0% acharam este documento útil (0 voto)
6 visualizações57 páginas

Aurora do Silêncio: Sobrevivência e Mistério

O documento narra a história de Imannuel Noan, um psicólogo sobrevivente em um mundo pós-apocalíptico dominado por zumbis rápidos e letais conhecidos como 'rasgadores'. Ele se une a Ayra, uma mulher enigmática que investiga um padrão de comportamento entre os infectados, sugerindo uma inteligência por trás do apocalipse. Juntos, eles descobrem que o sangue dos infectados pode carregar informações e que há algo mais complexo em jogo do que apenas um apocalipse biológico.

Enviado por

teste123527
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
6 visualizações57 páginas

Aurora do Silêncio: Sobrevivência e Mistério

O documento narra a história de Imannuel Noan, um psicólogo sobrevivente em um mundo pós-apocalíptico dominado por zumbis rápidos e letais conhecidos como 'rasgadores'. Ele se une a Ayra, uma mulher enigmática que investiga um padrão de comportamento entre os infectados, sugerindo uma inteligência por trás do apocalipse. Juntos, eles descobrem que o sangue dos infectados pode carregar informações e que há algo mais complexo em jogo do que apenas um apocalipse biológico.

Enviado por

teste123527
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

SUMÁRIO

1 - Capítulo: Aurora do Silêncio 2


2 - Capitulo: Eles copiam 10
3 - Capítulo: Profeta com Bisturi 16
4 - Capítulo: Códigos de sangue 22
5 - Capítulo: Aqueles que restam 26
6 - Capitulo: A sombra do Alvorada 31
7 - Capitulo: O lugar que ainda há vozes. 36
8 - Capitulo: Os que vêem sem serem vistos 53
1 - Capítulo: Aurora do Silêncio

Ano 7 d.a. (Depois do Apocalipse)


Local: Distrito de Lárion, periferia das ruínas de Porto Silva
Horário: 05h12 — nascer do sol

A cidade já não respirava há anos.

No horizonte, o céu tingia-se de um laranja escuro, como se o próprio inferno


estivesse se estendendo para além da linha das construções esqueléticas. As
estruturas da antiga Porto Silva agora eram apenas carcaças corroídas pelo tempo,
pela guerra, e pelo que veio depois. Um silêncio espectral reinava, quebrado apenas
pelo uivo distante do vento passando por janelas quebradas e postes tombados. A
aurora nascia não como promessa de um novo dia, mas como testemunha das
almas que não veriam outro ano.

Imannuel Noan correu.

Os músculos gritavam, o sangue pulsava nos ouvidos, e o mundo ao redor


desfocava-se em pura sobrevivência. Ele virou uma esquina estreita entre os restos
de dois prédios parcialmente desabados. Suas botas batiam forte contra o asfalto
rachado, molhado de orvalho e sangue ressecado. Atrás dele, o som que mais temia
— aquele arrastar irregular, acompanhado por gemidos famintos e um guincho seco
que não era mais humano.

O zumbi estava perto.

Não era um errante comum. Aquilo tinha velocidade. Era um dos chamados
"rasgadores", como a comunidade os chamava — infectados de segunda geração,
mais rápidos, menos podres, mais conscientes... e absolutamente letais.

Imannuel já tinha enfrentado muitos deles, mas sozinho, sem armamento adequado
e com o psicológico no limite, tudo mudava.

2
Ele puxou uma adaga improvisada do coldre no cinto — uma lâmina feita com restos
de aço cirúrgico, afiada como a culpa que o perseguia desde o dia em que perdera
sua equipe na travessia da ponte sul. Seu conhecimento em psicologia ajudava a
lidar com o medo... mas o medo, nesses tempos, era também o que o mantinha vivo.

Atrás de si, o guincho aumentava. O rasgador saltou sobre um carro tombado e caiu
apenas alguns metros de distância. Imannuel grunhiu, cortando o caminho por uma
porta semi-aberta de um armazém. Entrou, tropeçando nos destroços, e puxou a
porta com força — mas não foi o suficiente para deter a criatura. Ela se enfiou entre
as frestas, cravando unhas negras na madeira, rasgando como papel úmido.

Ele não teria muito tempo.

Imannuel vasculhou o local rapidamente: caixas, tambores, um antigo elevador de


carga e uma escada metálica. Subiu sem pensar, cada degrau ecoando como um
tiro. O rasgador urrava lá embaixo, e no segundo em que Imannuel alcançou o andar
superior, o zumbi já escalava atrás.

Foi quando viu a silhueta.

Alguém estava ali. Uma mulher, encapuzada, segurando uma besta rudimentar — e
apontada diretamente para ele.

— Para! — ela gritou, com voz firme. — Diga seu nome. Agora.

Imannuel ergueu as mãos, o peito arfando.

— Imannuel Noan! Psicólogo! Não sou um deles!

A criatura alcançou o último degrau e saltou para cima dele. A besta disparou no
mesmo instante. O virote cravou-se no crânio do rasgador, que caiu pesadamente
aos pés de Imannuel, estatelado, finalmente imóvel.

Silêncio. Novamente.

3
A mulher se aproximou cautelosa, os olhos acesos sob o capuz.

— Você disse que é psicólogo?

— Fui. Antes de tudo isso. — Imannuel apontou para o corpo. — Obrigado por isso.
Eu devia ter morrido hoje.

Ela observou o cadáver, depois o encarou.

— Sou Ayra. E você não é o único que deveria estar morto.

Imannuel engoliu em seco. Estava salvo, por ora.

Mas ali, na aurora daquele novo dia, sentia que o verdadeiro inferno ainda nem havia
começado.

O silêncio dentro do armazém parecia mais pesado agora que a criatura jazia morta.
O corpo ainda se debatia com espasmos involuntários, como se o próprio inferno se
recusasse a soltá-lo.

Imannuel se afastou um passo, observando Ayra com atenção. O capuz ocultava


parte de seu rosto, mas os olhos, acinzentados como o céu do inverno, examinavam
cada detalhe dele com cautela — como quem avalia não só o perigo físico, mas a
alma da pessoa à frente.

Ela recarregou a besta em silêncio, os movimentos rápidos e experientes.

— Há quanto tempo está sozinho? — perguntou, sem tirar os olhos dele.

— Muito tempo.

— "Muito tempo" não é uma resposta. Aqui, tempo vale mais que munição.

— Sete semanas. Talvez oito.

4
Ela assentiu levemente. Não disse mais nada por um instante. A tensão entre os
dois não era hostil, mas pulsava como uma corda esticada, pronta a arrebentar.

— Isso explica por que quase morreu — murmurou, olhando para o cadáver. —
Você faz muito barulho.

Imannuel soltou um meio sorriso.

— A psicologia não me treinou para correr em silêncio.

— Psicologia, hein? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Aposto que tem explicações
para tudo isso também.

Ele não respondeu.

Ayra virou-se e começou a descer os degraus da escada com leveza surpreendente.


No meio da descida, olhou por cima do ombro.

— Está esperando o convite?

Imannuel hesitou. Algo nela era... diferente. Não era o tipo que salvava estranhos.
Ainda assim, ela havia salvado. E agora estava lhe dando a escolha de seguir.

Desceu.

Lá embaixo, ela já vasculhava as mochilas deixadas num canto escuro do galpão.


Pegou um cantil e bebeu sem oferecer. Ele não pediu.

— Conhece bem a área? — perguntou ele, finalmente.

— O bastante pra saber onde não pisar.

— Tem abrigo por aqui?

Ela o encarou por alguns segundos, depois começou a empacotar rapidamente o

5
que parecia ser parte de uma rotina já muitas vezes repetida.

— Tem algo acontecendo — disse ela, quase para si mesma.

Imannuel franziu o cenho.

— Algo?

— Os rasgadores. Estão se movendo em grupo. Não costumavam fazer isso.

Ele se aproximou lentamente, atento.

— Você viu outros?

— Dois. Mais cedo, ao norte. E agora esse. Estão caçando. Mas não aleatoriamente.
Eles... estão seguindo alguém. Ou algo.

Imannuel sentiu um arrepio subir pela espinha.

— Não sabiam trabalhar em grupo. Era... instintivo, desordenado.

— Era — confirmou Ayra. — Mas isso mudou.

— Algum sinal de organização?

— Um padrão. Só que ainda não consegui entender.

Ela jogou uma das mochilas na direção dele. Ele pegou no ar, surpreso com o peso.

— Vai precisar disso. E mantenha os olhos abertos.

— Está me recrutando?

