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Psicologia Social e Gênero: Uma Análise

O documento é uma obra da Editora Vozes sobre psicologia social contemporânea, abordando temas como gênero, hierarquia de gênero e a influência do feminismo na construção social das identidades. Ele discute a distinção entre sexo e gênero, enfatizando que as diferenças de gênero são construções sociais e culturais, e não meramente biológicas. Além disso, o texto analisa como a hierarquia de gênero se manifesta na sociedade e as implicações disso para a desigualdade social.

Enviado por

Rute Marilei
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Psicologia Social e Gênero: Uma Análise

O documento é uma obra da Editora Vozes sobre psicologia social contemporânea, abordando temas como gênero, hierarquia de gênero e a influência do feminismo na construção social das identidades. Ele discute a distinção entre sexo e gênero, enfatizando que as diferenças de gênero são construções sociais e culturais, e não meramente biológicas. Além disso, o texto analisa como a hierarquia de gênero se manifesta na sociedade e as implicações disso para a desigualdade social.

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1998, Editora Vozon Ltda.

Rua Frei Luin, 100


26689-900 Petrópolis, RJ
Internet: [Link]

Todos ou direitos rosorvados. Nenhuma parto dosta obra poderá nor reproduzida ou transmitida por
qualquer forma e/ou quaisquer melos (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia o gravação) ou
arquivada em qualquer sistema ou banco de dados som permissão oscrita da Editora,

Diretor editorial
Froi Antônio Mosor

Editoros
Ana Paula Santos Matos José Maria da Silva
Lidio Peretti
Marilac Loraine Oleniki

Secretário executivo João Batista Krouch

Editoração e org. literária: Jaime Clasen Projeto gráfico: AG SR Desev. Gráfico Capa: Josiane Furiati

ISBN 978-85-326-1974-7

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Psicologia social contemporánea: livro-texto / Marlene Neves


Strey 1/2 et al. 1/2 12. ed. - Petrópolis, RJ Vozes, 2009.

1. Psicologia Social I. Strey, Marlene Neves.

Prefácio, 7

Apresentação, 9

Introdução, 13
PARTE 1 PRESSUPOSTOS, 17

História, 19

Epistemologia, 36
Ética, 49
Indivíduo, cultura e sociedade, 58

Pesquisa, 73
PARTE 2 - TEMÁTICAS, 87

Ideologia, 89
Representações sociais, 104
Linguagem, 118
Conhecimento, 133
98-0583

Indices para catálogo sistemático:


CDD-302

Comunicação, 146
1. Psicologia social 302

Editado conforme o novo acordo ortográfico.

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.


Identidade, 158

Subjetividade, 167
Gênero, 180
O processo grupal, 198
Psicologia política, 206
SUMÁRIO
Marlene Neves Strey
GÊNERO

Dentro da psicologia social científica, os temas de gênero tinham pouca


expressão e, no máximo, apareciam como sexo, indicando as diferenças
encontradas entre homens e mulheres em experimentos de laboratório ou
de campo.
Para reverter esse quadro foi necessário tanto o estabelecimento da
conhecida crise da psicologia social, quanto as pressões dos cres- centes
movimentos feministas, que iniciaram antes do século XX, mas que tiveram seu
apogeu há poucas décadas. Hoje gênero, embora seja um conceito que
perpasse todas as áreas de estudo da psicologia e de outras áreas do
conhecimento, tem íntima afinidade com a psico- logia social, principalmente a
psicologia social que lança seu olhar para a história, para a sociedade e para a
cultura, não conseguindo en- tender o ser humano separado dessas instâncias.
Antes de seguir na análise do que seja gênero, é importante abrir um parênteses
para fazer algumas colocações sobre o movimento fe- minista, que está constantemente
associado aos estudos de gênero. Esse movimento teve suas origens em vários
acontecimentos: na re- volução norte-americana, quando John Stuart Mill
reivindica para as mulheres as promessas da Declaração de Independência; na
Revolu- ção Francesa, com a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã redigida
por Olímpia de Gouges em 1791 (inspirada na Declaração dos Direitos do Homem) e
"A Reivindicação dos Direitos da Mulher" de Mary Wollstonecraft de 1792, um dos seus
documentos fundacionais, que, sem outorgar direitos às mulheres, proporcionaram as
bases con- ceituais e teóricas que permitiram a luta pela igualdade de direitos po-
líticos e educativos. Abriu-se um espaço público às mulheres no qual
puderam manifestar-se, ainda que o discurso e as práticas feministas se
mantivessem calados durante um longo tempo.
O feminismo levou à aparição de mudanças conceituais importan- tes no século XIX (trabalho
assalariado, autonomia do indivíduo civil, direito à instrução) e à presença das mulheres
na cena política. Duran- te o século XIX produziram-se constantes reformulações e
conquistas femininas que se foram plasmando nas condutas individuais e nas co- letivas, na
legislação, na arte e no pensamento.
O pensamento e a luta pela igualdade e da realização da igualdade para as
mulheres se constitui no pilar básico do feminismo. Igualdade não só no sentido jurídico, a
qual foi o objetivo primordial durante as primeiras etapas de reivindicação feminista, mas
que, graças ao de- senvolvimento e evolução tanto no plano conceitual como no plano
das mudanças sociais e nos comportamentos, foi se transformando, a ponto de não se poder
afirmar hoje que o discurso feminista contem- porâneo seja o mesmo que nos
começos do século XIX (PRÁ, 1997).

