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Impactos do Islamismo na Iconoclastia Bizantina

O artigo analisa os impactos da expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nas fronteiras do Império Bizantino, especialmente em relação à intensificação da Controvérsia Iconoclasta. Embora a controvérsia sobre o uso de imagens na adoração cristã tenha ocorrido durante este período, o estudo conclui que as fontes não citam o islamismo como um fator significativo nessa disputa. A pesquisa busca entender as influências externas que moldaram a controvérsia iconoclasta e as divergências entre a Igreja Oriental e Ocidental.

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Impactos do Islamismo na Iconoclastia Bizantina

O artigo analisa os impactos da expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nas fronteiras do Império Bizantino, especialmente em relação à intensificação da Controvérsia Iconoclasta. Embora a controvérsia sobre o uso de imagens na adoração cristã tenha ocorrido durante este período, o estudo conclui que as fontes não citam o islamismo como um fator significativo nessa disputa. A pesquisa busca entender as influências externas que moldaram a controvérsia iconoclasta e as divergências entre a Igreja Oriental e Ocidental.

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Atribuição - Não Comercial - Sem Derivações - 4.0 Internacional

ISSN: 2965-3177

OS IMPACTOS DA
EXPANSÃO DO
ISLAMISMO NOS SÉCULOS
VII-VIII NOS ARREDORES
DO IMPÉRIO BIZANTINO
NA INTENSIFICAÇÃO
DA CONTROVÉRSIA
ICONOCLASTA
Arthur Gabriel Dos Santos Dantas1

RESUMO
No século VIII e um breve renascimento no século IX, no Império Bizantino,
houve controvérsia sobre o uso de imagens na adoração cristã. Os iconoclastas
argumentaram que essa prática poderia levar os cristãos à idolatria. A
querela ocorreu durante a expansão do islamismo nas fronteiras do Império
Bizantino. O presente artigo estabeleceu como problema de pesquisa;
quais os principais impactos da expansão do islamismo nos séculos VII-
VIII nos arredores do Império Bizantino na intensificação da Controvérsia
Iconoclasta? O estudo teve como objetivo identificar os principais impactos
da expansão do islamismo nos séculos VII a VIII nos arredores do Império
Bizantino na intensificação da controvérsia iconoclasta. Concluiu-se que
nenhuma das fontes mencionadas no estudo cita o islamismo como um fator
87
significativo nessa controvérsia.

Palavras-chave: Controvérsia Iconoclasta: Império Bizantino: islamismo:


destruição de imagens sagradas.

INTRODUÇÃO
Ao longo da história humana, é visto como a arte quase sempre fez
parte do dia a dia dos seres humanos, como a chamada arte rupestre
nas cavernas do Período Paleolítico. Porém, conforme a humanidade
evoluiu, essas representações artísticas passaram a ser mais complexas, e
estavam ligadas à religião, com estátuas, imagens e ícones simbolizando
deuses e seus feitos.

Cada povo no mundo antigo tinha esse padrão de religião e mitologia.


1 Pós-graduando em História do Cristianismo e do Pensamento Cristão pela Faculdade Batista do Rio
de Janeiro. Graduado em Teologia pelo o Centro Universitário do Vale do Ribeira – UNIVR E-mail para
contato: arthurgabrielsd@[Link]

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No âmbito da religião cristã, essa questão de imagens e ícones era vista
como algo corriqueiro e até necessário, já que são encontrados túmulos
de mártires e igrejas ilustrando Cristo, passagens e personagens das
Escrituras, com intuito de evangelizar os mais incautos e aumentar sua fé
e piedade.

No entanto, em pleno seio bizantino, mais precisamente no século VIII


e com breve reavivamento no século IX, surgiu uma controvérsia sobre
o uso destas imagens. Os argumentos dos iconoclastas, como ficaram
aqueles que eram contra os ícones, era que essa prática poderia levar
os cristãos à idolatria. Essa controvérsia também ocorreu no momento
em que o islamismo está em expansão e poderia ter influenciado nessa
controvérsia.

Assim, de acordo com o cenário apresentado, discutir sobre os principais


impactos da expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nos arredores
88 do Império Bizantino na intensificação da Controvérsia Iconoclasta
justifica-se, pois a religião cristã e o islã são duas das maiores religiões
mundiais, com bilhões de seguidores em todo o globo. Ambas possuem
uma história rica e complexa. É importante compreendermos os fatores
externos que influenciaram e moldaram a Controvérsia Iconoclasta.
Ao considerar o contexto histórico do século VIII, é impossível ignorar
o impacto que a expansão islâmica teve na Europa e no Oriente Médio,
especialmente na região do Império Bizantino.

