Intervenção Federal e Jurisprudência Atual
Intervenção Federal e Jurisprudência Atual
Informativo n. 0550
Período: 19 de novembro de 2014.
As notas aqui divulgadas foram colhidas nas sessões de julgamento e elaboradas pela Secretaria de
Jurisprudência, não consistindo em repositórios oficiais da jurisprudência deste Tribunal.
Corte Especial
Deve ser deferido pedido de intervenção federal quando verificado o descumprimento pelo Estado, sem
justificativa plausível e por prazo desarrazoado, de ordem judicial que tenha requisitado força policial
(art. 34, VI, da CF) para promover reintegração de posse em imóvel rural ocupado pelo MST, mesmo que,
no caso, tenha se consolidado a invasão por um grande número de famílias e exista, sem previsão de
conclusão, procedimento administrativo de aquisição da referida propriedade pelo Incra para fins de
reforma agrária. Intervenção federal é medida de natureza excepcional, porque restritiva da autonomia do ente
federativo. Daí serem as hipóteses de cabimento taxativamente previstas no art. 34 da CF. Nada obstante sua
natureza excepcional, a intervenção se impõe nas hipóteses em que o Executivo estadual deixa de fornecer,
sem justificativa plausível, força policial para o cumprimento de ordem judicial. É certo que a ocupação de grande
número de famílias é sempre um fato que merece a consideração da autoridade encarregada da desocupação,
mas não é em si impeditiva da intervenção. Ademais, a suposta ocupação por considerável contingente de
pessoas pode ser resultado da falta de cumprimento da decisão judicial em tempo razoável. No estado
democrático de direito, é crucial o funcionamento das instituições; entre elas, os órgãos do Poder Judiciário. A
inércia do Estado-executivo em dar cumprimento à decisão do Estado-juiz enfraquece o Estado de direito, que
caracteriza a República brasileira. Precedente citado: IF 103-PR, DJe 21/8/2008. IF 107-PR, Rel. Min. João
Otávio de Noronha, julgado em 15/10/2014.
Segunda Seção
Não cabe o resgate, por participante ou assistido de plano de benefícios, das parcelas pagas a entidade
fechada de previdência privada complementar quando, mediante transação extrajudicial, tenha ocorrido
a migração dos participantes ou assistidos a outro plano de benefícios da mesma entidade. A Súmula 289
do STJ (A restituição das parcelas pagas pelo participante a plano de previdência privada deve ser objeto de
correção plena, por índice que recomponha a efetiva desvalorização da moeda) trata de hipótese em que há o
rompimento do vínculo contratual com a entidade de previdência privada, e, portanto, não de situação em que,
por acordo de vontades, envolvendo concessões recíprocas, haja migração de participante em gozo do benefício
de previdência privada para outro plano, auferindo em contrapartida vantagem. Ademais, os arts. 14, III, e 15, I,
da LC 109/2001 esclarecem que a portabilidade não caracteriza resgate, sendo manifestamente inadequada a
aplicação deste instituto e da Súmula 289 para caso em que o assistido não se desligou do regime jurídico de
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previdência privada. Dessarte, nos termos de abalizada doutrina, a migração pactuada em transação de planos
de benefícios administrados pela mesma entidade fechada de previdência privada ocorre em um contexto de
amplo redesenho da relação contratual previdenciária, com o concurso de vontades do patrocinador, da entidade
fechada de previdência complementar, por meio de seu conselho deliberativo, e autorização prévia do órgão
público fiscalizador, operando-se não o resgate de contribuições, mas a transferência de reservas de um plano
de benefícios para outro, geralmente no interior da mesma entidade fechada de previdência complementar. Ora,
se para a migração fosse aplicada a mesma solução conferida ao resgate, essa solução resultaria em tratamento
igualitário para situações desiguais, em flagrante violação à isonomia. Outrossim, estabelece o art. 18 da LC
109/2001 que cabe ao plano de benefícios arcar com as demais despesas inclusive com o resgate vindicado ,
por isso não cabe ser deferido o resgate das contribuições vertidas ao plano, sob pena de lesão aos interesses
dos demais assistidos e participantes do plano de benefícios primevo a que eram vinculados, e consequente
violação ao art. 3º, VI, da LC 109/2001. O CDC traça regras que presidem a situação específica do consumo e,
além disso, define princípios gerais orientadores do direito das obrigações; todavia, "[é] certo que, no que lhe for
específico, o contrato" continua regido pela lei que lhe é própria (REsp 80.036-SP, Quarta Turma, DJ 25/3/1996).
Desse modo, em conformidade com entendimento doutrinário, não cabe a aplicação do CDC dissociada das
normas específicas inerentes à relação contratual de previdência privada complementar e à modalidade
contratual da transação negócio jurídico disciplinado pelo Código Civil, inclusive no tocante à disciplina peculiar
para o seu desfazimento. AgRg no AREsp 504.022-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 10/9/2014.
