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Legalidade do Credit Scoring e Despejo

O Informativo n. 0551 do STJ aborda a legalidade do sistema credit scoring, destacando sua conformidade com a legislação de proteção ao consumidor e as responsabilidades dos fornecedores em caso de abuso. Além disso, discute a incompetência do juízo universal para julgar ações de despejo contra empresas em recuperação judicial e a aplicação do princípio da insignificância no crime de descaminho, enfatizando a necessidade de parâmetros legais para sua aplicação. O documento também menciona direitos de militares em cursos de formação e a inexistência de direito a indenização por benfeitorias em bens públicos ocupados irregularmente.

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Legalidade do Credit Scoring e Despejo

O Informativo n. 0551 do STJ aborda a legalidade do sistema credit scoring, destacando sua conformidade com a legislação de proteção ao consumidor e as responsabilidades dos fornecedores em caso de abuso. Além disso, discute a incompetência do juízo universal para julgar ações de despejo contra empresas em recuperação judicial e a aplicação do princípio da insignificância no crime de descaminho, enfatizando a necessidade de parâmetros legais para sua aplicação. O documento também menciona direitos de militares em cursos de formação e a inexistência de direito a indenização por benfeitorias em bens públicos ocupados irregularmente.

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STJ - Informativo de Jurisprudência

Informativo n. 0551
Período: 3 de dezembro de 2014.
As notas aqui divulgadas foram colhidas nas sessões de julgamento e elaboradas pela Secretaria de
Jurisprudência, não consistindo em repositórios oficiais da jurisprudência deste Tribunal.

Segunda Seção

DIREITO DO CONSUMIDOR. LEGALIDADE DO SISTEMA CREDIT SCORING. RECURSO REPETITIVO (ART.


543-C DO CPC E RES. 8/2008 DO STJ).

No que diz respeito ao sistema credit scoring, definiu-se que: a) é um método desenvolvido para
avaliação do risco de concessão de crédito, a partir de modelos estatísticos, considerando diversas
variáveis, com atribuição de uma pontuação ao consumidor avaliado (nota do risco de crédito); b) essa
prática comercial é lícita, estando autorizada pelo art. 5º, IV, e pelo art. 7º, I, da Lei 12.414/2011 (Lei do
Cadastro Positivo); c) na avaliação do risco de crédito, devem ser respeitados os limites estabelecidos
pelo sistema de proteção do consumidor no sentido da tutela da privacidade e da máxima transparência
nas relações negociais, conforme previsão do CDC e da Lei 12.414/2011; d) apesar de desnecessário o
consentimento do consumidor consultado, devem ser a ele fornecidos esclarecimentos, caso
solicitados, acerca das fontes dos dados considerados (histórico de crédito), bem como as informações
pessoais valoradas; e) o desrespeito aos limites legais na utilização do sistema credit scoring,
configurando abuso no exercício desse direito (art. 187 do CC), pode ensejar a responsabilidade objetiva
e solidária do fornecedor do serviço, do responsável pelo banco de dados, da fonte e do consulente (art.
16 da Lei 12.414/2011) pela ocorrência de danos morais nas hipóteses de utilização de informações
excessivas ou sensíveis (art. 3º, § 3º, I e II, da Lei 12.414/2011), bem como nos casos de comprovada
recusa indevida de crédito pelo uso de dados incorretos ou desatualizados. REsp 1.419.697-RS, Rel. Min.
Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 12/11/2014.

DIREITO EMPRESARIAL E PROCESSUAL CIVIL. INCOMPETÊNCIA DO JUÍZO UNIVERSAL PARA JULGAR


AÇÃO DE DESPEJO MOVIDA CONTRA SOCIEDADE EMPRESÁRIA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL.

Não se submete à competência do juízo universal da recuperação judicial a ação de despejo movida, com
base na Lei 8.245/1991 (Lei do Inquilinato), pelo proprietário locador para obter, unicamente, a retomada
da posse direta do imóvel locado à sociedade empresária em recuperação. A Lei da Recuperação Judicial
(Lei 11.101/2005) não prevê exceção que ampare o locatário que tenha obtido o deferimento de recuperação
judicial, estabelecendo, ao contrário, que o credor proprietário de bem imóvel, quanto à retomada do bem, não
se submete aos efeitos da recuperação judicial (art. 49, § 3º, da Lei 11.101/2005). Na espécie, tratando-se de
credor titular da posição de proprietário, prevalecem os direitos de propriedade sobre a coisa, sendo inaplicável à
hipótese de despejo a exceção prevista no § 3º, in fine, do art. 49 da Lei 11.101/2005 que não permite, durante
o prazo de suspensão a que se refere o § 4º do art. 6º da referida lei, a venda ou a retirada do estabelecimento
do devedor dos bens de capital essenciais a sua atividade empresarial , pois, no despejo, regido por legislação
especial, tem-se a retomada do imóvel locado, e não se trata de venda ou mera retirada do estabelecimento do
devedor de bem essencial a sua atividade empresarial. Nesse sentido, a melhor interpretação a ser conferida

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STJ - Informativo de Jurisprudência
aos arts. 6º e 49 da Lei 11.101/2005 é a de que, em regra, apenas os credores de quantia líquida se submetem
ao juízo da recuperação, com exclusão, dentre outros, do titular do direito de propriedade. Portanto, conclui-se
que a efetivação da ordem do despejo não se submete à competência do Juízo universal da recuperação, não
se confundindo com eventual execução de valores devidos pelo locatário relativos a aluguéis e consectários,
legais e processuais, ainda que tal pretensão esteja cumulada na ação de despejo. Precedente citado: AgRg no
CC 103.012-GO, Segunda Seção, DJe de 24/6/2010. CC 123.116-SP, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em
14/8/2014.

Terceira Seção

DIREITO PENAL. PARÂMETRO PARA APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA AO CRIME DE


DESCAMINHO.