Além disso, de acordo com Walker (2006), a presença de imagens e


ícones como forma de adoração é uma prática que tem suas origens em
séculos anteriores, mas que ainda hoje gera debates e discussões em
diversos ambientes religiosos e acadêmicos. No entanto, é notável que
essa questão ganhou maior relevância e foi mais intensamente discutida
no período compreendido entre os séculos VIII e IX. E é no período de
726-787 que é formado o dogma acerca das venerações das imagens.

Diante disso, nota-se a submissão da Igreja em obedecer às ordens


do Imperador Leão III para quebrar os ícones é um assunto de grande

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importância histórica e teológica. Diante de tal acontecimento, a Igreja
Oriental e a Igreja Ocidental tiveram posturas distintas.

Enquanto a Igreja Oriental, liderada pelo Patriarca de Constantinopla,


submeteu-se às ordens do Imperador e aceitou a quebra dos ícones, a
Igreja Ocidental, liderada pelo Papa de Roma, se posicionou firmemente
contra a destruição das imagens sagradas. Além disso, aprofundar-se
neste assunto pode contribuir para uma compreensão mais ampla das
divergências entre a Igreja Oriental e a Igreja Ocidental, bem como para
uma reflexão sobre a importância das imagens religiosas na fé cristã.

Por fim, ressalta-se que este tema também tem grande relevância para
o contexto atual, onde ainda existem divergências e debates acerca do
uso de imagens na religião. Além disso, a partir desse evento, uma série
de desavenças teológicas, políticas e culturais se intensificaram entre
os cristãos do Oriente e do Ocidente, culminando no Grande Cisma do
89 Oriente em 1054, que dividiu a Igreja em duas: a Igreja Católica Romana
no Ocidente e a Igreja Ortodoxa no Oriente.

Assim, em virtude das informações até aqui apresentadas, o presente


artigo estabeleceu como problema de pesquisa; quais os principais im-
pactos da expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nos arredores do
Império Bizantino na intensificação da Controvérsia Iconoclasta?

E como objetivo geral – Identificar os principais impactos da expansão


do islamismo nos séculos VII-VIII nos arredores do Império Bizantino
na intensificação da Controvérsia Iconoclasta. Para alcançar o objetivo
geral, os objetivos específicos serão; conceituar a expansão do islamismo
nos séculos VII-VIII nos arredores do Império Bizantino; discorrer sobre
a Controvérsia iconoclasta; analisar os principais impactos da expansão
do islamismo nos séculos VII-VIII nos arredores do Império Bizantino na
intensificação da Controvérsia Iconoclasta.

Tendo em vista tais informações, o presente estudo consiste em pesquisa


aplicada de caráter exploratório e descritivo. Nesse sentido, os resultados

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serão apresentados de forma qualitativa, a partir da coleta de uma revi-
são bibliográfica, com informações de fontes secundárias, como artigos e
livros e com análise [Link] obras de diferentes autores.

1 A EXPANSÃO DO ISLAMISMO
NOS SÉCULOS VII-VIII NOS
ARREDORES DO IMPÉRIO
BIZANTINO
As religiões judaísmo, cristianismo e islamismo têm pontos comuns na
sua teologia. Além de serem monoteístas, todas elas reivindicam a sua
origem em Abraão. O judaísmo se desenvolveu primeiro, sendo que é
90 relatado esse desenvolvimento na Bíblia Hebraica, comumente chamada
de Antigo Testamento Cristão. A maior parte da história desse desenvol-
vimento se passou na atual região da Palestina. Nos últimos 400 anos até
o século I, aquela região foi dominada por vários impérios, por exemplo o
Império Romano. Neste ínterim, o judaísmo se fragmenta e surgem várias
ramificações no seu interior, das quais o cristianismo foi confundido
como sendo um deles.

Porém, com o passar do tempo, a religião cristã se diferenciou da judaica,


e os teólogos cristãos se empenharam para escrever as bases da teologia
cristã, com o objetivo de defender a doutrina cristã das perseguições tan-
to físicas como retóricas. A partir do século IV, começa a era dos concílios
ecumênicos, com o propósito de chegar a um acordo doutrinário entre os
líderes cristãos, solucionar os problemas na Igreja e expulsar os hereges.
É notável que esses concílios aconteceram na Anatólia, que estava em
posse do Império Bizantino, que entre os séculos VII e VIII estava lidando
com o crescimento de uma nova religião, o islamismo.

