Aurora do Silêncio: Sobrevivência e Mistério
Aurora do Silêncio: Sobrevivência e Mistério
Não era um errante comum. Aquilo tinha velocidade. Era um dos chamados
"rasgadores", como a comunidade os chamava — infectados de segunda geração,
mais rápidos, menos podres, mais conscientes... e absolutamente letais.
Imannuel já tinha enfrentado muitos deles, mas sozinho, sem armamento adequado
e com o psicológico no limite, tudo mudava.
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Ele puxou uma adaga improvisada do coldre no cinto — uma lâmina feita com restos
de aço cirúrgico, afiada como a culpa que o perseguia desde o dia em que perdera
sua equipe na travessia da ponte sul. Seu conhecimento em psicologia ajudava a
lidar com o medo... mas o medo, nesses tempos, era também o que o mantinha vivo.
Atrás de si, o guincho aumentava. O rasgador saltou sobre um carro tombado e caiu
apenas alguns metros de distância. Imannuel grunhiu, cortando o caminho por uma
porta semi-aberta de um armazém. Entrou, tropeçando nos destroços, e puxou a
porta com força — mas não foi o suficiente para deter a criatura. Ela se enfiou entre
as frestas, cravando unhas negras na madeira, rasgando como papel úmido.
Alguém estava ali. Uma mulher, encapuzada, segurando uma besta rudimentar — e
apontada diretamente para ele.
— Para! — ela gritou, com voz firme. — Diga seu nome. Agora.
A criatura alcançou o último degrau e saltou para cima dele. A besta disparou no
mesmo instante. O virote cravou-se no crânio do rasgador, que caiu pesadamente
aos pés de Imannuel, estatelado, finalmente imóvel.
Silêncio. Novamente.
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A mulher se aproximou cautelosa, os olhos acesos sob o capuz.
— Fui. Antes de tudo isso. — Imannuel apontou para o corpo. — Obrigado por isso.
Eu devia ter morrido hoje.
Mas ali, na aurora daquele novo dia, sentia que o verdadeiro inferno ainda nem havia
começado.
O silêncio dentro do armazém parecia mais pesado agora que a criatura jazia morta.
O corpo ainda se debatia com espasmos involuntários, como se o próprio inferno se
recusasse a soltá-lo.
— Muito tempo.
— "Muito tempo" não é uma resposta. Aqui, tempo vale mais que munição.
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Ela assentiu levemente. Não disse mais nada por um instante. A tensão entre os
dois não era hostil, mas pulsava como uma corda esticada, pronta a arrebentar.
— Isso explica por que quase morreu — murmurou, olhando para o cadáver. —
Você faz muito barulho.
— Psicologia, hein? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Aposto que tem explicações
para tudo isso também.
Imannuel hesitou. Algo nela era... diferente. Não era o tipo que salvava estranhos.
Ainda assim, ela havia salvado. E agora estava lhe dando a escolha de seguir.
Desceu.
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que parecia ser parte de uma rotina já muitas vezes repetida.
— Algo?
— Dois. Mais cedo, ao norte. E agora esse. Estão caçando. Mas não aleatoriamente.
Eles... estão seguindo alguém. Ou algo.
Ela jogou uma das mochilas na direção dele. Ele pegou no ar, surpreso com o peso.
— Está me recrutando?
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Ele sorriu de canto.
— Exato.
Saíram do armazém pela lateral, tomando cuidado para não chamar atenção. O céu
já ganhava tons mais claros, mas o sol ainda não tocava as ruas. A neblina rasteira
entre os escombros dava ao lugar um ar de cemitério aberto, e cada sombra parecia
guardar dentes.
Caminharam por quase meia hora sem dizer palavra. Ayra mantinha a dianteira,
firme, atenta, sem nunca expor as costas por muito tempo. Imannuel, mesmo
cansado, observava tudo — os gestos dela, os caminhos escolhidos, os sinais
deixados em postes e muros. Aquilo era um código. Ela fazia parte de algo.
Viraram uma viela estreita e entraram num prédio quase inteiro. Subiram dois
andares pelas escadas internas até alcançarem um cômodo reforçado por
barricadas e grades improvisadas. Havia comida enlatada, um rádio antigo, mantas,
e um mapa parcialmente rasgado afixado na parede.
— Vai dormir aqui essa noite. Amanhã seguimos até um posto de escuta a nordeste.
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— Poucos. E a maioria já não responde.
— E você, psicólogo? Vai fugir... ou ajudar a entender o que está acontecendo com
eles?
Ele se aproximou do mapa, puxou uma caneta de seu bolso interno e marcou um
ponto.
— Vi algo estranho aqui. Três semanas atrás. Um infectado que... hesitou. Como se
estivesse ouvindo algo.
Ayra ergueu o olhar. Pela primeira vez, seus olhos pareceram suavizar, não por
confiança, mas por algo próximo a... expectativa.
