas, se des-
de verdade? Uma natureza sem história? sa estética sobressai duplamente o concei-
Leonel, esquivando-se dos “ismos” e das to de autonomia e o de sensus comunis,
“escolas”, insiste na pergunta ao defen- ressente-se a falta nesses estudos de uma
der nesses estudos não se tratar nem de maior presença do tempo, de um sensível
beletrismo ou academicismo, nem de ra- muita vez disforme, sem ordo, mas que
cionalização da arte, mas de um momen- possibilite à crítica interpretar, por exem-
ESTUDOS AVANÇADOS 23 (66), 2009 333
plo, a distância histórica entre a “melan-
colia” portuguesa e a alegria “apocalípti-
ca” brasileira.
Notas
1 Para Benedito Nunes (1993, p.197): “a
Filosofia, que toma a iniciativa do diálogo
é uma filosofia hermenêutica, a qual, por
sua vez, já opera com a noção de texto,
que toma por pressuposto. [...] O diálo-
go se efetua no plano da Crítica, isto é,
no plano do conhecimento interpretativo
das obras”.
2 Segundo Schiller (1990, p.100): “É por
proporcionar às faculdades do pensamen-
to liberdade de se exteriorizarem segun-
do suas leis próprias que a beleza pode
tornar-se um meio de levar o homem da
matéria à forma, das sensações a leis, de
uma existência limitada à absoluta”.
Referências bibliográficas
NUNES, B. Literatura e filosofia. In: ___.
No tempo do niilismo e outros ensaios. São
Paulo: Ática, 1993.
SCHILLER, F. A educação estética do ho-
mem. São Paulo: Iluminuras, 1990.
Arlenice Almeida da Silva é doutora em
Filosofia, professora de Estética e História
da Arte no Departamento de Filosofia da
Unesp, campus de Marília.
@ – arlenice@[Link]
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