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Romance Adolescente em Nam-gu

O documento narra a história de um jovem estudante que se apaixona por Jungkook, um hóspede do hotel da sua família. A relação entre os dois se desenvolve em meio a trocas de favores e situações embaraçosas, enquanto o protagonista lida com suas emoções e descobertas sobre si mesmo. A narrativa explora temas de amor, amizade e a descoberta da identidade durante a adolescência.

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Romance Adolescente em Nam-gu

O documento narra a história de um jovem estudante que se apaixona por Jungkook, um hóspede do hotel da sua família. A relação entre os dois se desenvolve em meio a trocas de favores e situações embaraçosas, enquanto o protagonista lida com suas emoções e descobertas sobre si mesmo. A narrativa explora temas de amor, amizade e a descoberta da identidade durante a adolescência.

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Prólogo

Dedicado a _otter

Eu tinha dezesseis anos quando nos conhecemos. Jungkook tinha vinte e um.

Na época eu era um estudante com mais notas ruins que boas e nenhuma
disposição pra fazer qualquer coisa mais produtiva que perder horas no twitter.
Ele, por outro lado, já estava acompanhando o pai em viagens de negócios,
visitando todas as filiais da empresa que herdaria.

Como minha família era dona da única hospedagem tradicional do distrito de


Nam-gul e seu pai, Jeon Dong-yul, era um tradicionalista fervoroso, nosso hotel
foi o escolhido para que passassem os dias que ficariam na passassem os dias
que ficariam na cidade avaliando a filial local.

Não havia motivo algum para que meu caminho se cruzasse ao de Jungkook
com mais que algum cumprimento educado caso nos encontrássemos
acidentalmente na recepção do hotel. Entretanto, uma troca de favores boba
reverteu o que eu acreditava ser o rumo natural daquela relação e mais tarde, no
mesmo dia em que o vi de relance pela primeira vez, fui parar em seu quarto.

Eu não deveria ser visto, mas fui.

Eu não deveria me apaixonar, mas me apaixonei.

E desde então nós dois já sabíamos. Eu já era dele mesmo quando ainda não
podia ser.

[1] Nam-gu é um distrito de Gwangju, na Coreia do


01 • Quid Pro Quo

Era a primeira semana do verão, mas o tempo já estava tão quente que eu mal
aguentava ficar dentro do meu próprio quarto.

Por isso, naquele dia, eu deixei o conforto do meu cafofo particular e me juntei a
Hyelin na recepção do hotel da minha família, onde um ventilador acima da
bancada trabalhava preguiçosamente para aliviar o calor.

Como hospedagens tradicionais não eram tão populares entre nativos e o


turismo nunca foi um ponto forte de Nam-gu, o movimento de hóspedes era fraco
até mesmo durante o que chamávamos de meses de alta estação. Graças a isso,
meus pais não viam muito problema em me deixar estudar ali, na recepção,desde
que eu não incomodasse os poucos clientes que tínhamos.

— Uh, quero fazer esse — Hyelin anunciou, me mostrando um novo teste numa
página de internet no computador do hotel. — "Qual o tipo de cara ideal pra
você?". - Ela leu o título, e depois deu uma risadinha.- O cara ideal pra mim é o
novo hóspede.

— Eu achei que você estava namorando aquele que vende pés de galinha —
Rebati, olhando ao redor antes de voltar a mexer no celular.

Essa era a verdade. Ela fingia trabalhar, eu fingia estudar.

Mas enquanto Hyelin usava o computador do serviço pra fazer testes online, eu
usava o banco desconfortável da recepção para ficar lá sentado, com um livro
aberto sobre o balcão, fingindo que estava aprendendo alguma coisa quando na
verdade estava vendo o twitter pelo telefone.

— Olha, eu namoro, mas só porque não posso namorar Jeon Jungkook, né? —
Ela respondeu, simplesmente.

— Eu não sei quem é Jeon Jungkook, mas espero algum dia ter um
relacionamento tão intenso e sincero quanto o seu com o cara da barraca de
comida — Provoquei, e ela deu de ombros com alguma displicência.
— Pelo menos eu como pés de galinha de graça. — Retrucou, meio convencida
de que aquilo realmente fazia o relacionamento valer a pena. — Agora shh,
preciso me concentrar!

Eu olhei pra ela pelo canto dos olhos, rindo fraco. Hyelin levava esses testes
realmente a sério.

De qualquer forma, eu também levava as notícias sobre idols - e tudo que girava
em torno deles — como assuntos de maior prioridade em minha vida, por isso
não me importei em interromper nossa conversa pouco produtiva e me focar em
acompanhar uma nova discussão onde um fandom acusava outro por alguma
coisa realmente estúpida.

— O desempenho dessa unidade é o pior de todos. Aplicar matriz SWOT não


parece ser a melhor opção. — Ouvi alguém dizer assim que guinchei
vergonhosamente ao tentar reprimir uma risada quando vi um meme perdido no
meio da briga.

— Não, a melhor opção é trocar o diretor dessa filial. — Outra pessoa disse.

— Você é muito radical, Jun — O cara da primeira voz rebateu e eu vi, ainda
com a cabeça abaixada, os pés de duas pessoas atravessando a recepção. - Ah,
boa tarde. — Ele disse, e eu ouvi Hyelin responder timidamente, o que é estranho
porque ela nunca fica tímida.

Curioso, levantei o rosto para ver quem eram, mas os dois homens já estavam
de costas atravessando a passagem que levava aos quartos dos hóspedes.

Ao sentir uma cotovelada em minhas costelas, eu olhei assustado para o lado e


vi Hyelin grunhindo de forma muito esquisita.

— É ele! O hóspede que falei, o Jungkook! — Ela conteve os gritos num


sussurro.

— Qual deles? — Perguntei, virando o rosto para analisar as costas dos homens
antes que eles sumissem de minha vista, mas não fez muita diferença porque
não vi nada demais em nenhum dos dois.
— O mais baixo. O outro é um tal de Namjoon e ele já quebrou um frigobar, só
Jesus sabe como — Respondeu, ainda eufórica. — Ai, eu quero casar com
aquele homem e ter quinze filhos com ele!

— Santa mãe de deus, Hyelin, os bebês vão sair de você como se estivessem
escorregando num toboágua. - Resmunguei, apavorado com a imagem de uma
pessoa tão desnaturada considerando a possibilidade de ser mãe.

Ela apoiou o cotovelo sobre a bancada e depois o queixo sobre a mão,


suspirando. — Mas você viu aquelas pernas? Como um cara consegue ficar tão
gostoso usando roupa social?

Eu forcei um sorriso e dei dois tapinhas complacentes nas costas dela. — Você
provavelmente não vai conseguir nada com ele, mas pelo menos você pode
comer pés de galinha de graça, né?

Hyelin me lançou um olhar possesso, arrumando sua postura para uma menos
apaixonada e mais agressiva. — Que tal dar um pouquinho de apoio a sua
noona, hein?

Eu ergui as mãos num gesto de rendição, risonho. — Se eu pudesse ajudar,


ajudaria, mas não acho que possa...

Ela respirou pesadamente, parecendo concordar, mas depois arregalou os olhos


e se virou para mim com uma expressão medonha.

— Mas você pode!

Sorri falso, um pouco assustado também. — Ok, primeiro para de fazer essa
cara, tá bom? Parece o Macaco Louco assistindo a destruição de Townsville e
isso é bizarro.

Hyelin deu um peteleco na minha testa. — Me respeita, menino!

Resmunguei baixo, passando a mão pelo lugar dolorido. Realmente parecia um


experimento falho do Professor Utônio, a maluca.
— Agora me escuta. — Ela começou, abaixando o tom de voz como se contasse
um segredo de estado — Eu vou escrever um bilhete e você vai entregar por
mim, entendeu?

Eu apertei os olhos, desconfiado. Porque você mesma não entrega?

— Porque eu sou tímida. — Respondeu, cínica. — Também porque seus pais


não podem nem sonhar com uma funcionária paquerando os hóspedes.

A última justificativa parecia mais aceitável.

— E o que eu ganho com isso?

Ela pareceu pensativa, mordeu a língua, bateu o dedo no próprio queixo e


finalmente pareceu chegar a uma resposta.

— Eu trago pés de galinha de graça pra você durante uma semana!

— Ninguém aguenta comer tantos pés de galinha assim.

Ela bufou, decepcionada. — Eu te ajudo com suas atividades da escola.

— Você é tão burra quanto eu. — Resmunguei, entediado. — É a mesma coisa


que pedir ajuda a um gorila.

Hyelin deu um gritinho, frustrada. — Então diz o que você quer, seu demônio!

Dessa vez, fui eu quem fiquei pensativo. O que Hyelin poderia me oferecer em
troca de um favor?

Eu corei com a única possibilidade que passou por minha mente, e ela sorriu ao
ver que, afinal, existia alguma coisa que eu podia pedir.

— O que é? — Ela perguntou, e eu neguei com a cabeça porque era


constrangedor demais, mas Hyelin é insistente. — Não se envergonhe, diz pra
noona o que você quer, diz.

Eu abaixei um pouco o rosto e cocei minha nuca, revelando meu pedido na


velocidade de uma metralhadora, mas muito mais baixo. —
Euquerodarmeuprimeirobeijo.
Ela fez uma careta, confusa. — Como é?

Respirei fundo, me obrigando a não ficar tão envergonhado com um assunto tão
bobo. Mas não funcionou.

— Eu quero dar meu primeiro beijo... — Revelei, de forma mais lenta e


compreensível, mas me arrependi assim que ela arregalou os olhos, assustada.

— Você nunca...? — Ela parou, chocada. — Uau. Com doze anos eu já matava
aula pra dar bitoca nos meninos mais velhos da escola. Que exemplo você é,
Chim. Tá de parabéns.

Me encolhi um pouco mais. Porque aquilo era tão constrangedor?

— Tudo bem, eu te ajudo, não é nada demais — Ela voltou a dizer, e eu vi que
se forçou a não fazer mais nenhum comentário sobre a minha castidade labial.
— Tem alguma menina em mente?

Eu neguei, porque não tinha. Nunca na vida senti atração ou vontade de beijar
uma menina e eu já estava começando a acreditar que tinha alguma coisa errada
em mim, mas eu estava curioso pra saber como seria.

Talvez eu gostasse da sensação e então finalmente começasse a reparar mais


nas garotas.

— Tá, isso complica um pouco, mas eu ainda posso dar um jeito. Tenho umas
primas mais novas que beijam qualquer buraco na parede, então beijar você não
vai ser um problema pra elas — Hyelin disse, não exatamente me tranquilizando,
e estendeu a mão. — Estamos combinados?

Eu olhei para sua mão estendida por um tempo, antes de finalmente selar nosso
pequeno e vergonhoso acordo.

Naquela noite, eu iria até o quarto de Jeon Jungkook.


02 • Sidewinder

Já era tarde da noite quando eu parei diante da porta do quarto de Jungkook,


com o bilhete de Hyelin nas mãos e os olhos ardendo de sono.

Ele ainda estava acordado, ou ao menos era isso que as luzes acesas do lado
de dentro indicavam, e eu deveria ter cuidado para não ser visto por ele ou com
certeza teria problemas com meus pais, caso descobrissem. Só por isso resolvi
esperar, chutando pedrinhas, enquanto as luzes não se apagavam.

Mas elas não se apagaram por um bom tempo, o que começou a me deixar
impaciente. E talvez eu não seja a pessoa mais esperta quando tenho que lidar
com impaciência.

Por isso, um pouco inconsequente, deixei meus sapatos no pátio e subi os


degraus até a passarela de madeira diante da porta de correr e me ajoelhei ali,
cuidadoso, antes de deslizá-la minimamente para o lado.

Eu só queria saber o que ele estava fazendo e porque não ia dormir logo, mas
definitivamente não esperava, nem podia, ser pego espionando.

Entretanto, quando encaixei um dos olhos na pequena abertura forçada, eu


quase gritei ao acreditar que tinha sido visto por ele.

Jungkook estava sentado sobre o chão, diante da mesa de chá que ficava logo
de frente para a porta do quarto. Uma bandeja com um bule e uma xícara de
cerâmica sem alça já tinha sido deixada de lado, e no momento ele parecia
concentrado na leitura de alguns papeis. Acho que por isso, apesar de estar com
o corpo virado na minha direção, ele não me viu.

E é claro que reconheço que deveria ter aproveitado sua distração para fechar a
porta outra vez e esperar mais um pouco até que ele dormisse e eu não corresse
mais o risco de ser pego. Poderia também desistir de ajudar Hyelin e
simplesmente sair dali, mas... foi impossível.
De repente, era como se eu entendesse tudo que ela dizia sobre Jungkook.
Não... Era como se eu estivesse descobrindo que todos os elogios não faziam
jus à imagem daquele homem, porque ele estava acima de todos esses.

Eu vi os cabelos escuros divididos sobre a testa, as sobrancelhas sutilmente


franzidas, os olhos pretos concentrados e a boca avermelhada levemente
entreaberta, com a ponta da língua aparecendo furtivamente para umedecer
seus lábios vez ou outra.

Depois eu vi seu pescoço forte e a blusa social branca com as mangas


repuxadas até seus cotovelos, com os dois primeiros botões abertos revelando
um pouco da pele de seu peitoral.

Mesmo que eu apenas o estivesse vendo precariamente através de uma


pequena abertura de porta, cada pedacinho daquele homem me deixou
completamente hipnotizado e eu simplesmente não consegui me mover.

Jungkook era lindo ao ponto de se tornar impossível descrever, mais impossível


ainda de parar de olhar.

E aquele não era o momento para tentar entender porque meu coração estava
batendo tão rápido por outro homem, então eu não o fiz. Apenas continuei quieto,
com uma mão espalmada contra a parede e a outra contra a porta de correr, um
dos olhos encaixado na fresta e a respiração pesada e lenta demais, como se
qualquer mínimo ruído pudesse me denunciar.

Quando Jungkook juntou todos os papeis que estavam em cima da mesa de chá
e os guardou numa pasta, eu soube que precisava sair dali, mas eu não queria.
A única coisa que eu queria era vê-lo mais um pouco, mesmo que isso pudesse
me trazer problemas depois.

Então ele ficou de pé, calmamente, e eu o vi levar uma das mãos ao primeiro
botão fechado de sua camisa enquanto ele caminhava até o pequeno armário
do quarto.

Jungkook ficou de costas para mim, e eu assisti com devoção enquanto ele
desabotoava completamente sua blusa.
O tecido fino marcava os músculos de suas costas, que se contraíram
deliciosamente quando ele finalmente deixou a blusa escorregar por seus braços
firmes, revelando músculos posteriores que pareciam mais fortes que todos os
meus objetivos de vida.

E mesmo que eu já estivesse completamente afetado por toda a situação, ver


suas costas nuas me levou a um estado totalmente além. Não só pelo físico, mas
também pela marca permanente de tinta no lado superior direito, sumindo por
seu ombro e pela lateral de seu corpo. Apesar de não poder ver a cabeça do
animal, eu não tive dúvidas sobre o que era.

Jeon Jungkook tinha uma enorme serpente negra tatuada nas próprias costas.

A surpresa de descobrir que aquele homem de olhar sério escondia algo como
uma tatuagem debaixo de suas roupas caras me fez sentir a necessidade de
descobrir que outros segredos ele poderia ter.

E, a partir desse exato momento, eu mandei aos ares toda e qualquer objeção
que minha moralidade e medo criavam para me fazer sair dali. Durante todo o
tempo eu estive ciente sobre como era errado invadir a privacidade de alguém
daquela forma, mas o desejo e curiosidade que aquele homem despertou em
mim criaram um lapso de consciência muito mais forte que meu receio de ser
pego fazendo algo tão condenável.

Quando ele pendurou a blusa num dos cabides, eu o vi finalmente ficar de frente
para mim outra vez. A visão de seu tronco nu me fez sentir minha própria
respiração ricochetear contra a madeira da porta detrás da qual me escondia,
com meu corpo se tornando exponencialmente mais quente tanto pelo calor em
minha virilha quanto pela adrenalina liberada com o medo de ser capturado.

Mas, apesar do suor nas palmas das mãos e da frequência cardíaca irregular,
eu não fui notado e tive total liberdade para finalmente ver a cabeça da serpente
desenhada sobre seu peitoral forte, com as presas à mostra numa representação
de perigo que não me despertou nada além de mais vontade de continuar ali,
assistindo-o.
Depois, deixei que meus olhos descessem pelo restante de sua pele exposta,
capturando com atenção os detalhes de seu abdômen definido, até a pequena
entrada em seu quadril que apontava e sumia debaixo do cós de sua calça.

Eu o vi caminhar pelo quarto de forma lenta enquanto suas mãos trabalhavam


em desafivelar o cinto de couro.

Num gesto involuntário, cravei meus dentes em meu próprio lábio, tentando
refrear a quantidade de sensações novas que somente a visão de seu corpo me
proporcionou, combinado ao desejo de poder ver o que ainda não tinha sido
revelado.

Depois de tirar o cinto, ele então o dobrou e o segurou em apenas uma das
mãos, ainda andando devagar. Antes que pudesse me perguntar quando ele
tiraria sua calça, eu finalmente percebi.

Jungkook estava caminhando em direção à porta.

A sensação de perigo me fez despertar repentinamente daquele estado de


digressão e, aflito, tentei ficar de pé para correr para longe dali, mas a única coisa
que consegui foi tropeçar no meu pé e cair sentado, com os joelhos dobrados,
as mãos espalmadas contra o piso de madeira, os olhos arregalados e o coração
pulsando tão forte a ponto de doer.

E então a porta se abriu completamente.


03 • Easy Prey

A porta se abriu e lá estava Jungkook, de pé, diante de mim.

O olhar dele era incompreensível e sua postura era firme, um pouco opressora.

Ainda com meu próprio rosto retorcido em surpresa e desespero, tentei articular
qualquer palavra que pudesse funcionar como um pedido de desculpas, mas
som nenhum saiu de minha garganta. Enquanto isso, ele continuou me olhando
em silêncio.

Eu queria poder ler o que ele estava pensando. Ou, no mínimo, gostaria de ter
forças nas pernas para me levantar e correr para longe dali, mas as duas
possibilidades pareciam igualmente impossíveis.

Meu corpo todo estava retraído em alerta, incapaz de obedecer os comandos


mais básicos do meu cérebro.

Quando meus olhos desceram um pouco relutantes até pousarem no cinto que
ele segurava em uma das mãos, uma nova onda de medo tomou conta de todas
as minhas células.

A forma como ele segurava o objeto de couro, sua postura, seus olhos escuros
e impenetráveis e a cabeça da serpente marcada em seu peitoral... tudo isso
despertou um alerta de perigo que me fez prender a respiração.

Então Jungkook deu mais um passo em minha direção e, com um movimento


suave, se agachou diante de mim. Ele apoiou os braços relaxadamente sobre as
coxas, equilibrando-se perfeitamente sobre a parte frontal dos pés, e deixou o
cinto cair pendurado entre suas pernas.

Cada mínimo movimento dele parecia ter sido calculado para aumentar a tensão
que já parecia tão insuportável, e ainda assim eu não conseguia sair dali.
– Me... — eu comecei, completamente desajeitado, sentindo minha voz tremer.
— Me desculpa...

Jungkook levantou as sobrancelhas num movimento discreto, e então o canto de


seus lábios se desenhou num sorriso torto.

— Porque você parece tão assustado, meu anjo? — Ele perguntou, e vi seu
polegar direito deslizar sobre o couro preto do cinto que sua mão esquerda
segurava.

Eu mantive meus olhos atentos a esse movimento, hipnotizado, antes de


finalmente conseguir erguer o rosto.

Não era mais medo de que meus pais descobrissem que eu estava espionando
um hóspede. Não era mais medo de um castigo, ou de uma surra.

Era algo muito mais primitivo, como se Jungkook fosse um predador se divertindo
antes de dar o bote.

E eu era a sua presa.

— Você não precisa sentir medo de mim, boneca — Ele continuou, parecendo
se divertir de forma quase sádica com minha incapacidade de responder. — Eu
não vou te machucar... a não ser que você queira.

Meus olhos não poderiam estar mais arregalados e acredito que não era
saudável meu coração bombear tão intensamente, mas a forma como ele me
chamou de boneca desestabilizou tudo dentro de mim.

Eu estava uma confusão, completamente dopado pela adrenalina, e aquela


ainda era a segunda frase que ele dirigia a mim.

— Eu não deveria estar aqui... — Foi a única coisa coerente que consegui
articular, depois de muitas tentativas frustradas.

Jungkook deixou a língua fazer mais uma breve aparição quando umedeceu os
lábios, movendo a cabeça numa concordância discreta.

— Acredito que não — Ele disse, ainda deslizando lentamente o polegar sobre
o couro —, mas você já está aí há bastante tempo.
Eu não sabia mais se o problema estava em mim ou se era natural sentir tanta
tensão a cada coisa que ele me dizia, mas não posso negar o quanto fiquei aflito
com a revelação de que eu tinha sido notado ali muito tempo antes, talvez desde
o início.

Ao mesmo tempo, eu não conseguia entender porque ele me deixou observá-lo


por todos aqueles longos minutos.

Sem querer, deixei que meus olhos curiosos descessem outra vez, atentos à
forma ameaçadora como seus dedos longos seguravam o cinto.

— Há quanto tempo... você percebeu? — Eu perguntei, ansioso.

Mas então ele soltou um dos lados do cinto e deixou que a fivela metálica
acertasse o chão de madeira de forma sonora, me fazendo levantar os olhos em
direção aos seus outra vez num reflexo assustado.

Seu rosto continuava sereno, demonstrando que o movimento anterior não tinha
sido um acidente.

— Olhe para mim quando estiver falando comigo. —Ele disse, num tom de voz
que anulava qualquer desejo de contrariar sua ordem.

Eu estremeci, assentindo desastradamente.

— Agora diga. — Ele continuou, assumindo um tom pouco mais leve. - O que
você estava fazendo?

Jungkook não é o tipo de homem óbvio. Não é fácil olhar para ele e dizer o que
ele está pensando, mas, naquele momento, eu tinha a mais absoluta certeza de
que ele sabia exatamente o que eu estava fazendo ali. Não me refiro a ter ido
levar um bilhete de outra pessoa, mas sobre ter passado todos aqueles minutos
apenas observando-o com tanta devoção.

Era como se eu estivesse sendo testado e, então, eu optei pela verdade, por
mais embaraçosa que fosse.

— Você é... — Tentei dizer, mas palavra nenhuma parecia ser adequada para
finalizar aquela frase, então comecei novamente, ainda sentindo que meu
coração poderia sair pela garganta a qualquer segundo. — Eu não consegui
parar de olhar pra você...

Jungkook não pareceu surpreso com a resposta, tampouco enojado.

Eu não acharia estranho caso ele repudiasse ouvir aquele tipo de coisa de um
garoto.

— E por quanto tempo você pretendia continuar olhando? — Foi a única coisa
que ele perguntou, a despeito de tudo que imaginei que poderia sair de sua boca.

Essa, entretanto, era uma pergunta que eu não sabia responder, então fiquei em
silêncio, ponderando uma resposta.

— Deixe que eu reformulo a pergunta. — Ele disse, diante da minha ausência


de palavras prolongada. — Quanto você pretendia ver?

Mais uma resposta que eu não poderia dar sem passar algum tempo pensando,
mas Jungkook já parecia ter uma ideia muito clara do que eu deveria dizer.

— Duas peças de roupa a menos e eu ficaria completamente nu. — Ele disse,


reavivando a certeza de que já sabia que eu estava ali durante o tempo em que
começou a se despir. — Era isso que você queria ver, boneca?

Eu pisquei, atordoado.

Uma nova onda de calor tomou conta de cada partícula do meu corpo, mas não
era vergonha. Era outra coisa, algo que eu nunca tinha sentido antes, não
naquela intensidade.

Num reflexo, apertei o bilhete de Hyelin ainda em minha mão. Eu não queria
mais entregá-lo.

— Responda. — Ele insistiu com a voz firme, deixando claro que não aceitaria
meu silêncio como resposta.

Então balancei a cabeça para cima e para baixo uma única vez, devagar.
E Jungkook sorriu. Um sorriso pequeno, mas satisfeito e dolorosamente
irresistível.

Aquele homem seria capaz de me deixar louco sem esforço algum.

— J-Jungkook — chamei, um pouco inseguro.

— Sim, meu anjo?

— Eu ainda quero ver — Revelei, incapaz de me controlar depois de ser


enfeitiçado por aquele sorriso, aquela tatuagem e aquela sensação que ele
despertou em mim.

Como se fosse possível, seu olhar escuro se tornou ainda mais intenso.

— Quer? — Ele questionou, e seus olhos desceram lentamente até meus


quadris.

Curioso, eu segui o mesmo caminho até que minha visão encontrasse o que
Jungkook observava com outro sorriso torto nos lábios. E meus olhos se abriram
ainda mais ao perceberem que todo aquele calor concentrado na minha virilha
tinha gerado consequências muito visíveis.

— Parece que você já viu o suficiente. — Ele completou, me fazendo sentir o


rosto queimar completamente em pura vergonha.

Então Jungkook ficou de pé e encaixou a mão no pequeno puxador embutido na


porta de correr, ainda olhando para mim com o olhar cheio de uma diversão
sádica.

— Não seja tão ambicioso, boneca. — Foi a última coisa que ele disse antes de
fechar a porta outra vez, me fazendo ouvir o pequeno clique da trava sendo
acionada.

Ainda sem reação, eu voltei a olhar para a vergonhosa ereção que marcava
minha calça de pano.

Sem nem mesmo me tocar, Jungkook me deixou excitado como eu nunca estive
antes.
Não era só choque o que eu sentia. Eu estava completamente hipnotizado por
aquele homem.

Então eu finalmente afrouxei o aperto de minha mão e vi o bilhete escrito por


Hyelin, sabendo que seu destino seria o lixo.

Ela teria que me perdoar, mas Jungkook nunca leria aquelas palavras.
4 • La La Land

Assim que entrei no meu quarto eu me escorei na porta, ainda sentindo meu
coração pulsar forte.

As pontas dos meus dedos estavam dormentes e minha cabeça estava uma
zona, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo, mas incapaz de ignorar
a inesperada ereção ainda no meio das minhas pernas.

Eu não conseguia entender. Jungkook era um homem, eu também era um...


então por quê?

Incapaz ou relutante demais para nomear aquilo, eu me livrei das minhas roupas
e deitei em minha cama. O calor em meu corpo tornava insuportável deixar
qualquer peça além de uma boxer em contato com minha pele, e eu sabia que
não era mais apenas o efeito do verão. E esse mesmo calor foi o que me fez
revirar sobre o colchão por um tempo longo demais, sofrendo de uma atípica
insônia.

Eu não conseguia dormir, não conseguia me livrar do calor e meu pênis


continuava latejando por um pouco de atenção.

Incomodado com a falta de controle sobre meu corpo, revirei mais uma vez até
ficar de bruços, mas o atrito entre meu membro e a cama me fez soltar um
gemido baixo, involuntário e vergonhoso.

Depois, foi impossível. Indo contra minha mente confusa, minha mão alcançou
meu pênis e eu suspirei pesadamente quando o apertei com um pouco de força.

Meu rosto estava pressionado contra o travesseiro e minha respiração quente se


tornou um incômodo quando deslizei a mesma mão para dentro da boxer,
sentindo as veias inchadas sob a pele fina de meu membro.
Minha mente transformou meu próprio toque numa projeção de como eu queria
que Jungkook me tocasse. E então lembranças daquela serpente em sua pele,
do cinto de couro em suas mãos e de sua voz deliciosa me chamando de boneca
invadiram minha cabeça enquanto eu me masturbava, fazendo com que levasse
muito pouco tempo até que eu gozasse com um gemido arrastado.

Na manhã seguinte, entender tudo que tinha acontecido naquela noite ainda era
uma tarefa difícil.

Nunca me considerei uma pessoa insistente, porque era preguiçoso demais para
isso. Entretanto, eu gastei todos os segundos daquele dia insistindo para que
minha mente ainda ingênua e confusa compreendesse aquelas coisas, não
importava se eu estava na aula ou no intervalo com meus dois únicos amigos na
escola.

Eu simplesmente não conseguia me concentrar em mais nada que não estivesse


diretamente ligado a Jeon Jungkook.

Mesmo assim, me deixei ser arrastado por Taeil e Yuta até um fliperama no
centro da cidade, acreditando que aquilo me serviria como distração.

Não funcionou.

Enquanto eles dois bradavam furiosos durante as disputas, eu continuava aéreo


demais em meio às máquinas barulhentas e à iluminação em tons escuros do
lugar.

Minha cabeça estava exatamente como todos aqueles planetas representados


no carpete do fliperama. No espaço.

Por isso, ouvi piadinhas durante toda a tarde. Taeil e Yuta não eram o que eu
gostaria de chamar de bons amigos, mas eles eram o que eu tinha, então muitas
vezes me obrigava a engolir o incômodo que suas brincadeiras e comentários
maldosos criavam.

Nesse dia, ignorar as provocações foi especialmente fácil, o que não quer dizer
que eu queria continuar com eles. Então me despedi e fui embora, deixando-os
sozinhos numa batalha sangrenta em Mortal Kombat.
Eu queria logo voltar para casa e tentar me distrair com qualquer coisa que
realmente funcionasse. Ou talvez entrar num fórum na internet, criar um perfil
anônimo e questionar através dele se me masturbar pensando em um homem
fazia de mim um gay.

Assustado com a possibilidade, balancei a cabeça para os lados.

Então continuei meu caminho um pouco distraído, sem esperar que, ao virar na
rua seguinte, eu veria a causa de toda a minha distração parada diante de um
dos prédios comerciais.

Lá estava Jungkook. Blusa social, calça escura, sapatos lustrados, uma das
mãos no bolso e a deliciosa expressão concentrada enquanto um homem mais
velho lhe dizia alguma coisa.

o destruidor de frigobar estava ao seu lado, também, e eu não conseguia lembrar


seu nome, tampouco me preocupei em tentar.

O único momento em que meus olhos deixaram de analisar Jungkook foi quando
eu li o nome da empresa na fachada do prédio: B AN G T AN
Antes mesmo que eu pudesse saber que gostaria de descobrir mais sobre ele,
Hyelin já tinha me contado várias coisas que descobriu ao stalkear nosso
hóspede na internet. Uma delas era que a Bangtan era a empresa da família
Jeon e que, apesar de ser o filho mais novo, Jungkook seria o sucessor na
direção dos negócios.

Por isso, e também pela semelhança física, presumi que o homem de meia idade
que falava com ele na entrada do prédio era seu pai.

Essa suspeita deveria me fazer desconsiderar a possibilidade de me aproximar,


mas não sei o que aconteceu.

Antes que eu pudesse perceber que porcaria estava fazendo, comecei a


atravessar a rua, caminhando em sua direção. Totalmente distraído, focado
apenas numa única pessoa, como se o resto do mundo não existisse.

Mas existia. Outras pessoas existiam, sinais de trânsito existiam e é claro que
carros existiam também. Entretanto, só lembrei disso quando ouvi a buzina
aguda de um que vinha na minha direção em alta velocidade para tentar passar
antes que o sinal ficasse vermelho.

Completamente assustado, olhei na direção do carro, vendo-o perigosamente


próximo.

O motorista freou bruscamente, eu fechei os olhos, parado no mesmo lugar.

E então... nada aconteceu.

Eu podia jurar que seria atingido e consegui imaginar meus pais se lamentando
sobre meu túmulo, mas eu ainda estava vivo. Inteiro.

Abri os olhos depois de pressioná-los por algum tempo, ainda assustado, e vi


que o carro não me acertou por muito pouco.

Mesmo assim, eu estava apavorado, e a coisa seguinte que aconteceu foi sentir
minhas pernas falharem, me levando a quase cair sobre o asfalto quente da rua.

Quase.

Não foi uma repentina retomada de equilíbrio que me fez continuar de pé. Foi o
braço de Jungkook me segurando com firmeza pela cintura, me pressionando
contra seu próprio corpo para que eu encontrasse algum sustento.
Então eu o observei com os olhos arregalados, tanto pelo susto de quase ser
atropelado quanto pela surpresa de ter sido amparado por ele.

— Jungkook... — Eu chamei e sei que minha voz falhou miseravelmente


porque, de repente, eu queria chorar por ainda estar assustado demais.

— Você está bem?- Ele perguntou, com a voz e o olhar mais cuidadosos que na
noite anterior.

— Você perdeu o juízo, pirralho?! — Alguém bradou antes que eu respondesse,


e vi o motorista saindo do carro e avançando com passos furiosos em nossa
direção. - Olha a merda que poderia ter acontecido se eu não freasse a tempo!

Eu me encolhi um pouco, porque sei que estava errado, e senti o braço de


Jungkook me apertar com um pouco mais de força como se tentasse me
proteger.

— Você sabe que nada disso estaria acontecendo se você respeitasse os limites
de velocidade, não sabe? Ouvi ele dizer, calmamente.

Jungkook era mais alto que eu, então precisei olhar para cima para ver seu rosto,
e vi que ele deixou seu olhar escuro recair sobre o meu por dois segundos antes
que voltasse a observar o motorista.

Mas enquanto ele olhava para o homem furioso em nossa frente, eu olhava
apenas para o seu rosto, ainda sentindo seu abraço protetor.

E então meu coração agitado começou a se acalmar.

— O sinal estava aberto! — O motorista rebateu, ainda possesso. — - O


problema é desse pirralho idiota se ele acha que pode atravessar uma avenida
desse jeito!

— Jungkook tire o menino daqui. — Alguém disse, e só então parei de olhar para
ele e procurei o dono da nova voz, logo encontrando o homem que pressupus
ser seu pai. — Deixe que eu resolvo as coisas com esse senhor.

Eu vi Jungkook demorar um instante antes de assentir, concordando, para então


olhar para mim com paciência.

— Venha, Jimin. — Ele disse, e eu apenas me deixei ser guiado.


Minhas pernas ainda estavam bambas, mas eu consegui caminhar com o braço
de Jungkook ainda me amparando até chegarmos à calçada. Mas então meus
pés travaram, e só então eu percebi.

Jungkook me chamou de Jimin, mas eu nunca tinha dito meu nome a ele.
05 • Mensch

Jungkook me levou a uma pequena sala de espera dentro da Bangtan e me fez


sentar, parecendo consciente sobre a inconsistência em minhas pernas.

Naquele ponto, entretanto, eu não sabia mais dizer qual era a causa da fraqueza
prolongada. Não me surpreenderia caso descobrisse, depois de uma análise
meticulosa em minha mente, que tudo não passava de um pequeno teatro para
que Jungkook continuasse demonstrando aquele cuidado por mim.

— Jun, eu trouxe água para ele — O destruidor de frigobar entrou na saleta


depois de bater de leve na porta, e passou para Jungkook um copo que logo foi
repassado para mim.

— Obrigado, Namjoon. — Ele disse, ainda me olhando com atenção.

Namjoon. Isso. Namjoon, o destruidor de frigobar.

— Você está bem, menino?

Olhei para Namjoon enquanto bebia um pouco da água e assenti com a cabeça,
desajeitado.