O valor de R$ 20 mil fixado pela Portaria MF 75/2012 empregado como critério para o arquivamento, sem
baixa na distribuição, das execuções fiscais de débitos inscritos na Dívida Ativa da União não pode ser
utilizado como parâmetro para fins de aplicação do princípio da insignificância aos crimes de
descaminho. Inicialmente, importante ressaltar que o entendimento, tanto do STF quanto do STJ (REsp
1.112.748-TO, julgado sob o rito do art. 543-C do CPC, DJe 13/10/2009), tem sido o de que incide o princípio da
insignificância no crime de descaminho quando o valor dos tributos iludidos não ultrapassar o montante de R$ 10
mil, valor este fixado pela Lei 10.522/2002 para servir como piso para arquivamento, sem baixa nos autos, de
execuções fiscais. Mais recentemente, o Ministério da Fazenda editou a Portaria MF 75/2012, a qual elevou o
valor de arquivamento para R$ 20 mil. Desde então, o STF tem, em alguns de seus julgados, empregado o
referido patamar para reconhecer a aplicação do princípio da insignificância ao descaminho, quando o valor dos
tributos iludidos não ultrapassar o montante de R$ 20 mil. Não obstante esse entendimento, importante analisar
a validade formal da elevação do parâmetro pela Portaria MF 75/2012. Nesse passo, ressalte-se que,
atualmente, com o advento da Lei 10.522/2002, o Ministro da Fazenda possui autonomia tão somente para
estabelecer o cronograma, determinando as prioridades e as condições a serem obedecidas quando forem
remetidos os débitos passíveis de inscrição em Dívida Ativa da União e cobrança judicial pela Procuradoria da
Fazenda Nacional. A lei não previu a competência para que o Ministro da Fazenda, por meio de portaria, altere o
valor fixado como parâmetro para arquivamento de execução fiscal, sem baixa na distribuição. Com isso, a
alteração do valor para arquivamento de execução fiscal só pode ser realizada por meio de lei, não sendo a
referida portaria, portanto, meio normativo válido para esse fim. Ademais, da leitura da aludida portaria, extrai-se
que o valor foi estabelecido para orientar a ação em sede executivo-fiscal, com base apenas no custo benefício
da operação; claramente, portanto, como uma opção de política econômico-fiscal. Em vista disso, importante
ponderar: pode-se aceitar que o Poder Judiciário se veja limitado por parâmetro definido por autoridade do Poder
Executivo, estabelecido unicamente por critérios de eficiência, economicidade, praticidade e as peculiaridades
regionais e/ou do débito? Afigura-se inusitada a compreensão de que o Ministro da Fazenda, por meio de
portaria, ao alterar o patamar de arquivamento de execuções fiscais de débitos com a Fazenda Pública,
determine o rumo da jurisdição criminal de outro Poder da República. Por fim, não há como aplicar os princípios
da fragmentariedade e da subsidiariedade do Direito Penal ao caso analisado. O caráter fragmentário orienta
que o Direito Penal só pode intervir quando se trate de tutelar bens fundamentais e contra ofensas intoleráveis;
já o caráter subsidiário significa que a norma penal exerce uma função meramente suplementar da proteção

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STJ - Informativo de Jurisprudência
jurídica em geral, só valendo a imposição de suas sanções quando os demais ramos do Direito não mais se
mostrem eficazes na defesa dos bens jurídicos. Os referidos princípios penais ganhariam relevo se o atuar do
Direito Administrativo eliminasse a lesão ao erário, e não na situação ora analisada, em que, por opção
decorrente da confessada ineficiência da Procuradoria da Fazenda Nacional, queda-se inerte a Administração
Pública quanto ao seu dever de cobrar judicialmente os tributos iludidos. REsp 1.393.317-PR, Rel. Min. Rogerio
Schietti Cruz, julgado em 12/11/2014.

Segunda Turma

DIREITO ADMINISTRATIVO. AGREGAÇÃO DE MILITAR QUE PARTICIPA DE CURSO DE FORMAÇÃO.

O militar aprovado em concurso público tem direito a ser agregado durante o prazo de conclusão de
curso de formação, com direito à opção pela respectiva remuneração. Precedentes citados: AgRg no
AREsp 134.481-BA, Segunda Turma, DJe 2/5/2012; AgRg no AREsp 172.343-RO, Segunda Turma, DJe
1/8/2012; e AgRg no REsp 1.007.130-RJ, Sexta Turma, DJe 21/2/2011. AgRg no REsp 1.470.618-RN, Rel. Min.
Herman Benjamin, julgado em 16/10/2014.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. SUBMISSÃO DA FAZENDA PÚBLICA À NECESSIDADE DE DEPÓSITO


PRÉVIO PRESCRITA PELO § 2º DO ART. 557 DO CPC.

Havendo condenação da Fazenda Pública ao pagamento da multa prevista no art. 557, § 2º, do CPC, a
interposição de qualquer outro recurso fica condicionada ao depósito prévio do respectivo valor. O art.
557, § 2º, do CPC é taxativo ao dispor que Quando manifestamente inadmissível ou infundado o agravo, o
tribunal condenará o agravante a pagar ao agravado multa entre 1% (um por cento) e 10% (dez por cento) do
valor corrigido da causa, ficando a interposição de qualquer outro recurso condicionada ao depósito do
respectivo valor. De fato, a multa pelo uso abusivo do direito de recorrer caracteriza-se como requisito de
admissibilidade do recurso, sendo o seu depósito prévio medida adequada para conferir maior efetividade ao
postulado da lealdade processual, impedindo a prática de atos atentatórios à dignidade da justiça, bem como a
litigância de má-fé. Nesse contexto, tanto o STJ quanto o STF têm consignado que o prévio depósito da multa
referente a agravo regimental manifestamente inadmissível ou infundado (§ 2º do art. 557), aplicada pelo abuso
do direito de recorrer, também é devido pela Fazenda Pública. Além disso, a alegação de que o art. 1º-A da Lei
9.494/1997 dispensa os entes públicos da realização de prévio depósito para a interposição de recurso não deve
prevalecer, em face da cominação diversa, explicitada no art. 557, § 2º, do CPC. Este dispositivo legal foi
inserido pela Lei 9.756/1998, que trouxe uma série de mecanismos para acelerar a tramitação processual, como,
por exemplo, a possibilidade de o relator, nas hipóteses cabíveis, dar provimento ou negar seguimento,
monocraticamente, ao agravo. Assim, esse dispositivo deve ser interpretado em consonância com os fins
buscados com a alteração legislativa. Nesse sentido, não se pode confundir o privilégio concedido à Fazenda
Pública, consistente na dispensa de depósito prévio para fins de interposição de recurso, com a multa instituída
pelo artigo 557, § 2º, do CPC, por se tratar de institutos de natureza diversa (AgRg no AREsp 513.377-RN,
Segunda Turma, DJe de 15/8/2014). Precedentes citados do STJ: AgRg nos EAREsp 22.230-PA, Corte
Especial, DJe de 1º/7/2014; EAg 493.058-SP, Primeira Seção, DJU de 1º/8/2006; AgRg no Ag 1.425.712-MG,
Primeira Turma, DJe 15/5/2012; AgRg no AREsp 383.036-MS, Segunda Turma, DJe 16/9/2014; e AgRg no
AREsp 131.134-RS, Quarta Turma, DJe 19/3/2014. Precedentes citados do STF: RE 521.424-RN AgR-EDv-