Eles congelaram.
Ayra foi até ele em silêncio e ajustou o volume. Um ruído baixo, como estática...
seguido por algo mais estranho: uma voz distorcida, quase inaudível, como um
sussurro maldito tentando atravessar o véu da realidade.
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O som cessou.
Imannuel fitou a janela suja e sem vidro, lá fora, onde o sol finalmente surgia.
— Não — murmurou Ayra. — É algo mais antigo. E muito mais inteligente do que
imaginamos.
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2 - Capitulo: Eles copiam
Ano 7 d.a.
Distrito externo de Lárion, ruínas periféricas de Porto Silva
Horário: 07h35 — manhã fria e enevoada
O vento cortava as ruas com o silêncio cruel de um lamento antigo. Pairava uma
névoa baixa, densa, quase viva, como se o mundo tivesse prendido a respiração.
Imannuel seguiu Ayra a alguns passos de distância, atento ao modo como ela
pisava, aos desvios que fazia. Ela parecia conhecer o caminho não apenas com os
pés, mas com o corpo todo. Como se já tivesse passado por ali muitas vezes, ou
fugido.
Entraram.
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“eles aprendem”.
Foram até a sala de comunicações. Ainda havia energia nos painéis de reserva.
Ayra ativou o rádio principal. Chiado. Depois, estática. E então... uma gravação
automática foi acionada.
Uma voz masculina, cansada, soando como se falasse pela última vez.
— Se alguém encontrar isso... não busque respostas aqui. Eles escutam. Eles...
copiam. As transmissões são enganosas. O sangue... o sangue carrega mais do que
o vírus. Ele... traduz algo. Algo que... que não pertence a este mundo.
Silêncio. Um clique. Depois, uma nova voz — desta vez, conhecida por Ayra.
Imannuel percebeu quando seus ombros enrijeceram.
— Todos os corpos foram movidos para a Zona Sete. A Ordem se manterá firme. O
Projeto Alvorada é real. E aqueles que não aceitam... serão reescritos.
Ayra não respondeu. Caminhou até o canto da sala onde uma mesa havia sido
virada de cabeça para baixo. Havia símbolos estranhos gravados na madeira, como
uma linguagem primitiva que apenas os loucos entenderiam.
— Ele era um médico — disse ela, por fim. — E um aliado. Um homem que salvava
vidas.
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— O passado de alguém não o define quando o presente é manchado.
— Ele acreditava que o sangue infectado era um código. Um padrão. Acreditava que
podia manipulá-lo... decifrar.
— E conseguiu?
Exploraram os andares inferiores. Em uma das salas frias, encontraram gavetas com
etiquetas de metal. Cada uma delas marcada com uma sequência alfanumérica —
mas estavam vazias. Exceto por uma.
Dentro, uma seringa com um líquido espesso e negro, que parecia se mover com
vida própria. Imannuel recuou instintivamente.
— Ele dizia que o segredo da mente dos infectados não estava na degeneração...
mas na reorganização. E que o sangue era a chave.
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— Você conhecia bem esse doutor, não é?
Ela ergueu os olhos para ele, e dessa vez havia algo queimada ali — lembrança ou
culpa, ele não saberia dizer.
— Bem demais.
---
Ao saírem do posto, o sol já estava alto, mas fraco. A neblina não cedia.
Caminhavam em direção a uma saída alternativa, um corredor entre duas fábricas
abandonadas.
— Espera.
Roupas limpas, jaleco escuro, botas reforçadas. O rosto parcialmente encoberto por
uma máscara de respiração. Os olhos... humanos. Racionais. Mas frios como a
superfície de um bisturi.
— Ayra — disse, com voz nítida, cortando a distância como uma lâmina. — Ainda
viva. Contra todas as probabilidades.
Ela não respondeu. Mas a tensão em seu corpo gritou por ela.
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Imannuel se adiantou um passo.
— Quem é você?
— A guerra está só começando, Ayra — disse Kaleb. — E você está do lado errado
da evolução.
Imannuel ficou parado ao lado de Ayra. Ela ainda encarava o vazio onde ele estivera.
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— Um profeta com bisturi. E está moldando um novo mundo à imagem do que viu...
dentro do sangue.
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3 - Capítulo: Profeta com Bisturi
Ano 7 d.a.
Distrito de Transição, limite da Zona Vermelha
Horário: 12h02 – Meio-dia, sob nuvens carregadas
Imannuel seguia logo atrás de Ayra, os passos ecoando pelo asfalto rachado da via
esquecida. O cheiro de ferro oxidado e terra molhada saturava o ar. A aparição de
Kaleb havia deixado algo solto no peito de ambos — uma pressão invisível, como se
tivessem sido marcados.
Ayra não dizia nada desde que deixaram o posto de escuta. Mantinha a besta
empunhada, os olhos varrendo cada esquina com precisão mecânica. Mas o ritmo
dela estava diferente. Mais acelerado. Como se quisesse fugir de algo que vinha de
dentro.