Sexo e gênero

Embora muitos autores e autoras possam utilizar os termos sexo e gênero como sinônimos,
trata-se de dois conceitos que se referem a aspectos distintos da vida humana.
Sexo não é gênero. Ser uma fêmea não significa ser uma mulher. Ser um macho não
significa ser um homem. Sexo diz respeito às carac- terísticas fisiológicas relativas à
procriação, à reprodução biológica. A divisão sexual na reprodução já está bem
entendida. Os machos pro- duzem esperma, as fêmeas produzem óvulos; e depois
gestam os fi- lhotes que foram concebidos. O sexo biológico, ou seja, as caracterís- ticas
anátomo-fisiológicas das pessoas vêm determinada, em geral, pela dotação
cromossômica, pelas estruturas gonadais e pela dotação hormonal (fetal, pós-natal
e puberal) responsáveis da estruturação ge- nital interna e externa dos caracteres sexuais secundários
(desenvol- vidos na puberdade).
As diferenças sexuais são encontradas em todos os mamíferos. Entretanto, os humanos
desde sua origem têm interpretado e dado uma nova dimensão a seu ambiente fisico e social através da
simboli-zação (LANE, 1995). Humanos são animais autorreflexivos e criadores de cultura. O sexo
biológico com o qual se nasce não determina, em si mesmo, o desenvolvimento posterior em
relação a comportamentos, interesses, estilos de vida, tendências das mais diversas índoles, res-
ponsabilidades ou papéis a desempenhar, nem tampouco determina o sentimento ou a
consciência de si mesmo(a), nem das características da personalidade, do ponto de vista
afetivo, intelectual ou emocional. ou seja, psicológico. Isso tudo seria determinado pelo
processo de so- cialização e outros aspectos da vida em sociedade e decorrentes da
cultura, que abrange homens e mulheres desde o nascimento e ao lon- go de toda a vida,
em estreita conexão com as diferentes circunstân- cias socioculturais e históricas. Os
seres humanos têm diferenças se- xuais, mas, de maneira semelhante a todos os outros
aspectos de dife- renciação física, elas são experienciadas simbolicamente. Nas socie- dades
humanas, elas são vividas como gênero.
Enquanto as diferenças sexuais são físicas, as diferenças de gêne- Io são
socialmente construídas. Conceitos de gênero são interpreta- ções culturais das
diferenças de gênero (OAKLEY, 1972). Gênero está relacionado às diferenças sexuais, mas
não necessariamente às dife- renças fisiológicas como as vemos em nossa sociedade. O gênero de-
pende de como a sociedade vê a relação que transforma um macho em um homem e uma
fêmea em uma mulher. Cada cultura tem imagens prevalecentes do que homens e mulheres
devem ser. O que significa ser homem? O que significa ser mulher? Como as mulheres e os ho- mens
supostamente se relacionam uns com os outros? A construção cultural do gênero é evidente quando
se verifica que ser homem ou ser mulher nem sempre supõe o mesmo em diferentes sociedades ou
em diferentes épocas.
Principalmente nos Estados Unidos, onde o movimento feminista teve grande importância e exerceu
influência internacional, o conceito de género foi introduzido em seu discurso teórico na década de 1970
primeiramente através de estudos da antropologia. Mas também na Europa, em 1972, a
inglesa Ann Oakley havia apontado a necessidade de distinguir entre macho e fêmea
e gênero, na classificação social de masculino e feminino. Diversas autoras
começaram a aprofundar o tema, salientando que, além de contar com um modo de
produção, toda a sociedade possui um sistema de gênero: conjunto de arranjos através
dos quais a sociedade transforma a biologia sexual em produ- tos da atividade humana e nos
quais essas necessidades transforma- das são satisfeitas. Este sistema incluiria vários
componentes, entre outros a divisão sexual do trabalho e definições sociais para os gêne-
Ios e os mundos sociais que estes conformam.
O movimento feminista pretendia que o uso do conceito ou cate-
goria gênero transformasse profundamente os
paradigmas da história e de outras disciplinas do
conhecimento humano. Em função desses estudos,
gênero passou a ser muitas vezes equiparado à mulher,
pois se debruçavam principalmente sobre a mulher e suas
contingências. Embora seja utilizado o termo gênero quando
se fala de mulheres, sempre fica claro que não se pode
obter informações sobre elas sem, ao mesmo tempo, obter
informações sobre os homens. Assim, para conhecer-se como
são as mulheres, socialmente construídas, faz-se necessário
saber sobre os homens, socialmente construídos. É im-
prescindível conhecer a história do desenvolvimento de
ambos os gê- neros, assim como é importante estudar todas as classes
para compre- ender o significado e alcance da história de como funcionou e
funciona a ordem social ou para promover sua transformação.
A visão do gênero como construção cultural e histórica implica tra- tar com
categorias simbólicas, cujas características principais são dar prioridade à
interpretação construída em uma dialética entre o dado concreto e o
esquema explicativo; na centralidade dos símbolos e dos diversos fatores que podem influir em
sua leitura, como por exemplo o lugar e o momento, se é uma leitura individual
ou se é coletiva. Através da capacidade humana de criar e manipular símbolos, os sistemas
sim- bólicos vêm a ser condição e consequência da interação social. No en- tanto, é
necessário lembrar que esta capacidade simbólica, tanto de produzir como de interpretar, de ler a
realidade e de significar, tem sido, e ainda de certa forma é, unilateral e excludente, posto que se
faz priori- tariamente desde o ângulo masculino. É sobre essa visão distorcida
que os estudos de gênero buscam lançar luz (SCOTT 1995).
Os estudos de gênero são importantes na psicologia, na antropo- logia, na sociologia, na
história. O conceito de gênero abre uma bre- cha no conhecimento sobre a mulher e o homem,
na qual torna possi- vel uma compreensão renovadora e transformadora de suas diferenças
e desigualdades. Para além das diferenças individuais, é importante salientar as
interações sociais que influem nos resultados educativos e Ocupacionais, entre outros tantos.
Assim, o conceito de gênero deve estar presente quando estuda- mos
desenvolvimento, trabalho, escola, família, personalidade, identi- dade,
grupos, sociedade, cultura. Isto é particularmente central na psicologia social
de cunho histórico-critico, pois a análise e o estudo das situações e condições
sociais geradoras de desigualdade, o de-