— Menos mal que nada pior aconteceu. - Ele disse e me mostrou um sorriso
discreto, mas com covinhas enormes, para logo depois voltar a olhar para o
homem que quase me fez ser atingido por um carro. — Eu vou ver se seu pai já
conseguiu acalmar aquele motorista, tudo bem?

Jungkook moveu a cabeça uma única vez. — Me chame quando nosso carro
chegar.

— Mando chamar um táxi pra ele ou...? — Namjoon questionou, se referindo a


mim.

— Não precisa, ele vai no nosso. o destino é o mesmo. — Jungkook respondeu,


parecendo ter muita certeza sobre o que dizia.
— Oh — eu não era o único surpreso, então foi Namjoon quem murmurou. —
Ele também é hóspede daquele hotel?

Jungkook caminhou até a poltrona em frente à minha e se sentou com calma


antes de finalmente responder. Mas seus olhos não se viraram para Namjoon,
porque ele continuou olhando para mim.

— Ele mora lá. — Ele disse, aumentando minha surpresa, e então aquele
mesmo sorriso pequeno apareceu outra vez em seu rosto. — Não é, Jimin?

Aparentemente, estar com os olhos arregalados era normal quando eu estava


perto de Jungkook, porque os meus não paravam de parecer que saltariam a
qualquer segundo.

Mesmo assim, me forcei a parar de parecer um babaca incapaz de falar e


confirmei, ainda olhando para ele com o copo de vidro sendo esmagado por
minhas mãos ansiosas.

— Eu sou filho dos donos... — Justifiquei, nem sei mais se para Jungkook, que
já parecia saber disso, ou para Namjoon, que eu nem sabia se ainda estava lá.

Era realmente difícil me concentrar na realidade ao redor quando Jungkook


estava bem diante dos meus olhos.

— Como vocês se conheceram, Jun? — Namjoon perguntou, confirmando que


ainda estava ali e que ainda parecia estar confuso com o fato de Jungkook e eu
sermos conhecidos.

— Você não estava indo ver se meu pai já conseguiu acalmar aquele motorista,
hyung? — Jungkook retrucou, deslizando os olhos até Namjoon.

A forma como ele o olhou pareceu entregar alguma impaciência sutil.


Percebendo isso ou não, o outro deixou escapar um som condescendente.

— Vou checar agora. — Ele disse, simples. — Venho te chamar quando o carro
chegar.
E então Namjoon finalmente saiu da saleta, encostando a porta outra vez e me
deixando sozinho com Jungkook, que não demorou a voltar a olhar para mim
com aqueles olhos que me fariam arrancar as calças pela cabeça.

— Beba sua água, Jimin. — Ele disse, se recostando em sua poltrona, e eu


reconheci alguma provocação em sua forma de dizer meu nome a cada
oportunidade.

Eu bebi mais dois goles, mesmo sem sede, antes de apoiar minhas mãos com o
copo sobre o colo.

Um pouco ansioso, eu mordi meu próprio lábio. Eu queria saber como Jungkook
parecia saber coisas sobre mim que eu não tinha mencionado, mas falar com ele
era difícil ao ponto de me deixar tempo demais juntando coragem para perguntar.

— Algum problema, meu anjo? — Ele perguntou quando abaixei o olhar, ainda
pensativo.

Quando ergui o rosto outra vez, vi que ele usava o punho fechado para esconder
mais um de seus sorrisos, apoiando o cotovelo no braço de sua poltrona e
inclinando a cabeça num trejeito sensual demais para ser considerado divertido.

Engoli minha própria saliva com dificuldade. Então olhei para o resto de água em
meu copo antes de olhar para ele outra vez.

— Porque aquele Namjoon te chama de Jun? — Foi o que consegui perguntar,


apesar de ter ensaiado na minha cabeça várias formas diferentes de questionar
como ele tinha descoberto meu nome.

O que veio em resposta foi a primeira risada de Jungkook que eu ouvi.

Ele realmente se divertia às minhas custas.

— É isso que você quer saber, boneca?

Não era. Mesmo assim, balancei a cabeça, confirmando.


Jungkook deslizou a língua entre os lábios, me fazendo perceber como esse seu
hábito de umedecê-los com tanta frequência comprometia meu já abalado
equilíbrio emocional.

— As pessoas mais próximas me chamam assim porque eu não conseguia


pronunciar meu nome do jeito certo, quando era mais novo. —
Surpreendentemente, ele respondeu.

Então apertei um pouco os olhos e os lábios antes de deixar um sorriso


inoportuno escapar.

— Isso é meio fofo. — Eu disse, quase sem pensar.

— Se você vê algo de adorável em crianças incapazes de se apresentar


corretamente... sim, é.

Não era algo genérico. Eu poderia deixar passar a imagem de qualquer criança
tentando pronunciar, em vão, o próprio nome. Mas não era qualquer criança, era
Jungkook. Visualizá-lo como um menino pequeno dizendo alguma variação
incorreta de seu nome foi demais para mim.

Ao mesmo tempo me fez lembrar que, apesar de todos os efeitos intensos que
causava em mim, Jungkook ainda era uma pessoa. Talvez, até então, eu o
estivesse vendo como algo além disso. 302

Motivado por essa percepção tardia de algo que deveria ser óbvio demais até
mesmo aos meus olhos fantasiosos, eu finalmente consegui retomar o controle
sobre a articulação da minha fala.

— Posso fazer mais uma pergunta? — Pedi, olhando-o com expectativa. A


confirmação veio num gesto pequeno e eu poupei todo o meu tempo antes de
continuar. — Como você sabe meu nome?

A expressão de Jungkook não entregou nada além de calma quando ele


começou a brincar com um dos anéis em seus dedos longos.

— Não é difícil fazer aquela recepcionista falar. O nome dela é Hyelin? — Ele
questionou sem real interesse, girando o anel de prata em seu mindinho
esquerdo. — De qualquer forma, ela fala muito.
Saber que ele tinha conseguido as informações com Hyelin me deixou um pouco
tenso.

Ela não era maldosa e nem tinha como saber que eu estava boicotando seu
plano de se aproximar de Jungkook, mas eu não me surpreenderia caso
descobrisse que ela falou alguma besteira sem querer.

Não é como se eu tivesse muitas qualidades a enaltecer, então se ela revelou


algo além das informações básicas, era muito provável que Jungkook já
soubesse que eu sou um aluno vergonhoso que nunca beijou na boca.

— O que mais ela falou? — Eu perguntei depois de voltar a olhá-lo, porque não
queria ser repreendido como fui na noite anterior.

— Nada de muito interessante. — Ele respondeu, abandonando o anel em seu


menor dedo para brincar com o de seu indicador. — Park Jimin, filho dos donos
da Kundaemunjip — Sua voz fez uma pequena pausa e eu vi seu olhar parar de
observar as próprias mãos para pousar em meu rosto , dezesseis anos.

Nenhuma informação comprometedora, mas a forma como ele falou sobre minha
idade me fez perceber que não era algo que o deixava satisfeito.

— Você é mais novo do que eu imaginei, Jimin.

Ainda sem entender o porquê de ser um problema, de repente eu também me vi


incomodado com minha pouca idade.

— Eu faço dezessete em outubro. — Me apressei em dizer, imaginando que


dezessete não seria tão ruim quanto dezesseis.

Não para Jungkook, entretanto.

— Dezenove. — Ele disse, simplista. — Minhas mãos estão atadas enquanto


você for menor de idade.

Meus olhos estavam atentos à sua expressão, em busca de alguma coisa que
me fizesse acreditar que ele estava brincando, mas não existia nada além de
seriedade em seu rosto bonito. Mas eu estava confuso. Porque eu precisava
ser maior de idade? Jungkook queria me dar bebida alcoólica ou alguma coisa
assim?

— Por que? — Questionei, mesmo sentindo que estava fazendo uma pergunta
estúpida.

Jungkook também pareceu achar isso quando sorriu, embora não com humor.

— Você é mesmo tão ingênuo assim? — Foi o que ele retrucou, reforçando
minha ideia de que eu estava, sim, parecendo um bobo.

Então me encolhi um pouco na poltrona confortável, ainda segurando o copo


de vidro sobre minhas coxas.

Sem saber o que dizer, eu optei pela única coisa que conseguiria falar. —
Desculpa...

Eu não sabia exatamente pelo que estava me desculpando. Quer dizer, eu não
tinha culpa de ser lerdo.

Para meu alívio, Jungkook também pareceu acreditar nisso.

— Não precisa se desculpar, meu anjo. — Ele disse, antes de prosseguir. —


Não comigo.

Outra vez, não entendi.

— Então com quem? — Perguntei, com medo de parecer burro de novo.

— Com aquela recepcionista. — Ele disse, sem esclarecer muitas coisas. —


Ela acredita que você me entregou um bilhete, mas você não fez isso, fez?

Droga.

Eu poderia tentar me fingir de desentendido, mas minhas bochechas gordas e


vermelhas já tinham feito o trabalho de me denunciar.

— Ela... ela tem namorado. — Eu murmurei, lutando contra meu ímpeto de


desviar o olhar.
Estava realmente difícil olhar nos olhos de Jungkook naquele momento, mas eu
sabia que ele não ficaria feliz se eu não o olhasse enquanto falava e eu não
queria irritá-lo.

— Não é justo ela dar em cima de outros quando já está com alguém —
Continuei, fingindo que realmente me importava com aquilo. Quando ela me
pediu o favor, entretanto, eu não julguei sua atitude nem por um segundo. —
Então eu não quis mais fazer parte daquilo e desisti...

Jungkook me olhou com as sobrancelhas sutilmente levantadas num gesto que


deixava óbvio que ele não acreditava em mim.

— Foi por isso que você desistiu, Jimin?

Batidas na porta interromperam o que viria a seguir, mas nossos olhares não
desviaram nem mesmo quando Namjoon reapareceu.

— Jun, o carro já chegou — Ele anunciou, e Jungkook assentiu ainda sem parar
de olhar para mim.

— Vá na frente, nós já estamos indo. — Ele disse, e eu não ouvi a confirmação


nem vi quando Namjoon se retirou, porque eu estava preso demais ao olhar de
Jungkook.

Eu sempre estava preso demais ao seu olhar.

— Você precisa saber que eu realmente não gosto quando mentem para mim.
— Ele voltou a dizer, sem nenhuma entonação descontraída em sua voz firme.

Meu silêncio foi a prova de que eu tinha entendido, mas estava constrangido
demais para contar a verdade.

Hyelin me disse uma vez que se eu já estou no inferno, devo abraçar o diabo e
essa parecia a conotação perfeita para a situação.

Eu tinha consciência de que Jungkook sabia que eu não desisti de entregar


aquele bilhete por um surto de moralidade. Mesmo assim, era aquele bilhete por
um surto de moralidade. Mesmo assim, era difícil colocar em palavras que
a real motivação foi o desejo que ele despertou em mim da mesma forma que
fez em Hyelin.

Mas ele parecia não estar disposto a esperar que eu juntasse minha fraca
coragem, e então eu o vi se levantar.

— Vamos embora. — Foi o que ele disse, deixando de lado a conversa anterior
e já caminhando em direção à porta.

Saber que ele estava insatisfeito comigo disparou um alerta dentro de mim, e foi
com pura impulsividade que eu também levantei depois de deixar o copo sobre
a pequena mesa de centro, caminhei até ele e segurei a manga de sua blusa,
impedindo-o de sair da sala antes que eu dissesse o que ele queria ouvir.

Já era óbvio que às vezes eu falava coisas que não deveriam ser mencionadas,
mas o que saiu da minha boca a seguir não me provocou arrependimento,
apesar de ser vergonhoso como o inferno.

— Eu me toquei pensando em você! - Revelei, talvez alto demais. — E-eu não


queria, mas foi impossível...

Jungkook não demonstrou surpresa É claro que não. Ele viu meu estado quando
fechou a porta de seu quarto e me deixou sozinho com aquela embaraçosa
ereção.

— Não é justo ela me pedir ajuda com alguém que me fez sentir todas aquelas
coisas... — Completei, reduzindo minha voz a cada palavra dita, ainda
segurando seu braço.

Sem perceber, meu rosto tinha se voltado para o chão e meus olhos estavam
fechados com força, o que me impediu de ver o momento em que Jungkook
levou a mão livre ao topo de minha cabeça e me acariciou quase como se
acaricia um filhote.

— Bom garoto.
Senti uma onda de satisfação percorrer cada parte do meu corpo. Eu tinha
deixado Jungkook satisfeito e ele tinha me recompensado por isso com seu
carinho e suas duas palavras.

Então ergui meu rosto com um sorriso enorme, sentindo minha visão mais escura
porque meus olhos sempre se fecham muito quando sorrio assim.

Mas eu pude sentir com clareza quando o toque de Jungkook deslizou de minha
cabeça para minha bochecha, até que seu polegar pressionasse meu lábio
inferior.

Inevitavelmente, meu sorriso foi sumindo até que eu focasse em seu rosto e em
seus olhos tão atentos à minha boca.

— Porque você tem que ser tão novo? — Eu ouvi ele perguntar quando sua
respiração se tornou mais pesada.

A minha, por outro lado, parou por alguns segundos.

Eu não conseguia mais respirar porque, de repente, entendi o que Jungkook quis
dizer ao afirmar que suas mãos estariam atadas até que eu fizesse meus
dezenove anos. Ele não poderia se envolver comigo enquanto eu não fosse
maior de idade.

E então eu odiei ser tão novo, assim como ele parecia odiar.

— Não tem problema se ninguém descobrir... — Eu disse, um pouco


inconsequente.

Jungkook, entretanto, parecia discordar. Era ele quem correria todos os riscos
por se envolver com um adolescente, afinal.

— Eu sei ser paciente, Jimin. — Foi o que ele disse, deixando seu polegar
descer por meu queixo até que sua mão não estivesse mais em meu rosto.

Talvez eu tenha sido precipitado ao

Talvez eu tenha sido precipitado ao assumir isso tão rapidamente. Mas com
aquelas palavras, Jungkook me fez acreditar que esperaria por mim.
[1] Na Coreia do Sul, a maioridade é atingida aos dezenove anos. Eu vou
ignorar a questão da idade coreana nessa fanfic pra não confundir vocês,
então tudo vai ser trabalhado em cima da idade convencional.

[2] Observação adicional: quando o Jungkook diz que o Jimin foi um bom
garoto, ele fez uma referência a um fetiche dentro do bdsm, o pet play. Se
vocês não conhecem o bdsm a fundo, mas sabem que a fanfic aborda esse
tema (porque isso eu deixei bem claro), venham com a mente aberta.
Debochar não é legal e lembrem: bdsm vai muito além de daddykink.
06 • Farewell

Jungkook me fez entrar num sedan preto que tinha o nome da Bangtan
discretamente plotado na lateral. Então eu sentei entre ele e Dong-yul, o seu pai,
enquanto Namjoon ia no banco da frente ao lado do motorista.

No percurso de volta até o hotel, eu me encolhi entre os dois homens mais


opressores que já tinha encontrado em minha vida. E eu não falo sobre as
atitudes ou palavras que eles me dirigiram, porque, na verdade, Dong-yul era
surpreendentemente atencioso.

Mesmo assim, exatamente como seu filho, ele tinha uma postura que fazia
qualquer um se sentir um pouco diminuído.

Por isso, fui incapaz de pronunciar qualquer coisa até que chegássemos ao
nosso destino. A forma como as vozes sérias de pai e filho conversavam sobre
os resultados dos relatórios de uma filial em Busan me fizeram perceber que
nada do que eu pudesse dizer seria importante o suficiente para interrompê- los.

Então tudo que fiz foi olhar, sei que não tão discretamente assim, para Jungkook,
que nenhuma vez me olhou de volta.

Quando finalmente fomos deixados na porta do hotel pelo motorista da empresa,


eu curvei meu corpo diante de Dong-yul, Jungkook e Namjoon.

— Eu não queria causar nenhum problema a vocês — Confessei,


sinceramente, ainda com o corpo curvado. — Sinto muito.

Quem tocou em meu ombro foi Dong-yul, me fazendo levantar o rosto. Seu
sorriso era pequeno, quase tão discreto quanto o do próprio filho, mas parecia
sincero.

— Não se preocupe com isso, criança. — Ele disse. — Só tome mais cuidado
da próxima vez.
Ainda um pouco envergonhado por tê-lo feito se resolver com um motorista
furioso por minha causa, eu assenti. Depois vi seu sorriso tranquilizador por
apenas mais um segundo antes que ele virasse as costas para seguir para dentro
da recepção.

Quando Namjoon seguiu o mais velho, Jungkook finalmente me olhou.


Entretanto, ele não me disse nada e já estava se virando para trilhar o mesmo
caminho que os outros dois.

— Jungkook? — Eu chamei antes que ele me deixasse sozinho na calçada.

Ele me olhou de novo e, deus, eu gostaria que ele sempre me olhasse.

Eu simplesmente nunca vou conseguir me acostumar com a intensidade de


seus olhos escuros ou com a beleza de seu rosto.

— Sim, Jimin? — Ele chamou minha atenção ao me ver em silêncio,


admirando-o.

Mas eu nem mesmo me envergonhei. Não era novidade alguma o quanto estava
atraído e eu tenho certeza de que Jungkook sempre soube muito bem como é
lindo, capaz de tirar o foco de qualquer um.

Mesmo assim, eu queria perguntar, então o fiz.

— Eu posso... posso ir te ver mais tarde?

O que aumentou minha chateação foi acreditar que ele me diria um sim e que
então eu ficaria ansioso durante todo o restante da noite até o momento de
aparecer em seu quarto sem ser visto por ninguém.

Mas Jungkook negou.

— Hoje não, anjo, tenho outro compromisso. — Ele disse, paciente, e eu vi que
observou meu uniforme da escola antes de me olhar outra vez. — Que horas sua
aula acaba?

— As dezessete — Respondi, esperançoso.

Ele sorriu, como se aquela fosse a melhor resposta que eu poderia dar.
— Amanhã às dezessete, então. - Anunciou, com um sorriso suave, tão
diferente de todos os que tinha me mostrado até então.

Tão distinto de seu trejeito usual que até mesmo eu, em minha qualidade de
adolescente burro, deveria desconfiar que algo estava errado.

Mas a inocência combinada à ansiedade me cegaram, e tudo que fiz foi sorrir de
volta, garantindo que no dia seguinte iria ao seu quarto assim que chegasse da
escola.

Por tudo isso, não posso dizer que o resto do dia ou grande parte do seguinte
foram produtivos. Eu não conseguia colocar minha cabeça no lugar, porque ela
insistia que não valia a pena se concentrar em qualquer coisa que não fossem
as possibilidades que me aguardavam assim que eu estivesse sozinho com
Jungkook outra vez.

Então a noite, pela segunda vez, foi mal dormida e as aulas, não que isso seja
novidade, totalmente improdutivas.

Eu realmente nunca fui bom aluno. Não conseguia me concentrar porque


qualquer mosca voando me tirava a atenção e estar com a mente cheia de coisas
relacionadas a Jeon Jungkook só fortaleceu minha natureza desatenta.

Pelo segundo dia consecutivo, além de não conseguir me forçar a pelo menos
tentar ouvir o que os professores diziam, eu nem mesmo prestava atenção no
que Taeil e Yuta falavam, não até eles entrarem numa conversa que,
invariavelmente, despertou meu interesse.

— Ele gosta de homem, é sério, eu vi o viadinho saindo de um hotel com um


velho.

Eu olhei para Taeil, que fez o comentário enquanto trocávamos de roupa no


vestiário para a aula de educação física.

— Ugh — Yuta fez uma careta olhando na direção de Yukwon, que estava
sentado num dos bancos afastados, e então eu soube de quem estavam falando.
- Não basta ser repetente, tem que ser viado também.
— A gente nem devia trocar de roupa no mesmo vestiário que ele — Taeil voltou
a dizer, enojado. — Vai que ele tira foto pra se masturbar depois.

— Cara, isso é nojento.

Eu voltei a tirar meu uniforme esportivo do armário de metal, sem tomar partido
na conversa idiota dos meus dois amigos.

Eles sempre foram assim e eu nunca me importei muito. Yukwon também era
um punk esquisito e já tinha reprovado duas vezes, então não era surpresa
alguma que ele fosse sempre vítima dos comentários maldosos de Yuta e Taeil
ou do resto da escola todinha.

Pelo menos, quando estavam ocupados falando de outra pessoa, eles perdiam
menos tempo me provocando sobre minhas bochechas gordas, meu dente torto
ou minhas pernas grossas.

Dessa vez, entretanto, o que me incomodou foi ouvir a forma como eles se
referiam à possibilidade de Yukwon ser gay quando eu mesmo estava me
sentindo tão atraído por um homem.

— Eu não acredito que você ainda não trocou de roupa - Yuta resmungou para
mim, pendurando a mochila no ombro quando ficou pronto.

— Não precisam me esperar — Eu disse, já sabendo que eles não esperariam


mesmo que eu pedisse.

— Se você insiste... — Taeil deu de ombros e puxou Yuta em direção à saída


para o ginásio, logo engatando numa conversa sobre a playboy que tinha
roubado do pai.

Suspirei ao fechar a porta metálica do armário, já sozinho, e coloquei as roupas


limpas no banco atrás de mim para poder tirar o uniforme que ainda estava em
meu corpo.

— Cuidado, hein? - Ouvi a voz da única pessoa que ainda estava ali. — Eu posso
muito bem tirar uma foto da sua bunda pra me masturbar olhando pra ela depois.
— Yukwon alertou, debochado, fazendo um gesto obsceno com a mão.
O comentário não foi dos mais agradáveis, mas eu não me dei ao trabalho de
me despir e vestir mais rápido por causa disso.

— Você ouviu? — Foi o que perguntei, um pouco constrangido.

— Seus amigos são uns babacas, eles falam alto justamente pra que eu escute.
- Ele disse sem parecer irritado. — Qualquer dia eu lembro de avisar que tô
cagando pro que eles acham.

Eu ri um pouco, mesmo sem jeito, e vi ele ficar de pé enquanto enfiava um


chiclete na boca.

— Não vou forçar a barra dizendo que você parece um cara legal demais pra
andar com eles, porque nem parece, mas você deveria rever suas amizades

— Ele alertou, caminhando em direção à saída. — Vai ser um problema quando


você quiser assumir que gosta de pau.

A coisa seguinte que eu ouvi foi o som da porta metálica sendo aberta para que
ele saísse do vestiário. E então eu estava finalmente sozinho, chocado demais
com o que tinha acabado de ouvir.

Eu não sabia se ele tinha falado aquilo pra me provocar, mas fiquei tão curioso
que logo depois eu terminei de me vestir às pressas, juntei minhas coisas e saí
correndo atrás dele.

Quando o alcancei, o impedi de atravessar a passagem até o campo onde os


outros da nossa turma estavam, porque não queria que eles me vissem falando
com Yukwon.

— Algum problema? — Ele perguntou, debochado, quando olhou para mim.

— Por que você disse aquilo?!

— Eu disse muitas coisas, você precisa ser mais específico.

— Você acha que eu sou gay? — Mudei a abordagem, sem entender se aquilo
na minha voz era raiva ou não.
Yukwon fez uma careta como se tivesse escutado um absurdo. — Claro que não
acho, Jimin. Eu tenho certeza.

Eu uni as sobrancelhas, confuso. Nem eu mesmo tinha certeza, como ele


poderia ter?

— Escuta, -ele deu um passo em minha direção, aproximando-se como se fosse


contar um segredo — eu reconheço um viado quando vejo um. É meu
superpoder.

Ele sorriu, com o rosto bem em frente ao meu, e minha mente viajou por várias
possibilidades em poucos segundos. Pensei em mandar ele ir se ferrar, em dar
um soco na cara dele e depois mandar ele ir se ferrar, em negar, dar um soco
na cara dele e por último mandar ele ir se ferrar.

Mas a verdade é que, sendo Jungkook o único ou não, eu estava interessado


por um homem. Por fim, apenas continuei com minha careta de confusão,
engolindo a raiva.

— Então você é mesmo gay? — Perguntei, torcendo pra que ninguém


resolvesse passar por ali e me visse falando com o cara mais rejeitado da escola.

Ele abriu um sorriso orgulhoso, em resposta — passivo mais agressivo que


você vai conhecer.

Eu não sabia muito bem o que aquilo queria dizer, mas entendi que era uma
confirmação.

— E você... sai mesmo com homens mais velhos? — Insisti, tentando soar
casual, mas ele pareceu ter percebido a motivação da minha pergunta.

— Você também curte um sugar daddy, Jimin? — Ele riu, voltando a caminhar
em direção à passagem, mas eu o impedi outra vez. — Porque eu não estou
surpreso?

— Eu nem sei o que é sugar daddy.


— Puta que me pariu, vocês enrustidos são os piores — ele resmungou,
enfiando mais um chiclete na boca.

— Olha, eu estou um pouco confuso e acredite ou não, mas você é mesmo a


única pessoa com quem eu posso falar sobre isso, então que tal ser um pouco
mais agradável? – Pedi, espalmando as mãos em seu peitoral quando ele fez
menção de que caminharia, de novo.

Yukwon levantou as sobrancelhas com deboche, talvez percebendo o que eu


estava tentando fazer, mas não foi sobre isso que ele falou.

— O que foi? Quer saber como faz a chuca ou aprender a fazer garganta
profunda, é?

Mais duas coisas que eu não entendia.

— Eu só quero saber como... como agir com um cara mais velho. — Confessei,
mortificado por estar falando aquilo em voz alta. — Ele me deixa muito nervoso
e eu não sei o que fazer, então acabo fazendo besteira.

Ele revirou os olhos, entediado. — É isso? — Perguntou, fazendo pouco caso. -


Quão mais velho esse cara é?

— Cinco anos — Anunciei, certeiro, porque as informações de Hyelin tinham


sido bastante completas. — Mas não é só isso... ele tem essa atmosfera toda
confiante e fica incrível usando terno e gravata, mas também tem aquela
tatuagem e... tudo nele me deixa... — Eu gesticulei, me abanando furiosamente,
porque não sabia que palavra usar.

— Um homem de negócios com uma tatuagem escondida? — Ele disse,


torcendo os lábios em algo que me pareceu satisfação. — Que delícia.

Eu suspirei, concordando, ainda um pouco atordoado por estar falando sobre


aquilo com ele. Por estar falando sobre aquilo com qualquer pessoa.

Yukwon então puxou a mochila das costas e abriu o zíper do compartimento


médio, enfiando a mão para pegar alguma coisa. Depois ele tirou dali um cantil
e jogou para mim, que quase não consegui pegá-lo no ar e por pouco não tive
um treco quando peguei.
— Bebe um pouco disso, relaxa e segue o fluxo. — Ele disse quando eu abri a
tampinha de metal para cheirar o que tinha dentro, sem controlar uma careta. -
O álcool vai te ajudar.

— Você traz bebida pra escola? — perguntei, julgando-o.

– Pra sua sorte, sim — Respondeu, jogando a mochila no ombro outra vez. —
Devolva o cantil sem nenhum arranhão ou eu juro que te mato.

Eu fiz uma careta pela ameaça, cheirando de novo a bebida, mas logo
percebendo que não deveria estar com aquilo exposto no meio da escola.

— Já sei que você não vai falar comigo quando outras pessoas estiverem por
perto, então boa sorte com seu sugar daddy. — Foi a última coisa que ele disse,
já depois de me dar as costas e finalmente seguir para o campo.

Yukwon não parecia irritado ao pressupor corretamente que eu não falaria com
ele quando estivéssemos no meio de outras pessoas. Na verdade, ele parecia
considerar aquilo algo completamente normal e previsível, e então eu me senti
mal de verdade.

Ele tinha um jeito rebelde e um linguajar meio grosseiro, mas não parecia má
pessoa como todos os outros me faziam acreditar. Na verdade, de todas as
pessoas que conheci naquela escola e que viviam julgando qualquer um que não
seguisse o que eles consideravam normal, Yukwon parecia ser a mais decente.

Mesmo assim, eu era covarde. Ser um aluno invisível me poupava de diversas


situações que eu queria evitar, mas ser visto com Yukwon, o gay repetente, com
certeza atrairia as atenções para mim, então eu só deixei que ele fosse na frente
e esperei um tempo, depois de esconder o cantil no fundo da minha mochila, até
que finalmente me juntei ao resto da turma e ignorei sua presença no meio do
grupo, como sempre fiz.

Quando a aula chegou ao fim, depois de ter levado duas boladas na cara e
tropeçado no cadarço desamarrado do meu tênis, eu corri para os vestiários e
fui o primeiro a tomar banho e trocar de roupa, porque queria voltar logo para
casa.

Enquanto apressava o passo no caminho de volta, chequei as horas no celular


e vi que passavam dez minutos das dezessete, então andei mais rápido ainda
até que finalmente cheguei e, ao invés de seguir até a passagem que levava à
minha casa, atravessei a recepção como um furacão, ignorando o chamado de
Hyelin.

Quando finalmente parei diante da porta do quarto onde Jungkook estava


hospedado, eu respirei fundo e passei as mãos nos cabelos, no rosto e na roupa,
tentando não parecer tão desleixado.

E então eu finalmente bati na madeira da porta de correr, esperando que ele a


abrisse ou me dissesse que podia entrar

Mas Jungkook não a abriu, nem me falou palavra alguma.

E eu esperei. Depois, bati de novo e esperei mais um pouco, mas nada


aconteceu da mesma forma.

Já um pouco nervoso, eu forcei a porta para o lado, percebendo que ela estava
destrancada e o quarto... vazio.

As toalhas e lençóis que ele tinha usado estavam juntos sobre o colchonete,
exatamente como todos os hóspedes deixavam no dia em que iam embora.

Sentindo meu coração acelerar, eu dei um passo para dentro sem nem mesmo
tirar meus sapatos, olhando para cada canto em busca de qualquer coisa que
provasse que eu estava errado e que Jungkook não tinha ido embora daquele
jeito, mas suas roupas não estavam mais ali nem sua mala ou a bandeja com o
chá ao lado dos papeis que ele lia com tanta concentração duas noites antes.

Jungkook foi embora, assim, sem uma despedida, depois de me fazer acreditar
que, naquele exato momento, eu estaria com ele, sozinho, sentindo meu
estômago revirar a cada vez que ele olhasse para mim.
Raiva nunca seria a palavra certa para descrever o que eu senti, porque a tristeza
e a sensação de ter sido enganado tão cruelmente não deixaram espaço para
isso.

Eu estava completamente encantado por aquele homem, mas, no final, parecia


que para ele eu era só uma diversão passageira.

E antes que minha visão se tornasse turva por causa das lágrimas ou que eu
saísse dali e me escondesse em meu quarto, eu vi o pequeno pedaço de papel
que, até então, tinha sido ignorado.

Bobo como sou, corri para me ajoelhar diante da mesa de chá e peguei o
pequeno bilhete, desfazendo suas dobras com as mãos atrapalhadas até ver
aquela caligrafia bonita sobre o papel branco.
Então eu li, reli e li mais uma vez as suas palavras. Tão poucas, perto de tudo
que eu tinha pensado em dizer para ele, acreditando que ainda teríamos a
oportunidade de conversar.

Jeon Jungkook tinha oficialmente me conquistado e oficialmente me


abandonado.

Naquele verão dos meus dezesseis anos, então, eu tive minha primeira
desilusão amorosa.

E com o whisky barato do cantil de Yukwon, tive o meu primeiro porre.


07 • Bystander

Três semanas depois, minhas férias de verão começaram.

Meu apreço pela escola não tinha crescido nesse pouco tempo que passou, mas
acordar naquela segunda feira sabendo que eu teria que ficar o dia todo em casa
não foi algo que me deixou particularmente feliz.

Não que eu detestasse a ideia de não ter obrigações, mas eu detestava, sim, a
ideia de ter tempo livre demais, porque ter tempo livre demais significava que eu
teria ainda menos motivos para não pensar em Jungkook.

Eu estava magoado e queria mais que tudo arrancar seu nome, seu sorriso e
sua voz me chamando de anjo da minha cabeça.

Mas eles não dizem a toa que querer não é poder. Então enquanto parte da
minha consciência me dizia que eu precisava esquecer, a outra, a vencedora,
me fazia perder horas fantasiando sobre Jungkook aparecendo na minha porta.

Mas eu sabia que ele não apareceria. Eu era estúpido, mas não a esse ponto.

Por isso, passei dias e dias ouvindo as lamentações de Hyelin sobre sua partida
sem que ela soubesse que, mesmo em silêncio, eu me lamentava muito mais.

E então, com toda aquela confusão em minha cabeça e em meu coração, minha
vida seguiu numa forma genérica e muito mais deprimente que o tedioso rumo
anterior.

Eu acordava e pensava em Jungkook. Então eu esperava o almoço, porque


acordava tarde demais para tomar café, e sentia raiva dele. Durante a tarde, fazia
companhia a Hyelin enquanto deslizava pelo feed do twitter e sentia falta de algo
que nunca cheguei a ter. Pela noite, depois de jantar com meus pais, eu me
deitava e lutava contra o impulso de jogar seu nome na barra de pesquisa do
navegador, ao invés de ir dormir e reiniciar todo o ciclo na manhã seguinte.
Meu maior problema foi perder essa luta várias vezes.

Quando a madrugada chegava e eu já estava cansado de procurar compilações


de vídeos engraçados dos meus idols favoritos, meus dedos teimosos digitavam
o nome de Jeon Jungkook e então eu perdia mais algum tempo procurando
notícias sobre ele.

Eram todas muito impessoais, sempre falando sobre sua posição como herdeiro
da Bangtan ou sobre sua aparição nos eventos em Seul, mas as minhas favoritas
eram aquelas, mesmo antigas, que tinham uma foto sua, porque então eu a
salvava e deixava em minha galeria para que pudesse sempre ver aquele rosto
bonito.

Acho que é isso que chamam de masoquismo.

Mas as férias acabaram e minha rotina improdutiva foi interrompida para que eu
abandonasse o horror de sofrer integralmente por Jungkook e voltasse ao horror
que era minha escola.

E por lá, nada de novo. Yuta e Taeil não tinham crescido espiritualmente
naquelas poucas semanas, então continuavam com as brincadeiras maldosas.
Yukwon continuava sendo alvo de piadas de toda a escola, principalmente
depois que todos descobriram que ele saía com homens mais velhos, e eu... eu
continuava agindo como se nada daquilo me importasse, egoísta demais para
me preocupar com ele quando ainda estava lutando contra os resquícios daquele
sentimento estranho que Jungkook despertou em mim.

Mas quando os outros alunos saíam da sala nos horários livres e eu ficava ali
por não estar disposto a fingir que me divertia com o senso de humor de meus
dois únicos amigos, Yukwon e eu ficávamos sozinhos, e então eu sempre tomava
a iniciativa de conversar com ele, porque descobri que nossa sexualidade não
era a única coisa que tínhamos em comum.

Naquela tarde, nos minutos livres entre a aula de história e inglês, nós ficamos
sozinhos de novo, e ele continuou mexendo no próprio celular como se eu não
estivesse ali.
— Ei — Eu chamei, me arrumando na minha cadeira para poder olhar melhor
para ele. — Viu o trailer do live-action de Attack on titan?

Ele balançou a cabeça, ainda sem me olhar. — Tá do caralho.

— Né?! — Comentei, um pouco empolgado. — Acho que foi a primeira coisa


que me deu alegria nesses últimos três meses.