— Você sabia que ele estava vivo, não sabia? — perguntou Imannuel, após um
tempo longo demais de silêncio.
Ayra parou subitamente. O vento agitou o capuz dela. Imannuel a encarou. O olhar
dela agora parecia distante, mas tenso.
— Eu achava que podia encontrá-lo morto. Deixado para apodrecer como tantos
outros. Mas Kaleb não é do tipo que morre. Ele se adapta. Sempre se adapta.
Antes que Imannuel pudesse dizer algo, um som estranho se elevou ao longe: o
tilintar de metal contra concreto. Algo cadenciado, ritmado. Passos. Mas não de
zumbi. Era humano. Preciso. Incomodamente confiante.
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Ayra virou-se imediatamente, mirando a besta em direção ao beco estreito à
esquerda. Imannuel se abaixou, instinto afiado pela sobrevivência.
Nada.
— Droga...
Caminhava com calma pelo beco como se estivesse voltando para casa. Trazia nas
mãos um revólver de tambor polido, pesado. Clássico. Quase cerimonial. Não se
escondia. Ele queria ser visto.
— Kaleb.
— Não esperava que fugisse à primeira provocação — disse ele, com um leve
sorriso. — Sempre foi mais impulsiva do que deveria.
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— Então é por mim — disse Imannuel, surgindo ao lado.
— Ah... o psicólogo. Aquele que ainda tenta encontrar sentido na desordem. Você
não deveria estar aqui, Imannuel. Ainda não é hora.
Ayra cambaleou para trás, a besta caindo de seus dedos. O som do impacto contra o
chão ecoou como um trovão em câmera lenta. O tiro a acertara no peito, levemente
à esquerda. Sangue escorreu pela boca dela.
— Não...
Imannuel correu, mas ela já caía, os olhos fixos no céu acinzentado. Os lábios se
moveram uma última vez.
— Corra...
Kaleb não tentou impedi-lo. Apenas observou, como um cientista diante de uma
experiência inevitável.
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As ruas viraram borrões. Escombros, cartazes rasgados, sangue seco, ecos
distorcidos. Imannuel não sabia onde estava indo, apenas sabia que precisava
continuar. O som dos próprios passos era abafado pelo zumbido crescente do
trauma, da perda.
A imagem de Ayra caindo o perseguia a cada esquina. Mas não havia tempo para
dor. Não agora.
Imannuel não ouviu novos passos. Nenhum som. Aquilo o assustava ainda mais.
Kaleb não era impulsivo. Ele caçava como predador, estudava, avaliava... e só então
agia.
A resposta parecia óbvia. Mas Imannuel sabia, em sua essência, que havia mais.
Ayra sabia de algo. Algo que Kaleb queria apagar com um único disparo.
Horas se passaram.
E então lembrou das palavras de Ayra, ditas dias antes, quando acamparam juntos
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pela primeira vez:
— Kaleb sempre achou que a mente humana era imperfeita. Que podia ser
melhorada com estímulo certo, química e... controle. Ele só precisou do apocalipse
como desculpa.
Imannuel apertou os punhos. Aquilo não era só sobre zumbis. Kaleb estava
transformando sobreviventes. Talvez criando uma nova ordem... com base no
sangue dos mortos.
Em vez disso, abriu a mochila que Ayra lhe dera. Revirou os objetos até encontrar
um pequeno caderno, costurado à mão.
No centro de uma página, um símbolo: três círculos interligados por linhas retas,
formando um triângulo invertido.
ALVORADA
---
A guerra tinha começado. Mas ele ainda não sabia por quê. Só sabia que, se Kaleb
queria apagar tudo... o que Ayra deixou para trás precisava ser preservado.
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Pelo que ela sabia.
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4 - Capítulo: Códigos de sangue
Ano 7 d.a.
Região Norte de Lárion, antigo setor de escoamento
Horário: 17h47 – Início do crepúsculo
O caderno de Ayra pesava na mochila mais do que qualquer arma. Aquilo agora era
tudo o que restava dela. Uma promessa silenciosa de que alguém precisava
entender o que estava acontecendo — e talvez, impedir.
Três.
Ele se abaixou atrás de um contêiner. Mas não eram zumbis atrás deles. Um homem
surgiu correndo logo depois, segurando uma marreta enorme em uma mão e um
facão improvisado nas costas. Era alto, forte, com a pele escura e os olhos atentos,
calculando tudo ao redor.
Parou a alguns metros, ainda ofegante, como quem pesava risco e necessidade.
— Ainda tô respirando.
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— Então levanta. Aqueles vira-latas tavam fugindo de alguma coisa. E se eles tavam
correndo... a gente também devia.
— Nome?
— Imannuel.