182
183
senvolvimento conceitual e de modelos teóricos explicativos, a pro- posta de estratégias de
intervenção e de programas de ação eficazes, têm como objetivos fundamentais a
erradicação de situações e condi- ções geradoras de desigualdade. Vemos então
convergirem nesse sentido os estudos de gênero e a psicologia social
histórico-crítica.

A questão da hierarquia de gênero

A hierarquia de gênero descreve uma situação na qual o poder e o controle social sobre o
trabalho, os recursos e os produtos, são associ- ados à masculinidade (GAILEY, 1987). O patriarcado é
uma forma de hierarquia, em que os homens detêm o poder e as mulheres são subor- dinadas. Numa
sociedade patriarcal, a autoridade social efetiva sobre as mulheres é exercida através dos papéis de pai
e de marido. Sob as condições patriarcais, as mulheres às vezes exercem autoridade atra- vés do
papel de mãe em oposição aos outros papéis familiares, tais como esposa, filha, irmã, ou tia.
Até recentemente, o patriarcado era a forma prevalecente na hie- rarquia de gênero na civilização
ocidental (LERNER, 1990). Hoje, toda- via, a forma é diferente. O poder social agora é identificado
com atri- butos considerados como masculinos. Pessoas do sexo masculino ou feminino podem
desempenhar papéis, através dos quais o poder pode ser exercitado, mas eles permanecem
como papéis masculinos. Em virtude de serem simbolicamente masculinos, a discriminação contra as
mulheres gerada por esses papéis recebe reforço ideológico. Além disso, vemos em algumas
teorias psicológicas, por exemplo, que o pa- pel paterno é considerado como benéfico na ruptura da
simbiose ma-temo-filial, que conduziria uma criança a ter problemas psicológicos.
Nessas teorias, dá-se por suposto que cada pessoa cumpre seu papel (invariável,
a-histórico) e que o papel masculino (paterno) é necessa- riamente benéfico e que o papel
feminino (materno) é pelo menos peri- goso Não por acaso a mãe sempre é a culpada...
Todas as sociedades explicam as hierarquias sociais através de origens divinas, de costumes ou
naturais para as hierarquias sociais. A tendência prevalecente nas civilizações ocidentais
contemporâneas é propor razões naturais para a ordem social existente. Em nossa socie- dade
ocidental, esta tendência pode ser vista nas crenças dissemina- das de que os recursos têm sido
escassos desde a aurora da existência humana; que a inteligência é herdada e pode ser
medida acuradamen-

184

te; e que, embora a discriminação racial e sexual


possa ser objetada, ela está baseada em inferioridade e
superioridade naturais. Essas no- ções têm um paralelo nas
religiões que apresentam razões de ordem divina para a
existência de desigualdades de raça e sexo (WOLF & GRAY, citado por
GAILEY, 1987).
Muitas pessoas assumem que os homens são naturalmente mais agressivos. As
mulheres são encorajadas, às vezes, a desenvolver a assertividade, mas
os homens são incentivados a canalizar o que é vis- to como um recurso
natural, possivelmente ligado ao cromossomo Y Algumas teorias alternativas
argumentam que homens e mulheres são basicamente semelhantes, ao menos com
respeito a seus potenci- ais intelectuais e emocionais. Nesta visão, as diferenças entre mulhe-
res e homens refletem fatores culturais, ou seja, espera-se que homens sejam de uma
maneira e mulheres sejam de outra (OAKLEY, 1972). No entanto, essas teorias não dizem
como as culturas chegaram a exigir essas diferenças de ambos os sexos. E também algumas
teorias não explicam por que essas diferenças exigidas também comportam desi- gualdade e
subordinação das mulheres aos homens.
Se a subordinação política e econômica é um fenômeno cultural, nossa tarefa é buscar uma
explicação histórica ou cultural para a situ- ação das mulheres e dos homens em todas as sociedades.
Destacando o mundo ocidental e com as devidas precauções, a posição de gênero é um dos
eixos essenciais para a manutenção do poder na hierarquia social, que é essencialmente
masculina no seu topo e tem estratégias de fragmentação (por classes, por idades, por
grupos ou culturas mi- noritárias). Assim, essa hierarquia nos leva a viver rivalidades e
lutas entre pessoas jovens e idosas, pobres e ricas, negras e brancas, mu- lheres e homens.
Essas relações antagônicas estruturam a dependên-
cia e a submissão.

