Capítulo 1: Uma Semana Antes (versão estendida )
O sol mal havia despontado quando Luar despertou, envolta em
lençóis rústicos costurados por Luna com tecidos reaproveitados do
mercado da vila. O colchão estalava sob seus movimentos, e a
madeira envelhecida do quarto rangia como se dialogasse
silenciosamente com as sombras da noite que ainda relutavam em ir
embora. Um aroma denso pairava no ar — mistura de camomila,
arruda e poejo, ervas penduradas em feixes no teto por sua mãe
adotiva, como uma proteção contra sonhos indesejados. Luna sempre
dizia que pesadelos eram portas abertas para lembranças que não
cabiam mais no presente.
Ao abrir a janela, o mundo exterior revelava sua paleta de cinzas e
verdes desbotados: um vilarejo cercado por colinas secas e campos
quebrados pelo frio. Mesmo assim, o dia parecia prometer algo novo.
O céu, embora carregado, tinha um rasgo de luz, e ali, quase
imperceptível, Luar enxergou o contorno esfumaçado de uma ilha
flutuante. Ela piscou, incerta. Tinha certeza de que não estava lá no
dia anterior. Não assim, tão perto.
Esse vislumbre trouxe um arrepio. Algo nela reconhecia aquela ilha —
não visualmente, mas emocionalmente. Um chamado ancestral, como
se cordas invisíveis puxassem sua alma na direção do céu.
Na cozinha da casa modesta, Luna já se movimentava entre panelas e
cestos. O cheiro de mingau, canela e pão fresco dominava o espaço,
trazendo um senso temporário de segurança. Ela usava seu vestido
de algodão cru, sempre o mesmo nos últimos três anos, e um coque
frouxo que libertava mechas prateadas teimosas. Sua presença era
uma mistura de sol da manhã e segredos enterrados.
— Dormiu bem, minha estrela? — perguntou, enquanto mexia a
panela com destreza. — Acho que sim... só tive aquele sonho de novo
— respondeu Luar, sem detalhar. — O da floresta vermelha ou o das
vozes distantes? — Luna questionou sem parar o movimento, e Luar
congelou por um instante.
Ela não havia contado o sonho das vozes.
Antes que pudesse responder, a colher de madeira flutuou
brevemente sobre a panela, girando no ar como se risse dela. O
mingau borbulhou mais do que o normal, e um leve brilho dourado
emitiu da superfície. Luna parou. Luar recuou instintivamente.
— Isso tem acontecido com mais frequência? — perguntou Luna, já
com o olhar analítico. — Eu... não sei. Às vezes parece que as coisas
se mexem quando eu estou nervosa. Ou concentrada. — — Então já é
hora — disse a mãe com um tom sereno, mas cortante. — Hora de te
ensinar a esconder o que o mundo ainda não está pronto pra aceitar.
Antes que pudesse entender, uma batida surda na porta fez ambas se
sobressaltarem. Eram dois homens da Guarda Sombria, envoltos em
capas de couro escuro e olhos como vidro, refletindo apenas
obediência. Recolhiam mantimentos e rumores, farejavam magia
como lobos domesticados por algo ainda mais sombrio.
Luna entregou os pães como de costume e evitou cruzar olhares.
Luar, por outro lado, sentiu o calor na palma da mão novamente. Uma
eletricidade suave que parecia sussurrar “não se curve”.
Na saída, os homens encaram Luar como se vissem nela algo
estranho. Ela sustentou o olhar. Não por valentia, mas porque algo
dentro dela pedia para não fugir. Ainda assim, não ousou falar.
Na vila, enquanto buscava água no poço, os murmúrios tomavam
forma: falavam de um viajante recém-chegado, alguém envolto em
sombras, com um símbolo antigo no pescoço. Alguns diziam que era
um caçador de magos. Outros, que ele vinha do reino superior, onde
a magia era controlada e usada como moeda de poder.
Luar tentava ignorar, mas tudo parecia conectá-la àquilo que
tentavam esconder dela.
No caminho de volta, encontrou Elara, a curandeira. Mulher de passos
lentos, voz doce e olhos que pareciam sempre saber mais do que
diziam. Ela olhou para Luar com uma expressão curiosa.
— Sua luz está ficando inquieta — disse. — Luz? Que luz? — Aquilo
que cresce em você desde antes do seu nome. Desde antes de Luna.
Luar congelou. Aquilo não era só uma metáfora. Era uma pista.
Em casa, na noite que seguia, Luna costurava em silêncio quando
Luar perguntou: — Eu nasci aqui? Luna hesitou por um instante, sua
agulha parou no ar. — Você nasceu onde a lua toca a terra. — E isso
quer dizer...? — Quer dizer que sua origem é mais antiga que esse
vilarejo. E mais perigosa.
Naquela noite, ao encostar a cabeça no travesseiro, Luar sonhou com
olhos vermelhos e uma figura em forma de raposa observando de
cima de uma rocha. Ela acordou com a certeza de que nada seria
igual. E que nem Luna estava contando tudo.
A colher flutuou de novo na manhã seguinte.