Correram juntos por becos estreitos até se abrigarem num armazém caído. Dentro,
entre pilhas de mantimentos embolorados e móveis abandonados, Jonas trancou a
porta com um freezer velho.
O silêncio caiu.
Imannuel observou o homem. Forte, mas não brutal. A barba por fazer, os olhos
marcados por noites mal dormidas. Usava uma camisa jeans remendada e botas
gastas. Havia inteligência ali, e algo mais raro: humanidade.
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— Sei correr. E ouvir. Sou psicólogo.
— O tipo que aprende rápido. E que não fala tudo de uma vez.
— Gostei de você.
Passaram a noite ali. Enquanto Jonas cozinhava algo próximo de feijão, Imannuel
lhe contou partes da história — sobre Ayra, Kaleb, e o símbolo encontrado no
caderno.
— Já vi isso. Não muito longe daqui. Num hospital velho, abandonado. Dizem que é
onde fazem experiências com os que são pegos vivos. Ou levados à força.
— Ninguém sai. Mas eu vi entrar. Uns homens de preto, bem armados. E um cara...
com jaleco. Frio. Inteligente. Olhava em volta como se fosse dono do lugar.
— Kaleb.
Imannuel assentiu.
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— Quero ir até esse hospital.
— Tá maluco?
— Talvez. Mas preciso entender o que ele tá fazendo. E por que Ayra morreu pra
impedir.
— Então vamo juntos. Mas a gente vai precisar de armas. De gente. E de um plano.
Naquela noite, sob um teto podre e rodeados por fantasmas, dois homens feridos
fizeram um pacto. Não pelo heroísmo. Mas porque sabiam que fugir já não era
suficiente.
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5 - Capítulo: Aqueles que restam
Ano 7 d.a.
Região Norte de Lárion – Fronteira entre zona neutra e ruínas
Horário: 10h14 – Céu encoberto, ventos secos
O som do mundo não era mais feito de vida, mas de memórias retorcidas. O estalar
do vento entre as carcaças de ferro, o rangido das portas esquecidas, o assovio fino
atravessando as janelas quebradas. Tudo parecia lembrar que aquilo ali já fora uma
cidade. E agora, era apenas esqueleto.
— Tô tentando entender como a gente vai encontrar três pessoas dispostas a morrer
com a gente.
— Não precisa de três suicidas. Precisa de três que tenham perdido tanto quanto
nós. Eles sempre aparecem. O problema é saber quem ainda não enlouqueceu.
Viraram uma rua coberta de lodo seco e folhas mortas. Um antigo supermercado
bloqueava o caminho, com as portas de vidro estilhaçadas e estantes tombadas.
Passos.
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Mas não errantes. Rítmicos. Humanos.
Jonas observou o homem. Não era ameaçador, mas também não parecia inocente.
— Davi. Era porteiro antes de tudo. Agora só tento durar mais um inverno.
Imannuel se adiantou.
— Coragem eu não garanto. Mas não sou burro. Nessa cidade, andar sozinho é
pedir pra morrer devagar.
Levaram Davi com eles por duas quadras, até se abrigarem em uma garagem
subterrânea onde Jonas costumava guardar recursos. Sentaram ao redor de um
aquecedor improvisado.
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Davi falou pouco. Comia com as mãos sujas, olhos sempre se movendo. Imannuel
aproveitou o momento.
— Tava num condomínio quando os primeiros surtos chegaram. Gente que morava
ali voltou de viagem... infectada. Um homem começou a morder a própria mulher no
elevador. Quando abriram a porta, ela já tômava os outros. Deu pra ouvir os gritos
pela escada.
— Tava em casa. Minha mulher foi trabalhar, eu fiquei com meu moleque. Quando
fui abrir a porta pra buscar comida, uma mulher caiu sobre mim... olhos vazios. O
menino viu tudo.
— E o menino?
Seguiram ao amanhecer. A ideia era cruzar a zona morta até uma antiga refinaria,
onde uma mulher que Jonas conhecera talvez ainda estivesse viva. Disseram que
ela se chamava Érika, uma ex-enfermeira com mãos de cirurgiã e olhos de
julgamento.
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No caminho, viram um grupo de zumbis bloqueando uma das travessias. Davi
sugeriu um desvio pelas galerias subterrâneas. Atravessaram as escadarias escuras
sob o peso de ratos, lodo e lembranças.
Lá embaixo, um som os parou: respiração. Não era deles. Uma mulher surgiu entre
os pilares, cabelo trancado, com um lenço amarrado no rosto e uma pistola na
cintura.
— Acham que podem andar por aqui sem avisar? Isso aqui é zona segura marcada.
— Érika?
— Jonas...
A tensão baixou aos poucos. Ela os levou até seu abrigo sob a refinaria. Lá dentro,
guardava dois homens: Luan e Bento. Um era ex-militar; o outro, um marceneiro que
perdera a perna e agora usava uma prótese improvisada com metal.