— Estou aceitando sua ajuda. Até onde for seguro.

6
Ele sorriu de canto.

— Isso nunca é muito longe.

— Exato.

Saíram do armazém pela lateral, tomando cuidado para não chamar atenção. O céu
já ganhava tons mais claros, mas o sol ainda não tocava as ruas. A neblina rasteira
entre os escombros dava ao lugar um ar de cemitério aberto, e cada sombra parecia
guardar dentes.

Caminharam por quase meia hora sem dizer palavra. Ayra mantinha a dianteira,
firme, atenta, sem nunca expor as costas por muito tempo. Imannuel, mesmo
cansado, observava tudo — os gestos dela, os caminhos escolhidos, os sinais
deixados em postes e muros. Aquilo era um código. Ela fazia parte de algo.

Viraram uma viela estreita e entraram num prédio quase inteiro. Subiram dois
andares pelas escadas internas até alcançarem um cômodo reforçado por
barricadas e grades improvisadas. Havia comida enlatada, um rádio antigo, mantas,
e um mapa parcialmente rasgado afixado na parede.

Ayra trancou a porta atrás de si.

— Vai dormir aqui essa noite. Amanhã seguimos até um posto de escuta a nordeste.

Imannuel examinou o local em silêncio. Seus olhos pararam no mapa. Havia


marcações em vermelho, áreas riscadas com uma cruz preta, outras com um círculo
ao redor. Uma em especial chamou sua atenção.

— O que é isso? — apontou.

— Onde os sinais mudaram. Onde o comportamento dos infectados começou a


parecer... orquestrado.

— Quantos sobreviventes conhecem esse padrão?

7
— Poucos. E a maioria já não responde.

Imannuel virou-se lentamente para ela.

— Então você não está só fugindo, está investigando.

Ayra o fitou por alguns segundos.

— E você, psicólogo? Vai fugir... ou ajudar a entender o que está acontecendo com
eles?

Ele se aproximou do mapa, puxou uma caneta de seu bolso interno e marcou um
ponto.

— Vi algo estranho aqui. Três semanas atrás. Um infectado que... hesitou. Como se
estivesse ouvindo algo.

Ayra ergueu o olhar. Pela primeira vez, seus olhos pareceram suavizar, não por
confiança, mas por algo próximo a... expectativa.

— Então talvez não tenha salvado o homem errado.

O rádio chiou brevemente no canto da sala.

Eles congelaram.

Nenhum dos dois havia ligado o aparelho.

Ayra foi até ele em silêncio e ajustou o volume. Um ruído baixo, como estática...
seguido por algo mais estranho: uma voz distorcida, quase inaudível, como um
sussurro maldito tentando atravessar o véu da realidade.

— ...não estão... mortos... todos ouvem...

8
O som cessou.

Imannuel não conseguiu esconder o calafrio.

— Isso foi... real?

Ayra abaixou lentamente a mão, ainda olhando para o rádio.

— Foi a segunda vez essa semana.

Imannuel fitou a janela suja e sem vidro, lá fora, onde o sol finalmente surgia.

— Isso não é só um apocalipse biológico.

— Não — murmurou Ayra. — É algo mais antigo. E muito mais inteligente do que
imaginamos.

9
2 - Capitulo: Eles copiam

Ano 7 d.a.
Distrito externo de Lárion, ruínas periféricas de Porto Silva
Horário: 07h35 — manhã fria e enevoada

O vento cortava as ruas com o silêncio cruel de um lamento antigo. Pairava uma
névoa baixa, densa, quase viva, como se o mundo tivesse prendido a respiração.

Imannuel seguiu Ayra a alguns passos de distância, atento ao modo como ela
pisava, aos desvios que fazia. Ela parecia conhecer o caminho não apenas com os
pés, mas com o corpo todo. Como se já tivesse passado por ali muitas vezes, ou
fugido.

— Estamos longe do território dos errantes? — perguntou ele, em voz baixa.

— Nunca estamos — respondeu ela, sem virar o rosto.

Os prédios ao redor começavam a tomar uma forma mais industrial. Sinais


enferrujados pendiam de postes inclinados. Um deles ainda trazia as letras
parcialmente legíveis: “P. E. S. — Posto de Escuta Secundário”.

O lugar parecia morto.

Chegaram à entrada lateral de um prédio de concreto espesso, com janelas


blindadas e o que restava de uma torre de transmissão tombada. Ayra usou uma
chave improvisada presa ao cinto para destrancar o cadeado. Era claro que já
estivera ali antes.

Entraram.

O cheiro de mofo, ferrugem e abandono os envolveu. As paredes internas estavam


cobertas de mapas antigos, fios soltos e marcas de mãos, não em sangue, mas em
carvão. Mensagens escritas nas bordas: “eles cochicham”, “não olhe pela janela”,

10
“eles aprendem”.

— Nenhum corpo — murmurou Imannuel. — Isso não te incomoda?

— Mais do que corpos — respondeu Ayra — me incomodam os rastros limpos.

Foram até a sala de comunicações. Ainda havia energia nos painéis de reserva.
Ayra ativou o rádio principal. Chiado. Depois, estática. E então... uma gravação
automática foi acionada.

Uma voz masculina, cansada, soando como se falasse pela última vez.

— Se alguém encontrar isso... não busque respostas aqui. Eles escutam. Eles...
copiam. As transmissões são enganosas. O sangue... o sangue carrega mais do que
o vírus. Ele... traduz algo. Algo que... que não pertence a este mundo.

Silêncio. Um clique. Depois, uma nova voz — desta vez, conhecida por Ayra.
Imannuel percebeu quando seus ombros enrijeceram.

— Todos os corpos foram movidos para a Zona Sete. A Ordem se manterá firme. O
Projeto Alvorada é real. E aqueles que não aceitam... serão reescritos.

Ela desligou o aparelho com um estalo brusco.

— Quem era? — perguntou Imannuel.

Ayra não respondeu. Caminhou até o canto da sala onde uma mesa havia sido
virada de cabeça para baixo. Havia símbolos estranhos gravados na madeira, como
uma linguagem primitiva que apenas os loucos entenderiam.

— Ele era um médico — disse ela, por fim. — E um aliado. Um homem que salvava
vidas.

Imannuel se aproximou lentamente.

11
— O passado de alguém não o define quando o presente é manchado.

Ayra tocou os símbolos com a ponta dos dedos.

— Ele acreditava que o sangue infectado era um código. Um padrão. Acreditava que
podia manipulá-lo... decifrar.

— E conseguiu?

Ela se virou, olhos sombrios.

— Conseguiu algo. Mas não o que esperava.

Exploraram os andares inferiores. Em uma das salas frias, encontraram gavetas com
etiquetas de metal. Cada uma delas marcada com uma sequência alfanumérica —
mas estavam vazias. Exceto por uma.

Dentro, uma seringa com um líquido espesso e negro, que parecia se mover com
vida própria. Imannuel recuou instintivamente.

— Isso... está vivo?

Ayra olhava para a seringa com uma mistura de raiva e respeito.

— Era parte do experimento dele. Ele chamava de “versão purificada”.

— Purificada? Isso parece amaldiçoado.

— Ele dizia que o segredo da mente dos infectados não estava na degeneração...
mas na reorganização. E que o sangue era a chave.

Imannuel guardou o silêncio por um instante.

12
— Você conhecia bem esse doutor, não é?

Ela ergueu os olhos para ele, e dessa vez havia algo queimada ali — lembrança ou
culpa, ele não saberia dizer.

— Bem demais.

---

Ao saírem do posto, o sol já estava alto, mas fraco. A neblina não cedia.
Caminhavam em direção a uma saída alternativa, um corredor entre duas fábricas
abandonadas.

Foi quando Imannuel parou de súbito.

— Espera.

Ayra sacou a besta.

Lá no fim da viela, de pé, imóvel, uma figura humana os observava.

Roupas limpas, jaleco escuro, botas reforçadas. O rosto parcialmente encoberto por
uma máscara de respiração. Os olhos... humanos. Racionais. Mas frios como a
superfície de um bisturi.

Ele ergueu uma das mãos em saudação lenta.

— Ayra — disse, com voz nítida, cortando a distância como uma lâmina. — Ainda
viva. Contra todas as probabilidades.

Ela não respondeu. Mas a tensão em seu corpo gritou por ela.

— Achei que já tivesse desistido de mim — continuou ele. — Ou de entender o que


estamos construindo.

13
Imannuel se adiantou um passo.

— Quem é você?

O homem sorriu por trás da máscara.