Não se submetem aos efeitos da recuperação judicial os créditos garantidos por alienação fiduciária de
bem não essencial à atividade empresarial. O art. 49, caput, da Lei 11.101/2005 estabelece que estão sujeitos
à recuperação judicial todos os créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos. Por sua vez, o §
3º do mesmo artigo prevê hipóteses em que os créditos não se submeterão aos efeitos da recuperação judicial,
entre eles, os créditos garantidos por alienação fiduciária. A jurisprudência do STJ, no entanto, tendo por base a
limitação prevista na parte final do § 3º do art. 49 que impede a venda ou a retirada do estabelecimento do
devedor dos bens de capital essenciais à sua atividade empresarial e inspirada no princípio da preservação da
empresa, tem estabelecido hipóteses em que se abre exceção à regra da não submissão do crédito garantido
por alienação fiduciária ao procedimento da recuperação judicial. De acordo com a linha seguida pelo STJ, a
exceção somente é aplicada a casos que revelam peculiaridades que recomendem tratamento diferenciado
visando à preservação da atividade empresarial, como, por exemplo, no caso em que o bem dado em alienação
fiduciária componha o estoque da sociedade, ou no caso de o bem alienado ser o imóvel no qual se situa a sede
da empresa. Em suma, justifica-se a exceção quando se verificar, pelos elementos constantes dos autos, que a
retirada dos bens prejudique de alguma forma a atividade produtiva da sociedade. Caso contrário, isto é,
inexistente qualquer peculiaridade que justifique excepcionar a regra legal do art. 49, § 3º, deve prevalecer a
regra de não submissão, excluindo-se dos efeitos da recuperação judicial os créditos de titularidade da
interessada que possuem garantia de alienação fiduciária. CC 131.656-PE, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti,
julgado em 8/10/2014.
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Nos contratos de financiamento celebrados no âmbito do Sistema Financeiro de Habitação (SFH), sem
cláusula de garantia de cobertura do Fundo de Compensação das Variações Salariais (FCVS), o saldo
devedor residual deverá ser suportado pelo mutuário. A previsão do saldo devedor residual decorre da
insuficiência das prestações pagas pelo mutuário em repor o capital mutuado, pois o reajuste das prestações
vinculadas aos índices aplicados à categoria profissional nem sempre acompanha o valor da inflação, o que cria
um desequilíbrio contratual capaz de afetar, em última análise, a higidez do próprio sistema de financiamento
habitacional. Ao lado de tal circunstância, destaca-se o fato de que o art. 2º do Decreto-Lei 2.349/1987,
legislação específica sobre a matéria, é claro a respeito da responsabilidade dos mutuários pelo pagamento do
saldo devedor residual: Nos contratos sem cláusulas de cobertura pelo FCVS, os mutuários finais responderão
pelos resíduos dos saldos devedores existentes, até sua final liquidação, na forma que for pactuada, observadas
as normas expedidas pelo Conselho Monetário Nacional. Precedentes citados: AgRg no AREsp 282.132-PB,
Terceira Turma, DJe 7/3/2014; e AgRg no AREsp 230.500-AL, Quarta Turma, DJe 28/10/2013. REsp 1.447.108-
CE e REsp 1.443.870-PE, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 22/10/2014.
DIREITO CIVIL. CLÁUSULA CONTRATUAL QUE INSTITUI PRAZO DE CARÊNCIA PARA DEVOLUÇÃO DE
VALORES APLICADOS EM TÍTULO DE CAPITALIZAÇÃO.
Desde que redigida em estrita obediência ao previsto na legislação vigente, é válida a cláusula contratual
que prevê prazo de carência para resgate antecipado dos valores aplicados em título de capitalização.
Inicialmente, importante salientar que a estipulação de cláusula de carência para resgate visa proteger os
recursos da capitalização, a fim de impedir que a desistência de algum dos aderentes prejudique os demais
detentores de títulos dentro de uma mesma sociedade de capitalização, impedindo o cumprimento de obrigações
previstas pela companhia como, por exemplo, o pagamento da premiação por sorteio. Deve-se ter em mente que
o desfalque repentino do plano, caso não haja cláusula estipulando a carência, poderá impossibilitar o
funcionamento das sociedades, prejudicando os demais detentores de títulos de capitalização e colocando em
risco a própria atividade econômica. Analisando detidamente os dispositivos que regulamentam a matéria (art.
71, § 1º, da CNSP 15/1992 e art. 23, §§ 1º e 2º, da Circular Susep 365/2008), nota-se que o primeiro admite,
genericamente, a estipulação de prazo de carência; enquanto o segundo, de forma específica, permite a fixação
de prazo de carência não superior a 24 meses, contados da data de início de vigência do título de capitalização.
Ressalte-se que a validade de cláusula contratual instituidora de prazo de carência pode perfeitamente ser
analisada à luz da regulamentação do CNSP e da Susep, desde que sejam respeitados os limites explicitados no
ato de delegação respectivo, qual seja, o Decreto-Lei 261/1967. Ademais, eventual lacuna legislativa também
pode e deve ser suprida pela aplicação do CC e do CDC. O sistema de proteção ao consumidor busca conferir
equilíbrio à relação entre consumidor e fornecedor; todavia, não tem por objetivo criar ou proteger situação em
que o consumidor leve vantagem indevida sobre o fornecedor. EREsp 1.354.963-SP, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, julgado em 24/9/2014.
Terceira Seção
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Havendo dúvida sobre a existência do elemento subjetivo do crime de homicídio, deverá tramitar na
Justiça Comum e não na Justiça Militar o processo que apure a suposta prática do crime cometido, em
tempo de paz, por militar contra civil. De fato, os crimes dolosos contra a vida cometidos por militar contra
civil, mesmo que no desempenho de suas atividades, serão da competência da Justiça Comum (Tribunal do
Júri), nos termos do art. 9º, parágrafo único, do CPM. Para se eliminar a eventual dúvida quanto ao elemento
subjetivo da conduta, de modo a afirmar se o agente militar agiu com dolo ou culpa, é necessário o exame
aprofundado de todo o conjunto probatório, a ser coletado durante a instrução criminal, observados o devido
processo legal, o contraditório e a ampla defesa. Dessa forma, o feito deve tramitar na Justiça Comum, pois,
nessa situação, prevalece o princípio do in dubio pro societate, o que leva o julgamento para o Tribunal do Júri,
caso seja admitida a acusação em eventual sentença de pronúncia. No entanto, se o juiz se convencer de que
não houve crime doloso contra a vida, remeterá os autos ao juízo competente, em conformidade com o disposto
no art. 419 do CPP. Precedente citado: CC 130.779-RS, Terceira Seção, DJe 4/9/2014. CC 129.497-MG, Rel.
