SUMÁRIO
1- CAPÍTULO 2
2- CAPÍTULO 10
3- CAPÍTULO 16
4- CAPÍTULO 22
5- CAPÍTULO 26
1- CAPÍTULO
Ano 7 d.a. (Depois do Apocalipse)
Local: Distrito de Lárion, periferia das ruínas de Porto Silva
Horário: 05h12 — nascer do sol
A cidade já não respirava há anos.
No horizonte, o céu tingia-se de um laranja escuro, como se o próprio inferno
estivesse se estendendo para além da linha das construções esqueléticas. As
estruturas da antiga Porto Silva agora eram apenas carcaças corroídas pelo tempo,
pela guerra, e pelo que veio depois. Um silêncio espectral reinava, quebrado apenas
pelo uivo distante do vento passando por janelas quebradas e postes tombados. A
aurora nascia não como promessa de um novo dia, mas como testemunha das
almas que não veriam outro ano.
Imannuel Noan correu.
Os músculos gritavam, o sangue pulsava nos ouvidos, e o mundo ao redor
desfocava-se em pura sobrevivência. Ele virou uma esquina estreita entre os restos
de dois prédios parcialmente desabados. Suas botas batiam forte contra o asfalto
rachado, molhado de orvalho e sangue ressecado. Atrás dele, o som que mais temia
— aquele arrastar irregular, acompanhado por gemidos famintos e um guincho seco
que não era mais humano.
O zumbi estava perto.
Não era um errante comum. Aquilo tinha velocidade. Era um dos chamados
"rasgadores", como a comunidade os chamava — infectados de segunda geração,
mais rápidos, menos podres, mais conscientes... e absolutamente letais.
Imannuel já tinha enfrentado muitos deles, mas sozinho, sem armamento adequado
e com o psicológico no limite, tudo mudava.
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Ele puxou uma adaga improvisada do coldre no cinto — uma lâmina feita com restos
de aço cirúrgico, afiada como a culpa que o perseguia desde o dia em que perdera
sua equipe na travessia da ponte sul. Seu conhecimento em psicologia ajudava a
lidar com o medo... mas o medo, nesses tempos, era também o que o mantinha vivo.
Atrás de si, o guincho aumentava. O rasgador saltou sobre um carro tombado e caiu
apenas alguns metros de distância. Imannuel grunhiu, cortando o caminho por uma
porta semi-aberta de um armazém. Entrou, tropeçando nos destroços, e puxou a
porta com força — mas não foi o suficiente para deter a criatura. Ela se enfiou entre
as frestas, cravando unhas negras na madeira, rasgando como papel úmido.
Ele não teria muito tempo.
Imannuel vasculhou o local rapidamente: caixas, tambores, um antigo elevador de
carga e uma escada metálica. Subiu sem pensar, cada degrau ecoando como um
tiro. O rasgador urrava lá embaixo, e no segundo em que Imannuel alcançou o andar
superior, o zumbi já escalava atrás.
Foi quando viu a silhueta.
Alguém estava ali. Uma mulher, encapuzada, segurando uma besta rudimentar — e
apontada diretamente para ele.
— Para! — ela gritou, com voz firme. — Diga seu nome. Agora.
Imannuel ergueu as mãos, o peito arfando.
— Imannuel Noan! Psicólogo! Não sou um deles!
A criatura alcançou o último degrau e saltou para cima dele. A besta disparou no
mesmo instante. O virote cravou-se no crânio do rasgador, que caiu pesadamente
aos pés de Imannuel, estatelado, finalmente imóvel.
Silêncio. Novamente.
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A mulher se aproximou cautelosa, os olhos acesos sob o capuz.
— Você disse que é psicólogo?
— Fui. Antes de tudo isso. — Imannuel apontou para o corpo. — Obrigado por isso.
Eu devia ter morrido hoje.
Ela observou o cadáver, depois o encarou.
— Sou Ayra. E você não é o único que deveria estar morto.
Imannuel engoliu em seco. Estava salvo, por ora.
Mas ali, na aurora daquele novo dia, sentia que o verdadeiro inferno ainda nem havia
começado.
O silêncio dentro do armazém parecia mais pesado agora que a criatura jazia morta.