— Doutor Kaleb. Fundador do Projeto Alvorada. Cirurgião de almas.

Fez uma breve reverência zombeteira.

— E, pelo visto... sua salvação.

Ayra levantou a besta.

— Você devia estar morto.

— E você, devendo explicações — retrucou ele, tranquilo.

Silêncio. O vento uivou entre os prédios. E por um momento, o mundo pareceu


respirar de novo, mas não em paz. Em expectativa.

— A guerra está só começando, Ayra — disse Kaleb. — E você está do lado errado
da evolução.

Virou-se e desapareceu na neblina, tão repentinamente quanto surgira.

Imannuel ficou parado ao lado de Ayra. Ela ainda encarava o vazio onde ele estivera.

— Ele não é só um médico — disse ela, por fim.

— O que ele é, então?

Ayra respirou fundo, e pela primeira vez, sua voz tremeu.

14
— Um profeta com bisturi. E está moldando um novo mundo à imagem do que viu...
dentro do sangue.

15
3 - Capítulo: Profeta com Bisturi

Ano 7 d.a.
Distrito de Transição, limite da Zona Vermelha
Horário: 12h02 – Meio-dia, sob nuvens carregadas

O mundo estava quieto demais.

Imannuel seguia logo atrás de Ayra, os passos ecoando pelo asfalto rachado da via
esquecida. O cheiro de ferro oxidado e terra molhada saturava o ar. A aparição de
Kaleb havia deixado algo solto no peito de ambos — uma pressão invisível, como se
tivessem sido marcados.

Ayra não dizia nada desde que deixaram o posto de escuta. Mantinha a besta
empunhada, os olhos varrendo cada esquina com precisão mecânica. Mas o ritmo
dela estava diferente. Mais acelerado. Como se quisesse fugir de algo que vinha de
dentro.

— Você sabia que ele estava vivo, não sabia? — perguntou Imannuel, após um
tempo longo demais de silêncio.

Ela não respondeu.

— Estava vindo até aqui por causa dele? Ou foi coincidência?

Ayra parou subitamente. O vento agitou o capuz dela. Imannuel a encarou. O olhar
dela agora parecia distante, mas tenso.

— Eu achava que podia encontrá-lo morto. Deixado para apodrecer como tantos
outros. Mas Kaleb não é do tipo que morre. Ele se adapta. Sempre se adapta.

Antes que Imannuel pudesse dizer algo, um som estranho se elevou ao longe: o
tilintar de metal contra concreto. Algo cadenciado, ritmado. Passos. Mas não de
zumbi. Era humano. Preciso. Incomodamente confiante.

16
Ayra virou-se imediatamente, mirando a besta em direção ao beco estreito à
esquerda. Imannuel se abaixou, instinto afiado pela sobrevivência.

Nada.

Mas o som continuava. Um passo. Outro. O eco aumentava.

— Isso não é um infectado — murmurou Imannuel.

Ayra apertou o gatilho da besta. Nada. A corda emperrou.

— Droga...

Então Kaleb apareceu.

Caminhava com calma pelo beco como se estivesse voltando para casa. Trazia nas
mãos um revólver de tambor polido, pesado. Clássico. Quase cerimonial. Não se
escondia. Ele queria ser visto.

— Ayra — disse, com voz tranquila. — Sempre tão precipitada.

Ela se posicionou entre ele e Imannuel, como uma muralha.

— Kaleb.

— Não esperava que fugisse à primeira provocação — disse ele, com um leve
sorriso. — Sempre foi mais impulsiva do que deveria.

— Baixe essa arma.

Ele ergueu levemente o cano.

— Não está aqui por ti.

17
— Então é por mim — disse Imannuel, surgindo ao lado.

Kaleb o observou com um interesse quase clínico.

— Ah... o psicólogo. Aquele que ainda tenta encontrar sentido na desordem. Você
não deveria estar aqui, Imannuel. Ainda não é hora.

Ayra deu um passo à frente.

— Se quer me levar, vai ter que me derrubar primeiro.

Kaleb suspirou, quase com pesar.

— Sempre tão literal...

O disparo foi seco, repentino. Rápido demais.

Ayra cambaleou para trás, a besta caindo de seus dedos. O som do impacto contra o
chão ecoou como um trovão em câmera lenta. O tiro a acertara no peito, levemente
à esquerda. Sangue escorreu pela boca dela.

— Não...

Imannuel correu, mas ela já caía, os olhos fixos no céu acinzentado. Os lábios se
moveram uma última vez.

— Corra...

Kaleb não tentou impedi-lo. Apenas observou, como um cientista diante de uma
experiência inevitável.

Imannuel se virou e correu.

18
As ruas viraram borrões. Escombros, cartazes rasgados, sangue seco, ecos
distorcidos. Imannuel não sabia onde estava indo, apenas sabia que precisava
continuar. O som dos próprios passos era abafado pelo zumbido crescente do
trauma, da perda.

A imagem de Ayra caindo o perseguia a cada esquina. Mas não havia tempo para
dor. Não agora.

Ele se escondeu entre os restos de um ônibus escolar virado. O cheiro de carne


pútrida pairava no ar, mas não vinha de perto. Estava impregnado na cidade.

Kaleb estava atrás dele?

Imannuel não ouviu novos passos. Nenhum som. Aquilo o assustava ainda mais.
Kaleb não era impulsivo. Ele caçava como predador, estudava, avaliava... e só então
agia.

Respirou fundo. Precisava sair dali. E precisava entender.

Por que Kaleb a matara?

A resposta parecia óbvia. Mas Imannuel sabia, em sua essência, que havia mais.
Ayra sabia de algo. Algo que Kaleb queria apagar com um único disparo.

Horas se passaram.

Imannuel se refugiou em uma estrutura metálica semi-enterrada nos arredores de


uma antiga estação de metrô. O teto pingava, mas ali dentro havia escuridão e
silêncio, uma benção rara.

Sentou-se no canto, o corpo exausto. As mãos ainda tremiam.

E então lembrou das palavras de Ayra, ditas dias antes, quando acamparam juntos

19
pela primeira vez:

— Kaleb sempre achou que a mente humana era imperfeita. Que podia ser
melhorada com estímulo certo, química e... controle. Ele só precisou do apocalipse
como desculpa.

Imannuel apertou os punhos. Aquilo não era só sobre zumbis. Kaleb estava
transformando sobreviventes. Talvez criando uma nova ordem... com base no
sangue dos mortos.

Mas por quê?

Pensou em voltar ao corpo de Ayra. Em enterrá-la. Mas era suicídio. Kaleb


provavelmente o esperava para isso.

Em vez disso, abriu a mochila que Ayra lhe dera. Revirou os objetos até encontrar
um pequeno caderno, costurado à mão.

As páginas estavam cheias de anotações. Códigos, nomes, datas. E desenhos.

No centro de uma página, um símbolo: três círculos interligados por linhas retas,
formando um triângulo invertido.

Abaixo, apenas uma palavra escrita com força:

ALVORADA

---

Imannuel fechou os olhos.

A guerra tinha começado. Mas ele ainda não sabia por quê. Só sabia que, se Kaleb
queria apagar tudo... o que Ayra deixou para trás precisava ser preservado.

20
Pelo que ela sabia.

Pelo que ela era.

Pelo que ainda viria.

21
4 - Capítulo: Códigos de sangue

Ano 7 d.a.
Região Norte de Lárion, antigo setor de escoamento
Horário: 17h47 – Início do crepúsculo

O céu parecia sangrar quando Imannuel saiu do esconderijo subterrâneo. O sol,


encoberto por nuvens espessas, deixava um rastro de luz cor de ferrugem que tingia
os escombros de tons sépia, como se o próprio tempo estivesse apodrecendo.

O caderno de Ayra pesava na mochila mais do que qualquer arma. Aquilo agora era
tudo o que restava dela. Uma promessa silenciosa de que alguém precisava
entender o que estava acontecendo — e talvez, impedir.

Mas Imannuel não tinha direção. Só medo.

Avançava pelas ruas em ruínas como um fantasma, tentando apagar os próprios


passos. Em certo ponto, ouviu um ruído ao longe: cães.

Três.

Correndo como se tivessem visto o próprio inferno.

Ele se abaixou atrás de um contêiner. Mas não eram zumbis atrás deles. Um homem
surgiu correndo logo depois, segurando uma marreta enorme em uma mão e um
facão improvisado nas costas. Era alto, forte, com a pele escura e os olhos atentos,
calculando tudo ao redor.

O homem viu Imannuel.