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AgR, Tribunal Pleno, DJe 27/08/2010; e AI 775.934-AL AgR-ED-ED, Tribunal Pleno, DJe 13/12/2011. AgRg no
AREsp 553.788-DF, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em 16/10/2014.

DIREITO ADMINISTRATIVO E CIVIL. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A INDENIZAÇÃO PELAS ACESSÕES E


DE RETENÇÃO PELAS BENFEITORIAS EM BEM PÚBLICO IRREGULARMENTE OCUPADO.

Quando irregularmente ocupado o bem público, não há que se falar em direito de retenção pelas
benfeitorias realizadas, tampouco em direito a indenização pelas acessões, ainda que as benfeitorias
tenham sido realizadas de boa-fé. Isso porque nesta hipótese não há posse, mas mera detenção, de natureza
precária. Dessa forma, configurada a ocupação indevida do bem público, resta afastado o direito de retenção por
benfeitorias e o pleito indenizatório à luz da alegada boa-fé. Precedentes citados: AgRg no AREsp 456.758-SP,
Segunda Turma, DJe 29/4/2014; e REsp 850.970-DF, Primeira Turma, DJe 11/3/2011. AgRg no REsp
1.470.182-RN, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 4/11/2014.

DIREITO TRIBUTÁRIO. ICMS E IMUNIDADE DAS ENTIDADES DE ASSISTÊNCIA SOCIAL SEM FINS
LUCRATIVOS.

Não há imunidade tributária em relação ao ICMS decorrente da prática econômica desenvolvida por
entidade de assistência social sem fins lucrativos que tem por finalidade realizar ações que visem à
promoção da pessoa com deficiência, quando desempenhar atividade franqueada da Empresa Brasileira
de Correios e Telégrafos (ECT), ainda que a renda obtida reverta-se integralmente aos fins institucionais
da referida entidade. De fato, a jurisprudência do STF é firme no sentido de que a imunidade prevista no art.
150, VI, c, da CF também se aplica ao ICMS, desde que a atividade seja relacionada com as finalidades
essenciais da entidade. Assim, a referida imunidade compreende somente o patrimônio, a renda e os serviços,
relacionados com as finalidades essenciais das entidades nele mencionadas (art. 150, § 4º, da CF). Nesse
mesmo sentido, o art. 14, § 2º, do CTN afirma que os serviços imunes das instituições de assistência social são,
exclusivamente, os diretamente relacionados com os objetivos institucionais da entidade, previstos nos
respectivos estatutos ou atos constitutivos. Desse modo, a imunidade em relação ao ICMS não pode ser
concedida no caso, porquanto a atividade econômica fraqueada dos Correios foge dos fins institucionais da
entidade, ou seja, o serviço prestado não possui relação com seus trabalhos na área de assistência social, ainda
que o resultado das vendas seja revertido em prol das suas atividades essenciais. RMS 46.170-MS, Rel. Min.
Humberto Martins, julgado em 23/10/2014.

Terceira Turma

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. HIPÓTESE DE NÃO CABIMENTO DE EMBARGOS INFRINGENTES.

Não cabem embargos infringentes quando o Tribunal reduz, por maioria, o valor da indenização fixado na
sentença, enquanto o voto vencido pretendia diminuir o referido montante em maior extensão. A partir da
Lei 10.352/2001 que conferiu nova redação ao art. 530 do CPC o cabimento dos embargos infringentes passou
a pressupor, além da existência de julgamento não unânime (requisito já previsto na sistemática da redação
anterior), a reforma de sentença de mérito. Na hipótese em apreço, o voto vencido, ao reduzir em maior
extensão, de certa forma também concordou, pelo menos, com a diminuição estabelecida pela maioria
vencedora. Ou seja, todos os julgadores concordaram que a indenização deveria ser reduzida para montante

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inferior ao arbitrado pela sentença, sendo que o voto vencido pretendia apenas baixar ainda mais o montante
indenizatório. Sendo assim, de acordo com a inteligência da redação atual do art. 530 do CPC, embora não seja
necessário que o voto vencido corresponda à sentença, deve estar ele mais próximo dela do que os votos
vencedores para que seja reconhecido o cabimento dos embargos infringentes. Precedente citado: REsp
1.284.035-MS, Terceira Turma, DJe 20/5/2013. REsp 1.308.957-RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino,
julgado em 2/10/2014.

DIREITO CIVIL. INEXISTÊNCIA DE INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA ANTE O ENVIO DA PROPOSTA DE


SEGURO APÓS A OCORRÊNCIA DE FURTO.

O proprietário de automóvel furtado não terá direito a indenização securitária se a proposta de seguro do
seu veículo somente houver sido enviada à seguradora após a ocorrência do furto. O contrato de seguro,
para ser concluído, necessita passar, comumente, por duas fases: i) a da proposta, em que o segurado fornece
as informações necessárias para o exame e a mensuração do risco, indispensável para a garantia do interesse
segurável; e ii) a da recusa ou aceitação do negócio pela seguradora, ocasião em que a seguradora emitirá, no
caso de aceitação, a apólice. A proposta é a manifestação da vontade de apenas uma das partes e, no caso do
seguro, deverá ser escrita e conter a declaração dos elementos essenciais do interesse a ser garantido e do
risco. Todavia, a proposta não gera, por si só, o contrato, que depende de consentimento recíproco de ambos os
contratantes. Assim, para que o contrato de seguro se aperfeiçoe, são imprescindíveis o envio da proposta pelo
interessado ou pelo corretor e o consentimento, expresso ou tácito, da seguradora, mesmo sendo dispensáveis
a apólice ou o pagamento de prêmio. Desse modo, nota-se que, no caso em apreço, não há a manifestação de
vontade no sentido de firmar a avença em tempo hábil, tampouco existe a concordância, ainda que tácita, da
seguradora. Além disso, nessa hipótese, quando o proponente decidiu ultimar a avença, já não havia mais o
objeto do contrato (interesse segurável ou risco futuro). REsp 1.273.204-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas
Cueva, julgado em 7/10/2014.

