BRASIL IMPERIAL (1822-1889)
Primeiro Reinado (1822-1831)
Período Regencial (1831-1840)
Segundo Reinado (1840-1889)
INDEPENDÊNCIA DO BRASIL
Antecedentes
O processo de independência do Brasil foi gradual e envolveu uma série de eventos que
culminaram na separação formal de Portugal em 1822. A independência do Brasil foi
um dos poucos processos de independência no continente americano que não resultou
em uma guerra prolongada, embora tenha havido alguns conflitos regionais. Aqui estão
os principais eventos que marcaram esse processo:
1. Contexto Internacional e Interno
No início do século XIX, o mundo vivia um período de intensas transformações
políticas, com as revoluções americana e francesa inspirando movimentos de
independência na América Latina.
Em 1807, a família real portuguesa, sob a liderança do príncipe regente Dom João
VI, fugiu para o Brasil devido à invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão
Bonaparte. O Brasil, então colônia, passou a ser sede do Reino de Portugal.
Mudanças Econômicas com a Chegada da Família Real:
Abertura dos Portos às Nações Amigas (1808):
Uma das primeiras e mais importantes medidas econômicas foi a Abertura dos
Portos às nações amigas, em especial à Inglaterra, que passou a ter o direito de
comerciar diretamente com o Brasil.
Essa medida rompeu com o Pacto Colonial, que até então obrigava o Brasil a
manter comércio apenas com Portugal. A abertura dos portos expandiu o comércio
internacional, favorecendo a importação de bens manufaturados e a exportação de
produtos brasileiros, como açúcar, algodão, tabaco e, mais tarde, café.
Desenvolvimento do Comércio e Indústria:
A presença da corte portuguesa trouxe um aumento significativo na demanda por
produtos e serviços, o que impulsionou o comércio interno e o desenvolvimento de
pequenas indústrias no Brasil, algo que era fortemente restrito durante o período
colonial.
O Alvará de 1º de abril de 1808 permitiu a instalação de fábricas e manufaturas no
Brasil, algo anteriormente proibido pelas políticas mercantilistas de Portugal. Isso
resultou na criação de fábricas de tecidos, sabão, vidro e outros produtos, embora a
industrialização tenha permanecido limitada.
Criação de Instituições Econômicas e Infraestrutura:
A chegada da família real trouxe a necessidade de criar uma infraestrutura
governamental e econômica para gerir o império a partir do Brasil. Entre as
principais instituições criadas, destacam-se:
O Banco do Brasil (fundado em 1808), que foi o primeiro banco do país e teve um
papel importante no financiamento do comércio e da administração pública.
A construção de estradas e melhoramento de portos e cidades, especialmente o Rio
de Janeiro, que se tornou a nova capital do Império Português.
Foram criadas também instituições voltadas ao ensino superior e à ciência, como a
Academia Real Militar e a Biblioteca Real, o que fomentou o conhecimento
técnico e científico no Brasil.
Estímulo à Agricultura e Exportação:
A agricultura, principal base econômica do Brasil, foi diretamente beneficiada pela
abertura dos portos e pelo aumento da demanda externa. Produtos como açúcar,
algodão e tabaco continuaram sendo exportados em larga escala, e o café começou a
ganhar importância, especialmente a partir da segunda metade do século XIX.
Houve também a expansão das fazendas de gado no interior e o aumento da
produção de alimentos para abastecer as cidades em crescimento, particularmente o
Rio de Janeiro, que se tornou o centro político e econômico do império.
Grandes Proprietários Rurais (Latifundiários)
Os fazendeiros e latifundiários foram amplamente beneficiados pela abertura dos
portos e pelo crescimento das exportações. A demanda por produtos agrícolas, como
o açúcar, algodão e, posteriormente, o café, trouxe grandes lucros para os
proprietários de terras.
A manutenção do trabalho escravo também favoreceu essa classe, que continuou a
explorar mão de obra escrava em larga escala, garantindo baixos custos de produção
e alta rentabilidade.
Comerciantes e Burguesia Mercantil
A abertura dos portos e o aumento das transações comerciais com outras nações
permitiram que os comerciantes brasileiros e estrangeiros (especialmente os
ingleses) expandissem seus negócios. O comércio se diversificou, e novos mercados
se abriram tanto para a importação quanto para a exportação de bens.
A burguesia mercantil, composta tanto por comerciantes locais quanto por
estrangeiros, como ingleses e franceses, foi outra classe que se beneficiou
diretamente dessa nova realidade econômica.
Burocracia e Elite Ligada ao Estado
A criação de uma vasta burocracia para administrar o império a partir do Brasil
gerou oportunidades para a elite ligada ao Estado, composta por membros da
nobreza, militares e funcionários públicos que vieram com a corte. Esses grupos
ocuparam cargos de poder e prestígio, muitos deles beneficiados por privilégios e
rendas ligadas à administração pública.
Além disso, a corte portuguesa trouxe consigo uma grande quantidade de nobres e
membros da aristocracia, que se estabeleceram no Brasil e participaram da nova
dinâmica econômica e política.
Profissionais Liberais e Trabalhadores Urbanos:
A chegada da corte e o crescimento urbano no Rio de Janeiro e em outras cidades
criaram demanda por profissionais liberais, como médicos, advogados,
engenheiros e professores, além de trabalhadores especializados para atender às
novas necessidades da capital e das instituições criadas.
Esse crescimento também estimulou o surgimento de um pequeno mercado interno
de consumo e serviços nas cidades, beneficiando artesãos, lojistas e trabalhadores
urbanos.
Impacto para as Classes Desfavorecidas
Enquanto as classes altas se beneficiaram com as mudanças econômicas, a maior
parte da população, especialmente os escravizados, indígenas e pobres urbanos,
permaneceu marginalizada. A escravidão continuou sendo a base da economia, e as
reformas feitas pela corte não tinham como objetivo melhorar as condições de vida
desses grupos.
Além disso, os pequenos proprietários rurais e agricultores independentes (muitas
vezes livres, mas pobres) não se beneficiaram tanto das mudanças, já que os grandes
proprietários continuavam dominando o sistema produtivo e as exportações.
Com a presença da corte no Brasil, o país passou a ser tratado como parte do
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815), o que elevou seu status político
e econômico.
Após a elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1815,
durante o reinado de Dom João VI, o país obteve uma série de privilégios e
transformações em sua condição política, econômica e social. Essa mudança foi crucial
para o processo de independência posterior e marcou a transição do Brasil de uma
simples colônia para um status mais elevado dentro do Império Português.
1. Fim do Status de Colônia
O Brasil deixou de ser uma colônia subordinada a Portugal e passou a ter um status
de igualdade formal com a metrópole e com o Reino de Algarves. Isso significava
que o país não estava mais sujeito às leis coloniais restritivas, como o Pacto
Colonial, que limitava seu comércio e a exploração de suas riquezas.
Embora ainda fizesse parte do império português, o Brasil passou a ter mais
autonomia política e econômica, o que facilitou o desenvolvimento de suas
instituições e infraestrutura.
2. Autonomia Administrativa
O Brasil ganhou maior autonomia administrativa, pois com a elevação a Reino
Unido, o poder central estava localizado no Rio de Janeiro, sede da corte portuguesa
desde 1808. Isso permitiu que o Brasil desenvolvesse suas próprias políticas, tanto
internas quanto externas, sem a necessidade de seguir diretamente as ordens de
Lisboa.
Além disso, essa mudança institucionalizou a participação do Brasil nos assuntos do
governo central, o que resultou em maior influência política sobre o império.
3. Representação Política
Com o Brasil elevado a Reino Unido, passou a ter o direito de enviar
representantes políticos para as Cortes (parlamento) em Portugal, o que era um
privilégio inédito para uma ex-colônia.
Embora esse direito tenha sido mais simbólico do que efetivo, ele abriu um
precedente para que os brasileiros participassem da vida política do império, algo
que contribuiu para o fortalecimento da identidade nacional.
4. Melhorias na Infraestrutura
A elevação do Brasil ao status de Reino Unido acelerou o desenvolvimento de sua
infraestrutura. Durante o período em que a família real esteve no Brasil, houve um
esforço para modernizar o país, principalmente a capital, o Rio de Janeiro.
Foram criadas instituições como a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico, e
escolas de ensino superior, como a Academia Real Militar e a Escola de Cirurgia
da Bahia, que trouxeram avanços nas áreas de educação, ciência e administração
pública.
5. Liberdade de Comércio
A política de liberdade de comércio, consolidada pela Abertura dos Portos em
1808, foi mantida e expandida após a elevação do Brasil a Reino Unido. O Brasil
pôde negociar diretamente com várias nações, principalmente com a Inglaterra, sem
depender de Portugal.
Isso foi um grande avanço em comparação ao período colonial, em que o Brasil era
obrigado a comercializar apenas com a metrópole portuguesa, e foi fundamental
para o crescimento da economia baseada nas exportações, como o café, açúcar e
algodão.
6. Criação de Instituições Governamentais Brasileiras
A elevação ao status de Reino Unido permitiu a criação de instituições
governamentais próprias no Brasil, que ajudaram a desenvolver uma administração
pública mais robusta e eficiente. O Banco do Brasil, fundado em 1808, foi uma
dessas instituições, facilitando o comércio e a gestão financeira do império.
A presença de tribunais de justiça, departamentos militares e outras agências estatais
reforçou o papel do Brasil como uma parte essencial do império e preparou o
caminho para a independência futura.
7. Maior Prestígio Internacional
O Brasil, ao se tornar parte do Reino Unido, passou a ser visto com mais prestígio
no cenário internacional. A presença da corte portuguesa no país e o aumento das
relações diplomáticas com outras nações elevaram o Brasil a um novo patamar em
termos de relações exteriores.
Esse reconhecimento internacional foi importante para consolidar o status do Brasil
como um reino importante dentro da política global, facilitando acordos comerciais
e alianças diplomáticas, especialmente com a Inglaterra, que foi uma das maiores
beneficiárias da abertura dos portos.
8. Estímulo ao Desenvolvimento Cultural e Científico
O aumento da presença da corte e da aristocracia no Brasil trouxe investimentos em
cultura, ciência e tecnologia. Além das instituições educacionais, como a Escola
Real de Ciências, Artes e Ofícios, houve um estímulo à produção artística e
literária.
Personalidades europeias vieram ao Brasil, contribuindo para o intercâmbio cultural
e a criação de uma elite intelectual brasileira, o que foi importante para o surgimento
de uma identidade nacional e para o progresso intelectual da época.
