Educação e Trabalho: Direitos Interligados
Educação e Trabalho: Direitos Interligados
COMPLEMENTARES?
RESUMO
O presente trabalho tem como principal objetivo demonstrar a relação direta de
considerável melhoria na qualidade de vida dos membros da sociedade brasileira com a
efetivação do direito à educação e sua conseqüente repercussão no direito ao trabalho,
fator este de imensa relevância dentro do contexto essencialmente capitalista no qual o
país está inserido. O desenvolvimento sócio-econômico mais igualitário pode ser
vislumbrado como basilar para uma vida em comunidade digna, situação que ganha
especial relevo nos países considerados subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento).
Para atingir esse escopo, inicialmente o foco de análise é o direito à educação, com as
previsões constitucionais pertinentes ao tema e alguns tópicos relevantes desse direito
fundamental. Em seguida, o direito ao trabalho passa a ser o alvo da exposição,
tratando-se da diferença ontológica em relação ao direito do trabalho, da importância do
trabalho na história da humanidade e o trabalho enquanto valor assegurado pela Carta
Magna de 1988. No momento subseqüente (item 4 deste artigo), o enfoque
propriamente dito do texto é apresentado, imiscuindo-se os direitos sociais em tela
(direito à educação e direito ao trabalho) de maneira a demonstrar a relevância da
educação na concretização do direito ao trabalho, finalizando com algumas
considerações acerca do tema abordado.
ABSTRACT
*
Bacharel em Direito pela Universidade Salvador (UNIFACS). Bacharel e Licenciada em Letras
Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestranda em Direito Privado e Econômico
pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Advogada. Tutora da Unifacs.
5290
This paper has as primary aim the demonstration of the direct relationship between the
notorious improvement of the quality of life of the Brazilian society, connected to the
effectiveness of the right to education and its consequent impact on the right to work,
which is a factor of great importance in the present capitalist context in which this
country is inside. It is possible to have a more equal socio-economical development as
the basis to a more dignified life in community (situation that has a special importance
in the countries considered underdeveloped or not fully developed). Thus, initially the
focus is on the right to education, with its respective constitutional forecasts relevant
and relevant topics about this essential right. Afterwards, the right to work becomes the
target of it concerning the difference related to the right to work, the importance of the
work in the history of mankind and work as a value of the work provided by the Federal
Constitution of 1988. Finally, the main idea is presented (on the fourth item of this
paper), demonstrating the social rights associated with the relevance of education
towards to the right to work and being concluded with some considerations about the
topic approached.
INTRODUÇÃO
5291
educação básica, passando não apenas pelos níveis, como também pelas modalidades de
ensino), o assunto é pouco discutido, em que pese ser considerado de grande relevância
dentro do contexto das comunidades humanas, especialmente nos países
subdesenvolvidos – nos quais a efetivação de direitos sociais costuma ser bastante
precária.
Inicialmente, será apresentado o direito à educação, com algumas peculiaridades
e informações importantes acerca da sua configuração atual. Em seguida, o enfoque é
modificado para o direito ao trabalho, com suas nuances na contemporaneidade. Logo
após, far-se-á uma discussão que entrelaça ambos, enquanto direitos fundamentais
pouco respeitados e que têm implicação direta nas relações de diversas naturezas que
são verificadas no convívio social, já que a vida em sociedade é extremamente
complexa e são inúmeros os fatores capazes de modificá-la. Por fim, algumas
considerações finais são oferecidas, com o escopo de sintetizar as discussões, buscando
refletir sobre o que se verifica hodiernamente e a possibilidade de mudança dessa
situação não adeqüada à necessidade de uma sociedade plenamente desenvolvida e que
preserve a dignidade humana.
Educação e trabalho: direitos fundamentais complementares? Para responder a
essa pergunta, tratar-se-á, primeiramente, do direito social à educação.
1 DIREITO À EDUCAÇÃO
5292
visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o
exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
O art. 206 da CF/88, por sua vez, apresenta em seus incisos os princípios
acolhidos pelo legislador constituinte acerca da educação, a exemplo da gratuidade do
ensino público, valorização dos respectivos profissionais e liberdade.