DIREITO CIVIL. ASSINATURA DO TESTADOR COMO REQUISITO ESSENCIAL DE VALIDADE DE


TESTAMENTO PARTICULAR.

Será inválido o testamento particular redigido de próprio punho quando não for assinado pelo testador.
De fato, diante da falta de assinatura, não é possível concluir, de modo seguro, que o testamento escrito de
próprio punho exprime a real vontade do testador. A propósito, a inafastabilidade da regra que estatui a
assinatura do testador como requisito essencial do testamento particular (art. 1.645, I, do CC/1916 e art. 1.876, §
1º, CC/2002) faz-se ainda mais evidente se considerada a inovação trazida pelos arts. 1.878 e 1.879 do
CC/2002, que passaram a admitir a possibilidade excepcional de confirmação do testamento particular escrito de
próprio punho nas hipóteses em que ausentes as testemunhas, desde que, frise-se, assinado pelo testador.
Nota-se, nesse contexto, que a assinatura, além de requisito legal, é mais que mera formalidade, consistindo
verdadeiro pressuposto de validade do ato, que não pode ser relativizado. REsp 1.444.867-DF, Rel. Min.
Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 23/9/2014.

DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. HIPÓTESE DE ADOÇÃO DE DESCENDENTE POR


ASCENDENTES.

Admitiu-se, excepcionalmente, a adoção de neto por avós, tendo em vista as seguintes particularidades
do caso analisado: os avós haviam adotado a mãe biológica de seu neto aos oito anos de idade, a qual já

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estava grávida do adotado em razão de abuso sexual; os avós já exerciam, com exclusividade, as
funções de pai e mãe do neto desde o seu nascimento; havia filiação socioafetiva entre neto e avós; o
adotado, mesmo sabendo de sua origem biológica, reconhece os adotantes como pais e trata a sua mãe
biológica como irmã mais velha; tanto adotado quanto sua mãe biológica concordaram expressamente
com a adoção; não há perigo de confusão mental e emocional a ser gerada no adotando; e não havia
predominância de interesse econômico na pretensão de adoção. De fato, a adoção de descendentes por
ascendentes passou a ser censurada sob o fundamento de que, nessa modalidade, havia a predominância do
interesse econômico, pois as referidas adoções visavam, principalmente, à possibilidade de se deixar uma
pensão em caso de falecimento, até como ato de gratidão, quando se adotava quem havia prestado ajuda
durante períodos difíceis. Ademais, fundamentou-se a inconveniência dessa modalidade de adoção no
argumento de que haveria quebra da harmonia familiar e confusão entre os graus de parentesco, inobservando-
se a ordem natural existente entre parentes. Atento a essas críticas, o legislador editou o § 1º do art. 42 do ECA,
segundo o qual Não podem adotar os ascendentes e os irmãos do adotando, visando evitar que o instituto fosse
indevidamente utilizado com intuitos meramente patrimoniais ou assistenciais, bem como buscando proteger o
adotando em relação a eventual confusão mental e patrimonial decorrente da transformação dos avós em pais e,
ainda, com a justificativa de proteger, essencialmente, o interesse da criança e do adolescente, de modo que
não fossem verificados apenas os fatores econômicos, mas principalmente o lado psicológico que tal modalidade
geraria no adotado. No caso em análise, todavia, é inquestionável a possibilidade da mitigação do § 1º do art. 42
do ECA, haja vista que esse dispositivo visa atingir situação distinta da aqui analisada. Diante da leitura do art. 1º
do ECA (Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente) e do art. 6º desse mesmo diploma
legal (Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige, as exigências do bem
comum, os direitos e deveres individuais e coletivos, e a condição peculiar da criança e do adolescente como
pessoas em desenvolvimento), deve-se conferir prevalência aos princípios da proteção integral e da garantia do
melhor interesse do menor. Ademais, o § 7º do art. 226 da CF deu ênfase à família, como forma de garantir a
dignidade da pessoa humana, de modo que o direito das famílias está ligado ao princípio da dignidade da
pessoa humana de forma molecular. É também com base em tal princípio que se deve solucionar o caso
analisado, tendo em vista se tratar de supraprincípio constitucional. Nesse contexto, não se pode descuidar, no
direito familiar, de que as estruturas familiares estão em mutação e, para se lidar com elas, não bastam somente
as leis. É necessário buscar subsídios em diversas áreas, levando-se em conta aspectos individuais de cada
situação e os direitos de 3ª Geração. Dessa maneira, não cabe mais ao Judiciário fechar os olhos à realidade e
fazer da letra do § 1º do art. 42 do ECA tábula rasa à realidade, de modo a perpetuar interpretação restrita do
referido dispositivo, aplicando-o, por consequência, de forma estrábica e, dessa forma, pactuando com a
injustiça. No caso analisado, não se trata de mero caso de adoção de neto por avós, mas sim de regularização
de filiação socioafetiva. Deixar de permitir a adoção em apreço implicaria inobservância aos interesses básicos
do menor e ao princípio da dignidade da pessoa humana. REsp 1.448.969-SC, Rel. Min. Moura Ribeiro,
julgado em 21/10/2014.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. PRISÃO CIVIL DE ADVOGADO.