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Tem várias definições dos conceitos de “Islã” e “muçulmano”. De acordo
com Hodgson (1974, p. 72) e Lewis (2004, p. 13-14), além de referir-se a
uma religião com os seus próprios dogmas e doutrinas, “Islã” pode refe-
rir-se a um modo de sociedade, e às vezes até a um império, os quais são
regidos pela lei divina. Já o termo “muçulmano” vem do árabe muslim e
significa submissão a Deus, sendo que esse ato de submissão é também
chamado de islam (Goldschmidt Junior; Al-Marashi, 2021).

Maomé é tido como sendo o fundador do Islamismo. Nascido em 570, na


Península Arábica, na cidade de Meca. Mas é a partir de 610 que a vida
de Maomé começou a mudar, já que começou a ter revelações, que ele
identificou como sendo do Anjo Gabriel. De acordo com Maomé, Gabriel
afirmou que os judeus e os cristãos teriam deturpado a mensagem de
Allah, (Deus em árabe), além de o colocar como o mensageiro divino
para os árabes. Logo após deste encontro com Gabriel, Maomé começou
a pregar a sua nova mensagem. E, apesar de conseguir uns poucos con-
91
vertidos, que incluía alguns membros de sua família, foi rejeitado. (Hodg-
son 1974, p. 167; Lewis 1996),

Essa rejeição á pregação de Maomé é explicada se consideramos que a


Península Arábica durante os séculos V e VI era dívida em muitas religi-
ões, como Zoroastrismo e vários grupos cristãos que foram declarados
hereges pelos concílios ecumênicos dos séculos anteriores, o que gerou
uma pequena perseguição a Maomé e seus seguidores. No entanto, em
622, uma data que tornaria o começo do calendário islâmico, Maomé
foi convidado a mediar um conflito de tribos locais em Medina. E pouco
tempo depois, Maomé se tornou o líder militar e espiritual de Medina.
(Hogdson, 1974, p. 140; Goldschmidt Jr; e Al-Marashi. 2021; Lewis 1996)

Levando em consideração os conceitos já apresentados sobre o assunto,


pode-se também entender que a ida de Maomé para Medina, que é cha-
mado de migração (hijra em árabe), representou o ponto de virada para
o movimento islâmico, já que até sua morte em 632 a Península Arábica
foi islamizada pelo poder da espada. (Lewis 1996).

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Vale ressaltar que esses avanços militares muçulmanos desse período,
particularmente pelo Oriente Médio, se devem a dois fatores pelo menos:
à fraqueza dos impérios da região, por exemplo o Império Bizantino:
E, embora seja menos provável, ao fervor religioso dos muçulmanos. A
chamada Jihad, (luta em árabe), faz parte da teologia muçulmana. Uma
das interpretações desse princípio é a luta armada contra os não-muçul-
manos, podendo até matá-los, embora houvesse tolerância com cristãos
e judeus em certos momentos em seus domínios (Goldschmidt Junior;
Al-Marashi, 2021; Gregory 2011, p. 181).

Conforme já mencionado, um desses lugares que mais sentiu a expansão


da religião islâmica foi o Império Bizantino. Esse milenar império, cuja
capital era Constantinopla, era o que restou do Império Romano e foi
resultado da divisão Oriental que Diocleciano fez no final do século III,
para tentar debater os ataques dos bárbaros e facilitar a administração.
No entanto, a sua metade Ocidental, com sede em Ravena, caiu em 476
92
nas mãos bárbaras. Desde então, houve várias tentativas de reunir as
duas partes, sendo uma delas a de Justiniano no século VI, mas nenhuma
delas funcionou.

No começo do século VII, o Império Bizantino se encontrava em guerra


com a Pérsia (602-628). Apesar de os bizantinos saírem vencedores no
final desses conflitos, essa peleja os deixou enfraquecidos. Esse era o
momento ideal para os avanços muçulmanos. Após da morte de Maomé,
foram os califas (Khalifa em árabe significa sucessor) que o sucederam
e foi criado o primeiro califado, o Califado Rashidun; (Lewis, 2004, p. 13;
Goldschmidt Jr. e Al-Marashi, 2021).