Silva Neto (2006, p. 634) considera os arts. 205 e 206 “exemplos de cláusulas
programáticas invariavelmente desrespeitadas”, asseverando que “o direito social à
educação acentua a distância havida entre o projeto constitucional e a realidade física,
na qual as políticas públicas na área educacional estão em franco descompasso às
determinações constitucionais”.
De fato, o quadro do sistema educacional no Brasil difere – e muito – dos
parâmetros estabelecidos pela Carta Magna de 1988.
O direito à educação em sua plenitude, promovendo uma análise crítica do
assunto, pode ser considerado um direito social historicamente destinado a poucos. As
conseqüências dessa afirmação são perceptíveis na atualidade por meio de muitos
problemas sociais, dentre os quais é possível citar a miséria, a violência e o próprio
desemprego.
“A educação como processo de reconstrução da experiência é um atributo da
pessoa humana e, por isso, tem que ser comum a todos. É essa concepção que a
Constituição agasalha [...] quando declara que ela é um direito de todos e dever do
Estado” (SILVA, 2004, p. 817, grifo do autor).
Bezerra (2007, p. 166), por sua vez, oferece sua contribuição a respeito do
processo educacional:
5293
vez mais importantes para envolvê-lo, de maneira a preservar seu valor e buscar uma
proteção intangível no que concerne ao seu núcleo essencial.
Para Bezerra (2007, p. 185), “a educação [...] é um direito humano, no sentido de
que é inerente a todo ser humano como tal, e fundamental, da espécie, a um tempo
social e cultural”.
É extremamente significativa a contribuição que Covre (1983, p. 195) apresenta
para a compreensão do assunto em foco, afirmando que, sob uma perspectiva da lógica
do pensamento dominante, a educação conta com duas facetas: direito social do cidadão
e propiciadora de um fator do capital (melhoria da qualificação da mão-de-obra).
Para Covre (1983, p. 195), “do primeiro prisma [...], diz respeito ao universo do
consumo de um ‘bem’, o cultural, e [...], aumentando as oportunidades de emprego,
possibilita maior participação no consumo dos bens gerados pela sociedade
tecnológica”. Informa, ainda, que a educação pode ser pensada como política social,
diretamente relacionada à questão do pleno emprego, sendo útil, assim, ao processo de
legitimação da idéia em destaque. Já no que diz respeito à segunda acepção, “está
intimamente vinculada ao desenvolvimento que se fez com base na tecnologia, na
criação e implementação dessa tecnologia e sua relação com maior produtividade”
(COVRE, 1983, p. 195).
Note-se que a autora apresenta uma posição visivelmente crítica desse direito
social, cada vez mais compatível com a realidade na qual se vive atualmente. Além
disso, sua abordagem encaminha a educação para a perspectiva da discussão acerca do
mundo do trabalho.
O direito à educação consiste em um dos direitos considerados de suma
importância na sociedade moderna. Quando se pensa em prestação estatal, ele logo
surge como um dos parâmetros para que se considere um governo como satisfatório ou
não no atendimento às necessidades fundamentais do cidadão. Falar em educação trata-
se, destarte, do desenvolvimento pleno da pessoa humana.
Reconhecida a relevância da educação para a formação do indivíduo e a
conseqüente necessidade de proteção desse direito fundamental, passar-se-á à
explanação sobre o direito ao trabalho.
5294
2 DIREITO AO TRABALHO
5295
aqueles que detêm os meios de produção e os que vendem sua força de trabalho, único
bem do qual dispõem.
O direito ao trabalho é um direito fundamental agasalhado na CF/88 (art. 6º) e
difere do direito do trabalho, ramo do Direito destinado a soluções de conflitos oriundos
das relações de trabalho – nas palavras de Almeida (2005, p. 1), “a relação capital
versus trabalho é o objeto central da jurisdição trabalhista”.
Delgado (2007, p. 87) oferece sua explicação para a formação do Direito do
Trabalho:
Trazendo mais uma reflexão sobre o assunto, como lembra Palomeque (2001, p.