Min. Ericson Maranho (Desembargador convocado do TJ/SP), julgado em 8/10/2014.
Primeira Turma
Nas demandas ajuizadas pelo INSS contra o empregador do segurado falecido em acidente laboral,
visando ao ressarcimento dos valores decorrentes do pagamento da pensão por morte, o termo a quo da
prescrição quinquenal é a data da concessão do referido benefício previdenciário. De fato, a Primeira
Seção do STJ, no julgamento do REsp 1.251.993-RS (julgado sob o rito dos recursos repetitivos) firmou
posicionamento no sentido de que se aplica o prazo prescricional quinquenal, previsto no Decreto 20.910/1932,
nas ações indenizatórias ajuizadas contra a Fazenda Pública. Dessa forma, em respeito ao princípio da
isonomia, quando a demanda indenizatória for ajuizada pelo ente estatal contra particular, o prazo prescricional
será também o de 5 anos, ou seja, o mesmo aplicado às ações indenizatórias ajuizadas contra a fazenda
pública. Ressalte-se que a referida demanda ajuizada pelo INSS, por ser de natureza ressarcitória, não possui
qualquer pertinência com as normas previdenciárias. Não se aplicam, assim, os arts. 103 e 104 da Lei
8.213/1991, uma vez que a referida lei regula apenas as relações entre os segurados, seus dependentes e a
Previdência Social, não atingindo terceiros que não integram esse específico regime jurídico. Diante disso, o
termo a quo da prescrição da pretensão deve ser a data da concessão do referido benefício previdenciário,
revelando-se absolutamente incompatível a aplicação da tese de que o lapso prescricional não atinge o fundo de
direito. REsp 1.457.646-PR, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 14/10/2014.
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de honorários antes de expedir-se o mandado de levantamento ou precatório, o juiz deve determinar que lhe
sejam pagos diretamente, por dedução da quantia a ser recebida pelo constituinte, salvo se este provar que já os
pagou. O § 4º do artigo supracitado, ao condicionar a juntada do contrato de honorários ao momento anterior à
expedição do mandado de levantamento ou precatório, pressupõe que o depósito do valor devido à parte
triunfante já tenha sido realizado em juízo. Nesse contexto, se o vencedor da lide renuncia ao seu direito de
receber o pagamento do crédito antes de ele ser judicialmente depositado não haverá expedição de mandado de
levantamento ou precatório e, consequentemente, não há como o juiz determinar que a parcela dos honorários
advocatícios seja paga diretamente, por dedução da quantia a ser recebida pelo constituinte, ao patrono.
Ademais, admitir o contrário faria com que a relação jurídica firmada entre o cliente e o respectivo advogado
mediante contrato de honorários, com cláusulas negociadas estritamente entre eles se estendesse ao terceiro, o
qual sequer pode vir a ter conhecimento do avençado. Com efeito, se o pagamento dos honorários advocatícios
contratuais for reconhecido como ato autônomo em relação ao depósito do montante principal ao ponto de ser
viável executá-los sem a existência deste , o perdedor da lide se tornará diretamente obrigado a arcar com
dívida, a qual não lhe foi legalmente imposta nem foi pactuada, porquanto a obrigação da parte mal sucedida na
demanda é pagar o que foi reconhecido pelo Judiciário como devido à outra parte, o que inclui os honorários
sucumbenciais (mas não os contratuais), cuja dedução da quantia a ser recebida pelo constituinte, repita-se, é
incumbência do juiz. Desse modo, a juntada aos autos do contrato de honorários advocatícios não faz com que o
montante nele previsto se torne parcela autônoma em relação à quantia a ser recebida pela parte patrocinada.
REsp 1.330.611-DF, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 7/10/2014.
Segunda Turma
Nos casos de dissolução irregular da sociedade empresária, o redirecionamento da Execução Fiscal para
o sócio-gerente não constitui causa de exclusão da responsabilidade tributária da pessoa jurídica. O STJ
possui entendimento consolidado de que Os diretores não respondem pessoalmente pelas obrigações
contraídas em nome da sociedade, mas respondem para com esta e para com terceiros solidária e
ilimitadamente pelo excesso de mandato e pelos atos praticados com violação do estatuto ou lei (EREsp
174.532-PR, Primeira Seção, DJe 20/8/2001). Isso, por si só, já seria suficiente para conduzir ao entendimento
de que persiste a responsabilidade da pessoa jurídica. Além disso, atente-se para o fato de que nada impede
que a Execução Fiscal seja promovida contra sujeitos distintos, por cumulação subjetiva em regime de
litisconsórcio. Com efeito, são distintas as causas que deram ensejo à responsabilidade tributária e, por
consequência, à definição do polo passivo da demanda: a) no caso da pessoa jurídica, a responsabilidade
decorre da concretização, no mundo material, dos elementos integralmente previstos em abstrato na norma que
define a hipótese de incidência do tributo; b) em relação ao sócio-gerente, o "fato gerador" de sua
responsabilidade, conforme acima demonstrado, não é o simples inadimplemento da obrigação tributária, mas a
dissolução irregular (ato ilícito). Além do mais, não há sentido em concluir que a prática, pelo sócio-gerente, de
ato ilícito (dissolução irregular) constitui causa de exclusão da responsabilidade tributária da pessoa jurídica,
fundada em circunstância independente. Em primeiro lugar, porque a legislação de Direito Material (CTN e
legislação esparsa) não contém previsão legal nesse sentido. Ademais, a prática de ato ilícito imputável a um
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terceiro, posterior à ocorrência do fato gerador, não afasta a inadimplência (que é imputável à pessoa jurídica, e
não ao respectivo sócio-gerente) nem anula ou invalida o surgimento da obrigação tributária e a constituição do
respectivo crédito, o qual, portanto, subsiste normalmente. Entender de modo diverso, seria concluir que o
ordenamento jurídico conteria a paradoxal previsão de que um ato ilícito dissolução irregular , ao fim, implicaria
permissão para a pessoa jurídica (beneficiária direta da aludida dissolução) proceder ao arquivamento e ao
registro de sua baixa societária, uma vez que não mais subsistiria débito tributário a ela imputável, em detrimento
de terceiros de boa-fé (Fazenda Pública e demais credores). REsp 1.455.490-PR, Rel. Min. Herman Benjamin,
julgado em 26/8/2014.