O corpo ainda se debatia com espasmos involuntários, como se o próprio inferno se
recusasse a soltá-lo.
Imannuel se afastou um passo, observando Ayra com atenção. O capuz ocultava
parte de seu rosto, mas os olhos, acinzentados como o céu do inverno, examinavam
cada detalhe dele com cautela — como quem avalia não só o perigo físico, mas a
alma da pessoa à frente.
Ela recarregou a besta em silêncio, os movimentos rápidos e experientes.
— Há quanto tempo está sozinho? — perguntou, sem tirar os olhos dele.
— Muito tempo.
— "Muito tempo" não é uma resposta. Aqui, tempo vale mais que munição.
— Sete semanas. Talvez oito.
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Ela assentiu levemente. Não disse mais nada por um instante. A tensão entre os
dois não era hostil, mas pulsava como uma corda esticada, pronta a arrebentar.
— Isso explica por que quase morreu — murmurou, olhando para o cadáver. —
Você faz muito barulho.
Imannuel soltou um meio sorriso.
— A psicologia não me treinou para correr em silêncio.
— Psicologia, hein? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Aposto que tem explicações
para tudo isso também.
Ele não respondeu.
Ayra virou-se e começou a descer os degraus da escada com leveza surpreendente.
No meio da descida, olhou por cima do ombro.
— Está esperando o convite?
Imannuel hesitou. Algo nela era... diferente. Não era o tipo que salvava estranhos.
Ainda assim, ela havia salvado. E agora estava lhe dando a escolha de seguir.
Desceu.
Lá embaixo, ela já vasculhava as mochilas deixadas num canto escuro do galpão.
Pegou um cantil e bebeu sem oferecer. Ele não pediu.
— Conhece bem a área? — perguntou ele, finalmente.
— O bastante pra saber onde não pisar.
— Tem abrigo por aqui?
Ela o encarou por alguns segundos, depois começou a empacotar rapidamente o
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que parecia ser parte de uma rotina já muitas vezes repetida.
— Tem algo acontecendo — disse ela, quase para si mesma.
Imannuel franziu o cenho.
— Algo?
— Os rasgadores. Estão se movendo em grupo. Não costumavam fazer isso.
Ele se aproximou lentamente, atento.
— Você viu outros?
— Dois. Mais cedo, ao norte. E agora esse. Estão caçando. Mas não aleatoriamente.
Eles... estão seguindo alguém. Ou algo.
Imannuel sentiu um arrepio subir pela espinha.
— Não sabiam trabalhar em grupo. Era... instintivo, desordenado.
— Era — confirmou Ayra. — Mas isso mudou.
— Algum sinal de organização?
— Um padrão. Só que ainda não consegui entender.
Ela jogou uma das mochilas na direção dele. Ele pegou no ar, surpreso com o peso.
— Vai precisar disso. E mantenha os olhos abertos.
— Está me recrutando?
— Estou aceitando sua ajuda. Até onde for seguro.
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Ele sorriu de canto.
— Isso nunca é muito longe.
— Exato.
Saíram do armazém pela lateral, tomando cuidado para não chamar atenção. O céu
já ganhava tons mais claros, mas o sol ainda não tocava as ruas. A neblina rasteira
entre os escombros dava ao lugar um ar de cemitério aberto, e cada sombra parecia
guardar dentes.
Caminharam por quase meia hora sem dizer palavra. Ayra mantinha a dianteira,
firme, atenta, sem nunca expor as costas por muito tempo. Imannuel, mesmo
cansado, observava tudo — os gestos dela, os caminhos escolhidos, os sinais
deixados em postes e muros. Aquilo era um código. Ela fazia parte de algo.
Viraram uma viela estreita e entraram num prédio quase inteiro. Subiram dois
andares pelas escadas internas até alcançarem um cômodo reforçado por
barricadas e grades improvisadas. Havia comida enlatada, um rádio antigo, mantas,
e um mapa parcialmente rasgado afixado na parede.
Ayra trancou a porta atrás de si.
— Vai dormir aqui essa noite. Amanhã seguimos até um posto de escuta a nordeste.