Classes Beneficiadas:
Elites coloniais brasileiras, como os grandes proprietários de terra e comerciantes,
foram os maiores beneficiários dessas mudanças. A elevação do Brasil a Reino
Unido fortaleceu seus interesses econômicos, já que o comércio com outras nações
foi ampliado e seus lucros aumentaram com as exportações.
A burguesia mercantil, especialmente os comerciantes que atuavam no comércio
internacional, se beneficiou diretamente da maior liberdade de comércio.
A nobreza e burocracia local também se beneficiaram com a criação de novos
cargos administrativos e a maior proximidade com a corte real.
Intelectuais e profissionais liberais, que encontraram oportunidades nas
instituições culturais e educacionais criadas durante esse período.
Com a derrota de Napoleão e a restauração de várias monarquias europeias após o
Congresso de Viena (1814-1815), houve uma pressão por parte das potências europeias
para que os territórios coloniais reassumissem seus status de subordinação às
metrópoles. Os representantes dos governos europeus se recusavam a acatar os pedidos
dos embaixadores portugueses. Eles afirmavam que Rei português não teria direito a
voz na assembleia porque governava o Reino a partir de uma colônia.
A fim de acalmar os ânimos, Dom João VI, em 1816 eleva o Brasil à categoria de Reino
Unido. Juridicamente, o território deixa de ser colônia para fazer parte do Reino, com o
mesmo estatuto jurídico que Portugal. Elevar o Brasil ao status de Reino Unido foi uma
maneira de legitimar a posição do Brasil como parte integral do Império Português,
mantendo a unidade do império em meio às mudanças no cenário político global. Essa
elevação ajudava a evitar qualquer movimento internacional que pudesse pressionar o
Brasil a se tornar independente à força.
REVOLUÇÃO LIBERAL DO PORTO (1820)
Antecedentes
Entre 1807 e 1811, Portugal foi invadido pelas tropas napoleônicas. Isso levou à
fuga da família real para o Brasil em 1808, deixando Portugal em uma situação de
abandono político.
Durante a ocupação, Portugal ficou sob controle de uma administração militar
estrangeira e, mesmo após a expulsão das tropas francesas, o país permaneceu sob
forte influência britânica, com o duque de Wellington e outros oficiais britânicos
exercendo controle sobre o governo e o exército.
A economia portuguesa estava devastada. O comércio havia caído drasticamente, e
o Brasil, que antes era a maior fonte de riqueza para Portugal, agora ganhava cada
vez mais autonomia, especialmente após a elevação a Reino Unido em 1815.
Quando Napoleão foi derrotado, muitos portugueses pensaram que o rei voltaria em
pouco tempo. No entanto, Dom João VI adiava sua volta, desejoso de permanecer
naquela terra que o fizera rei. Alguns estudiosos apontam que ali, o monarca se
sentia livre das pressões da Corte e das potências europeias.
Seja como for, em 1817, um grupo de maçons e de oficiais do Exército, se rebela em
Lisboa declarando-se contrário a ocupação britânica em Portugal e se
autoproclamam regentes do Reino. O movimento foi denunciado e seus integrantes
condenados à morte. Deste modo, a tensão política era palpável em todo país.
Após a saída dos franceses, os britânicos continuaram a ter grande influência em
Portugal, tanto militar quanto economicamente. Muitos portugueses viam essa
influência como uma nova forma de dominação.
O governo português era, em grande parte, controlado por oficiais britânicos, o que
gerou ressentimento entre a elite política e militar portuguesa. A presença britânica,
aliada à falta de um governo central português forte, agravava o sentimento de que
Portugal havia se tornado um país dependente e humilhado.
Muitos em Portugal acreditavam que a monarquia deveria retornar ao país, para
restaurar a autoridade e soberania. A situação tornou-se ainda mais delicada com a
crescente autonomia do Brasil, que passava a ter um papel preponderante dentro do
império.
As ideias iluministas e liberais estavam em ascensão na Europa, especialmente após
a Revolução Francesa (1789) e as Guerras Napoleônicas, que disseminaram
conceitos de liberdade, igualdade e soberania popular.
A Espanha vizinha também enfrentava revoluções liberais, e em 1812 os espanhóis
adotaram a Constituição de Cádiz, estabelecendo um regime constitucional. Isso
teve um impacto direto em Portugal, com muitos grupos liberais desejando uma
constituição semelhante para limitar os poderes da monarquia e estabelecer direitos
civis e políticos.
Portugal estava imerso em uma crise econômica severa. A perda de receitas
provenientes do Brasil, a destruição causada pela guerra e a dependência econômica
do Reino Unido deixaram o país empobrecido.
As classes médias e populares enfrentavam dificuldades econômicas, e a elite
política e militar estava insatisfeita com a administração portuguesa e a falta de uma
política de reconstrução nacional.
O Processo da Revolução Liberal do Porto
1. Início da Revolução (24 de agosto de 1820)
A revolução começou na cidade do Porto, no norte de Portugal, quando um grupo de
oficiais militares e liberais se organizou e proclamou a .
A Junta Provisória da Revolução Liberal do Porto foi um órgão governamental
temporário formada por líderes revolucionários e tinha como objetivo principal
organizar e dirigir o país durante a transição para um governo constitucional. Ela
desempenhou um papel crucial na convocação das Cortes Constituintes, que
elaboraram a primeira Constituição portuguesa em 1822.
O movimento começou como uma revolta militar, mas rapidamente ganhou o apoio
da população e de outros setores da sociedade, que ansiavam por reformas políticas
e econômicas. Um dos principais objetivos era a redação de uma constituição e a
limitação do poder absoluto da monarquia.
2. Extensão da Revolução para Lisboa
A revolução rapidamente se espalhou para outras partes do país, incluindo Lisboa,
onde os revolucionários exigiram o fim do absolutismo e a convocação de Cortes
Constituintes para redigir uma constituição.
Em poucos meses, a Junta Provisional conseguiu tomar o controle de Portugal. Em
Lisboa, formou-se um governo provisório que convocou eleições para as Cortes
Constituintes, um parlamento que teria a missão de elaborar uma nova constituição.
3. Convocação das Cortes e Redação da Constituição
Em janeiro de 1821, as Cortes Constituintes se reuniram para iniciar o processo de
elaboração de uma constituição. Inspirados por modelos liberais europeus,
especialmente a Constituição de Cádiz, os parlamentares buscaram limitar os
poderes do rei e estabelecer uma monarquia constitucional.
A constituição proposta incluía a criação de uma monarquia constitucional, com
divisão de poderes entre o executivo (rei), o legislativo (Cortes) e o judiciário.
Também havia a garantia de direitos individuais, como a liberdade de expressão e de
imprensa, e a abolição de muitos privilégios da nobreza e do clero.
Motivos Políticos da Revolução
4. Retorno da Monarquia ao Brasil
Um dos principais objetivos da revolução era forçar o retorno de Dom João VI e da
corte ao território europeu. Os portugueses estavam insatisfeitos com a ausência
prolongada do monarca e com o fato de o Brasil ter se tornado a sede do império, o
que fazia com que Portugal parecesse subordinado a sua antiga colônia.
5. Reforma do Sistema Político
Os revolucionários desejavam implementar um sistema constitucional que acabasse
com o absolutismo e trouxesse maior participação política. O liberalismo era a
principal ideologia defendida pelos revolucionários, que desejavam um governo
mais representativo e uma economia menos controlada pela aristocracia.
A constituição visava reformar o sistema político e criar um estado mais moderno e
eficiente, com base nos princípios do liberalismo.
6. Recuperação da Soberania Nacional
O movimento também teve um caráter fortemente nacionalista, com o desejo de
recuperar a soberania nacional de Portugal, que havia sido enfraquecida pela
ocupação francesa e a subsequente dominação britânica. Os portugueses viam a
revolução como uma forma de reconquistar o controle de seu destino político e
econômico, sem depender de potências estrangeiras.
Consequências da Revolução Liberal do Porto
Redigiram um “Manifesto da Nação Portuguesa aos Soberanos e Povos da Europa",
onde reafirmavam a fidelidade ao Rei, mas exigiam a promulgação de uma
Constituição que limitasse o poder do soberano. Também queriam a volta do Brasil
à condição de Colônia e a restauração do monopólio comercial português.
Outras cidades aderem ao movimento e em 28 de setembro são convocadas as
eleições para formar a Corte Constituinte. Em janeiro de 1821, as Cortes
portuguesas se reúnem para elaborar o documento.
Sob pressão dos revolucionários, Dom João VI retornou a Portugal em 1821. No
entanto, ele deixou seu filho, Dom Pedro, como regente no Brasil, uma medida que
mais tarde se mostraria crucial para o processo de independência do Brasil.
As Cortes Constituintes aprovaram uma constituição em 1822, estabelecendo uma
monarquia constitucional em Portugal. No entanto, a aplicação dessa constituição
e o equilíbrio entre os poderes foi uma questão que gerou tensões e conflitos, tanto
em Portugal quanto no Brasil.
DIA DO FICO (1822)
Após a Revolução Liberal do Porto, em 1820, Portugal passava por uma série de
transformações políticas. As Cortes portuguesas, compostas por deputados liberais,
queriam recentralizar o poder em Lisboa e reverter as mudanças que haviam dado
maior autonomia ao Brasil desde a vinda da família real em 1808. Isso incluía o desejo
de rebaixar o Brasil ao status de colônia novamente, desmantelando as instituições
locais que haviam sido criadas e obrigando a volta de Dom Pedro a Portugal.
Com a volta de Dom João VI para Portugal em 1821, Dom Pedro foi deixado como
príncipe regente no Brasil. No entanto, as Cortes portuguesas tentaram limitar seus
poderes e implementar uma série de medidas para enfraquecer a autonomia brasileira.
Entre essas medidas estava a ordem para que Dom Pedro voltasse a Portugal, o que seria
visto como um sinal de submissão do Brasil ao controle direto das Cortes.
Diversos setores da sociedade brasileira, incluindo militares, proprietários de terra e
comerciantes, estavam insatisfeitos com as tentativas de recolonização e as restrições
impostas por Lisboa. Eles temiam perder os benefícios econômicos e políticos
adquiridos nos últimos anos, como a abertura dos portos e o desenvolvimento
institucional local.
Em dezembro de 1821, Dom Pedro recebeu ordens de voltar a Portugal a fim de
terminar sua preparação acadêmica. A notícia cai com uma bomba entre os brasileiros,
sobretudo, a elite agrária brasileira. Isso porque ela queria conservar as liberdades
comerciais que haviam adquirido após a Vinda da Família Real Portuguesa para o
Brasil, em 1808.