Parou a alguns metros, ainda ofegante, como quem pesava risco e necessidade.

— Tá vivo? — perguntou com voz firme, sotaque interiorano.

— Ainda tô respirando.
22
— Então levanta. Aqueles vira-latas tavam fugindo de alguma coisa. E se eles tavam
correndo... a gente também devia.

Imannuel obedeceu sem hesitar.

— Nome?

— Imannuel.

— Chamo Jonas. Vem comigo.

Correram juntos por becos estreitos até se abrigarem num armazém caído. Dentro,
entre pilhas de mantimentos embolorados e móveis abandonados, Jonas trancou a
porta com um freezer velho.

O silêncio caiu.

— Cê parece deslocado — disse Jonas. — Novo na zona?

— Mais ou menos. Tô tentando sair com vida.

— Nisso, tamo empatados.

Imannuel observou o homem. Forte, mas não brutal. A barba por fazer, os olhos
marcados por noites mal dormidas. Usava uma camisa jeans remendada e botas
gastas. Havia inteligência ali, e algo mais raro: humanidade.

— Tava sozinho? — perguntou Jonas.

— Tava com uma aliada. Ela morreu hoje.

Jonas assentiu lentamente. Não perguntou como.

— Você sabe lutar?

23
— Sei correr. E ouvir. Sou psicólogo.

— Que tipo de psicólogo sobrevive sete anos aqui fora?

Imannuel deu de ombros.

— O tipo que aprende rápido. E que não fala tudo de uma vez.

Jonas riu com gosto.

— Gostei de você.

Passaram a noite ali. Enquanto Jonas cozinhava algo próximo de feijão, Imannuel
lhe contou partes da história — sobre Ayra, Kaleb, e o símbolo encontrado no
caderno.

Jonas ficou sério.

— Já vi isso. Não muito longe daqui. Num hospital velho, abandonado. Dizem que é
onde fazem experiências com os que são pegos vivos. Ou levados à força.

— Você viu alguém sair de lá?

— Ninguém sai. Mas eu vi entrar. Uns homens de preto, bem armados. E um cara...
com jaleco. Frio. Inteligente. Olhava em volta como se fosse dono do lugar.

— Kaleb.

Jonas fitou Imannuel nos olhos.

— Se é ele... então tamo lidando com mais do que um lunático.

Imannuel assentiu.

24
— Quero ir até esse hospital.

— Tá maluco?

— Talvez. Mas preciso entender o que ele tá fazendo. E por que Ayra morreu pra
impedir.

Jonas ficou em silêncio por longos segundos. Depois, suspirou.

— Então vamo juntos. Mas a gente vai precisar de armas. De gente. E de um plano.

— Você tem contatos?

— Tenho uns vivos. E uns que morreram tentando.

Naquela noite, sob um teto podre e rodeados por fantasmas, dois homens feridos
fizeram um pacto. Não pelo heroísmo. Mas porque sabiam que fugir já não era
suficiente.

Agora, era preciso resistir.

25
5 - Capítulo: Aqueles que restam

Ano 7 d.a.
Região Norte de Lárion – Fronteira entre zona neutra e ruínas
Horário: 10h14 – Céu encoberto, ventos secos

O som do mundo não era mais feito de vida, mas de memórias retorcidas. O estalar
do vento entre as carcaças de ferro, o rangido das portas esquecidas, o assovio fino
atravessando as janelas quebradas. Tudo parecia lembrar que aquilo ali já fora uma
cidade. E agora, era apenas esqueleto.

Jonas caminhava na frente, os ombros largos protegendo parte do vento para


Imannuel, que seguia com o casaco apertado ao corpo. O psicólogo carregava a
mochila com suprimentos, e dentro dela, o caderno de Ayra. As palavras dela
ecoavam na mente dele com mais força do que queria admitir.

— Tá calado demais hoje — disse Jonas, sem se virar.

— Tô tentando entender como a gente vai encontrar três pessoas dispostas a morrer
com a gente.

— Não precisa de três suicidas. Precisa de três que tenham perdido tanto quanto
nós. Eles sempre aparecem. O problema é saber quem ainda não enlouqueceu.

Viraram uma rua coberta de lodo seco e folhas mortas. Um antigo supermercado
bloqueava o caminho, com as portas de vidro estilhaçadas e estantes tombadas.

— Podemos vasculhar. Talvez tenha algo ainda bom. — sugeriu Imannuel.

Jonas assentiu e entrou primeiro, marreta em mãos. Dentro, a penumbra cheirava a


estofado molhado e produtos químicos vencidos. Passaram entre os corredores,
cautelosos. Um barulho vindo do fundo os fez congelar.

Passos.

26
Mas não errantes. Rítmicos. Humanos.

Jonas fez sinal para abaixar e contornar. Chegaram às traseiras do mercado e


encontraram um homem magro, de barba espessa e olhos claros, empilhando
comida em uma mochila improvisada.

Ele notou a presença dos dois, ergueu as mãos devagar.

— Sem briga, irmãos. Tô só pegando o que ia estragar.

Jonas observou o homem. Não era ameaçador, mas também não parecia inocente.

— Nome? — perguntou Jonas.

— Davi. Era porteiro antes de tudo. Agora só tento durar mais um inverno.

Imannuel se adiantou.

— A gente tá procurando aliados. Tem um caminho perigoso pela frente. Precisa de


coragem e de razão.

Davi ergueu uma sobrancelha.

— Coragem eu não garanto. Mas não sou burro. Nessa cidade, andar sozinho é
pedir pra morrer devagar.

Jonas olhou de relance para Imannuel e assentiu.

— Ele entra. Temporariamente.

Levaram Davi com eles por duas quadras, até se abrigarem em uma garagem
subterrânea onde Jonas costumava guardar recursos. Sentaram ao redor de um
aquecedor improvisado.

27
Davi falou pouco. Comia com as mãos sujas, olhos sempre se movendo. Imannuel
aproveitou o momento.

— Como tudo começou pra você?

Davi mastigou e respondeu:

— Tava num condomínio quando os primeiros surtos chegaram. Gente que morava
ali voltou de viagem... infectada. Um homem começou a morder a própria mulher no
elevador. Quando abriram a porta, ela já tômava os outros. Deu pra ouvir os gritos
pela escada.

Jonas também falou:

— Tava em casa. Minha mulher foi trabalhar, eu fiquei com meu moleque. Quando
fui abrir a porta pra buscar comida, uma mulher caiu sobre mim... olhos vazios. O
menino viu tudo.

Silêncio. Pesado. Cheio.

Imannuel abaixou os olhos, sentindo o peso compartilhado. Perguntou:

— E o menino?

Jonas respirou fundo.

— Sumiu na confusão. Nunca achei corpo. Não achei mais nada.

Seguiram ao amanhecer. A ideia era cruzar a zona morta até uma antiga refinaria,
onde uma mulher que Jonas conhecera talvez ainda estivesse viva. Disseram que
ela se chamava Érika, uma ex-enfermeira com mãos de cirurgiã e olhos de
julgamento.

28
No caminho, viram um grupo de zumbis bloqueando uma das travessias. Davi
sugeriu um desvio pelas galerias subterrâneas. Atravessaram as escadarias escuras
sob o peso de ratos, lodo e lembranças.

Lá embaixo, um som os parou: respiração. Não era deles. Uma mulher surgiu entre
os pilares, cabelo trancado, com um lenço amarrado no rosto e uma pistola na
cintura.

— Acham que podem andar por aqui sem avisar? Isso aqui é zona segura marcada.

Jonas reconheceu o rosto.

— Érika?

Ela estreitou os olhos.

— Jonas...

A tensão baixou aos poucos. Ela os levou até seu abrigo sob a refinaria. Lá dentro,
guardava dois homens: Luan e Bento. Um era ex-militar; o outro, um marceneiro que
perdera a perna e agora usava uma prótese improvisada com metal.

Conversaram. Jonas explicou o plano: infiltrar, descobrir o que Kaleb fazia, reunir
provas e se possível... desmantelar o sistema.

Bento foi o primeiro a rir.

— Vocês tão falando de derrubar deus. Esse Kaleb controla metades das rotas de
sangue. Tem gente que vende família pra trabalhar pra ele.

Érika foi mais contida.

— Mas se a gente for junto, talvez haja chance.

Imannuel olhou para Jonas. Ele assentiu.

29
— Precisa de mais gente ainda — disse Jonas. — Tenho um lugar em mente. Um
bar na beira da estrada. Velho, sujo, mas é onde sobreviventes trocam coisas... e
recrutam.

