Indicadores de Desenvolvimento em Deficiência Intelectual
Indicadores de Desenvolvimento em Deficiência Intelectual
RESUMO: este estudo teve o objetivo de buscar indicadores de desenvolvimento em crianças e adolescentes com dificuldades
para aprender, com QI igual ou inferior a 70 no teste WISC-IV (compatível com o valor delimitado para o diagnóstico de
deficiência intelectual). Fundamentou-se na perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano proposta por Vygotsky,
especialmente no que se refere à distinção entre desenvolvimento real e potencial. Foram relatados estudos de caso com duas
crianças. A coleta de dados ocorreu a partir de gravações em áudio de entrevistas semiestruturadas com os pais/responsáveis e com
os profissionais da escola em que os participantes estavam matriculados, e gravações em vídeo das sessões de atendimento de um
serviço de educação não formal que as crianças participavam regularmente. A análise de dados envolveu transcrição das entrevistas
e elaboração de quadros com os modos de participação social e processos mentais superiores relatados, de cada criança/adolescente;
exame das filmagens das sessões de atendimento, com transcrição e análise microgenética de episódios significativos. Os dados
sugerem que, ao se enfatizar a busca de indicadores de desenvolvimento, pode-se obter uma visão abrangente de cada caso, de
forma a contemplar, para além das limitações, as potencialidades das crianças e dos adolescentes.
PALAVRAS-CHAVE: Educação Especial. Deficiência Intelectual. Teoria Sócio-Histórico-Cultural. Desenvolvimento Humano.
ABSTRACT: This study aimed to identify development indicators in children and adolescents with learning difficulties, with IQ
equal to or below 70 in the WISC-IV test (compatible to the delimited value for diagnosis of intellectual disability). It was based on
the historical-cultural perspective of human development proposed by Vygostsky, especially in relation to the distinction between
real and potential development. This research reports two case studies with a child and a teenager. Data was collected from audio
recordings of semi-structured interviews with parents/responsible person and the professionals of the schools they were enrolled,
as well as video recordings of the service sessions in an informal educational project the child and teenager regularly attended. Data
analysis involved transcriptions of the interview and construction of tables with the child/teenager’s social participation modes and
superior mental processes, analysis of the service sessions recordings with transcriptions and micro genetic analysis of significant
episodes. Data suggest that, when emphasizing the search for development indicators, it is possible to have a wide view of each
case in a way to contemplate, beyond limitations, children and teenagers’ potentialities.
KEYWORD: Special Education. Intellectual Disability. Social-Historical-Cultural Theory. Human Development.
1 Introdução
No início do século XX, Vygotsky iniciou uma discussão sobre deficiência, em bases
diferentes da tradição organicista da época. O foco passou de uma visão biológica e centrada
nas limitações do indivíduo para a busca de compreensão do seu desenvolvimento, a partir de
uma perspectiva social e cultural (BARROCO, 2007; VYGOTSKY, 2011). Segundo Vygotsky
Apoio Financeiro: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoas de Nível Superior (Capes) – 12 meses de bolsa de mestrado
1
[Link]
2
Mestre em Saúde, Interdisciplinaridade e Reabilitação, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas,
Campinas, SP, Brasil. feer_souza@[Link]
3
Docente do Departamento de Desenvolvimento Humano e Reabilitação, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual
de Campinas, Campinas, SP, Brasil. cecigb@[Link]
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 493
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
494 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016
Indicadores de desenvolvimento e deficiência intelectual Relato de Pesquisa
mal), tal como proposta por Vygotsky (1984), traz importante contribuição, com repercussão
para a avaliação de pessoas com deficiência. O autor define o nível de desenvolvimento real
como “[...] nível de desenvolvimento das funções mentais da criança que se estabeleceram
como resultado de certos ciclos de desenvolvimentos já completados” (VYGOTSKY, 1984, p.