A elite brasileira organizou uma série de abaixo-assinados e manifestações, pedindo
que Dom Pedro não voltasse a Portugal e permanecesse no Brasil para liderar a
resistência contra as ordens das Cortes. Os apoiadores de Dom Pedro viam nele uma
figura capaz de representar os interesses brasileiros e garantir maior autonomia ou até
mesmo a independência.
Em 9 de janeiro de 1822, Dom Pedro, pressionado por essas manifestações e
aconselhado por personalidades influentes como José Bonifácio de Andrada e Silva, fez
o famoso pronunciamento em que declarou:
"Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico."
Com essa decisão, Dom Pedro desobedeceu às ordens das Cortes portuguesas e
afirmou sua intenção de permanecer no Brasil. Esse ato foi visto como um passo crucial
rumo à independência, pois simbolizou a ruptura com o controle de Portugal e o
compromisso de Dom Pedro em defender os interesses brasileiros.
INDEPENDÊNCIA DO BRASIL (7 de setembro de 1822)
O Dia do Fico consolidou a posição de Dom Pedro como líder do movimento pró-
independência e enfraqueceu o controle das Cortes de Lisboa sobre o Brasil. A partir
desse momento, o processo de independência se acelerou, com uma série de eventos
importantes. Logo após o Dia do Fico, Dom Pedro nomeou José Bonifácio de Andrada
e Silva como seu conselheiro e ministro. Bonifácio foi uma figura chave na articulação
política e jurídica que levaria à independência. Nos meses seguintes, o Brasil foi
cortando gradualmente os laços com Portugal.
Em agosto de 1822, quando Dom Pedro estava em uma viagem a São Paulo para
pacificar revoltas, Leopoldina assumiu a regência do Brasil. Nessa posição, ela tomou
decisões cruciais em um momento de grande tensão política. Em 2 de setembro de 1822,
Leopoldina, junto com José Bonifácio, assinou o decreto que recomendava a ruptura
definitiva com Portugal. Essa decisão foi essencial para a proclamação da
independência.
Ela escreveu a Dom Pedro enquanto ele estava em São Paulo, instigando-o a tomar a
decisão final. Na carta, Leopoldina deixou claro que a situação era insustentável e que o
momento para declarar a independência havia chegado, o que influenciou diretamente
Dom Pedro a proclamar a separação do Brasil de Portugal em 7 de setembro de 1822.
Após a decisão de Leopoldina e do governo interino no Rio de Janeiro, Dom Pedro, ao
receber a carta da esposa em São Paulo, finalmente decidiu agir. Em 7 de setembro de
1822, às margens do Rio Ipiranga, Dom Pedro fez o famoso pronunciamento do "Grito
do Ipiranga", declarando a independência do Brasil com as palavras: "Independência
ou morte!".
CONSOLIDAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA (1822-1825)
O processo de independência do Brasil não foi pacífico. Após o 7 de setembro de 1822,
ocorreram várias manifestações, em território nacional, contrárias à Independência. Este
movimento de resistência era composto, principalmente, por militares portugueses que
moravam no Brasil.
Dom Pedro I precisou reagir rapidamente para não colocar em risco a recém-
conquistada liberdade com relação a Portugal. Seu objetivo era expulsar do país as
tropas portuguesas. Foi entre os anos de 1822 e 1825, que grande parte destes conflitos
pós-independência ocorreu.
Como o Brasil não possuía um exército nacional, D. Pedro I precisou formar milícias e
contratar militares ingleses e franceses para combater os movimentos de resistência à
Independência. O comando ficou nas mãos de militares estrangeiros como, por
exemplo: os britânicos Lord Cochrane e John Taylor, além do francês Pierre Labatut.
Durante o processo de independência do Brasil, vários conflitos armados ocorreram
em diferentes regiões do país, uma vez que nem todas as províncias aceitaram de
imediato a proclamação feita por Dom Pedro I em 7 de setembro de 1822. Essas
guerras de independência se estenderam até 1824, à medida que as forças leais a
Portugal tentavam resistir à separação.
1. Bahia
Conflito: A guerra pela independência na Bahia foi um dos mais intensos e
prolongados. A resistência portuguesa estava fortemente estabelecida em Salvador,
onde havia um grande contingente de tropas leais a Portugal.
Duração: O conflito começou em 1822 e terminou em 2 de julho de 1823, quando
as forças brasileiras, compostas por milícias locais, tropas regulares e mercenários
estrangeiros, finalmente derrotaram os portugueses.
Resultado: A vitória brasileira levou à retirada das tropas portuguesas da cidade de
Salvador. O 2 de julho é comemorado até hoje na Bahia como o dia da
independência do estado.
2. Grão-Pará
Conflito: A província do Grão-Pará (hoje parte do estado do Pará) era uma das
regiões mais leais a Portugal, devido à sua localização distante do Rio de Janeiro e
sua forte conexão com o comércio português.
Duração: A resistência à independência foi severa, e o controle da província só foi
obtido em agosto de 1823, após confrontos violentos e a intervenção de forças
navais enviadas por Dom Pedro I.
Resultado: Após confrontos navais e terrestres, as tropas brasileiras, comandadas
por John Taylor, conseguiram derrotar os portugueses e anexar a região ao novo
Império do Brasil.
3. Cisplatina (Uruguai)
Conflito: A Província Cisplatina (atual Uruguai) era uma região disputada entre
portugueses, espanhóis e brasileiros. Após a independência, ela continuou sendo
uma fonte de conflitos, pois a população local não queria ser controlada nem por
Portugal nem pelo recém-formado Império do Brasil.
Duração: A ocupação militar brasileira continuou após a independência, levando a
conflitos com movimentos independentistas e separatistas locais até que, em 1828, a
Cisplatina se tornaria o Uruguai independente após a assinatura da Convenção
Preliminar de Paz.
4. Ceará e Maranhão
Conflito: Tanto no Ceará quanto no Maranhão, a resistência à independência foi
considerável, com governadores locais mantendo a lealdade a Portugal.
Duração: No Maranhão, os confrontos começaram em 1822 e continuaram até
1823, quando tropas enviadas pelo Rio de Janeiro, sob o comando de Lord
Cochrane, derrotaram os lealistas portugueses.
Resultado: A chegada de forças navais comandadas por Lord Cochrane e o cerco
das principais cidades forçaram as elites locais a aceitar a independência e a
incorporar as províncias ao Brasil.
5. Pernambuco
Conflito: Em Pernambuco, o contexto de luta pela independência estava
intimamente ligado a movimentos separatistas e republicanos. A província já tinha
um histórico de resistência ao governo central, como demonstrado na Revolução
Pernambucana de 1817.
Duração: O conflito pela independência ocorreu de maneira mais rápida, uma vez
que a elite pernambucana se alinhou com o movimento de Dom Pedro, embora
tensões separatistas ainda permanecessem.
Resultado: Pernambuco se alinhou com a independência brasileira em 1822, mas
continuaria sendo um foco de rebeliões, como a Confederação do Equador em
1824, que buscava a independência do Nordeste em relação ao Império do Brasil.
6. Piauí
Conflito: No Piauí, houve resistência significativa à independência. Tropas leais a
Portugal e a elite local entraram em conflito com grupos pró-independência.
Batalha do Jenipapo: A principal batalha ocorreu em 13 de março de 1823, na
Batalha do Jenipapo, onde os brasileiros, mal armados, enfrentaram as tropas
portuguesas.
Resultado: Apesar da derrota militar dos brasileiros, o sacrifício dos combatentes
locais galvanizou o movimento pela independência, e a província do Piauí foi
posteriormente integrada ao Brasil independente.
7. Rio Grande do Sul
Conflito: No Rio Grande do Sul, o processo de independência foi marcado por
conflitos entre tropas portuguesas e forças locais pró-independência.
Duração: Em 1822 e 1823, houve uma série de combates que culminaram com a
vitória das tropas brasileiras sob o comando de José de Abreu.
Resultado: A província acabou por aceitar a independência, embora o sul do Brasil
fosse uma região de constante tensão política e militar nas décadas seguintes.
8. São Paulo
Conflito: Embora São Paulo tenha sido o local onde ocorreu o famoso Grito do
Ipiranga, a província também experimentou resistência em algumas áreas,
especialmente em regiões rurais onde havia lealdade à coroa portuguesa.
Resultado: Após confrontos localizados e a ação de Dom Pedro, São Paulo logo se
consolidou como um dos principais centros de apoio à independência.
D. Pedro I saiu vitorioso nas guerras pela independência do Brasil. Muitos opositores,
principalmente militares portugueses, foram presos e expulsos do Brasil. Em 1825, Portugal
reconheceu a emancipação política do Brasil e o imperador brasileiro conseguiu manter a
unidade territorial.
Após o emblemático Grito do Ipiranga, Dom Pedro I teria de tomar diversas ações que
pudessem assegurar a autonomia política da nação brasileira. Primeiramente, teve que
enfrentar vários levantes militares em algumas províncias que se mantinham fiéis a
Portugal. Para tanto, chegou a contratar mercenários ingleses que asseguraram o controle
dos conflitos internos.
Entretanto, não bastava pacificar os desentendimentos provinciais. Para que o Brasil tivesse
condições de estabelecer um Estado autônomo e soberano, era indispensável que outras
importantes nações reconhecessem a sua independência. Já em 1824, buscando cumprir sua
política de aproximação com as outras nações americanas, os Estados Unidos reconheceram
o desenvolvimento da independência do Brasil.
Apesar da importância de tal manifestação, o Brasil teria que fazer com que Portugal, na
condição de antiga metrópole, reconhecesse o surgimento da nova nação. Nesse instante, a
Inglaterra apareceu como intermediadora diplomática que viabilizou a assinatura de um
acordo. No dia 29 de agosto de 1825, o Tratado de Paz e Aliança finalmente oficializou o
reconhecimento lusitano.
Tratado de Paz e Aliança
Segundo esse acordo, o governo brasileiro deveria pagar uma indenização de dois milhões
de libras esterlinas para que Portugal aceitasse a independência do Brasil. Além disso,
dom João VI, rei de Portugal, ainda preservaria o título de imperador do Brasil. Essa última
exigência, na verdade, manifestava o interesse que o monarca lusitano tinha em reunificar
os dois países em uma só coroa.
Na condição de nação recém-formada, o Brasil não tinha condições de pagar a pesada
indenização estabelecida pelo tratado de 1825. Nesse momento, os ingleses emprestaram os
recursos que asseguraram o pagamento deste valor. Na verdade, o dinheiro nem chegou a
sair da própria Inglaterra, já que os portugueses tinham que pagar uma dívida equivalente
aos mesmos credores.
