Dessalinização da Água do Mar por
Osmose Inversa
Hamilton Gabriel Correia da Lomba
Aluno, Departamento de Engenharia Mecânica
Universidade de Cabo Verde
Praia – Cabo Verde
Junho de 2025
1 Resumo
A crescente escassez de água potável, especialmente em regiões costeiras e áridas, tem
impulsionado o uso de tecnologias de dessalinização. Este trabalho apresenta o processo
de dessalinização da água do mar por osmose inversa, destacando os seus princı́pios de
funcionamento, principais etapas, vantagens e desafios. A osmose inversa é um processo
fı́sico que utiliza membranas semipermeáveis e alta pressão para remover sais e outras
impurezas da água do mar, tornando-a própria para consumo humano. Apesar do ele-
vado consumo energético e dos impactos ambientais associados ao descarte da salmoira, a
tecnologia apresenta elevada eficiência e qualidade da água produzida, sendo uma solução
cada vez mais adotada em diversos contextos. O estudo fornece ainda dados técnicos
tı́picos e referências atualizadas sobre a aplicação prática desta tecnologia.
Palavras-chave: Dessalinização, Água do mar, Osmose inversa, Membranas semipermeáveis,
Água potável, Sustentabilidade hı́drica, Salinidade, Tratamento de água.
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Introdução
A escassez de água potável é um dos principais desafios enfrentados pelas sociedades
modernas, especialmente em regiões áridas, semiáridas e insulares. Com o aumento da
população, das atividades económicas e dos efeitos das alterações climáticas, a pressão
sobre os recursos hı́dricos tem-se intensificado.
Neste contexto, a dessalinização da água do mar tem-se afirmado como uma das alternati-
vas mais promissoras para suprir a procura crescente de água potável. Entre as tecnologias
disponı́veis, a osmose inversa destaca-se pela sua elevada eficiência e pela qualidade da
água produzida. O processo baseia-se na aplicação de pressão para forçar a água salina a
atravessar uma membrana semipermeável, retendo os sais dissolvidos [2].
Em Cabo Verde, a Electra opera atualmente várias unidades de dessalinização na ilha
de Santiago, com capacidade combinada superior a 20 000 m³/dia [5, 6]. Novos projetos
agrı́colas como o PMAA também estão a implementar soluções hı́bridas (solar + osmose
inversa) para abastecimento de água de rega em zonas rurais [7, 8].
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2 o que é Osmose?
Osmose é o nome dado ao movimento da água entre meios com concentrações diferentes
de solutos separados por uma membrana semipermeável. É um processo fı́sico-quı́mico
importante na sobrevivência das células.
A água movimenta-se sempre de um meio hipotônico (menos concentrado em soluto) para
um meio hipertônico (mais concentrado em soluto) com o objetivo de se atingir a mesma
concentração em ambos os meios, tornando-os isotônicos, através de uma membrana se-
mipermeável, ou seja, uma membrana cujos poros permitem a passagem de moléculas de
água, mas impedem a passagem de outras moléculas.
A Osmose Inversa (OI) é um processo de separação que usa pressão para forçar uma
solução através de uma membrana que retém o soluto em um lado e permite que o
solvente passe para o outro lado. Mais formalmente, é o processo de forçar a solução
de uma região de alta concentração de soluto através de uma membrana para uma região
de baixa concentração de soluto, através da aplicação de uma pressão externa que exceda
a pressão osmótica.
A membrana aqui é semipermeável, o que significa que ela permite a passagem de solvente,
mas não de soluto.
Figura 1: Menbrana de Osmose Inversa.
As membranas usadas para Osmose Inversa têm uma camada de barreira densa, feita de
polı́meros, onde a maior parte da separação ocorre. Na maioria dos casos a membrana é
projetada para permitir que passe somente água através dessa camada densa, enquanto
previne a passagem de solutos (como ı́ons de sal, por exemplo).
2.1 Princı́pio de Funcionamento Menbrana
Quando duas soluções com concentrações diferentes de soluto são misturadas, o volume
total de soluto dessas soluções será distribuı́do uniformemente no total de solvente. Isso
é conhecido como difusão, onde o soluto mover-se-á das áreas de alta concentração para
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outras áreas de menor concentração até que a concentração em toda a mistura seja uni-
forme, que é quando a mistura chega ao estado de equilı́brio. Ao invés de misturar as
duas soluções juntas, isso pode acontecer colocando-as em dois compartimentos onde elas
são separadas uma da outra por uma membrana semipermeável.
A membrana semipermeável não permite que o soluto se mova de um compartimento
para o outro, mas permite que o solvente faça isso. Uma vez que o equilı́brio não seja
alcançado pelo movimento de soluto do compartimento de alta concentração para o de
baixa, ele é conseguido pela movimentação do solvente das áreas de baixa concentração
de soluto para áreas de alta concentração de soluto. Quando o solvente move-se para fora
das áreas de baixa concentração de soluto, isso faz com que estas áreas tornem-se mais
concentradas. Por outro lado, quando o solvente move-se para áreas de alta concentração,
a concentração de soluto diminuirá. Este processo é chamado de osmose.
A tendência que o solvente tem de fluir através da membrana semipermeável pode ser
expressa como “Pressão Osmótica”. De modo análogo, esse fluxo pode ocorrer causado
por uma pressão diferencial. Na Osmose Inversa, em um arranjo similar ao da Osmose,
a pressão é aplicada o compartimento com alta concentração. Nesse caso, há duas forças
influenciando o movimento da água: a pressão causada pela diferença na concentração de
soluto entre os dois compartimentos (a pressão osmótica) e a pressão aplicada externa-
mente.