Variações em gênero através das culturas


Os estudos de gênero nos mostram uma tremenda variedade de
culturas no mundo. Em algumas sociedades, a divisão do trabalho por
gênero é uma das maneiras-chave sobre as quais a atividade econô- mica está
organizada. Em outras, a divisão do trabalho por gênero é encontrada
primariamente na esfera doméstica. As diferenças entre
sociedades onde o gênero é central à produção econômica e
aquelas
185
onde é secundário se refletem nas diferenças em todas as estruturas de autoridade.
Em algumas sociedades, que muitas vezes são chamadas de "pri- mitivas", a propriedade é
considerada comum a todos os participantes da referida sociedade, as quais em geral se
consideram parentes. Embora a autoridade social possa variar, podendo ser igualitária ou es-
tratificada, o que todas têm em comum é a ausência de separação en tre o público e o privado.
Existe outra maneira lógica de encarar as di- ferenças sexuais. Em termos físicos, as
características sexuais secun dárias não são muito pronunciadas antes da puberdade e, em algumas
populações nunca são tão acentuadas e culturalmente sublinhadas como em nossa sociedade
ocidental. Assim, em certas culturas po- dem chegar a existir até quatro gêneros,
dependendo de quando é de- terminado o início e o fim da vida reprodutiva: crianças (que
parecem semelhantes), adultos homens e mulheres (que parecem diferentes) e velhos(as) (que
voltam a parecer semelhantes). Há variantes culturais no gênero adulto, onde a preferência sexual
pode criar outros papéis de gênero ou as pessoas podem trocar o gênero, ou mesmo adotar os
papéis procriativos do outro gênero. Colocar o foco somente nas dife- renças sexuais é ignorar a
criatividade cultural. Nossa sociedade oci- dental rotula homens e mulheres desde o nascimento até à
morte, mas existem outras sociedades onde as diferenças de gênero não se esten- dem para além
dos papéis adultos de procriação.
Os estudos transculturais nos mostram então dois aspectos uni- versais sobre o gênero: gênero não é
idêntico a sexo e gênero fornece a base para a divisão sexual do trabalho em todas as sociedades.
Não existe um conteúdo universal para os papéis de gênero. A maneira como homens e mulheres são
conceitualizados varia enormemente. Em algumas sociedades, homens e mulheres têm a opção de
poder adotar o trabalho e os papéis das pessoas do sexo oposto. A divisão do trabalho por
gênero pode incluir cada um ou cada uma em seu papel escolhido, mas isto não se deve a seu
sexo. Em alguns casos, mulhe- res e homens têm uma visão antagônica entre si. Em outros casos,
existe uma visão compartilhada de que as mulheres têm menos poder, menos autonomia pessoal,
mas tanto o trabalho como os direitos de propriedade, por exemplo, não são considerados
necessariamente pri- vilégio dos homens. Como podemos então definir se as mulheres são
subordinadas?

O que é subordinação e como se expressa?

Subordinação pode ser definida como uma relativa falta de


poder Em termos de autoridade social, um grupo subordinado
tem pouco ou nenhum controle sobre a tomada de decisões
que afetam o futuro da- quele grupo. Os trabalhadores,
por exemplo, não têm nenhuma capa- cidade de vetar a
decisão de sua empresa se ela decide fechar a fábrica num
determinado lugar e abrir em outro. Podemos falar em subordina
ção de gênero quando as mulheres não estão no controle das institui
ções que determinam as políticas que afetam as mulheres, tais como os
direitos reprodutivos ou a paridade nas práticas de emprego. Discri minação nos
salários e nas promoções são exemplos da subordinação das mulheres na
nossa sociedade. Em outras sociedades, a subordina- ção pode envolver a
necessidade de as mulheres casarem para poder sobreviver. A isso se alia o
fato do papel de esposa trazer menos auto- ridade do que o de marido. Em suma,
subordinação envolve depen dência sistemática, sendo o grupo subordinado ativo ou não
em tare- fas produtivas.
A subordinação é mais difícil de determinar se focarmos somen- te as atitudes. As atitudes
pido, pois são sensíveis às mudanças no clima
expressas podem mudar relativamente rá
político. As pessoas podem pensar que são iguais, acreditando que são tão boas
como qualquer outro grupo. Mas elas podem de fato ser subordinadas in- dependentemente do
que acreditem. As pessoas têm a capacidade simbólica de criar crenças que justifiquem as
condições existentes e assim dão sustentação e continuidade ao sistema. Simbolicamente, a
subordinação é frequentemente expressa como uma relação de complementaridade: Os
trabalhadores precisam dos patrões, assim como os patrões precisam dos empregados e
afirmações do estilo. O aspecto de poder na relação é negado. Por esta razão, é mais
confiá- vel centrar o estudo da subordinação principalmente nas relações
políticas e econômicas do que nas atitudes, embora em Psicologia isso não seja
comum, tendo em vista muitas linhas teóricas centra- rem-se apenas no indivíduo.
O problema é sabermos se a subordinação das mulheres sempre aconteceu
teorias que
ou se foi desenvolvida ao longo da história humana. Temos
argumentam que essa relação é natural; outras dizem que é cultural e
outras, ainda, dizem que, embora seja cultural, é universal, ou seja,
sempre esteve e estará presente nas relações entre mulheres e homens.
Teorias sobre a hierarquia de gênero