Após o reconhecimento português, várias outras nações da Europa e da América foram
impelidas a realizarem o mesmo gesto político. Com isso, o Brasil poderia estabelecer
negócio com outras nações do mundo através da assinatura de acordos e o estabelecimento
de tratados de comércio. Nesse aspecto, a Inglaterra logo se apressou para que o governo
brasileiro reafirmasse as taxas aduaneiras dos tratados de 1810.
POR QUE O BRASIL SE TORNOU UMA MONARQUIA?
Quando o Brasil declarou a sua independência, seus realizadores optaram por instaurar a
monarquia como forma de governo do país. Era um caso único na América do Sul, já que as
antigas colônias espanholas nessa parte do continente tinham tornado-se repúblicas. Na
América Latina, além do Brasil, só o México transformou-se, durante um curto período de
tempo, em uma monarquia. Segundo as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloísa Starling, a
escolha da monarquia em vez da república aconteceu por alguns motivos:
1. Os idealizadores da nossa independência temiam que o território do Brasil fosse
fragmentado caso instaurassem a república no país
2. A elite brasileira havia sido letrada nas tradições monarquistas de Portugal
3. Essa forma de governo evitava que transformações no status quo acontecessem
CONSTITUIÇÃO DE 1824
A Constituição de 1824 foi a primeira Constituição do Império do Brasil, promulgada
em 25 de março de 1824 por Dom Pedro I, após a independência do país. Ela foi
fundamental na estruturação do novo regime político e social do Brasil, estabelecendo
as bases para o funcionamento do império. Após a independência do Brasil em 1822,
Dom Pedro I enfrentou diversos desafios para consolidar a nova nação. Entre esses
desafios estavam a necessidade de estabelecer um sistema de governo estável e a
resolução de conflitos internos e regionais.
Os trabalhos da Constituinte iniciaram-se em maio de 1823 e foram marcados pelo
atrito entre D. Pedro I e as elites econômicas e políticas do Brasil. As discordâncias
entre os parlamentares e D. Pedro I ocorreram em decorrência da arbitrariedade e da
autoridade do imperador nas tomadas de decisões. No caso da Constituição, os
parlamentares defendiam a existência de maiores liberdades individuais e a limitação do
poder real. Em contrapartida, D. Pedro I queria poderes ilimitados para governar o
Brasil.
Como não concordava com os termos da Constituição elaborada pelos parlamentares, D.
Pedro I decidiu vetar o documento, que ficou conhecido como Constituição da
Mandioca. Essa ação aconteceu em 12 de novembro de 1823 e foi acompanhada de um
evento chamado Noite da Agonia. Nessa ocasião, D. Pedro I ordenou que tropas
cercassem e dissolvessem a Assembleia Nacional Constituinte. Nesse dia, vários
parlamentares foram presos.
Após esse episódio, uma nova Constituição começou a ser elaborada por uma comissão
formada pelo imperador. Essa Constituição ficou pronta em 1824 e foi outorgada por
ordem do imperador. O documento reafirmava que o Brasil seria uma monarquia e
instituía ao imperador poderes absolutos sobre a nação. Para isso, foi criado o Poder
Moderador, representado exclusivamente por D. Pedro I. Foi determinada também nessa
Constituição a imposição do voto censitário. Assim, só poderiam votar aqueles tivessem
renda anual acima de 100 mil réis.
Principais Características da Constituição de 1824
1. Monarquia Constitucional e Parlamentar: a Constituição estabeleceu o Brasil
como uma monarquia constitucional e parlamentar. Dom Pedro I foi
reconhecido como imperador com poderes amplos, mas o regime também
introduziu um sistema de governo baseado em leis e princípios constitucionais.
2. Poder Moderador: uma das inovações mais marcantes da Constituição foi a
criação do Poder Moderador, um poder centralizado nas mãos do imperador. O
Poder Moderador tinha a função de arbitrar e equilibrar os demais poderes
(Executivo, Legislativo e Judiciário), conferindo ao imperador a capacidade de
dissolver a Câmara dos Deputados, nomear e exonerar ministros, e influenciar
diretamente o processo legislativo e judicial. O conceito do Poder Moderador foi
um reflexo do desejo de Dom Pedro I de manter controle centralizado e evitar o
excessivo poder das instituições políticas.
3. Divisão dos Poderes:
Poder Executivo: Chefiado pelo imperador e seus ministros. O imperador tinha amplos
poderes, incluindo a capacidade de nomear e exonerar ministros, e a prerrogativa de
sancionar ou vetar leis.
Poder Legislativo: Bicameral, composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.
Os membros da Câmara eram eleitos por voto indireto, enquanto o Senado era composto
por senadores nomeados pelo imperador.
Poder Judiciário: Era responsável pela administração da justiça, mas com um sistema
que ainda refletia a influência e o controle do imperador sobre o processo judicial.
4. Voto e Representação: o sistema eleitoral da Constituição de 1824 era indireto
e censitário. Apenas os homens livres que possuíam certa renda podiam votar, e
o voto era indireto, com representantes eleitos que, por sua vez, elegiam os
deputados. A Câmara dos Deputados era composta por representantes eleitos
pelas províncias, enquanto o Senado era composto por senadores nomeados pelo
imperador, com base em critérios de idade e tempo de serviço público.
5. Direitos e Liberdades: a Constituição de 1824 garantia uma série de direitos e
liberdades individuais, como a liberdade de imprensa e a inviolabilidade da
correspondência. No entanto, a aplicação e proteção desses direitos eram
limitadas e muitas vezes influenciadas pelo controle do Poder Moderador. Não
abordou profundamente questões como a escravidão.
6. Religião: a Constituição de 1824 estabeleceu o catolicismo como a religião
oficial do Estado. A Igreja Católica tinha um papel importante na vida pública e
na administração do Estado, refletindo a forte influência religiosa na política da
época.
DECLÍNIO DO PRIMEIRO REINADO (1831)
Os desgastes na relação de D. Pedro I com grande parte da sociedade, em especial com
certa elite política e econômica, fizeram com que o imperador renunciasse o trono em
favor de seu filho, Pedro de Alcântara. Dessa forma, em 1831, o Primeiro Reinado
chegou ao fim. Entre os eventos que contribuíram para fragilizar a posição do
imperador, podemos citar como os de maior destaque:
Dissolução da Assembleia Constituinte (1823)
Confederação do Equador (1824)
Guerra da Cisplatina (1825-1828)
Noite das Garrafadas (1831)
O governo de D. Pedro I não era muito popular no Nordeste brasileiro, principalmente
por causa do autoritarismo do imperador. Por isso, a região tornou-se foco de críticas ao
Império. Nesse contexto, dois nomes destacaram-se: Cipriano Barata e Joaquim do
Amor Divino (frei Caneca), que veiculavam suas críticas em jornais de circulação local.
O principal foco de insatisfação era a província de Pernambuco, local historicamente
marcado por tensões. A insatisfação da região na década de 1820 era, em grande parte,
herdada da Revolução Pernambucana, movimento separatista de viés republicano que
aconteceu em 1817. Os ideais republicanos, associados com a insatisfação com o
imperador, levaram a uma nova rebelião: a Confederação do Equador.
Essa revolta teve como estopim a dissolução da Assembleia Constituinte e a nomeação
de um governador que não era desejado pela elite local. Na época, havia também
uma forte especulação de que a região seria invadida pelos portugueses. A junção de
todos esses fatores, associados à memória viva da Revolução Pernambucana, fizeram a
província rebelar-se.
A Confederação do Equador iniciou-se em 2 de julho de 1824 em Recife, Pernambuco.
Sob a liderança de frei Caneca e Manoel de Carvalho Paes de Andrade, o movimento
logo se espalhou pelo Nordeste, alcançando o Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará,
Piauí e Maranhão. A reação do imperador foi violenta: foi ordenada uma série de
execuções em Pernambuco, Ceará e Rio de Janeiro. Em setembro, os rebeldes já tinham
sido derrotados.
A crise do Primeiro Reinado também está associada com a Guerra da Cisplatina, travada
entre 1825 e 1828. Nesse conflito, o Brasil lutou pela manutenção da província
Cisplatina a fim de evitar que ela fosse anexada pelas Províncias Unidas (atual
Argentina). Essa guerra foi extremamente impopular no Brasil.
Tudo começou quando habitantes locais da Cisplatina iniciaram uma rebelião,
declarando a separação da província do Brasil e sua vinculação com as Províncias
Unidas. A reação brasileira ocorreu com a declaração de guerra contra os rebeldes e
contra as Províncias Unidas. Ao longo dos três anos de conflito, o Brasil amargou uma
série de derrotas, que destruiu o moral do exército e arruinou a economia do país.
O fim da guerra ocorreu com a assinatura de um acordo entre o Brasil e as Províncias
Unidas. Ambas as partes concordaram em abrir mão da Cisplatina, fato que levou à
queda da popularidade do imperador. Assim, em 1828, foi reconhecida a independência
da República Oriental do Uruguai.
Além do autoritarismo, da violência e da economia arruinada, o jogo político também
contribuiu para minar a posição do imperador. Durante o Primeiro Reinado, foram
formados, gradativamente, dois blocos entre os políticos: o partido brasileiro e o
partido português. Enquanto o primeiro representava a oposição ao imperador, o
segundo oferecia-lhe apoio.
Esses desentendimentos entre brasileiros e portugueses fizeram com que um confronto
aberto acontecesse. Esse episódio ficou conhecido como Noite das Garrafadas e durou
dias nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Como resultado, D. Pedro I renunciou ao
trono. Ao deixar sua posição, o imperador ofereceu o trono ao seu filho, Pedro de
Alcântara. Como o príncipe só poderia assumir o poder quando tivesse 18 anos de
idade, iniciou-se no país uma fase de transição, conhecida como Período Regencial.
A própria imagem de D. Pedro I era alvo de críticas. Ele ganhou popularidade
significativa quando proclamou a independência do Brasil em 7 de setembro de 1822.
O famoso Grito do Ipiranga foi um ato que consolidou seu status como líder nacional
e conquistou a admiração de muitos brasileiros que viam a independência como uma
libertação do domínio colonial português. Sua personalidade carismática e seu papel
como “pai da independência” ajudaram a estabelecer uma imagem positiva entre muitos
brasileiros. Ele era visto como um herói nacional por sua decisão de permanecer no
Brasil e liderar a separação de Portugal.