Conversaram. Jonas explicou o plano: infiltrar, descobrir o que Kaleb fazia, reunir
provas e se possível... desmantelar o sistema.
— Vocês tão falando de derrubar deus. Esse Kaleb controla metades das rotas de
sangue. Tem gente que vende família pra trabalhar pra ele.
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— Precisa de mais gente ainda — disse Jonas. — Tenho um lugar em mente. Um
bar na beira da estrada. Velho, sujo, mas é onde sobreviventes trocam coisas... e
recrutam.
A noite caiu. O grupo agora contava com seis. Ainda não eram uma resistência. Mas
eram um início.
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6 - Capitulo: A sombra do Alvorada
Ano 7 d.a.
Rodovia S-14, entre Lárion e os antigos postos do interior
Horário: 08h30 – Neblina espessa, manhã cinzenta
O frio da manhã raspava nos ossos quando o grupo deixou a refinaria para trás.
Imannuel lançou um último olhar para as paredes de concreto onde haviam passado
a noite. Aquela estrutura, que parecia tão firme por fora, escondia pessoas partidas
por dentro.
Érika havia concordado em seguir com eles. Bento e Luan também. Agora, eram
seis — e por mais que parecessem unidos pelo mesmo propósito, era claro que nem
todos caminhavam na mesma direção por dentro.
— Ainda não é hora. Mas vamos na direção dele. Se der tudo errado... talvez seja o
único lugar onde ainda podemos recrutar alguém.
Ninguém falou mais. A menção ao bar trouxe um silêncio tenso. Davi caminhava ao
lado de Bento, os olhos varrendo os arredores, atento a qualquer sombra. Luan
fechava a retaguarda com seu rifle pronto, como se esperasse um ataque a cada
esquina de mata.
A estrada, coberta por folhas secas e carcaças de carros tomados pelo tempo,
parecia murmurar histórias esquecidas.
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Imannuel quebrou o silêncio, puxando conversa com Érika.
Imannuel não soube o que responder. O modo como ela dizia as coisas tinha o peso
de quem viu muito. E enterrou mais ainda.
— Sente falta?
À frente, Jonas levantou a mão e fez sinal de parada. Todos se encostaram aos
restos de um ônibus enferrujado.
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— Se tem arma e não tá com você, tá contra você. E nesse mundo, quem ainda sorri
em grupo... já matou alguém pra isso.
— Dividimos. Eu, Imannuel e Érika vamos pela lateral direita. Luan e os outros por
trás. No meu sinal... não matem, a não ser que tentem matar vocês primeiro.
Imannuel engoliu seco. Sabia que esse tipo de comando era mais costume pra
Jonas do que gostaria de admitir.
Jonas bateu com a marreta ao lado da cabeça do homem, fazendo o chão tremer.
— Vocês têm duas escolhas: nos dizem o que sabem... ou vão ser esquecidos aqui
como qualquer outro cadáver seco dessa estrada.
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Depois de alguns minutos, souberam o que precisavam: Kaleb estava recrutando em
massa. Pegava sobreviventes e prometia proteção. Mas os que iam... não voltavam.
E segundo boatos, algo estava sendo testado nos subterrâneos do hospital da Zona
Vermelha. Algo que misturava ciência, controle e sangue infectado.
— Ayra tinha isso num caderno. Era mais do que um nome. Era um símbolo. Um
triângulo invertido, com três círculos conectados. Talvez fossem... fases. Etapas.
Davi falava baixo com Bento, enquanto Luan limpava a arma. Érika organizava os
curativos, e Imannuel se sentou ao lado de Jonas.
— Fui soldado. Mas noutro tempo. Numa vida que ficou longe. Aqui... a hierarquia é
outra.
— Não acho que a gente vai mudar o mundo. Mas talvez... impeça Kaleb de criar um
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novo. Um pior.
— Sim. Lá, as pessoas ainda têm medo. Mas também têm desejo. Trocam comida
por armas. Armas por abrigo. E abrigo... por causa. Se a gente contar a história
certa... podemos trazer alguns pro nosso lado.
— E se ninguém acreditar?
O vento soprou forte. E com ele, veio o cheiro distante de fumaça. Não daquela
fogueira. De outra.
De um lugar à frente.
Eles não sabiam ainda, mas ao seguir aquela estrada, estavam se aproximando da
borda do desconhecido.
E Kaleb... já os esperava.
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7 - Capitulo: O lugar que ainda há vozes.
Ano 7 d.a.
Rodovia F-61, nas proximidades do ponto de encontro
Horário: 17h42 – Fim da tarde, céu nublado, temperatura úmida
As árvores pareciam mais altas ali. Troncos escurecidos, cobertos por musgo,
ladeavam a estrada que serpenteava através do que restava de uma floresta
esquecida. O som dos passos sobre folhas secas era abafado pela espessura do
mato. Havia umidade no ar, densa, como se algo aguardasse no nevoeiro.