Imannuel ergueu uma sobrancelha.

— E como você sabe disso?

— Porque eu já vendi coisa lá.

A revelação pairou no ar como poeira.

Mas ninguém julgou.

A noite caiu. O grupo agora contava com seis. Ainda não eram uma resistência. Mas
eram um início.

E o mundo, cansado de trevas, talvez ainda escutasse os que restam.

30
6 - Capitulo: A sombra do Alvorada

Ano 7 d.a.
Rodovia S-14, entre Lárion e os antigos postos do interior
Horário: 08h30 – Neblina espessa, manhã cinzenta

O frio da manhã raspava nos ossos quando o grupo deixou a refinaria para trás.
Imannuel lançou um último olhar para as paredes de concreto onde haviam passado
a noite. Aquela estrutura, que parecia tão firme por fora, escondia pessoas partidas
por dentro.

Érika havia concordado em seguir com eles. Bento e Luan também. Agora, eram
seis — e por mais que parecessem unidos pelo mesmo propósito, era claro que nem
todos caminhavam na mesma direção por dentro.

— A estrada leva a uma bifurcação logo à frente — disse Jonas, à frente. —


Seguiremos pela rota antiga. Vamos manter distância das rotas que Kaleb usa com
frequência.

— E quanto ao bar? — perguntou Imannuel.

Jonas respondeu sem se virar:

— Ainda não é hora. Mas vamos na direção dele. Se der tudo errado... talvez seja o
único lugar onde ainda podemos recrutar alguém.

Ninguém falou mais. A menção ao bar trouxe um silêncio tenso. Davi caminhava ao
lado de Bento, os olhos varrendo os arredores, atento a qualquer sombra. Luan
fechava a retaguarda com seu rifle pronto, como se esperasse um ataque a cada
esquina de mata.

A estrada, coberta por folhas secas e carcaças de carros tomados pelo tempo,
parecia murmurar histórias esquecidas.

31
Imannuel quebrou o silêncio, puxando conversa com Érika.

— Por que você decidiu vir?

Ela olhou de lado, a expressão firme.

— Porque não quero mais enterrar amigos sozinha.

Imannuel não soube o que responder. O modo como ela dizia as coisas tinha o peso
de quem viu muito. E enterrou mais ainda.

— Você disse que era enfermeira.

— Era. Trabalhei em postos de triagem durante os primeiros surtos. Vi crianças


sendo trancadas vivas com os próprios pais. Ordens militares. Nenhum protocolo
humano funcionava. Depois disso... nunca mais vesti branco.

— Sente falta?

Ela pensou por um instante.

— Sinto falta de salvar alguém. Nem que fosse só um.

À frente, Jonas levantou a mão e fez sinal de parada. Todos se encostaram aos
restos de um ônibus enferrujado.

— Três homens armados. Parados no meio da estrada. Saqueadores. Não parecem


do grupo de Kaleb, mas têm munição demais pra serem inofensivos.

— Podemos contornar? — sugeriu Luan.

— Podemos tentar negociar — disse Davi, hesitante. — Ou enganar...

Bento sorriu torto.

32
— Se tem arma e não tá com você, tá contra você. E nesse mundo, quem ainda sorri
em grupo... já matou alguém pra isso.

Jonas ponderou. Depois, deu a ordem.

— Dividimos. Eu, Imannuel e Érika vamos pela lateral direita. Luan e os outros por
trás. No meu sinal... não matem, a não ser que tentem matar vocês primeiro.

Imannuel engoliu seco. Sabia que esse tipo de comando era mais costume pra
Jonas do que gostaria de admitir.

A emboscada foi rápida. Os saqueadores estavam distraídos demais, talvez


confiantes demais. Em menos de três minutos, dois estavam rendidos e o terceiro,
imobilizado por Luan com uma faca na garganta.

— Vocês são malucos! — gritou um deles. — A gente só tava montando armadilha


pra zumbi!

Jonas aproximou-se devagar.

— Vocês estavam plantando armadilha... com um rádio transmissor e munição sob o


banco? Esperavam resposta?

O silêncio dos homens confirmou.

— Estão trabalhando pra Kaleb? — perguntou Érika.

Um deles cuspiu sangue e respondeu:

— Todo mundo trabalha pra ele. Mesmo sem saber.

Jonas bateu com a marreta ao lado da cabeça do homem, fazendo o chão tremer.

— Vocês têm duas escolhas: nos dizem o que sabem... ou vão ser esquecidos aqui
como qualquer outro cadáver seco dessa estrada.

33
Depois de alguns minutos, souberam o que precisavam: Kaleb estava recrutando em
massa. Pegava sobreviventes e prometia proteção. Mas os que iam... não voltavam.
E segundo boatos, algo estava sendo testado nos subterrâneos do hospital da Zona
Vermelha. Algo que misturava ciência, controle e sangue infectado.

— Projeto Alvorada — murmurou Imannuel, lembrando das anotações de Ayra.

— O quê? — perguntou Jonas.

— Ayra tinha isso num caderno. Era mais do que um nome. Era um símbolo. Um
triângulo invertido, com três círculos conectados. Talvez fossem... fases. Etapas.

Érika franziu a testa.

— Três estágios. Ou três tipos de pessoas.

O grupo deixou os saqueadores amarrados e seguiu caminho. À noite, acamparam


num posto de gasolina tomado por raízes e limo.

Ao redor da fogueira, os corpos descansavam, mas as mentes ardiam.

Davi falava baixo com Bento, enquanto Luan limpava a arma. Érika organizava os
curativos, e Imannuel se sentou ao lado de Jonas.

— Você parece ter sido parte de algo... maior. Antes.

— Fui soldado. Mas noutro tempo. Numa vida que ficou longe. Aqui... a hierarquia é
outra.

— Você ainda acha que vale a pena tentar?

Jonas olhou as brasas, pensativo.

— Não acho que a gente vai mudar o mundo. Mas talvez... impeça Kaleb de criar um

34
novo. Um pior.

— E o bar? Ainda pretende levar a gente pra lá?

— Sim. Lá, as pessoas ainda têm medo. Mas também têm desejo. Trocam comida
por armas. Armas por abrigo. E abrigo... por causa. Se a gente contar a história
certa... podemos trazer alguns pro nosso lado.

Imannuel olhou os outros. Eram diferentes. Quebrados em partes distintas. Mas


havia algo neles. Uma centelha.

— E se ninguém acreditar?

Jonas respondeu com simplicidade:

— Então vamos com os que restarem. Sempre há os que restam.

O vento soprou forte. E com ele, veio o cheiro distante de fumaça. Não daquela
fogueira. De outra.

De um lugar à frente.

Eles não sabiam ainda, mas ao seguir aquela estrada, estavam se aproximando da
borda do desconhecido.

E Kaleb... já os esperava.

35
7 - Capitulo: O lugar que ainda há vozes.

Ano 7 d.a.
Rodovia F-61, nas proximidades do ponto de encontro
Horário: 17h42 – Fim da tarde, céu nublado, temperatura úmida

As árvores pareciam mais altas ali. Troncos escurecidos, cobertos por musgo,
ladeavam a estrada que serpenteava através do que restava de uma floresta
esquecida. O som dos passos sobre folhas secas era abafado pela espessura do
mato. Havia umidade no ar, densa, como se algo aguardasse no nevoeiro.

Jonas caminhava na frente, sem pressa. A marreta repousava sobre o ombro, e os


olhos vasculhavam o terreno com cuidado. Atrás dele, Érika mantinha a cabeça
erguida, a cruzeta da balestra sempre próxima ao rosto. Davi e Bento falavam pouco,
mas trocavam olhares frequentes. Luan, em silêncio absoluto, observava as árvores
como se esperasse algo sair delas.

Imannuel vinha mais atrás. O som do vento arrastando folhas secas soava como
sussurros. Pensou em Ayra. Não por saudade, mas pelo vazio que ela deixara
quando partiu. Desde sua morte, os caminhos pareciam ainda mais incertos. Tudo o
que ele fazia agora era com base em incerteza.

— Estamos perto — disse Jonas, parando junto a uma antiga placa de trânsito torta,
coberta de ferrugem.

Ninguém respondeu. Apenas olharam ao redor. À frente, a estrada afunilava,


desaparecendo em meio à neblina que se acumulava sobre as curvas.

Dobraram uma ladeira coberta por cascalho e vegetação rasteira. O sol, ainda que
escondido pelas nuvens, tingia de âmbar o horizonte. E então, viram as primeiras
construções.