Yukwon finalmente olhou pra mim com a usual careta de deboche. — Você
deveria fazer umas coisas novas. Sua vida é deprimente.

Eu suspirei, porque ele estava muito certo.

Quer dizer, eu tinha uma boa família, boas condições financeiras e não me
faltava nada de essencial, então eu posso dizer que sempre tive sorte. Mas eu
tinha dezesseis, e aos dezesseis qualquer gota é uma tempestade.

E, caramba, ser enganado por Jeon Jungkook é uma gota enorme.

— O que você faz? — Perguntei, com a esperança de ouvir uma resposta que
pudesse me ajudar.

— Sexo.- Ele respondeu, direto. — Poucas coisas me deixam tão feliz quanto
uma boa trepada.

Eu desviei o olhar, desconcertado. - Imaginei.

Yukwon então riu, acho que percebendo que eu ainda não tinha propriedade
alguma pra falar sobre isso.

— Cadê aquele seu sugar daddy que não tem idade pra ser sugar daddy, hm?
— Ele perguntou, e pareceu que estava curioso de verdade. — Você nunca fala
sobre ele.

— E eu vou ficar falando sobre um cara que disse que ia me encontrar, mas foi
embora e não deu sinal de vida por três meses? — Resmunguei, tentando
parecer bravo. — Ele só estava brincando comigo.

— Nada de novo sob o sol, bebê. — Yukwon disse, relaxado. — Você ainda vai
passar muito por isso, vai se acostumando.
Eu o olhei novamente, um pouco chocado. Ele não podia, sei lá, tentar me
consolar?

— Não sei por que acreditei que você tentaria me convencer de que entendi
errado ou qualquer coisa assim — Suspirei, relaxando minha postura debaixo do
seu olhar divertido.

— Você tem muita fé em mim. — Foi o que ele disse, debochado. — Mas olha,
pra não dizer que eu sou só ruim... — Yukwon se abaixou pra abrir a mochila e
eu quase acreditei que ele tiraria seu cantil de lá, mas então ele jogou uma
barrinha de chocolate para mim.

Eu olhei para a embalagem depois de pegá-la no ar e até sorri, mas depois


balancei a cabeça tentando me livrar da vontade de devorar o chocolate ali
mesmo. Então o joguei de volta.

— Obrigado, mas estou de dieta.

Ele pareceu confuso, com os olhos apertados e as sobrancelhas unidas. — Dieta


pra que, caralho?

Depois de várias conversas furtivas com ele, eu já estava me acostumando com


sua forma agressiva de falar, então não fiz grande caso sobre como ele
perguntou, apesar de ficar, sim, incomodado com sua pergunta em geral.

Quer dizer, era óbvio o porquê de eu precisar de uma dieta.

Eu sempre soube que não era magro o suficiente, mas, depois de ver o corpo de
Jungkook, eu me convenci de que precisava começar a dar um jeito na minha
aparência desleixada.

Eu queria ser bonito como ele, mesmo sabendo que seria impossível, pra sentir
que estava à sua altura.

— Eu preciso emagrecer. — Respondi com firmeza o suficiente pra mostrar que


aquilo era uma verdade absoluta. — Quero ficar mais bonito.

Ainda confuso, Yukwon continuou com os olhos comprimidos. — E o que é que


o cu tem a ver com as calças, cara?
E aí fui eu quem fiquei sem entender. — Que?

— Eu quis perguntar o que magreza tem a ver com beleza. — Ele explicou,
revirando os olhos, e então jogou o chocolate de volta com mais força, acertando
na minha testa.- Deixa de ideia errada, seu enrustido.

Eu massageei minha testa e olhei para o bendito chocolate que caiu em minha
mesa, um pouco assustado.

Yukwon era muito estranho, mas eu acho que ele estava tentando me animar,
então resolvi aceitar seu agrado, depois de relutar por um tempo, e rasguei o
plástico para morder o primeiro pedaço.

— Obrigado. — Eu disse, com a boca cheia e uma satisfação crescente dentro


de mim.

Eu sempre amei chocolate, mas fazia tanto tempo que não comia um que aquele
parecia especialmente gostoso.

— Você ainda quer falar sobre o macho da tatuagem? — Ele perguntou,


ignorando meu agradecimento. — Qual é a tatuagem dele, afinal?

— Uma serpente enorme — Respondi e apontei para minhas costas, para o


exato lugar onde estava o corpo da cobra negra, e depois deslizei meu dedo até
meu ombro, onde ela acabava. — - Enorme mesmo.

— Será que é uma referência ao que ele tem no meio das pernas?

Eu demorei uns cinco segundos para entender o que ele quis dizer, e quando
entendi comecei a tossir como um tuberculoso por me engasgar com minha
saliva.

Mas antes que eu pudesse acusá-lo por sua indiscrição, dois dos outros alunos
abriram a porta e entraram na sala, conversando sobre qualquer coisa. Acuado,
eu me impedi de continuar falando com Yukwon e me arrumei em minha cadeira,
olhando para a frente e continuando a comer o chocolate que ele me deu, mas
principalmente fingindo que nunca tinha trocado palavra alguma com ele.
Eu me sentia mal por ser assim, tão covarde, mas tinha muito medo de ser alvo
de todas as brincadeiras maldosas daquela gente.

Então a única coisa que fiz foi olhar discretamente para trás, alguns segundos
depois, somente para ver que Yukwon tinha voltado a mexer em seu celular,
fingindo também que nunca tinha conversado comigo.

O gosto do chocolate ficou um pouco mais amargo quando voltei a desviar o


olhar, deixando as coisas como estavam.

No final das aulas, Taeil e Yuta decidiram que gastariam mais tempo no
fliperama, mas eu estava cada vez mais indisposto pra ficar perto deles e decidi
voltar logo para casa.

Caminhando todo aquele percurso sozinho, eu não pude deixar de pensar em


como queria ter coragem de mudar as coisas. Eu queria, sim, falar sobre
Jungkook com Yukwon. Queria falar sobre várias outras coisas, também, pra
tentar esquecer esse sentimento estranho e tão novo para mim.

Em pouco tempo e poucas conversas, Yukwon já me fazia sentir que era meu
amigo, muito mais que os outros dois a quem eu realmente dava esse título.

Eu estava triste e confuso com tudo isso. Com essa amizade que não podia se
tornar real, com a forma como aqueles sentimentos por Jungkook pareciam
esfriar, mas nunca desaparecer, e sobre como eu não sabia lidar com nenhuma
dessas duas coisas.

Mas nesse dia, especial e principalmente, o que deu um verdadeiro nó na minha


cabeça foi ver o carro da Bangtan estacionado em frente ao hotel, o mesmo em
que estive com Jungkook, Dong-yul e Namjoon na última vez em que os vi.

Para cada pontinha de esperança que surgiu, dez vezes mais de frustração.

Porque eu sabia que Jungkook não estaria ali.

Então me desfiz de toda e qualquer crença de que existia a possibilidade de


encontrá-lo novamente naquela tarde e atravessei a recepção para fazer
companhia a Hyelin, ignorando a lembrança que aquele carro trazia.
— Boa tarde — cumprimentei sem qualquer empolgação, anunciando que já
estava ali.

Então ela me olhou, com a unha do polegar enfiada na boca, e seus olhos tinham
aquele aspecto assustador que eu só tinha visto quando ela falava sobre
conquistar Jungkook, três meses antes.

E ela saiu de trás do balcão, correu até mim e bateu as mãos em meus ombros.
Com os olhos ainda esbugalhados em algo que eu não sabia se era ódio ou
felicidade, ela disse:

— Ele voltou!

Ela não estava falando de Jungkook. Ela não estava falando de Jungkook. Ela.
Não. Estava. Falando. De. Jungkook.

Não se ilude, Park Jimin.

— Jesus? — Questionei, meio maroto, mesmo sentindo meu estômago revirar


com a inevitável esperança.

— Jungkook! — Ela deu um grito, mas então cobriu a boca e me puxou para
mais perto, até estarmos desconfortavelmente próximos. — O homem da minha
vida tá aqui, Jimin!

Aquilo só podia ser uma piada. Se não, definitivamente era um sonho.

— E-ele se hospedou aqui de novo? — Mesmo querendo, foi impossível


disfarçar a ansiedade em minha voz, e eu me odeio por ter gaguejado.

Mas então Hyelin negou e sua expressão assumiu uma característica


desconfiada, um pouco confusa.

— Ele vai embora ainda hoje — Ela disse, sem esconder sua frustração. — -
Disse que só está de passagem e que precisava falar com seus pais, então eles
estão conversando lá na sua casa.
— Jungkook veio até aqui só pra falar com meus pais? — Repeti, ainda sem
acreditar naquilo.

Porque Jungkook precisava falar com eles?

— Parece que é sobre você — Hyelin continuou, ansiosa.

Eu olhei para a passagem que levava até minha casa, depois olhei para Hyelin
outra vez.

— Olha nos meus olhos e jura que você tá falando a verdade. — Eu apontei
para a porta, percebendo que minha mão tremia. — Jungkook está mesmo ali?

Ela balançou a cabeça para cima e para baixo, fervorosamente.

Eu sentia que ia desmaiar a qualquer segundo.

— Então me belisca. — Movi meu braço, oferecendo-o para que ela o


machucasse. — Quero ter certeza de que não é um sonho.

Mesmo com alguma confusão no olhar, ela me beliscou, e beliscou com força.
Mas eu não acordei.

Então era real. Jungkook estava ali.

Sem dizer mais nada, muito menos sem esperar que Hyelin o fizesse, eu a deixei
para trás e avancei em direção à passagem interna, mas senti meus pés
congelarem ainda sobre o pequeno caminho de madeira quando eu o vi deixando
minha casa.

Depois de três meses e mil quilômetros de distância entre nós dois, apenas três
passos nos separavam.

Mas eu não consegui me mover, nem mesmo um centímetro.

Com meus olhos surpresos, talvez emocionados, eu concentrei todas as minhas


forças em relembrar cada detalhe daquele homem. Desde as pernas longas e
fortes, das veias em seus braços, até seu rosto, com aqueles olhos que
continuaram tão vivos em minha memória por todo aquele tempo, mas que
pareciam tão mais escuros e tão mais impenetráveis quando vistos de perto
outra vez.

E de repente, depois de tanto tempo me perguntando por que Jungkook causava


todos aqueles efeitos em mim, eu finalmente entendi.

Não tinha explicação. Porque eu não tinha como explicar a forma como ele me
olhava, muito menos como colocar em palavras aquele sorriso contido ao me
ver, nem mesmo seria capaz de descrever o tom de sua voz quando, ainda me
olhando, ele inclinou sua cabeça suavemente para o lado e finalmente deu fim
àquele silêncio.

— Não vai falar comigo, meu anjo?


8 • Sweet Escape

De todas as possibilidades que se passaram por minha cabeça, a que acabou


se tornando real foi a mais inesperada de todas elas.

Tudo bem, eu tinha motivos para ficar irritado quando Jungkook me enganou
daquele jeito. Três meses depois, entretanto, a raiva já deveria ter dado lugar a
um ressentimento mais brando.

Mas não foi isso que aconteceu, é claro, porque a irritação era tão intensa quanto
todas as outras coisas que Jungkook me fazia sentir desde a primeira vez que o
vi.

Então depois de ouvir sua voz eu continuei parado, ainda sem qualquer ação
consciente, até que finalmente retomei o controle sobre minhas pernas — mas
não sobre meus atos, já que caminhar até ele e empurrar seu peito não é
exatamente o que eu chamo de atitude racional, mas foi isso o que eu fiz.

Com um gesto brusco, ainda irritadiço, eu acertei minhas mãos contra seu
peitoral e vi o pouco impacto que isso teve sobre seu equilíbrio.

— Você mentiu pra mim! — Bradei, empurrando-o outra vez e vendo ainda
menos efeito que da primeira.

Jungkook não pareceu irritado com minha própria irritação. Na verdade, se eu


não estivesse fantasiando, a única coisa que seu olhar denunciava era uma
compreensão calma quando ele colocou sua mão sobre uma das minhas, ainda
contra seu corpo.

— Eu realmente sinto muito por isso, meu bem. — Ele disse, com calma. — Não
imaginei que ia demorar tanto pra conseguir voltar.

Minha fúria recém-desperta foi deixada de lado para que eu permitisse um


segundo de mansidão. Logo depois, entretanto, eu cerrei meus olhos, ainda
desconfiado.
— Mentira — Rebati, ciente de que parecia uma criança birrenta. — Você é um
mentiroso, Jungkook! Me fez acreditar que eu ia poder te ver, mas me deixou
com a maior cara de bobo e

— Jimin. — Jungkook interrompeu meu vergonhoso acesso de raiva e eu engoli


as palavras seguintes porque sabia que estava exagerando, mas o pouco
orgulho que eu tinha me fez sustentar minha expressão irritadiça, pelo menos
até que ele terminasse de falar. — Eu não vim aqui pra isso.

E assim, simplesmente, meu orgulho se quebrou para dar lugar a um inevitável


embaraço.

Eu estava agindo como um idiota, porque é claro que Jungkook não tinha feito
todo aquele caminho de Seul até Nam-gu para me dar explicações ou tentar se
desculpar comigo.

Então eu senti todo meu ânimo, inflado de algo que alternava entre mágoa e
excitação por vê-lo de novo, murchar de uma só vez.

Reduzido a nada além de conformismo, até porque eu já tinha me convencido


depois de sua partida que todo meu encantamento por ele tinha sido unilateral,
eu abaixei meu rosto e afastei minhas mãos de seu corpo.

Ou, pelo menos, foi o que tentei.

Mas aquela que estava presa entre seu peitoral e sua palma quente e áspera
continuou no mesmo lugar, porque Jungkook não a libertou.

— Eu vim te buscar, meu anjo. — Ele completou, e eu senti sua outra mão
segurar meu queixo para que eu erguesse meu rosto outra vez. — Eu vou ouvir
tudo que você quer dizer e juro que vou te recompensar por ir embora daquele
jeito, mas agora nós precisamos ir.

Eu nunca esqueceria da forma como meu coração batia acelerado toda vez que
ele estava por perto e me dizia coisas que eu não esperava ouvir, mas ali, diante
de suas últimas palavras, eu percebi que nunca, nunca mesmo, me acostumaria
com a sensação.
— Jungkook veio... veio me buscar? — Eu repeti, incapaz de esconder o quanto
aquilo me pegou desprevenido e mais inapto ainda a sequer reparar que falei
como uma criança.

Então ele sorriu o mesmo sorriso discreto que eu já tinha conhecido, parecendo
se divertir com meu jeito bobo de falar.

— Você vem? — Ele perguntou, ainda sem me dizer para onde pretendia me
levar, tampouco sem revelar suas intenções.

Mas assim como ele já parecia ter percebido, eu também estava ciente de que
não importava o lugar. Eu queria ir com ele.

Então todos os motivos que eu tinha para dizer que não iria foram subjugados,
sem que eu sequer tentasse impedir isso quando balancei minha cabeça num
sim.

Quando a mão de Jungkook subiu de meu queixo até minha bochecha e seus
dedos longos acariciaram minha pele, eu soube que me arrependeria até a morte
se dissesse que não.

— Arrume uma mala pequena, só para hoje e amanhã. — Ele disse, com
aqueles olhos escuros brilhando de uma forma que eu ainda não tinha visto nas
poucas oportunidades que tive.

E então a certeza do que aquilo significava fez meu coração bater ainda mais
forte.

Porque Jungkook estava feliz.

— Eu vou te esperar no carro. — Ele continuou, e eu senti suas duas mãos me


soltarem simultaneamente para que se afastasse. — Não demore muito.

A capacidade de pensar com clareza não era uma das minhas qualidades
naquele momento, então caminhar apressado até minha casa foi um ato quase
automático, e eu só parei de correr quando minha mãe apareceu diante de mim
e nós quase trombamos no corredor dos quartos.
— Ainda bem que você chegou! — Ela disse, afoita, e então estendeu uma
mochila que parecia cheia de coisas.

Num reflexo eu segurei a bolsa, e logo depois meu pai apareceu com um
envelope que ele mesmo guardou num dos bolsos menores da mochila
organizada por minha mãe.

— Esse dinheiro deve ser suficiente. — Ele disse, e eu alternei meu olhar de um
para o outro tentando entender o que estava acontecendo. — Não abuse da
bondade de Jeon, Jimin, pelo amor de deus!

— Sim, sim, se comporte direitinho e não deixe ele gastar mais dinheiro com
você - Minha mãe reforçou, se aproximando para passar as mãos em meus
cabelos que talvez estivessem um pouco desalinhados. — Ele já insistiu em
pagar a hospedagem e teve o trabalho de vir até Nam-gu só pra falar com a
gente! Sinceramente, Jimin, porque você mesmo não pediu? Dando todo esse
trabalho a alguém tão ocupado quanto Jeon...

Santa mãe de deus, o que estava acontecendo?

— Só pra confirmar... — Eu comecei, tentando não levantar suspeitas sobre algo


que nem eu mesmo sabia o que era. – O que foi que ele disse?

— Que vai te levar para conhecer o campus da Chosun em Gwangsan-gu", oras


— Foi minha mãe quem respondeu. como se eu devesse saber daquilo.
— Eu nem consigo acreditar que você está pensando em ir pra universidade!
— Ela completou, com a empolgação em sua voz crescendo
exponencialmente, e eu me senti mal porque, na verdade, aquela nunca foi uma
ambição minha.

Mesmo assim eu assenti, meio embasbacado e ainda sem entender direito o que
Jungkook tinha dito a eles.

Mas ele tinha ido até ali me buscar e me levaria para Gwangsan-gu. Eu passaria
a noite fora com ele, e isso foi o suficiente para me fazer perder todo o interesse
nos outros detalhes.

Sempre achei que detalhes eram superestimados, de qualquer forma.


— Eu coloquei um pijama, uma roupa bonita pra você usar amanhã, seus
sapatos bons e uma nécessaire e com tudo que você vai precisar pra ficar
limpinho. — Ela explicou, tirando a mochila da escola que ainda estava em
minhas costas para que eu ficasse apenas com a que ela tinha arrumado para
mim, — Aproveite a oportunidade, meu amor. Eu vou estar aqui esperando pra
ouvir tudo que você achou da universidade quando voltar, sim?

Mais uma vez eu assenti, ainda sem dizer nada, porque a suposta visita ao
campus da Chosun era minha última preocupação.

— E se comporte! — Meu pai repetiu quando minha mãe começou a me guiar


até a porta pela qual eu tinha acabado de entrar.

Com as despedidas devidamente feitas e os avisos sobre minha conduta


reforçados, eu finalmente segui o caminho de volta até o carro que estava
estacionado lá na frente da recepção, ainda sem acreditar que eu ia mesmo
viajar com Jungkook.

Uma viagem para um distrito que ficava a quarenta minutos de Nam-gu, mas
ainda assim... eu iria só com ele.

Por isso, por toda a improbabilidade na situação, eu quase pedi para Hyelin me
beliscar de novo quando passei por ela e vi seus olhos curiosos, mas tudo que
fiz foi devolver seu olhar com uma expressão que dava a certeza de que eu não
ia parar para conversar, então não foi surpresa quando ela não interceptou meu
caminho para começar o interrogatório que eu sei que queria fazer.

Então, quando eu estava do lado de fora outra vez, Jungkook saiu do carro e
deixou a porta aberta para que eu entrasse. E eu o fiz, ainda com minha cabeça
girando e girando e girando.

Eu olhei para ele, que sentou a uma distância de dois palmos de mim, depois
olhei para a mochila que eu ainda abraçava quase inconscientemente e por fim
voltei toda minha atenção ao seu rosto.

— Jungkook — chamei, um pouco incerto, porque não sabia se minha dúvida


era justificável ou se era mais uma das coisas que eu não entendia por ser
devagar demais. — Eu ainda não entendi o que tá acontecendo...
Ele me olhou em silêncio, paciente, esperando que eu continuasse.

— Por que você tá me levando pra Gwangsan-gu? Minha mãe disse que é pra
me levar numa universidade, mas... não faz sentido... — finalizei, baixinho.

— Você realmente não entendeu, meu anjo? — Jungkook perguntou, e eu tive


medo de encontrar impaciência na sua voz, mas não havia nada além de uma
entonação quase brincalhona.

— Não... — Respondi, um pouco sem jeito. — Me explica, por favor.

Eu vi Jungkook mover o rosto para o lado, ainda sereno, enquanto repetia o já


conhecido gesto de girar um dos anéis em seus dedos.

— Seus pais não deixariam você vir se eu dissesse a verdade sobre meus
motivos para te trazer comigo, então eu tive que pensar em algo melhor.

Eu apertei meus lábios, ainda tentando montar o quebra cabeça que era
entender as suas intenções.

— E qual é a verdade? — Perguntei, ansioso, com os olhos atentos somente a


ele.

Jungkook piscou devagar, ainda calmo, quando voltou a olhar para mim. — Eu
só queria passar algum tempo com você.

Não seria novidade dizer que eu senti meu coração perder o controle, mas eu
juro que, dessa vez, todos os efeitos da confissão de Jungkook foram dez vezes
mais devastadores que em qualquer uma das outras vezes.

E enquanto metade de mim transbordava de alegria, porque eu realmente


acreditava que ele estava sendo sincero, a outra podava meu sorriso, impedindo-
o de crescer tanto quanto sei que cresceria, porque eu achava que não deveria
acreditar.

— Você não parece feliz. — Ele disse, talvez um pouco decepcionado, mas sem
demonstrar isso verdadeiramente.

Balancei minha cabeça, negando. Eu estava feliz, mas também estava com
medo.
— É só que... parece que você tá brincando comigo. — Confessei,
envergonhado, abraçando minha mochila com ainda mais força.

Eu não queria desconfiar de Jungkook e soube que ele queria isso menos ainda
quando vi a forma como ele respirou fundo e umedeceu os próprios lábios.

— Eu não tenho tempo pra esse tipo de coisa, Jimin. — Ele disse, e eu
realmente não gostava de quando ele falava meu nome daquela forma. — Se eu
vim até aqui, foi porque queria te ver. E só.

— Então porque você não veio antes? — Insisti, com a voz baixa e tímida porque
eu não queria estar fazendo aquelas perguntas.

— Essa é a primeira chance que eu tenho de sair de Seul nos últimos meses.
— Quando ele respondeu, eu o vi massagear a própria nuca e fechar os olhos,
e isso me deixou ainda mais frustrado.

Eu não diria que ele estava irritado, mas também não estava calmo como antes.
E se Jungkook tinha mesmo ido até Nam-gu só por mim, não era justo que eu
fosse a causa de qualquer sentimento negativo seu.

Então eu juntei minha coragem nos segundos seguintes, um pouco sufocado


pelo silêncio, e finalmente deixei minha mochila de lado para que eu pudesse me
mover sobre o banco até encostar minhas pernas nas suas.

Ainda ansioso, porque eu não sabia se ele me repreenderia por me aproximar


daquela forma, eu segurei seu braço com minhas duas mãos e o encarei com os
olhos arrependidos.

— Desculpa... Jun... — Eu balbuciei sem confiança alguma, sentindo a


vergonha me fazer querer desmaiar por chamá-lo daquela forma.

Quando Jungkook deixou escapar o que poderia ser facilmente identificado como
uma risada, eu só me envergonhei ainda mais e desejei com um pouco mais de
força que minha vida fosse ceifada naquele exato momento.
— Não me chame assim, Jimin. — Ele disse, e aí eu me encolhi ainda mais
porque achei que estava brigando comigo, até que ele continuou. — Eu gosto de
ouvir você dizendo o meu nome.

Com um clique, meu sorriso se abriu na mesma hora. E então durante o restante
do tempo que passamos dentro daquele carro, Jungkook me deixou continuar
daquele jeito, bem pertinho dele, enquanto me explicava que estava indo a
Gwangsan-gu para uma reunião com um dos clientes da Bangtan, e depois me
deixou falar pelos cotovelos sobre todo tipo de assunto que talvez nem fosse de
seu interesse, mas ele prestou atenção mesmo assim.

Talvez eu fosse muito bobo e estivesse me contentando com pouco, mas mesmo
que ele não tivesse saído de Seul só para me ver, eu não conseguia parar de
sorrir a cada vez que percebia que Jungkook deu um jeito de me levar para perto
dele.

Quando finalmente chegamos em Gwangsan-gu, quase uma hora depois de


termos entrado no sedan preto, o motorista nos deixou na frente de um prédio
alto, mas ele não parecia um hotel.

— Parece um condomínio normal... — Eu murmurei, meio sem pensar, e


Jungkook apoiou a mão na base da minha coluna para me guiar para o interior.

Prendi a respiração com seu toque, e deixei que meu corpo seguisse o comando
silencioso e firme de sua palma.

— E é, anjo — Ele disse em resposta, sem explicar nada mais, até que
estivéssemos dentro do elevador.

Quando as portas se abriram no décimo terceiro andar, eu o segui até um dos


apartamentos e quase caí pra trás quando nós entramos e vi, no pequeno sofá
da sala iluminada, um homem com os cabelos tingidos de rosa.

Ao perceber que nós tínhamos entrado – não, seria muito mais coerente dizer
que foi quando ele viu Jungkook o desconhecido sorriu, mas não fez menção
alguma de se levantar.

— Finalmente, gato.
— Eu só pedi pra você deixar a porta aberta, Kihyun — Jungkook disse em
resposta sem cuidado algum na voz, mas o tal Kihyun não pareceu se incomodar
com isso.

Na verdade, o sorriso dele aumentou ainda mais e então ele ficou de pé,
caminhando calmamente até jogar os braços ao redor do pescoço de Jungkook.

Eu não sabia quem ele era, mas definitivamente não gostava desse cara e ele
sequer parecia ter percebido que eu estava bem ao lado.

— E perder a chance de dar um abraço no aniversariante mais gostoso?

— Kihyun disse, ainda abraçando Jungkook.

De repente, eu não sabia mais se o odiava por tocar em Jungkook e chamá-lo


daquele jeito ou se deixava meu queixo cair por descobrir que era seu aniversário
e ele não tinha me contado.

— Já chega — Ele disse, afastando o cara estranho com suas mãos.

Kihyun ainda não parecia incomodado por ter sido empurrado, mas então ele
olhou para mim e inclinou o rosto, curioso, antes de apontar seu indicador em
minha direção.

— Namjoon costumava ser mais alto. — Ele disse, parecendo se divertir com a
própria brincadeira.

— Meu nome é Jimin e eu vim com o Jungkook. — Me apresentei, um pouco


emburrado, tentando provar que não estava ali por acaso.

— É, neném, eu te vi entrando com ele — Kihyun respondeu, sorrindo como se


debochasse de mim, e então olhou para Jungkook de novo. — Sério que você
vai ficar de babá logo no dia do seu aniversário, gato?

Jungkook apenas o olhou daquela forma demorada antes de caminhar até o sofá
onde Kihyun estava antes, forçando-o a sair do seu caminho.
Eu continuei parado exatamente no mesmo lugar, sendo analisado pelo cara
estranho enquanto ele usava o indicador e o polegar para brincar com o próprio
lábio.

— Venha aqui, anjo. — Jungkook disse, quase como se eu já devesse estar com
ele.

Então eu olhei para Kihyun uma última vez, ainda emburrado, e caminhei com
passos irritados até onde Jungkook estava.

Quando eu parei próximo o suficiente, sem saber se ele queria que eu sentasse
ao seu lado ou não, Jungkook colocou as duas mãos na minha cintura e me
puxou com cuidado até que eu parasse, ainda de pé, entre suas pernas.

Ele então segurou as pontas do suéter fino do meu uniforme e o puxou para
cima, sem dizer nada.

Mesmo assim, eu entendi e levantei meus braços para que ele tirasse a peça de
meu corpo.

Ainda com calma, ele dobrou o casaco e o colocou ao seu lado. Depois, voltou
com os dedos longos e afrouxou o nó da minha gravata até que a tirasse
também, me deixando só com a calça feia e a blusa do uniforme.

Quando desabotoou o primeiro botão da minha camisa branca, ele parou e me


olhou, dali de baixo. Mesmo que eu estivesse de pé e ele sentado e, pela primeira
vez, eu o olhasse de cima, era impossível me sentir superior com a forma como
aqueles olhos pareciam me desarmar completamente.

— Vá tomar um banho — Ele disse, descendo as mãos direto até a parte de


baixo da minha blusa e então a puxando para fora da calça —, nós vamos jantar
depois.

Sentindo as mãos dele em minha cintura outra vez, era como se eu tivesse
esquecido completamente que Kihyun ainda estava ali.

— Vamos? — Eu repeti, sentindo minha pele arder no lugar onde ele me tocava
sobre a blusa.
— Podemos sair ou pedir alguma coisa. — Ele disse, e então um de seus
polegares começou a deslizar sobre minha barriga enquanto suas mãos ainda
me seguravam. — O que você prefere?

— Só... Só nós dois? — Eu perguntei, quase suspirando com seu toque.

— Só nós dois.

Eu mordi o lábio para tentar conter um sorriso de satisfação e vitória, e então


encolhi meus ombros num gesto indeciso.

— Então eu prefiro o que Jungkook preferir.

Eu não sabia se aquela era a melhor resposta, mas a forma como o canto da
boca dele se curvou num sorriso orgulhoso me fez sentir orgulho também.

— Se arrume. Nós vamos jantar fora - Ele disse, e eu sorri de novo, ainda mais.

— Tá bom! — Respondi empolgado, mesmo que não estivesse tão satisfeito por
ele ter afastado suas mãos de mim.

Então quase corri até minha mochila, que ainda estava ao lado da sua mala na
entrada do apartamento, e senti meus passos diminuírem quando vi a forma
como Kihyun alternava o olhar entre Jungkook e eu, sorrindo como se estivesse
assistindo a um espetáculo.

Eu o encarei de volta, incomodado, antes de abraçar minha mochila e caminhar


até o banheiro, que não foi difícil de achar.

Antes que eu fechasse a porta, entretanto, eu ouvi a voz de Kihyun outra vez.

— Ele já veio adestrado assim? — Ele perguntou, debochado, e eu soube que


estava falando de mim.

— Não provoque o Jimin. — Jungkook ignorou sua pergunta e eu estava tão


curioso com a conversa que, quase sem perceber, saí do banheiro e me escondi
atrás da parede para poder ver e ouvir melhor. — Eu não o trouxe aqui pra ser
vítima desse seu humor.
Eu então me espremi atrás da parede para que eles não me vissem espionando,
e eu só queria que, dessa vez, Jungkook não me notasse.

— Ah, que dom protetor... — Kihyun voltou a falar ainda debochado, sentando
no espaço livre do sofá, e eu não entendi muito bem o que ele quis dizer com
dom. — Me dói admitir que ele é exatamente do tipo que você gosta. Sabe o que
mais? Me lembra um pouco o Taehyung antes de vocês terminarem...

— Se você quer dizer algo, diga. Você sabe que eu odeio esse tom sugestivo.

Kihyun sorriu, se sentando com o braço apoiado no encosto do sofá e inclinando


o rosto com um trejeito meio divertido.

— O que eu poderia estar sugerindo, gato? Ele parece seu ex. É só isso que eu
quero dizer.

Eu apertei minhas mãos contra a parede, incomodado com aquela afirmação,


mas eu nem entendia o porquê.

— Jimin é diferente. — Jungkook disse, depois de algum tempo, e não havia


impaciência na sua voz. Ele estava calmo como estava quando me encontrou
em minha casa. — Não ache que eu estou tentando substituir alguma coisa.

— Longe de mim achar que você é sacana a esse ponto. E aquele menino
parece tão fácil de iludir... — Kihyun continuou, sem se desfazer do tom divertido.
— Mas tem outra coisa que me deixa mais curioso, e é porque eu não consigo
entender porque você veio hoje se sua reunião é na segunda.

— Não posso me adiantar um pouco?

— Você nunca chega com três dias de antecedência. — Kihyun rebateu,


sorrindo. — E se não me falha a memória, você disse que Namjoon vem no
domingo, então você poderia muito bem ter deixado pra vir com ele.

— Sim, poderia. — Jungkook disse, simplesmente.

— Me diz... — O cara estranho aproximou seus rostos, abaixando o tom de voz


— Por um acaso aquele menino gordinho e engraçado é o seu presente de
aniversário pra você mesmo?
Eu o odiaria pela forma como se referiu a mim, mas parece que tudo isso
perdeu o efeito quando eu vi o sorriso pequeno de Jungkook.

— Você é muito curioso, Kihyun. — Foi o que ele disse, em resposta.

O de cabelos cor de rosa ergueu os ombros, displicente.

— Não posso evitar, você sabe que desperta isso nas pessoas. — Ele
resmungou, ficando de pé. — Vou te deixar sozinho com seu presente, mas ele
ainda parece muito novo... então não faça nada que vá te mandar pra cadeia,
huh? Uma delícia como você não pode ser trancafiada numa cela suja.

— Eu sei até onde devo ir. — Jungkook disse, e ele parecia bem humorado como
nunca o vi antes. — É vergonhoso receber conselhos de uma pessoa como você,
então não faça isso.

— Ai, meus sentimentos! — Kihyun dramatizou, levando a mão ao próprio peito,


mas então sorriu. — Mas parabéns, gato. — Ele disse e depois se abaixou para
dar um beijo na bochecha de Jungkook. — Se você cansar de brincar de babá e
quiser comemorar como um adulto, já sabe onde me encontrar, né?

— Boa noite, Kihyun.

Kihyun ainda sorriu mais uma vez antes de finalmente se afastar, e eu me


escondi para que ele não me visse quando caminhou até a porta, calçou os
próprios sapatos e finalmente saiu.

Eu ainda estava confuso com a conversa que ouvi e não sabia a que ponto dela
deveria dar mais atenção, mas eu sabia muito bem o que queria fazer depois de
ouvir de Kihyun que Jungkook tinha antecipado sua ida a Gwangsan- gu por
minha causa.

Então ao invés de entrar no banheiro como deveria ter feito muito antes, eu
caminhei de volta até a sala e o vi ainda sentado no sofá, começando a
desabotoar a própria blusa e parando assim que me viu.

— Você não me disse que era seu aniversário — Eu murmurei, porque não sabia
mais o que dizer, ainda parado um pouco longe dele.
Jungkook me olhou sem dizer nada, mas falhou em esconder a surpresa quando
eu dei um passo ainda hesitante em sua direção e comecei a desabotoar minha
blusa exatamente como ele estava fazendo antes que eu aparecesse ali outra
vez.

— Eu sou seu presente, Jungkook? — Perguntei, dando mais um passo,


desabotoando mais um botão.

Minha voz tremia porque eu não sabia o que estava fazendo, mas principalmente
porque Jungkook me olhava daquela forma que deixaria qualquer um sem ar.

— Não faça isso, Jimin. — Ele alertou, mas eu só me aproximei mais.

A sensação de desobedecer Jungkook era estranha, porque eu sempre fazia


tudo exatamente como ele queria que eu fizesse, mas não dessa vez. Só dessa
vez.

Ser seu aniversário era só um pretexto, porque havia um motivo ainda maior que
me fazia querer fazer aquilo, e esse motivo era a felicidade que parecia ter
tomado conta de cada uma das minhas células.