O advogado que tenha contra si decretada prisão civil por inadimplemento de obrigação alimentícia não
tem direito a ser recolhido em sala de Estado Maior ou, na sua ausência, em prisão domiciliar. A norma do
inciso V do art. 7º da Lei 8.906/1994 relativa à prisão do advogado, antes de sua condenação definitiva, em sala
de Estado Maior, ou, na sua falta, no seu domicílio restringe-se à prisão penal, de índole punitiva. O referido

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artigo é inaplicável à prisão civil, pois, enquanto meio executivo por coerção pessoal, sua natureza já é de prisão
especial, porquanto o devedor de alimentos detido não será segregado com presos comuns. Ademais, essa
coerção máxima e excepcional decorre da absoluta necessidade de o coagido cumprir, o mais brevemente
possível, com a obrigação de alimentar que a lei lhe impõe, visto que seu célere adimplemento está diretamente
ligado à subsistência do credor de alimentos. A relevância dos direitos relacionados à obrigação vida e
dignidade exige que à disposição do credor se coloque meio executivo que exerça pressão séria e relevante em
face do obrigado. Impõe-se evitar um evidente esvaziamento da razão de ser de meio executivo que extrai da
coerção pessoal a sua força e utilidade, não se mostrando sequer razoável substituir o cumprimento da prisão
civil em estabelecimento prisional pelo cumprimento em sala de Estado Maior, ou, na sua falta, em prisão
domiciliar. Precedente citado: HC 181.231-RO, Terceira Turma, DJe 14/4/2011. HC 305.805-GO, Rel. Min.
Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 13/10/2014 (Vide Informativo nº 537).

DIREITO CIVIL E DO CONSUMIDOR. REAJUSTE DE MENSALIDADE DE SEGURO-SAÚDE EM RAZÃO DE


ALTERAÇÃO DE FAIXA ETÁRIA DO SEGURADO.

É válida a cláusula, prevista em contrato de seguro-saúde, que autoriza o aumento das mensalidades do
seguro quando o usuário completar sessenta anos de idade, desde que haja respeito aos limites e
requisitos estabelecidos na Lei 9.656/1998 e, ainda, que não se apliquem índices de reajuste
desarrazoados ou aleatórios, que onerem em demasia o segurado. Realmente, sabe-se que, quanto mais
avançada a idade do segurado, independentemente de ser ele enquadrado ou não como idoso, maior será seu
risco subjetivo, pois normalmente a pessoa de mais idade necessita de serviços de assistência médica com
maior frequência do que a que se encontra em uma faixa etária menor. Trata-se de uma constatação natural, de
um fato que se observa na vida e que pode ser cientificamente confirmado. Por isso mesmo, os contratos de
seguro-saúde normalmente trazem cláusula prevendo reajuste em função do aumento da idade do segurado,
tendo em vista que os valores cobrados a título de prêmio devem ser proporcionais ao grau de probabilidade de
ocorrência do evento risco coberto. Maior o risco, maior o valor do prêmio. Atento a essa circunstância, o
legislador editou a Lei 9.656/1998, preservando a possibilidade de reajuste da mensalidade de seguro-saúde em
razão da mudança de faixa etária do segurado, estabelecendo, contudo, algumas restrições a esses reajustes
(art. 15). Desse modo, percebe-se que ordenamento jurídico permitiu expressamente o reajuste das
mensalidades em razão do ingresso do segurado em faixa etária mais avançada em que os riscos de saúde são
abstratamente elevados, buscando, assim, manter o equilíbrio atuarial do sistema. Posteriormente, em razão do
advento do art. 15, § 3º, da Lei 10.741/2003 (Estatuto do Idoso) que estabelece ser vedada a discriminação do
idoso nos planos de saúde pela cobrança de valores diferenciados em razão da idade, impõe-se encontrar um
ponto de equilíbrio na interpretação dos diplomas legais que regem a matéria, a fim de se chegar a uma solução
justa para os interesses em conflito. Nesse passo, não é possível extrair-se do art. 15, § 3º, do Estatuto do Idoso
uma interpretação que repute, abstratamente, abusivo todo e qualquer reajuste que se baseie em mudança de
faixa etária, mas tão somente o aumento discriminante, desarrazoado, que, em concreto, traduza verdadeiro
fator de discriminação do idoso, por visar dificultar ou impedir a permanência dele no seguro-saúde; prática,
aliás, que constitui verdadeiro abuso de direito e violação ao princípio da igualdade e divorcia-se da boa-fé
contratual. Ressalte-se que o referido vício aumento desarrazoado caracteriza-se pela ausência de justificativa
para o nível do aumento aplicado. Situação que se torna perceptível, sobretudo, pela demasiada majoração do
valor da mensalidade do contrato de seguro de vida do idoso, quando comparada com os percentuais de
reajustes anteriormente postos durante a vigência do pacto. Igualmente, na hipótese em que o segurador se

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aproveita do advento da idade do segurado para não só cobrir despesas ou riscos maiores, mas também para
aumentar os lucros há, sim, reajuste abusivo e ofensa às disposições do CDC. Além disso, os custos pela maior
utilização dos serviços de saúde pelos idosos não podem ser diluídos entre os participantes mais jovens do
grupo segurado, uma vez que, com isso, os demais segurados iriam, naturalmente, reduzir as possibilidades de
seu seguro-saúde ou rescindi-lo, ante o aumento da despesa imposta. Nessa linha intelectiva, não se pode
desamparar uns, os mais jovens e suas famílias, para pretensamente evitar a sobrecarga de preço para os
idosos. Destaque-se que não se está autorizando a oneração de uma pessoa pelo simples fato de ser idosa;
mas, sim, por demandar mais do serviço ofertado. Nesse sentido, considerando-se que os aumentos dos
seguros-saúde visam cobrir a maior demanda, não se pode falar em discriminação, que somente existiria na
hipótese de o aumento decorrer, pura e simplesmente, do advento da idade. Portanto, excetuando-se as
situações de abuso, a norma inserida na cláusula em análise que autoriza o aumento das mensalidades do
seguro em razão de o usuário completar sessenta anos de idade não confronta o art. 15, § 3º, do Estatuto do
Idoso, que veda a discriminação negativa, no sentido do injusto. Precedente citado: REsp 866.840-SP, Quarta
Turma, DJe 17/8/2011. REsp 1.381.606-DF, Rel. originária Min. Nancy Andrighi, Rel. para acórdão Min.
João Otávio De Noronha, julgado em 7/10/2014.

Quarta Turma

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. INDICAÇÃO EQUIVOCADA DA AUTORIDADE COATORA EM INICIAL DE


MS.