Velhos contêineres empilhados ao lado de um posto de gasolina tomado por


trepadeiras. Um caminhão basculante tombado, usado como barricada. E mais

36
adiante, uma estrutura de madeira escurecida, com janelas fechadas por placas de
metal.

Nenhuma luz. Nenhum som.

— É aqui? — perguntou Davi, sussurrando.

Jonas assentiu, sem parar.

— O bar.

O grupo se aproximou com cautela. O chão estava coberto de garrafas quebradas,


pedaços de lona velha, restos de caixas. Um toldo de tecido desbotado balançava
lentamente com o vento.

Um cachorro magro atravessou o caminho deles e desapareceu por trás de um


monte de pneus.

— Parece abandonado — murmurou Érika.

— Só parece — respondeu Jonas. — Se estiver mesmo abandonado... melhor que a


gente fique mais atento.

A porta do bar estava entreaberta. Jonas olhou para Luan, que se aproximou com a
arma levantada. Empurrou devagar. A madeira rangia, mas não tanto quanto se
esperava. O lugar havia sido usado recentemente.

Lá dentro, a penumbra reinava.

O cheiro era uma mistura de ferrugem, madeira úmida e álcool velho. Garrafas
empoeiradas ainda ocupavam partes da prateleira atrás do balcão. Algumas mesas
estavam viradas, outras ainda tinham fichas de bar sobre o tampo. No canto, uma
jukebox coberta por um lençol manchado.

Imannuel entrou por último. Seus olhos levaram alguns segundos para se ajustar à

37
luz. Paredes cobertas de pichações. Muitas ilegíveis. Outras, claras como
advertências:

“A cura não é um lugar.”


“Fique com os seus. Morra com eles.”
“O Alvorada está em todos nós.”

Ele se aproximou da última frase, escrita em tinta escura sobre madeira.

— Isso é recente — disse, mais para si mesmo.

— Alguém passou por aqui. Ou ainda está — respondeu Bento, apontando para uma
marca fresca de pegada na poeira. — Não mais de um dia.

Jonas fez sinal para que não se espalhassem. Reuniram-se em torno de uma das
mesas próximas ao balcão. Nenhum deles se sentou.

— Devemos ficar ou seguir? — perguntou Davi, a voz baixa.

— Vamos esperar escurecer. Se ninguém aparecer... seguimos ao amanhecer —


respondeu Jonas.

Eles sabiam que era um risco. Mas, depois de dias caminhando, era o melhor abrigo
que tinham encontrado.

A noite chegou lenta, quase imperceptível. O vento que soprava de fora trazia
consigo um cheiro vago de carne velha — não podre, mas algo já passado do ponto
de retorno.

Lá fora, nenhum barulho. Nenhum grito. Nenhuma criatura.

— Não sei o que me incomoda mais — sussurrou Érika —, quando ouvimos eles ou
quando não ouvimos nada.

— O silêncio é mais perigoso — murmurou Luan, encostado ao batente da porta. —

38
Significa que tem predador maior.

Jonas preparou uma pequena fogueira improvisada no centro do bar, usando


madeira de mesas quebradas. A luz os reuniu, mas também os deixou expostos.

— Por que esse lugar continua inteiro? — perguntou Bento, encarando as prateleiras
intactas. — Qualquer outro já teria sido saqueado, queimado...

— Alguém protege — respondeu Jonas. — Ou espalharam história suficiente pra


ninguém querer tocar.

Imannuel observava os outros. Havia tensão em todos os gestos. Mas também algo
diferente daquela noite: um princípio de confiança. Nenhuma promessa, nenhuma
certeza. Mas estavam juntos ali, mesmo que fosse por teimosia.

— Se alguém aparecer... — disse Davi, olhando ao redor — vocês acham que vão
nos ouvir? Ou só atirar primeiro?

— Vai depender do tipo de silêncio que trouxerem — respondeu Érika.

Eles não dormiram. Apenas se revezaram em vigílias. Quando Imannuel fechou os


olhos por alguns minutos, sonhou com uma mulher escrevendo num caderno. Mas
não era Ayra. Era alguém que ele não conhecia. E ainda assim, sentia que a
conhecia de algum modo.

Ao acordar, sentiu a brisa do lado de fora.

E algo havia mudado.

Na porta, encostada de lado, havia uma flor.

Simples. Miúda. De pétalas brancas, recém-colhida.

Alguém estivera ali.

39
O céu ainda era um manto de breu quando Jonas descobriu a flor na soleira.
Ninguém havia ouvido passos. Nenhuma pegada na terra úmida do lado de fora.
Apenas aquela flor branca, com orvalho ainda preso às pétalas, deixada de lado,
como uma saudação silenciosa ou um aviso contido.

Ele não chamou ninguém. Apenas observou.

Pouco depois, Luan se aproximou e parou ao lado dele. Não perguntou nada.
Apenas viu.

Imannuel acordou com o leve estalo de madeira. Sentou-se e notou a presença


deles à porta. Caminhou devagar até lá, mantendo os olhos fixos na flor.

— Deixaram isso?

Jonas assentiu.

— Enquanto dormíamos.

— Uma marca?

— Ou uma mensagem. — Luan passou os dedos pela lateral da porta, como quem
procura uma inscrição invisível. — Tem gente que usa flores como convite. Em
algumas regiões, como armadilha.

O grupo acordou aos poucos. Davi foi o último a se erguer, com o rosto ainda
pesado de cansaço.

— Já amanheceu?

— Quase — respondeu Érika. Ela observava a flor com uma expressão que não
revelava medo, mas inquietação. — Se queriam nos assustar, conseguiram. Se
queriam conversar... também.

40
Imannuel agachou-se e pegou a flor entre os dedos. Era leve, frágil, mas fresca.
Recém-cortada. Seu perfume era suave, quase inexistente. Como tudo naquele
mundo: delicado demais para durar muito.

— Alguém está nos observando.

Ninguém respondeu.

Saíram do bar antes que o sol rompesse completamente o horizonte. O vento trazia
o cheiro de terra molhada, e o céu carregava um cinza pálido que ameaçava chuva.

A estrada à frente era mais estreita, ladeada por cercas de arame e antigas
plantações tomadas pelo mato alto. O grupo caminhava em silêncio. O bar havia
deixado um peso diferente. Como se tivessem cruzado um limite invisível.

— O que faremos se eles aparecerem de novo? — perguntou Davi, após mais de


uma hora em silêncio. — Esses... donos do lugar.

— Esperamos — disse Jonas. — Observamos. E, se for o caso... respondemos.

— Com bala?

— Com o que tivermos.

Bento tossiu baixo, cobrindo o rosto com o lenço sujo que carregava no pescoço.

— Eu só queria encontrar um lugar onde ninguém nos deixasse flores.

— Ou cadáveres — completou Érika, mais à frente.

Seguiram por mais duas horas sem incidentes. As ruínas de uma pequena vila
surgiram entre colinas baixas: casas sem telhado, janelas abertas, cortinas
dançando com o vento. Uma cadeira de rodas tombada diante de um portão
enferrujado. Um trenzinho infantil semi-enterrado no barro.

41
— Já passamos por aqui? — perguntou Luan, olhando para uma placa caída com
letras desbotadas: Pousada Boa Terra.

— Nunca — respondeu Jonas. — Mas parece igual a qualquer outro lugar que a
gente deixou pra trás.

Atravessaram o que antes fora uma rua principal. Latas amassadas, panfletos
rasgados, o esqueleto de um carro com os faróis partidos.

Imannuel parou diante de uma porta entreaberta. Dentro da casa, só escuridão. Ele
ficou ali, parado por alguns segundos, até ouvir:

— Tem alguma coisa aí?

Era Bento.

Imannuel balançou a cabeça.

— Só... silêncio.

Voltaram à estrada, agora em meio a terrenos baldios e pedras cobertas de limo. O


tempo seguia arrastado. A paisagem, repetitiva. Mas cada detalhe alimentava uma
desconfiança nova: o galho quebrado fora do ritmo do vento, a trilha batida nas
pedras, a ausência total de sons animais.

— Há quanto tempo não ouvimos um pássaro? — murmurou Érika, como se


pensasse alto.

— Desde antes da refinaria — respondeu Jonas.

— Não sei se sinto falta — disse Davi. — O silêncio é... mais previsível.

Jonas parou.

À frente, uma ponte de ferro atravessava um córrego estreito. As vigas estavam

42
firmes, mas a estrutura tinha placas de metal soldadas nos cantos. Pendurado numa
das cordas, havia um objeto branco, leve, girando ao vento.