Talvez não fosse na mesma intensidade, mas eu acreditava de verdade, naquele


momento, que Jungkook também se sentia atraído por mim.

— Feliz... — Senti minha voz morrer quando desabotoei o último botão da minha
blusa amarrotada, exatamente em sua frente, sem coragem de tirá-la de uma
vez porque eu odiava meu corpo. Mas então eu respirei fundo uma duas ou mais
vezes e finalmente me livrei da última peça que ainda cobria a parte superior da
minha pele. — Feliz aniversário, Jungkook...

Eu estava inseguro, e o silêncio de Jungkook só fazia as batidas de meu coração


se tornarem ainda mais frenéticas.

Aquilo nunca funcionaria como um presente. Na verdade, talvez só o fizesse


perceber como eu era feio.

Então eu mordi meu lábio e abracei meu próprio corpo, tentando esconder o que
precisei juntar tanta coragem pra mostrar.
Eu me desculparia?

A vergonha era tanta que eu nem sabia o que deveria fazer, mas enquanto eu
tentava descobrir, Jungkook segurou meus braços e os forçou a se afastarem do
meu abdômen nu, deixando-o completamente exposto outra vez.

Quando ele deslizou as pontas dos dedos por uma linha imaginária que ia do
meu peito até o cós de minha calça, eu soltei o ar que nem sabia que estava
prendendo e deixei que meus olhos se fechassem enquanto sentia seu toque
contra meu corpo exposto só para ele.

Então ele ficou de pé e nós dois nunca tínhamos ficado tão perto um do outro
como naquele instante.

— Abra os olhos.

Devagar, sentindo que tudo ao meu redor parecia girar, eu deixei que minhas
pálpebras se abrissem outra vez. Então eu vi o rosto de Jungkook tão perto que
me deixou tonto.

— Não tenha vergonha do seu corpo, Jimin — Ele disse com sua mão subindo
por meu pescoço lentamente. — Você é lindo.

Eu precisei puxar o ar com mais força, mas parecia que ele nunca chegaria aos
meus pulmões.

— Você é mais... — Eu murmurei, porque a forma como Jungkook disse que eu


era lindo me tornou incapaz de dizer o contrário.

Ele então moveu a cabeça para o lado, negando.

— Nós somos diferentes, meu anjo. Só isso.

— Mas você é tão... — Eu não completei, porque não precisava. Meus olhos,
minha respiração e cada uma das minhas ações deixavam claro o que eu queria
dizer. Então, ainda um pouco atrapalhado, eu desci meu olhar até a pele exposta
por sua blusa já aberta até a metade e a toquei com as pontas dos meus dedos.
— Deixa eu te ver de novo, Jungkook...
O tempo que ele levou para me dar uma resposta me fez acreditar que meu
pedido seria negado, mas então suas mãos seguraram as minhas e ele as levou
até o primeiro botão ainda fechado de sua camisa.

Seu rosto estava sério, mas seus olhos pretos tinham aquele brilho que
provavam o quanto ele não estava indiferente ao que estava prestes a acontecer.

Então eu tirei botão por botão, até abrir sua blusa completamente e deslizá-la por
seus ombros para que caísse no chão.

E ali estava, outra vez. Aquela tatuagem, seus músculos suaves e a pele que eu
tanto queria tocar desde a primeira vez em que o vi.

E eu o toquei.

Na cabeça da serpente em seu peito, primeiro, para depois descer até os limites
de sua calça ainda com o cinto afivelado.

Eu não entendia como era possível alguém ser tão lindo quanto Jungkook. Era
como se cada pedaço de seu corpo fosse cuidadosamente esculpido, até não
restar uma só parte que não me deixasse sem ar.

— Isso não é normal... — Eu balbuciei, ainda incapaz de entender como uma


pessoa poderia me afetar tanto assim.

Mas eu não queria entender. Eu só queria aproveitar aquelas horas que teria
com ele.

E sem pedir sua permissão ou sequer pensar que ele poderia me rejeitar, eu
passei meus braços para suas costas e o abracei com força, sentindo meu rosto
contra seu peitoral quente.

E Jungkook me abraçou de volta.

Uma mão nas minhas costas, a outra em minha cabeça e sua voz ricocheteando
em meu coração quando ele me respondeu. — Eu sei que não é, meu anjo, mas
eu adoro a forma como você me faz sentir.

[1] Gwangsan-gu é um distrito vizinho a Nam-gu, onde Jimin vive, em


Gwangju.
09 • Rumble Tumble

Talvez eu tenha ficado tempo demais sem esboçar qualquer reação, acho que
com medo de descobrir que Jungkook não estava falando sério.

Então eu fiquei quieto, ainda sentindo o calor de seu corpo contra o meu, porque
se suas palavras não fossem reais, pelo menos eu sabia que aquele abraço era.

Jungkook era quente, seu abraço era apertado e seu cheiro era daqueles que
não são bons só pelo perfume. Tinha algo de natural na forma como o odor de
sua pele se misturava à colônia discreta, assim como foi natural ser tomado por
insatisfação quando ele me afastou com cuidado.

Mesmo assim, eu aproveitei que minha cabeça não estava mais pressionada
contra seu peitoral e busquei seus olhos, finalmente.

Talvez ele fosse um bom ator, mas eu senti meu interior se desestabilizando
ainda mais quando não consegui encontrar sequer um indício de que ele estava
mentindo, então eu me dei o direito de acreditar mais um pouco nele.

Eu estava sendo um pouco inconsequente ao correr, de forma espontânea, o


risco de me iludir-mesmo que não existisse absolutamente nada além da minha
insegurança me fazendo acreditar que aquilo poderia não passar de um teatro,
mas quando os dedos longos e ásperos de Jungkook deslizaram por meu rosto,
eu não consegui mais me importar com isso.

— Jimin — Ele me chamou, e só então percebi que seu toque me fez fechar os
olhos quase inconscientemente.

Então eu voltei a olhar para seu rosto, ainda um pouco sonhador, só para sentir
meus olhos quase saltando para fora quando ele me beijou na testa. Depois, ele
fez o mesmo com minha bochecha, e eu senti sua boca se arrastar sobre minha
pele até que seus lábios estivessem próximos ao meu ouvido.
Eu precisei me segurar nele com mais força, ainda aproveitando a proximidade
do abraço recém-interrompido, para que meu corpo não desmontasse no chão.

Jungkook definitivamente nunca fez bem ao meu equilíbrio, fosse ele físico ou
emocional.

— Eu vou te perdoar por ouvir minha conversa com Kihyun, — Ele disse contra
minha orelha, com seu hálito quente se misturando à sensação quase
ameaçadora de sua voz tão próxima - mas nós não vamos sair se você não ficar
pronto logo.

Eu não tinha percebido até então que tinha entregado de bandeja a minha culpa
em ouvir, sem permissão, o que ele e o cara estranho tinham conversado, mas
não foi vergonha que eu senti ao finalmente notar isso.

Foi inquietação, porque Jungkook parecia estar disposto a usar isso como parte
do motivo para me castigar caso eu não o obedecesse e me aprontasse rápido.

— Eu vou ficar pronto rapidinho — Afirmei, falando tão rápido quanto pretendia
me arrumar.

Jungkook já tinha afastado seu rosto do meu, então eu pude ver seu sorriso
pequeno e satisfeito quando ele gesticulou com a cabeça na direção do banheiro
de onde eu nem devia ter saído, e se sentou outra vez no sofá.

— Então vá, anjo — Ele reforçou, deixando que suas mãos começassem a
desafivelar seu cinto da mesma forma lenta que eu já o tinha visto fazer uma
vez. — Você não quer me aborrecer logo hoje, quer?

Eu neguei sem precisar reforçar minha resposta com palavra alguma, precisando
menos ainda de tempo para pensar, porque eu já conhecia a sensação
ameaçadora de ver Jungkook com o cinto de couro nas mãos.

Então eu sequer esperei que ele o retirasse completamente, consciente de que


perderia o já fraco controle sobre meu corpo caso o fizesse, e voltei ao banheiro
com o estômago revirado e os dentes cravados em meu lábio.
Não fazia sentido algum, mas a sensação de estar prestes a correr perigo era
irracionalmente deliciosa. Ao mesmo tempo, me inquietava saber que qualquer
pequeno atraso me faria ultrapassar a linha da iminência para me deixar cara a
cara com um lado menos paciente de Jungkook.

Então eu me apressei ao tomar banho, satisfeito por poder me sentir limpo depois
de passar todo o dia na escola, e depois voltei até a mochila que minha mãe
tinha preparado só para descobrir que ela realmente tinha colocado todos os
itens de higiene básica, como tinha dito, mas sentindo uma inevitável vontade de
morrer quando vi as poucas opções de roupas disponíveis.

Não acho que seja algo restrito somente à minha mãe, mas ela sempre teve um
gosto um pouco controverso quando se tratava de escolher roupas para mim.
Então quando me disse que tinha colocado uma roupa bonita, eu já deveria ter
imaginado que todas as peças ali dentro seriam as mais cafonas do meu armário.

— Mãezinha, eu te amo tanto, mas assim não dá... — Choraminguei, erguendo


a blusa social bege no meio do banheiro e imaginando o horror que ela ficaria
junto com a única calça na mochila.

Mas mesmo sabendo que a combinação seria deplorável, eu não tinha tempo
para me lamentar, porque Jungkook estava me esperando e eu não queria que
ele desistisse de me levar para sair por causa da minha demora.

Então me vesti, confirmando que a blusa de velho ficava ainda mais horrenda
quando combinada à calça marrom, e finalmente saí do banheiro abraçando a
mesma mochila para tentar esconder o desastre que era minha roupa.

Quando parei na sala, um pouco ansioso por não saber quanto tempo tinha
demorado para voltar, eu vi que Jungkook tinha vestido outra blusa, uma branca
de botões com mangas curtas e uma estampa de motocicletas um pouco
estranha — mas que ficava muito bem nele, de qualquer forma — e também
trocado sua calça por uma mais justa.
E por mais que seus jeans usuais não falhassem em mostrar como suas pernas
eram fortes, a que ele estava usando levava a imagem de suas coxas a algo
muito além.

Mais que isso, me fez reforçar a já dolorosa certeza de que eu o desejava como
um louco.

Essa percepção me fez odiar um pouco mais minha roupa, principalmente


quando Jungkook me notou ali e eu senti seu olhar me avaliando da cabeça aos
pés.

Eu encolhi os dedos dos pés sobre o assoalho frio, constrangido, quando ele se
recostou na janela da sala com as mãos escondidas nos bolsos de sua calça e
continuou me olhando, em silêncio.

— Eu demorei? — Perguntei, ainda sem conseguir decifrar se ele estava


achando minha aparência tão desastrosa quanto eu mesmo achava, mas
também com medo de descobrir.

— Um pouco. — Jungkook respondeu, e então deixou que ficássemos em


silêncio enquanto me analisava por mais um tempo, até que ele mesmo voltou a
falar. — O que foi, anjo?

Eu fiz uma careta um pouco confusa, sem entender seu questionamento.

— Você não parece confortável. — Jungkook explicou, ainda sem sair do lugar.

Entendendo a motivação de sua pergunta, eu olhei para baixo antes de abraçar


minha mochila, levantando-a um pouco mais para que pudesse enterrar meu
rosto nela e esconder minha vergonha.

— Minha roupa... — Eu respondi, sentindo minha voz sair abafada.

Mas Jungkook não disse nada, por muito tempo.

Então eu levantei minha cabeça, um pouco curioso, e vi que ele parecia estar
tendo problemas em controlar uma risada.

Rindo de mim, de novo.


Envergonhado e com a certeza de que meu rosto ia ficar todo vermelho, eu voltei
a escondê-lo na mochila, dessa vez com mais determinação e por menos tempo,
porque não demorou para que eu sentisse Jungkook puxando meus braços antes
de tirar a bolsa de mim e colocá-la no sofá.

— Qual o problema com ela? — Ele perguntou, parado em minha frente,


começando a dobrar uma das mangas da minha blusa.

— Parece as roupas que meu avô usava... — Expliquei, ainda sentindo meu
rosto mais quente que o normal quando ele começou a arrumar o outro lado da
minha camisa. - Eu não devia ter deixado minha mãe escolher...

— Não se preocupe com isso, meu bem, — Ele disse depois de dobrar as duas
mangas, e então começou a arrumar a gola que eu nem mesmo tive a decência
de desamassar-você fica lindo de qualquer jeito.

Eu pisquei, um pouco desajeitado, diante da forma como a expressão de


Jungkook continuava serena depois de me dizer aquilo.

Quer dizer, eu sempre tropeçava nas palavras quando tentava dizer algo
parecido, e acho que essa sempre foi a maior diferença entre nós dois, ainda
acima da lacuna entre nossas idades.

Jungkook tinha confiança em tudo que fazia ou dizia. Eu, por outro lado,
precisava sempre lidar com a insegurança.

Talvez eu tivesse esse pequeno complexo por estar rodeado de colegas que
viviam apontando os dedos para as falhas dos outros. E, com certeza, via isso
ser intensificado porque Jungkook simplesmente tinha esse efeito sobre as
pessoas.

Mas ele tinha outro efeito, que era o de conseguir me fazer pensar demais, ou
não pensar de forma alguma.

E com seu rosto tão próximo do meu e o acúmulo de sensações que ele me
provocou nas últimas horas, foi exatamente a última opção que venceu.

Então eu não raciocinei, como se sequer fosse capaz de fazê-lo. E talvez eu não
fosse, não naquele pequeno instante em que Jungkook reafirmou que me
achava bonito. Definitivamente não quando eu senti a vontade que por tanto
tempo achei que deveria sentir quando estivesse tão perto de uma garota de
quem gostasse.

Mas eu já sabia que uma mulher nunca me faria sentir desse jeito, assim como
tinha a mais absoluta certeza de que eu precisava fazer aquilo.

Então foi um gesto um pouco impulsivo, mas eu fiquei nas pontas dos pés e
beijei a boca de Jungkook, pela primeira vez.

Um beijo tão furtivo que eu mesmo me afastei logo em seguida, com os olhos
ansiosos esperando uma reação, mas até mesmo ele pareceu ser pego de
surpresa, e então nada veio pelos primeiros segundos.

— Eu não vou me desculpar por isso — Eu disse, soando muito menos


decisivo do que esperava.

Mas eu não ia, mesmo que minha voz falhasse em transmitir quão sério eu
estava falando.

Talvez por isso, por me ver soar tão inconsistente ao dizer algo tão definitivo,
Jungkook acabou sorrindo.

E eu gostava quando ele sorria daquele jeito meio atravessado, meio perigoso,
mas gostava ainda mais quando seu sorriso era suave como o que ele me
mostrou naquele momento.

— Parece que eu estou sendo muito permissivo com você, — Ele disse, enfim,
enquanto eu ainda esperava com ansiedade — mas não precisa se desculpar
por isso.

Então eu apertei meus lábios, tentando não evidenciar o sorriso enorme que
queria aparecer quando interpretei suas palavras.

— Você também queria me beijar! — Afirmei, um pouco inconsequente e


completamente deslumbrado.
Jungkook uniu as sobrancelhas como se minha euforia fosse infundada, e seu
sorriso pequeno se quebrou quando ele passou a língua sobre os lábios, antes
de responder.

— Alguma vez eu te fiz pensar que não queria, anjo?

E então lá estava, de novo, a mesma incapacidade de reagir com qualquer coisa


além de exibir meus olhos surpresos.

Eu senti alguma satisfação ao ver a forma como consegui deixar Jungkook sem
reação, mas muito pouco depois ele me lembrou que eu nunca o deixaria tão
incapaz de agir como ele fazia comigo, com tão pouco esforço.

E a forma como seu sorriso voltou a aparecer também me fez ter a certeza de
que ele sabia que tinha deixado aquilo muito claro.

Mas não era tão fácil deixar Jungkook satisfeito, então eu estremeci quando ele
inclinou um pouco a cabeça, ainda sustentando o sorriso obliquo no canto dos
lábios.

— É melhor você me responder quando eu te fizer uma pergunta, Jimin.

Eu pisquei várias vezes, um pouco acuado.

— Eu... — Comecei, ainda desajeitado. — Eu não sei...

Jungkook puxou o ar, fingindo um estar pouco surpreso — E eu achava que


sempre fui tão óbvio com você... — Ele disse, sem parecer incomodado, como
se aquela conversa estivesse seguindo exatamente o rumo que ele queria.

— Você é tudo, menos óbvio... — Eu rebati, com toda a sinceridade possível, e


vi Jungkook dar um passo para mais perto.

Eu não desviei meu olhar nem mesmo quando precisei inclinar meu rosto para
poder continuar olhando-o por estar tão próximo, mas foi impossível seguir
respirando normalmente quando ele segurou meu rosto com firmeza, mas
também com cuidado.
— Eu tenho que ser mais claro, então? — Ele perguntou, e eu senti o peso do
meu peito subindo e descendo com força quando respondi, um pouco atordoado,
com um balançar de cabeça.

Jungkook então desceu com a mão que estava em meu maxilar até minha nuca
e eu perdi um pouco do equilíbrio quando ele me puxou em sua direção, me
forçando a usar minhas próprias mãos para não deixar meu corpo se chocar
desastrosamente contra o seu.

Ainda com sua mão segurando minha nuca e as minhas espalmadas contra seu
abdômen, ele aproximou o rosto e o deixou dolorosamente perto, com seus olhos
escuros atraindo os meus como um imã atrai metal.

— Eu quero te beijar, Jimin, — Ele disse e então beijou o canto da minha boca
de forma demorada, me fazendo suspirar — mas eu também quero fazer muito
mais que isso com você.

De volta ao estado em que pensar deixou de ser uma opção, eu amassei sua
blusa com minhas mãos e fechei os olhos, ainda sentindo seus lábios tocando
minha bochecha daquele jeito tortuoso.

Jungkook então desceu com a mão que estava em meu maxilar até minha nuca
e eu perdi um pouco do equilíbrio quando ele me puxou em sua direção, me
forçando a usar minhas próprias mãos para não deixar meu corpo se chocar
desastrosamente contra o seu.

Ainda com sua mão segurando minha nuca e as minhas espalmadas contra seu
abdômen, ele aproximou o rosto e o deixou dolorosamente perto, com seus olhos
escuros atraindo os meus como um imã atrai metal.

— Eu quero te beijar, Jimin, — Ele disse e então beijou o canto da minha boca
de forma demorada, me fazendo suspirar — mas eu também quero fazer muito
mais que isso com você.

De volta ao estado em que pensar deixou de ser uma opção, eu amassei sua
blusa com minhas mãos e fechei os olhos, ainda sentindo seus lábios tocando
minha bochecha daquele jeito tortuoso.
— Então faz, por favor... — Eu pedi, num sussurro quase sem forças, quando
movi meu rosto para o lado, tentando fazer minha boca alcançar a sua.

E eu consegui, mas Jungkook não deixou que eu fizesse mais nada, sorrindo
contra meus lábios ansiosos antes que sua mão soltasse minha nuca, sua boca
deixasse a minha e seu corpo se afastasse do meu.

- Por enquanto nós só vamos jantar, anjo. Você está pronto?

Eu abri os olhos de novo, sentindo vontade de chorar por ter me enchido de


esperanças ao achar que daria meu primeiro beijo de verdade para logo depois
perceber que Jungkook nunca pensou em deixar isso acontecer, não naquela
noite.

— Jungkook... — Eu chamei quando vi ele começar a caminhar em direção à


porta, ainda com aquele sorriso no rosto. — Jungkook... — Insisti, vendo que ele
parou de caminhar e me olhou, mas sem esperar que eu dissesse o que eu
queria.

Era muito óbvio, afinal.

— Eu não gosto de fazer isso, Jimin, mas você entende que eu preciso, não
é?- Ele disse, e eu não entendi do que ele estava falando até que completou.
— Você não pode ouvir minha conversa com outras pessoas e achar que não
vai ser castigado por isso.

Eu continuei em silêncio por um tempo, pego de surpresa por aquilo.

— Mas você disse que ia me perdoar — Choraminguei como se estivesse me


defendendo de um erro enorme. E mesmo sabendo que não era, Jungkook fazia
parecer que sim. Mais que isso, ele me fazia sentir que eu deveria mesmo ser
punido por ser tão curioso.

Mas aquilo era cruel demais.

— Agora eu perdoei, boneca. — Ele disse ainda com a sombra do sorriso em


seu rosto voltando a caminhar até a porta do flat. — Você não vem?
Eu sempre me deixava levar tão fácil por Jungkook. Ele podia me fazer de bobo
ao fingir que me beijaria e mesmo assim, ao ser chamado, eu tinha vontade de
segui-lo como um filhotinho obediente.

Mas dessa vez eu não estava só frustrado. Eu estava irritado. Então estanquei
meus pés no chão antes que eles tomassem a liberdade de me fazer correr até
onde Jungkook estava.

— Eu não quero mais ir. — Respondi, apertando meus punhos com força a ponto
de sentir as unhas machucando minhas palmas.

Jungkook parou de andar outra vez e me olhou em silêncio de uma forma que
quase me fez voltar atrás. Mas antes que eu o fizesse, ele mesmo piscou
devagar e assentiu, com calma.

— Então vamos ficar. — Ele anunciou, assim, simplesmente, antes de voltar a


caminhar até o sofá. Quando se sentou, já com o celular numa das mãos, ele
continuou. — Eu vou pedir nosso jantar. Você gosta de galbi-jjim?

Eu apertei ainda mais meus olhos e me senti muito mais frustrado que antes,
porque, mesmo irritado, eu queria sair com Jungkook.

Mas o pouco orgulho que eu tinha não me deixou anunciar isso em voz alta. Ele
foi cruel comigo, então pelo menos dessa vez eu não seria manipulado tão fácil.

E tudo que eu fiz, depois de erguer os ombros numa resposta positiva, foi
caminhar até o sofá e me sentar na outra ponta

Dali até que o entregador chegasse com o pedido que ele tinha feito, eu não falei
sequer uma palavra. Apenas dobrei minhas pernas sobre o assento fofo, apoiei
meu queixo nos meus joelhos e esperei em silêncio enquanto Jungkook, que
parecia menos disposto ainda a ceder, se sentou diante da mesa de centro com
alguns papeis e começou a lê-los, quase como se eu não estivesse ali.

Durante o jantar eu estava ciente de que minha careta emburrada me fazia


parecer ainda mais infantil, mas incapaz de me conter mesmo enquanto eu
comia.
E Jungkook também comeu em silêncio mesmo que sua expressão, diferente da
minha, fosse tão tranquila.

Minha cabeça ainda parecia que ia explodir só de pensar que nós poderíamos
ter nos beijado, mas ele parecia completamente alheio a isso e comia com tanta
serenidade que chegava a ser difícil acreditar que nós dois tínhamos
experienciado o mesmo momento.

Então eu o observava com as bochechas estufadas de comida e os olhos cheios


de aborrecimento, mas sempre abaixava o rosto e enfiava mais arroz na boca
quando ele me olhava também.

E nesse ritmo nós terminamos de comer sem que qualquer conversa tivesse sido
iniciada. Quando começou a arrumar a bagunça sobre a mesa de centro,
Jungkook o fez ainda sem falar comigo, mas ainda com a mesma expressão
calma.

Eu não entendia como, porque eu estava quase explodindo de frustração.

Então, sentindo meu orgulho quebrar por ver o tempo passar sem que eu
pudesse ficar perto de Jungkook do jeito que eu queria, acabei por me levantar,
juntando o resto do lixo sobre a mesa e levando-o até a cozinha, onde ele já tinha
começado a lavar os pratos.

Depois de separar o lixo, eu parei apertando uma mão na outra enquanto via
Jungkook enxaguar a pouca louça que tínhamos sujado.

Quando acabou, ele secou as mãos com calma e só então olhou para mim.

— Você pode dormir no quarto. — Ele disse com a entonação que sugeria, ou
exigia, que eu já fosse me deitar, mesmo que não fosse tão tarde assim. —
Amanhã nós vamos sair cedo.

Eu abaixei os olhos, sentindo que toda minha irritação anterior tinha sido
convertida em uma sensação mais mansa e um pouco mais desagradável.

— E se eu quiser ficar acordado com você? — Perguntei, um pouco sem jeito.

Mas Jungkook negou com um gesto suave.


— Você não está se comportando bem, meu anjo — Ele disse ao se
desencostar do balcão da pia. — Vá dormir. Sozinho.

Com o peito queimando de arrependimento, eu vi Jungkook me deixar na


cozinha.

— Idiota! — Praguejei contra minha atitude, ou talvez contra minha própria


existência.

Eu sabia como as coisas funcionavam com ele, então porque tentei fazer do
meu jeito?

Meus pais sempre me ensinaram a respeitar a privacidade dos outros. Nada de


bisbilhotar, nada de escutar conversas sem permissão. Eu estava errado, então
merecia, sim, ser castigado.

Se eu tivesse aceitado isso e entendido que Jungkook só estava tentando me


disciplinar, nós poderíamos estar em algum restaurante, agora, juntos. Mas tudo
que eu consegui foi uma refeição silenciosa, sua declaração de que eu estava
mesmo me comportando mal e a opção única de ir dormir, sozinho.

Santo deus, eu estava muito arrependido.

Mas quando também voltei à sala, ainda sem saber se seria melhor obedecer
Jungkook em silêncio ou tentar me desculpar, vi que ele não estava ali.

Por sorte, o som do chuveiro logo me tranquilizou, anulando a possibilidade de


que ele teria saído.

Então eu esperei pelo que me pareceu uma eternidade, usando a desculpa de


que precisava esperar ele sair do banheiro para que eu pudesse escovar os
dentes, mas na verdade pouco preocupado com os detalhes da minha higiene.

Mas foi quando ele saiu, vestindo nada além de uma calça de pano, que eu
realmente senti que o arrependimento não cabia em mim.

— Jungkook... — Eu chamei com a voz de quem estava prestes a chorar, porque


era isso que aconteceria se ele não me deixasse tocá-lo outra vez.
— Vá dormir, Jimin. — Foi tudo que ele disse, ficando de costas para mim
quando se abaixou para sentar diante dos documentos que estava lendo uma
hora antes.

Sentindo meu coração bater furiosamente contra meu peito, como se ele mesmo
estivesse tentando me castigar, eu engoli todo o meu pedido de desculpas
desajeitado e peguei meu pijama dentro da mochila como se essa tarefa
precisasse mesmo de tanto tempo para ser feita.

Depois, eu deixei a bolsa em cima do sofá, para ter um motivo para voltar na
sala, e fui ao banheiro.

Então depois de escovar meus dentes e deixar minha escova ao lado da dele,
eu tirei minha roupa feia, mas não vesti meu pijama porque, antes que o fizesse,
vi a blusa e a calça de Jungkook dobradas sobre uma das prateleiras debaixo da
pia.

Curioso como sempre fui, eu peguei sua blusa com a estampa de motocicletas
e a observei como se olhasse o item mais precioso do mundo. E talvez fosse,
porque ela ainda tinha o cheiro suave dele.

Decidindo me arriscar, eu acabei vestindo a camisa, confirmando também que


ela ficava enorme em mim. Mas a sensação de ter o cheiro dele tão perto foi
confortável, e eu me sentiria um pouco consolado de pudesse dormir daquele
jeito.

Então, com a blusa me cobrindo até um ponto um pouco acima da metade das
coxas, eu saí do banheiro e fui até a sala, disposto a implorar para que Jungkook
me deixasse dormir com ela.

Escondendo parte do corpo detrás da parede, eu o chamei outra vez, e mais


uma até que ele finalmente me olhasse.

Atento como era, ele não demorou a perceber o que eu estava vestindo, mesmo
que eu tentasse me esconder.
— Eu posso dormir com ela? — Perguntei, um pouco ansioso, quando vi que
Jungkook não fez nada além de me olhar de um jeito que nunca tinha olhado até
então.

Ele então afastou o corpo da mesa de centro, ainda sentado no chão e ainda me
olhando, e gesticulou para que eu me aproximasse.

Eu só o fiz depois de apertar meus lábios com um pouco de insegurança, mas


finalmente caminhei até ele, usando minhas mãos para tentar puxar o tecido da
blusa mais para baixo como se isso pudesse cobrir minhas pernas expostas.

Quando parei na frente dele, Jungkook não fez nada além de subir o olhar por
minhas coxas, e então por meu tronco coberto desajeitadamente pela camisa
abotoada, até que finalmente parou em meu rosto.

Um pouco receoso diante do seu silêncio, eu insisti. — Eu prometo que vou me


comportar melhor, então deixa eu dormir com ela... por favor.

Mas ele não disse nada.

A única coisa que Jungkook fez foi levar uma de suas mãos até minha perna, e
então subiu com ela até os limites da pele exposta da minha coxa.

Seu olhar ainda pairava sobre mim, analisando cada pequena parte do meu
corpo, como se ele estivesse hipnotizado.

Eu sabia, porque era exatamente daquela forma que eu o olhava.

Mas então, quando eu achei que ele finalmente me daria uma resposta, o que
ele fez foi levar sua outra mão à minha outra perna. Quando ele me puxou, eu
perdi completamente o equilíbrio e cai sobre ele, no chão, com um grito sufocado
na garganta.

Com a respiração ainda atrapalhada pelo susto, mas principalmente por sentir
Jungkook me puxando de novo para mais perto até que eu estivesse sentado
sobre suas pernas, eu pela primeira vez entendi sem precisar me esforçar tanto
para isso.

Mesmo sem querer, eu fiz Jungkook perder o controle.


Então, me fazendo suspirar cada vez mais forte por sentir seus dedos apertando
minha coxa, ele segurou meu rosto com sua outra mão, exatamente como tinha
feito mais cedo, mas dessa vez com mais força.

— Você realmente dificulta as coisas pra mim, anjo — Ele disse, e eu gemi
arrastado quando senti meu lábio ser mordido e puxado por seus dentes de
forma lenta.

Por último, Jungkook pressionou sua boca sobre a minha e eu senti que meu
corpo estava prestes a pegar fogo quando ele voltou a falar.

— Prometa que não vai deixar ninguém saber.

Tomado por todo aquele calor, eu apenas balancei a cabeça para cima e para
baixo desesperadamente enquanto minhas mãos apertavam seus ombros,
tentando dar a ele a certeza de que eu não contaria nada a ninguém.

E esse foi o último fio de consciência que eu tive antes de sentir Jungkook me
beijar de verdade.

Mas ele não era calmo, nem cuidadoso.

O beijo de Jungkook era agressivo, com sua mão se enterrando em minha coxa
até me fazer gemer de dor, seus dedos apertando meu maxilar como se nunca
mais fosse me soltar e sua boca mordendo a minha com força.

E então, pela primeira vez, eu percebi que a dor me fazia tão bem.

— Abra a boca — Jungkook ordenou, baixo, ainda sem afastar seus lábios dos
meus.

Incapaz de ir contra qualquer ordem dele, eu fiz como ele pediu, sentindo um
suspiro oportunista escapar quando minha boca se abriu, mas também sem
tempo para fazer qualquer outra coisa porque Jungkook não esperou para voltar
a me beijar, e dessa vez eu senti sua língua finalmente encontrar a minha.

Eu estava tonto. Tudo girava e eu precisei enterrar minhas unhas em seus


ombros para sentir que tinha algum sustento, mas eu o fiz com tanto desespero
que Jungkook gemeu e mordeu meu lábio mais uma vez, com mais força, como
se retribuísse a dor.

Era quase impossível acreditar que algo podia ser tão bom quanto aquilo. Porque
mesmo que eu não soubesse muito bem o que fazer, ele não me dava tempo
para pensar e então eu só deixava seus movimentos guiarem os meus.

E isso funcionou, até o momento em que eu perdi o controle e empurrei minha


ereção contra sua barriga, rebolando em seu colo, buscando qualquer coisa que
aliviasse a necessidade que eu sentia.

Quanto mais Jungkook me dava, mais eu queria.

Mas eu estava sendo ambicioso, e ele empurrou meu quadril para longe quando
parou de me beijar de repente.

Então ele me olhou enquanto minha respiração estava tão acelerada como se
eu tivesse acabado de correr uma maratona, e eu vi que até mesmo ele respirava
com dificuldade.

— Vamos parar aqui.

Eu senti minha expressão murchar de uma vez, negando copiosamente.

— Não, por favor, só mais um pouco — Eu pedi, tentando me aproximar mais


uma vez.

Mas Jungkook impediu, e então beijou minha bochecha com carinho. — Me


desculpe, anjo, mas eu já passei dos limites.

— Você não passou, eu juro—

— Você disse que ia se comportar — Ele me interrompeu, e suas mãos me


forçaram a ficar de pé. — Então não tente discutir.

Meu corpo queria seguir o impulso de voltar para seu beijo, mas a sequência de
acontecimentos anteriores me deu a certeza de que desobedecer nunca seria a
melhor opção.
Então mordi meu lábio, inconformado, mas acabei balançando a cabeça em uma
concordância insegura.

Jungkook sorriu, satisfeito, e eu vi quando ele tentou arrumar a calça para


esconder a ereção que eu já tinha sentido quando estava em seu colo.

— Você pode dormir com minha blusa. — Foi o que ele disse, a despeito da
atmosfera ainda tensa.

Eu assenti em silêncio pela segunda vez, mas não saí do lugar. Não tinha forças
para isso, e talvez meu corpo só me obedecesse se o comando fosse de me
jogar nos braços de Jungkook outra vez.

Talvez percebendo isso, ou talvez só atento à minha demora, ele insistiu. - Boa
noite, Jimin.

Então eu respirei fundo e juntei todas as minhas forças para obrigar minhas
pernas a se mexerem.

Quando peguei minha mochila sobre o sofá, eu caminhei, ainda um pouco


bambo, até o corredor, mas parei antes de ir até o único quarto do apartamento
e olhei para Jungkook uma última vez.

A situação era um pouco desagradável. Eu tinha uma ereção no meio das pernas
e a certeza de que a lembrança do seu toque não me deixaria em paz por muito
tempo, mas ainda assim eu sorri.

— Jungkook. — Eu chamei, sentindo meus olhos se fecharem ainda mais com


o sorriso que tomou conta do meu rosto.

Quando ele me olhou, eu finalmente anunciei, orgulhoso.

— Esse foi meu primeiro beijo. — Eu disse, talvez com as bochechas um pouco
coradas, e me virei para correr até o quarto logo depois.
10 • Duality

Na manhã seguinte, eu descobri que acordar nem sempre é uma coisa ruim.

Pelo menos não quando quem te tira do sono é Jeon Jungkook.

Eu senti a mão dele acariciando minha cabeça e me encolhi um pouco mais


debaixo dos lençóis, com um sorriso pequeno no rosto.

Então cocei meus olhos sabendo que ainda deveriam estar um pouco inchados,
mas mais preocupado em admirar a maravilha que é Jungkook com os cabelos
molhados de manhã cedinho, sentado tão perto de mim.

— Dormiu bem? — Ele perguntou, e eu assenti ainda sonolento.

— Você fica fofo com o cabelo molhado — Eu disse, um pouco tímido.

Fofo com certeza não seria o adjetivo mais apropriado pra descrever Jungkook
como um todo, mas, naquele momento, existia sim uma qualidade adorável na
forma como os fios escuros caíam úmidos sobre sua testa.