A penhora de bem de valor inferior ao débito não autoriza a expedição de certidão positiva com efeitos
de negativa. Isso porque a expedição da referida certidão está condicionada à existência de penhora suficiente
ou à suspensão da exigibilidade do crédito tributário, nos termos dos arts. 151 e 206 do CTN. Precedentes
citados: EDcl no Ag 1.389.047-SC, Segunda Turma, DJe 31/8/2011; e AgRg no REsp 1.022.831-SP, Primeira
Turma, DJe 8/5/2008. REsp 1.479.276-MG, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 16/10/2014.
DIREITO AMBIENTAL. POSSE IRREGULAR DE ANIMAIS SILVESTRES POR LONGO PERÍODO DE TEMPO.
O particular que, por mais de vinte anos, manteve adequadamente, sem indício de maus-tratos, duas
aves silvestres em ambiente doméstico pode permanecer na posse dos animais. Nesse caso específico,
aplicar o art. 1º da Lei 5.197/1967 (Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento
e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e
criadouros naturais são propriedades do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça
ou apanha) e o art. 25 da Lei 9.605/1998 (Verificada a infração, serão apreendidos seus produtos e
instrumentos, lavrando-se os respectivos autos) equivaleria à negação da sua finalidade, que não é decorrência
do princípio da legalidade, mas uma inerência dele. A legislação deve buscar a efetiva proteção dos animais.
Assim, seria desarrazoado determinar a apreensão dos animais para duvidosa reintegração ao seu habitat e
seria difícil identificar qualquer vantagem em transferir a posse para um órgão da Administração Pública.
Ademais, no âmbito criminal, o art. 29, § 2º, da Lei 9.605/1998 expressamente prevê que no caso de guarda
doméstica de espécie silvestre não considerada ameaçada de extinção, pode o juiz, considerando as
circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Precedente citado: REsp 1.084.347-RS, Segunda Turma, DJe
30/9/2010. REsp 1.425.943-RN, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 2/9/2014.
Não depende de prévio procedimento administrativo a recusa à expedição da CNH definitiva motivada
pelo cometimento de infração de trânsito de natureza grave durante o prazo anual de permissão
provisória para dirigir (art. 148, § 3º, do CTB). O STJ já se pronunciou no sentido de que o direito à obtenção
da habilitação definitiva somente se perfaz se o candidato, após um ano da expedição da permissão para dirigir,
não tiver cometido infração de natureza grave ou gravíssima e não for reincidente em infração média, segundo
disposto no § 3º do art. 148 do CTB. Assim, a expedição da CNH é mera expectativa de direito, que se
concretizará com o implemento das condições estabelecidas na lei. Havendo o cometimento de infração grave,
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revela-se desnecessária a instauração de prévio processo administrativo, considerando que a aferição do
preenchimento dos requisitos estabelecidos pela lei para a concessão da CNH definitiva se dá de forma objetiva.
Precedente citado: REsp 726.842-SP, Segunda Turma, DJ 11/12/2006. REsp 1.483.845-RS, Rel. Min. Mauro
Campbell Marques, julgado em 16/10/2014.
Terceira Turma
Na hipótese em que o Tribunal suspenda, por força de ato normativo local, os atos processuais durante o
recesso forense, o termo final do prazo prescricional que coincidir com data abrangida pelo referido
recesso prorroga-se para o primeiro dia útil posterior ao término deste. A Corte Especial do STJ
uniformizou o entendimento de que o prazo decadencial para o ajuizamento da ação rescisória prorroga-se para
o primeiro dia útil seguinte, caso venha a findar no recesso forense, sendo irrelevante a controvérsia acerca da
natureza do prazo para ajuizamento da ação, se prescricional ou decadencial, pois, em ambos os casos, o termo
ad quem seria prorrogado (EREsp 667.672-SP, DJe 26/6/2008). Desse modo, na linha do precedente da Corte
Especial e outros precedentes do STJ, deve-se entender cabível a prorrogação do termo ad quem do prazo
prescricional no caso. Precedentes citados: REsp 969.529-SC, Primeira Turma, DJe 17/3/2008; e REsp 167.413-
SP, Primeira Turma, DJ 24/8/1998. REsp 1.446.608-RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em
21/10/2014.
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DIREITO DO CONSUMIDOR. HIPÓTESE DE DANO MORAL IN RE IPSA PROVOCADO POR COMPANHIA
AÉREA.