95). Refere-se, nesse caso, às ações que a criança consegue realizar de forma independente e que
constituem “[...] funções que já amadureceram, ou seja, os produtos finais do desenvolvimen-
to” (VYGOTSKY, 1984, p. 97). E define o nível de desenvolvimento potencial como aquele
que é “[...] determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em
colaboração com companheiros mais capazes” (VYGOTSKY, 1984, p. 97). A distância entre
o que a criança consegue realizar sozinha (nível de desenvolvimento real) e o que consegue re-
alizar com auxílio (nível de desenvolvimento potencial) caracteriza a zona de desenvolvimento
proximal (Vygotsky, 1984). Para Vygotsky:
A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas
que estão em processo de maturação, funções que amadureceram, mas que estão presentemente
em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de ‘brotos’ ou ‘flores’ do desen-
volvimento, ao invés de ‘frutos’ do desenvolvimento (VYGOTSKY, 1984, p. 97).
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 495
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
2 Método
Foi adotada a abordagem qualitativa com realização de estudos de caso (LUDKE;
ANDRÉ, 1988). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Unicamp, parecer
410.275). A pesquisadora apresentou a pesquisa aos pais ou responsáveis e aos profissionais da
instituição escolar das crianças/adolescentes, para anuência e para solicitação de assinatura do
TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
2.1 Participantes
Participaram do estudo cinco crianças e adolescentes na faixa etária entre seis e 16
anos e com QI igual ou inferior a 70 no teste WISC-IV. Essas crianças e adolescentes eram
atendidos regularmente em um programa de educação não formal em um serviço universitário
de saúde. Também participaram do estudo seus pais ou responsáveis, professores e outros pro-
fissionais da instituição escolar em que os participantes estavam matriculados. Para o presente
relato, foi selecionado o estudo de dois casos.
496 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016
Indicadores de desenvolvimento e deficiência intelectual Relato de Pesquisa
3 Resultados
3.1 Caso 1
Roberta4 tinha nove anos e oito meses e QI na faixa entre 40-49. No período do es-
tudo, durante a semana, morava com o pai e o irmão mais velho, na casa da mãe da madrasta.
Também lá moravam outras sete pessoas (quatro adultos, uma idosa, duas crianças). Roberta
passava os finais de semana com a mãe, na casa dos avós maternos. No período da coleta de dados,
cursava o quarto ano do Ensino Fundamental em uma escola pública, estando no início do pro-
cesso de alfabetização. Roberta mudou algumas vezes de escola devido às mudanças nos arranjos
familiares. Nesse período, era também atendida por neuropediatra, fonoaudióloga e psicóloga.
No caso de Roberta, as entrevistas com os pais/responsáveis foram realizadas com
a mãe e madrasta. As entrevistas com os profissionais da escola foram realizadas com a coor-
denadora pedagógica e com a professora da sala regular (nessa escola, tinha ingressado há um
semestre). Nos quadros a seguir, são descritos os modos de participação social e os processos
mentais superiores de Roberta.
4
Todos os nomes utilizados são fictícios para preservar a identidades dos participantes do estudo.
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 497
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
498 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016
Indicadores de desenvolvimento e deficiência intelectual Relato de Pesquisa
des domésticas. De acordo com o relato da madrasta, Roberta se mostra atenta e colaborativa nos
momentos em que ela necessita da sua ajuda nas tarefas domésticas. Com base nos relatos, de-
preende-se que tem uma boa interação com as pessoas da casa, mostrando-se solícita e carinhosa.
Em relação à interação social, na escola, a professora e a coordenadora pedagógica
relataram que com incentivo e após um período de adaptação na nova escola, Roberta passou
a interagir com os colegas e participar no momento do recreio.
Desta forma, o desempenho de Roberta evidencia a apropriação de normas sociais,
com utilização das mesmas em diferentes contextos, o que envolve atenção, memória e capa-
cidade de adaptação. Mostra, também, exemplos de afetividade e responsividade na interação
com adultos, fatores muito importantes para a aprendizagem.