Nos casos de equívoco facilmente perceptível na indicação da autoridade coatora, o juiz competente
para julgar o mandado de segurança pode autorizar a emenda da petição inicial ou determinar a
notificação, para prestar informações, da autoridade adequada aquela de fato responsável pelo ato
impugnado , desde que seja possível identificá-la pela simples leitura da petição inicial e exame da
documentação anexada. De fato, nem sempre é fácil para o impetrante identificar a autoridade responsável
pela concretização do ato que entende violador de seu direito líquido e certo. A nova Lei do Mandado de
Segurança (Lei 12.016/2009), entretanto, trouxe importante dispositivo em seu art. 6º, § 3º, que muito contribuiu
para a solução do problema, permitindo ao julgador, pela análise do ato impugnado na exordial, identificar
corretamente o impetrado, não ficando restrito à eventual literalidade de equivocada indicação. Precedente
citado: AgRg no RMS 32.184-PI, Segunda Turma, Dje 29/5/2012. RMS 45.495-SP, Rel. Min. Raul Araújo,
julgado em 26/8/2014.

DIREITO DO CONSUMIDOR. POSSIBILIDADE DE SEGURADORA OU OPERADORA DE PLANO DE SAÚDE


CUSTEAR TRATAMENTO EXPERIMENTAL.

A seguradora ou operadora de plano de saúde deve custear tratamento experimental existente no País,
em instituição de reputação científica reconhecida, de doença listada na CID-OMS, desde que haja
indicação médica para tanto, e os médicos que acompanhem o quadro clínico do paciente atestem a
ineficácia ou a insuficiência dos tratamentos indicados convencionalmente para a cura ou controle eficaz
da doença. Cumpre esclarecer que o art. 12 da Lei 9.656/1998 estabelece as coberturas mínimas que devem
ser garantidas aos segurados e beneficiários dos planos de saúde. Nesse sentido, as operadoras são obrigadas
a cobrir os tratamentos e serviços necessários à busca da cura ou controle da doença apresentada pelo paciente

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e listada na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, da
Organização Mundial de Saúde (CID-OMS). Já o art. 10, I, da referida Lei estabelece que as seguradoras ou
operadoras de plano de saúde podem excluir da cobertura o tratamento clínico ou cirúrgico experimental. Nessa
linha intelectiva, a autorização legal para que um determinado tratamento seja excluído deve ser entendida em
confronto com as coberturas mínimas que são garantidas. Tanto é assim que o art. 10 da Lei 9.656/1998 faz
menção expressa ao art. 12 do mesmo diploma legal e vice-versa. Desse modo, o tratamento experimental, por
força de sua recomendada utilidade, embora eventual, transmuda-se em tratamento mínimo a ser garantido ao
paciente, escopo da Lei 9.656/1998, como se vê nos citados arts. 10 e 12. Isto é, nas situações em que os
tratamentos convencionais não forem suficientes ou eficientes fato atestado pelos médicos que acompanham o
quadro clínico do paciente , existindo no País tratamento experimental, em instituição de reputação científica
reconhecida, com indicação para a doença, a seguradora ou operadora deve arcar com os custos do tratamento,
na medida em que passa a ser o único de real interesse para o contratante. Assim, a restrição contida no art. 10,
I, da Lei 9.656/1998 somente deve ter aplicação nas hipóteses em que os tratamentos convencionais mínimos
garantidos pelo art. 12 da mesma Lei sejam de fato úteis e eficazes para o contratante segurado. Ou seja, não
pode o paciente, à custa da seguradora ou operadora de plano de saúde, optar por tratamento experimental, por
considerá-lo mais eficiente ou menos agressivo, pois lhe é disponibilizado tratamento útil, suficiente para atender
o mínimo garantido pela Lei. REsp 1.279.241-SP, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 16/9/2014.

DIREITO EMPRESARIAL. SUSPENSÃO DA FLUÊNCIA DE JUROS LEGAIS E CONTRATUAIS EM


LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL.

Após a decretação da liquidação extrajudicial de instituição financeira, os juros contra a massa


liquidanda, sejam eles legais ou contratuais, terão sua fluência ou contagem suspensa enquanto o
passivo não for integralmente pago aos credores habilitados, devendo esses juros serem computados e
pagos apenas após a satisfação integral do passivo se houver ativo que os suporte, observando-se a
ordem do quadro geral de credores. De fato, a regra legal segundo a qual a decretação da liquidação
extrajudicial produzirá, de imediato, a não fluência de juros (art. 18, d, da Lei 6.024/1974) não discrimina a
natureza destes, se remuneratórios, moratórios ou legais. A respeito dessa discriminação, deve-se dizer que se
trata de tipificação abrangente, na medida em que visa à preservação do ativo para pagamento da massa, por
presumir, com caráter relativo, que o ativo não é suficiente para o pagamento de todos os credores. Dessa
forma, na liquidação extrajudicial, os juros, sejam eles legais ou contratuais, têm sua fluência suspensa por força
do art. 18, d, da Lei 6.024/1974, a exemplo do que ocorre durante o processamento da falência (art. 124 da Lei
11.101/2005, que, de forma expressa, prevê a inexigibilidade dos juros previstos em lei ou em contrato que
tenham vencido após a decretação da falência, condicionada à ausência de ativo para o pagamento dos
credores). REsp 1.102.850-PE, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 4/11/2014.

Quinta Turma

DIREITO PENAL MILITAR. INCIDÊNCIA DE AGRAVANTE GENÉRICA NO CRIME DE CONCUSSÃO.

Não configura bis in idem a aplicação da agravante genérica prevista no art. 70, II, l, do CPM incidente
nos casos em que o militar pratica o delito estando de serviço nos crimes de concussão (art. 305 do
CPM) praticados em serviço. Isso porque a referida circunstância agravante não se insere no tipo penal

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descrito no art. 305 do CPM, cujo teor é o seguinte: Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda
que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida. Insta consignar que o militar
pode cometer o delito de concussão estando ou não em serviço, mas o fato de estar de serviço torna o crime
mais grave, pela particular infringência ao seu dever. Precedentes citados: AgRg no REsp 1.417.380-RJ, Quinta
Turma, DJe de 17/2/2014; e HC 230.075-RJ, Quinta Turma, DJe de 19/12/213. HC 286.802-RJ, Rel. Min. Felix
Fischer, julgado em 23/10/2014.