Imannuel vinha mais atrás. O som do vento arrastando folhas secas soava como
sussurros. Pensou em Ayra. Não por saudade, mas pelo vazio que ela deixara
quando partiu. Desde sua morte, os caminhos pareciam ainda mais incertos. Tudo o
que ele fazia agora era com base em incerteza.
— Estamos perto — disse Jonas, parando junto a uma antiga placa de trânsito torta,
coberta de ferrugem.
Dobraram uma ladeira coberta por cascalho e vegetação rasteira. O sol, ainda que
escondido pelas nuvens, tingia de âmbar o horizonte. E então, viram as primeiras
construções.
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adiante, uma estrutura de madeira escurecida, com janelas fechadas por placas de
metal.
— O bar.
A porta do bar estava entreaberta. Jonas olhou para Luan, que se aproximou com a
arma levantada. Empurrou devagar. A madeira rangia, mas não tanto quanto se
esperava. O lugar havia sido usado recentemente.
O cheiro era uma mistura de ferrugem, madeira úmida e álcool velho. Garrafas
empoeiradas ainda ocupavam partes da prateleira atrás do balcão. Algumas mesas
estavam viradas, outras ainda tinham fichas de bar sobre o tampo. No canto, uma
jukebox coberta por um lençol manchado.
Imannuel entrou por último. Seus olhos levaram alguns segundos para se ajustar à
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luz. Paredes cobertas de pichações. Muitas ilegíveis. Outras, claras como
advertências:
— Alguém passou por aqui. Ou ainda está — respondeu Bento, apontando para uma
marca fresca de pegada na poeira. — Não mais de um dia.
Jonas fez sinal para que não se espalhassem. Reuniram-se em torno de uma das
mesas próximas ao balcão. Nenhum deles se sentou.
Eles sabiam que era um risco. Mas, depois de dias caminhando, era o melhor abrigo
que tinham encontrado.
A noite chegou lenta, quase imperceptível. O vento que soprava de fora trazia
consigo um cheiro vago de carne velha — não podre, mas algo já passado do ponto
de retorno.
— Não sei o que me incomoda mais — sussurrou Érika —, quando ouvimos eles ou
quando não ouvimos nada.
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Significa que tem predador maior.
— Por que esse lugar continua inteiro? — perguntou Bento, encarando as prateleiras
intactas. — Qualquer outro já teria sido saqueado, queimado...
Imannuel observava os outros. Havia tensão em todos os gestos. Mas também algo
diferente daquela noite: um princípio de confiança. Nenhuma promessa, nenhuma
certeza. Mas estavam juntos ali, mesmo que fosse por teimosia.
— Se alguém aparecer... — disse Davi, olhando ao redor — vocês acham que vão
nos ouvir? Ou só atirar primeiro?
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O céu ainda era um manto de breu quando Jonas descobriu a flor na soleira.
Ninguém havia ouvido passos. Nenhuma pegada na terra úmida do lado de fora.
Apenas aquela flor branca, com orvalho ainda preso às pétalas, deixada de lado,
como uma saudação silenciosa ou um aviso contido.
Pouco depois, Luan se aproximou e parou ao lado dele. Não perguntou nada.
Apenas viu.
— Deixaram isso?
Jonas assentiu.
— Enquanto dormíamos.
— Uma marca?
— Ou uma mensagem. — Luan passou os dedos pela lateral da porta, como quem
procura uma inscrição invisível. — Tem gente que usa flores como convite. Em
algumas regiões, como armadilha.
O grupo acordou aos poucos. Davi foi o último a se erguer, com o rosto ainda
pesado de cansaço.
— Já amanheceu?
— Quase — respondeu Érika. Ela observava a flor com uma expressão que não
revelava medo, mas inquietação. — Se queriam nos assustar, conseguiram. Se
queriam conversar... também.
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Imannuel agachou-se e pegou a flor entre os dedos. Era leve, frágil, mas fresca.
Recém-cortada. Seu perfume era suave, quase inexistente. Como tudo naquele
mundo: delicado demais para durar muito.
Ninguém respondeu.
Saíram do bar antes que o sol rompesse completamente o horizonte. O vento trazia
o cheiro de terra molhada, e o céu carregava um cinza pálido que ameaçava chuva.
A estrada à frente era mais estreita, ladeada por cercas de arame e antigas
plantações tomadas pelo mato alto. O grupo caminhava em silêncio. O bar havia
deixado um peso diferente. Como se tivessem cruzado um limite invisível.
— Com bala?
Bento tossiu baixo, cobrindo o rosto com o lenço sujo que carregava no pescoço.
Seguiram por mais duas horas sem incidentes. As ruínas de uma pequena vila
surgiram entre colinas baixas: casas sem telhado, janelas abertas, cortinas
dançando com o vento. Uma cadeira de rodas tombada diante de um portão
enferrujado. Um trenzinho infantil semi-enterrado no barro.