No caso em que companhia aérea, além de atrasar desarrazoadamente o voo de passageiro, deixe de
atender aos apelos deste, furtando-se a fornecer tanto informações claras acerca do prosseguimento da
viagem (em especial, relativamente ao novo horário de embarque e ao motivo do atraso) quanto
alimentação e hospedagem (obrigando-o a pernoitar no próprio aeroporto), tem-se por configurado dano
moral indenizável in re ipsa, independentemente da causa originária do atraso do voo. Inicialmente,
cumpre destacar que qualquer causa originária do atraso do voo acidente aéreo, sobrecarga da malha aérea,
condições climáticas desfavoráveis ao exercício do serviço de transporte aéreo etc. jamais teria o condão de
afastar a responsabilidade da companhia aérea por abusos praticados por ela em momento posterior, haja vista
tratar-se de fatos distintos. Afinal, se assim fosse, o caos se instalaria por ocasião de qualquer fatalidade, o que
é inadmissível. Ora, diante de fatos como esses acidente aéreo, sobrecarga da malha aérea ou condições
climáticas desfavoráveis ao exercício do serviço de transporte aéreo , deve a fornecedora do serviço amenizar o
desconforto inerente à ocasião, não podendo, portanto, limitar-se a, de forma evasiva, eximir-se de suas
responsabilidades. Além disso, considerando que o contrato de transporte consiste em obrigação de resultado, o
atraso desarrazoado de voo, independentemente da sua causa originária, constitui falha no serviço de transporte
aéreo contratado, o que gera para o consumidor direito a assistência informacional e material. Desse modo, a
companhia aérea não se libera do dever de informação, que, caso cumprido, atenuaria, no mínimo, o caos
causado pelo infortúnio, que jamais poderia ter sido repassado ou imputado ao consumidor. Ademais, os fatos
de inexistir providência quanto à hospedagem para o passageiro, obrigando-o a pernoitar no próprio aeroporto, e
de não ter havido informações claras quanto ao prosseguimento da viagem permitem aferir que a companhia
aérea não procedeu conforme as disposições do art. 6º do CDC. Sendo assim, inexiste na hipótese caso fortuito,
que, caso existisse, seria apto a afastar a relação de causalidade entre o defeito do serviço (ausência de
assistência material e informacional) e o dano causado ao consumidor. No caso analisado, reputa-se configurado
o dano moral, porquanto manifesta a lesão injusta a componentes do complexo de valores protegidos pelo
Direito, à qual a reparação civil é garantida por mandamento constitucional, que objetiva recompor a vítima da
violação de seus direitos de personalidade (art. 5º, V e X, da CF e art. 6º, VI, do CDC). Além do mais,
configurado o fato do serviço, o fornecedor responde objetivamente pelos danos causados aos consumidores,
nos termos do art. 14 do CDC. Sendo assim, o dano moral em análise opera-se in re ipsa, prescindindo de prova
de prejuízo. Precedentes citados: AgRg no Ag 1.410.645-BA, Terceira Turma, DJe 7/11/2011; e AgRg no REsp
227.005-SP, Terceira Turma, DJ 17/12/2004. REsp 1.280.372-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva,
julgado em 7/10/2014.
Contratado apenas o seguro de acidentes pessoais (garantia por morte acidental), não há falar em
obrigação da seguradora em indenizar o beneficiário quando a morte do segurado decorre de causa
natural, a exemplo da doença conhecida como Acidente Vascular Cerebral (AVC). Inicialmente, é
necessário fazer a distinção entre seguro de vida e seguro de acidentes pessoais. No primeiro, a cobertura de
morte abrange causas naturais e também causas acidentais; já no segundo, apenas os infortúnios causados por
acidente pessoal são garantidos, como, por exemplo, a morte acidental. Nesse passo, importante diferenciar
também os conceitos de morte acidental e de morte natural para fins securitários. A morte acidental evidencia-se
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quando o falecimento da pessoa decorre de acidente pessoal, sendo este de acordo a Resolução CNSP
117/2004 definido como um evento súbito, exclusivo e diretamente externo, involuntário e violento. Já a morte
natural configura-se por exclusão, ou seja, por qualquer outra causa, como as doenças em geral, que são de
natureza interna, a exemplo do Acidente Vascular Cerebral. Ressalte-se que, apesar dessa denominação
acidente , o AVC é uma patologia, ou seja, não decorre de causa externa, mas de fatores internos e de risco da
saúde da própria pessoa que levam à sua ocorrência. Dessa forma, sendo a morte do segurado decorrente de
causa natural, desencadeada apenas por fatores internos à pessoa como o AVC , e tiver sido contratada
apenas a garantia por morte acidental, não há falar em obrigação da seguradora em indenizar o beneficiário.
REsp 1.443.115-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 21/10/2014.
O Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher tem competência para julgar a execução de
alimentos que tenham sido fixados a título de medida protetiva de urgência fundada na Lei Maria da
Penha em favor de filho do casal em conflito. De fato, em se tratando de alimentos, a regra geral é de que
serão fixados perante as varas de família. Ocorre que a Lei 11.340/2006, em seu artigo 14, estabelece que os
Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, órgãos [...] com competência cível e criminal,
poderão ser criados [...] para o processo, o julgamento e a execução das causas decorrentes da prática de
violência doméstica e familiar contra a mulher, sem especificar as causas que não se enquadrariam na
competência cível desses juizados, nas hipóteses de medidas protetivas decorrentes de violência doméstica.