Imannuel examinou o local em silêncio. Seus olhos pararam no mapa. Havia
marcações em vermelho, áreas riscadas com uma cruz preta, outras com um círculo
ao redor. Uma em especial chamou sua atenção.
— O que é isso? — apontou.
— Onde os sinais mudaram. Onde o comportamento dos infectados começou a
parecer... orquestrado.
— Quantos sobreviventes conhecem esse padrão?
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— Poucos. E a maioria já não responde.
Imannuel virou-se lentamente para ela.
— Então você não está só fugindo, está investigando.
Ayra o fitou por alguns segundos.
— E você, psicólogo? Vai fugir... ou ajudar a entender o que está acontecendo com
eles?
Ele se aproximou do mapa, puxou uma caneta de seu bolso interno e marcou um
ponto.
— Vi algo estranho aqui. Três semanas atrás. Um infectado que... hesitou. Como se
estivesse ouvindo algo.
Ayra ergueu o olhar. Pela primeira vez, seus olhos pareceram suavizar, não por
confiança, mas por algo próximo a... expectativa.
— Então talvez não tenha salvado o homem errado.
O rádio chiou brevemente no canto da sala.
Eles congelaram.
Nenhum dos dois havia ligado o aparelho.
Ayra foi até ele em silêncio e ajustou o volume. Um ruído baixo, como estática...
seguido por algo mais estranho: uma voz distorcida, quase inaudível, como um
sussurro maldito tentando atravessar o véu da realidade.
— ...não estão... mortos... todos ouvem...
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O som cessou.
Imannuel não conseguiu esconder o calafrio.
— Isso foi... real?
Ayra abaixou lentamente a mão, ainda olhando para o rádio.
— Foi a segunda vez essa semana.
Imannuel fitou a janela suja e sem vidro, lá fora, onde o sol finalmente surgia.
— Isso não é só um apocalipse biológico.
— Não — murmurou Ayra. — É algo mais antigo. E muito mais inteligente do que
imaginamos.
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2- CAPÍTULO
Ano 7 d.a.
Distrito externo de Lárion, ruínas periféricas de Porto Silva
Horário: 07h35 — manhã fria e enevoada
O vento cortava as ruas com o silêncio cruel de um lamento antigo. Pairava uma
névoa baixa, densa, quase viva, como se o mundo tivesse prendido a respiração.
Imannuel seguiu Ayra a alguns passos de distância, atento ao modo como ela
pisava, aos desvios que fazia. Ela parecia conhecer o caminho não apenas com os
pés, mas com o corpo todo. Como se já tivesse passado por ali muitas vezes, ou
fugido.
— Estamos longe do território dos errantes? — perguntou ele, em voz baixa.
— Nunca estamos — respondeu ela, sem virar o rosto.
Os prédios ao redor começavam a tomar uma forma mais industrial. Sinais
enferrujados pendiam de postes inclinados. Um deles ainda trazia as letras
parcialmente legíveis: “P. E. S. — Posto de Escuta Secundário”.
O lugar parecia morto.
Chegaram à entrada lateral de um prédio de concreto espesso, com janelas
blindadas e o que restava de uma torre de transmissão tombada. Ayra usou uma
chave improvisada presa ao cinto para destrancar o cadeado. Era claro que já
estivera ali antes.
Entraram.
O cheiro de mofo, ferrugem e abandono os envolveu. As paredes internas estavam
cobertas de mapas antigos, fios soltos e marcas de mãos, não em sangue, mas em
carvão. Mensagens escritas nas bordas: “eles cochicham”, “não olhe pela janela”,
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“eles aprendem”.
— Nenhum corpo — murmurou Imannuel. — Isso não te incomoda?
— Mais do que corpos — respondeu Ayra — me incomodam os rastros limpos.
Foram até a sala de comunicações. Ainda havia energia nos painéis de reserva.
Ayra ativou o rádio principal. Chiado. Depois, estática. E então... uma gravação
automática foi acionada.
Uma voz masculina, cansada, soando como se falasse pela última vez.
— Se alguém encontrar isso... não busque respostas aqui. Eles escutam. Eles...
copiam. As transmissões são enganosas. O sangue... o sangue carrega mais do que
o vírus. Ele... traduz algo. Algo que... que não pertence a este mundo.