Algumas teorias dizem que as mulheres sempre estiveram subor- dinadas aos homens
desde a origem da humanidade. Isso teria se dado em função de sua inerente
passividade, sua fraqueza física ou sua incapacidade de funcionar como uma igual
devido às demandas da procriação. Entre essas teorias, encontramos as abaixo relaciona-
das e que, embora proponham a existência de um patriarcado primor- dial como fator
de semelhança em todas, não apresentam muito mais
em comum.
O homem caçador: subordinação baseada nas origens humanas

Essa teoria fala sobre a adaptação humana como a base para a di- visão sexual do
trabalho e a subordinação feminina. Embora muito cri- ticada, essa teoria continua
ainda a ter muita vigência, por isso vamos falar um pouco mais sobre ela, enquanto que
apenas mencionaremos as demais que são mais atuais e que demandariam uma discussão
mais profunda.

De acordo com essa visão, há cerca de dois milhões de anos atrás, nossos ancestrais tinham sua
sobrevivência garantida pela caça. Os homens eram os encarregados da caça; as
mulheres dependiam dos homens para conseguir carne. Os homens dividiam a caça
primeira- mente com suas próprias mulheres, filhos e filhas. Depois de fixado esse primitivo
padrão de comportamento de papel sexual na humani- dade em construção, isso persistiria até
os dias de hoje.
A razão dos homens caçarem seria o fato das mulheres serem mais voltadas naturalmente
para suas famílias ou menos móveis devi- do aos encargos da maternidade e do cuidado com
as crianças. As mulheres, então, devido a isso, foram incapazes de desenvolver a
agressividade, a atenção ao detalhe, ao planejamento e à lealdade ao grupo e
cooperação ostensiva ligada à caça como uma atividade coo- perativa. Essa adaptação às
necessidades de subsistência imprimiram na humanidade a divisão sexual do trabalho,
na qual os homens se tor- naram mais agressivos e mais capazes para o trabalho conjunto
em grupos, enquanto que as mulheres se tornaram mais passivas e mais fixadas nos
trabalhos domésticos e cuidado com as crianças.
caça deliberada
As críticas mostram que essa visão apresenta um viés
claramente masculino. Por exemplo, a énfase na caça
como essencial para o de- senvolvimento da cultura
é bastante dúbia (MILES, 1989). Os hornini- dios
comiam carne, mas muito mais provavelmente em forma
de car- niça
abandonada por outros carnívoros
do que conseguida pela caça. Embora fossem
onívoros, a maior parte da dieta era vegetariana, e
qualquer pessoa, inclusive as muito jovens e de
ambos os sexos, podi- am conseguir mais facilmente
(LIEBOWITZ, 1986). A parece haver surgido muito mais
tarde e na forma de forçar os animais a caírem de
despenhadeiros, onde poderiam ser facilmente mortos se já não o
estivessem, o que não impediria a participação de qualquer
pessoa, nem mesmo das crianças. Outro problema é a
suposição da nuclearidade da família nos primórdios da humanidade. Seriam
as fa- mílias compostas por pai, mãe, filhos e filhas? Existiria nos grupos
an- cestrais o conhecimento de como funciona o processo de procriação,
que permitiria aos homens terem uma noção de quem seriam seus fi lhos e
suas filhas? Essas são questões difíceis de responder, não exis- tindo provas
suficientes nesse sentido para dar sustentação a teorias desse tipo.