A popularidade de Dom Pedro I não foi uniforme em todo o Brasil. Ele enfrentou
oposição significativa de várias facções e regiões. Durante seu reinado, Dom Pedro teve
um relacionamento extraconjugal com Domitila de Castro Canto e Melo, que acabou
se tornando sua amante e, eventualmente, a Condessa de Leitão. Esse relacionamento
causou escândalo e foi mal visto por muitos, tanto na corte quanto entre a população.
Seu estilo de vida era opulento e suas despesas excessivas. Isso contrastava com a
realidade econômica do país e a situação financeira da monarquia. Seus gastos com
festas, viagens e manutenção de uma vida luxuosa contribuíram para críticas sobre sua
administração financeira. Além disso também enfrentou problemas de saúde que o
levaram a passar períodos fora do Brasil. Sua ausência foi notada e criticada,
especialmente quando o país enfrentava desafios internos significativos.
A crescente insatisfação com seu governo e as dificuldades políticas levaram Dom
Pedro I a abdicar do trono brasileiro em 1831. Dom Pedro I então voltou para Portugal,
onde foi coroado como Dom Pedro IV. O fato de ele abdicar em favor do filho e
retornar a Portugal foi visto por alguns como um sinal de que ele estava mais
interessado em suas próprias ambições pessoais do que na estabilidade e no bem-estar
do Brasil.
PERÍODO REGENCIAL (1831-1840)
O Período Regencial é como conhecemos o período intermediário que existiu entre o
Primeiro e o Segundo Reinado. Estendeu-se de 1831 a 1840 e foi iniciado após o
imperador D. Pedro I ter abdicado do trono em favor de seu filho no ano de 1831. Foi
encerrado em 1840 com o que ficou conhecido como Golpe da Maioridade, que garantiu
a coroação de D. Pedro II como imperador do Brasil.
Quando iniciado o Período Regencial, o Brasil foi governado por uma regência trina
de caráter provisório. Os eleitos para essa regência foram três senadores: Francisco de
Lima e Silva, Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e José Joaquim Carneiro de
Campos. As principais medidas tomadas por essa regência provisória, conforme
destacaram as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloísa Starling, foram restituir
ministros que haviam sido demitidos por D. Pedro I, convocar uma nova
Assembleia Legislativa para composição de novas leis, anistiamento de criminosos
políticos e afastar do Exército estrangeiros “desordeiros”|.
A Regência Trina Provisória teve vida curta, uma vez que a política brasileira estava
tumultuada e uma série de distúrbios espalhava-se pelo país. Assim, em junho de 1831,
foi eleita a Regência Trina Permanente, que era composta por José da Costa Carvalho,
João Bráulio Muniz e Francisco de Lima e Silva.
Durante a Regência Trina Permanente, houve três acontecimentos de destaque. Um
deles foi a criação da Guarda Nacional, uma força pública composta por homens
eleitores com idade de 21 a 60 anos de idade. Essa força foi criada com o intuito de
controlar manifestações e impedir que revoltas acontecessem.
Outra medida de destaque foi uma reforma no Poder Moderador, retirando
atribuições desse poder e dando maiores possibilidades de os deputados e senadores
vistoriarem as ações do Executivo. Por fim, um último acontecimento marcante foi o
embate político entre José Bonifácio e o padre Feijó, que resultou na saída de José
Bonifácio da vida política brasileira.
A Regência Trina Permanente também não teve força para colocar sob controle os
rumos da política nacional. Os conflitos entre Moderados, Exaltados e Restauradores
permaneciam, e revoltas pipocavam pelo país. Uma delas foi a Cabanada, que estourou
em 1832, na província de Pernambuco.
A continuidade das tensões no Brasil deixava claro que havia um choque entre o
governo e as províncias. O choque envolvia, principalmente, a questão da centralização
do poder no governo contra o desejo das províncias brasileiras de alcançarem maior
autonomia (federalismo). Para atender as demandas das províncias e colocar a situação
política sob controle, foi aprovado o Ato Adicional de 1834, uma lei que fazia
alterações na Constituição de 1824. Com o Ato Adicional, as mudanças mais sensíveis
foram:
Fim do poder moderador durante o Período Regencial;
Fim do Conselho de Estado;
Criação de Assembleias Legislativas provinciais;
Aumento dos poderes dos presidentes de província, mas a nomeação era função
do imperador;
Substituição da regência trina por uma regência una.
Com as mudanças estipuladas pelo Ato Adicional, esboçava-se no Brasil um modelo
que concedia às províncias um grau considerável de autonomia. Além disso, a eleição
de um regente para governar todo o país aproximava o Brasil de um cenário
republicano. Por isso, muitos historiadores afirmam que o Período Regencial foi uma
experiência republicana no meio de dois reinados.
Com a determinação de que o país seria governado por um regente apenas, eleições
foram organizadas. Em eleição realizada em 1835, o padre Feijó obteve 2826 votos e,
assim, derrotou Holanda Cavalcanti, que obteve 2251. A regência de Feijó ficou
marcada pela Cabanagem, no Pará, e pela Revolta dos Farrapos, no Rio Grande do Sul.
Feijó tinha humor explosivo e deparou-se com forte oposição em todas as frentes da
política brasileira. Essa oposição fez padre Feijó solicitar afastamento da função. Com
sua saída, nova eleição foi realizada, e Pedro de Araújo Lima derrotou Holanda
Cavalcanti e foi eleito regente do Brasil.
Na regência de Araújo Lima, houve o crescimento dos políticos conservadores (mescla
dos Liberais Moderados com os Restauradores) e tentativas do regente de tentar retirar
algumas das liberdades que as províncias haviam conquistado com o Ato Adicional de
1834.
POLÍTICA DO PERÍODO REGENCIAL
O Período Regencial ficou marcado pela intensa movimentação política que acontecia
no país. O debate político nesse período foi bastante acalorado e girava em torno de três
grupos políticos, que gradativamente se transformaram nos dois partidos políticos do
Segundo Reinado. No caso do Período Regencial, os principais grupos políticos eram:
Liberais moderados: em geral, eram monarquistas que defendiam a limitação do poder
do imperador. Defendiam uma monarquia constitucional no país e tinham no padre
Feijó o seu maior representante.
Liberais exaltados: eram defensores abertos do federalismo, isto é, de ampliar a
autonomia das províncias brasileiras. Alguns dos exaltados eram defensores da
república, e o nome mais influente desse grupo foi Cipriano Barata.
Restauradores: eram defensores do retorno de D. Pedro I ao trono brasileiro e tinham
nos irmãos Andrada (José Bonifácio era um deles) seus maiores expoentes.
Ao longo do Período Regencial, esses grupos foram convertendo-se nos dois partidos
que centralizaram a política durante o Segundo Reinado. O Partido Liberal surgiu da
mescla dos liberais moderados com os exaltados, e o Partido Conservador surgiu da
mescla dos liberais moderados com os restauradores.
REVOLTAS DO PERÍODO REGENCIAL
Cabanagem (1835 – 1840) - Pará
No Pará, uma minoria branca, composta de pequenos comerciantes portugueses,
franceses e ingleses estava concentrada em Belém, por onde fluía uma pequena
produção de tabaco, borracha, cacau e arroz. A maioria da população era formada por
indígenas, escravizados e dependentes. Com uma tropa com negros e indígenas em sua
base, a Cabanagem atacou e conquistou Belém, estendendo-se até o interior. Os
revoltosos declararam a Independência do Pará, mas não apresentaram nenhuma saída
efetiva para o estado. Os ataques concentravam-se aos estrangeiros e aos maçons e
defendiam a Igreja Católica, D. Pedro II, o Pará e a liberdade, embora não tenham
abolido a escravidão, mesmo com muitos africanos entre os cabanos rebeldes. A
rebelião foi vencida pelas tropas legalistas.
Sabinada (1837 – 1838) – Bahia
O nome atribuído à revolta, Sabinada, remete ao nome de seu principal líder, Sabino
Barroso, um jornalista e professor da Escola de Medicina de Salvador. Ocorrida em
Salvador, na Bahia, a revolta tinha uma boa base de apoio, especialmente entre as
classes médias e comerciantes de Salvador, que já apresentavam ideias federalistas e
republicanas. O movimento separou os escravos entre nacionais – nascidos no Brasil – e
estrangeiros – nascidos em África – e buscou comprometimento em relação aos
escravos. Caso a revolta tivesse sucesso e a tomado do poder se concretizasse, os
escravizados nacionais que tivessem pegado em armas seriam libertados. Mas, as forças
governamentais logo recuperaram a cidade de Salvador, numa luta violenta que gerou
aproximadamente 1800 mortes.
Balaiada (1838 – 1840) – Maranhão
A Balaiada foi uma revolta ocorrida no Maranhão, iniciada por conta de disputas entre
as elites locais. Em uma área ao sul do Maranhão, com pequenos produtores de algodão
e criadores de gado. Os revoltosos tiveram como líderes Raimundo Gomes e Francisco
dos Anjos Ferreira, um vendedor de balaios. É de seu ofício que vem o nome de revolta
maranhense. Enquanto Ferreira tinha uma motivação pessoal ao entrar na revolta –
vingar sua filha violentada por um capitão da polícia, Cosme, um outro líder, aparece à
frente de três mil escravos fugidos que se juntaram à Balaiada. Os revoltosos saudavam
a Igreja Católica, a Constituição e D. Pedro II e não apresentavam grandes
preocupações sociais ou econômicas. Logo foram derrotados, em meados de 1840, pelas
tropas do governo. O líder Cosme foi enforcado em 1842 enquanto a anistia aos
revoltosos esteve condicionada à reescravização dos negros rebeldes.
Revolta do Malês (1835) - Bahia
A Revolta do Malês foi organizada por muçulmanos de origem Iorubá – nagôs – que
viviam na Bahia. Durou menos de um dia, mas é uma importante revolta que demonstra
a organização entre os sujeitos escravizados no período. Com a maioria da população de
origem africana, esta era uma questão latente na Bahia. Escravos e libertos urbanos
circulavam pela cidade e dividiam os trabalhos diários – e às vezes até as moradias –
formando laços de sociabilidade e solidariedade, que facilitavam as ações políticas. Os
trabalhadores urbanos mais alguns escravos de engenho decidiram se rebelar com a
intenção de formar uma Bahia Malê, que seria controlada por africanos, tendo à frente
representantes muçulmanos. Mesmo intencionando a tomada de poder, logo a revolta
foi controlada.
Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos (1835 – 1845)
A Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos Foi a mais longa e duradoura das
revoltas do período regencial, deflagrada por conta de aumentos de impostos. Mas, em
20 de setembro de 1835 foi proclamada a República Rio-Grandense, tendo como líder
Bento Gonçalves que governou a província em 1837. Com o comando de Giuseppe
Garibaldi proclamaram em Santa Catarina a República Juliana. A revolta ultrapassou o
período regencial e só foi finalizada no segundo reinado.
GOLPE DA MAIORIDADE
O fim do Período Regencial foi resultado da disputa política entre liberais e
conservadores. Os liberais insatisfeitos com a regência de Araújo Lima, um
conservador, reagiram defendendo a antecipação da maioridade do príncipe do Brasil,
Pedro de Alcântara. Os liberais conseguiram conquistar o apoio da maioria dos
deputados e senadores e realizar o Golpe da Maioridade em 1840.
Com esse golpe, Pedro de Alcântara teve a sua maioridade antecipada e tornou-se
imperador do Brasil com 14 anos de idade. Esse ato iniciou o Segundo Reinado e
deixou os liberais satisfeitos porque foi retirado o poder das mãos dos conservadores.
Os liberais também esperavam que a coroação do imperador colocasse fim à série de
revoltas provinciais que aconteciam no país.
SEGUNDO REINADO (1840-1889)
O Segundo Reinado iniciou-se em 1840 por meio do Golpe da Maioridade. Por meio
desse movimento, os políticos brasileiros, pela via dos liberais, anteciparam a
maioridade de D. Pedro II para que ele pudesse assumir o trono. Isso aconteceu porque
os liberais queriam recuperar o poder que estava nas mãos dos conservadores e porque
acreditavam que a coroação do imperador colocaria fim em todos os conflitos que se
passavam no país. Assim foi iniciado o Segundo Reinado, período que se estendeu por
49 anos e que pode ser dividido da seguinte maneira:
Consolidação (1840-1850): quando o imperador estava no poder e estabeleceu-o, a seu
modo, sobre o país, colocando políticos e províncias rebeldes sob seu controle.
Auge (1850-1865): quando o poder do imperador era amplo e sua posição estava
consolidada.
Declínio (1865-1889): quando surgem contestações contra a posição de D. Pedro II, e a
economia do país não ia bem.
POLÍTICA DO SEGUNDO REINADO
No caso da política durante o Segundo Reinado, o primeiro destaque a ser feito se dá
pela atuação dos partidos políticos existentes. Os dois partidos que atuaram na política
brasileira nesse período formaram-se durante o Período Regencial e eram conhecidos
como Partido Conservador e Partido Liberal.
A disputa pelo poder realizada por conservadores e liberais era intensa e tinha impactos
negativos para a política brasileira, pois gerava muita instabilidade. A saída encontrada
pelo imperador foi promover uma política de revezamento em que conservadores e
liberais alternavam-se na liderança do gabinete ministerial. Isso reduziu um pouco os
conflitos.
Ambos partidos tinham leves diferenças de posição ideológica e de classe em que se
apoiavam. Conservadores eram partidários de uma grande centralização do poder
nas mãos do imperador, enquanto os liberais defendiam uma maior autonomia
local para as províncias. Nesse sentido, as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloísa
Starling falam que conservadores sustentavam-se na “aliança da burocracia com o
grande comércio e a grande lavoura de exportação”, e os liberais, em “profissionais
liberais urbanos unidos à agricultura de mercado interno”.
Apesar disso, uma crítica muito forte à atuação dos dois partidos e que já era realizada
na época é a de que as divergências entre os liberais e conservadores eram quase
inexistentes. Também se dizia, à época, que não havia nada mais parecido com um
conservador do que um liberal no poder.
A distribuição do poder durante o Segundo Reinado acontecia de forma que o
imperador tivesse amplos poderes na política. O imperador representava pessoalmente o
Poder Moderador e estava à frente do Executivo. No Executivo também constava o
Conselho de Estado. No caso do Legislativo, destacam-se os cargos de senador e
deputado.
Por fim, da política brasileira, um último e importante destaque a ser mencionado é o
que ficou conhecido como parlamentarismo às avessas. O Brasil funcionava como
uma monarquia parlamentarista na qual o imperador interferia na política sempre que
fosse necessário para garantir seus interesses. Assim, se fosse eleito um primeiro-
ministro que não lhe agradasse, ele o destituía, e se a Câmara tomasse medidas que não
lhe agradassem, ela era dissolvida.
ECONOMIA DO SEGUNDO REINADO
Em termos econômicos, o grande destaque vai para a economia cafeeira, que se
consolidou durante o Segundo Reinado como o principal meio de produção da
economia brasileira. As zonas produtoras de café do Brasil nesse período foram três:
Vale do Paraíba (RJ/SP), Oeste Paulista (SP) e Zona da Mata (MG).
A produção do café aconteceu (primeiramente no Vale do Paraíba) utilizando-se,
principalmente, de trabalhadores escravizados. Inclusive, à medida que o número de
escravos foi sendo reduzido no país, as regiões produtoras de café tornaram-se grandes
compradoras de escravos. O Oeste Paulista utilizou, a princípio, a mão de obra escrava,
mas, ao longo da década de 1880, essa foi substituída pelos imigrantes que passaram a
chegar em grande volume no país.
Outro momento importante da economia brasileira, durante o Segundo Reinado, foi o de
grande crescimento econômico marcado por algum desenvolvimento industrial: a Era
Mauá. A Era Mauá é determinada pelas ações do Barão de Mauá, político e industrial
brasileiro, no intuito de acelerar o cenário industrial do País. Entre suas ações para o
impulso da economia, estão: criação de estaleiros e fundições, companhias de linhas
telegráficas, ferrovias, iluminação a gás, transporte urbano, entre outros negócios. O
Barão tinha, até mesmo, bancos no Brasil e no exterior. Tal prosperidade econômica
aconteceu entre 1840-1860, e nela as receitas do Brasil aumentaram quatro vezes.
O crescimento econômico desse período é muito atribuído ao reflexo do fim do tráfico
negreiro no país por meio da Lei Eusébio de Queirós, de 1850. Com essa lei, o tráfico
negreiro foi proibido, e todos os recursos, que antes eram utilizados na aquisição de
escravos, passaram a servir para outros investimentos. As exportações do país
aumentaram, e o investimento em estradas de ferro, por exemplo, aumentou bastante.
GUERRA DO PARAGUAI (1864-1870)
CAUSAS DA GUERRA DO PARAGUAI
Diferentemente do que se pensava décadas atrás, as causas da Guerra do Paraguai não
se relacionavam ao imperialismo da Inglaterra, pois estudos recentes, realizados a partir
de comprovação documental, mostraram que esse conflito foi resultado do processo de
formação e consolidação das nações da Bacia Platina.
PRINCIPAIS ACONTECIMENTOS DA GUERRA
Os primeiros atos de agressão relacionados ao início da Guerra do Paraguai foram o
aprisionamento de uma embarcação brasileira (Marquês de Olinda), que navegava pelo
rio Paraguai em direção a Cuiabá, e a invasão do Mato Grosso (atual Mato Grosso do
Sul), ocorrida em 26 de dezembro de 1864. O ataque paraguaio ao Brasil foi uma
represália à invasão do território uruguaio, conduzida pelo governo brasileiro em favor
dos colorados e contra os blancos (aliados de Solano López).
A ocupação paraguaia no Mato Grosso foi conduzida por 7.700 soldados, que
derrotaram facilmente as fracas forças de defesa dessa região (875 militares do Exército
e 3 mil membros da Guarda Nacional). Esse território continuou sob posse paraguaia até
meados de 1868, principalmente devido à dificuldade de acesso ao Mato Grosso.
Naquela época, o único caminho para essa província consistia na navegação dos rios da
Bacia Platina.
Em seguida, as forças de Solano López foram encaminhadas em direção ao Rio Grande
do Sul e ao Uruguai. Solano enviou milhares de soldados para o Uruguai com o objetivo
de socorrer os blancos na guerra contra o Brasil e os colorados. Para isso, solicitou
passagem por Corrientes para Mitre, presidente argentino.
Mitre, que era aliado dos colorados na Guerra Civil Uruguaia, negou o direito de
passagem às tropas paraguaias. Como consequência, Solano López declarou guerra à
Argentina e invadiu Corrientes. Essa declaração de guerra ocasionou o surgimento da
Tríplice Aliança, formada por Brasil e Argentina, juntamente com colorados uruguaios,
para lutar contra os paraguaios. Essa aliança foi formalizada em 1º de maio de 1865.
A ofensiva paraguaia no Rio Grande do Sul e em Corrientes foi um grande fracasso. As
tropas paraguaias conquistaram a inimizade das populações locais por causa dos saques
realizados e foram cercadas por tropas adversárias, sendo forçadas à rendição ou
retirada. A partir dessas derrotas, que ocorreram na segunda metade de 1865, o Paraguai
assumiu uma posição defensiva na guerra.
Coube aos membros da Tríplice Aliança organizar os ataques contra as forças
paraguaias, posicionadas defensivamente no sul do país. Para o Brasil, a guerra
representava um verdadeiro pesadelo logístico, uma vez que acontecia em uma região
de difícil acesso, distante dos grandes centros brasileiros.
Um confronto extremamente importante para os rumos da guerra aconteceu em junho de
1865: a Batalha Naval de Riachuelo. Nessa batalha, a Marinha brasileira alcançou
uma vitória importantíssima, destruiu parte considerável da frota naval paraguaia e
garantiu o controle das águas platinas para a Tríplice Aliança, isolando o Paraguai e
impedindo-o de receber provisões essenciais para a continuidade da guerra.
Além da derrota em Riachuelo, as derrotas nas campanhas no Rio Grande do Sul e em
Corrientes mantiveram o Paraguai em uma posição defensiva. Apesar dessa fragilidade
paraguaia, a longa duração da guerra (finalizada em 1870) explica-se pelos seguintes
fatores:
Desentendimentos no comando dos exércitos da Tríplice Aliança atrasaram as ações
militares. O comando das tropas era função de Bartolomé Mitre, mas problemas de
convívio com o Marquês de Tamandaré atrapalhavam o gerenciamento das tropas e
a tomada de decisões.
A geografia do território paraguaio, repleta de pântanos, impedia as movimentações
militares e o melhor posicionamento da artilharia durante as batalhas.
O pouco conhecimento desse território, resultado de anos de isolamento do
Paraguai, dificultava as ações militares, uma vez que as lideranças militares
tomavam ações mais conservadoras motivadas pelo desconhecimento do mapa desse
país.
Maior disponibilidade de tropas para os exércitos paraguaios e moral mais elevado
por terem sido convencidos por Solano López de que a guerra era um conflito em
defesa da independência paraguaia.