15-16), a razão de ser do Direito do Trabalho precisa ser vista de uma outra ótica. São
conquistas históricas alcançadas a duras penas pelos trabalhadores, contudo precisam
ser percebidas também como molduras exatas de migalhas que são oferecidas ao
trabalhador como forma de conter o caos social e permitir, assim, a continuidade do
sistema capitalista.
Almeida (2005, p. 9) afirma ainda que “constitui-se numa relevante ameaça à
democracia o momento em que a cidadania do trabalhador e a mensuração de seu labor
5296
é (sic) desrespeitado diuturnamente. Só se pode falar em Estado Democrático quando se
asseguram efetivamente normas protetivas ao trabalhador”. E é justamente esse o papel
que cumpre o Direito do Trabalho: o de guardião do mínimo de dignidade para o
trabalhador.
Sob a égide do princípio da dignidade da pessoa humana, tão festejado e
considerado como parâmetro máximo de restrição de direitos fundamentais (FREITAS,
2007, p. 175), “de fato, faltando as condições materiais mínimas, [...] a dignidade da
pessoa humana não estará sendo respeitada” (MEIRELES, 2005, p. 223).
O trabalho consiste em uma figura tão intricada que levou à criação de um ramo
jurídico para promover um tratamento mais individualizado, devido à necessidade de
uma regulação eficaz por conta da importância que exerce em toda a engrenagem social.
A tensão capital x trabalho, bastante explorada pela doutrina juslaboralista, funciona
como um fator decisivo para a proteção do trabalho humano. O Estado percebeu
empiricamente que a não existência de normas disciplinadoras das atividades laborais
leva ao caos social, em função da sede por mais capital gerada pelo próprio capital.
Alguns princípios desse ramo jurídico – a exemplo da imperatividade das
normas trabalhistas, da condição mais benéfica e da indisponibilidade dos direitos
trabalhistas – evidenciam o valor trabalho no contexto de uma sociedade, ajudando a
dar o contorno de uma busca pelo equilíbrio da relação acima elencada, naturalmente
tendente para o lado do capital (DELGADO, 2007). De acordo com Almeida (2005, p.
3), “garantir a mínima dignidade aos trabalhadores é o que informam todos os princípios
peculiares da seara trabalhista”.
Darcanchy (2001, grifo do autor) manifesta-se acerca da formação do direito
fundamental ao trabalho:
O trabalho como algo exigível para completar a vida humana digna – uma das
facetas apresentadas pela autora supracitada – configura exatamente a noção de direito
ao trabalho, uma vez que tem embutido em si toda a carga semântica de
5297
fundamentalidade não só dessa atividade, como também (e principalmente) da
possibilidade de gozo desse direito, por inúmeras vezes não observado no que tange a
uma quantidade bastante expressiva de indivíduos.
De grande valor para o que vem sendo discutido até o momento é o
posicionamento de Assis (2001, p. 4):
5298
que não detêm os meios de produção e, por essa razão, precisam de um labor para viver
dignamente.
Ter direito ao trabalho é, em última análise, ter direito à sobrevivência digna.
Sua importância é tamanha que, ao longo da história da humanidade (com a ampliação
da idéia de cidadania a todos os indivíduos), ganhou maior visibilidade e importância
que o direito à propriedade. O direito à propriedade era considerado absoluto, contudo
esse entendimento foi modificado com a evolução da idéia de dignidade da pessoa
humana como parâmetro fundamental para a vida em sociedade e, atualmente, trata-se
de um direito bastante relativizado (em comparação à sua disciplina jurídica inicial), até
mesmo em função do direito ao trabalho – ao qual, hodiernamente, é atribuído um valor
social maior que ao primeiro.
De acordo com a CF/88, o trabalho consiste em um dos fundamentos da
República Federativa do Brasil (art. 1º). Almeida (2005, p. 4-5) explica esse fato:
Além dessa menção tão significativa do trabalho desde o primeiro artigo da Lei
maior brasileira, ele aparece também no Título Da ordem econômica e financeira, in
verbis: “art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na
livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da
justiça social, observados os seguintes princípios: [...] VIII – busca do pleno emprego
[...]” (BRASIL, 1988, grifo nosso).