Portanto, da literalidade da lei, é possível extrair que a competência desses juizados compreende toda e
qualquer causa relacionada a fato que configure violência doméstica ou familiar e não apenas as descritas
expressamente na referida lei. E assim é, não só em razão da lei, mas também em razão da própria natureza
protetiva que ela carrega, ou seja, é a sua naturalia negotii. O legislador, ao editar a Lei Maria da Penha, o fez
para que a mulher pudesse contar não apenas com legislação repressiva contra o agressor, mas também
visando criar mecanismos céleres protetivos, preventivos e assistenciais a ela. Negar o direito à celeridade,
postergando o recebimento de alimentos com alteração da competência para outro juízo, quando o
especializado já os tenha fixado com urgência, seria o mesmo que abrir ensejo a uma nova agressão pelo
sofrimento imposto pela demora desnecessária, geradora de imensa perplexidade, retrocessos inaceitáveis
perante Direitos de Terceira Geração. Saliente-se que situação diversa seria a das Comarcas que não contem
com Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, mas apenas com juízos criminais. Aí sim, estes
teriam competência apenas para o julgamento de causas criminais, cabendo às Varas Cíveis ou de Família a
fixação e julgamento dos alimentos. REsp 1.475.006-MT, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 14/10/2014.
O usufrutuário possui legitimidade e interesse para propor ação reivindicatória de caráter petitório com
o objetivo de fazer prevalecer o seu direito de usufruto sobre o bem, seja contra o nu-proprietário, seja
contra terceiros. A legitimidade do usufrutuário para reivindicar a coisa, mediante ação petitória, está amparada
no direito de sequela, característica de todos os direitos reais, entre os quais se enquadra o usufruto, por
expressa disposição legal (art. 1.225, IV, do CC). A ideia de usufruto emerge da consideração que se faz de um
bem, no qual se destacam os poderes de usar e gozar ou usufruir, sendo entregues a uma pessoa distinta do
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proprietário, enquanto a este remanesce apenas a substância da coisa. Ocorre, portanto, um desdobramento
dos poderes emanados da propriedade: enquanto o direito de dispor da coisa permanece com o nu-proprietário (
ius abutendi), a usabilidade e a fruibilidade (ius utendi e ius fruendi) passam para o usufrutuário. Assim é que o
art. 1.394 do CC dispõe que o usufrutuário tem direito à posse, uso, administração e percepção dos frutos.
Desse modo, se é certo que o usufrutuário na condição de possuidor direto do bem pode valer-se das ações
possessórias contra o possuidor indireto (nu-proprietário), também se deve admitir a sua legitimidade para a
propositura de ações de caráter petitório na condição de titular de um direito real limitado, dotado de direito de
sequela contra o nu-proprietário ou qualquer pessoa que obstaculize ou negue o seu direito. A propósito, a
possibilidade de o usufrutuário valer-se da ação petitória para garantir o direito de usufruto contra o nu-
proprietário, e inclusive erga omnes, encontra amparo na doutrina, que admite a utilização pelo usufrutuário das
ações reivindicatória, confessória, negatória, declaratória, imissão de posse, entre outras. Precedente citado:
REsp 28.863-RJ, Terceira Turma, DJ 22/11/1993. REsp 1.202.843-PR, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva,
julgado em 21/10/2014.
Nos contratos regidos pela Lei Ferrari (Lei 6.729/1979), ainda que não tenha sido celebrada convenção de
marca dispondo sobre penalidades gradativas (art. 19, XV), é inválida cláusula que prevê a resolução
unilateral do contrato como única penalidade para as infrações praticadas pela concessionária de
veículos automotores. Isso porque o art. 19, XV que prevê o regime de penalidades gradativas e o art. 22, §
1º que condiciona a resolução do contrato por iniciativa da parte inocente à prévia aplicação de penalidades
gradativas não contêm nenhuma ressalva quando ao momento em que produzirão efeitos, devendo-se concluir,
com base no art. 6º da LINDB, que a eficácia é imediata. Entender que o § 1º do art. 22 seria inaplicável devido à
inexistência da convenção da marca sobre as penalidades gradativas, prevista no art. 19, frustraria um dos
principais objetivos da lei, que é impedir a resolução arbitrária do contrato. De fato, o art. 19, ao estabelecer que
"celebrar-se-ão convenções da marca" para "estabelecer [...] o regime de penalidades gradativas", não excluiu a
possibilidade de as partes pactuarem sobre essa matéria, enquanto não celebrada a convenção. Com efeito, ao
prever uma convenção da marca sobre o regime de penalidades gradativas, esse dispositivo buscou garantir um
tratamento uniforme das sanções contratuais a serem aplicadas a todas as concessionárias de uma mesma
fabricante e não suprimir a liberdade contratual. Noutro passo, como já exposto, o art. 22, § 1º, da Lei Ferrari
condiciona a resolução do contrato por culpa à aplicação de penalidades gradativas. Ora, se o art. 19 não proíbe
a pactuação de penalidades gradativas, o art. 22 praticamente exige que tais penalidades sejam pactuadas, pois
elas passaram a ser etapa necessária para a resolução do contrato por culpa. O art. 22, § 1º, portanto, ao invés
de ser "letra morta", é um mandamento direcionado aos fabricantes, no sentido de que incluam em seus
contratos uma gradação de penalidades, uma vez que não mais se admite a resolução arbitrária do contrato.
REsp 1.338.292-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 2/9/2014.