Silêncio. Um clique. Depois, uma nova voz — desta vez, conhecida por Ayra.
Imannuel percebeu quando seus ombros enrijeceram.
— Todos os corpos foram movidos para a Zona Sete. A Ordem se manterá firme. O
Projeto Alvorada é real. E aqueles que não aceitam... serão reescritos.
Ela desligou o aparelho com um estalo brusco.
— Quem era? — perguntou Imannuel.
Ayra não respondeu. Caminhou até o canto da sala onde uma mesa havia sido
virada de cabeça para baixo. Havia símbolos estranhos gravados na madeira, como
uma linguagem primitiva que apenas os loucos entenderiam.
— Ele era um médico — disse ela, por fim. — E um aliado. Um homem que salvava
vidas.
Imannuel se aproximou lentamente.
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— O passado de alguém não o define quando o presente é manchado.
Ayra tocou os símbolos com a ponta dos dedos.
— Ele acreditava que o sangue infectado era um código. Um padrão. Acreditava que
podia manipulá-lo... decifrar.
— E conseguiu?
Ela se virou, olhos sombrios.
— Conseguiu algo. Mas não o que esperava.
Exploraram os andares inferiores. Em uma das salas frias, encontraram gavetas com
etiquetas de metal. Cada uma delas marcada com uma sequência alfanumérica —
mas estavam vazias. Exceto por uma.
Dentro, uma seringa com um líquido espesso e negro, que parecia se mover com
vida própria. Imannuel recuou instintivamente.
— Isso... está vivo?
Ayra olhava para a seringa com uma mistura de raiva e respeito.
— Era parte do experimento dele. Ele chamava de “versão purificada”.
— Purificada? Isso parece amaldiçoado.
— Ele dizia que o segredo da mente dos infectados não estava na degeneração...
mas na reorganização. E que o sangue era a chave.
Imannuel guardou o silêncio por um instante.
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— Você conhecia bem esse doutor, não é?
Ela ergueu os olhos para ele, e dessa vez havia algo queimada ali — lembrança ou
culpa, ele não saberia dizer.
— Bem demais.
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Ao saírem do posto, o sol já estava alto, mas fraco. A neblina não cedia.
Caminhavam em direção a uma saída alternativa, um corredor entre duas fábricas
abandonadas.
Foi quando Imannuel parou de súbito.
— Espera.
Ayra sacou a besta.
Lá no fim da viela, de pé, imóvel, uma figura humana os observava.
Roupas limpas, jaleco escuro, botas reforçadas. O rosto parcialmente encoberto por
uma máscara de respiração. Os olhos... humanos. Racionais. Mas frios como a
superfície de um bisturi.
Ele ergueu uma das mãos em saudação lenta.
— Ayra — disse, com voz nítida, cortando a distância como uma lâmina. — Ainda
viva. Contra todas as probabilidades.
Ela não respondeu. Mas a tensão em seu corpo gritou por ela.
— Achei que já tivesse desistido de mim — continuou ele. — Ou de entender o que
estamos construindo.
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Imannuel se adiantou um passo.
— Quem é você?
O homem sorriu por trás da máscara.
— Doutor Kaleb. Fundador do Projeto Alvorada. Cirurgião de almas.
Fez uma breve reverência zombeteira.
— E, pelo visto... sua salvação.
Ayra levantou a besta.
— Você devia estar morto.
— E você, devendo explicações — retrucou ele, tranquilo.
Silêncio. O vento uivou entre os prédios. E por um momento, o mundo pareceu
respirar de novo, mas não em paz. Em expectativa.
— A guerra está só começando, Ayra — disse Kaleb. — E você está do lado errado
da evolução.
Virou-se e desapareceu na neblina, tão repentinamente quanto surgira.
Imannuel ficou parado ao lado de Ayra. Ela ainda encarava o vazio onde ele estivera.
— Ele não é só um médico — disse ela, por fim.
— O que ele é, então?
Ayra respirou fundo, e pela primeira vez, sua voz tremeu.
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— Um profeta com bisturi. E está moldando um novo mundo à imagem do que viu...
dentro do sangue.