Noção de tempo Lembra à madrasta o dia dos atendimentos terapêuticos (terça e quarta-feira). Md
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 499
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
Episódio
Atividade: Jogo Aprendendo os opostos
Objetivo do jogo: O jogo é composto por 12 pares de peças com figuras em que há
pares de desenhos, que só diferem em relação a um atributo (exemplo: alto e baixo). O objetivo
é associar duas figuras opostas e encaixar as peças formando os pares. Todas as cartas estão den-
tro da caixa do jogo, com as figuras voltadas para cima, pouco embaralhadas. Em geral, a maior
parte das figuras tem o mesmo cenário, cores e estilo de desenho semelhantes.
1º Par – fechado X aberto
5
Participantes do Programa de Aprimoramento Profissional – PAP da FCM, Unicamp. No período do estudo, o Programa era
coordenado, em âmbito estadual, pela Fundap, e também constituía curso de pós-graduação lato sensu junto à Unicamp. Consiste
em programa de formação em serviço, com duração de um ano. No caso do presente estudo, trata-se do Programa: Psicologia do
Desenvolvimento e Deficiência, para graduados em Psicologia, Fonoaudiologia ou Pedagogia.
500 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016
Indicadores de desenvolvimento e deficiência intelectual Relato de Pesquisa
Roberta seleciona um par correto de figura no meio das demais: A) menina e torneira
aberta e B) menina (igual à da outra figura) e torneira fechada. A pesquisadora aponta as di-
mensões (“fechado” e “aberto”), dando modelo à criança.
2º Par – muito X pouco
Roberta pega duas cartas no meio das demais: A) vaso cheio de flores e B) vaso com
uma flor. A criança responde corretamente às perguntas da pesquisadora sobre o atributo.
3º Par – dentro X fora
Roberta pega duas cartas: A) menina de fora da casa e B) menina dentro da casa.
Após perguntas da pesquisadora, Roberta foca nas dimensões “porta aberta” e “porta fechada” e
não nas dimensões destacadas nas normas do jogo (menina “dentro” e “fora”).
4º Par – pesado X leve
Roberta pega duas cartas: A) menino segurando uma pedra e B) menino segurando
uma pena. Roberta responde a pergunta da pesquisadora sobre a carta A:
R: Pegando uma pedra.
P: Isso, pegando uma pedra, um peso. Está difícil pegar esse peso?
R: Sim.
P: Está pesado?
R: Sim.
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 501
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
Restaram duas cartas sobre a mesa: A) figura de uma lua e várias estrelas e B) figura de
um sol.
Inicialmente Roberta nomeia as figuras de cada carta e, com a intervenção da pesqui-
sadora, identifica as dimensões “noite” e “dia”, esta última com o nome de “manhã”.
Análise do episódio: Para atender ao objetivo do jogo, é necessário identificar pares
de figuras que são semelhantes em tudo, menos em um atributo, que é apresentado por duas
dimensões opostas (ex: atributo: quantidade, dimensões: muito e pouco). As tarefas envolvi-
das são: identificar o par, e, em seguida, identificar as dimensões em que o atributo varia nas
502 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016
Indicadores de desenvolvimento e deficiência intelectual Relato de Pesquisa
duas figuras. Roberta tem facilidade em identificar os pares e, quando erra, corrige-se e busca
o par, com exceção do par “feliz e triste”, em que se corrige após dica da pesquisadora. Esse
desempenho mostra capacidade de percepção visual e atenção para identificar as semelhanças
de cenários.
Em relação à identificação do aspecto em que as figuras diferiam, Roberta apresenta
diferentes desempenhos ao longo do jogo. Roberta identifica o atributo central de alguns pares;
algumas vezes, sem a ajuda da pesquisadora e, outras, após pistas ou apresentação parcial da
resposta. Em alguns pares, Roberta identifica a dimensão que varia, mas não usa os termos do
jogo. No 9º par, Roberta não responde de acordo com os termos do jogo (magro), mas usa uma
palavra apropriada ao contexto (emagrecido). Observa-se, em todo esse conjunto de ações da
criança, a presença de compreensão, raciocínio, abstração a partir de estímulos visuais, atenção,
concentração e persistência na tarefa.