Nos contratos regidos pela Lei Ferrari (Lei 6.729/1979), não havendo convenção de marca (art. 19, XV)
nem cláusulas contratuais válidas sobre penalidades gradativas, poderá o juiz decidir, em cada caso
concreto, se a infração, ou sequência de infrações, é grave o suficiente para justificar a resolução do
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contrato, observado o caráter protetivo da referida Lei. O art. 19, XV, da Lei 6.729/1979 dispõe que se
celebrarão convenções da marca para estabelecer normas e procedimentos relativos a regime de penalidades
gradativas. O § 1º do artigo 22, por sua vez, condiciona a resolução do contrato por iniciativa da parte inocente à
prévia aplicação de penalidades gradativas. Posto isso, esclarece-se que quando não há convenção da marca,
nem cláusulas contratuais válidas sobre as penalidades gradativas, tem-se uma lacuna normativa. Havendo
lacuna, cabe ao juiz supri-la, por força do art. 4º da LINDB. De fato, o juiz não pode substituir a vontade das
partes e estabelecer as penalidades contratuais cabíveis. Porém, considerando que o objetivo das penalidades
gradativas é impedir a resolução arbitrária do contrato, pode o juiz atender a esse objetivo da lei, decidindo, em
cada caso concreto, se a infração, ou sequência de infrações, é grave o suficiente para justificar a resolução do
contrato, observado o caráter protetivo da Lei Ferrari. REsp 1.338.292-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso
Sanseverino, julgado em 2/9/2014.
Uma patente pipeline concedida no exterior e revalidada no Brasil não pode ser anulada ao fundamento
de falta de um dos requisitos de mérito do art. 8º da Lei 9.279/1996 (Lei de Propriedade Industrial LPI),
mas apenas por ausência de requisito especificamente aplicável a ela (como, por exemplo, por falta de
pagamento da anuidade no Brasil) ou em razão de irregularidades formais. Da leitura dos arts. 230 e 231
da LPI e de acordo com doutrina especializada, uma vez concedida a patente pipeline por outra jurisdição, ela
não poderá ser anulada invocando-se a ausência de um dos requisitos de mérito previstos no art. 8º da LPI para
a concessão das patentes ordinárias (novidade, atividade inventiva e aplicação industrial). Precedentes citados:
REsp 1.145.637-RJ, Terceira Turma, DJe 8/2/2010; e REsp 1.092.139-RJ, Terceira Turma, DJe 4/11/2010.
REsp 1.201.454-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 14/10/2014.
Quarta Turma
É lícita a propaganda comparativa entre produtos alimentícios de marcas distintas e de preços próximos
no caso em que: a comparação tenha por objetivo principal o esclarecimento do consumidor; as
informações veiculadas sejam verdadeiras, objetivas, não induzam o consumidor a erro, não depreciem
o produto ou a marca, tampouco sejam abusivas (art. 37, § 2º, do CDC); e os produtos e marcas
comparados não sejam passíveis de confusão. Com efeito, a propaganda comparativa é a forma de
publicidade que identifica explícita ou implicitamente concorrentes de produtos ou serviços afins, consagrando-
se, em verdade, como um instrumento de decisão do público consumidor. Embora não haja lei vedando ou
autorizando expressamente a publicidade comparativa, o tema sofre influência das legislações consumerista e
de propriedade industrial nos âmbitos marcário e concorrencial. Pelo prisma dos arts. 6º, III e IV, 36 e 37, do
CDC, a publicidade comparativa não é vedada, desde que obedeça ao princípio da veracidade das informações,
seja objetiva, e não seja abusiva. Segundo entendimento doutrinário, para que a propaganda comparativa viole o
direito marcário do concorrente, as marcas devem ser passíveis de confusão ou a referência da marca deve
estar cumulada com ato depreciativo da imagem de seu produto, acarretando a degenerescência e o
consequente desvio de clientela. Além do mais, a doutrina também ensina que a tendência atual é no sentido de
permitir a publicidade comparativa, desde que: a) o seu conteúdo seja objetivo isto é, que se mostre sem
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enganosidade ou abusividade, confrontando dados e características essenciais e verificáveis (que não sejam de
apreciação exclusivamente subjetiva) , não se admitindo a comparação que seja excessivamente geral; b) não
seja enganosa (no sentido de possibilitar a indução em erro dos consumidores e destinatários da mensagem); c)
não veicule informação falsa em detrimento do concorrente; e d) distinga de modo claro as marcas exibidas, sem
dar ensejo a confusão entre os destinatários da mensagem e sem contribuir para a degenerescência de marca
notória. De mais a mais, a Resolução 126/1996, III, do Mercosul e o art. 32 do Código Brasileiro de
Autorregulamentação Publicitária (CBAP) também mencionam, como limite à propaganda comparativa além do
fato de não se poder estabelecer confusão entre os produtos ou marcas e de não ser permitido denegrir o objeto
da comparação que o seu principal objetivo seja o esclarecimento da informação ao consumidor. Além disso, a
jurisprudência do STJ já se pronunciou no sentido de que a finalidade da proteção ao uso das marcas garantida
pelo disposto no art. 5º, XXIX, da CF e regulamentada pelo art. 129 da LPI é dupla: por um lado a protege
contra usurpação, proveito econômico parasitário e o desvio desleal de clientela alheia e, por outro, evita que o
consumidor seja confundido quanto à procedência do produto (REsp 1.105.422-MG, Terceira Turma, DJe
18/5/2011; e REsp 1.320.842-PR, Quarta Turma, DJe 1/7/2013). Entender de modo diverso seria impedir a livre
iniciativa e a livre concorrência (arts. 1º, IV, 170, caput, e IV, da CF), ensejando restrição desmedida à atividade
econômica e publicitária, o que implicaria retirar do consumidor acesso às informações referentes aos produtos
comercializados e o poderoso instrumento decisório, não sendo despiciendo lembrar que o direito da
concorrência tem como finalidade última o bem-estar do consumidor. REsp 1.377.911-SP, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, julgado em 2/10/2014.