DIREITO PENAL MILITAR. SUBSTITUIÇÃO DE PENA E CRIMES MILITARES.

Não cabe substituir por pena restritiva de direitos, com fundamento no art. 44 do CP, a pena privativa de
liberdade aplicada aos crimes militares. Isso porque o art. 59 do CPM disciplinou de modo diverso as
hipóteses de substituição cabíveis sob sua égide. Precedente citado do STJ: AgRg no Ag 1.324.415-BA, Sexta
Turma, DJe de 17/10/2012. Precedentes citados do STF: HC 94.083-DF, Segunda Turma, DJe de 12/3/2010; e
HC 80.952-PR, Primeira Turma, DJ de 5/10/2001. HC 286.802-RJ, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em
23/10/2014.

DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. INÉPCIA DE DENÚNCIA POR CORRUPÇÃO ATIVA E


PROSSEGUIMENTO DA PERSECUÇÃO PENAL PARA APURAÇÃO DE CORRUPÇÃO PASSIVA.

O reconhecimento da inépcia da denúncia em relação ao acusado de corrupção ativa (art. 333 do CP) não
induz, por si só, o trancamento da ação penal em relação ao denunciado, no mesmo processo, por
corrupção passiva (art. 317 do CP). Conquanto exista divergência doutrinária acerca do assunto, prevalece o
entendimento de que, via de regra, os crimes de corrupção passiva e ativa, por estarem previstos em tipos
penais distintos e autônomos, são independentes, de modo que a comprovação de um deles não pressupõe a
do outro. Aliás, tal compreensão foi reafirmada pelo STF no julgamento da Ação Penal 470-DF, extraindo-se dos
diversos votos nela proferidos a assertiva de que a exigência de bilateralidade não constitui elemento integrante
da estrutura do tipo penal do delito de corrupção (AP 470-DF, Tribunal Pleno, DJe 19/4/2013). Não se
desconhece o posicionamento no sentido de que, nas modalidades de recebimento ou aceitação da promessa
de vantagem indevida, haveria bilateralidade da conduta, que seria precedida da ação do particular que a
promove. Contudo, mesmo em tais casos, para que seja oferecida denúncia em face do autor da corrupção
passiva é desnecessária a identificação ou mesmo a condenação do corruptor ativo, já que o princípio da
indivisibilidade não se aplica às ações penais públicas. Ademais, a exclusão do acusado de corrupção ativa
ocorreu apenas em razão da inépcia da denúncia, decisão que não faz coisa julgada material, permitindo que o
órgão acusatório apresente outra peça vestibular quanto aos mesmos fatos sem os vícios outrora reconhecidos.
Assim, não havendo qualquer decisão de mérito transitada em julgado que tenha afastado cabalmente a prática
de corrupção ativa por parte do agente que teria oferecido ou prometido vantagem indevida a funcionário
público, impossível o trancamento da ação quanto ao delito previsto no art. 317 do CP. RHC 52.465-PE, Rel.
Min. Jorge Mussi, julgado em 23/10/2014.

DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. APLICAÇÃO DA LEI MARIA DA PENHA NA RELAÇÃO ENTRE
MÃE E FILHA.

É possível a incidência da Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) nas relações entre mãe e filha. Isso
porque, de acordo com o art. 5º, III, da Lei 11.340/2006, configura violência doméstica e familiar contra a mulher
qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou

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psicológico e dano moral ou patrimonial em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou
tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação. Da análise do dispositivo citado, infere-se
que o objeto de tutela da Lei é a mulher em situação de vulnerabilidade, não só em relação ao cônjuge ou
companheiro, mas também qualquer outro familiar ou pessoa que conviva com a vítima, independentemente do
gênero do agressor. Nessa mesma linha, entende a jurisprudência do STJ que o sujeito ativo do crime pode ser
tanto o homem como a mulher, desde que esteja presente o estado de vulnerabilidade caracterizado por uma
relação de poder e submissão. Precedentes citados: HC 175.816-RS, Quinta Turma, DJe 28/6/2013; e HC
250.435-RJ, Quinta Turma, DJe 27/9/2013. HC 277.561-AL, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 6/11/2014.

DIREITO PENAL. CONFISSÃO QUALIFICADA.

A confissão qualificada aquela na qual o agente agrega teses defensivas discriminantes ou exculpantes
, quando efetivamente utilizada como elemento de convicção, enseja a aplicação da atenuante prevista
na alínea d do inciso III do artigo 65 do CP. Precedentes citados: AgRg no REsp 1.384.067-SE, Quinta Turma,
DJe 12/2/2014; e AgRg no REsp 1.416.247-GO, Sexta Turma, DJe 15/5/2014. AgRg no REsp 1.198.354-ES,
Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 16/10/2014.

DIREITO PENAL. CONFIGURAÇÃO DE CRIME ÚNICO EM ROUBO PRATICADO NO INTERIOR DE ÔNIBUS.

Em roubo praticado no interior de ônibus, o fato de a conduta ter ocasionado violação de patrimônios
distintos o da empresa de transporte coletivo e o do cobrador não descaracteriza a ocorrência de crime
único se todos os bens subtraídos estavam na posse do cobrador. É bem verdade que a jurisprudência do
STJ e do STF entende que o roubo perpetrado com violação de patrimônios de diferentes vítimas, ainda que em
um único evento, configura concurso formal de crimes, e não crime único. Todavia, esse mesmo entendimento
não pode ser aplicado ao caso em que os bens subtraídos, embora pertençam a pessoas distintas, estavam sob
os cuidados de uma única pessoa, a qual sofreu a grave ameaça ou violência. Precedente citado: HC 204.316-
RS, Sexta Turma, DJe 19/9/2011. AgRg no REsp 1.396.144-DF, Rel. Min. Walter de Almeida Guilherme
(Desembargador Convocado do TJ/SP), julgado em 23/10/2014.

Sexta Turma

DIREITO PENAL. CONTRABANDO DE ARMA DE PRESSÃO E IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DO


PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA.