É interessante observar que a valorização do trabalho é apontada como um dos
pilares da ordem econômica brasileira. De fato, o trabalho estabelece relação direta com
a economia, contudo não é apenas essa ligação que é pontuada pelo legislador
constituinte: a valorização é um forte indício de que se quis ir além, demonstrando a
5299
necessidade de enfocar o ser humano em si, indício que se confirma na leitura do artigo
acima citado, quando menciona expressamente o imperativo de assegurar uma
existência digna.
Um dos princípios elencados no art. 170 da CF/88 é a busca do pleno emprego,
fato que corrobora a tese aqui advogada de que o trabalho digno é o foco pretendido
pela Constituição para os cidadãos que se encontram sob a sua égide.
Para finalizar esse tópico, faz-se oportuna uma reflexão produzida por Almeida
(2007, p. 2) acerca do trabalho:
5300
E, por fim, são irrenunciáveis, o que importa concluir que não é válida
a manifestação de vontade do indivíduo tendente a consumar
denúncia.
5301
pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em que criam
condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real, o
que, por sua vez, proporciona condição mais compatível com
exercício efetivo da liberdade.
5302
É interessante notar a ressalva da autora de que essa aplicação deverá ser na
medida de suas possibilidades (limite fático), contudo essa não deve ser uma nova
brecha para que continue a prática de descumprimento dos direitos sociais. Ultrapassada
a discussão sobre a aplicabilidade imediata ou não desses direitos, não se deve oferecer
vulto extremado a um novo argumento que surge no intuito de restringir o gozo de
direitos de tamanha estima.
As relações de trabalho, notadamente, estão sujeitas a freqüentes afetações.
Quando se pensa em direito ao trabalho, a raiz dos questionamentos cresce em abstração
em virtude do caráter de direito subjetivo, contudo sua relação direta com outros
institutos e as conseqüências no mundo fático podem ser consideradas de grande
extensão e importância, diante da inegável dinâmica social. Quase que de maneira
imediata, surgem ilações a respeito do papel que ocupam os trabalhadores na atividade
produtiva e, por conseguinte, da inegável influência direta do cerceamento na fruição do
direito à educação para a economia como um todo.
É nítida a proximidade do tema em debate com a economia, uma vez que o
trabalhador consiste em uma figura que simboliza o desenvolvimento da maior parte das
atividades produtivas.
Covre (1983, p. 195-196) apresenta o processo que considera como o de
desenvolvimento das sociedades:
5303
concentrada na mão de poucos, o que, conseqüente, não levou ao desenvolvimento
social – muito pelo contrário, aumentou o abismo que já se verificava historicamente.
No mesmo sentido, Almeida (2005, p. 3):
É bem verdade que uma situação economicamente positiva pode trazer grandes
benefícios, especialmente em uma economia globalizada como a atual, contudo não
basta a riqueza, é necessário reparti-la de maneira a melhorar a qualidade de vida da
população.
Embora a teoria econômica apresentada por Covre tenha sido superada com o
passar dos anos, nesse ponto é claro o diálogo da autora com a teoria da causação
circular cumulativa de Gunnar Myrdal – sendo a segunda ainda aceita e respeitada no
mundo acadêmico.
De acordo com Myrdal (1968), a causação circular cumulativa pode ser positiva
(países desenvolvidos) ou negativa (típica dos países subdesenvolvidos). O movimento
de crescimento e desenvolvimento econômico, portanto, ocorre em sentido ascendente
nos países ricos e descendente nos países pobres. Em outras palavras, a riqueza gera
riqueza e, por sua vez, a pobreza tende a gerar cada vez mais pobreza.
É oportuno pontuar que a causação circular cumulativa negativa não muda
sozinha, haja vista ser ela a fonte que alimenta os países desenvolvidos. Dialogando
com o autor, Cardoso e Faletto (1969) explicam que, por si própria, essa situação não se
modifica, uma vez que é interessante para os países desenvolvidos que tudo continue
dessa forma para que eles possam seguir crescendo cada vez mais, em larga escala, às
custas da riqueza que retiram dos países subdesenvolvidos. Eles sugerem que estes
países unam forças para desenvolverem uma possibilidade de crescimento alternativo,
sem a necessidade de uma revolução socialista (grande preocupação à época), de
maneira a conseguir se livrar da dependência econômica em relação aos países
desenvolvidos à qual costumam estar atrelados.