— Fofo? — Ele repetiu, sorrindo um pouco com a improbabilidade de ser


elogiado desse jeito.

— É. — Envergonhado, eu puxei o lençol para cobrir meu rosto até o nariz. —


Muito fofo.

Jungkook não demorou em tirar a coberta de cima da minha cabeça, com


cuidado, e então ele se inclinou até que seu rosto estivesse bem próximo do meu
para beijar minha bochecha gordinha de forma demorada.

— Obrigado, anjo. — Ele disse e me beijou mais uma vez, no mesmo lugar. —
Agora levante, você precisa tomar café.

Se não fossem seus braços me segurando e me ajudando a sentar, eu


provavelmente continuaria jogado naquela cama, incapaz de me mover por
horas e horas, porque estava completamente derretido com os beijos que ele me
deu.

E quando finalmente me sentei, mordendo meu lábio inferior e tocando em minha


bochecha que ainda formigava com o toque de sua boca, eu percebi que não
precisaria ir mais longe que isso para poder comer, porque Jungkook já tinha
levado o café da manhã na cama.

Então olhei para a bandeja cuidadosamente colocada do outro lado da cama de


casal e depois olhei para ele, com os olhos brilhando.

— É pra mim? — Perguntei, estupidamente, como se pudesse ser para outra


pessoa.

Jungkook respondeu colocando a bandeja sobre minhas pernas ainda cobertas


pelo lençol — e só por ele, porque eu ainda não vestia nada além de uma cueca
e sua blusa.

— Trouxe muita coisa? — Ele retrucou, olhando para as várias porções


servidas. — Eu não sabia o que você gosta de comer, então acabei comprando
um pouco de tudo.

Eu neguei com a cabeça, um pouco atrapalhado.

Tinha, sim, muita comida, mas eu estava mais impressionado com a forma como
Jungkook parecia preocupado em acertar meus gostos.

Mais que isso, uma olhada rápida no seu relógio de pulso e eu descobri que
ainda eram sete e meia da manhã, mas ele já parecia ter tomado banho, se
vestido, tomado seu próprio café e comprado o meu.

E se acordar tão cedo pra fazer tudo isso não era motivo o suficiente pra me
fazer acreditar que ele não era do tipo de homem que cede à preguiça, lembrar
que a luz da sala continuava acesa até mesmo quando eu acordei, de
madrugada, foi o fato final para me dar essa certeza.

Então eu o olhei, mastigando lentamente um pedaço de tofu temperado, e apoiei


minha mão com os hashis sobre a bandeja.
— A comida tá gostosa — eu parei, apertando meus lábios antes de continuar -
mas parece que você dormiu só um pouquinho...

Jungkook sorriu mais uma vez, daquele jeito discreto que já me parecia tão
familiar.

— Eu dormi o suficiente, anjo.

Eu concordei com a cabeça, mesmo ainda achando que ele podia ter
descansado mais, e então fiquei quietinho, um pouco preocupado.

Por me ver parado tempo demais, ignorando até mesmo a comida, ele tirou os
chopsticks de minha mão. Então pegou um pedaço de carne fatiada e levou até
minha boca.

— Eu pareço cansado? — Ele perguntou, e usou o polegar para limpar o molho


que acabou pingando em meu queixo. Eu neguei, ainda em silêncio. — Então
não precisa se preocupar com isso, meu bem.

Então eu finalmente concordei, de verdade, aceitando seus argumentos, mas um


pouco incomodado quando ele colocou os hashis de volta sobre a bandeja.

Antes que Jungkook os soltasse, então, eu coloquei minha mão sobre a sua,
num pedido mudo que ele pareceu entender depois de olhar para meu rosto
ansioso.

Ele piscou devagar, paciente, e se sentou ainda mais próximo antes de levar
uma pequena porção de arroz até minha boca.

E ele fez isso com toda a comida, até que acabasse.

Nos últimos meses, eu me privava de comer tanto no café-da-manhã ou em


qualquer outra refeição, porque não queria engordar.

Nessa manhã, entretanto, eu comi tudo que ele levou para mim e acho que ainda
comeria mais, sem peso na consciência, se ele continuasse dando a comida na
minha boca.

Parecia um gesto tão despretensioso, à primeira vista, e talvez um pouco


incômodo se eu me deixasse levar pela sensação de que aquilo me faria
parecer ainda mais novo do que eu realmente era, por achar que estava sendo
tratado como uma criança.

Mas, na verdade, isso teve outro significado para mim. E eu senti carinho e
cuidado na forma como Jungkook o fez pacientemente, até o final.

E então eu tinha mais um item para adicionar à já extensa lista de coisas que me
faziam suspirar por esse homem.

— Agora vá se arrumar, anjo — Ele disse, tirando a bandeja de cima do meu


colo e equilibrando-a em cima do criado mudo ao lado. — Eu não gosto de me
atrasar.

— O que nós vamos fazer agora? — Eu perguntei, animado com a ideia de


sairmos juntos depois de não o termos feito na noite anterior, e coloquei minhas
pernas para fora da cama, deixando-as livres do lençol.

Jungkook olhou diretamente para minhas coxas expostas, e eu precisei apertar


meus lábios para não evidenciar um sorriso quando vi a forma como ele desviou
os olhos minimamente, depois de me observar sem responder minha pergunta.

Então ele pegou a coberta fina e jogou sobre minhas pernas, cobrindo-as outra
vez.

Eu tenho certeza de que ouvi um palavrão sussurrado escapar de seus lábios,


mas o que ele disse para que eu ouvisse foi outra coisa.

— Eu vou te esperar lá embaixo. — Anunciou ao ficar de pé e pegar a bandeja


logo antes de sair do quarto.

Eu continuei parado, ainda mordendo meu lábio com um sorriso insistente, antes
de me livrar do lençol outra vez.

E então fui eu quem olhei para minhas coxas. Sempre foram grossas, alvos de
comentários maldosos e do meu próprio repúdio por elas.

Mas ali, pela primeira vez, eu as aceitei do jeito que eram. Mais que isso, eu
gostei que fossem.
Porque elas pareciam testar o autocontrole de alguém tão comedido como
Jungkook. Porque foram elas, na noite anterior, que fizeram aquele beijo
acontecer.

E eu podia acreditar que tinha sido um sonho, mas as marquinhas dos seus
dedos em minha perna, no lugar onde ele apertou com força - e me fez gostar
tanto, me provavam que tinha sido real.

Lembrando do seu toque agressivo e do seu beijo delicioso, eu deixei meu corpo
tombar para trás, deitado outra vez na cama, e cobri meu rosto com ambas as
mãos enquanto sorria o maior sorriso do mundo.

Só depois de ficar desse jeito pelo tempo que considerei necessário para me
recompor, é que eu finalmente sai do quarto e fui até o banheiro.

Quando terminei de me arrumar, vestindo uma roupa tão desgraçada quanto a


da noite anterior, mas evidentemente menos incomodado por isso, eu deixei o
flat e encontrei Jungkook no hall de entrada do condomínio

Mas antes que eu entregasse a chave a ele e perguntasse outra vez para onde
iríamos, eu senti meus pés travarem por ver aqueles cabelos cor-de-rosa.

— Finalmente! Já tava achando que tinha descido pela descarga — Kihyun disse
ao me ver.

Eu ignorei o comentário dele e olhei para Jungkook, visivelmente incomodado


com a companhia inesperada e indesejada.

Não queria que Kihyun estivesse ali.

Aliás, por que estava?

— Ele também precisa ir — Jungkook disse, se aproximando de mim e


colocando uma mão em minhas costas para me guiar para fora do prédio. —
Infelizmente.

— Infelizmente? — Kihyun repetiu, exagerado, enquanto nos seguia. — Eu


estou aqui abrindo mão do meu dia de folga pra te fazer um favor e é assim que
você me agradece? Que ingrato.
— Seu favor não é de graça, é? — Ele rebateu quando paramos diante de um
carro que supus ser de Kihyun, porque ele logo foi para o lado do motorista. —
Você vai ser recompensado por isso, então não fique sensível demais.

Eu apertei um pouco meus punhos, enciumado por ouvir Jungkook falar sobre
recompensar outra pessoa.

— Ei, Jimin — Kihyun me chamou e me olhou por cima do carro. — Sabe como
ele vai me recompensar?

Eu olhei para Jungkook, depois olhei pro abusado outra vez.

— Porque você não me deixa em paz? — Resmunguei, emburrado.

Eu ouvi Jungkook deixar escapar um som de uma risada mal contida, mas ele
logo disfarçou quando abriu a porta do banco traseiro pra mim.

— Entre. — Jungkook disse. — Quanto mais rápidos nós formos, mais rápido
nos livramos dele.

— Pode não parecer, mas eu tenho sentimentos. Vocês são cruéis. — Kihyun
dramatizou, mas eu não esperei nem um segundo antes de entrar no carro,
porque o argumento de Jungkook me convenceu num piscar de olhos.

Sentado no meio do banco do fundo, com os braços cruzados e a expressão


ainda irritadiça, eu esperei que eles dois também entrassem, mas antes coloquei
o cinto de segurança porque se as habilidades de Kihyun dirigindo fossem tão
ruins quando sua existência, eu estava ferrado.

Antes de dar partida no carro, entretanto, ele olhou para mim por cima do ombro
com o sorriso de sempre.

— Aliás, bebê, eu até imagino como o Jungkook te recompensa quando você se


comporta do jeito que ele quer, mas pra mim ele só vai pagar um almoço mesmo.
Não precisa ficar tão ciumento. — Ele disse, e finalmente ligou o carro quando
completou, suspirando. — Essas crianças de hoje em dia...

Eu estava aliviado por descobrir que Jungkook não o agradaria com nada além
de uma refeição, mas continuei irritado por ter sido chamado de criança.
— Eu tenho dezesseis anos — Corrigi, bufando ainda com os braços cruzados.

Eu sei que minha atitude realmente me fazia parecer um pré-adolescente, mas


eu não me importava.

— E eu tenho vinte e cinco, então pra mim você é uma criança, sim.

— Nossa, e você é uma múmia, contemporâneo de Matusalém, mais velho que


o próprio tempo!

Ele me olhou pelo retrovisor interno logo antes de explodir em risadas, e até
mesmo Jungkook riu da minha resposta malcriada.

— Que grosseiro. — Kihyun disse quando parou de rir, muito tempo depois, e
ficou só com um sorriso no rosto. Ele então olhou para Jungkook quando parou
num sinal vermelho. — Parece que ele só se comporta com você, hein?

— Você que tira a paciência de qualquer um. — Ele respondeu, simplesmente.

— Obrigado. Eu realmente me esforço pra isso — Kihyun fez um gesto


exagerado, arrancando mais uma risada discreta de Jungkook.

Quando ele olhou pra mim com aquele cabelo rosa idiota, eu mostrei minha
língua, ainda emburrado.

Ele riu ainda mais, voltando a prestar atenção na pista quando o sinal abriu.

— Nem eu posso negar, gato — Ele disse, para Jungkook. — O menino é uma
gracinha. Posso apertar as bochechas dele?

— Só dirige, Kihyun.

— Tá, tá... vou ficar quieto, prometo. — Ele cedeu, finalmente.

Mas é claro que ele não ficou calado, e eu fui obrigado a ouvir sua voz por quase
todo o caminho até chegarmos ao nosso destino misterioso.

E então eu arregalei um pouco os olhos, porque Jungkook não tinha mentido


tanto assim para meus pais.

Ele realmente estava me levando ao campus da Chosun.


— Os cursos daqui são voltados pro campo tecnológico, então basicamente
todos os prédios são de engenharia ou de ciências exatas. — Kihyun disse
depois que passamos pelo primeiro prédio dentro da universidade, e era
estranho vê-lo falando sem qualquer deboche. Ele então me olhou pelo retrovisor
outra vez. — Não tem nada de muito interessante nos departamentos, então
vamos direto ao melhor lugar do campus.

Eu não disse nada. Só me livrei do cinto e deslizei no banco até parar perto da
janela, por onde comecei a observar, impressionado, todos os prédios da
universidade.

Aquilo era enorme, parecia uma outra cidade no meio de Gwangsan-gu.

Quando Kihyun finalmente estacionou na frente de uma outra construção, nós


descemos do carro e eu continuei a olhar ao redor como um bobo.

Eu estava impressionado de verdade, mas a real surpresa veio quando eu olhei


para uma placa de vidro na frente do prédio diante de nós e vi o nome da Bangtan
gravado nela.

— Jungkook! — Eu apontei, como se tivesse visto a coisa mais incrível do


mundo. - Sua empresa!

— Isso, bebê — Kihyun disse, caminhando em direção à entrada do bloco. —


Esse galpão foi financiado pela Bangtan - Ele completou, destravando as portas
de vidro com um cartão magnético. Então ele fez uma reverência, nos
convidando a entrar. — E é aqui que eu trabalho. Bem vindos ao Centro de
Desenvolvimento de Hardware da Chosun.

— É enorme! — Eu disse quando passei para dentro, com os olhos arregalados


e a boca aberta. — Vocês deram de presente da universidade? — Perguntei para
Jungkook, e vi que ele sorriu com minha inocência.

— As coisas não funcionam assim, anjo.

— Você sabe com o que a Bangtan trabalha? — Foi Kihyun quem perguntou, ao
ver como eu parecia confuso.

Eu neguei, também seguindo-o.


— Consultoria em sistemas tecnológicos e desenvolvimento de software e
hardware. — Foi Kihyun quem disse, usando seu cartão para abrir uma outra
porta. Então nós demos de cara com o que parecia o laboratório de robótica do
meu colégio, só que muito maior, com algumas pessoas trabalhando tão
concentradas que nem se incomodaram com nossa presença. — Isso quer dizer
que a Bangtan produz tecnologia de alta dispersão, mas também trabalha
criando ou adaptando o que já existe no mercado pra atender as necessidades
específicas das empresas que buscam consultoria. Os softwares são
retrabalhados e o hardware também precisa ser melhorado pra suportar os novos
sistemas.

Kihyun pegou uma peça em cima do enorme balcão, e me deu. Uma coisa
metálica, não muito grande, e eu definitivamente não sabia o que era.

— Todas as filiais tinham capacidade de atender as regiões onde estão


instaladas, menos a de Gwangju. Ela tinha os consultores e os desenvolvedores
de software em Nam-gu, mas todos os projetos de hardware eram enviados à
sede em Seul porque não existia um polo de desenvolvimento no estado. Isso
não era econômico e acabava atrasando todos os projetos, então a Bangtan fez
uma parceria com a Chosun e agora o hardware é trabalhado aqui.

— Ele apontou para o objeto que eu tinha em mãos. — Esse tesouro que você
tá segurando é um protótipo do processador que suporta o novo sistema de
logística de uma distribuidora nacional. Quando ficar pronto, vai ser o melhor do
mercado, e foi minha equipe que desenvolveu.

— Hm... — Eu olhei pro negócio de novo, depois apertei meus ombros, sem
saber o que fazer ou dizer. — Legal...?

Kihyun suspirou e voltou a tirar o tal do processador incrível das minhas mãos,
colocando-o sobre a bancada.

— Ele claramente não está interessado — Resmungou, respirando fundo, e


caminhou para fora do laboratório. — Deixa eu mostrar logo o resto.
Depois, Kihyun mostrou os outros laboratórios. Quando o tour pelo prédio da
Bangtan acabou, ele nos levou para mostrar os departamentos, a biblioteca e os
outros centros de pesquisa. Era tudo tão grande e tão organizado que eu não
conseguia parar de olhar admirado para todos os cantos.

Eu nunca tinha imaginado que um dia ficaria impressionado com uma


universidade, porque, até então, eu repudiava a ideia de frequentar uma. Mas
por um momento, enquanto eu via todas aquelas coisas, eu me imaginei ali.

Só por um momento, entretanto. Porque logo depois eu lembrei como era burro.
Nunca conseguiria ingressar em uma universidade, quem dirá sair de la com um
diploma.

Além disso, eu tive que lidar com o desconforto de ficar sozinho com Kihyun nas
duas vezes em que Jungkook se afastou para atender ligações.

Quando paramos diante do restaurante onde almoçaríamos, isso aconteceu de


novo, e eu o vi caminhar um pouco mais para longe depois de dizer que nós
poderíamos entrar primeiro. Mas nós não o fizemos, e continuamos esperando
do lado de fora, juntos e em silêncio.

Kihyun estava encostado na porta do seu carro, brincando com seus fios
coloridos, e eu me sentei num banco de madeira na calçada para mexer no meu
celular e não precisar olhar para ele.

Mas a tentativa de anular qualquer possível interação foi jogada no lixo quando
ele me chamou. Eu o ignorei de primeira, claro, me fiz de doido e fingi que não
era comigo.

Impaciente, entretanto, ele esticou o pé e chutou minha canela, e então eu não


tive outra alternativa.

— Ah, você tava falando comigo? — Questionei, meio fingido, e ele arqueou as
sobrancelhas num gesto que não interpretei muito bem, mas parecia que estava
se divertindo.

— É difícil te entender, sabia? — Ele comentou, cruzando os braços. — Como


você consegue ser tão manso com o Jungkook e agir assim comigo?
— Deve ser porque eu gosto do Jungkook, mas não te suporto — Respondi
baixinho. Nem era pra ele escutar, mas parece que ele escutou na mesma, e eu
logo ouvi sua risada.

— Ok, eu posso lidar com isso. — Ele disse, e eu vi sua feição se tornar um
pouco mais séria quando ele olhou para o lado por algum tempo antes de voltar
a olhar para mim. — Eu sei que meu humor pode ser desconfortável pra muita
gente, mas eu não tenho nada contra você, Jimin.

Eu apertei meus olhos, um pouco desconfiado — Porque você tá falando como


uma pessoa normal? — perguntei, ainda pego de surpresa.

Ele estalou a língua nos dentes, e se impulsionou para caminhar até o banco e
sentar ao meu lado.

— Isso não acontece com frequência, mas eu vou falar sério — Ele disse, e eu
me afastei um pouco com uma careta de puro estranhamento. Então ele
continuou: — O que é isso que tá acontecendo entre vocês dois?

Eu desfiz minha careta, mas continuei confuso. — Como assim?

Kihyun olhou para onde Jungkook estava, ainda falando no telefone com alguém,
e depois deixou a cabeça tombar para trás. — Eu posso apostar um rim que
todas essas ligações que ele recebeu são relacionadas ao trabalho. —
— - Ele disse, esclarecendo poucas coisas. Eu conheço o Jungkook há um bom
tempo e sei como funciona a vida dele, Jimin.

Eu apertei um pouco meus olhos, constrangido por não entender onde ele estava
querendo chegar.

— Eu sou um pouco lento, então... o que você quer dizer?

— Ele assume cada vez mais responsabilidades na Bangtan e esse ano é o


último ano dele na universidade. — Ele disse, olhando para mim outra vez, e é
realmente estranho lidar com essa versão séria do Kihyun. — Jungkook não tem
tempo, mas mesmo assim ele deu um jeito de te trazer aqui. Você é novo demais,
mora longe e não parece saber o mínimo sobre ele, mas, mesmo assim...
— Ele repetiu, e suspirou ao final. — Eu só quero entender o que é isso. Eu
ainda nem descartei a possibilidade de ele ter ficado louco com tantas
responsabilidades, porque não faz sentido nenhum alguém como o Jungkook
que eu conheço fazendo esse tipo de coisa.

Eu olhei para minhas mãos espalmadas sobre minhas pernas, e minha primeira
resposta foi um balançar de ombros um pouco desajeitado. Depois, eu
finalmente comecei a organizar minha fala.

— Eu não sei. — Disse, sinceramente, sem levantar meus olhos — Eu


realmente não sei porque me sinto assim por ele, mas é tão forte que chega a
assustar. E eu entendo menos ainda porque ele parece... — Eu parei, porque
parecia pretensioso demais colocar aquilo em palavras. Mesmo assim, fui até o
final. — Porque ele parece me corresponder.

Kihyun respirou fundo, e depois soltou todo o ar de forma sonora.

— A vida tem dessas, as vezes. Algumas coisas realmente acontecem sem que
ninguém consiga entender. Acho que vou aceitar que é o caso de vocês dois.

Eu sorri fraco, ainda um pouco atrapalhado pela conversa inesperada.

— Mas quer saber? — Ele voltou a falar, e eu o olhei ao perceber a entonação


provocativa em sua voz dando as caras de novo. — Ainda tenho certeza de que
eu seria a melhor opção pra ele.

Minha careta de desgosto voltou imediatamente, mas antes que eu pudesse


rebater, Jungkook se aproximou, e nós finalmente entramos no restaurante.

Durante a refeição, Kihyun voltou a me provocar e é claro que eu ficava irritado


e acabava chutando suas pernas por baixo da mesa. Mesmo assim, eu sentia
que não precisava mais odiá-lo. Não tanto quanto no começo do dia, pelo menos.

Mas meu momento favorito foi quando ele foi embora. Por mais que sua
companhia tivesse se tornado mais tolerável, eu ainda queria ficar sozinho com
Jungkook.
— Pra onde a gente tá indo agora? — Eu perguntei quando saímos de uma
sorveteria, e logo depois lambi a bola de sorvete de pistache.

Jungkook não comprou nada para ele, porque não gostava de doces.

Era uma informação muito pequena, mas eu fiquei feliz de descobrir mais uma
coisa sobre ele, ainda que essa coisa fosse algo tão inaceitável quanto não
gostar de sobremesas.

— Um lugar que Kihyun sugeriu. — Ele disse, caminhando ao meu lado com as
mãos nos bolsos de sua calça. — Acho que não fica muito longe daqui.

Eu segurei o sorvete com as duas mãos e limpei os cantos da boca com a língua
antes de sorrir, erguendo meu rosto para olhar para ele.

A diferença de altura era tão grande, e eu me perguntava se algum dia seria tão
alto quanto ele ou se pareceria sempre tão pequeno quando estivesse ao seu
lado.

— Jungkook — Eu chamei, e ele parou de andar ao ver que eu tinha feito o


mesmo. Quando ele me olhou, esperando que eu continuasse, eu perguntei: —
Isso é um encontro?

Ele inclinou o rosto suavemente para o lado, com o mesmo sorriso pequeno de
sempre.

— Você quer que seja, anjo?

Eu nem pensei antes de balançar a cabeça pra cima e pra baixo, ansioso.

— Então vai ser. — Ele disse, e tirou uma de suas mãos dos bolsos de sua calça
e usou as pontas dos dedos para arrumar os cabelos em minha testa.

Depois ele segurou uma de minhas mãos e a beijou nas costas antes de
entrelaçar nossos dedos e me puxar fraquinho para que voltássemos a caminhar.

Focado demais em ver nossas mãos juntinhas enquanto andávamos pela


calçada, eu esqueci até mesmo do meu sorvete, e só lembrei quando ele
começou a derreter.
Depois de caminharmos por mais algum tempo, então, nós chegamos a um
parque enorme.

O céu estava limpinho, sem nuvens, e o sol do meio de tarde ainda brilhava bem
forte, mas nós nos escondemos debaixo da sombra de uma árvore bem perto de
um lago.

Outras pessoas se reuniam em outros lugares, mas ali parecia que éramos só
nós dois. Ou talvez eu que ignorasse o resto do mundo, porque Jungkook era a
única coisa que me interessava.

Quando ele sentou sobre a grama verde e se encostou no caule largo da árvore,
eu caminhei para me sentar ao seu lado, mas Jungkook me puxou e me fez
sentar entre suas pernas.

— Fique aqui. — Ele disse quando me puxou para trás, até que minhas costas
se apoiassem em seu peitoral.

Suas pernas estavam dobradas de cada lado do meu corpo, e eu senti meu
coração desandar de vez quando ele me abraçou.

Eu estava tão feliz que poderia sair correndo e dando cambalhotas por todo
aquele parque, mas eu não queria perder nem um segundo daquele abraço e do
calor de Jungkook, então fiquei quietinho, quase como se tivesse medo de que
qualquer movimento pudesse me afastar dele.

Por algum tempo que não pensei em contar, nós ficamos em silêncio, e tudo que
se ouvia era o som de um grupo de amigos jogando em algum lugar afastado e
do vento nas folhas acima de nós dois.

Aquela sensação era tão incrível. Meu coração ainda batia desesperado, e
minhas mãos suavam, mas eu me sentia em paz.

Era a inesperada junção de ansiedade e calmaria. Algo tão improvável, mas


ainda assim possível porque era Jungkook quem estava ali.

Eu só queria parar no tempo, ficar protegido naquele abraço e esquecer que,


nesse mesmo dia, eu teria que ir embora.
Quando Jungkook começou a acariciar minha mão, ainda me abraçando, eu
empurrei qualquer sentimento negativo pra um lugar no fundo da minha cabeça.

— Minha mão parece a de uma criança quando tá perto da sua — Eu disse


quando apoiei minha palma na dele, vendo que meus dedinhos curtos pareciam
ainda menores perto dos longos de Jungkook.

— Eu realmente gosto dela. — Jungkook respondeu, ainda deixando sua mão


contra a minha, como se gostasse de ver o contraste.

Eu sorri mais um pouco, e exibi minha outra palma.

— Quando eu era mais novo, minha mãe dizia que eu podia ter o mundo na
palma da minha mão. — Confessei, sem saber porque o estava fazendo. — Hoje
em dia ela não diz mais. Acho que percebeu que minhas mãos são pequenas
demais pra isso.

Jungkook entrelaçou nossos dedos de novo, com cuidado.

— Ou talvez ela só esteja esperando você descobrir sozinho que é capaz


disso.

Eu sorri, mas era um sorriso um pouco frustrado. — Eu não sou bom em nada,
nem sei o que fazer com minha própria vida depois que sair da escola... pessoas
como eu não conquistam o mundo.

— Pessoas como você não conseguem ver o quanto são incríveis. É diferente,
meu bem.

Eu me encolhi um pouco mais. Jungkook realmente não sabia que estava falando
com uma pessoa que não tem talento nenhum, nem alguma meta mais nobre
que conseguir dormir oito horas por dia.

— Eu não sou incrível... — Eu disse baixinho

Ele parecia acreditar que existia algum potencial escondido dentro de mim, mas
eu sempre pude dizer, com certeza, que não existia.
E eu tive medo de que essa ideia errada fosse o único motivo que ele tinha pra
parecer tão interessado em mim.

— Esse não é o tipo de coisa que eu ou sua mãe vamos conseguir provar, anjo.
- Ele disse, ainda calmo. — Mas espero que um dia você consiga ver tudo que
eu vejo quando olho pra você.

Eu respirei fundo, totalmente pego de surpresa.

O que Jungkook via em mim? O que tinha pra ser visto em uma pessoa como
eu?

— E ser ruim em algumas coisas não faz com que você seja ruim em tudo. —
Ele continuou, enquanto eu tentava aceitar cada uma de suas palavras. —
Lembre que eu não conseguia dizer meu próprio nome até os cinco anos, mas
até que me saí bem em outros aspectos da vida.

Eu não queria, não queria mesmo, mas foi impossível conter a risada alta que
escapou quando ele terminou de falar. Até cobri a boca com as duas mãos, mas
não deu jeito.

Mas foi quando Jungkook beijou meu pescoço e eu senti seu sorriso contra
minha pele que percebi que, talvez, fosse exatamente aquilo que ele queria.

Então eu me mexi sobre a grama até sentar de frente pra ele, ainda sorrindo.

— Eu nunca ouvi você dizendo seu nome — Eu falei, risonho. — Deixa eu ouvir.
Quero ver se você já sabe dizer certinho mesmo.

O sorriso dele começou a diminuir, e ele levantou as sobrancelhas para mim, me


fazendo sentir que tinha passado dos limites.

Mas então ele disse. — Jeon Jungkook.

Eu sorri de novo, ainda mais, mas só até perceber a forma como Jungkook
estava me olhando.

Posso jurar que os olhos dele estavam brilhando e ele tinha aquele sorriso de
quem sorri quase sem perceber. E ele estava assim enquanto olhava para mim.
Então eu pensei, pela primeira vez. Pensei muito bem, enquanto deixava seu
olhar prender o meu, mas no fim o resultado foi o mesmo de quando me deixei
agir por impulso.

Eu me ajoelhei ainda entre suas pernas, apoiei minhas mãos em seu peitoral e
beijei sua boca.

Dessa vez, entretanto, eu não me afastei logo depois. Deixei meus lábios contra
os seus, mas sem tentar nada além disso, porque sei que Jungkook não deixaria.

Quando ele afastou seu rosto do meu, sem pressa, eu senti sua mão em minha
bochecha fazendo aquele carinho que me deixava sem reação.

— Você pensou em mim quando eu fui embora? — Ele perguntou, de repente.

— Sim. — Respondi, sem hesitar.

— Vai pensar quando voltar pra sua casa?

— Mais ainda.

Ele piscou daquela forma lenta, e então me puxou até que eu me aninhasse de
novo entre suas pernas, dessa vez com a lateral do meu corpo pressionada
contra seu tronco e minha cabeça apoiada em seu ombro.

Eu deixaria que o silêncio voltasse, mas antes precisava saber.

— E você? — Eu perguntei. — Você... pensou em mim?

Ele suspirou com as pontas dos dedos deslizando por meu braço, me fazendo
arrepiar.

— Tanto que achei que estava ficando louco.

Então eu me encolhi ainda mais contra ele e fechei meus olhos.

Eu não estava mais sorrindo, mas me sentia a pessoa mais feliz do mundo.

Mas só até o sol começar a se pôr. Quando o céu ficou colorido com aqueles
tons de laranja, Jungkook disse a única coisa que eu não queria ouvir.
— Nós precisamos voltar.

Eu sabia que nós não voltaríamos só para o hotel. Eu voltaria para Nam-gu.

Então por todo o caminho de volta, que nos concordamos em fazer a pé porque,
sem precisar dizer coisa alguma para que soubéssemos, queríamos ficar o
máximo de tempo possível juntos, eu segurei a mão de Jungkook com ainda
mais força que antes.

Quando entramos no apartamento, ainda de mãos dadas, ele finalmente me


soltou.

— Pegue suas coisas, anjo. O carro que vai te levar já está chegando —
Jungkook disse, mas eu levei mais que dez segundos para me mover.

Enquanto arrumava tudo de volta dentro da mochila, eu sentia minha respiração


cada vez mais pesada, cada vez mais difícil.

Eu não sabia o que aquilo significava. Eu ficaria mais três meses sem ver, sem
tocar e sem ouvir a voz de Jungkook? Ou eu nunca mais o veria?

A possibilidade de me deparar com a segunda opção me tirou as forças, e eu me


ajoelhei no chão com a mochila já pronta, tentando não deixar nenhuma lágrima
escapar.

Jungkook me fez sentir as coisas mais incríveis e nós não passamos mais que
vinte e quatro horas juntos. E eu não conseguia parar de pensar em quanto
tempo eu ficaria longe dele e longe de cada uma dessas sensações.

Minha vida sempre foi sem graça, presa à inércia da mesmice. Mas depois que
eu o vi pela primeira vez, ainda mesmo antes que ele me dissesse a primeira
palavra, tudo pareceu desandar da melhor forma possível.

Como eu li uma vez em algum lugar, depois que se anda de montanha russa,
ninguém quer voltar pro carrossel.

E Jungkook era a minha montanha russa.


Então eu não sei quanto tempo fiquei daquele jeito, segurando o choro, mas
meus esforços foram em vão. Porque assim que vi Jungkook entrar no quarto,
eu comecei a chorar.

Não como chorei quando meu coelho fugiu ou quando meu avô morreu. Era um
choro silencioso, por mais doloroso que fosse.

— Me deixa ficar mais um pouco com você, por favor, por favor! — Eu pedi, me
agarrando a ele com força quando ele se ajoelhou ao meu lado e me abraçou,
ainda em silêncio.

Ele não disse nada por algum tempo, enquanto apertava seus braços ao meu
redor.

— Eu não quero deixar você ir, meu anjo - Ele disse, finalmente. — Mas eu não
consigo me concentrar com você por perto.

Eu sabia que Jungkook tinha muito a fazer. O que Kihyun disse, e a forma como
eu percebi que ele trabalhou durante a madrugada enquanto eu dormia, me
faziam ter certeza de que ele já tinha feito seus esforços pra poder passar um
tempo comigo.

Mesmo assim, eu era egoísta e queria mais. Então eu não o soltei por muito
tempo, até que ele me obrigasse a isso quando seu celular apitou com alguma
notificação.

— O carro já chegou.

Eu apertei o tecido de sua blusa entre minhas mãos enquanto meu peito subia e
descia com tanta força.

— Promete que você vai voltar. Eu só vou embora se você prometer, Jungkook

— Eu vou voltar, meu bem. Não precisa pedir.

Eu balancei a cabeça num gesto fraco, secando as lágrimas com as costas das
minhas mãos.

— Eu vou acreditar em você.


Ele se abaixou para pegar minha mochila, e a carregou por todo o tempo desde
que saímos do apartamento até chegarmos à entrada do prédio.

Quando paramos diante do carro, ele abriu a porta para mim, me entregou
minhas coisas e falou alguma coisa com o motorista, mas eu não prestei atenção
porque só conseguia olhar para seu rosto, tentando gravar todos os detalhes
desde o pequeno sinal embaixo de sua boca até sua cicatriz.

Ele então olhou para mim quando eu já estava sentado, abraçando minha
mochila.

Eu fechei os olhos com força e senti minha respiração falhar quando ele beijou
minha mão antes de beijar minha testa.

— Até a próxima vez, meu anjo. — Foi a última coisa que ele disse, antes de
fechar a porta.

Meu coração doía e minha visão estava completamente embaçada quando eu


apoiei minhas mãos na janela e vi Jungkook ficando cada vez mais para trás
enquanto o carro avançava pela rua.

— Não, não, não... — Eu murmurei, desesperado, quando não conseguia mais


enxergá-lo por estar longe demais.

— Tudo bem? — O motorista perguntou, preocupado.

— Para o carro, por favor — Eu pedi como se minha vida dependesse daquilo.
— Eu preciso voltar, para o carro, por favor!

Ele não me questionou, só estacionou no primeiro lugar seguro.

Então eu abri a porta e pulei para fora na mesma hora, correndo todo o caminho
de volta até minhas pernas doerem.

Quando eu cheguei na frente do prédio, com os pulmões ardendo e as pernas


tremendo, Jungkook não estava mais na calçada.

Mas ele estava na recepção vazia do prédio, encostado na parede com os olhos
fechados e a cabeça tombada para trás.
Mesmo que estivesse a ponto de desmontar, eu voltei a correr e só parei quando
meu corpo se chocou no seu e eu apertei meus braços ao redor de sua cintura
enquanto pressionava meu rosto contra seu peitoral.

E ele não disse nada, mas não precisou.

Jungkook só me abraçou de volta com tanta força quanto eu o abraçava.

— Desculpa. — Eu suspirei contra sua roupa, sentindo seu cheiro tão gostoso e
tão único. — Eu só precisava te abraçar mais uma vez.

A mão de Jungkook estava em minha cabeça, ainda me segurando contra ele,


mas eu me afastei um pouco, só o suficiente pra poder tirar meu celular do bolso
e entregar para ele.

— Eu esqueci de pedir mais uma coisa — Murmurei, tentando me recompor. —


O seu... o seu número.