Outros destaques podem ser feitos dessa fase defensiva do Paraguai na guerra, tais como
as duas batalhas em Tuiuti, travadas em 1866 e 1867, ambas com vitória da Tríplice
Aliança. Uma grande derrota brasileira ocorreu na Batalha de Curupaiti, quando muitos
soldados brasileiros morreram (os números variam entre 4 mil e 9 mil mortos).
DESFECHO DA GUERRA DO PARAGUAI
A fase final da guerra foi marcada pelo esgotamento do Paraguai e pelas sucessivas
derrotas, com destaque para a capitulação da fortaleza de Humaitá em 1868 e a invasão
e o saque de Assunção em 1º de janeiro de 1869. Depois da conquista de Assunção, a
guerra transformou-se em uma caçada a Solano López — que foi considerado traidor da
pátria pelo governo provisório paraguaio a partir de 1869. Nesse período (1868-1869),
os exércitos brasileiros foram liderados por Caxias, o maior nome do exército brasileiro.
A partir de finais de 1869, a liderança dos exércitos brasileiros foi assumida por Conde
d’Eu, já que Caxias era contrário à continuação do conflito. A caçada a Solano
encerrou-se na batalha de Cerro Corá, em março de 1870, quando soldados brasileiros
mataram o ex-ditador paraguaio. Finalizava-se assim a Guerra do Paraguai.
CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA DO PARAGUAI
A Guerra do Paraguai gerou consequências, em diferentes graus, para todas as nações
envolvidas. No caso da Argentina, a guerra resultou na consolidação do território
argentino e na derrota definitiva dos federalistas de Entre Ríos e Corrientes. Apesar
disso, o presidente Mitre não conseguiu eleger seu candidato nas eleições de 1868.
No caso uruguaio, o país saiu também consolidado, com a superação definitiva das
disputas políticas entre blancos e colorados. No entanto, o presidente uruguaio,
Venancio Flores, foi assassinado em Montevidéu, em 1868.
Para o Brasil, a guerra gerou forte impacto na economia, uma vez que os gastos do
Brasil foram 11 vezes o orçamento anual do país em 1864. Além disso, o governo
brasileiro saiu bastante endividado, sobretudo com bancos ingleses, em decorrência dos
empréstimos feitos para financiar o conflito. A guerra também fortaleceu o exército
como instituição e marcou o início da decadência da monarquia.
O Paraguai foi a nação mais prejudicada na guerra, afinal, grande parte das batalhas
aconteceu em território paraguaio, o que lhe causou grande destruição material. A nação
ainda foi obrigada a abrir mão dos litígios territoriais que travava com Brasil e
Argentina. O país só não perdeu mais territórios para a Argentina porque o governo
brasileiro tratou de defender a soberania do território paraguaio como forma de evitar o
maior fortalecimento dos argentinos.
Em relação à quantidade de mortos, o saldo foi o seguinte: Uruguai: 3.120 mortos /
Argentina: 18 mil mortos / Brasil: 50 mil mortos.
O caso paraguaio é mais complexo por causa da imprecisão nas estatísticas dos censos
realizados no país após o conflito. Ao longo dos anos, diferentes estudos foram feitos
sobre a quantidade de mortos na guerra, cujas estatísticas variaram, de acordo com os
diferentes pesquisadores, entre 25 mil e 300 mil mortos. A estimativa mais aceita
apontou a morte de, aproximadamente, 150 mil paraguaios na Guerra do Paraguai.
ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO E FIM DO IMPÉRIO DO BRASIL (1888-1889)
A abolição da escravatura foi um dos acontecimentos mais marcantes da história do
Brasil e determinou o fim da escravização dos negros no Brasil. A abolição do trabalho
escravo ocorreu por meio da Lei Áurea, aprovada no dia 13 de maio de 1888 com a
assinatura da regente do Brasil, a princesa Isabel. A abolição da escravatura foi a
conclusão de uma campanha popular que pressionou o Império para que a instituição da
escravidão fosse abolida de nosso país.
A abolição do trabalho escravo foi um assunto debatido em nosso país ao longo de todo
o século XIX. Esse assunto já era discutido por algumas personalidades nos primeiros
anos de nossa independência, como José Bonifácio, e se arrastou ao longo de todo o
período monárquico. Mas o primeiro assunto que tomou real importância no cenário
político de nosso país foi a proibição do tráfico negreiro.
O tráfico existia no Brasil desde meados do século XVI, porém, no século XIX, os
ingleses começaram a pressionar, primeiramente, Portugal e, em seguida, o Brasil para
que o tráfico negreiro fosse proibido aqui. A pressão inglesa fez o Brasil assumir
compromissos com a proibição do tráfico negreiro, na década de 1820.
Esse compromisso resultou na Lei Feijó, de 1831, mas, mesmo assim, o tráfico negreiro
continuou desembarcando milhares de africanos todos os anos no Brasil. Em 1845, a
Inglaterra, enfurecida com a postura permissiva do Brasil com o tráfico negreiro,
decretou o Bill Aberdeen, lei que permitia às embarcações britânicas invadirem nossas
águas territoriais para apreender os navios negreiros.
O risco de uma guerra entre Brasil e Inglaterra por conta do Bill Aberdeen fez com que
fosse aprovada uma lei, em 1850, conhecida como Lei Eusébio de Queirós. Essa lei
decretava a proibição definitiva sobre o tráfico negreiro no Brasil, mas permitia que os
africanos que chegaram após a lei de 1831 continuassem como escravos. Com essa lei, a
repressão ao tráfico negreiro foi efetiva e, de 1851 até 1856, “somente” 6900 africanos
chegaram ao Brasil.
Com a proibição do tráfico, foi iniciado um processo de transição, pois, uma vez que a
fonte que renovava os números de escravos no Brasil tinha acabado, era natural que
com o tempo a escravidão no país fosse abolida, já que não havia a renovação natural da
população de escravos no país. A intenção dos escravocratas era tornar essa transição a
mais longa possível.
Na década de 1860, a pressão sobre o Império pelo fim da escravidão era enorme,
porque a Rússia havia acabado com a servidão em seu território, e os Estados Unidos
haviam abolido a escravidão depois da guerra civil. Isso tornava o Brasil, Porto Rico e
Cuba os últimos locais escravocratas do continente americano.
Nesse contexto, o movimento abolicionista começou a se estruturar, mas, politicamente,
a pauta não avançava por conta da Guerra do Paraguai. Com o fim do conflito, em 1870,
os movimentos abolicionistas ganharam força e o debate pelo fim da escravidão além de
tornar-se pauta importante na política, também tornou-se um debate relevante na
sociedade brasileira.
MOVIMENTO ABOLICIONISTA NO BRASIL
A abolição da escravatura no Brasil não foi resultado da benevolência do Império, como
muitos acreditam. Essa conquista foi resultado do engajamento popular contra essa
instituição, e a pressão popular sobre o Império foi o fator que fez com que a escravidão
fosse abolida em 13 de maio de 1888.
Conforme o movimento abolicionista ganhava força, os grupos escravocratas
articulavam-se politicamente para barrar o avanço do abolicionismo. O debate no campo
político encaminhou a aprovação de uma lei, em 1871, conhecida como Lei do Ventre
Livre: essa lei declarava que todo nascido de escrava, a partir de 1871, seria declarado
livre, mas desde que prestasse um tempo de serviço, sendo libertado com oito anos (com
indenização) ou com vinte e um anos (sem indenização).
Essa lei foi decretada para atender uma série de interesses dos donos de escravos, mas
foi utilizada frequentemente por advogados e rábulas (advogado sem formação
acadêmica) abolicionistas na defesa dos escravizados. Essa atuação na lei foi uma das
formas de resistência popular contra a instituição da escravidão em nosso país. Outra lei
criada pelos escravocratas para atender seus interesses de transição gradual foi a Lei dos
Sexagenários, de 1885.
A mobilização abolicionista, por sua vez, não ficou reclusa a isso. Entre 1868 e 1871,
surgiram 25 associações que defendiam a abolição em diferentes províncias do Brasil.
Um dos nomes que já estava envolvido com essas associações foi Luís Gama, advogado
negro que atuou arduamente na defesa da abolição.
O crescimento da causa abolicionista aconteceu a partir da década de 1870, mas, na
década de 1880, esse foi o assunto mais debatido do país. O crescimento do
abolicionismo é expresso no dado que aponta que, entre 1878 e 1885, surgiram 227
associações abolicionistas no país. Essa quantidade de associações contribuiu para
espalhar a causa publicamente e fez com que as classes populares do país começassem a
defender o abolicionismo.
Entre essas associações, a maior e mais importante delas foi a Confederação
Abolicionista, associação criada por André Rebouças e José do Patrocínio. A
historiadora Ângela Alonso alega que a Confederação Abolicionista “coordenou a
propaganda em escala nacional, agrupando associações e desencadeando a campanha de
libertação”.
A resistência contra a escravidão também ocorreu nas vias “ilegais” (pela legislação da
época) e era comum que pessoas abrigassem escravos fugidos e que essas associações
abolicionistas organizassem movimentos que roubavam escravos de seus donos e os
levavam para o Ceará (local onde a abolição aconteceu em 1884). Caso tenha interesse
em saber mais sobre isso, sugerimos a leitura deste texto: Caifazes e o abolicionismo
popular.
Esses grupos abolicionistas criavam rotas de fuga para os escravos, divulgavam
panfletos, publicavam textos em defesa da causa em jornais, organizavam conferências
e eventos públicos, forjavam papeis de alforria etc. Grupos intelectualizados, como
escritores, advogados e jornalistas aderiram à causa, mas também grupos populares,
como associações de trabalhadores.
A movimentação contra a escravidão não aconteceu apenas pela população livre do
Brasil, mas contou com o envolvimento fundamental dos escravos. Segundo o
historiador João José Reis|5|, a ação dos escravos foi fundamental, pois impôs os limites
aos senhores de escravos e contribuiu abertamente para a abolição da escravatura em
1888.
Durante todo o século XVIII, mas, principalmente a partir da década de 1870, os
escravos organizaram-se e rebelaram-se contra a escravidão. Entre as formas de
resistência estão as fugas que poderiam ser individuais ou coletivas, as revoltas que
exigiam melhorias no seu trato e havia revoltas que resultavam na morte dos senhores
de escravos.
Os escravos que fugiam abrigavam-se em quilombos que, na segunda metade do século
XIX, se espalharam pelo país, sobretudo em regiões como Santos e o Rio de Janeiro.