Após de curto reinado de Abu Bakr, o sucessor indicado pelo próprio


Maomé, a religião islâmica começou a expandir a partir de 634 com os
califas Uthman e Ali, conquistando territórios bizantinos como Egito,
Palestina e Síria, num espaço de 20 anos até o fim da década de 650.
No entanto, devido ao assassinato em 656 de Uthman, foi iniciada uma
guerra civil entre os muçulmanos que durou até 661, resultando também

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com a morte de Ali e a criação de um novo califado, o Califado Omíada
sob Muawiya ibn Abi Sufyan, sediado na Síria (Hodgson 1974, p 200;
Lewis 1996),

Nesse meio tempo, os bizantinos tentaram recuperar os territórios per-


didos, mas não conseguiram. A situação pioraria quando novos ataques
muçulmanos, desta vez dos Omíadas, começaram. Entre os anos de 674 e
678, os Omíadas fizeram um primeiro cerco a Constantinopla. Contudo,
graças á marinha bizantina, que foi tão eficiente que foi chamada de ‘fogo
grego”, o cerco muçulmano falhou (Treadgold, 1997; Gregory, 2011, p. 186).

Entrando no século VIII, os dois Estados voltaram a se enfrentar em 717


e 718 na segunda tentativa de cerco muçulmano a Constantinopla. Mas,
novamente, graças a marinha bizantina originalizada por Leão III, os
bizantinos conseguiram repelir o ataque. Aliás, depois dos anos 740, o
Império Bizantino conseguiu equilibrar as investidas muçulmanas, muito
93 em conta da queda dos Omíadas em função da ascensão dos Abássidas
e ao próprio Leão III que organizou minimamente o exército bizantino,
não houve grandes ataques muçulmanos até os meados dos séculos IX
(Treadgold, 1997; Gregory 2011).

Faz-se necessário, portanto, entender os conceitos relacionados a expan-


são do islamismo nos séculos VII-VIII nos arredores do Império Bizantino
nota-se mudanças territoriais e políticas, pois essa é uma das razões do
declino bizantino nesses dois séculos. É nesse cenário que acontecerá a
Controvérsia Iconoclasta. o assunto da próxima seção do presente artigo.

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2 A CONTROVÉRSIA
ICONOCLASTA
Conforme relatado na seção anterior, o Império Bizantino nos séculos
VI-VII estava enfrentando problemas com as invasões de povos estran-
geiros. Ao Sul, os muçulmanos estavam conquistando cada vez mais
territórios bizantinos, além dos eslavos que estavam se estabelecendo na
região dos Balcãs e expulsando os bizantinos desta mesma região. Tudo
isso levou a uma crise interna que, por sua vez, a um período de anarquia.
A situação só melhorou quando a dinastia Isauriana na figura de Leão III
(reinou de 717-741) chegou ao poder.

Nesse meio tempo, a Igreja Oriental passou por várias transformações e


surgiram certas doutrinas que foram consideradas heresias, como por
exemplo o Monoteísmo, defendida por Sérgio, patriarca de Constantino-
94
pla, que afirmava que Cristo tinha apenas uma vontade. A doutrina de
Sérgio acabou sendo condenada no III Concílio de Constantinopla (681-
682). No entanto, uma nova controvérsia iria surgir no século VII, a dos
ícones, colocando de um lado os iconoclastas (quebradores de imagens)
e do outro iconodulia (adoradores de imagens)

A Controvérsia Iconoclasta começou em 726, quando Leão III publicou


um édito cum édito contra as imagens nas igrejas. Segundo Davis (1990),
embora os motivos de Leão não sejam claros, é provável que essa atitude
contra os ícones foi influenciada pelo monofisismo que era forte na Síria,
terra natal do Imperador.

Já González (2011, p. 290), Price (2018, p. 10) e Latourrette (2006, p. 395)


afirmam que essa ação de Leão foi em função da sua fé pessoal e do te-
mor de estar desobedecendo o segundo mandamento em Êxodo 20:4-5,
onde se proíbe fazer imagens. O imperador ligou esse motivo à situação
bizantina daqueles últimos tempos, como se fosse o castigo de Deus por
conta da idolatria.