5304
No entendimento de Myrdal (1968), reside justamente aí a necessidade da
intervenção estatal para modificar essa situação negativa. Na visão do economista, o
Estado deve atuar para promover uma mudança nesse quadro econômico. O Estado, por
sua vez, pode atuar de diversas formas, figurando entre elas o investimento maciço em
educação. Embora seja um investimento considerado de médio/longo prazo pelos
pesquisadores, tem retorno praticamente garantido, como demonstra, de maneira
irrefutável, a trajetória de alguns países (a exemplo do Japão e da Alemanha).
Pensando, nesse momento, sob a ótica de direitos constitucionalmente
garantidos e a sua efetivação, o princípio do não retrocesso social, ao invés de servir de
simulacro jurídico para um programa de governo no panorama constitucional brasileiro,
poderá representar exatamente o contrário: um mecanismo de amparo dos indivíduos
em face do exercício do poder político e das cambiantes plataformas de governo
(DERBLI, 2007, p. 291-292). Em suma, é possível fazer uso do princípio do não
retrocesso social como uma espécie de defesa diante de tentativas de subtrair o que já
foi conquistado, lembrando que o mesmo autor afirma em sua obra estar esse princípio
constituído não só pela impossibilidade de retorno, como também pela necessidade de
avanço, visto que a estagnação poderia ser, dentro de uma dinâmica social tão grande
como a que se verifica, o mesmo que um retrocesso (DERBLI, 2007).
Bezerra (2007, p. 81, grifo do autor) reforça esse entendimento:
5305
Faz-se interessante ressaltar que um dos objetivos estabelecidos pelo legislador
constituinte para a educação é a qualificação para o trabalho (arts. 205 e 214 da CF/88),
fato que demonstra, até do ponto do vista legislativo, a importância do processo
educacional para a concretização do direito ao trabalho.
É justamente por um prisma diferenciado que se busca analisar o enlace entre os
direitos sociais em foco, com suas contribuições nas relações laborais e,
conseqüentemente, na economia como um todo.
Há pesquisas demonstrando a sobra de empregos no mercado quando se trata de
cargos de alta qualificação, ao passo que se verifica um “inchaço” quanto às vagas para
as quais o nível de escolaridade do candidato é mínimo. Esse fato social representa um
indicativo de que há algo errado na condução do processo educacional ao qual está
submetida a grande maioria da população brasileira. Vale destacar que a educação deve
ser pensada como um direito do indivíduo e a educação básica é o complemento inicial
da formação da pessoa, dentro desse parâmetro de sociedade desenvolvida que foi
estabelecido ao longo dos anos.
A distribuição de renda também deve ser observada como um fator relevante na
reflexão acerca do direito à educação e sua afetação no direito ao trabalho, por conta da
possibilidade de melhor circulação da riqueza, descentralizando-a das mãos de uma
minoria e melhorando a qualidade de vida de muitos. Com o povo recebendo salários
melhores, mais dinheiro estará em circulação e, como conseqüência, o desenvolvimento
será mais facilmente verificado. Esse seria um caminho que possivelmente aumentaria o
grau de desenvolvimento econômico, social e cultural do país.
Vislumbra-se uma perspectiva de aproximação e influência direta do direito à
educação como um instrumento de melhoria da situação socioeconômica brasileira, uma
vez que, ao que tudo indica, um investimento eficaz na educação (em seus diversos
níveis) pode ser uma das soluções para o problema do abismo social que se verifica no
Brasil, especialmente no que tange à sua capacidade de incidência direta no fator
empregabilidade, tão caro nas sociedades hodiernas.