Em um desses quilombos – o Quilombo do Leblon – surgiu o símbolo do movimento
abolicionista na década de 1870 e 1880: a camélia branca.
Nesse quilombo, os escravos cultivavam camélias brancas para vender e, com o tempo,
essa flor tornou-se símbolo da causa. Isso foi resultado da propaganda abolicionista e,
segundo as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloísa Starling afirmaram, “portar uma
camélia na botoeira do paletó ou cultivá-la no jardim de casa era gesto político”. Esse
gesto demonstrava que a pessoa apoiava a causa abolicionista.
A LEI ÁUREA
A adesão de diferentes grupos ao abolicionismo fez com que a causa ganhasse força em
nível nacional. Essa ação, como percebemos, mobilizou os próprios escravos, contou
com a adesão de diferentes grupos da sociedade e tomou espaço no debate político. Em
1887, a situação era insustentável: as revoltas de escravos espalhavam-se pelo país e as
autoridades não conseguiam mais controlá-las.
Os abolicionistas chegaram até a convocar a população às armas para defender a causa
abolicionista, e, no começo de 1888, parte dos grupos políticos que defendiam a
escravidão acabaram aderindo à causa abolicionista. O projeto pela abolição foi
proposto pelo político do Partido Conservador João Alfredo, e, após ser aprovada pelo
Senado, foi levada para que a regente do Brasil, a princesa Isabel assinasse a Lei Áurea,
em 13 de maio de 1888.
Com a aprovação da Lei Áurea, a festa do povo espalhou-se pelas ruas do Rio de
Janeiro e foi estendida por dias. As festas populares não aconteceram somente no Rio de
Janeiro, mas espalharam-se pelo país e ocorreram em locais como Recife e Rio de
Janeiro e em zonas rurais do país.
PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA
ANTECEDENTES
A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, foi o resultado de um longo
processo de crise da monarquia no Brasil. O regime monárquico começou a entrar em
decadência logo após o fim da Guerra do Paraguai, em 1870, o que resultou da
incapacidade da monarquia em atender aos interesses e demandas da sociedade
brasileira.
Uma série de novos atores e novas ideias políticas surgiu e ganhou força por meio do
movimento republicano, estruturado oficialmente a partir de 1870, quando foi lançado o
Manifesto Republicano. Ao redor das ideias republicanas, formou-se um grupo
consistente que organizou um golpe contra a monarquia em 1889.
Disputas políticas e a consolidação do Exército como uma instituição profissional foram
dois fatores de peso na crise. A exigência pela modernização do país fez com que
muitos civis e militares enxergassem na república a solução para o país, uma vez que a
monarquia começou a ser considerada incapaz para as demandas existentes.
PRINCIPAIS CAUSAS DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA
MILITARES
A insatisfação dos militares estava diretamente relacionada com a profissionalização da
corporação. Depois disso, eles começaram a exigir melhorias em sua carreira como
reconhecimento aos serviços prestados no Paraguai. As principais exigências eram
melhorias salariais e no sistema de promoção.
Outra forte insatisfação teve relação com o envolvimento do Exército Brasileiro com a
política. Os militares entendiam-se como tutores do Estado brasileiro e, por isso,
queriam ter o direito de manifestar suas opiniões políticas publicamente. Um caso
simbólico aconteceu em 1884, quando o oficial Sena Madureira foi punido por mostrar
apoio aos abolicionistas do Ceará.
A monarquia também procurou censurar os militares, proibindo que eles manifestassem
suas opiniões em jornais e nas corporações militares. Havia também exigências entre os
militares para que o Brasil se convertesse em um país laico. Internamente, as
insatisfações militares se reuniram ao redor da ideologia positivista.
Com base no positivismo, os militares passaram a reivindicar que a modernização do
Brasil se daria por meio de um governo republicano ditatorial. Assim, eles acreditavam
que era necessário escolher um governante que conduzisse o país no caminho da
modernização e, se necessário, esse governante poderia se afastar das vontades
populares.
POLITICA E SOCIEDADE
A política no Segundo Reinado sempre foi complicada, sobretudo pela briga ferrenha
entre conservadores e liberais. Essa situação se agravou com a crise de sub-
representação de algumas províncias. Na segunda metade do século XIX, o eixo
econômico do país tinha consolidado sua mudança do Nordeste para o Sudeste.
A província de São Paulo já havia se colocado como o grande centro econômico do
Brasil, mas as elites paulistas se incomodavam com o fato de sua representação na
política ser pequena. Outras províncias economicamente decadentes, como o Rio de
Janeiro e a Bahia, gozavam de grande representatividade política.
Essa situação indispôs as elites dessa província com a monarquia, e isso nos ajuda a
entender, por exemplo, por que a província de São Paulo teve o maior partido
republicano do Segundo Reinado, o Partido Republicano Paulista (PRP).
Havia também sub-representação da sociedade no sistema político. As cidades cresciam
e novos grupos sociais se estabeleciam. Esses grupos emergentes demandavam maior
participação na política brasileira, e o caminho tomado foi o inverso. Os liberais
defendiam ampliação do voto para enfraquecer os conservadores e os grandes
fazendeiros, mas os conservadores conseguiram aprovar a Lei Saraiva, em 1881.
Essa lei determinou novos critérios para quem teria direito ao voto, e, após sua
aprovação, o número de eleitores no Brasil caiu de 1.114.066 pessoas para 157.296
pessoas. Isso correspondia a apenas 1,5% da população brasileira, ou seja, as demandas
por participação não foram atendidas e a exclusão existente foi ampliada.
Essas novas elites passaram a ocupar os espaços políticos de outras formas e
manifestavam suas opiniões por meio de jornais, associações e manifestações públicas
em defesa de causas como o Estado laico. Essa insatisfação com os problemas da
monarquia, obviamente, reforçou a causa republicana no país.
Em 1870, foi lançado o Manifesto Republicano, documento que criticava a
centralização do poder na monarquia e exigia um modelo federalista (que desse
autonomia às províncias) no Brasil. Esse manifesto também atribuiu à monarquia a
responsabilidade dos problemas do país e indicava a república como a solução. O
manifesto foi um norteador do movimento republicano no fim do império.
Outra causa que reforçou muito o movimento republicano foi a defesa da abolição. O
abolicionismo mobilizou a sociedade brasileira na década de 1880, e grande parte dos
abolicionistas defendia a república.
De forma geral, a socióloga Ângela Alonso resume que a monarquia brasileira se
estruturou no seguinte tripé:
participação política restrita;
escravismo (e exclusão do elemento africano); e
catolicismo como defensor das hierarquias sociais
As décadas de 1870 e 1880 vieram justamente questionar esse tripé, pois havia
demandas por maior participação social, o abolicionismo exigia a inserção do negro na
sociedade, e o laicismo procurou estabelecer uma sociedade laica.
15 DE NOVEMBRO
Havia então insatisfações com a monarquia em diferentes camadas da nossa sociedade.
Elites emergentes, militares, políticos, classes populares e escravizados eram grupos
com críticas à monarquia. Todas essas insatisfações, em algum momento na década de
1880, tornaram-se uma conspiração. Ao longo dessa década, as manifestações públicas
começaram a se tornar comuns, e críticas ao imperador cresciam. Um atentado contra o
carro do imperador, em julho de 1889, motivou o império a proibir manifestações
públicas em defesa da república, mas o Brasil estava em um caminho sem volta, pois o
grupo de insatisfeitos era muito grande.
Em novembro de 1889, a conspiração estava em curso e contava com nomes como
Aristides Lobo, Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Rui Barbosa, Sólon
Ribeiro, entre outros. O que faltava para os conspiradores era a adesão do marechal
Deodoro da Fonseca, um militar influente e primeiro presidente do Clube Militar.
Em 10 de novembro, os defensores do golpe contra a monarquia se reuniram com
Deodoro para convencê-lo a tomar participação no movimento. Nos dias seguintes, os
boatos de que uma conspiração estava em curso começaram a ganhar força e, no dia 14,
informações falsas sobre a monarquia começaram a ser anunciadas em público, com o
objetivo de arregimentar apoiadores.
O golpe contra a monarquia seguiu no dia 15, quando o marechal Deodoro da Fonseca
e tropas foram até o quartel-general localizado no Campo do Santana. Foi exigida a
demissão do Visconde de Ouro Preto da presidência do gabinete ministerial. O visconde
se demitiu e foi preso por ordem de Deodoro da Fonseca.
Entretanto, o marechal estava à espera de que o imperador fosse organizar um novo
gabinete e, por isso, deu vivas a D. Pedro II, e então retornou para seu domicílio. A
derrubada do gabinete não colocou fim nos acontecimentos do dia 15, e as negociações
políticas seguiram. Republicanos decidiram realizar uma sessão extraordinária na
Câmara Municipal do Rio de Janeiro para que ocorresse uma solenidade de
Proclamação da República.
A Proclamação da República aconteceu na Câmara, sendo anunciada pelo vereador José
do Patrocínio. Houve celebração nas ruas do Rio de Janeiro, com os envolvidos na
proclamação puxando vivas à república e cantando A Marselhesa (canção
revolucionária propagada durante a Revolução Francesa) nas ruas da capital.
Durante essa sucessão de acontecimentos, foi organizada uma tentativa de resistência
sob a liderança de André Rebouças e Conde d’Eu, marido da princesa Isabel, mas o
intento fracassou. D. Pedro II permaneceu crente de que a situação seria facilmente
resolvida, mas não foi assim que aconteceu.
Um governo provisório foi formado, o marechal Deodoro da Fonseca foi nomeado
como presidente do Brasil (o primeiro de nossa história) e outros envolvidos com o
golpe assumiram pastas importantes no governo. A família real foi expulsa no dia 16 de
novembro, e, no dia seguinte, seus membros embarcaram com seus bens para a cidade
de Lisboa, em Portugal.
A Proclamação da República mudou radicalmente a história brasileira. Trocaram-se os
símbolos nacionais, e novos heróis, como Tiradentes, foram estabelecidos. Além da
mudança da forma de governo, o Brasil passou a ser uma nação com poder
descentralizado, pois foi implantado o federalismo. Mudanças aconteceram no sistema
eleitoral, pois o critério censitário foi abandonado, e foi estabelecido o sufrágio
universal masculino para homens com mais de 21 anos.
O Brasil se tornou um Estado laico, e o presidencialismo tornou-se o sistema de
governo. A organização da república tomou forma quando foi promulgada uma nova
Constituição no ano de 1889. A década de 1890 ficou marcada como um período de
disputa entre republicanos e monarquistas e deodoristas e florianistas.