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A despeito disso, um dos defensores do uso das imagens foi João Damas-
ceno. Em uma série de tratados escritos entre os anos de 726-730, dos
quais destacam-se a Exposição da Fé Ortodoxa e a Apologia contra os
que Rejeitam as Santas Imagens, Damasceno defende que o uso destas
imagens ilustra a natureza humana de Cristo e sua encarnação. Quando
a violação do segundo mandamento foi dada como uma prevenção à
idolatria. pois os cristãos têm revelação completa (Walker, 2006, p. 272;
González, 2004, p. 192; Gregory 2011, p. 204).

De acordo com Davis (1990), Walker (2006) e Price (2018), em 730, Leão
liderou um concílio através do qual reafirmou o iconoclasmo e depôs
o então patriarca de Constantinopla, Germano, que era um iconodulia,
para colocar um tal de Anastácio, um iconoclasta. A reação do Ocidente
a essa política aconteceu no papado de Gregório II (715-731), que re-
preendeu o Imperador. E no ano seguinte do concílio que Leão presidiu,
95 Gregório III (731-741) excomungou Leão.

No ano de 741. Leão III morre, e Constantino V (741-775), seu filho,


assume o trono. Constantino continuou com a política iconoclasta, e a
endureceu. O iconoclasmo do novo imperador se baseava no argumento
de que Cristo é uma pessoa composta por duas naturezas: humana e
divina. Se uma imagem de Cristo mostrar apenas sua natureza humana, é
uma imagem falsa porque separa essa natureza da divina, o que cairia no
nestorianismo. Tentar mostrar as duas naturezas em uma única imagem
também é errado pois misturar as naturezas é herético, o que seria mo-
nofisismo. (Gregory 2011; Davis 1990),

Como o seu pai, Constantino realizou um concílio para tentar impor o


iconoclasmo. Sendo assim, de janeiro a agosto de 754 aconteceu o Con-
cílio de Hieria, diante do qual os teólogos e bispos iconoclastas concor-
daram com o argumento de Constantino descrito acima. Depois desse
concílio, muitos adoradores de imagem foram perseguidos, exilados e até
mortos (Louth, 2008, p. 52; Walker, 2006, p. 272; Latourrette, 2006, p. 397).

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A situação estava assim quando, em 775, Constantino morreu, sendo
sucedido por seu filho, Leão IV (775-780). Por causa da sua esposa Irene,
uma iconodula, a perseguição se abrandou. Em 780, Leão morre, e Irene
se torna regente de seu filho Constantino VI. Depois de muitas negocia-
ções com o papa Adriano I (772-796), Irene conseguiu realizar em 787 o
II Concílio de Nicéia. Nesse concílio, ficou definido que há vários graus
de adoração e veneração. Foram designadas as palavras em grego latria
para especificar a adoração a Deus, e dulia para a honra aos santos e
mártires, teses essas que eram baseadas nos escritos de Damasceno
(Walker, 2006, p. 272; González, 2004, p. 193-194).

González (2004) ainda ressalta que, em Nicéia acabou o movimento


iconoclasta no século VIII. No entanto, com a queda da dinastia Isauriana
e a ascensão dos Macedônios, o iconoclasmo voltou ao poder. Assim, Wa-
lker (2006, p. 273) afirma que, no começo do século IX, o imperador Leão
V (813-820) retomou as políticas que não permitiam o uso de imagens
96
religiosas. Um sínodo realizado em Constantinopla reforçou essa decisão
e a repressão continuou por vários anos. Porém, somente em 843, com
a iniciativa da imperatriz Teodora, que governava enquanto seu filho era
menor, foi permitido o uso de imagens novamente.

Portanto, entender os conceitos relacionados à Controvérsia Iconoclasta


foi muito importante na história do cristianismo pois essa discussão
teve um impacto significativo na Igreja e na sociedade da época, influen-
ciando aspectos como a arte, a religiosidade e a política. Agora que já
foram definidos os conceitos deste trabalho, a última seção analisará os
principais impactos da expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nos
arredores do Império Bizantino na Controvérsia Iconoclasta.

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3 OS PRINCIPAIS IMPACTOS
DA EXPANSÃO DO ISLAMISMO
NOS SÉCULOS VII-VIII NOS
ARREDORES DO IMPÉRIO
BIZANTINO NA INTENSIFICAÇÃO
DA CONTROVÉRSIA
ICONOCLASTA
A seção anterior relatou a Controvérsia Iconoclasta, uma discussão
sobre os ícones usados na prática de adoração e veneração. Vale ressaltar
97 que o ser humano ao longo do tempo se utilizou de símbolos e imagens.
A chamada Iconografia é a ciência que estuda os símbolos e seus signi-
ficados, procurando identificar a sua mensagem por trás dos mesmos.
Cada sociedade do mundo antigo desenvolveu uma iconografia diferente
da outra.