É nula a notificação extrajudicial realizada com o fim de constituir em mora o devedor fiduciante de
imóvel, quando na referida comunicação constar nome diverso do real credor fiduciário. A notificação em
questão (art. 26 da Lei 9.514/1997), para além das consequências naturais da constituição do devedor fiduciante
em mora, permite, em não havendo a purgação da mora, o surgimento do direito de averbar na matrícula do
imóvel a consolidação da propriedade em nome do credor notificante, isto é, do fiduciário. Justamente por isso
que a referida notificação/intimação do devedor fiduciante possui requisitos especiais que, se não seguidos,
acarretam sua nulidade. Desse modo, a repercussão da notificação é tamanha que qualquer vício em seu
conteúdo é hábil a tornar nulos seus efeitos, principalmente quando se trata de erro crasso, como há na troca da
pessoa notificante. REsp 1.172.025-PR, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 7/10/2014.
Em pedido de falência requerido com fundamento na impontualidade injustificada (art. 94, I, da Lei
11.101/2005), é desnecessária a demonstração da insolvência econômica do devedor,
independentemente de sua condição econômica. Os dois sistemas de execução por concurso universal
existentes no direito pátrio insolvência civil e falência , entre outras diferenças, distanciam-se um do outro no
tocante à concepção do que seja estado de insolvência, necessário em ambos. O processo de insolvência civil
apoia-se no pressuposto da insolvência econômica, que consiste na presença de ativo deficitário para fazer
frente ao passivo do devedor, nos termos do art. 748 do CPC: Dá-se a insolvência toda vez que as dívidas
excederem à importância dos bens do devedor. O sistema falimentar, ao contrário, não tem alicerce na
insolvência econômica. O pressuposto para a instauração de processo de falência é a insolvência jurídica, que é
caracterizada a partir de situações objetivamente apontadas pelo ordenamento jurídico. No direito brasileiro,
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caracteriza a insolvência jurídica, nos termos do art. 94 da Lei 11.101/2005, a impontualidade injustificada (inciso
I), execução frustrada (inciso II) e a prática de atos de falência (inciso III). Nesse sentido, a insolvência que
autoriza a decretação de falência é presumida, uma vez que a lei decanta a insolvência econômica de atos
caracterizadores da insolvência jurídica, pois se presume que o empresário individual ou a sociedade empresária
que se encontram em uma das situações apontadas pela norma estão em estado pré-falimentar. É bem por isso
que se mostra possível a decretação de falência independentemente de comprovação da insolvência econômica.
REsp 1.433.652-RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 18/9/2014.
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DIREITO CIVIL. COBERTURA, PELO DPVAT, DE ACIDENTE COM COLHEITADEIRA.
A invalidez permanente decorrente de acidente com máquina colheitadeira, ainda que ocorra no exercício
de atividade laboral, não deverá ser coberta pelo seguro obrigatório de danos pessoais causados por
veículos automotores de via terrestre (DPVAT) se o veículo não for suscetível de trafegar por via pública.
O STJ entende que a caracterização do infortúnio como acidente de trabalho, por si só, não afasta a cobertura
do seguro obrigatório (DPVAT) e que os sinistros que envolvam veículos agrícolas também podem estar
cobertos por ele. O trator "veículo automotor construído para realizar trabalho agrícola, de construção e
pavimentação e tracionar outros veículos e equipamentos" (Anexo I do CTB) pode ser entendido como gênero
do qual a colheitadeira pode ser considerada uma espécie. No entanto, para fins de indenização pelo DPVAT,
não é sempre que a colheitadeira pode ser enquadrada como trator. É bem verdade que, apesar de não se exigir
que o acidente ocorra em via pública, o veículo automotor deve ser, ao menos em tese, suscetível de circular por
essas vias. Isto é, caso a colheitadeira, em razão de suas dimensões e peso, jamais venha a preencher os
requisitos normativos para fins de tráfego em via pública (só podendo ser transportada em caminhão), não há
como reconhecer a existência de fato gerador de sinistro protegido pelo seguro DPVAT, apesar de se tratar de
veículo automotor. Contudo, não há como negar que existem pequenas colheitadeiras de grãos que, em razão
de suas medidas, seriam plenamente capazes de circular nas estradas, nos moldes de um trator convencional,
enquadrando-se nas exigências para circulação em via terrestre da Resolução 210/2006 do CONTRAN. REsp
1.342.178-MT, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 14/10/2014.
Quinta Turma
O habeas corpus não é o instrumento cabível para questionar a imposição de pena de suspensão do
direito de dirigir veículo automotor. Isso porque a pena de suspensão do direito de dirigir veículo automotor
não acarreta, por si só, qualquer risco à liberdade de locomoção, uma vez que, caso descumprida, não pode ser
convertida em reprimenda privativa de liberdade, tendo em vista que inexiste qualquer previsão legal nesse
sentido. Desse modo, inexistindo qualquer indício de ameaça de violência ou constrangimento à liberdade de ir e
vir do paciente, revela-se inadequada a via do habeas corpus para esse fim. Precedentes citados do STJ: HC
172.709-RJ, Sexta Turma, DJe 6/6/2013; HC 194.299-MG, Quinta Turma, DJe 17/4/2013; e HC 166.792-SP,
Quinta Turma, DJe 24/11/2011. Precedente citado do STF: HC 73.655-GO, Primeira Turma, DJ 13/9/1996. HC
283.505-SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 21/10/2014.
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