3.2 Caso 2
Fábio tinha 12 anos e cinco meses e QI na faixa entre 40-49. No período do estudo,
morava com os pais. Tinha uma irmã mais velha que morava sozinha. No período da coleta de
dados, cursava o quinto ano do Ensino Fundamental em uma escola pública, estando no início
do processo de alfabetização. Nesse período, era também atendido por neurologista infantil em
um serviço público de saúde.
No caso de Fábio, a entrevista com os pais/responsáveis foi realizada com a mãe e a
entrevista com os profissionais da escola foi realizada com a professora de educação especial.
Nos quadros a seguir, são descritas as habilidades sociais e cognitivas de Fábio.
Modos de participação social Inf.
F
É carinhoso com os familiares mais próximo (beija a mãe com frequência).
Compartilha seus brinquedos e materiais escolares com os colegas e primos.
F
Interação em casa e Pede desculpas quando faz algo errado e chamam sua atenção.
na comunidade Pede desculpas quando esbarra em alguém sem querer.
F
Quando o pai briga com a mãe, tem iniciativa de consolá-la, mas não inter-
F
fere na discussão, nem fica contra o pai.
F
Usa colher em casa, ao invés de garfo e faca. Derrama alimentos do talher
F
(mãe monitora almoço e jantar).
Usa garfo e faca na escola.
Alimentação E
Serve-se na escola.
E
Prepara o seu lanche (esquenta o leite com Nescau e prepara o pão - passa
F
requeijão ou margarina)
Limpa-se após fazer cocô. F
Penteia o cabelo. F
Toma banho e escova dentes (mãe monitora) F
Cuidados pessoais Escolhe as roupas de acordo com a ocasião (quando a mãe não dá a roupa). F
Veste-se sozinho (às vezes, confunde o lado da cueca).
Não usa roupa nem calçado quando estão sujos. Avisa para a mãe a necessi- F
dade de lavar. F
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 503
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
Conhece os ônibus que pega para ir semanalmente ao Cepre (no terminal vai à
Orientação espacial F
frente da mãe, para o ponto).
Nos dias de aula, se a mãe não chamar para ir à escola, Fábio acorda sozinho e F
pede a roupa para se vestir – mãe dá a roupa e ele se arruma. Raramente levanta
Noção de tempo
e pega a roupa.
Organiza-se para sair de casa no dia do atendimento no Cepre. F
504 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016
Indicadores de desenvolvimento e deficiência intelectual Relato de Pesquisa
Representação
Escreve o seu nome completo sem auxílio. E
gráfica
E
Interessa-se e tem facilidade em montar quebra cabeça (12 e 15 peças).
Outros Anda de bicicleta sem rodinha.
F
Nada em piscina (aprendeu com os primos)
F
Quadro 4 – Processos mentais superiores – Fábio.
Fonte: Elaboração própria
Legenda
Inf: informante
F: família
E: escola
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 505
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
Episódio
Atividade: Brincadeira com jogo da memória adaptado às peças de sequência lógica
Durante o atendimento do programa, a Aprimoranda 1 e a pesquisadora trabalharam
com sequência lógica. No final da atividade, Fábio demonstra interesse em utilizar as peças de
madeira da sequência lógica para jogar memória. A pesquisadora seleciona duas peças com
figuras semelhantes, de cada sequência lógica, totalizando oito peças e quatro pares diferentes,
com as seguintes figuras: flor, embrulho de presente, bolo de aniversário e árvore de natal. As
peças são dispostas sobre a mesa, de modo que as figuras ficam voltadas para baixo.