Outro ramo de flores. Amarrado com barbante.

— Estão nos guiando — murmurou Luan. — Ou testando nossa coragem.

O grupo cruzou a ponte sem palavras. A madeira estalava sob o peso deles. O som
do rio correndo abaixo era o único ruído presente, constante, hipnótico.

Do outro lado, começaram a surgir sinais mais claros de presença humana: garrafas
empilhadas em padrões, marcas de tinta em pedras, um pequeno espantalho feito
de metal, com latas penduradas que chacoalhavam suavemente com o vento.

— Isso não é aleatório — murmurou Jonas.

— Então por que não se mostram? — perguntou Davi, olhando para os lados com
inquietação. — Se querem conversar, se querem recrutar, ajudar... por que
esconderijos e sinais?

— Porque talvez nem eles saibam o que querem — respondeu Érika. — Ou têm
medo. Medo igual ao nosso.

O grupo seguiu em frente. Atrás deles, o bar havia desaparecido na distância. À


frente, só o desconhecido — e as flores, como pegadas feitas de silêncio.

As primeiras gotas caíram com suavidade. Não molhavam, apenas marcavam a pele
com a lembrança de que o céu ainda era capaz de chorar. O grupo caminhava sem
pressa, os olhos atentos ao chão, às encostas cobertas de mato, ao sussurro da
floresta que começava a se estreitar ao redor deles.

As flores haviam desaparecido desde a ponte. Nenhuma outra marca. Só os


vestígios que o tempo deixava: um portão caído, uma camisa rasgada presa em
arame farpado, pneus queimados empilhados diante de uma guarita sem telhado.

43
Bento puxava um palito dos bolsos da jaqueta e o levava à boca com frequência. Um
gesto automático. Nervoso. Davi andava mais devagar agora, olhando para trás de
tempos em tempos. Como se esperasse que algo – ou alguém – os seguisse.
Imannuel notou, mas não disse nada. Ele próprio sentia a mesma presença. Algo
indistinto. Invisível.

— Aquela elevação ali — disse Luan, quebrando o silêncio, e apontando para uma
formação de pedras à direita — parece boa pra vigia. Se eu quisesse observar um
grupo sem ser visto… seria dali.

Jonas assentiu. Não desviou o passo.

— Continuem andando.

Subiram por uma trilha de barro endurecido, os pés afundando às vezes,


escorregando em outras. A vegetação se abria numa clareira mais adiante. Ali, no
centro, um pequeno acampamento abandonado.

Três tendas desmontadas, uma fogueira apagada há dias, restos de comida


empilhados ao lado de um balde metálico. Um lençol sujo pendurado em dois galhos.
E uma cadeira de rodas. Novamente.

— Quantas dessas já vimos? — perguntou Davi, aproximando-se da cadeira com


hesitação.

— Cadeiras? — respondeu Bento. — O suficiente pra pensar que alguém está


querendo dizer alguma coisa com isso.

Imannuel parou diante do que parecia ser um altar improvisado. Um toco de árvore
com pedras dispostas ao redor, e no centro... uma pulseira infantil.

Ele a pegou com cuidado. Era de plástico azul, com pequenas figuras em forma de
nuvem.

44
— Isso é um memorial — murmurou.

— Ou um aviso — disse Érika. — Memórias plantadas pra criar medo.

Jonas circulava as tendas, olhando cada detalhe com atenção. Encontrou um pano
dobrado com marcas de sangue seco. Nada recente. Mas era sangue. E havia
marcas de pegadas ao redor. Leves, profundas. Indicavam alguém com peso
desigual. Ou que arrastava uma perna.

— Isso aqui não foi esquecido — disse ele. — Foi deixado.

A chuva engrossou ligeiramente. Bastante para obrigá-los a procurar abrigo sob as


árvores densas na encosta seguinte. De lá, viam o vale abaixo — uma faixa de terra
irregular, cortada por um rio estreito e ladeada por vegetação baixa.

E no centro do vale, distante, algo que não esperavam: fumaça.

— Alguém fez fogo — murmurou Luan.

— Ou ainda está fazendo — completou Bento.

Ninguém sugeriu ir até lá imediatamente. Ficaram apenas observando. O tempo


pareceu congelar naquela encosta. Nenhum deles quis romper o silêncio que a
fumaça provocava.

Imannuel se sentou sobre uma pedra úmida, as mãos entrelaçadas. A pulseira ainda
estava com ele. Passava os dedos por ela como se o contato pudesse lhe dizer algo.

Lá embaixo, a fumaça continuava subindo. Lenta, espessa. Como um braço


estendido para o céu — pedindo socorro, ou celebrando um ritual.

— Vamos esperar a chuva passar — disse Jonas.

— Esperar o quê exatamente? — perguntou Davi, voz baixa. — A próxima flor?


Outro vulto entre as árvores?

45
Jonas olhou para ele sem raiva.

— Esperar as respostas virem. Elas sempre vêm. O problema é quando chegam


tarde demais.

Érika acendeu um cigarro velho, molhado na ponta. Ainda assim, tragou como se
fosse ouro.

— Gente que faz esse tipo de fogo não tem medo de ser vista.

— Ou já sabe que está sendo — completou Luan.

Bento olhou novamente para o vale. A fumaça continuava firme.

— Se for emboscada?

— Aí a gente escolhe entre lutar ou correr — respondeu Jonas. — Como sempre foi.

Esperaram quase uma hora. O sol não apareceu. O céu apenas clareou um pouco.
Quando a garoa cessou, começaram a descer a encosta.

O chão estava escorregadio. Passos precisos. Silêncio absoluto.

No caminho, encontraram um pedaço de tecido preso entre galhos. Camuflado, mas


com costura fina. Novo. Profissional.

Mais adiante, uma flecha cravada no tronco de uma árvore. Ponta afiada. Sem
oxidação.

— Estão muito próximos — murmurou Érika. — E querem que saibamos disso.

— Estão nos testando — disse Jonas. — Observando como reagimos.

Imannuel passou a mão sobre a flecha. Era pesada. Fabricada à mão, com precisão.

46
Não era improvisada como a maioria das armas dos saqueadores.

— Isso aqui é de alguém treinado.

A trilha terminou numa espécie de campo plano coberto por pedras brancas.
Dispostas como ossadas. Deliberadamente.

E no centro, três pedaços de tecido pendurados em estacas. Um preto. Um branco.


Um cinza.

Cada um com um símbolo pintado à mão: um círculo cortado por uma linha. Um
triângulo invertido. E um olho fechado.

— São marcas — murmurou Imannuel. — De clãs. Ou de algo... maior.

— O olho fechado é novo — disse Jonas. — Nunca vi.

— Eu já — murmurou Luan. — Em corpos. Mas sempre nos olhos reais. Costurados.

Davi se afastou dali. Não quis saber mais.

A fumaça continuava, agora mais intensa.

Ninguém dizia, mas todos sabiam: se seguissem em frente, alguém apareceria.

A única dúvida era como — e com que intenção.

A fumaça ganhava forma conforme o grupo avançava. Não era espessa como a de
pneus queimados. Nem dispersa como fogueiras improvisadas. Era firme.
Controlada. Subia em espiral por entre as árvores mais baixas de um pequeno
bosque adiante. Isso dizia muito a Jonas — fogo controlado significava alguém com
método. Disciplina.

Ao se aproximarem da orla do bosque, notaram sinais de cultivo: pequenas covas

47
rasas, fileiras de plantas cobertas por folhas largas, um sistema improvisado de
irrigação com latas furadas penduradas em cipós.

— Isso é... recente — murmurou Érika. — Estão tentando plantar. Aqui.

— Alguém acredita que o mundo ainda pode ser reaproveitado — disse Luan. — Ou
precisa muito de comida limpa.

As árvores se tornavam mais finas conforme adentravam o bosque. Remos de


bambu, madeira nova, folhas usadas como forro — sinais de que alguém mantinha
aquilo com frequência.

E então, viram o fogo.

Ao centro de uma clareira cuidadosamente varrida, havia um círculo de pedras.


Dentro dele, a fogueira ainda ardia. Tinha sido acesa há pouco. Lenha seca.
Chamas baixas. Uma panela de ferro descansava sobre suportes metálicos simples,
exalando cheiro de raízes e legumes cozidos.

Mas não havia ninguém.

Nenhuma presença visível.

— Abandonaram tudo... minutos atrás — disse Jonas, examinando o chão. — As


cinzas ainda estão ganhando cor.

— Então estão nos vendo — concluiu Bento, sem surpresa.