Ainda nesse contexto, é importante destacar que a adoração através de


imagens e ícones é uma prática que está presente em várias religiões e
culturas ao redor do mundo, desde a Antiguidade. As religiões usaram
esse tipo de recurso e desenvolveram seus dogmas e contar seus mitos. O
cristianismo não fugiu desse padrão, pois os cristãos também desenvol-
veram uma iconografia.

Segundo Davis (1990, p. 302-3), González (2011, p. 290) e Fernandes (2016,


p. 28) é possível entender que a iconografia cristã começa a se desenvolver
nos primeiros séculos do cristianismo, quando as igrejas eram decoradas
com imagens bíblicas. Porém, no século IV, bem na época de Constantino,
algumas vozes começaram a se levantar contra essas imagens, como é o
caso de Eusébio de Cesareia que, baseado na cristologia de Orígen, argu-

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mentava que a Encarnação de Cristo é um evento histórico passageiro e
que cumpriu o seu propósito que era revelar a Palavra ao mundo.

Apesar disso, a iconografia cristã começou a se desenvolver. Já no final do


século VII, mais precisamente em 691-92, aconteceu o Concílio Quini-
sexto. Os autores Davis (1990, p. 304) e Fernandes (2016, ´p. 29) afirmam
que nesse concílio foi ordenado que a representação de Cristo era para
ser em forma humana e não mais como cordeiro para lembrar os fiéis a
Sua encarnação e morte.

Era nesse contexto que estourou a Controvérsia Iconoclasta. Apesar de


não se saber as causas dessa querela, com base nos conteúdos referen-
ciais, é possível notar como o tema vem sendo abordado, em produções
científicas, de forma a entender que o islã não é uma das causas princi-
pais e teve muito pouco ou nenhum impacto na controvérsia. Contudo,
Fernandes (2016, p. 49) ressalta que muitas teorias tentam explicar o
98 começo da iconoclastia. Alguns dizem que a ideia veio de motivos religio-
sos, outros falam de motivações políticas e há também quem diga que a
razão envolvia as duas coisas juntas.

Embora González (2011, p. 290) afirme que o decreto de Leão III para des-
truir as imagens em 726 seja “[...] bem possível que ele promulgou tantos
decretos para desmentir os muçulmanos, que acusavam os cristãos de
idolatria”, essa tese é questionada por outros autores e fontes que apontam
outros fatores que podem ser mais plausíveis para essa controvérsia.

Por exemplo, há a abordagem de Ostrogorsky (1969, p. 160-164) que


afirma que a motivação de Leão foi por influências semitas que tinha
recebido na Síria. Por conta disso, e também motivado pelo ensino
Mosaico de não adorar as imagens, ele odiava as mesmas. O Imperador
achava atingir uma espiritualidade mais pura assim. Nessa mesma linha,
Price (2018, p. 10) apresenta que Leão foi motivado pela leitura do An-
tigo Testamento, que relata o fracasso do povo de Israel ao cumprir esse
mandamento.

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Ostrogorsky (1969) ainda apresenta, agora juntamente com Walker
(2006, p. 274), o lado político dessa controvérsia. Segundo essa aborda-
gem, a iconoclastia dos imperadores Leão III e Constantino V não passou
de uma tentativa de dobrar os monastérios, que eram muitos ricos
naquela época, à vontade imperial. Embora Gregory (2011, p. 207) men-
cione essa perspectiva, o autor pensa que a fé pessoal de Leão seja mais
provável para o começo da controvérsia.

Sendo assim, também é possível perceber que o assunto apresenta uma


relação com os aspectos teológicos. Gonzalez (2004) afirma que para
os bispos iconoclastas não é possível representar a natureza divina,
sendo preciso representar separadamente a humanidade de Jesus nas
imagens. Assim, caso fosse possível representar as duas naturezas juntas,
poder cometer um erro e isso já aconteceu no passado, quando a igreja
condenou duas correntes de pensamento que misturavam ou dividiam
as naturezas de Jesus. Enquanto para os bispos iconodulia “[...] ao recusa-
rem representar a forma humana de Cristo davam espaço para a acusa-
99
ção que afirmavam que Ele era Deus, mas negavam que Ele realmente se
tornara homem” (Latourrette, 2006, p.395).