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3- CAPÍTULO
Ano 7 d.a.
Distrito de Transição, limite da Zona Vermelha
Horário: 12h02 – Meio-dia, sob nuvens carregadas
O mundo estava quieto demais.
Imannuel seguia logo atrás de Ayra, os passos ecoando pelo asfalto rachado da via
esquecida. O cheiro de ferro oxidado e terra molhada saturava o ar. A aparição de
Kaleb havia deixado algo solto no peito de ambos — uma pressão invisível, como se
tivessem sido marcados.
Ayra não dizia nada desde que deixaram o posto de escuta. Mantinha a besta
empunhada, os olhos varrendo cada esquina com precisão mecânica. Mas o ritmo
dela estava diferente. Mais acelerado. Como se quisesse fugir de algo que vinha de
dentro.
— Você sabia que ele estava vivo, não sabia? — perguntou Imannuel, após um
tempo longo demais de silêncio.
Ela não respondeu.
— Estava vindo até aqui por causa dele? Ou foi coincidência?
Ayra parou subitamente. O vento agitou o capuz dela. Imannuel a encarou. O olhar
dela agora parecia distante, mas tenso.
— Eu achava que podia encontrá-lo morto. Deixado para apodrecer como tantos
outros. Mas Kaleb não é do tipo que morre. Ele se adapta. Sempre se adapta.
Antes que Imannuel pudesse dizer algo, um som estranho se elevou ao longe: o
tilintar de metal contra concreto. Algo cadenciado, ritmado. Passos. Mas não de
zumbi. Era humano. Preciso. Incomodamente confiante.
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Ayra virou-se imediatamente, mirando a besta em direção ao beco estreito à
esquerda. Imannuel se abaixou, instinto afiado pela sobrevivência.
Nada.
Mas o som continuava. Um passo. Outro. O eco aumentava.
— Isso não é um infectado — murmurou Imannuel.
Ayra apertou o gatilho da besta. Nada. A corda emperrou.
— Droga...
Então Kaleb apareceu.
Caminhava com calma pelo beco como se estivesse voltando para casa. Trazia nas
mãos um revólver de tambor polido, pesado. Clássico. Quase cerimonial. Não se
escondia. Ele queria ser visto.
— Ayra — disse, com voz tranquila. — Sempre tão precipitada.
Ela se posicionou entre ele e Imannuel, como uma muralha.
— Kaleb.
— Não esperava que fugisse à primeira provocação — disse ele, com um leve
sorriso. — Sempre foi mais impulsiva do que deveria.
— Baixe essa arma.
Ele ergueu levemente o cano.
— Não está aqui por ti.
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— Então é por mim — disse Imannuel, surgindo ao lado.
Kaleb o observou com um interesse quase clínico.
— Ah... o psicólogo. Aquele que ainda tenta encontrar sentido na desordem. Você
não deveria estar aqui, Imannuel. Ainda não é hora.
Ayra deu um passo à frente.
— Se quer me levar, vai ter que me derrubar primeiro.
Kaleb suspirou, quase com pesar.
— Sempre tão literal...
O disparo foi seco, repentino. Rápido demais.
Ayra cambaleou para trás, a besta caindo de seus dedos. O som do impacto contra o
chão ecoou como um trovão em câmera lenta. O tiro a acertara no peito, levemente
à esquerda. Sangue escorreu pela boca dela.
— Não...
Imannuel correu, mas ela já caía, os olhos fixos no céu acinzentado. Os lábios se
moveram uma última vez.
— Corra...
Kaleb não tentou impedi-lo. Apenas observou, como um cientista diante de uma
experiência inevitável.
Imannuel se virou e correu.
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As ruas viraram borrões. Escombros, cartazes rasgados, sangue seco, ecos
distorcidos. Imannuel não sabia onde estava indo, apenas sabia que precisava
continuar. O som dos próprios passos era abafado pelo zumbido crescente do
trauma, da perda.
A imagem de Ayra caindo o perseguia a cada esquina. Mas não havia tempo para
dor. Não agora.
Ele se escondeu entre os restos de um ônibus escolar virado. O cheiro de carne
pútrida pairava no ar, mas não vinha de perto. Estava impregnado na cidade.