O complexo da supremacia masculina: A guerra e o controle populacional

As explicações técnico-ambientais falam daquilo que seria uma lei natural (escassez de
recursos, pressão populacional), que levaria à emergência de características culturais para a
adaptação da socieda- de às estruturas das leis naturais. Um dos propósitos dessa teoria é ex-
plicar por que os homens dominam as mulheres (HARRIS, citado por GAILEY, 1987). O
controle populacional teria sido um problema desde tempos imemoriais. Na medida em
que iam se desenvolvendo, as di- versas culturas tratavam de fomentar as guerras como
forma de con- tenção do crescimento da população. Para isso, os homens
eram leva- dos a desenvolver ao máximo sua agressividade para poderem
atuar como ferozes guerreiros e obterem suas gratificações sexuais através do
estupro das mulheres dos povos vencidos. Já as mulheres seriam
socializadas para serem passivas e submeterem-se aos interesses dos
jogos de guerra.
Teorias ligadas à sociobiologia

A subordinação aumenta a adaptação. Os sociobiologistas, tais como Wilson


(1981), atribuem a dominação masculina à seleção natu- ral, em que os mais
adaptados sobrevivem e se desenvolvem. Tentati- vas de alterar práticas
sexistas, então, contradiriam as leis naturais, o que poderia levar, a longo
prazo, a uma série de problemas. Os ho- mens, por possuirem muitos
espermatozóides, procurariam dissemi ná-los no maior número possível de
mulheres, já que são elas e não eles que pagam o preço da procriação
(gravidez, parto, lactação, etc.). Já as mulheres, devido a isso e por terem
poucos óvulos ao longo de sua vida reprodutiva, procurariam para pai de
seus (as) filhos (as) algum homem que pudesse ajudá-las a criá-los(as) da
melhor maneira possí- vel. Para convencê-lo, se submeteriam a ele.

Teorias estruturalistas

Essas teorias dizem que a subordinação feminina é cultural, mas é universal. Um


desses grupos de teorias considera que as mulheres têm menor status e menos
autoridade que os homens porque estão associa- das ao domínio doméstico, enquanto os
homens estão associados ao domínio público. Isso é universal e se deve a que as
mulheres são res- ponsáveis pela gestação e cuidado das crianças (FIRESTONE,
1976). Tudo então dependeria do grau de envolvimento conquistado na esfe- ra pública
pelas mulheres e na esfera doméstica pelos homens.
Outro grupo de teorias que também se refere à subordinação femi- nina como cultural,
porém universal, salienta que isso se deve à divi- são do trabalho por gênero (GODELIER,
1981; ORTNER, 1981). Desde as primeiras culturas, as mulheres seriam simbolicamente
associadas à natureza, enquanto os homens seriam associados à cultura, sendo
esta última superior à primeira, portanto, os homens dominam as mu- lheres, assim como a
cultura domina a natureza.

A subordinação como um processo histórico

formas de estratificação com a divisão do


trabalho por gênero e as re-
lações de propriedade.
No mundo ocidental capitalista, a experiência de gênero
e o status das mulheres advêm da vida em uma
sociedade estratificada por clas- ses com uma
economia capitalista. Nem todas as sociedades têm
es- sas características atualmente e, no passado,
existiram sociedades estratificadas por classe
com economias muito diferentes da capitalis- ta,
como a Europa feudal, as civilizações
greco-romanas, baseadas no trabalho escravo,
etc. Assim, o modo de produção, em si mesmo, não
pode ser invocado como a base da subordinação feminina.
Muitos (as) teóricos (as) veem a hierarquia de gênero como um
pro- cesso histórico, que está ligado a outras formas de
hierarquia social Entender essa relação exige que se estude as
diversas espécies de es- tratificação social que existem e que existiram
e as relações dessas es- pécies com a divisão do trabalho e as
relações de propriedade. Tam- bém a formação dos Estados ligados
à formação de classes estaria na base da exploração em geral, com uma
dinâmica que criaria e daria suporte às desigualdades e à exploração.
Desde que a hierarquia de gênero emerge com a formação de classe e do
estado, pode-se perguntar: se a biologia não é destino, então por que são as
mulheres e não os homens que se tomaram subordinadas?
Na formação do Estado, tanto as mulheres da elite quanto as das classes produtoras
tiveram sua autoridade diminuída. Na medida em que o estado vai se formando e
a distância entre as classes da elite e as classes produtoras vai aumentando, torna-se
cada vez mais necessá- rio que os grupos de parentesco das sociedades iniciais deixem
de ser autônomos, pois necessitam providenciar produtos e serviços para o suporte da
elite não produtiva. A reprodução nesse sentido geral de continuidade se torna cada
vez mais politizada. Nessa espécie de crise da reprodução social é que está a
origem da hierarquia de gènero (GAILEY, 1987).
A reprodução das relações de classe envolve a replicação da força de
trabalho existente, reposição através da conquista de povos vizi- nhos, ou a
combinação de ambos os métodos. As religiões sustenta- das pelo Estado, os
militares e outras instituições não baseadas no pa- rentesco etuovam de
diferentes modos para promover a reprodução