No relato a seguir, as peças são identificadas pelo nome das figuras, seguido pelos
números 1 ou 2, que indicam a ordem em que as peças foram viradas pela primeira vez pelos
jogadores (ex: “flor 1” é a peça com desenho da flor que foi a primeira a ser virada por um jo-
gador). As viradas, por jogador, são apresentadas na sequência em que ocorreram.
Fábio começa a jogar.
F: 1ª jogada - Embrulho de presente 1 e flor 1
P: 2ª jogada - Bolo de aniversário 1 e flor 2
F: 3ª jogada - Flor 1 e flor 2 – forma o par
F: 4ª jogada - Embrulho de presente 2 e embrulho de presente 1 - forma o par
F: 5ª jogada - Bolo de aniversário 2 e bolo de aniversário 1 - forma o par
F: 6ª jogada - Árvore de natal 1 e árvore de natal 2 - forma o par com as peças que restaram
na mesa.
Análise do episódio: Na 3ª jogada, Fábio forma o seu primeiro par, mostra atenção às
duas jogadas anteriores e memorização da posição da peça flor 1, virada por ele na 1ª jogada e
a posição da flor 2, virada pela pesquisadora na 2ª jogada.
Na 4ª e 5ª jogada, vira uma figura pela primeira vez (4ª - embrulho de presente 2;
5ª - bolo de aniversário 2) e demonstra atenção às jogadas anteriores e memorização da posição
dos seus pares, virados respectivamente na 1ª e 2ª jogada. Nessas duas jogadas, Fábio utiliza a
estratégia de primeiro virar a peça desconhecida para, em seguida, tentar pareá-la com a peça
conhecida.
Ao longo desse episódio mostrou capacidade de memória visual, raciocínio, retenção
e recuperação de informações, atenção e persistência na tarefa. Essas habilidades são relevantes
em uma criança considerada como difícil de obter envolvimento e participação nas atividades.
4 Discussões
A busca de indicadores do desenvolvimento, de acordo a noção de desenvolvimento
potencial de Vygotsky (1984), está voltada para funções em vias de desenvolvimento, avaliado
a partir da observação das ações da criança/adolescente em momentos em que recebe auxílios e
apoios de alguém mais competente. Como se trata de habilidades em vias de desenvolvimento,
cabe lembrar que elas, muitas vezes, caracterizam-se por serem infrequentes, de ocorrência as-
sistemática e muito dependentes do contexto (podem, por exemplo, ocorrer em uma situação
com um jogo preferido pelo participante e não ser observadas em jogo análogo). Dessa forma,
para capturar esses indicadores, foi preciso observar essas crianças e adolescentes por um tem-
506 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016
Indicadores de desenvolvimento e deficiência intelectual Relato de Pesquisa
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 507
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
Além das observações diretas, o contato com pessoas relevantes na vida dos parti-
cipantes, incluindo o ambiente familiar (entrevista com os pais/responsáveis) e o escolar (en-
trevista com os profissionais da escola), contribuiu para uma compreensão mais abrangente
de cada caso. Nas entrevistas com familiares, foram evidenciados exemplos de promoção de
autonomia e, também, de modos de atuação que dificultavam essa autonomia. Foi, também,
possível identificar múltiplos exemplos de apropriação de conhecimentos e modos de partici-
pação, que permitem a obtenção de um quadro mais abrangente de cada caso. O mesmo foi
possibilitado pelas entrevistas com os profissionais da instituição escolar.
5 Conclusões
Os dados sugerem que, ao se enfatizar a busca de indicadores de desenvolvimento,
pode-se obter uma visão abrangente de cada caso, de forma a contemplar, para além das limi-
tações, as potencialidades das crianças e dos adolescentes. Ao observar essas crianças e adoles-
centes por um tempo prolongado, em um ambiente ao qual estavam familiarizadas, foi possí-
vel identificar várias habilidades relacionadas aos conhecimentos escolares, incluindo atenção,
memória, raciocínio, compreensão e expressão verbal, bem como envolvimento na tarefa por
períodos de tempo consideráveis, e modos de participação social apropriados a diferentes con-
textos. A presença dessas habilidades, mesmo que não mantidas para todas as tarefas, sugere
pistas para o planejamento pedagógico e organização de serviços.