Depois que Jungkook me deu o que eu pedi, eu precisei juntar todas as minhas
forças para me despedir dele outra vez.

E foi ali que eu encontrei a primeira coisa que tínhamos em comum.

Assim como ele, eu descobri que também odiava despedidas.


11 • Lights Out
❆❅❄❅❆

Eu falei com Jungkook por mais algum tempo, até que ele finalmente precisou
se despedir para voltar a fazer qualquer coisa relacionada ao seu trabalho.

No mês que se passou desde que nos despedimos em Gwangsan-gu, isso meio
que se tornou uma rotina. E eu falo sobre trocar mensagens com ele, às vezes
algumas ligações furtivas, mas também sobre minha inabalável preocupação
com os seus horários.

Acontece que eu descobri que suas poucas horas de sono quando estávamos
naquele flat não foi um caso isolado. Trabalhar ou estudar até tarde em casa e
acordar cedo para voltar ao escritório parecia ser um evento bastante
repetitivo, e não era raro que Namjoon passasse a noite em seu apartamento
para que trabalhassem juntos.

Eu ficava com inveja, também, porque o destruidor de frigobar e de chaves


estava sempre com ele, enquanto eu não tinha nada além daquelas mensagens
e das poucas chamadas de vídeo.

Mas mesmo não podendo estar por perto, Jungkook me dava o que podia dar.

A cada dia que passava, eu descobria algo novo sobre ele. Eram coisas
pequenas, como sua incapacidade de usar emojis - algo que eu considerava tão
adorável quanto cômico, ou até mesmo detalhes sobre sua família.

Eu já conhecia seus horários. Sabia quando podia mandar mensagem e quando


não. Sabia quando ele estava de bom humor, e sabia quando a rotina exaustiva
o deixava irritado mesmo quando ele tentava disfarçar.

Eu também sabia que ele sempre perguntaria como foi o meu dia, mas nunca
me condenaria por me lamentar por coisas pequenas demais.

Jungkook não menosprezava os meus problemas só porque eram menores que


os seus, e isso era tão reconfortante, porque ninguém ao meu redor parecia
aceitar que eu tinha, sim, minhas preocupações.

"Que problema um adolescente que só estuda pode ter?" era o tipo de pergunta
que eu sempre ouvia, mesmo de pessoas como minha mãe. Estar perdido sobre
o que fazer quando o mundo inteiro diz que você deve ser alguma coisa, falta de
auto aceitação e se ver preso a um ambiente como uma escola que te faz se
sentir o pior ser humano por não ser o melhor aluno não são problemas de
verdade, não se você não tiver contas pra pagar.

Mas Jungkook não pensava assim. Ele nunca tirava o meu direito de estar triste,
frustrado ou irritado e eu me sentia livre porque, com ele, eu não precisava
reprimir essas coisas e fingir que estava tudo bem.

Então eu descobri várias pequenas coisas sobre Jungkook, mas também me


descobri um pouco mais.
E no final de tudo isso, eu estava ainda mais apegado a ele. Mesmo sem poder
ver seu rosto, aquele seu sorriso maldoso ou o mais suave, sem poder sentir seu
cheiro ou seu toque, minha vida estava impregnada de Jeon Jungkook.

Ainda assim, eu queria vê-lo, desesperadamente.

Mais que isso, eu acreditava que o veria. Em poucas horas seria meu aniversário
de dezessete anos, e eu passei os últimos dias que o antecederam dizendo a
mim mesmo que ele daria um jeito de ir me ver.

Então eu mal dormi de ansiedade e na manhã seguinte, quando acordei


oficialmente um ano mais velho, pulei da cama com uma empolgação que nunca
me pertencia àquela hora da manhã.

Nas primeiras horas do dia, não tinha sinal algum de Jungkook nem na minha
caixa de mensagens nem na minha cidade, mas eu não deixei que isso me
abalasse.

Uma hora ele apareceria, eu acreditava.

Meus pais prepararam um café da manhã especial e me deram um celular novo


de presente, mas acreditar que ele iria me ver ainda era o principal motivo para
que minha empolgação não morresse, mesmo que ninguém na escola parecesse
lembrar que era meu aniversário.

Mas o dia chegou à sua metade, depois avançou mais um pouco, e Jungkook
ainda não tinha enviado sequer uma mensagem.

Antes de sair do vestiário, eu chequei o aplicativo acho que pela


quinquagésima vez no dia.

Nada.

Então suspirei, acreditando que ele estaria me esperando quando minhas aulas
acabassem, guardei o aparelho novo na mochila e fui até a quadra fechada, onde
estávamos tendo as aulas de educação física porque as temperaturas já tinham
começado a cair e era desconfortável ter as aulas no campo aberto.
Depois de deixar minhas coisas junto com a dos outros, eu olhei ao redor e todos
estavam se alongando em duplas, como sempre. Como Yuta e Taeil sempre
faziam juntos, eu costumava me juntar com algum outro colega que também era
a última opção do próprio círculo de amigos.

Mas dessa vez alguém tinha faltado, então a única pessoa disponível era a que
sempre ficava sozinha.

Yukwon.

Eu pensei bem antes de fazer isso. Me alongar sem uma dupla não seria
impossível, é claro, então eu podia sentar em algum lugar perto dos meus amigos
e me aquecer sozinho. Mesmo assim, eu passei direto por eles e fui até o final
da quadra, onde Yukwon estava.

Uma vez Jungkook me disse, não de forma tão direta, que eu não deveria me
forçar a ficar ao lado de pessoas que não me faziam bem.

Yuta e Taeil definitivamente se encaixavam nesse grupo. Mas Yukwon, não.

Quando me sentei diante dele, abri as pernas e juntei meus pés aos seus, como
todos os outros faziam, e estiquei meus braços para que ele segurasse, mas ele
não fez nada além de me olhar com as sobrancelhas arqueadas.

— Você tem que me puxar — Eu disse, chacoalhando meus braços.

Ele ainda apertou os olhos, parecendo confuso, antes de finalmente me segurar


e me puxar em sua direção.

— Que merda é essa? — Ele perguntou quando invertemos, e eu comecei a


puxá-lo.

— Hm, alongamento?

— Isso eu sei, quero saber porque você resolveu fazer comigo. — Ele rebateu,
e fez uma careta quando forcei demais. — Devagar, caralho!

— Hoje é meu aniversário. — Respondi, dando de ombros.


— Ah, sim, e você resolveu se presentear com suicídio social? — Ele riu,
debochado. — Olha ao redor, metade da turma já tá olhando pra cá.

— Não, resolvi me presentear fazendo companhia à única pessoa com quem eu


realmente gosto de conversar nessa porcaria de escola — Corrigi, controlando o
impulso de olhar para ver se estávamos mesmo sendo observados.

A verdade é que eu estava com medo, e muito. Mas também estava cansado de
ser sempre tão passivo em relação a tudo na minha própria vida.

— De onde veio isso? — Ele riu, de novo. — Parece ter sido uma decisão muito
impulsiva.

— Um pouco. — Confessei. — Mas caramba, Yuta e Taeil me conhecem desde


que a gente usava fraldas e mesmo assim não lembraram do meu aniversário!
Ou lembraram e não se importam, o que é ainda pior — completei. suspirando.

Yukwon me olhou com uma expressão um pouco neutra, por um momento, antes
de dar de ombros com um sorriso.

— Você quem sabe. Mas se você se arrepender de ser visto comigo, ainda dá
tempo de fazer uma pegadinha e fingir que só veio até aqui pra me humilhar.

— Se eu fizer isso, você me mata.

— Verdade, mas você morre com a reputação limpa. — Ele sorriu, provocativo,
e eu revirei os olhos também rindo um pouco.

— Vamos ver se eu aguento as consequências. — Disse, enfim. — Aliás, não


vai me dar parabéns?

— Porque daria? — Ele questionou, como se tivesse escutado o maior absurdo.


— Isso nem faz sentido. Porque a gente parabeniza uma pessoa no aniversário
dela? "Parabéns por ter nascido"? Parabéns a gente da quando nascido"?
Parabéns a gente da quando alguém te faz gozar mais de três vezes numa noite
só, não por ela estar completando mais um ano de gasto desnecessário de
oxigênio.
Eu bufei, irritado, mas no fundo querendo rir. — Tanto faz. Jungkook deve vir me
ver mais tarde, então eu não me importo se você vai ou não me parabenizar.

— O macho da tatuagem vem pra cá? — Ele perguntou, com uma careta de
satisfação. Se você perder a virgindade, aí sim eu te dou parabéns.

Eu apertei meus olhos e acho que corei antes de ficar de costas para iniciarmos
outro alongamento.

— Vai, me ajuda aqui.

Yukwon só riu, e puxou meus braços para trás antes de começarmos outra
conversa.

Quando acabamos, e durante toda a aula, eu sentia várias pessoas me olhando,


mas ninguém me encarava tanto quanto Taeil e Yuta. Eles pareciam com raiva
e eu me sentia mal, desviando o olhar toda vez que o meu encontrava o de um
deles.

Quando o treino acabou e todo mundo começou a voltar para os vestiários,


alguém me puxou antes que eu saísse da quadra.

— O que deu em você? — Taeil perguntou, um pouco agressivo. — Vai andar


com viado agora, é?

Eu apertei meus lábios, desconfortável.

— Ele é legal. — Foi tudo que eu disse, e ele e Yuta se entreolharam.

— E daí? Ele transa com homem! — Taeil insistiu, inconformado, como se eu


estivesse cometendo um crime hediondo ao afirmar aquilo.

Então eu me irritei. Porque, caramba, mesmo que eu ainda fosse virgem, eu


gastava parte do meu tempo desejando transar com Jungkook, então isso não
me fazia tão diferente de Yukwon.

— E daí digo eu! — esbravejei, sem pensar direito. — O que você tem a ver com
quem ele transa ou deixa de transar? Isso não diz nada sobre o caráter de uma
pessoa!
Eu esperava que ele ou Yuta rebatessem minha afirmação tão fervorosa, mas
esperava que fizessem isso com palavras e não que Taeil me empurrasse pelos
ombros, como se eu fosse a pessoa mais nojenta que ele já conheceu.

— Cara, cuidado! — Yuta murmurou, assustado, quando eu perdi o equilíbrio e


caí sentado no chão.

— Você deve ser viado também. — Taeil ignorou o susto que até mesmo Yuta
levou, e acho que ele avançaria em mim se não fosse o professor nos olhando.

— Algum problema aí? — Ele perguntou, com a voz grossa já anunciando que
estaríamos com problemas caso entrássemos em uma briga.

— Não, problema nenhum — Taeil disse, me lançando um último olhar


enraivado antes de finalmente sair da quadra.

Yuta me olhou, com os olhos apertados, antes de negar com a cabeça e seguir
para o vestiário também.

Enquanto isso, eu continuei sentado ali, sozinho, até que finalmente juntasse
coragem para me levantar, ainda assustado. Eu esperava, sim, que eles me
condenassem por estar falando com Yukwon, mas nunca imaginei que Taeil
tentaria me agredir.

Isso tirou parte da minha empolgação para o resto do dia, e eu fui o último a
deixar o vestiário, ainda triste com o que tinha acontecido.

Yukwon sumiu logo depois que a aula acabou e eu acreditava que já tinha ido
embora, mas quando sai da escola, depois de tomar meu banho e vestir o
uniforme limpo, ele apareceu em minha frente.

Um filete de suor escorria pela lateral de sua cabeça e sua respiração estava um
pouco acelerada, como se ele tivesse corrido, mas sua expressão era de tédio.
Então ele me estendeu um cupcake todo enfeitado.

— Não vou dar parabéns, mas toma isso aqui. — Ele disse, fingindo que não era
nada demais.
Eu peguei o bolinho, um pouco surpreso porque o único lugar que vendia
cupcakes por ali era a loja de uma estrangeira, e ela não ficava tão perto da
escola. Yukwon realmente foi até lá, correndo, só pra comprar aquilo pra mim.

Então eu passei tempo demais olhando para a cobertura colorida, antes de dar
um pulo e abraçar Yukwon como se nós tivéssemos intimidade para aquilo.

— Obrigado! — Eu disse, verdadeiramente, quando o soltei, voltando a admirar


o bolinho. — Sério, Yukwon, é tão fofo que eu nem vou ter coragem de comer.

— É o que? — Ele rebateu, ignorando meu abraço repentino. — Você nem


pense em deixar esse negócio estragar, seu enrustido, eu paguei caro por ele!

Eu ri, e assenti. — Ok, então eu vou comer depois de tirar uma foto pra sempre
lembrar como ele era bonitinho antes de virar cocô.

Ele revirou os olhos e eu vi que tentou não rir. — Faça como preferir. Eu tenho
que ir agora. Aproveite seu macho da tatuagem e lembre de fazer a chuca se for
dar pra ele.

Eu assenti, ainda com um sorriso enorme. Eu sabia lá o que era chuca, mas
decidi pesquisar quando chegasse em casa, porque Yukwon vivia falando sobre
isso.

Então eu me despedi dele, e fui todo o caminho admirando o cupcake que tinha
em mãos. Eu realmente ia ficar com pena de comer, mas também parecia tão
gostoso.

Quando cheguei em casa depois de ser recepcionado por Hyelin, que fez a maior
festa quando me viu e me deu um isopor cheio de pés de galinha apimentados
— e que ela provavelmente conseguiu de graça na barraca do namorado, eu
finalmente entrei em meu quarto e a primeira coisa que fiz, antes de ver os outros
presentes que estavam em minha cama, foi pegar meu celular.

Alguns parentes tinham enviado as mensagens cafonas de sempre, e eu


respondi uma por uma antes de checar a conversa com Jungkook e ver que ele
ainda não tinha mandado nada.

Eu suspirei. A noite já estava chegando, e ele continuava sem dar sinal de vida.
Então sentei na minha cama e comecei a abrir os presentes que tinham chegado
enquanto eu estava na escola. Um deles era um pijama que com certeza ia ficar
grande demais em mim, provavelmente enviado por uma tia que nunca me via e
não tinha a menor noção do meu tamanho. O outro era um cartão estampado
com dois gatos cheios de glitter e com dinheiro dentro, o tradicional presente da
minha avó.

O último era uma caixinha com a embalagem simples e marrom dos correios.
Não tinha o remetente, então eu não sabia quem tinha enviado.

Quando rasguei o pacote e abri a caixa de papelão, vi que dentro dela tinha outra
caixinha, mas essa era de veludo, um pouco comprida. Ainda curioso, eu abri a
tampinha preta e vi uma pulseira de prata com um pingente delicado no formato
de uma miniatura do globo terrestre.

Eu perdi algum tempo olhando o berloque e todos os detalhes dos continentes


cuidadosamente cravados nele antes de fechar a corrente de prata trançada ao
redor do meu pulso.

Ela era tão bonita, mas acabou ficando um pouco grande, então eu estiquei meu
braço para baixo para ver se ela era grande o suficiente para conseguir passar
por minha mão, e vi a pulseira deslizar até parar na circunferência do meu punho,
com o pingente pendurado no início da minha palma.
Eu girei meu punho para cima ao fechar os dedos sobre o pingente, segurando-o
exatamente ali. Quando afrouxei o aperto sobre ele, eu sorri, encantado, vendoa
Terra tão pequenininha sobre minha mão.

Aquele era um presente tão bonito que eu mal podia acreditar que tinha vindo
sem um cartão identificando quem o tinha enviado, então eu chacoalhei a caixa
maior e soltei um gritinho de vitória ao ver um bilhete cair de lá de dentro.

Era um pedaço de papel simples, cuidadosamente dobrado, com aquela


caligrafia bonita que eu já conhecia.

Não tinha um nome, mas, naquele ponto, eu não precisava mais de um. Ao ler
as duas frases escritas ali, eu soube exatamente quem tinha enviado aquele
presente para mim, assim como senti meu coração bater mais forte ao perceber
que a corrente era propositalmente maior que o ideal.
Eu perdi a conta de quantas vezes li aquele bilhete. Meus olhos estavam um
pouco arregalados, úmidos, e meu peito parecia pequeno demais para meu
coração acelerado.

Jungkook sempre conseguia isso. Mesmo longe, ele conseguia despertar em


mim as reações mais puras e intensas, e sempre com gestos pequenos, mas

que significavam tanto para mim. E ali, com nada além de um presente e um
bilhete curto, ele me desestabilizou completamente.

Porque, só com isso, Jungkook fez o mundo inteirinho caber na palma da minha
mão.

Eu fiquei tempo demais perdido naquilo, com meus olhos indecisos e incapazes
de focar em algo quando as lágrimas se acumulavam cada vez mais. Então eu
pisquei, até sentir a primeira escorrer, morna, por minha bochecha. Mas nem
essa, nem as que vieram depois, conseguiram aliviar o aperto na minha garganta
ou no meu peito.

Mais do que em qualquer outra vez, eu queria que Jungkook estivesse por perto.
Eu queria correr para os braços dele, queria agradecer, da minha forma
desajeitada, por aquele presente que significava tanto para mim. Queria sentir o
frio na barriga quando ele me chamasse de meu anjo e beijasse minha testa. Eu
o queria ao meu lado como nunca quis algo em minha vida, mas ele continuava
a mil quilômetros de mim.

Meu lábio tremia um pouco e eu precisei usar minhas mãos para tentar secar
meus olhos antes de alcançar meu celular. Eu sabia que aquele não era o melhor
horário para ligar, mas eu precisava tanto ouvir sua voz que não hesitei antes de
apostar na pequena chance de que ele poderia me atender.

Com o telefone pressionado contra minha orelha enquanto o toque da chamada


continuava se repetindo, eu me encolhi sobre a cama, abraçando meus joelhos
contra meu abdômen e esperando. Até que, quando algo como conformismo já
tinha tomado conta de mim, o som da chamada incompleta finalmente foi
substituído pelo que eu realmente queria ouvir.

— Oi, meu anjo.

Eu senti um sorriso pequeno reivindicar seu lugar, mesmo que meus olhos ainda
ardessem com a vontade de continuar chorando.
Era uma sensação tão confusa. Ouvir sua voz me deixava imensamente feliz,
mas me entristecia na mesma intensidade.

— Oi... — Eu respondi, depois de algum tempo respirando fundo para que minha
voz não soasse como um miado

Não adiantou, de qualquer forma.

— Eu sei que não deveria ligar agora. Desculpa...

— Não tem problema. — Ele disse, e a ligação ficou em silêncio antes que eu
ouvisse sua voz novamente. — Já recebeu?

Eu assenti com a cabeça, como se ele pudesse ver.

— Recebi. — Eu disse, erguendo meu punho até a altura do meu rosto e


sorrindo mais uma vez ao ver o pingente maciço pendurado pela corrente, mas
não demorou para que o sorriso sumisse outra vez. Eu não queria parecer
ingrato, mas a distância estava acabando comigo, especialmente naquele
instante. — Eu não podia pedir um presente melhor que esse. Obrigado,
Jungkook.

De início, eu não ouvi nada além de sua respiração. Quando ele finalmente me
respondeu, eu apertei ainda mais o telefone contra meu ouvido, fechei meus
olhos com força e senti minhas narinas dilatadas enquanto tentava controlar
aquela vontade de voltar a chorar. A cada segundo que passava, a cada palavra
que ele dizia, eu sentia que meu coração era esmagado mais um pouco.

— Me desculpe por não ter ido entregar pessoalmente, meu bem.

Ainda abraçando meus joelhos, eu não consegui dizer nada por um tempo longo
demais.

Por que ele não podia se irritar com a tristeza que eu não tentei disfarçar nem
mesmo enquanto agradecia? Por que ele não condenou minha insatisfação
diante dos seus esforços de pensar num presente tão bonito? Por que ele não
podia fingir que não se importava, e que eu era o único bobo chateado com a
distância entre nós dois?
Se ele fizesse alguma dessas coisas, qualquer uma delas, eu poderia me
convencer de que não valia à pena me entregar tanto a todos aqueles
sentimentos. Mas ele sempre dizia a coisa certa.

Mesmo longe, Jungkook me mantinha preso.

— Anjo... — Ele chamou, quando o silêncio se prolongou ainda mais.

Eu bati eu punho contra a testa, num gesto pouco brusco. Então respirei fundo
mais uma vez.

Jungkook não me devia nada. Ele vivia em Seul, uma cidade com muito mais
distrações que Nam-gu, e era óbvio que seu tempo livre nem mesmo se
comparava ao meu, sem falar que com certeza estava cercado por pessoas
muito mais interessantes que eu. Mas ainda assim, mesmo com todos os motivos
para não gastar seu tempo comigo, Jungkook o fazia.

Ele ouvia meus relatos dolorosamente detalhados sobre coisas que não
despertariam o interesse de nenhum ser humano, tinha paciência para minhas
crises de auto estima e fazia coisas como me ajudar com as atividades de inglês
da escola.

Isso tudo em troco de absolutamente nada.

E no fundo, mesmo que eu estivesse magoado por ter acreditado por tanto tempo
que ele iria me ver no meu aniversário, eu sabia que ele o faria, se pudesse.

Então mesmo que eu ainda sentisse sua falta a ponto de quase ignorar todas as
coisas boas que ele sempre me fazia sentir, eu respirei fundo quantas vezes
foram necessárias até que conseguisse acalmar aquela confusão de
sentimentos, e no fim deixei que meu sorriso pequeno voltasse, subjugando a
tristeza anterior.

— Desculpa, Jungkook, — Eu disse, um pouco orgulhoso por, mesmo


demorando tanto tempo, conseguir domar aquele conflito interno. — Eu queria
muito, muito, muito te ver e fiquei triste quando percebi que você não vinha, mas
eu juro que seu presente foi o melhor de todos.
Eu ouvi sua risada baixa do outro lado e quase pude visualizar a forma como seu
rosto ficava ainda mais bonito quando ele sorria, com as maçãs evidenciadase as
ruguinhas em seus olhos.

— Você recebeu tantos presentes assim?

— Não muitos, mas o seu competiu com um celular novo, um cupcake muito
bonitinho, uma porção enorme de pés de galinha e um pijama que nem vai caber
em mim. Ah, e com dinheiro também...

— Tem certeza que o meu foi o melhor? Eu escolheria os pés de galinha.

— Você gosta? De verdade? — Eu perguntei, com a empolgação que sempre


surgia quando eu descobria algo novo sobre ele. — Os daqui são muito bons!
Quando você vier nós vamos comer juntos, tá?

— Certo, meu bem. Vamos fazer tudo que você quiser.

— Então a gente vai ver o pôr do sol no lago e também vai no parque de
diversões!

Eu continuaria a falar e diria todas as outras coisas que queria que fizéssemos
juntos, mas a voz de outra pessoa do outro lado da linha fez a minha morrer aos
poucos, porque eu sabia que Jungkook estava no trabalho.

— Eu preciso desligar, Jimin. — Ele disse quando finalmente voltou a falar


comigo.

Eu suspirei, mas tomando o cuidado de fazê-lo silenciosamente para que


Jungkook não escutasse.

— Tudo bem... — Eu disse, mas não desliguei. Eu sempre deixava essa tarefa
para ele, na verdade.

Quando achei que a ligação já tinha sido finalizada, eu ouvi sua voz outra vez.
Ele disse baixo, depois de um suspiro que eu não esperava ouvir,

— Eu também queria poder te ver hoje, meu anjo. Sinto muito por isso.
Eu me encolhi um pouco mais, sem saber se aquilo me deixava mais feliz ou
mais triste, mas antes que eu pudesse descobrir, ele se despediu de uma vez,

— Aproveite seu dia. Eu te ligo mais tarde.

Eu ainda segurei o celular contra meu rosto por algum tempo, decidindo que eu
estava tão triste quanto feliz. Mas não tinha muito o que fazer sobre isso, então
eu sai da cama e me sentei no chão, com os pés de galinha de Hyelin e o
cupcake de Yukwon.

E enquanto eu comia os meus presentes com a pulseira chacoalhando em meu


braço, eu sorri. Meu primeiro dia com dezessete anos não tinha sido como eu
esperava, mas ainda assim foi tão bom quanto podia ser.

❆❅❄❅❆

4 meses depois

— Vai se foder, Yukwon! — Eu bradei, furioso.

Em resposta, ele riu. Aquela risada alta e exagerada que já tinha se tornado uma
conhecida intima, assim como todas as suas manias estranhas.

— Eu disse pra você não xingar na frente da criança, Yu, agora olha aí! O Jimin
não para mais de falar palavrão! — Taeyeon, a irmã mais velha dele, resmungou
enquanto assistia nossa disputa fervorosa na máquina do fliperama.

— E isso não é bom? — Ele rebateu enquanto pressionava as teclas


furiosamente, assim como eu, sem tirar os olhos da tela. — Ele parece mais livre
assim, menos reprimido.

Eu chutei a perna dele, e dois segundos depois o som irritante do jogo anunciou
minha derrota.
— Merda! — Resmunguei, lançando meu olhar mais cheio de ódio para o
demônio que, depois daqueles meses, acabou se tornando meu melhor amigo.
— Você roubou!

— Você roubou — Ele me imitou, com a voz fina. — Você que é um mau
perdedor, seu enrustido.

Eu revirei os olhos e cruzei os braços, cedendo meu lugar a Taeyeon para que
ela competisse com o irmão trapaceiro. Na verdade, a desonestidade devia ser
de família, porque ela também era uma ladra.

— Eu me vingo por você, Chim. — Ela disse, dando pulinhos e soquinhos no ar


como se estivesse se aquecendo.

Mesmo emburrado, eu não consegui reprimir uma risada. Yukwon e Taeyeon


eram as pessoas mais esquisitas que eu já tinha conhecido na vida. Talvez fosse
por isso mesmo que eu gostava tanto deles dois.

Na maior parte do tempo, pelo menos.

— Perdeu de novo? — A voz do último integrante do nosso grupinho


desajeitado me fez parar de prestar atenção na nova partida, e então olhei para
o lado.

Jeonghan me estendeu um dos copos de refrigerante que comprou na


lanchonete do fliperama e tomou um pouco da sua própria bebida, olhando para
os irmãos barulhentos em nossa frente.

Ele se encostou ao meu lado, e olhou para mim sorrindo, divertido com a
vivacidade dos dois.

Depois do meu aniversário eu fui completamente excluído por Taeil e Yuta, e


eles, principalmente o Taeil, só falavam comigo quando queriam me provocar.

No começo eu fiquei chateado, mas depois de um tempo, quando minha amizade


com Yukwon se tornou mais forte, eu percebi que na verdade eles não faziam
falta. E se eles tentavam me irritar ou qualquer coisa assim, Yukwon logo surgia
como um cachorro selvagem para me defender.
Ele ouvia em silêncio todas as coisas maldosas que diziam a seu respeito, mas
a menor ofensa que dirigissem a mim despertava o seu pior lado.

Nesse ano, quando ingressamos no último ano letivo do ensino médio, Jeonghan
apareceu na nossa turma, completamente perdido e sem conhecer ninguém,
depois de se mudar para nossa cidade por causa do emprego da mãe.

Talvez por não saber que eu e Yukwon não éramos bem vistos na escola, ele se
aproximou de nós dois. De uma forma ou de outra, nunca pareceu ter se
arrependido dessa escolha.

E assim, de um jeito meio inesperado, eu acabei encontrando um grupo de


amigos desastroso, mas onde eu realmente me sentia bem.

— Yukwon roubou. — Eu disse, fazendo um bico quando suguei o refrigerante


pelo canudo.

— Mentira! — Yukwon gritou, sem virar para trás.

Jeonghan riu ainda mais, e deu um tapinha no meu braço antes de apontar para
outra máquina.

— Treina comigo. — Ele disse. — Daí na próxima vez você acaba com ele.

Eu sorri, empolgado, e corri para colocar uma ficha. Então nós passamos mais
algum tempo naquilo, como era nosso novo costume de sexta feira.

Depois da aula, nós íamos direto para o fliperama, onde encontrávamos


Taeyeon e ficávamos jogando até a hora em que ela precisava ir embora.

— Ok, a noona precisa ir trabalhar — Ela disse, quando já tinha anoitecido e eu


estava rouco de tanto praguejar contra ela e seu irmão.

— Eu vou levar ela, depois volto pra humilhar mais. — Yukwon disse antes que
os dois saíssem do fliperama juntos.

Como os pais deles tinham morrido alguns anos antes, Taeyeon trabalhava
como vendedora de uma loja durante o dia e como barista numa boate nos fins
de semana, para poder pagar as contas,
Eles cuidavam bem um do outro, apesar de tudo. Então Yukwon sempre a
acompanhava até a boate e só depois voltava para jogar mais com a gente, e
nesse tempo eu sempre ficava sozinho com Jeonghan.

O que as vezes, só às vezes, era um pouco estranho, porque ele era muito
carinhoso comigo e eu nunca sabia se aquilo era só afeto de amigo ou algo a
mais.

Mas dessa vez, entre um jogo e outro, ele precisou se afastar de mim para
atender uma ligação de sua irmã que ainda morava na sua cidade natal, e a
moça falava tanto que eu já sabia que ficaria sozinho por um bom tempo.

Impaciente, eu gesticulei para ele dizendo que ia até o banheiro, e fui até lá
sozinho.

No caminho, eu passei por Taeil e Yuta, porque eles também continuavam


gastando bastante tempo no fliperama, mas eu apenas desviei o olhar e fingi que
não os tinha visto, apesar de sentir os olhares deles me acompanhando até que
eu atravessasse a porta vai-e-vem.

Lá dentro, eu peguei o celular e chequei as horas. Já era noite, então Jungkook


devia estar saindo do escritório.

Nesse tempo que passou, nós ainda não tínhamos nos visto de novo, e as coisas
ainda se resumiam a mensagens e ligações. Em alguns dias era especialmente
difícil, mas eu já tinha começado a me acostumar com aquilo.

E eu estava animado, porque ele tinha oficialmente se formado na universidade,


e então tinha menos uma coisa ocupando seu tempo e mais chances de que ele
logo iria me ver.

Mesmo assim, eu ainda gostava de ouvir sua voz através das ligações e de ver
suas tentativas falhas de usar emojis nas nossas mensagens, então eu disquei
seu número e fiquei parado, observando meu reflexo no espelho enquanto
esperava ele me atender.

— Cadê seu cãozinho de guarda? — A voz que eu ouvi não foi a de Jungkook,
e sim a de Taeil, que entrou no banheiro.
Yuta ficou parado na porta, e ele parecia tenso, alternando seu olhar entre nós
dois.

De qualquer forma, eu preferi ignorar. Reagir às provocações sempre parecia a


pior coisa a se fazer, então eu apenas respirei fundo, ainda com o celular contra
minha orelha, e me dirigi para fora do banheiro.

Mas Taeil me segurou pela manga do uniforme antes que eu sequer chegasse
perto da porta, e me empurrou para mais dentro do banheiro outra vez.

— Calma, Jimin, você não gosta mais de conversar com seus amigos? — Ele
disse, e eu recuei quando ele se aproximou, tentando me intimidar.

— Você mesmo disse que eu não posso mais ser seu amigo. Me deixa em paz,
Taeil.

— Eu só disse isso porque você resolveu que seria uma boa ideia começar a
andar com aquela aberração do Yukwon. — Ele disse, me empurrando pelos
ombros com as pontas dos dedos, até que eu sentisse minhas costas contra a
parede. — E nem me faça falar daquele novato. Qual é a daquele cabelo de
mulherzinha que ele tem?

Eu até mesmo esqueci que estava ligando para Jungkook, e deixei minha mão
cair ao lado do meu corpo, segurando meu celular com força.

— Não fala assim deles! — Eu disse, enraivado, mas também acuado pela forma
como ele me olhava.

— Senão o que?- Ele me empurrou de novo, dessa vez com mais força. — Hein,
Jimin? O que é que você vai fazer?

— Taeil, deixa ele em paz — Yuta insistiu, como se tivesse a mesma certeza
que eu tinha de que ele não pararia por ali.

— Deixa de ser frouxo, Yuta.- Ele disse, sem parar de olhar pra mim. — Só fica
de olho na porta e não deixa ninguém entrar aqui até eu terminar de me resolver
com essa bicha.
Eu arregalei ainda mais meus olhos, assustado e com raiva. Levado por essas
duas coisas, eu o empurrei com toda a força que consegui usar, chocando meu
punho e meu celular contra seu peito.

— Eu não me importo se você resolveu me odiar, mas me respeita! — Eu disse,


empurrando-o de novo.

Então ele sorriu, mas logo depois sua feição se transformou completamente e
virou ódio puro, logo antes de eu sentir o soco que ele deu na minha barriga, tão
forte que me tirou o ar. Eu resfoleguei, assustado e com dor, e nem pude me
recuperar antes que ele repetisse o golpe.

— Eu não respeito viado — Ele disse, e me segurou pela gola da camisa quando
eu senti minhas pernas fraquejarem, mas me soltou assim que me deu o terceiro
soco.

Eu cai no chão e vi meu celular deslizar e se chocar contra a parede antes de


olhar para Taeil novamente.

— Eu não vou fazer parte disso! — Eu ouvi Yuta dizer, com a voz trêmula, e
quando olhei na direção da porta, ele não estava mais lá.

Ele chamaria alguém para ir me ajudar?

Não. Eu o conhecia bem. E também conhecia Taeil o suficiente para saber que
ele ainda não tinha acabado.

Ainda que eu não o conhecesse, ele me olhava com tanto ódio que eu poderia
concluir isso mesmo se não soubesse nada sobre ele.

Mas por que ele me odiava tanto assim?

Aquilo não era justo, muito menos fazia sentido. E eu estava assustado, então
quando ele me segurou pelo pescoço e bateu minha cabeça contra a parede,
meu primeiro soluço escapou, e logo depois eu já estava chorando.

— Você sempre foi um bebê chorão mesmo! — Ele bradou, como se meu choro
o irritasse ainda mais, e me jogou no chão.
Eu senti meu corpo já dolorido sobre o azulejo frio e levantei meus olhos até ele
quando o vi ficar de pé em minha frente.

Mas ao invés de ir embora, e antes mesmo de me deixar implorar para que me


deixasse em paz, Taeil chutou minha barriga, e eu solucei novamente, sem ar.

— Mas não se preocupa, não, Jimin. Porque eu vou te arrebentar todo, até você
virar homem de verdade — Ele disse, e então me chutou de novo. E de novo, e
de novo, e de novo.
12 • Con Clavi

Quantas vezes Taeil me chutou até que a porta do banheiro fosse aberta?

Eu não sei. Eu perdi as contas e acho que estava a um golpe de perder os


sentidos quando Jeonghan entrou no banheiro.

Yuta estava com ele. Minha visão estava completamente embaçada, com
pontinhos pretos salpicando sobre a imagem borrada que eu tentava decifrar,
mas eu o vi. Ele voltou, junto com Jeonghan, e foi preciso que os dois
segurassem Taeil para que ele se afastasse de mim.

— Para com isso, cara, pelo amor de deus! — Yuta pediu enquanto parecia usar
toda sua força para conter Taeil sozinho, já que Jeonghan tinha corrido até se
agachar na minha frente.

— Me larga, Yuta! — Taeil esbravejou, ainda tentando se soltar.