Configura contrabando e não descaminho importar, à margem da disciplina legal, arma de pressão por
ação de gás comprimido ou por ação de mola, ainda que se trate de artefato de calibre inferior a 6 mm,
não sendo aplicável, portanto, o princípio da insignificância, mesmo que o valor do tributo incidente
sobre a mercadoria seja inferior a R$ 10 mil. Na situação em análise, não se aplica o entendimento firmado
para os casos de descaminho de que incide o princípio da insignificância quando o valor do tributo elidido for
inferior a R$ 10 mil (REsp 1.112.748-TO, Terceira Seção, DJe 13/10/2009). Com efeito, nos casos de
contrabando (importação ou exportação de mercadoria proibida), em que, para além da sonegação de tributos,
há lesão à moral, higiene, segurança e saúde pública, não há como excluir a tipicidade material da conduta à
vista do valor da evasão fiscal. No caso, embora não haja proibição absoluta de entrada no território nacional de
arma de pressão, há inequívoca proibição relativa, haja vista se tratar de produto que se submete a rigorosa

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normatização federal de controle de comercialização e importação. De fato, conquanto armas de pressão por
ação de gás comprimido ou por ação de mola de calibre inferior a 6 mm sejam de uso permitido (art. 17 do
Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados R-105, aprovado pelo Decreto 3.665/2000), a sua
venda e a sua importação são controladas. No caso de importação, a aquisição da arma de pressão está sujeita
a autorização prévia da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados do Exército Brasileiro (art. 11, § 2º, da
Portaria 6/2007 do Ministério da Defesa) e é restrita aos colecionadores, atiradores e caçadores registrados no
Exército (art. 11, § 3º, da citada portaria), submetendo-se, ainda, às normas de importação e de desembaraço
alfandegário previstas no Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados (R-105), aprovado pelo
Decreto 3.665/2000. Nessa linha, por não estar a questão limitada ao campo da tributação, destaca-se que a
jurisprudência do STJ nega aplicação do princípio da insignificância em sede de importação de produtos que,
embora permitidos, submetem-se a proibição relativa como, por exemplo, certos produtos agrícolas, cigarros,
gasolina etc. (AgRg no AREsp 520.289-PR, Quinta Turma, DJe 2/9/2014; e AgRg no AREsp 327.927-PR, Quinta
Turma, DJe 14/8/2014). REsp 1.427.796-RS, Rel. Min. Maria Thereza De Assis Moura, julgado em
14/10/2014.

DIREITO PROCESSUAL PENAL. REQUISIÇÃO DE RÉU PRESO PARA ENTREVISTA PESSOAL COM
DEFENSOR PÚBLICO.

Não configura nulidade a negativa de pedido da Defensoria Pública de requisição de réu preso para
entrevista pessoal com a finalidade de subsidiar a elaboração de defesa preliminar. Isso porque inexiste
previsão legal que autorize a Defensoria Pública a transferir ao Poder Judiciário o ônus de promoção de
entrevista pessoal do réu preso. Observe-se que o art. 185 do CPP garante ao acusado preso o direito à prévia
entrevista pessoal com o respectivo defensor quando da realização do seu interrogatório ou de outros atos
processuais que dependam da sua participação, hipóteses a que não se amolda a situação em análise. Ao que
se tem, a realização de entrevista pessoal para esclarecimento de situações de fato, úteis à formulação da
defesa dos réus presos, constitui, na verdade, atribuição da Defensoria Pública, cuja função consiste também
em atuar diretamente nos presídios, conforme dispõe o art. 4º, XVII e § 11, da LC 80/1994. Além do mais, o
direito de o preso ser requisitado para comparecer à Defensoria Pública estaria em colisão com o direito à
segurança dos demais cidadãos, isso sem mencionar os recursos necessários para tal fim. Precedentes citados:
RHC 40.980-RJ, Quinta Turma, DJe 8/5/2014; e RHC 36.495-RJ, Sexta Turma, DJe 5/9/2014. RHC 50.791-RJ,
Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 14/10/2014.

DIREITO PROCESSUAL PENAL. AMPLIAÇÃO DA COMPETÊNCIA DOS JUIZADOS DA INFÂNCIA E DA


JUVENTUDE POR LEI ESTADUAL.

Lei estadual pode conferir poderes ao Conselho da Magistratura para, excepcionalmente, atribuir aos
Juizados da Infância e da Juventude competência para processar e julgar crimes contra a dignidade
sexual em que figurem como vítimas crianças ou adolescentes. Embora haja precedentes do STJ em
sentido contrário, em homenagem ao princípio da segurança jurídica, é de se seguir o entendimento assentado
nas duas Turmas do STF no sentido de ser possível atribuir à Justiça da Infância e da Juventude, entre outras
competências, a de processar e julgar crimes de natureza sexuais praticados contra crianças e adolescentes.
Precedentes citados do STF: HC 113.102-RS, Primeira Turma, DJe 18/2/2013; e HC 113.018-RS, Segunda
Turma, DJe 14/11/2013. HC 238.110-RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 26/8/2014 (Vide
Informativo nº 529).

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DIREITO PROCESSUAL PENAL. COMPENTÊNCIA PARA JULGAR CRIME DE PERIGO DE DESASTRE
FERROVIÁRIO.

Não havendo ofensa direta a bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas ou
empresas públicas (art. 109, IV, da CF), compete à Justiça Estadual e não à Justiça Federal processar e
julgar suposto crime de perigo de desastre ferroviário qualificado pelo resultado lesão corporal e morte
(art. 260, IV, § 2º, c/c art. 263 do CP) ocorrido por ocasião de descarrilamento de trem em malha
ferroviária da União. De fato, o bem jurídico tutelado pelo crime de perigo de desastre ferroviário é a
incolumidade pública, consubstanciada na segurança dos meios de comunicação e transporte. Indiretamente,
também se tutelam a vida e a integridade física das pessoas vítimas do desastre. O sujeito passivo do delito é,
portanto, a coletividade em geral e, de forma indireta, as pessoas que, eventualmente, sofram lesões corporais
ou morte. Precedente citado: CC 45.652-SP, Terceira Seção, DJe 24/11/2004. RHC 50.054-SP, Rel. Min. Nefi
Cordeiro, julgado em 4/11/2014.

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