Do outro lado da clareira, próximo a uma pedra grande coberta por líquen, alguém
havia deixado um banco feito de madeira crua. Sobre ele, uma garrafa com água
limpa. E ao lado, um caderno de couro fechado por um fio rústico.

Imannuel se aproximou com calma. Pegou o caderno, olhou em volta. Nenhum som
além do fogo estalando.

48
Abriu devagar.

As páginas estavam quase todas em branco. Exceto a primeira.

Escrita à mão, em caligrafia firme:

“Quem espera, também observa.”

Abaixo, um símbolo: o triângulo invertido que ele já tinha visto nos escritos de Ayra.

— Estão nos testando — disse, mais para si do que para os outros. — Ou esperando
algo de nós.

— Querem que fiquemos — disse Érika. — Nos deixam fogo, água, comida...

— E nos deixam escolher — completou Jonas.

O grupo espalhou-se pela clareira, atentos. Mas nada indicava armadilha. Nenhum
sinal de confronto.

Só marcas. Presença velada.

Na base de uma árvore, Luan encontrou mais uma flor branca. Presa com espinho
na casca. Como um selo. Retirou-a com cuidado e a levou até Imannuel.

— Deixaram mais uma. Como resposta à nossa chegada.

Imannuel olhou para ela. Pegou a pulseira azul do bolso. Colocou as duas coisas
sobre o banco de madeira. Não disse nada.

— Vamos montar acampamento? — perguntou Bento, sem entusiasmo.

Jonas olhou em volta. O céu se abria em pequenas frestas de luz.

— Vamos esperar. Só até o fim da tarde. Se não aparecerem... seguimos caminho.

49
Ninguém discordou.

Montaram abrigo com o que havia por perto. Galhos, lonas resgatadas, os próprios
mantos. O fogo manteve-se vivo, alimentado por Jonas e Davi. A panela com o
cozido continuava lá, intocada.

Imannuel permaneceu junto ao banco. O caderno agora estava fechado sobre o


joelho. Não escrevera nada, mas sentia vontade. Como se algo pedisse palavras
naquele silêncio.

— Por que nos observam e não falam? — perguntou ele, finalmente.

Érika, sentada próxima, respondeu sem olhar para ele.

— Talvez estejam esperando ver quem somos... antes de se revelarem. Ou talvez...


estejam nos protegendo de algo maior que ainda não vimos.

As palavras ficaram no ar, sem resposta.

Lá fora, o vento balançava as árvores. Nenhum som de zumbis. Nenhum grito.


Nenhum disparo.

Apenas o som de passos leves.

Vindos da mata, ao norte.

Todos se ergueram em silêncio. Luan mirou com o rifle. Davi pegou a faca. Jonas
avançou dois passos.

Mas ninguém apareceu.

Os passos cessaram.

E no lugar deles, um sussurro arrastado, quase como uma melodia curta.

50
Três notas.

— Isso foi... uma flauta? — murmurou Bento.

— Ou um aviso — disse Jonas, a voz baixa, dura.

Mais nada se ouviu.

Mas quando Imannuel olhou novamente para o banco... a flor havia desaparecido.

O tempo passou devagar. O grupo esperou até o sol tocar o topo das árvores. A
comida esfriou. O fogo reduziu a brasas. Nenhuma nova mensagem apareceu.
Nenhuma figura se revelou.

Mas o lugar já não era o mesmo.

— Não vão se mostrar hoje — disse Jonas.

— Vão querer que voltemos — disse Luan.

— Vamos voltar?

Jonas não respondeu.

Apenas fitou o fogo apagado.

Quando deixaram a clareira, o céu começava a mudar de cor. Os ventos agora


sopravam do leste, trazendo odores metálicos, como se algo queimasse longe.

Mas nenhum deles olhou para trás.

Seguiam em silêncio, como quem sabia que os olhos ainda estavam sobre eles.

51
E, pela primeira vez em dias, mesmo sem saber exatamente o porquê...

Imannuel se sentiu observado — mas não ameaçado.

52
8 - Capitulo: Os que vêem sem serem vistos

Ano 7 d.a.
Região da Serra Trincada – limite oeste
Horário: 16h39 – Céu encoberto, vento frio constante

O grupo seguia por uma trilha estreita, contornando uma encosta de rochas baixas e
pinheiros tortos. As pegadas na terra úngida desapareciam rápido, como se o chão
não quisesse guardar vestígios. As vozes, desde a noite anterior, haviam cessado.
Nenhuma flor fora deixada desde a clareira.

Imannuel caminhava em silêncio, uma mão na alça da mochila. Dentro dela, o


caderno de Ayra permanecia fechado. Ele sentia o peso dele, mais simbólico do que
físico. Como se a qualquer momento fosse se abrir sozinho.

— Vamos fazer parada logo — disse Jonas, sem se virar. — Ainda temos luz por
uma hora e meia.

Desceram por um trecho de pedra e lama até um planalto coberto por arbustos
secos. No centro, uma estrutura de concreto rachado se erguiam: ruínas de um
posto de observação militar, ou algo parecido. Havia placas enferrujadas no chão e
trilhos de ferro inutilizados.

Davi chutou uma lata velha.

— Aqui já não passa mais gente.

— Talvez passe sem querer ser vista — respondeu Érika, de olho nos arredores.

Instalaram-se na estrutura. Não havia teto, mas as paredes ofereciam proteção


parcial contra o vento. Enquanto Luan e Jonas montavam vigia, Imannuel afastou-se
e sentou-se numa saliência de concreto, finalmente abrindo o caderno.

As primeiras páginas não lhe eram estranhas. Notas, datas, mapas rudimentares.

53
Mas uma marca em vermelho no canto de uma folha chamou sua atenção. Ele a
desdobrou.

Era o desenho de um triângulo invertido. Em cada ponta, um círculo. E sob o


desenho, uma frase:

"Eles não querem curar. Querem dominar."

Mais abaixo, em caligrafia menor:

"O sangue deles carrega frequências. Responde a estímulos. Kaleb testou em três:
dois obedeceram. Um atacou ele mesmo."

Imannuel sentiu um calafrio. Passou os dedos sobre a folha com cuidado. Kaleb não
estava apenas tentando criar imunidade. Estava tentando usar os infectados.
Controlá-los.

Ele virou a página.

Ali, palavras entrecortadas. Frases inconclusas.

"Eles observam. Não falam. Sabem demais. Estão contra Kaleb."

"Chamam-se os Observadores. Não se envolvem. Mas vêem tudo. Não querem ser
encontrados. Só compreendidos."

Imannuel olhou para o horizonte. O vento havia parado.

Atrás dele, um estalo leve. Passos.

Era Bento.

— Esse caderno... era dela, né?

Imannuel assentiu.

54
Bento se agachou perto, mas não olhou diretamente.

— Sabe, eu... não tenho certeza do que estamos seguindo. Mas sinto que tá me
puxando. Como se já tivesse estado nesse caminho antes. Mesmo sem lembrar.

Imannuel fechou o caderno.

— Talvez todos tenhamos.

Naquela noite, o frio aumentou. A fogueira estalava com dificuldade. Davi cochilava,
e Luan fazia a ronda silenciosa ao redor das ruínas. Jonas e Érika conversavam em
voz baixa. Imannuel permanecia desperto, o caderno em seu colo.

Foi então que viu.

No alto da colina, a silhueta de uma figura.

Firme. Encoberta.

Não se movia. Apenas observava.

Imannuel não acordou os outros. Apenas olhou. A figura não se aproximou. Mas
também não recuou.

No dia seguinte, ao amanhecer, encontraram algo deixado entre duas pedras, a


poucos metros do acampamento: um lenço dobrado.

No centro dele, o mesmo símbolo do Projeto Alvorada. Mas com um risco


atravessando o triângulo.

— Isso é uma recusa — disse Jonas. — Uma declaração.

— Um manifesto silencioso — completou Érika.

55
Dentro do lenço, havia um mapa. Traçado à mão. Mostrava uma antiga represa ao
norte. Um caminho marcado em linhas azuis. E ao lado, uma frase:

"Se querem verdade, caminhem."

Bento pegou o mapa, examinando-o com olhos atentos.

— A represa... eu já vi esse lugar. Mas era antes de tudo. Ou acho que era.

Imannuel guardou o lenço.

— Vamos até lá.

Ninguém discordou.

Enquanto se afastavam das ruínas, uma nova flor branca apareceu entre as pedras.

Pequena. Silenciosa.

Como os olhos que nunca deixaram de ver.

56

Você também pode gostar