Eu me encolhi ainda mais sobre o chão. O gosto ferroso do sangue na minha


boca já tinha se misturado ao salgado das lágrimas e meu corpo doía como o
inferno, mas eu sentia que não era eu, ali, jogado sobre os azulejos frios.

Não podia ser. Aquilo não podia estar acontecendo comigo. Taeil nunca faria
aquilo com uma pessoa que cresceu ao lado dele... não é?

Era só um sonho ruim e eu só precisava me concentrar pra conseguir acordar,


mas não importava o quanto eu apertasse meus olhos, quando eu os abria de
novo, era a mesma cena que eu encontrava

— Jimin... — Jeonghan me chamou e foi um reflexo quando eu gemi, assustado,


ao sentir sua mão me tocar.

— Já chega! Olha o que você fez com ele! — Yuta gritou, com a voz tremendo.

Quando olhei na direção dos dois, vi que Taeil respirava com dificuldade e seus
olhos me analisavam com o mesmo sentimento ruim de antes, como se eu fosse
a pior coisa que ele já olhou.
— Ele mereceu!

— Eu vou te tirar daqui — A voz suave de Jeonghan se sobrepôs à azeda de


Taeil, e eu sabia que ele estava fazendo o maior esforço do mundo para ignorá-
lo e focar toda sua atenção em mim.

Quando ele passou um braço por baixo das minhas pernas e outro por baixo do
meu pescoço, eu gemi baixinho pela dor, mas deixei que ele me carregasse para
fora dali.

Ao passarmos pelos dois que um dia chamei de amigos, eu escondi meu rosto
em seu peitoral e amassei sua blusa entre meus dedos pequenos, sentindo
aquela dor que era ainda maior que a física.

E por mais que não o visse quando passamos ao seu lado, eu senti todo o
desprezo em sua voz quando Taeil falou comigo, pela última vez.

— Você tá doente, Jimin.

Jeonghan me levou para casa. Ele chamou um táxi e depois me carregou através
da recepção até me deixar no sofá da minha sala. Eu ouvia sua voz me dizendo
que estava tudo bem, que Taeil ia pagar por ter feito aquilo comigo, mas ao
mesmo tempo eu não as entendia. Era como se o som estivesse distante. Meu
corpo estava ali, perto dele, mas minha mente estava longe demais.

— Você quer tomar um banho? — Ele perguntou e a única coisa que consegui
fazer foi levantar meus olhos até encontrar seu rosto preocupado. Aquilo não era
uma confirmação, mas ele não pareceu entender que sua pergunta soava
complexa demais para minha cabeça atordoada. - Eu vou encher a banheira pra
você, tudo bem? Fica aqui.

Novamente, eu não disse nada, apenas acompanhei seu caminhar apressado


em direção ao meu banheiro antes de me arrastar pelo sofá até deitar, encolhido,
como uma criança indefesa.

Aquele foi o pior momento da minha vida e mesmo assim eu não conseguia mais
chorar.
Eu me sentia sufocado, mas não adiantava puxar o ar, ele parecia nunca chegar
aos meus pulmões necessitados.

E como se não bastasse, enquanto minha mente alternava entre um vazio


assustador e um turbilhão que me deixava tonto, meu coração continuava
afirmando o quanto eu precisava dele ali.

Mas mesmo que eu quisesse desesperadamente ouvir sua voz, eu estava com
vergonha.

Eu queria falar com Jungkook sobre o que tinha acontecido, ao mesmo tempo
em que desejava que ele nunca descobrisse.

— Cadê seus pais? — Jeonghan perguntou, de repente.

Eu já estava dentro da banheira, sentindo a água quente entrar em choque com


o frio do meu corpo dolorido. Jeonghan estava sentado no chão, do lado de fora,
e suas mãos brincavam com os pequenos aglomerados de espuma.

Minha nudez era só um detalhe, naquele momento.

Em resposta à sua pergunta, eu apenas ergui os ombros, sem direcionar meu


olhar ao seu. Isso não queria dizer que eu não sabia onde estavam. Meu pai
estava viajando e minha mãe, apesar da hora, deveria estar na pequena sala de
administração do hotel. O único motivo que tive para não responder foi minha
total incapacidade de transformar pensamentos em palavras.

— Nós precisamos dizer a eles. — Jeonghan continuou, ainda brincando com a


espuma. Eu sentia seu olhar firme sobre minha imagem frágil, mas não
conseguia mais encará-lo de volta. — Eu posso contar, se você quiser.

Eu neguei, imediatamente, ainda sem emitir som algum.

— Jimin, eles precisam saber.

— Não. — Me forcei a dizer, sentindo minha voz quebradiça e feia. — Ninguém


vai saber.

— Chim...
Antes que ele insistisse, eu neguei com a cabeça de novo, dessa vez mais forte,
e vi ele suspirar, derrotado.

— Nós conversamos sobre isso depois. Eu vou mandar uma mensagem pro
Yukwon dizendo que você não estava se sentindo bem.

Dessa vez eu assenti, e vi ele começar a digitar algo no próprio celular. Foi então
que eu percebi que o meu tinha ficado no chão do banheiro do fliperama.

— Meu celular... — Eu disse, olhando para ele, ansioso. — Ficou lá...

— Droga. — Ele resmungou, e já estava ficando de pé. — Eu vou buscar.

Mas antes que ele se afastasse, eu segurei seu braço, forçando-o a ficar por
perto. — Não me deixa sozinho...

Jeonghan olhou para minha mão fracamente agarrada a ele e balançou a cabeça
devagar antes de se sentar novamente, no mesmo lugar. Dessa vez ele não disse
mais nada, apenas me fez soltar seu braço para que ele juntasse sua mão à
minha, e então nós ficamos em silêncio, de mãos dadas.

Quando eu já tinha passado tempo demais debaixo da água e as pontas dos


meus dedos já estavam enrugadas, Jeonghan me ajudou a sair da banheira, me
enrolou na toalha e me levou até meu quarto, onde eu fiquei sozinho para trocar
de roupa.

— Eu vou fazer alguma coisa pra você comer, tudo bem? — Ele disse quando
eu abri a porta, indicando que ele já podia entrar.

Mas antes que eu pudesse negar sua sugestão, alegando que não estava com
fome, porque eu realmente não estava, a campainha de casa tocou três vezes
seguidas.

eu realmente não estava, a campainha de casa tocou três vezes seguidas.

Ele me olhou, um pouco curioso, antes de dizer que ia ver quem estava lá.

Eu esperei no meu quarto, sentado em minha cama, até que ouvi aquela voz
familiar se aproximando.
— Cadê ele?

Imediatamente meus olhos se viraram para a porta e eu confirmei que não estava
louco quando o reconheci ali, totalmente perdido, sem entender porque ele
estava em minha casa e por que parecia tão preocupado.

— Kihyun? — Eu murmurei, assustado, quando o vi se aproximar de mim com


os cabelos ainda coloridos com o mesmo tom de rosa.

— Que merda aconteceu com você? — Ele perguntou, segurando meu rosto,
parecendo que estava procurando alguma coisa de errada nele. — E por que
você não atende a porcaria do celular? Jungkook tá desesperado tentando falar
com você pela última hora!

— Jungkook? — Eu repeti, incapaz de entender o que estava acontecendo.

— Eu estou tão perdido quanto você. — Kihyun disse, depois de soltar meu rosto
e respirar aliviado. — Ele me ligou do nada, me deu seu endereço e me pediu
pra vir correndo pra Nam-gu ver se você estava bem.

Então a percepção me atingiu, de repente. Eu estava ligando para Jungkook


quando Taeil entrou no banheiro. Se ele atendeu minha ligação, é muito provável
que tenha escutado o que aconteceu.

— Eu nunca vi Jungkook preocupado daquele jeito, quer dizer, você sabe como
ele é. Ele não demonstra esse tipo de coisa tão facilmente, mas eu juro que ele
estava prestes a ter um treco quando me ligou, então eu imaginei que você tava
sendo atacado por canibais ou coisa pior, por isso dirigi tão rápido. — Ele sentou
na minha cama, ao meu lado, mesmo que eu não tivesse permitido.- Que susto
da porra!

Jeonghan estava parado na porta, provavelmente sem entender o mínimo


daquela conversa. Diferente de Yukwon, para quem eu sempre falava de
Jungkook, Jeonghan nunca ouviu meus relatos apaixonados sobre ele.

Mas mesmo com o pouco entendimento em relação àquela conversa, o olhar


que ele me lançou não era de dúvida. Era o tipo de olhar que me perguntava se
eu diria a Kihyun que, na verdade, eu tinha sim sido agredido.
Eu não contaria, mas Kihyun era esperto, e ele viu o olhar que eu troquei com
meu amigo.

— Porra... — Ele sussurrou, como se tivesse entendido tudo. — Aconteceu


alguma coisa mesmo, não foi?

Antes que eu negasse, Jeonghan foi mais rápido. — Você não pode esconder,
Jimin.

— Ele disse, e então Kihyun olhou em sua direção. — Um cara espancou ele.
Ele não quer que mais ninguém saiba, mas se a gente não contar pra ninguém,
não vai acontecer nada com o idiota que fez isso!

Eu ouvi o som do ar escapando furiosamente pelos lábios do homem de cabelos


coloridos e abaixei meu rosto quando senti seu olhar se voltar para mim.

— Não foi nada demais. — Eu menti, sem saber por que estava tão relutante em
assumir o que tinha acontecido.

— Nada demais? — Jeonghan repetiu, incrédulo. — Seu corpo tá cheio de


hematoma, Jimin!

— Onde ele te machucou? — Kihyun perguntou e eu neguei com a cabeça, sem


querer responder. — Tá doendo muito? — Ele insistiu.

Dessa vez, eu fiquei quieto. Sem negar, mas sem assentir também.

— Parece muito ruim? — Ele voltou a perguntar, mas dessa vez eu percebi que
ele estava falando com Jeonghan, que assentiu.

— Eu não acharia exagero se ele tiver fraturado uma costela.

Kihyun ficou de pé, na mesma hora. — Você precisa ir num hospital. — Ele disse,
me segurando pelo braço para me ajudar a ficar de pé, mas eu não sai de cima
da cama. — Jimin, o Jungkook vai me matar se eu não te levar num médico,
então pelo amor de deus... vem logo.
Eu olhei para ele, afetado pela menção do nome de Jungkook. Imaginar que ele
estaria esse tempo todo sem saber o que tinha acontecido comigo fez meu
coração apertar como nunca antes.

Aproveitando essa brecha, Kihyun me puxou outra vez, ainda com cuidado, mas
com força o suficiente para me fazer levantar, e dessa vez eu me deixei ser
levado até seu carro, estacionado na frente do hotel.

— Eu vou passar no fliperama pra pegar seu celular — Jeonghan disse depois
de me ajudar a sentar no banco do carona. — Te encontro no hospital, ok?

Eu assenti, e vi ele começar a fazer todo o percurso até a casa de jogos outra
vez, enquanto eu dizia para Kihyun seguir para o outro lado.

Quando chegamos no hospital e minha triagem foi feita, Kihyun se afastou de


mim, depois de me deixar sentado no banco desconfortável da recepção, e eu o
vi falar no telefone com alguém. Por estar longe, eu não sabia com quem ele
estava falando, mas minha suspeita foi confirmada quando ele sentou ao meu
lado, suspirando pesadamente.

— Pronto, Jungkook já sabe que você tá inteiro. Quer dizer, vivo, inteiro a gente
ainda não sabe se está mesmo.

Eu assenti, apertando meu casaco frouxo ao redor do meu corpo, e demorei


algum tempo até conseguir dizer: - Eu queria falar com ele...

Kihyun me olhou pelo canto dos olhos antes de deixar a cabeça tombar para
trás, encostando-a na parede sem cor.

— Você fala com ele depois. — Ele disse, simplesmente, e eu só balancei a


cabeça outra vez.

Enquanto esperávamos, o silêncio foi nossa única companhia. Não havia espaço
para as provocações que pareciam inerentes a qualquer interação entre nós
dois, e eu só ouvi sua voz novamente quando, pouco tempo depois, meu nome
foi chamado e ele me acompanhou até a sala de um dos médicos que estavam
atendendo.
O exame foi um pouco dolorido e nós tivemos que esperar o raio-x ficar pronto,
mas quando saímos de lá, saímos com a certeza de que, apesar de toda a dor,
nenhum estrago maior tinha sido feito e com um frasco de analgésicos que
aliviariam o incômodo persistente.

Ao passarmos pela recepção novamente, Jeonghan levantou e se apressou em


minha direção, com meu celular em suas mãos.

— E aí? Tá tudo bem? — Ele perguntou, ansioso.

— Não precisou remendar nada, não, tá tudo ok — Foi Kihyun quem respondeu,
gesticulando para que continuássemos andando mesmo que no meu ritmo lento.

Jeonghan fez uma careta antes de rir, um pouco confuso. — Que cara estranho,
— Ele sussurrou, mas não baixo o suficiente, e Kihyun olhou pra gente antes de
revirar os olhos.

— Sério mesmo que as pessoas nunca respeitam meus sentimentos?!

Dessa vez fui eu quem deixei o primeiro sorriso, ainda fraco e desajeitado,
aparecer.

— Onde fica a torre do Rapunzel? — Kihyun perguntou quando entramos em


seu carro, olhando para Jeonghan no banco de trás. — Eu te dou uma carona.

— Eu posso ficar na casa do Jimin. É melhor ele não ficar sozinho hoje. —
Jeonghan disse e eu nem tinha objeções a isso, mas Kihyun parecia ter

— Acredite em mim, ele não vai ficar sozinho. Onde você mora?

Meu amigo olhou pra mim e eu estava tão confuso quanto ele, mas apenas ergui
os ombros, assentindo, e dali nos seguimos até o deixarmos na frente de seu
condomínio.

— Jeonghan — Eu o chamei, antes que ele descesse do carro. — Continue sem


dizer nada pro Yukwon, tá? Ele não precisa saber.

Ele me olhou daquele jeito que mostrava que não concordava com meu pedido.
— Jimin...
— Olha, se você contar, amanhã o nome dele vai sair no noticiário como o
maluco que enforcou Moon Taeil com as tripas. Você sabe como ele é.

Eu ouvi seu suspiro e vi ele coçar a nuca, antes de concordar. — Tá, você tem
razão, ele vai perder o juízo se descobrir. — Ele cedeu, enfim. — Mas só estou
concordando em não contar pra ele. Seus pais ainda precisam saber.

Eu não neguei, mas não estava de acordo com aquilo. Deixar meus pais
descobrirem o que tinha acontecido envolvia explicar o porquê de Taeil me
atacar daquele jeito, e eu não estava pronto para isso.

— Boa noite, Jeonghan. Obrigado por tudo. — Eu disse, decidindo deixar aquela
discussão para depois.

Ele se inclinou entre os bancos da frente para me dar um beijo na bochecha, e


ainda me olhou por algum tempo antes de gesticular em despedida para Kihyun
e finalmente descer do carro.

Assim que a porta se fechou, eu ouvi a risadinha de Kihyun, e o olhei com as


sobrancelhas apertadas.

— O que foi?

Ele negou com a cabeça, ainda sustentando o sorriso pequeno ao ligar o carro.
— Você vai destruir o coração desse menino.

Eu o olhei, um pouco assustado, antes de virar o rosto para o lado e ficar em


silêncio durante todo o caminho até que ele parasse em frente à minha casa.

— Onde você vai ficar? — Eu perguntei, me livrando do cinto de segurança. —


Você pode dormir em um dos quartos do hotel, não precisa pagar.

— Eu vou voltar pra Gwangsan-gu. — Ele respondeu, tranquilo. — Quer que eu


te leve lá dentro?

Eu neguei, olhando para minhas mãos apoiadas sobre meu jeans surrado. —
Não precisa. — Disse sinceramente. Talvez a primeira dose do analgésico já
estivesse fazendo seu efeito, mas a dor não era mais tão intensa. — Kihyun...

Ele me olhou, sem me repreender por ainda não ter saído do carro.
— Você acha que... que eu sou doente?

Ele apertou os olhos, provavelmente sem entender a motivação da minha


pergunta repentina. Mas a verdade é que as palavras de Taeil ainda me
torturavam, e parte de mim queria acreditar que ele estava certo.

Aquele ódio todo dele só por supor que eu gosto de homens não podia ser sem
fundamento. Talvez isso seja realmente errado.

— Sentir as coisas que eu sinto por Jungkook... isso faz de mim uma aberração?
— Eu insisti, voltando a olhar apenas para minhas mãos, sem coragem de
encará-lo.

— Bebê, aberração é quem não sente tesão por aquele homem.

Eu apertei meus ombros diante de sua resposta, e ele ficou em silêncio por um
tempo antes de continuar.

— Foi por isso que fizeram aquilo com você?

Eu assenti, vergonhosamente.

— Quando meus colegas da escola descobriram que eu era bissexual, minha


vida virou um inferno. Eu me senti uma aberração por muito tempo, também,
então sei como você deve estar se sentindo agora. — Ele olhou para mim, e foi
muito inesperado ver um sorriso que parecia tentar me reconfortar. — Mas uma
hora você percebe que o único erro tá em quem tem tanto ódio assim, então não
deixe essa gente cagar regra em cima da forma como você se sente.

Eu apertei um pouco meus lábios antes de repuxá-los num sorriso ainda


inseguro.

— Tá.

— Tá? — Ele repetiu, junto com uma risada fraca. — Então ok. Vai logo, eu
quero chegar em casa a tempo de ver a reprise de Weekly Idol.

Eu assenti, peguei meu celular, o frasco dos analgésicos e abri a porta. Antes
de descer, eu olhei para ele e o olhei em silêncio, sem saber como dizer aquilo.
— Você tá agradecido, eu entendi. — Ele disse, antes que eu começasse a fazê-
lo. — Para de me olhar com esses olhinhos, pelo amor de deus, meu coração
vai explodir. Você é fofo pra caralho.

O som meio abafado e agudo que eu deixei escapar era uma risada. Uma
desengonçada, mas ainda sincera.

— Obrigado, Kihyun, de verdade. Volte com cuidado

Ele balançou a cabeça uma única vez e então eu finalmente desci do carro,
carregando minhas coisas para dentro de casa, onde fui abordado por minha
mãe assim que abri a porta.

— Onde você estava? — Ela perguntou, um pouco preocupada. — Jungsu disse


que você saiu daqui com o Jeonghan e um cara de... cabelo rosa?

Jungsu era o recepcionista que assumia no turno da noite, depois que Hyelin ia
embora. Em partes, eu estava feliz que fosse ele a me ver praticamente sendo
carregado para fora de casa, porque se fosse Hyelin, eu seria bombardeado com
perguntas até o ano seguinte.

— Ah, era o Kihyun, ele é um amigo. Nós só fomos dar uma volta. — Eu disse,
escondendo o frasco de remédios dentro do meu casaco.

— Que susto. Jungsu disse que você não parecia bem, eu fiquei preocupada.

— Deve ter sido impressão. Eu estou bem. — Eu menti, fazendo meu melhor
para não evidenciar nem o mínimo traço de dor.

— Menos mal. Você jantou? Já está tarde. Quer que eu faça alguma coisa pra
você?

Eu neguei, e me inclinei só para dar um beijo na sua bochecha. — Não estou


com fome. Acho que já vou dormir.

— Certo. Eu vou voltar pro escritório, alguém fez a maior bagunça com o arquivo
do orçamento, preciso reorganizar tudo. — Ela choramingou, e eu soube que
com alguém, ela quis dizer ela mesma.
Minha mãe é uma mulher maravilhosa, mas também é a provável causa da
minha natureza completamente atrapalhada, porque a própria sempre foi um
desastre no quesito organização.

Então eu sorri para ela, assentindo, e voltei a seguir meu caminho até meu
quarto, porque eu queria ligar para Jungkook o mais rápido possível. Mas antes
que eu entrasse, o som da campainha ecoou novamente pela casa, e eu parei
para olhar para a porta quando minha mãe foi até lá, se perguntando quem
poderia ser

E enquanto conscientemente eu me fazia exatamente a mesma pergunta, meus


olhos bem abertos e minhas mãos trêmulas pareciam denunciar que, no fundo,
eu sabia exatamente quem estava ali.

Mesmo assim, mesmo sentindo que no fundo eu já deveria esperar por aquilo,
eu juro que meu coração parou de bater por um segundo quando eu o vi ali, na
minha porta.

— Jeon? — Foi minha mãe quem disse, surpresa, ao reconhecê-lo.

Mas ele não disse nada. Antes disso, ele deixou seus olhos escuros e
preocupados encontrarem os meus, ainda um pouco distante da entrada, e eu
senti meu peito subir e descer furiosamente antes que conseguisse forçar meus
pés a se moverem.

Um, dois, três passos, devagar, antes que minhas pernas me guiassem até ele
na maior velocidade que meu corpo poderia aguentar.

Quando o alcancei, era como se minha mãe não estivesse ali, ou pelo menos
como se eu não me importasse, e eu o abracei com tanta força quanto me foi
possível, sentindo ele me abraçar de volta na mesma intensidade.

A dor voltou, um pouco mais intensa, mas a única coisa que fiz foi apertar ainda
mais meus braços ao redor de seu corpo.

— Jungkook... — Eu o chamei, pressionando meu rosto contra seu peitoral,


amassando seu sobretudo escuro debaixo de minhas mãos e sentindo seu
cheiro me anestesiar por completo. — Você voltou... Jungkook...
Os dedos longos dele subiram por meu pescoço, até segurarem meu rosto.
Quando me afastou só o suficiente para que pudesse me olhar, eu senti seus
polegares acariciando minhas bochechas enquanto ele me observava com
preocupação.

Depois de analisar cada partezinha do meu rosto, ele me puxou de novo, dessa
vez para me beijar na testa. Eu fechei os olhos ao sentir o contato demorado de
seus lábios frios contra minha pele e suspirei quando ele os deslizou para baixo,
pressionando suavemente minha pálpebra fechada antes de finalmente beijar
minha bochecha.

— Você está bem? — Ele perguntou, voltando a me olhar, e seus polegares


ainda alisavam minha pele, me fazendo suspirar como se cada pequena
terminação nervosa de meu corpo estivesse sob seu toque.

Eu balancei a cabeça para cima e para baixo, lentamente, mas dessa vez eu não
estava mentindo. Eu realmente me sentia bem, porque ele estava ali comigo.

Então ele soprou o ar, como se estivesse aliviado, e beijou minha testa outra vez
antes de voltar a me abraçar.

Eu podia passar o resto da vida daquele jeito, mas Jungkook me soltou pouco
tempo depois. Quando olhei para ele, me perguntando por que ele se afastou,
percebi que ele olhava para um ponto acima do meu ombro, e então eu
finalmente lembrei.

Minha mãe.

A pequena redoma que minha mente criou naqueles instantes foi totalmente
destruída e eu, violentamente arrastado para a realidade outra vez, Quando olhei
para trás, vi o olhar de minha mãe, e ele parecia complexo demais para ser
descrito com uma única palavra.

Era surpresa, confusão e desconfiança, tudo mesclado em suas íris castanhas


que alternavam lentamente entre Jungkook e eu.
— O que é isso? — Ela perguntou, depois que o silêncio me sufocou por tempo
demais, e sua voz só reforçava tudo aquilo que estava em seus olhos.

Eu tentei me apressar em dizer alguma coisa, qualquer coisa, para que ela não
entendesse aquilo errado — ou, melhor dizendo, para que ela não tirasse a
conclusão correta — mas antes que eu me afastasse, o braço de Jungkook
segurou minha cintura.

Um gemido involuntário de dor escapou quando seus dedos me apertaram,


então ele pareceu lembrar do que quer que Kihyun tinha lhe dito no telefone e
afrouxou o aperto, mas manteve o braço ao meu redor.

Mas aquela pequena pontada de dor não foi nada comparada ao desespero que
senti quando ouvi sua voz sendo direcionada à minha mãe.

— Eu preciso conversar com a senhora. — Ele disse, com sua firmeza natural.

Eu ainda senti os olhos de minha mãe analisarem por tempo demais o braço de
Jungkook me segurando e, por mais incoerente que tenha sido, minha atitude foi
apertar ainda mais meu corpo contra o dele, buscando algum reconforto.

— Entrem. — Ela respondeu, simplesmente, antes de caminhar até a sala.

Antes de deixar Jungkook segui-la, eu virei meu rosto para ele, com os olhos
completamente arregalados.

— Jungkook...

— Vai ficar tudo bem, anjo. — Ele garantiu, com sua mão acariciando
suavemente minha cintura sobre o tecido grosso do meu casaco. — Dói muito?

— Um pouco... — Eu disse, sinceramente. — Kihyun te contou tudo?

Ele passou a língua entre os lábios num gesto rápido e irritado, mas eu sabia
que eu não era a causa de sua irritação.

— Sim. — Respondeu, depois de algum tempo, como se dizer isso lhe custasse
muito esforço. — Me deixe conversar com sua mãe, tudo bem? Você não precisa
ficar, se não quiser.
Eu neguei. Fosse lá o que Jungkook diria a ela, eu queria ouvir também.

— Só não diz pra ela... — Eu pedi, sem me preocupar em esconder a ansiedade


em minha voz ou meus olhos. — O que aconteceu comigo... não diz pra ela, por
favor.

Jungkook me guiou para dentro de casa. Ao fechar a porta, ele disse: — Eu não
vou fazer nada que te prejudique, meu bem.

Eu suspirei, um pouco aliviado, mas não tanto. Eu ainda estava assustado com
as possibilidades daquela conversa, e a cada segundo que passava parecia que
o nervosismo se tornava ainda mais intenso.

Quando estávamos os três na sala, eu sentado ao lado de Jungkook e minha


mãe nos olhando, ninguém se atreveu a falar por segundos de puro desconforto.

Tentando quebrar a tensão, ou tentando adiar o momento em que a conversa de


verdade começaria, eu virei para Jungkook.

— Você chegou agora em Nam-gu? Cadê suas coisas? Quer um pouco de água
ou...?

— Eu vim direto do escritório, não tive tempo de arrumar uma mala. Mas estou
bem, não se preocupe. — Jungkook disse, olhando para mim brevemente antes
de voltar a olhar para minha mãe.

Por mais que minha intenção fosse adiar a retomada da interação entre eles dois,
tudo que consegui foi acelerar esse momento, além de sentir algo como culpa e
felicidade ao perceber que Jungkook deixou Seul daquele jeito só por minha
causa.

— Por que você está aqui, Jeon? — Minha mãe perguntou, então,
aparentemente incentivada pelo fim do silêncio. Não existia grosseria no seu tom
de voz, mas a desconfiança a fazia soar um pouco rude.

Eu puxei as mangas do casaco para cobrir minhas mãos, enquanto meus punhos
se apertavam com força e eu quase podia ouvir meu coração bombear o sangue
freneticamente por meu corpo.
— Eu precisava ver o Jimin. — Ele disse, sem hesitar, olhando apenas para ela.

— Por que?

— Eu fiquei preocupado.

Minha mãe repetiu a pergunta, agora com um pouco mais de confusão. — Por
que?

Jungkook me olhou e eu neguei com um gesto fraco antes que ele voltasse a
olhar para ela,

— Eu preciso entender o que está acontecendo. Entender porque você tocou no


meu filho... daquele jeito. — Ela disse, ainda antes de deixá-lo responder. — Não
é apropriado tocar desse jeito em um garoto, Jeon.

Eu prendi a respiração, sentindo a tensão se tornar ainda mais sufocante, e


parecia que eu estava prestes a desmaiar de tanto nervoso.

— As pessoas podem entender errado e julgar o Jimin como algo que ele não é.
— Ela continuou, e havia algo estranho na forma como ela dizia aquilo. Não era
como se ela estivesse afirmando, era como se perguntasse, com medo de
descobrir a resposta.

— Mãe... — Eu a chamei, e minha voz falhou vergonhosamente, porque eu


definitivamente não estava pronto para passar por isso.

Mas sabendo que ela desconfiava, entre mentir e contar a verdade, eu preferia
contar a verdade.

— Eu...

Eu gosto de garotos?

Não. Se era para ser sincero, eu seria inteiramente verdadeiro com ela, sem
esconder nem mesmo o detalhe que mais me assustava naquilo tudo.
— Eu gosto do Jungkook.

Jungkook me olhou. Ela me olhou. Só existiam duas pessoas naquela sala, mas
eu sentia que o mundo inteiro estava prestando atenção em mim.

— C-como? — Ela questionou, parecendo ter sido pega de surpresa.

Acho que não foi o fato de eu gostar de Jungkook que a assustou, mas a minha
coragem repentina em dizer aquilo.

— Eu gosto muito do Jungkook, mãe. — Eu insisti, minha voz ainda totalmente


insegura, falhando como se eu estivesse a ponto de chorar de medo.

Ela passou a mão pela testa e uma risada frouxa escapou de sua garganta. —
Você não sabe o que está dizendo, Jimin... Por favor, Jeon, você é mais
maduro... coloque algum juízo na cabeça desse menino. Parece que ele está
confundindo algumas coisas.

Eu olhei para Jungkook, ainda mais ansioso por não saber o que esperar dele
naquele instante.

— Se Jimin confundiu algo, eu também o fiz. — Foi o que ele disse.

Sua voz calma fazia parecer que ele era o único inabalado por toda aquela
situação, mas a forma como ele travou o maxilar antes de prosseguir me fez
perceber que ele só era melhor em disfarçar.

— O que você quer dizer? — Minha mãe perguntou, tensa.

— Eu também gosto do seu filho.

Eu juro que minha visão ficou completamente enegrecida por alguns minutos, e
eu precisei de algum tempo até perceber que não ia desmaiar.

Minha mãe parece ter passado pelo mesmo que eu, mas, ao fim, ao invés de
sentir o corpo perder completamente as forças como aconteceu comigo, ela ficou de
pé e parou, nos olhando, antes de começar a andar de um lado para o outro.
Por todo esse tempo, tudo que nós ouvíamos era o som de seus passos pela
sala. Então ela parava, nos olhava, e voltava a andar.

— Mãe...? — Eu chamei, já preocupado.

Ao ouvir minha voz, ela finalmente parou e se sentou outra vez, passando as
mãos em seus cabelos lisos e curtos.

— Vocês querem me matar, é isso que vocês querem... — Ela disse, com o
corpo curvado.

Eu olhei para Jungkook, assustado, sentindo minhas mãos tremerem como


nunca antes enquanto minha respiração se tornava cada vez mais ruidosa.

Ser rejeitado por Taeil e Yuta foi doloroso, mas eu não suportaria ser rejeitado
por minha mãe também.

Então eu puxei o ar e o expulsei vezes seguidas, tão rápido que o oxigênio nem
mesmo realizava sua função em meu corpo. Meus olhos estavam ardendo, assim
como minha garganta e meu coração parecia queimar.

— Mãe, me desculpa, por favor — Eu pedi, apertando minhas mãos contra meu
rosto, desesperado com a certeza de que ela me condenaria. — Eu não queria
ser assim, me desculpa, me desculpa!

Eu ouvi alguém ofegar profundamente e tenho certeza de que foi ela, porque
logo depois eu senti seus braços magros apertando meus ombros quando ela se
sentou ao meu lado, me puxando para seu colo.

— Não, meu amor, por que você está se desculpando?

Meu corpo inteiro tremia, muito mais do que tremeu quando eu percebi o que
Taeil faria comigo naquele banheiro. Era uma sensação muito pior e muito mais
assustadora.

— Eu não estou decepcionada com você, Jimin — Ela disse, me abraçando com
mais força, mas eu era incapaz de tirar as mãos de cima do meu rosto. — Eu
nunca ficaria decepcionada com você por uma coisa como essa!

— Não? — Eu perguntei, ainda trêmulo.


— Claro que não! — Ela me apertou contra seu peito, ainda mais. — Você é o
maior orgulho da minha vida, meu amor, não importa se você gosta de homem,
mulher, dos dois ou de nenhum.

Minhas mãos pouco a pouco deslizaram, finalmente revelando meu rosto


completamente vermelho, e eu a olhei com tanta surpresa quanto adoração.

— Me desculpa se eu fiz você pensar que isso faria meu amor por você
diminuir. Nada nesse mundo vai me fazer te amar menos do que você merece
— Ela disse, secando as lágrimas em meu rosto. — Eu só tenho medo porque
as pessoas podem ser tão ruins, meu filho...

Eu sabia daquilo, Eu sabia tanto quanto qualquer outra pessoa que tinhapassado
pelo que eu passei, então o que eu fiz foi abraçar minha mãe, com força, porque
pelo menos naquele momento eu tinha certeza de que poderia encontrar ódio
em qualquer lugar do mundo, mas não ali, não com ela,

Eu ainda não sabia como meu pai reagiria ao descobrir. Nem sei se teria
coragem de contar tão cedo para ele, mas metade do peso em minhas costas já
tinha sido retirado de mim depois de ser aceito por minha mãe.

Então eu fiquei ali, sentindo o calor e a proteção do seu abraço, até que
finalmente me afastei e busquei Jungkook com meus olhos.

Ele sorria para nós dois, aquele sorriso tão bonito que eu sempre amei tanto.

Quando voltei a olhar para minha mãe, eu também sorria com tanta sinceridade
que nem mesmo era capaz de acreditar que horas antes eu tinha vivido o pior
momento em todos meus dezessete anos.

— Então... — Eu comecei, ansioso. — Eu posso ficar com o Jungkook?

Ela respirou fundo e seus olhos foram direto à imagem do homem do meu outro
lado.

— Você gosta mesmo dele? — Ela perguntou, para ele.

— Sim.
— Então o que eu posso fazer? — Ela suspirou e ficou de pé outra vez,
atordoada, mas conformada. — Eu preciso de um chá.

Antes que ela se afastasse, Jungkook ficou de pé e estendeu a mão para mim.

Sem entender o que ele queria, eu deixei que ele me ajudasse a levantar e
ofeguei um pouco surpreso quando ele colocou meu corpo à frente do seu, com
minhas costas coladas em seu peito e uma das mãos segurando a barra do meu
casaco.

— Eu realmente gosto de você, Jimin. — Ele reforçou, falando baixo contra


minha orelha, fazendo minha mãe nos olhar e apertar um pouco os olhos, tão
confusa quanto eu. — É por isso que não posso esconder o que fizeram com
você.

Eu arregalei os olhos ao entender o que ele faria, então segurei suas mãos e
olhei para ele sobre meu ombro, implorando com o olhar.

— Não mostra pra ela, por favor — Eu pedi, ainda envergonhado demais para
deixar que ela visse aquilo. — Eu juro que vou contar depois, mas por favor...
agora não...

Jungkook suspirou e eu respirei aliviado quando ele soltou a bainha do moletom.

Eu contaria. Eu com certeza contaria. Esconder não era mais meu objetivo, eu
só não queria falar sobre aquilo naquele momento. Não queria estragar as coisas
boas que eu estava sentindo.

Então depois de fazer mais um interrogatório, minha mãe finalmente nos liberou
e voltou para o escritório do hotel, alegando que tinha que aproveitar aquela dose
de adrenalina para fazer algo de produtivo.

Antes de ir, ela o convenceu a dormir ali em nossa casa e não em um dos quartos
do hotel, e eu a convenci, enquanto ele tomava banho. a deixá-lo dormir comigo,
em meu quarto, embora essa última parte tenha sido muito mais trabalhosa.