Kaleb estava atrás dele?
Imannuel não ouviu novos passos. Nenhum som. Aquilo o assustava ainda mais.
Kaleb não era impulsivo. Ele caçava como predador, estudava, avaliava... e só então
agia.
Respirou fundo. Precisava sair dali. E precisava entender.
Por que Kaleb a matara?
A resposta parecia óbvia. Mas Imannuel sabia, em sua essência, que havia mais.
Ayra sabia de algo. Algo que Kaleb queria apagar com um único disparo.
Horas se passaram.
Imannuel se refugiou em uma estrutura metálica semi-enterrada nos arredores de
uma antiga estação de metrô. O teto pingava, mas ali dentro havia escuridão e
silêncio, uma benção rara.
Sentou-se no canto, o corpo exausto. As mãos ainda tremiam.
E então lembrou das palavras de Ayra, ditas dias antes, quando acamparam juntos
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pela primeira vez:
— Kaleb sempre achou que a mente humana era imperfeita. Que podia ser
melhorada com estímulo certo, química e... controle. Ele só precisou do apocalipse
como desculpa.
Imannuel apertou os punhos. Aquilo não era só sobre zumbis. Kaleb estava
transformando sobreviventes. Talvez criando uma nova ordem... com base no
sangue dos mortos.
Mas por quê?
Pensou em voltar ao corpo de Ayra. Em enterrá-la. Mas era suicídio. Kaleb
provavelmente o esperava para isso.
Em vez disso, abriu a mochila que Ayra lhe dera. Revirou os objetos até encontrar
um pequeno caderno, costurado à mão.
As páginas estavam cheias de anotações. Códigos, nomes, datas. E desenhos.
No centro de uma página, um símbolo: três círculos interligados por linhas retas,
formando um triângulo invertido.
Abaixo, apenas uma palavra escrita com força:
ALVORADA
---
Imannuel fechou os olhos.
A guerra tinha começado. Mas ele ainda não sabia por quê. Só sabia que, se Kaleb
queria apagar tudo... o que Ayra deixou para trás precisava ser preservado.
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Pelo que ela sabia.
Pelo que ela era.
Pelo que ainda viria.
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4- CAPÍTULO
Ano 7 d.a.
Região Norte de Lárion, antigo setor de escoamento
Horário: 17h47 – Início do crepúsculo
O céu parecia sangrar quando Imannuel saiu do esconderijo subterrâneo. O sol,
encoberto por nuvens espessas, deixava um rastro de luz cor de ferrugem que tingia
os escombros de tons sépia, como se o próprio tempo estivesse apodrecendo.
O caderno de Ayra pesava na mochila mais do que qualquer arma. Aquilo agora era
tudo o que restava dela. Uma promessa silenciosa de que alguém precisava
entender o que estava acontecendo — e talvez, impedir.
Mas Imannuel não tinha direção. Só medo.
Avançava pelas ruas em ruínas como um fantasma, tentando apagar os próprios
passos. Em certo ponto, ouviu um ruído ao longe: cães.
Três.
Correndo como se tivessem visto o próprio inferno.
Ele se abaixou atrás de um contêiner. Mas não eram zumbis atrás deles. Um homem
surgiu correndo logo depois, segurando uma marreta enorme em uma mão e um
facão improvisado nas costas. Era alto, forte, com a pele escura e os olhos atentos,
calculando tudo ao redor.
O homem viu Imannuel.
Parou a alguns metros, ainda ofegante, como quem pesava risco e necessidade.
— Tá vivo? — perguntou com voz firme, sotaque interiorano.
— Ainda tô respirando.
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— Então levanta. Aqueles vira-latas tavam fugindo de alguma coisa. E se eles tavam
correndo... a gente também devia.
Imannuel obedeceu sem hesitar.
— Nome?
— Imannuel.
— Chamo Jonas. Vem comigo.
Correram juntos por becos estreitos até se abrigarem num armazém caído. Dentro,
entre pilhas de mantimentos embolorados e móveis abandonados, Jonas trancou a
porta com um freezer velho.
O silêncio caiu.