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— Já passamos por aqui? — perguntou Luan, olhando para uma placa caída com
letras desbotadas: Pousada Boa Terra.
— Nunca — respondeu Jonas. — Mas parece igual a qualquer outro lugar que a
gente deixou pra trás.
Atravessaram o que antes fora uma rua principal. Latas amassadas, panfletos
rasgados, o esqueleto de um carro com os faróis partidos.
Imannuel parou diante de uma porta entreaberta. Dentro da casa, só escuridão. Ele
ficou ali, parado por alguns segundos, até ouvir:
Era Bento.
— Só... silêncio.
— Não sei se sinto falta — disse Davi. — O silêncio é... mais previsível.
Jonas parou.
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firmes, mas a estrutura tinha placas de metal soldadas nos cantos. Pendurado numa
das cordas, havia um objeto branco, leve, girando ao vento.
O grupo cruzou a ponte sem palavras. A madeira estalava sob o peso deles. O som
do rio correndo abaixo era o único ruído presente, constante, hipnótico.
Do outro lado, começaram a surgir sinais mais claros de presença humana: garrafas
empilhadas em padrões, marcas de tinta em pedras, um pequeno espantalho feito
de metal, com latas penduradas que chacoalhavam suavemente com o vento.
— Então por que não se mostram? — perguntou Davi, olhando para os lados com
inquietação. — Se querem conversar, se querem recrutar, ajudar... por que
esconderijos e sinais?
— Porque talvez nem eles saibam o que querem — respondeu Érika. — Ou têm
medo. Medo igual ao nosso.
As primeiras gotas caíram com suavidade. Não molhavam, apenas marcavam a pele
com a lembrança de que o céu ainda era capaz de chorar. O grupo caminhava sem
pressa, os olhos atentos ao chão, às encostas cobertas de mato, ao sussurro da
floresta que começava a se estreitar ao redor deles.
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Bento puxava um palito dos bolsos da jaqueta e o levava à boca com frequência. Um
gesto automático. Nervoso. Davi andava mais devagar agora, olhando para trás de
tempos em tempos. Como se esperasse que algo – ou alguém – os seguisse.
Imannuel notou, mas não disse nada. Ele próprio sentia a mesma presença. Algo
indistinto. Invisível.
— Aquela elevação ali — disse Luan, quebrando o silêncio, e apontando para uma
formação de pedras à direita — parece boa pra vigia. Se eu quisesse observar um
grupo sem ser visto… seria dali.
— Continuem andando.
Imannuel parou diante do que parecia ser um altar improvisado. Um toco de árvore
com pedras dispostas ao redor, e no centro... uma pulseira infantil.
Ele a pegou com cuidado. Era de plástico azul, com pequenas figuras em forma de
nuvem.
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— Isso é um memorial — murmurou.
Jonas circulava as tendas, olhando cada detalhe com atenção. Encontrou um pano
dobrado com marcas de sangue seco. Nada recente. Mas era sangue. E havia
marcas de pegadas ao redor. Leves, profundas. Indicavam alguém com peso
desigual. Ou que arrastava uma perna.
Imannuel se sentou sobre uma pedra úmida, as mãos entrelaçadas. A pulseira ainda
estava com ele. Passava os dedos por ela como se o contato pudesse lhe dizer algo.
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Jonas olhou para ele sem raiva.
Érika acendeu um cigarro velho, molhado na ponta. Ainda assim, tragou como se
fosse ouro.
— Gente que faz esse tipo de fogo não tem medo de ser vista.
— Se for emboscada?
— Aí a gente escolhe entre lutar ou correr — respondeu Jonas. — Como sempre foi.
Esperaram quase uma hora. O sol não apareceu. O céu apenas clareou um pouco.
Quando a garoa cessou, começaram a descer a encosta.
Mais adiante, uma flecha cravada no tronco de uma árvore. Ponta afiada. Sem
oxidação.
Imannuel passou a mão sobre a flecha. Era pesada. Fabricada à mão, com precisão.
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Não era improvisada como a maioria das armas dos saqueadores.
A trilha terminou numa espécie de campo plano coberto por pedras brancas.
Dispostas como ossadas. Deliberadamente.
Cada um com um símbolo pintado à mão: um círculo cortado por uma linha. Um
triângulo invertido. E um olho fechado.
A fumaça ganhava forma conforme o grupo avançava. Não era espessa como a de
pneus queimados. Nem dispersa como fogueiras improvisadas. Era firme.
Controlada. Subia em espiral por entre as árvores mais baixas de um pequeno
bosque adiante. Isso dizia muito a Jonas — fogo controlado significava alguém com
método. Disciplina.
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rasas, fileiras de plantas cobertas por folhas largas, um sistema improvisado de
irrigação com latas furadas penduradas em cipós.