Figura 2: Forças Atuantes no Sistema
2.2 Incrustação das Membranas na Osmose Reversa
A incrustação das membranas (ou fouling, em inglês) é um dos principais problemas en-
frentados nos sistemas de osmose reversa. Esse fenômeno ocorre quando sais minerais,
partı́culas em suspensão, microrganismos ou compostos orgânicos se acumulam na su-
perfı́cie da membrana, prejudicando seu desempenho. Como consequência, há redução do
fluxo de permeado (água purificada), diminuição na rejeição de contaminantes e aumento
da pressão diferencial no sistema.
2.2.1 Tipos comuns de incrustação
• Incrustação por sais inorgânicos (escala): causada por carbonatos de cálcio,
sulfatos de bário ou estrôncio, sı́lica, entre outros. Frequentemente relacionada à
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dureza da água e ao pH.
• Incrustação biológica (biofouling): devido à proliferação de bactérias e biofilmes
na superfı́cie da membrana.
• Incrustação por partı́culas ou coloides: resulta da presença de turbidez, argilas,
óxidos metálicos, etc.
• Incrustação por compostos orgânicos: inclui pesticidas, matéria orgânica na-
tural (NOM) e subprodutos industriais.
2.2.2 Prevenção e controle
• Pré-tratamento da água (filtragem, dosagem de antiescalantes e controle de pH)
• Limpezas quı́micas periódicas (CIP – Cleaning in Place)
• Monitoramento da pressão diferencial e da taxa de recuperação
• Manutenção preventiva do sistema de pré-filtração
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3 Princı́pio de Funcionamento Osmose Inversa
A osmose inversa (OI) consiste na aplicação de uma pressão superior à pressão osmótica
natural, forçando a água do mar a atravessar uma membrana semipermeável que retém
sais, minerais e outras impurezas [2].
Figura 3: Esquema simplificado do processo de osmose inversa.
3.1 Etapas do Processo
1. Pré-tratamento: Remoção de sólidos, microrganismos e óleos. Inclui ajuste de
pH, remoção de cloro e adição de anti-incrustantes.
2. Bombeamento: Aplicação de alta pressão (55–70 bar) por meio de bombas de alta
eficiência.
3. Filtração por membranas: A água atravessa membranas semipermeáveis que
bloqueiam sais e contaminantes.
4. Pós-tratamento: Remineralização, correção de pH e desinfeção final com cloro ou
UV.
5. Gestão da salmoira: Descarte do concentrado com elevada salinidade, geralmente
por difusores em meio marinho [3].
4 Vantagens
• Alta eficiência na remoção de sais (¿99%).
• Produção de água potável de alta qualidade.
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• Modularidade e adaptação a diversas escalas.
• Aplicação em água do mar, salobra ou reuso.
• Integração com fontes renováveis.
5 Desvantagens
• Alto consumo energético (3–5 kWh/m³).
• Custo elevado de operação e manutenção.
• Produção de salmoira com potencial impacto ambiental [4].
• Sensibilidade à qualidade da água de entrada.
• Vida útil limitada das membranas (3–7 anos).
6 Dados Técnicos Tı́picos
Parâmetro Valor Tı́pico
Pressão de operação 55 a 70 bar
Recuperação de água doce 35% a 50%
Remoção de sais dissolvidos ¿99%
Vazão tı́pica de produção 1 a 100 000 m³/dia
Rejeição de STD ¿98%
Consumo energético especı́fico 3 a 5 kWh/m³
Eficiência global do sistema 45% a 60%
Intervalo entre limpezas (CIP) 1 a 3 meses
Vida útil das membranas 3 a 7 anos
Substituição anual de membranas 10% a 20%
Tabela 1: Parâmetros técnicos tı́picos de uma planta de osmose inversa.
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7 Conclusão
A osmose inversa é uma das tecnologias mais eficazes e amplamente utilizadas para
produção de água potável a partir da água do mar. Apesar dos seus desafios energéticos e
ambientais, apresenta alto grau de eficiência e qualidade do produto final. O contexto de
Cabo Verde, com escassez hı́drica e elevada exposição solar, favorece a combinação desta
tecnologia com energias renováveis para maior sustentabilidade.
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Referências
[1] UNESCO, Water and Climate Change, Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o
Desenvolvimento dos Recursos Hı́dricos, 2020.
[2] L. F. Greenlee, D. F. Lawler, B. D. Freeman, B. Marrot e P. Moulin, “Reverse osmosis
desalination: Water sources, technology, and today’s challenges,” Water Research, vol.
43, no. 9, pp. 2317–2348, 2009.
[3] M. A. Shannon, P. W. Bohn, M. Elimelech, J. G. Georgiadis, B. J. Marinas, e A. M.
Mayes, “Science and technology for water purification in the coming decades,” Nature,
vol. 452, pp. 301–310, 2008.
[4] S. Lattemann e T. Höpner, “Environmental impact and impact assessment of seawater
desalination,” Desalination, vol. 220, pp. 1–15, 2008.
[5] ELECTRA, “Relatório Anual de Produção e Distribuição de Água – Cidade da Praia”,
2023.
[6] ELECTRA, “Dados Operacionais das Unidades de Dessalinização – Ilha de Santiago”,
2023.
[7] Governo de Cabo Verde, “Programa de Mobilização de Água para a Agricultura
(PMAA)”, Ministério da Agricultura e Ambiente, 2023.
[8] Câmara Municipal de São Domingos, “Projeto de Dessalinização para Agricultura”,
2023.