— Cê parece deslocado — disse Jonas. — Novo na zona?
— Mais ou menos. Tô tentando sair com vida.
— Nisso, tamo empatados.
Imannuel observou o homem. Forte, mas não brutal. A barba por fazer, os olhos
marcados por noites mal dormidas. Usava uma camisa jeans remendada e botas
gastas. Havia inteligência ali, e algo mais raro: humanidade.
— Tava sozinho? — perguntou Jonas.
— Tava com uma aliada. Ela morreu hoje.
Jonas assentiu lentamente. Não perguntou como.
— Você sabe lutar?
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— Sei correr. E ouvir. Sou psicólogo.
— Que tipo de psicólogo sobrevive sete anos aqui fora?
Imannuel deu de ombros.
— O tipo que aprende rápido. E que não fala tudo de uma vez.
Jonas riu com gosto.
— Gostei de você.
Passaram a noite ali. Enquanto Jonas cozinhava algo próximo de feijão, Imannuel
lhe contou partes da história — sobre Ayra, Kaleb, e o símbolo encontrado no
caderno.
Jonas ficou sério.
— Já vi isso. Não muito longe daqui. Num hospital velho, abandonado. Dizem que é
onde fazem experiências com os que são pegos vivos. Ou levados à força.
— Você viu alguém sair de lá?
— Ninguém sai. Mas eu vi entrar. Uns homens de preto, bem armados. E um cara...
com jaleco. Frio. Inteligente. Olhava em volta como se fosse dono do lugar.
— Kaleb.
Jonas fitou Imannuel nos olhos.
— Se é ele... então tamo lidando com mais do que um lunático.
Imannuel assentiu.
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— Quero ir até esse hospital.
— Tá maluco?
— Talvez. Mas preciso entender o que ele tá fazendo. E por que Ayra morreu pra
impedir.
Jonas ficou em silêncio por longos segundos. Depois, suspirou.
— Então vamo juntos. Mas a gente vai precisar de armas. De gente. E de um plano.
— Você tem contatos?
— Tenho uns vivos. E uns que morreram tentando.
Naquela noite, sob um teto podre e rodeados por fantasmas, dois homens feridos
fizeram um pacto. Não pelo heroísmo. Mas porque sabiam que fugir já não era
suficiente.
Agora, era preciso resistir.
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5- CAPÍTULO
Ano 7 d.a.
Região Norte de Lárion – Fronteira entre zona neutra e ruínas
Horário: 10h14 – Céu encoberto, ventos secos
O som do mundo não era mais feito de vida, mas de memórias retorcidas. O estalar
do vento entre as carcaças de ferro, o rangido das portas esquecidas, o assovio fino
atravessando as janelas quebradas. Tudo parecia lembrar que aquilo ali já fora uma
cidade. E agora, era apenas esqueleto.
Jonas caminhava na frente, os ombros largos protegendo parte do vento para
Imannuel, que seguia com o casaco apertado ao corpo. O psicólogo carregava a
mochila com suprimentos, e dentro dela, o caderno de Ayra. As palavras dela
ecoavam na mente dele com mais força do que queria admitir.
— Tá calado demais hoje — disse Jonas, sem se virar.
— Tô tentando entender como a gente vai encontrar três pessoas dispostas a morrer
com a gente.
— Não precisa de três suicidas. Precisa de três que tenham perdido tanto quanto
nós. Eles sempre aparecem. O problema é saber quem ainda não enlouqueceu.
Viraram uma rua coberta de lodo seco e folhas mortas. Um antigo supermercado
bloqueava o caminho, com as portas de vidro estilhaçadas e estantes tombadas.
— Podemos vasculhar. Talvez tenha algo ainda bom. — sugeriu Imannuel.
Jonas assentiu e entrou primeiro, marreta em mãos. Dentro, a penumbra cheirava a
estofado molhado e produtos químicos vencidos. Passaram entre os corredores,
cautelosos. Um barulho vindo do fundo os fez congelar.
Passos.
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Mas não errantes. Rítmicos. Humanos.
Jonas fez sinal para abaixar e contornar. Chegaram às traseiras do mercado e
encontraram um homem magro, de barba espessa e olhos claros, empilhando
comida em uma mochila improvisada.