grupos
O controle sobre o trabalho e, através do trabalho, dos produtos, é o principal item politico
na formação do Estado. A existência de uma esfera de tributação da produção destinada
para as autoridades civis e a continuação parcial da produção através das linhas de
parentesco inicia a fragmentação da divisão do trabalho pelos integrantes dos de
parentesco. A divisão entre as esferas publica/civil e paren- resco/doméstica também
abala a unidade da identidade social por pa- rentesco. A nova divisão do trabalho baseada
na classe leva as pesso- as para a força de trabalho de acordo com as categorias de gênero
e idade, mas estes aspectos estão separados da influència integradora dos papeis de
parentesco. Em outras palavras, de acordo com Gailey (1987), pelo menos na esfera
civil, as pessoas podem ter identidades abstratas: um homem adulto, uma mulher adulta. A
esfera civil cria a situação na qual as pessoas podem ser consideradas somente em ter-
mos de seu sexo, independentemente de seus papéis familiares (pai, mãe filho, filha).
Quando os grupos são definidos de acordo com uma ou duas ca- racteristicas, aparece o estágio do
estabelecimento do reducionismo biologico. Os constituintes de um grupo particular de trabalho
(cam- poneses e camponesas, cativos e cativas de guerra ou membros de uma comunidade
conquistada) tendem a ser definidos em termos fisi- cos. Relações de trabalho exploradoras, para
a produção de bens e serviços para dar suporte a uma classe não produtiva, sem o
consenti- mento dos produtores, dão lugar ao surgimento de estereótipos de classe, sexo e raça.
Esses estereótipos variam dentro de cada sociedade estatal, mas cada uma cria uma
ideologia justificando as desigualdades de classe, sexo e raça com base em diferenças
inatas.
A razão pela qual as mulheres recebem extrema sujeição ideológi- ca está relacionada com a
abstração na divisão civil do trabalho e a su- pressão da autonomia dos grupos de parentesco
na reprodução. As mulheres não apenas são capazes de trabalhar, mas também de
pro- duzir outros(as) trabalhadores(as). Como tal, as pertencentes à classe trabalhadora
se tomam o foco principal do controle estatal.
Quanto às mulheres da elite, elas tinham para seu reconhecimen- to somente sua
capacidade biológica de reprodução, já que eram tão improdutivas quanto os homens
de sua classe. Assim, sua sexualida- de e alianças maritais eram ainda mais
supervisionadas que as da classe trabalhadora. Fertilidade fora de lugar poderia
causar tumulto
politico. No entanto, as mulheres da elite mantinham
bastante poder e autoridade social. Essa fase na formação do
Estado é frequentemente confundida pelos pesquisadores
como o matriarcado. As mulheres da classe dominante tinham
considerável poder politico, mas nunca es- tavam sozinhas no poder.
Com a transposição das relações de parentesco para a esfera do- méstica,
tempo as
o poder político das mulheres dentro da elite declina e com o
mulheres em geral são vistas abstratamente de uma maneira
que as relaciona com a reprodução biológica, afastada da cultura e
ba- sicamente ligada à natureza.

O Gênero na psicologia

Na psicologia, as tentativas de olhar mais detidamente as mulhe- res e os homens têm