Diante de tudo quanto exposto, percebe-se a implicação direta da educação na
efetivação do direito ao trabalho, pois, uma vez oferecidas ao indivíduo ferramentas
básicas para se desenvolver (no caso em tela, um mínimo de escolarização e com
qualidade), é provável que se alcance um patamar mais justo de suprimento das
5306
carências sociais por meio da inserção desse indivíduo no mercado de trabalho, gerando
uma maior distribuição de renda e, conseqüentemente, um incremento na circulação da
riqueza – que, como num ciclo, caminha para um maior desenvolvimento.
Por fim, traz-se um trecho da obra de Bezerra (2007, p. 62) para a reflexão que
se amolda perfeitamente à situação atual do Brasil, no que tange aos direitos
fundamentais: “há a necessidade que ultrapassa o simples reconhecimento e inserção em
textos legais, de direitos fundamentais, necessitando-se de mais solidez e
fundamentação à dinâmica de reconhecer direitos e oferecer mecanismos de proteção
aos mesmos”.
Mais que previsão constitucional, urge a efetivação dos direitos fundamentais à
educação e ao trabalho, como forma de melhoria da realidade social brasileira.
Destarte, é possível afirmar que o direito à educação e o direito ao trabalho são
direitos fundamentais complementares.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
5307
cotidiano de circulação de riquezas, que não sejam consumidores em potencial dentro
desse sistema.
Além disso, quando o foco é o trabalho, este deve ser considerado, desde sua
acepção inicial, como palavra que carrega a carga semântica de dignidade. A educação,
dessa forma, tem relação direta com o desenvolvimento humano e permite ao indivíduo
ter acesso a postos de trabalho que não atentem contra a dignidade da pessoa humana,
seja em sua execução, seja quanto às garantias mínimas do trabalhador.
O objetivo precípuo consiste em sopesar a influência que a educação pode
exercer na mudança do quadro socioeconômico atual de pobreza e exclusão de boa parte
das pessoas que se encontram dentro da faixa da população com potencial para serem
consideradas economicamente ativas, fator que gera inúmeras conseqüências jurídicas
no convívio social.
Buscou-se, portanto, demonstrar a relação direta que se estabelece entre o
trabalho e a educação, de modo a desenvolver um raciocínio teórico que possa ser
materializado de maneira a estimular mudanças práticas no cenário brasileiro. O
crescimento econômico é apenas o primeiro passo para o desenvolvimento; para que
este ocorra de fato, é necessário não apenas aquele, mas também um investimento social
significativo, o qual compreende um olhar mais humano e efetivo em relação ao sistema
educacional em sua totalidade, possibilitando aos cidadãos galgar novos espaços no
mercado de trabalho, caminhando sempre para a concretização da dignidade da pessoa
humana – em foco, nessa oportunidade, a do trabalhador brasileiro.
Havendo a efetivação dos direitos sociais – em especial o direito à educação e o
direito ao trabalho –, ressalte-se, o lucro será de toda a sociedade, que, provavelmente,
ganhará contornos mais justos e igualitários (em tratamento dos indivíduos e em
possibilidades de futuro).
Trata-se, como dito oportunamente, de um investimento, cujos frutos a serem
colhidos promoverão uma melhoria na qualidade de vida de todos.
REFERÊNCIAS
5308
ALMEIDA, Dayse Coelho de. A essência da Justiça Trabalhista e o inciso I do artigo
114 da Constituição Federal de 1988: uma abordagem principiológica. Disponível em:
<[Link]/cgi-bin/upload/[Link]>. Acesso em 20 dez. 2007.
ASSIS, José Carlos de. Igualdade de Direito ao Trabalho. 2001. Disponível em:
<[Link]/word/[Link]>. Acesso em: 20 dez. 2007.
DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 6. ed. São Paulo: LTr,
2007.
FREITAS, Luiz Fernando Calil de. Direitos fundamentais: limites e restrições. Porto
Alegre: Livraria do Advogado, 2007.
5309
MEIRELES, Ana Cristina. As normas programáticas de direitos sociais e o direito
subjetivo. Dissertação de Mestrado/UFBa, 2005.
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 23. ed. São Paulo:
Malheiros, 2004.
ZERGA, Luz Pacheco. La dignidad humana en el derecho del trabajo. Cizur Menor
(Navarra): Thomson/Civitas, 2007.
5310