Ele notou a presença dos dois, ergueu as mãos devagar.
— Sem briga, irmãos. Tô só pegando o que ia estragar.
Jonas observou o homem. Não era ameaçador, mas também não parecia inocente.
— Nome? — perguntou Jonas.
— Davi. Era porteiro antes de tudo. Agora só tento durar mais um inverno.
Imannuel se adiantou.
— A gente tá procurando aliados. Tem um caminho perigoso pela frente. Precisa de
coragem e de razão.
Davi ergueu uma sobrancelha.
— Coragem eu não garanto. Mas não sou burro. Nessa cidade, andar sozinho é
pedir pra morrer devagar.
Jonas olhou de relance para Imannuel e assentiu.
— Ele entra. Temporariamente.
Levaram Davi com eles por duas quadras, até se abrigarem em uma garagem
subterrânea onde Jonas costumava guardar recursos. Sentaram ao redor de um
aquecedor improvisado.
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Davi falou pouco. Comia com as mãos sujas, olhos sempre se movendo. Imannuel
aproveitou o momento.
— Como tudo começou pra você?
Davi mastigou e respondeu:
— Tava num condomínio quando os primeiros surtos chegaram. Gente que morava
ali voltou de viagem... infectada. Um homem começou a morder a própria mulher no
elevador. Quando abriram a porta, ela já tômava os outros. Deu pra ouvir os gritos
pela escada.
Jonas também falou:
— Tava em casa. Minha mulher foi trabalhar, eu fiquei com meu moleque. Quando
fui abrir a porta pra buscar comida, uma mulher caiu sobre mim... olhos vazios. O
menino viu tudo.
Silêncio. Pesado. Cheio.
Imannuel abaixou os olhos, sentindo o peso compartilhado. Perguntou:
— E o menino?
Jonas respirou fundo.
— Sumiu na confusão. Nunca achei corpo. Não achei mais nada.
Seguiram ao amanhecer. A ideia era cruzar a zona morta até uma antiga refinaria,
onde uma mulher que Jonas conhecera talvez ainda estivesse viva. Disseram que
ela se chamava Érika, uma ex-enfermeira com mãos de cirurgiã e olhos de
julgamento.
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No caminho, viram um grupo de zumbis bloqueando uma das travessias. Davi
sugeriu um desvio pelas galerias subterrâneas. Atravessaram as escadarias escuras
sob o peso de ratos, lodo e lembranças.
Lá embaixo, um som os parou: respiração. Não era deles. Uma mulher surgiu entre
os pilares, cabelo trancado, com um lenço amarrado no rosto e uma pistola na
cintura.
— Acham que podem andar por aqui sem avisar? Isso aqui é zona segura marcada.
Jonas reconheceu o rosto.
— Érika?
Ela estreitou os olhos.
— Jonas...
A tensão baixou aos poucos. Ela os levou até seu abrigo sob a refinaria. Lá dentro,
guardava dois homens: Luan e Bento. Um era ex-militar; o outro, um marceneiro que
perdera a perna e agora usava uma prótese improvisada com metal.
Conversaram. Jonas explicou o plano: infiltrar, descobrir o que Kaleb fazia, reunir
provas e se possível... desmantelar o sistema.
Bento foi o primeiro a rir.
— Vocês tão falando de derrubar deus. Esse Kaleb controla metades das rotas de
sangue. Tem gente que vende família pra trabalhar pra ele.
Érika foi mais contida.
— Mas se a gente for junto, talvez haja chance.
Imannuel olhou para Jonas. Ele assentiu.
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— Precisa de mais gente ainda — disse Jonas. — Tenho um lugar em mente. Um
bar na beira da estrada. Velho, sujo, mas é onde sobreviventes trocam coisas... e
recrutam.
Imannuel ergueu uma sobrancelha.
— E como você sabe disso?
— Porque eu já vendi coisa lá.
A revelação pairou no ar como poeira.
Mas ninguém julgou.
A noite caiu. O grupo agora contava com seis. Ainda não eram uma resistência. Mas
eram um início.
E o mundo, cansado de trevas, talvez ainda escutasse os que restam.
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