— Alguém acredita que o mundo ainda pode ser reaproveitado — disse Luan. — Ou
precisa muito de comida limpa.
Do outro lado da clareira, próximo a uma pedra grande coberta por líquen, alguém
havia deixado um banco feito de madeira crua. Sobre ele, uma garrafa com água
limpa. E ao lado, um caderno de couro fechado por um fio rústico.
Imannuel se aproximou com calma. Pegou o caderno, olhou em volta. Nenhum som
além do fogo estalando.
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Abriu devagar.
Abaixo, um símbolo: o triângulo invertido que ele já tinha visto nos escritos de Ayra.
— Estão nos testando — disse, mais para si do que para os outros. — Ou esperando
algo de nós.
— Querem que fiquemos — disse Érika. — Nos deixam fogo, água, comida...
O grupo espalhou-se pela clareira, atentos. Mas nada indicava armadilha. Nenhum
sinal de confronto.
Na base de uma árvore, Luan encontrou mais uma flor branca. Presa com espinho
na casca. Como um selo. Retirou-a com cuidado e a levou até Imannuel.
Imannuel olhou para ela. Pegou a pulseira azul do bolso. Colocou as duas coisas
sobre o banco de madeira. Não disse nada.
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Ninguém discordou.
Montaram abrigo com o que havia por perto. Galhos, lonas resgatadas, os próprios
mantos. O fogo manteve-se vivo, alimentado por Jonas e Davi. A panela com o
cozido continuava lá, intocada.
Todos se ergueram em silêncio. Luan mirou com o rifle. Davi pegou a faca. Jonas
avançou dois passos.
Os passos cessaram.
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Três notas.
Mas quando Imannuel olhou novamente para o banco... a flor havia desaparecido.
O tempo passou devagar. O grupo esperou até o sol tocar o topo das árvores. A
comida esfriou. O fogo reduziu a brasas. Nenhuma nova mensagem apareceu.
Nenhuma figura se revelou.
— Vamos voltar?
Seguiam em silêncio, como quem sabia que os olhos ainda estavam sobre eles.
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E, pela primeira vez em dias, mesmo sem saber exatamente o porquê...
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8 - Capitulo: Os que vêem sem serem vistos
Ano 7 d.a.
Região da Serra Trincada – limite oeste
Horário: 16h39 – Céu encoberto, vento frio constante
O grupo seguia por uma trilha estreita, contornando uma encosta de rochas baixas e
pinheiros tortos. As pegadas na terra úngida desapareciam rápido, como se o chão
não quisesse guardar vestígios. As vozes, desde a noite anterior, haviam cessado.
Nenhuma flor fora deixada desde a clareira.
— Vamos fazer parada logo — disse Jonas, sem se virar. — Ainda temos luz por
uma hora e meia.
Desceram por um trecho de pedra e lama até um planalto coberto por arbustos
secos. No centro, uma estrutura de concreto rachado se erguiam: ruínas de um
posto de observação militar, ou algo parecido. Havia placas enferrujadas no chão e
trilhos de ferro inutilizados.
— Talvez passe sem querer ser vista — respondeu Érika, de olho nos arredores.
As primeiras páginas não lhe eram estranhas. Notas, datas, mapas rudimentares.
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Mas uma marca em vermelho no canto de uma folha chamou sua atenção. Ele a
desdobrou.
"O sangue deles carrega frequências. Responde a estímulos. Kaleb testou em três:
dois obedeceram. Um atacou ele mesmo."
Imannuel sentiu um calafrio. Passou os dedos sobre a folha com cuidado. Kaleb não
estava apenas tentando criar imunidade. Estava tentando usar os infectados.
Controlá-los.
"Chamam-se os Observadores. Não se envolvem. Mas vêem tudo. Não querem ser
encontrados. Só compreendidos."
Era Bento.
Imannuel assentiu.
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Bento se agachou perto, mas não olhou diretamente.
— Sabe, eu... não tenho certeza do que estamos seguindo. Mas sinto que tá me
puxando. Como se já tivesse estado nesse caminho antes. Mesmo sem lembrar.
Naquela noite, o frio aumentou. A fogueira estalava com dificuldade. Davi cochilava,
e Luan fazia a ronda silenciosa ao redor das ruínas. Jonas e Érika conversavam em
voz baixa. Imannuel permanecia desperto, o caderno em seu colo.
Firme. Encoberta.
Imannuel não acordou os outros. Apenas olhou. A figura não se aproximou. Mas
também não recuou.
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Dentro do lenço, havia um mapa. Traçado à mão. Mostrava uma antiga represa ao
norte. Um caminho marcado em linhas azuis. E ao lado, uma frase:
— A represa... eu já vi esse lugar. Mas era antes de tudo. Ou acho que era.
Ninguém discordou.
Enquanto se afastavam das ruínas, uma nova flor branca apareceu entre as pedras.
Pequena. Silenciosa.
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