Ainda, tomando por base o objetivo do presente trabalho, que trata dos
principais impactos da expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nos
arredores do Império Bizantino na intensificação da Controvérsia Icono-
clasta, é possível notar que nenhuma das fontes aqui analisadas mencio-
na o islã como fator preponderante nessa querela.

Desse modo, as principais informações que foram tratadas aqui tam-


bém passam pelas relações entre Oriente e Ocidente, que ficaram bem
abaladas. Essas consequências nas relações entre os cristãos Orientais e
Ocidentais vieram quase de imediato.

Os relatos de Davis (1990, p. 321), Gregory (2011, p. 216) e Ostrogorsky


(1969, p. 185) afirmam que a coroação de Carlos Magno pelo papa Leão
III no Natal de 800 representou um duro golpe para os bizantinos, como
se o representante de Deus na Terra, o papa, estivesse reprovando os
imperadores bizantinos daquele momento em diante.

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Ainda no que diz respeito às relações entre os cristãos Orientais e Oci-
dentais, elas pioram ainda mais no decorrer do século. IX. Mais para o
final do século, aconteceu o chamado Cisma Fociano. Esse pequeno
cisma começou quando Miguel III depôs Inácio como Patriarca de Cons-
tantinopla para colocar Fócio. Inácio, então, apelou para o Papa Nicolau I,
que excomungou Fócio. Depois de muitas negociações, Inácio retornou
ao seu posto anterior. Ademais, esse breve cisma teve o seu aspecto
teológico; os Orientais não aceitavam a cláusula Filioque no Credo Nice-
no, considerando-a herética (Gregory 2011, p. 239; González 2011, p. 325;
Latourrette, 2006, p. 406).

Nesses breves relatos fica claro, portanto, que as consequências da Contro-


vérsia Iconoclasta, embora ocorrida nos séculos VIII e IX, se refletiram nos
séculos seguintes. E ficaram, então, estabelecidas uma das bases daquilo
que é chamado de Grande Cisma do Oriente no século XI. Ademais, com
base na argumentação apresentada ao longo desta seção, fica claro que as
100
relações entre religião, política e sociedade no século VIII, bem como sobre
sua influência nas relações entre cristãos bizantinos e ocidentais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conteúdo abordado ao longo do presente trabalho demonstra a im-
portância e torna-se evidente a relevância e atualidade do tema da ado-
ração através de imagens e ícones no contexto da produção acadêmica
contemporânea. Através do estudo desse tema, é possível compreender
e analisar como a religiosidade e a arte foram influenciadas por fatores
políticos, teológicos e culturais ao longo dos séculos, além de investigar
as transformações e permanências dessa prática ao longo da história.

Este artigo, que teve por objetivo, identificar os principais impactos da


expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nos arredores do Império Bi-
zantino na intensificação da Controvérsia Iconoclasta. Na primeira parte,

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“expansão do islamismo nos séculos VII-VIII nos arredores do Império
Bizantino”, apresentou m breve resumo da origem do islamismo e sua
expansão pelo Oriente Médio. Dos temas abordados, constatou-se que o
Império Bizantino passava por alguns reveses políticos, o que favoreceu
os ataques muçulmanos

Na segunda parte, “Controvérsia Iconoclasta”, apresentou a história dos


imperadores e teólogos contra os ícones que eram usados na devoção
cristã. Dos temas abordados, constatou-se que, após cerca de cinquenta
de controvérsia, foi decidido que era lícito os cristãos venerarem esses
ícones, decisão essa que foi reconfirmada em 843

Na última parte, “os principais impactos da expansão do islamismo nos


séculos VII-VIII nos arredores do Império Bizantino na intensificação
da Controvérsia Iconoclasta.”, apresentou um apanhado das abordagens
sobre a influência do islamismo na querela das imagens. Dos temas
101 abordados, constatou-se que o movimento iconoclasta foi influenciado
por uma série de fatores, mas nenhum deles foi primeiramente causado
pelo islã que estava se expandindo na região.

Apesar de todas as contribuições apresentadas, esta temática ainda


reserva investigações posteriores a respeito da história do cristianismo
medieval; mais especificamente como o cristianismo relacionou com a
política medieval, bem como nos desdobramentos que teve no mundo
ocidental desde então.

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