Referências
BATISTA, C.G.; CARDOSO, L.M.; SANTOS, M.R.A. Procurando “botões” de desenvolvimento: a
avaliação de crianças com deficiência e acentuadas dificuldades de aprendizagem. Estudos de Psicologia,
Natal, v.11, n.3, p.297-305, 2006.
BATISTA, C.G., LAPLANE, A.L.F. Modalidades de atendimento especializado: o grupo de
convivência de crianças com deficiência visual. In: MASINI, E.F.S. (Org.). A pessoa com deficiência
visual: um livro para educadores. São Paulo: Vetor, 2007.
BARROCO, S.M.S. A Educação especial do novo homem soviético e a psicologia de L. S. Vigotski:
implicações e contribuições para a psicologia e a educação atuais. 2007. 414f. Tese (Pós-Graduação em
Educação Escolar) - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Araraquara, 2007.
DAIANÊZ, D. A inclusão escolar de crianças com deficiência mental: focalizando a noção de
compensação na abordagem histórico-cultural. 2007. Dissertação (Pós-Graduação em Educação) -
Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Metodista de Piracicaba, Piracicaba, 2009.
FREITAS, A.P. Um estudo sobre as relações de ensino na educação inclusiva: indícios das
possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília,
v.18, n.3, p.411-430, 2012.
GÓES, M.C.R. A abordagem microgenética na matriz histórico-cultural: uma perspectiva para o
estudo da constituição da subjetividade. Caderno CEDES, Campinas, v.20, n.50, p.9-25, 2000.
GÓES, M.C.R. Relações entre desenvolvimento humano, deficiência e educação: contribuições da
abordagem histórico-cultural. In: OLIVEIRA M.K.; SOUZA, D.T.R.; REGO, T.C. (Org.). Psicologia,
educação e as temáticas da vida contemporânea. São Paulo: Moderna, 2002.
508 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016
Indicadores de desenvolvimento e deficiência intelectual Relato de Pesquisa
LUDKE, M.; ANDRÉ, M.E.D.A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU,
1988.
MONTEIRO, M.I.B.; FREITAS, A.P. Processos de significação na elaboração de conhecimentos de
alunos com necessidades educacionais especiais. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.40, n.1, p.95-107,
2014.
SIERRA, D.B. et al. Atendimento educacional especializado à pessoas com deficiência intelectual:
contribuição da psicologia histórico-cultural. Revista Teoria e Prática da educação, v.14, n.1, p.131-141,
2011.
SIERRA, D.B.; FACCI, M.G.D. A educação de pessoas com deficiência intelectual: aprendizagem
promove desenvolvimento. Revista Educação em Questão, v.40, n.26, p.128-150, 2011.
VAN DER VEER, R.; VALSINER, J. Vygotsky: uma síntese. 5. ed. Trad. Cecília C. Bartalotti. São
Paulo: Edições Loyola, 2006.
VYGOTSKY, L.S. A defectologia e o estudo do desenvolvimento e da educação da criança anormal.
Trad. Denise Regina Sales, Marta Kohl Oliveira, Priscila Nascimento Marques. Revista Educação e
Pesquisa, v.37, n.4, p.861-870, 2011.
VYGOTSKY, L.S. Obras escogidas: Fundamentos de defectologia. Tomo V. Trad. Julio Guilhermo
Blank. Madrid: Visor, 1997.
VYGOTSKY, L.S. Formação social da mente. Trad. José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto,
Solange Castro Afeche. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
WERTSCH, J.V. Vygotsky and the social formation of mind. Cambridge: Harvard University Press,
1985. 6
Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016 509
SOUZA, F.S. & BATISTA, C.G.
510 Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 22, n. 4, p. 493-510, Out.-Dez., 2016