sido mais frequentemente associadas com as di- ferenças sexuais (DEX & KITE, 1987).
São discutidas se essas diferen- ças são biológicas ou fruto de práticas de socialização,
mas quase sempre enfocadas no individuo como sendo a fonte das mesmas.
Isso é um problema sob os mais diversos aspectos, entre eles o da generalização dos resultados
de pesquisas, por exemplo. Ainda nessa perspectiva, vemos inúmeros estudos que buscam
diferenças em ca- racterísticas de personalidade e comportamentos sociais; atitudes
emocionais; comportamentos agressivos; comportamentos de ajuda: comunicação não verbal;
influência social. Mais especificamente no que diz respeito às mulheres, saltam à luz
conceitos tais como o medo ao sucesso ou uma ênfase na moralidade do apego e
questões ligadas à responsabilidade.
Uma variante na vertente das diferenças tem sido uma tentativa de definir as
dimensões psicológicas da masculinidade e da feminilida- de. São buscadas
a verificação das diferenças entre homens e mulhe- res, mas, acima de tudo, se
elas realmente existem e quais senam os seus determinantes.
dade (M e F)
Durante muitas décadas as escalas de masculinidade e feminili-
refletiam e promoviam um certo número de acepções so- bre sua
natureza. As respostas normativas eram consideradas como um sinal
de saúde psicológica. Assim, os desvios dos escores da me- dia eram vistos
não simplesmente como um dado estatistico, mas
como um diagnóstico psicológico válido. Em particular, a homossexu- alidade e os
problemas familiares eram vistos como sendo ligados aos desvios dos escores de
masculinidade e feminilidade.
As críticas às escalas que se baseavam na crença que masculini- dade e feminilidade eram
um continuum com a máxima masculinida- de num extremo e a máxima feminilidade no
outro serviram para o de- senvolvimento de outras escalas que consideravam esses dois
concei- tos como dimensões independentes. A escala mais conhecida nesse sentido
é o Bem Sex Role Inventory (BEM, 1974). Daí saiu também o conceito de androginia (A),
onde as pessoas apresentariam Me F aproximadamente equivalentes. As pessoas
andróginas seriam consi- deradas como tendo vantagens sobre as pessoas masculinas ou femi-
ninas, principalmente no que dizia respeito à saúde mental. Outros es- tudos
questionaram essas crenças de predizer comportamentos ou saúde mental a partir de tipos
de M, F ou A. Spence (1984), um dos es- tudiosos do tema e elaborador de escalas desse tipo,
afirma que é im- portante distinguir entre os conceitos teóricos de Me Fe toda a gama de
comportamentos de gênero que apresentam uma multiplicidade de determinações sociais e
culturais com pouca relação direta a concei- tos teóricos mais globais.
Todas essas crenças, tanto as baseadas em diferenças biológicas, como as baseadas em
diferenças psicológicas de homens e mulheres, são causadoras de grandes vieses nos estudos
científicos de gênero. As diferenças encontradas entre ambos os sexos, além de não
serem tão grandes quanto se possa pensar, podendo ser mais aparentes do que reais,
dependem muito do contexto e de situações bastante con- cretas. Felizmente essa descoberta já
está presente nos trabalhos de muitos pesquisadores e pesquisadoras na psicologia.
Apesar disso, como bem salientam Dex & Kite (1987), ainda exis- tem muitas crenças sobre
diferenças de gênero que persistem, tanto no senso comum como no campo científico, o que
leva à manutenção de estereótipos no senso comum e distorções nos estudos ditos
cientí- ficos. Nessas crenças sobre gênero aparecem e se entrelaçam elemen- tos
descritivos (como são as diferenças) e prescritivos (como deveriam ser as diferenças).
Assim, vemos que os homens são considerados como sendo mais instrumentais (que agem,
competem, buscam realização profissional)
que as mulheres, enquanto elas seriam mais expressivas
(são mais afetivas, buscam aproximação) que eles. E
importante notar que os traços considerados masculinos
costumam ser avaliados mais positi- vamente na sociedade que os
traços considerados femininos, e as ra- zões disso nem sempre são
buscadas ou consideradas pelas pesquisas
realizadas.
de
De todos os modos, as pesquisas transculturais revelam que, uma maneira geral, os
homens são vistos como mais ativos, com mais necessidade de realização, de
domínio, de autonomia, sendo também mais agressivos. Já as mulheres seriam vistas
como mais fracas, me- nos ativas, mais preocupadas com suas necessidades afiliativas e de
afeto. Os pesquisadores e pesquisadoras admitem que é necessário cautela na
generalização desses resultados, já que existe uma grande variabilidade, lado a lado com
semelhanças através das culturas.
Atualmente, o gênero, na psicologia social histórico-crítica, é vis- to como uma construção histórica, social
e cultural. Assim, o estudo das diferenças de qualquer tipo entre homens e mulheres (ou das se-
melhanças), inclusive as psicológicas, deveria ser evocado sob esse prisma. Além disso, mais
importante que diferenças ou semelhanças, é o reparto de poder entre ambos os sexos que permite
que uns domi- nem outros, que uns tenham maior possibilidades de realizações que outros. A Psicologia
tem que estar atenta a este tipo de questões que aceitam e incentivam a multiplicidade e a plenitude dos
indivíduos e coletivos, independentemente do sexo.

Leituras complementares
No Brasil, diversas autoras têm escrito sobre gênero e menos au- tores têm feito o mesmo, embora sejam
cada vez mais numerosos. Especificamente dentro da Psicologia Social histórico-crítica, indica-
mos os textos da seção 4 (Psicologia e relações de gênero) do livro da Abrapso - região sul –
publicado em 1997, Psicologia e práticas socia- is. Outras obras também são interessantes e atuais,
principalmente os livros coletivos que reúnem as ideias de diversas pessoas, tanto da psicologia como
de outras áreas. Nesse caso se encontram os livros É uma mulher..., organizado por Reolina
Cardoso e publicado pela Vo- zes, com autoras psicólogas e o organizado por Marlene Neves Strey,

195

Mulher - Estudos de Gênero, reunindo artigos de autoras


de diversas áreas das ciências sociais e políticas, publicado pela
Unisinos. Outro livro cuja leitura é recomendada é o
publicado pela Artes Médicas, de Porto Alegre, e
integrado por profissionais da área da saúde, Gênero e
saúde. Ainda de autoras gaúchas, está o livro de Helena
Scarparo, que trata sobre mulheres da classe popular, intitulado
Cidadãs brasileiras, editado pela Revan. A respeito dos homens, o livro
organizado por Da- rio Caldas é uma das contribuições sobre a discussão do
gênero mas culino. O livro intitula-se Homens - Comportamento,
sexualidade, mudança e é editado pela Editora Senac de S. Paulo. Uma
publicação recente sobre o tema é a obra Gênero, sexualidade e educação de Gar-
cia Lopes Louro, editado pela Vozes, 1977.

Bibliografia
DEX, K. & KITE, M.E. Thinking about gender. In: HESS, B.B. & FERREE. M.M. (orgs.). Analyzing gender: a
handbook of social science research. New- bury Park: Sage, 1987.
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GAILEY, C.W. Evolucionary perspectives on gender hierarchy. In: HESS, B.B. & FERREE, M.M. (eds.).
Analyzing gender: a handbook of social science re- search. Newbury Park: Sage, 1987.
GODELIER, M. The origins of male domination. New Left Review, 127, p. 3-19, 1981.
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LERNER, G. La creación del patriarcado. Barcelona: Crítica, 1990.
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Reali- dade, vol. 20, n. 2, jul.-dez., 1995.
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197

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