Então quando Jungkook saiu do banheiro, nós estávamos sozinhos em casa.


Ele entrou em meu quarto, vestindo só a calça do pijama que eu ganhei no meu
aniversário e que tinha, sim, ficado enorme em mim, e eu mesmo já estava
vestindo minhas roupas de dormir, esperando-o sentado na cama e abraçando
meu travesseiro quando ele passou pela porta com a pele ainda levemente
úmida pelo banho recém tomado.

— Eu não estou em condições de me esticar pra pegar o colchonete pra você,


então você vai ter que dormir comigo — Eu disse, apertando meus lábios com
um sorriso meio travesso quando ele fechou a porta e caminhou para colocar
suas roupas dobradas em minha escrivaninha.

Era a desculpa mais forçada do universo, e é claro que ele sabia disso, mas eu
não ouvi nenhuma reclamação de sua parte quando ele sentou ao meu lado na
minha cama.

Meu colchão não era de casal, mas era suficientemente grande para que
dormíssemos os dois ali, de qualquer forma. Não seria desconfortável.

— Amanhã eu vou precisar comprar algumas roupas. Ele disse, me puxando


para sentar sobre uma de suas pernas. — Você vem comigo?

Eu assenti, é claro, mas mesmo assim questionei, curioso: — Por que você tem
que comprar roupas?

— Eu não posso passar o fim de semana com você usando as mesmas que
estava usando hoje, posso?

Eu sinto que meu rosto inteiro se iluminou e que, naquela fração de tempo, eu
estava brilhando mais que o próprio sol.

— Você vai passar o fim de semana comigo? — Eu perguntei, ainda sem


acreditar.

— E nós vamos fazer tudo que você quiser, como eu prometi.

Eu mordi meu lábio, incapaz de conter toda a euforia quando joguei meus braços
ao redor do seu pescoço e o abracei, ainda sentado sobre sua perna. Jungkook
envolveu minha cintura também, com cuidado, parecendo não esquecer nem por
um segundo das manchas doloridas sobre minha pele.
— Tudo, tudo mesmo? — Eu perguntei, afastando meu rosto com um sorriso
travesso nos lábios.

— Tudo, meu anjo.

Eu ainda apertei um pouco meus lábios, ansioso, antes de me afastar apenas o


suficiente para sentar sobre ele novamente, dessa vez com meu peito tocando o
seu e uma perna de cada lado de seu corpo, com meus braços ainda enlaçando
seu pescoço.

— Então me beija.

Jungkook desceu as mãos até minhas coxas, apertando-as com mais cuidado
que da última vez e deixando aquele sorriso sacana aparecer

— Você costumava ser mais tímido. — Ele disse, não como uma reclamação.

— Eu não sou mais tão bobo quanto antes. — Rebati, blefando um pouco.

No fundo, no fundo, eu era tão inexperiente quanto era da última vez que nos
vimos, mas meus conhecimentos teóricos realmente tinham aumentado graças
a Yukwon.

— Não? — Jungkook perguntou, deslizando suas mãos para cima outra vez,
serpenteando seus dedos longos e frios por baixo da minha blusa de moletom.

Meu lábio ainda estava sendo repuxado pelos meus dentes quando eu balancei
a cabeça devagar para os lados, negando.

— Meu Jimin cresceu? — Ele insistiu, me fazendo suspirar arrastado quando ele
beijou meu pescoço lentamente depois de me chamar daquela forma. — É isso?

Jungkook mal tinha me tocado e eu já estava prendendo a respiração, sentindo


todo meu corpo responder à aproximação do seu. Naquela altura, eu não tinha
mais receio de tocá-lo, então não impedi minhas mãos quando elas desceram
por seus ombros largos, depois por seus braços, sentindo deliciosamente seus
músculos firmes antes de subir todo o caminho por seu abdômen até chegar em
seu peitoral.
Meus dedos tocaram levemente a cabeça da serpente marcada em sua pele
antes que eu deslizasse minhas unhas curtas por ali, olhando para ele
novamente quando respondi.

— Seu Jimin cresceu. — Eu disse, voltando minhas mãos para seus ombros e o
apertando com necessidade. — E ele precisa muito ser tocado por você.

Jungkook beijou meu pescoço outra vez, ainda mais lentamente que da primeira,
e eu senti seu sorriso contra minha pele antes que ele subisse, beijando todo o
caminho até meu queixo, me fazendo deixar a cabeça tombar para trás
involuntariamente.

Seus toques estavam leves, cuidadosos, diferentes da primeira vez que ele me
beijou, E mesmo que aquilo já deixasse meu corpo em chamas, eu queria sentir
aquilo de novo. Queria suas mãos marcando minha pele, sua boca domando a
minha.

— Não precisa ter cuidado... — Eu quase sussurrei, gemendo baixo quando


senti sua língua me tocar num ponto logo abaixo do meu pomo de adão antes
que ele chupasse minha pele suavemente. — Me faz esquecer o que ele fez
comigo... eu só quero sentir a sua dor, Jungkook..

Em resposta, sua língua voltou a deslizar por minha garganta, pressionando-a


com menos cuidado.

— Porra... — Ele rosnou, ainda contra minha pele, antes de subir com sua boca
e morder meu maxilar, me fazendo suspirar em deleite.

Logo depois ele afastou seu rosto do meu, uma de suas mãos subiu até a parte
de trás de minha cabeça e eu vi seus olhos escuros brilhando enquanto ele
olhava para mim, respirando pesadamente.

— Me beija, por favor... — Eu insisti, já sentindo meu membro fisgar dentro de


minha calça.

Jungkook passou a língua por meu lábio inferior, depois o chupou de forma
demorada com sua boca avermelhada, soltando-o lentamente.

Então ele afastou seu rosto do meu.


Mas antes que eu pudesse me lamentar por isso, ele voltou a segurar meu
quadril com força e se levantou apenas para que voltássemos para a cama,
dessa vez com minhas costas apoiadas no colchão e seu corpo sobre o meu.

Minhas pernas ainda abraçavam seu quadril quando ele investiu devagar contra
minha barriga, me fazendo gemer mais alto ao sentir sua ereção pressionada
contra meu corpo.

— Olha o que você faz comigo, meu anjo — Ele disse, com uma de suas mãos
segurando minha perna esquerda e a outra apoiada ao lado da minha cabeça
para sustentar seu peso sobre mim, sem machucar o que já estava dolorido.

Eu empurrei minha cabeça contra o travesseiro e arqueei minhas costas,


buscando mais daquele contato, sentindo ele mover seu membro duro sobre
minha barriga daquele jeito lento.

Desesperado, eu tentei puxá-lo para mais perto com meus braços ainda
abraçando seus ombros, mas ele resistiu com aquele sorriso atravessado no
canto dos lábios.

— Por favor, Jungkook, por favor! — Eu implorei, nem sabia mais pelo quê. Eu
só queria mais dele, desesperadamente.

Ele manteve seu membro pressionado contra mim quando cedeu, aproximando
seu corpo até seu peito tocar o meu.

— Você fica tão lindo quando implora por mim... — Ele disse, roçando sua boca
em minha bochecha, me torturando ainda mais.

Completamente desesperado, eu virei meu rosto, tentando fazer minha boca


encontrar a sua, mas ele recuou por um segundo, só para voltar logo depois,
mostrando que o controle ainda era dele.

Então ele selou meus lábios e eu suspirei contra sua boca antes que ele
deslizasse sua língua até encontrar a minha, pressionando nossas bocas juntas
antes de morder meu lábio superior, arrastando-o entre seus dentes.

Eu gemi, extasiado, e ele logo voltou a me beijar, chupar e morder, me deixando


completamente perdido de tesão quando sua mão serpenteou para
baixo do meu corpo, deslizou para dentro da minha calça e apertou minha bunda
com força.

Ao sentir sua mão tocando diretamente minha carne, eu empurrei meu quadril
para cima, ainda mais tomado pelo desespero, e voltei a gemer livremente
quando ele deixou minha boca e voltou a beijar meu pescoço.

Era insana a forma como ele lambia e depois chupava minha pele, descendo
cada vez mais, sem esquecer de nenhum pedaço.

Então ele soltou minha nádega e passou sua mão para minha barriga, puxando
minha blusa de moletom para cima. Ele viu, pela primeira vez, as marcas que
Taeil deixou em mim, e eu percebi a forma como ele parou, observando com os
olhos irritados os hematomas.

— Jungkook... — Eu o chamei, com a respiração ainda atrapalhada,


envergonhado por deixar ele me ver naquele estado.

Então ele olhou para mim e, sem dizer nada, puxou o moletom ainda mais para
cima, para logo depois beijar as manchas espalhadas sobre meu abdômen e
costelas.

Jungkook beijou cada uma delas, descendo cada vez mais até encontrar o
elástico da minha calça.

Ele passou a língua pela linha abaixo do meu umbigo e continuou me beijando
naquela região, me fazendo contrair a barriga e gemer baixo com a provocação.
Então sua mão foi até ali e puxou o elástico para baixo, minimamente, só para
brincar com meu controle.

Jungkook sorriu quando me viu completamente necessitado e todo o ar fugiu de


mim quando ele deslizou a mão para dentro da minha calça e sua palma apertou
meu membro duro e úmido ainda sobre a cueca.

Ele continuou me apertando, subindo e descendo sua mão enquanto começava


a me masturbar lentamente e sua boca continuava beijando minha barriga sem
pudor algum.
Depois de me provocar desse jeito, me fazendo gemer arrastado e incontido a
cada vez que ele me pressionava mais, Jungkook me tocou por baixo da cueca,
me fazendo sentir sua palma áspera em contato direto com meu membro que já
gotejava de tanto tesão.

Eu estoquei contra sua mão, cobrindo meus olhos com as mãos escondidas
pelas mangas compridas do moletom, envergonhado por já estar tão perto de
gozar.

Mas eu não tinha culpa. Não quando Jungkook me apertava, pressionando seu
polegar contra minha glande inchada antes de voltar a me estimular no ritmo
certo, com sua boca chupando a pele sensível e já úmida de saliva logo acima
da minha virilha.

Então meu corpo todo esquentou e eu gemi ainda mais, sentindo que estava
cada vez mais perto do melhor orgasmo da minha vida.

Mas então ele parou de me masturbar e me olhou, com os olhos escuros e


maldosos, antes de puxar minha calça e minha cueca para baixo, fazendo meu
membro ficar completamente exposto, com as veias inchadas e a glande
vermelha e úmida pelo pré-gozo.

Eu estava pronto para implorar que ele não parasse ali, mas não foi preciso,
porque logo depois Jungkook parou de beijar minha barriga e desceu com sua
boca. Ele lambeu a glande inchada e sensível, e eu enterrei meu corpo ainda
mais no colchão, cobrindo os olhos outra vez, envergonhado pelo gemido agudo
que deixei escapar.

Jungkook estava entre minhas pernas, minha calça abaixada e minha blusa
levantada até meu peitoral.

Ele parou por um momento e quando olhei para ele, percebi que ele parecia
admirar a forma como eu estava exposto naquele momento. Isso me encheu
ainda mais de tesão e eu senti que ia gozar só pela forma como ele me olhava.

Então eu não perdi mais nenhum momento, por mais que a vergonha me fizesse
querer desviar o olhar, eu me mantive completamente atento à forma
como Jungkook aproximou sua boca de meu membro outra vez, lambendo-o da
base até a cabeça antes de engoli-lo completamente.

Eu não era grande, sempre soube disso, então ele não teve dificuldade alguma
em me chupar por inteiro.

Minha mente estava completamente perdida, meus gemidos cada vez mais
intensos e sua boca habilidosa subia e descia, alternando com algumas
chupadas lentas para que eu não gozasse tão rápido.

Mas então meu corpo inteiro voltou a esquentar, como se fogo corresse por
minhas veias. Eu contrai todos os meus músculos, sem a intenção de fazê-lo,
perdi a voz e senti meu peito subir e descer violenta e rapidamente, como se eu
estivesse prestes a entrar em combustão.

E eu gozei, tão forte quanto nunca antes, gemendo até o último instante em que
Jungkook me chupou e finalmente soltou meu membro, já mole, com aquele
sorriso que tirava completamente meu juízo.

Ele então puxou minha calça e a cueca para cima e beijou toda a linha no centro
da minha barriga até chegar em minha blusa e puxa-la para baixo, me cobrindo
totalmente enquanto eu ainda estava com a mente presa àquele orgasmo
incrível.

Então eu entendi o que Yukwon quis dizer uma vez quando me falou que uma
pessoa não merece ser parabenizada no seu aniversário. Não, ninguém merece
receber parabéns só por completar mais um ano de vida. Quem mereceparabéns
é quem faz uma pessoa sentir o próprio corpo explodir de tanto prazer.

Então eu olhei para Jungkook, ainda sem conseguir respirar direito, mas sorrindo
como nunca antes na vida.

— Jungkook... — Eu o chamei, totalmente atrapalhado. Então disse, com aquele


sorriso persistente: - Parabéns.
13 • Cloud Nine

A casa estava em silêncio e, naquele momento, eu só agradeci por minha mãe


ser tão atrapalhada e bagunçar todos os arquivos do hotel. Pelo menos assim
eu ficaria sozinho com Jungkook, e eu sei que ele não faria nada do que fez no
meu quarto caso ela estivesse por perto.

Jungkook tinha se deitado comigo, nossos corpos de lado sobre a cama


espaçosa, virados um para o outro e minha cabeça apoiada em seu braço. Com
sua mão livre, ele continuava fazendo carinho em minhas costelas doloridas por
debaixo do meu moletom.

Ele me olhava com um sorriso pequeno enquanto eu tentava conter um enorme,


mas sempre falhava e deixava uma risada escapar antes de morder meu lábio
outra vez para me controlar. Quando eu fiz isso acho que pela quarta vez,
deixando um ruído alegre fugir por minha garganta, Jungkook dobrou o braço
que estava sob minha cabeça, forçando-a a deslizar mais na direção do seu
corpo até que estivesse quase em seu ombro e meu rosto bem pertinho do seu.

Aproveitando a proximidade, eu subi minha mãozinha até tocar em sua bochecha


com as pontas dos dedos, ainda um pouco tímido, e desenhei toda a linha bem
definida do seu maxilar até parar no seu queixo.

Jungkook piscou devagar enquanto sentia meu toque, também sem parar de me
acariciar com a mão embaixo da minha blusa

— Eu ainda não acredito que você realmente tá aqui — Eu disse, baixinho,


depois de admirar cada detalhe do seu rosto tão perto do meu.

Sua respiração quente me alcançou logo antes que ele se aproximasse ainda
mais. Jungkook me beijou devagar e com carinho antes de se afastar de novo.
Ainda com sua boca perto da minha, meus pelinhos eriçados pelo beijo e seus
dedos sobre um dos lugares machucados em minhas costelas, ele disse: — Eu
quero saber o nome dele.

Eu já reconhecia aquele tom. Dessa vez era especialmente cuidadoso, quase


como se Jungkook estivesse tentando me fazer acreditar que era apenas um
pedido, mesmo que eu já soubesse que era uma ordem muito clara.

Sem saber quais as consequências que isso levaria para quem um dia eu
realmente acreditei ser meu amigo, eu respondi,

— Moon Taeil.

Jungkook soltou o ar devagar, parecendo controlar alguma raiva quando eu


apertei meus olhos, afetado pelo incômodo de seus dedos tocando um lugar
especialmente machucado.

— Você não vai mais precisar se preocupar com ele. — Ele disse,
simplesmente.

Eu o olhei sob meus cílios, apertando um pouco meus lábios ao ouvir sua
entonação.

— Você não vai matar ele não, né? — Eu perguntei, encolhendo meus ombros
quando percebi o quanto aquela preocupação soou ridícula ao ser colocada em
voz alta.

Em resposta Jungkook riu, e o som de sua risada era tão gostoso que eu nem
me importava mais em estar sempre dizendo coisas estúpidas que acabavam
provocando essa reação.

— Só se você quiser, anjo.

Eu balancei a cabeça para os lados quando comecei a rir também, negando sua
sugestão. Eu não queria que Taeil morresse, apesar de estar um pouco satisfeito
com a forma como Jungkook me fez acreditar que algo realmente aconteceria
com ele.
Não estava contente por achar que ele merecia, até porque eu ainda estava
muito mais magoado que irritado, mas sim por ver que Jungkook estava disposto
a não deixar aquilo acontecer de novo.

Ele então segurou minha mão que ainda estava em seu queixo e a puxou com
cuidado até sua boca para dar um beijo em minha palma, depois beijou minha
testa e por último me puxou ainda mais para perto, até fazer meu nariz encostar
em seu peitoral exposto.

Eu suspirei com a proximidade e com o cheiro fresquinho de sua pele logo depois
do banho, mas resmunguei baixinho quando ele tirou sua mão de debaixo do
meu moletom e arrumou o edredom pra me proteger melhor.

— Boa noite, meu bem.

Mesmo sem querer dormir, meus olhos já estavam pesados e minha mente pedia
ainda mais descanso que meu corpo, então eu deslizei a ponta do meu nariz em
seu peitoral antes de beijar o lugar onde estava sua tatuagem, numa tentativa
meio desastrada de retribuir seu carinho e cuidado.

— Boa noite, Jungkook.

Depois, pouco a pouco o sono e a fadiga me arrastaram para um sono


confortável, apesar da dor e da confusão que o dia trouxe, e eu só acordei horas
mais tarde quando o efeito dos primeiros anestésicos começou a desaparecer e
o incômodo se tornou mais intenso outra vez.

Eu me remexi na cama, desconfortável e me controlando para não choramingar,


quando abri meus olhos e vi o rosto de Jungkook ainda bem perto do meu.

Mesmo com a dor, eu sorri um pouco ao ver como ele parecia diferente dormindo
com o rosto sereno, as pálpebras sonolentas e suavemente fechadas e sua
respiração lenta, Era como um homem totalmente diferente daquele sempre tão
intenso, mas tão encantador quanto.
Então eu perdi mais algum tempo admirando-o, sorrindo bobo enquanto velava
seu sono e me sentindo o garoto mais sortudo do mundo inteiro por poder vê-lo
daquele jeito, tão exposto e vulnerável.

Mas quando a dor começou a se tornar ainda mais forte, eu deixei seu abraço
com cuidado e insatisfação, fechei a cortina pra que a luz do sol não o
incomodasse à medida que fosse se tornando mais intensa e me arrisquei a dar
um beijinho em sua bochecha antes de sair do quarto, caminhando devagar em
direção à cozinha com um dos comprimidos nas mãos.

Depois de tomar mais um anestésico, mesmo sabendo que ainda estava muito
cedo e que eu poderia voltar a me aconchegar em Jungkook - e, na verdade,
querendo muito fazer isso , eu fiquei por ali e comecei a preparar o café da manhã
logo depois de enviar uma mensagem para Yukwon pedindo que ele pegasse
algumas roupas na loja de sua irmã e levasse pra minha casa.

Nossa família tinha cedido à praticidade ocidental, já que ninguém tinha muita
paciência pra cozinhar logo cedo, então muitas vezes nos comíamos torradas
com ovos mexidos ou qualquer coisa tão fácil de preparar quanto isso. Mas como
eu já sabia que Jungkook gostava de refeições mais tradicionais, eu revirei toda
a geladeira e os armários para pegar tudo que precisava pra fazer uma sopa de
broto de feijão e alguns acompanhamentos para servir com o arroz.

Depois de cozinhar tudo, sempre fazendo pausas para descansar um pouco e


ver se Yukwon já tinha acordado para me responder, eu comecei a arrumar a
mesa, mas parei quando senti aqueles braços fortes e o corpo grande me
abraçando por trás.

— Você deveria estar descansando, meu anjo. — Jungkook disse, com a voz
ainda rouca de sono, e toda aquela proximidade repentina fez meus pelinhos
eriçarem.

— Eu só vim fazer nosso café... — Eu disse, me controlando para não suspirar


alto demais com seu abraço.

— Deveria ter me chamado.


Eu neguei, arrumando a última tigela de arroz sobre a mesa. — Você sempre
dorme muito pouco. Eu quis te deixar descansar...

Jungkook beijou meu pescoço, ainda me abraçando com cuidado. — Prefiro ficar
acordado com você, meu bem.

Antes que eu me derretesse todinho com sua resposta e com seu tom de voz
mais grave que o normal, nós ouvimos minha mãe saindo do quarto e então ele
se afastou sem pressa, parando ao meu lado. Eu o olhei só para me certificar
que ele tinha vestido a parte de cima do pijama também, porque minha mãe
provavelmente teria uma síncope se o visse com o tronco exposto em nossa
cozinha e descobrisse que Jungkook tinha uma tatuagem daquele tamanho.

— Bom dia, príncipe — Ela disse, ainda sonolenta, quando caminhou direto até
a geladeira para beber um pouco de água.

Eu quis morrer pelo apelido que ela usou e também por ter praticamente
ignorado a presença de Jungkook ali, mas o que verdadeiramente me fez querer
cavar um buraco no chão foi olhar para o lado e ver a forma como ele falhava
em esconder um sorriso.

— Ai, que susto, meu deus! — Ela quase virou e percebeu que não éramos só
eu e ela na cozinha. — Eu esqueci que Jeon estava aqui!

— Bom dia, senhora Park. Obrigado por me deixar passar a noite aqui. —
Jungkook disse educadamente, como se não fosse minha mãe quem tivesse
insistido para que ele dormisse em casa.

— Bom dia. — Ela cumprimentou de volta, sorridente, depois de se recompor e


finalmente olhar para a mesa posta. — Se o Jimin for cozinhar assim sempre que
você dormir aqui, pode vir todos os dias. — Ela comentou, meio brincalhona,
mas principalmente impressionada.

Eu me encolhi, um pouco envergonhado, e segurei o braço de Jungkook,


puxando-devagar até uma das cadeiras para que ele se sentasse ao meu lado.

Quando minha mãe também sentou, com o cabelo ainda um pouco bagunçado
e um roupão mal amarrado sobre seu pijama, nós começamos a comer. Antes
de levar a primeira porção à boca, entretanto, eu esperei ansioso a reação de
Jungkook ao provar a primeira refeição que eu fiz pra ele, e só depois de ver seu
pequeno sorriso de aprovação é que eu finalmente comecei a comer, orgulhoso
com o resultado.

Depois de acabarmos e de sermos fuzilados por mais perguntas vergonhosas da


minha mãe, ele me fez esperar sentado enquanto insistia em ajudar a recolher
os pratos e a lavar toda a louça. Eu fiquei observando aquilo, completamente
hipnotizado por ter Jungkook em minha cozinha, conversando com minha mãe,
depois de passar a noite comigo.

Não fosse por Yukwon finalmente respondendo minha mensagem, eu


provavelmente continuaria olhando para eles dois, sorrindo como um bobo.
Quando a cozinha já estava toda arrumada, minha mãe nos deixou sozinhos e
foi se arrumar, porque logo depois ia sair para comprar um presente para um dos
funcionários do hotel que faria aniversário naquele mês.

Enquanto isso, sabendo que Yukwon demoraria um pouco pra chegar com as
roupas para Jungkook, eu pedi que ele esperasse em meu quarto e fui o primeiro
a me arrumar.

Por muito tempo eu me classificaria como o oposto de vaidoso, mas algumas


coisas tinham mudado desde que eu o conheci e meu cuidado para escolher
roupas era uma delas. As novas calças no meu armário eram quase todas
apertadas e eu escolhi a mais bonita para usar com meu casaco favorito.

Quando saí do banheiro já pronto e algum tempo depois de Jungkook ir tomar


seu banho, minha mãe saiu e Yukwon chegou, encontrando-a ainda na porta de
casa.

— Toma. — Ele me estendeu a sacola de roupas da loja de sua irmã quando


entrou, tirando os sapatos e já caminhando para se jogar no sofá. — Pra que
você pediu isso? Essas roupas são umas dez vezes maiores que o seu tamanho.
Tá achando que vai crescer, é?

Eu revirei os olhos, batendo em suas pernas para que ele me desse espaço pra
sentar ao seu lado.

— Não são pra mim. — Eu disse, tirando as peças de dentro da sacola para
poder ver. Depois eu passo lá na loja dela pra pagar, tá?

— Mas vai mesmo, nem pense em dar calote naquele demônio, ela te esfola
vivo. — Ele disse, abraçando preguiçosamente uma das almofadas, não muito
interessado em descobrir para quem eram as roupas.

Eu sorri meio travesso, sabendo que ele surtaria ao descobrir que Jungkook
estava ali, e então devolvi o casaco de lã branca, a calça jeans de lavagem clara
e a cueca à sacola quando ouvi o som do registro do chuveiro sendo fechado.
— Tá melhor? — Yukwon perguntou, disputando o espaço sobre minhas coxas
para apoiar os pés enquanto mexia no celular. — Jeonghan disse que você
passou mal ontem

— Tô sim. — Eu sorri meio frouxo, sem qualquer pretensão de contar a verdade


sobre o que tinha acontecido.

Ele balançou a cabeça e acho que falaria mais alguma coisa, mas se calou
quando Jungkook finalmente saiu do banheiro, enrolado numa toalha. Yukwon
olhou para ele, a princípio com o desinteresse usual, mas logo depois seus olhos
se abriram em choque quando ele viu a tatuagem exposta, e então saltou do
sofá, eufórico, quase tropeçando no próprio pé quando levantou.

— O macho da tatuagem tá aqui?

Eu dei um tapinha em seu ombro para ele se controlar e me aproximei de


Jungkook, entregando a ele as roupas e tentando ignorar o calor em minhas
bochechas e em outra parte do meu corpo por vê-lo enrolado só numa toalha.

— Você pode vestir essas — Eu disse quando ele pegou a sacola de minha mão,
olhando para Yukwon por cima do meu ombro. — Ah, ele é aquele meu amigo,
o Yukwon... — Expliquei, torcendo para que não fosse um problema ter deixado
ele ver Jungkook ali.

Jungkook assentiu, descendo seu olhar até encontrar o meu, ainda sério. - Venha
no quarto comigo.

Eu engoli em seco, meio desesperado, e meu corpo quase virou uma papa
nojenta derretida no chão quando eu o segui até meu quarto depois de gesticular
para que Yukwon esperasse.

Quer dizer, eu achei que podia relaxar depois de minha mãe ter permitido que
eu me envolvesse com Jungkook, mas ainda tinha todo o problema com minha
idade e talvez ele achasse melhor que outras pessoas não soubessem.

— Fiz besteira? — Perguntei, meio acuado contra a porta.

Jungkook não disse nada enquanto vestia a cueca, sem tirar a toalha. Depois,
ele a desenrolou de sua cintura para vestir o jeans, parecendo não ter pressa
nenhuma para fazê-lo, menos ainda para me responder, mas meu coração deu
uma guinada antes mesmo que ele dissesse a primeira palavra, porque eu o vi
pegar o cinto que estava junto com suas roupas na minha escrivaninha. Depois
ele caminhou devagar em minha direção, ainda segurando-o em suas mãos, e
parou bem em minha frente.

Quando eu achei que algo aconteceria, Jungkook começou a deslizar o cinto


pelos passadores do jeans e um sorriso pequeno apareceu no canto de sua boca.

— Você sempre fica tão assustado, meu anjo. — Ele disse, com um
inconfundível tom de provocação.

Meus olhos ainda arregalados acompanharam todo o processo até que o cinto
estivesse preso em sua calça e afivelado, mesmo que Jungkook tivesse feito
tudo isso devagar.

Então eu levantei meus olhos, encontrando sua expressão ainda divertida, e ele
finalmente explicou. — Eu só queria pedir seu desodorante.

Eu não sei se o suspiro que deixei escapar foi de alívio ou decepção, mas de
uma coisa eu tinha absoluta certeza. Jungkook só estava me provocando.

Pelo menos ele não estava irritado comigo, o que era bom, mas o lado ruim era
que, mais uma vez, eu teria que recorrer à minha imaginação para saber o que
Jungkook poderia fazer comigo quando tinha aquele cinto nas mãos.

Desde nosso primeiro encontro, quando ele me pegou espiando-o em seu


quarto, eu tinha essa estranha obsessão pelo objeto de couro, e não foi só uma
vez que eu revisitei essa lembrança para me aliviar sozinho em algumas noites.

— O que você vai querer fazer hoje? — Ele perguntou, casualmente, se


afastando enquanto eu ainda tentava recuperar o ritmo da minha frequência
cardíaca.

Tentando não demonstrar tanto o quanto aqueles gestos tão pequenos tinham
me desestabilizado, eu pigarreei e caminhei até meu armário, peguei meu
desodorante e entreguei a ele.
— Você ainda vai precisar de mais roupas, né? — Respondi, logo dando as
costas para pegar uma mochila vazia para guardar minha carteira, dois
cachecóis pro caso de esfriar muito quando estivéssemos fora e meu celular.
— A gente pode ir comprar logo.

— Tudo bem. E depois?

Eu segurei minha mochila, voltando a olhar para ele, e vi que ele já tinha vestido
o casaco de la branca.

Jungkook ficou tão bonito e diferente usando roupas mais simples e claras que
eu quase perdi o foco outra vez, precisando balançar minha cabeça para os
lados quando fiquei admirando-o por tempo demais.

— Nós vamos no family land. — Respondi, finalmente, colocando minha mochila


em minhas costas, mas falar como se eu estivesse tomando a decisão sozinho
era estranho com ele, então eu apertei um pouco meus ombros — Tudo bem?

Era claro que Jungkook não sabia o que era o family land, mas ele não se
preocupou em perguntar.

— Eu disse que vamos fazer tudo que você quiser, anjo.

Eu assenti, mas não me movi, e demorei um pouco até decidir se eu queria


mesmo dizer aquilo.

— Vou ver se Yukwon quer ir com a gente... — Anunciei, enfim, ainda um pouco
incerto.

Eu estava sempre falando de Jungkook para Yukwon e vice-versa e os dois eram


muito importantes pra mim, então eu realmente queria que eles se conhecessem,
mesmo sabendo o risco que estava correndo ao deixar o linguarudo do meu
amigo perto de Jun.

— Certo, meu bem.

Enquanto Jungkook terminava de se arrumar, então, eu fui até o banheiro e


peguei nossas escovas de dentes para levar na mochila, porque passaríamos
todo o dia fora. Depois finalmente encontrarmos Yukwon na sala, então eu o
convidei para ir com a gente até o family land depois de fazermos algumas
compras. É claro que ele aceitou, porque estava escrito em sua testa o quanto
ele queria me fazer passar vergonha, e por último saímos de minha casa e
seguimos até uma das ruas comerciais que ficavam ali perto.

Durante o caminho, Yukwon não parava de olhar para Jungkook, e então ele
virava para mim só pra dizer, de forma muda, o quanto ele era gostoso.

Eu revirava os olhos a cada vez que ele o fazia, mas era impossível discordar,
então eu só ignorava e tentava fazer os dois interagirem, e isso até que funcionou
bem apesar das personalidades tão opostas.

Jungkook era elegante até quando não pretendia ser, e Yukwon... Yukwon era
Yukwon.

E apesar de ter algum receio inicial, porque tudo em meu amigo era excêntrico,
até mesmo sua aparência, eu suspirei aliviado ao ver que Jungkook não parecia
disposto a julgá-lo nem quando percebeu suas unhas pintadas com o esmalte
preto já craquelado.

Quando chegamos à loja, então, Yukwon se separou e disse que nos esperaria
no pequeno café que tinha logo à frente.

Jungkook não demorou em escolher as peças que precisava e levá-las para o


provador enquanto eu o esperava do lado de fora, caminhando diante da parede
cheia de acessórios femininos e alguns poucos masculinos.

Apesar de nunca ter me interessado por esse tipo de coisa, eu passei algum
tempo parado na frente de um dos expositores observando uma gargantilha de
camurça com uma argolinha prateada no centro, presa ao manequim de joias.
Era tão delicada e ao mesmo tempo chamava tanta atenção que, por um
momento, eu quis muito experimentar, mas tentei me livrar da vontade porque,
afinal, era uma peça feminina.

— Você gostou? — A voz inconfundível de Jungkook me fez ter um pequeno


sobressalto, e eu neguei, envergonhado, quando o vi ao meu lado.
— É de mulher. — Eu disse.

— Isso não importa, anjo.

Eu segurei seu braço, um pouco atrapalhado, tentando impedi-lo quando ele tirou
a peça do expositor. Depois ele parou atrás de mim e envolveu meu pescoço
com a faixa de camurça, prendendo o pequeno fecho em minha nuca antes de
descer suas mãos até meus ombros e me virar um pouco para o lado, para que
eu pudesse me ver no espelho.

Depois de ver meu reflexo por algum tempo, eu levei minha mão até a argola
pequena presa à peça, e mordi meu lábio antes de suspirar, deslizando meus
dedos até a parte de trás para soltar o fecho. Eu tinha gostado, realmente achei
bonito, mas não queria que Jungkook me achasse estranho por querer usar algo
tão feminino.

— Você ainda não me respondeu. — Ele disse, colocando sua mão sobre a
minha antes que eu soltasse a gargantilha. — Você gostou?

Eu relutei um pouco antes de erguer meus ombros timidamente, numa resposta


ainda esquiva demais.

Jungkook então manteve uma de suas mãos em meu ombro e com a outra
desceu por minhas costas até segurar minha cintura e colar meu corpo ao seu.
Ele aproximou o rosto, fazendo sua bochecha tocar suavemente a lateral do topo
da minha cabeça enquanto seus olhos me observavam pelo espelho diante de
nós.

Eu senti meu estômago revirar com a forma que ele estava me tocando e como
seus olhos escuros não perdiam a intensidade nem mesmo no reflexo, forçando
minha respiração a se tornar mais lenta e cuidadosa, porque eu não queria ser
brusco e arruinar aquele momento.

— Me faz pensar em outra coisa que quero colocar aqui. — Jungkook quase
sussurrou com sua voz grave, subindo sua mão por meu ombro até alcançar meu
pescoço, e então seus dedos correram por minha pele até que sua palma
cobrisse a faixa de camurça.
Quando ele apertou um pouco mais, fazendo sentir meu pomo de adão
pressionado, eu senti o ar escapar por meus lábios e vi Jungkook umedecer os
seus. No instante seguinte, ele afastou seu corpo e suas mãos de mim, me
fazendo sentir falta de seu toque imediatamente.

— Eu vou levar. — Ele disse, e não sei se foi coisa de minha cabeça, mas sua
respiração parecia tão pesada quanto a minha.

E ele realmente levou. Quando pagou por suas roupas, ele pagou também pela
gargantilha, e eu sai da loja ao seu lado, usando-a e tocando-a, sempre me
perguntando como Jungkook conseguia me desestabilizar com tão pouco todas
as vezes.

Nós éramos tão diferentes em todas as formas que isso possa ser avaliado, e
ainda assim parecia que aquilo era tão natural, mas não era algo como opostos
se atraindo. Nossas diferenças se encaixavam tão bem. Era como se eu. Park
Jimin, tivesse sido perfeitamente moldado para Jeon Jungkook. E eu sentia que
ele tinha sido moldado para mim também.

Mas aquilo era perigoso, porque não eram apenas nossas personalidades que
se entendiam. Nossos corpos também. Cada pequeno toque parecia despertar
algo ainda maior, como se estivéssemos sempre prestes a pegar fogo, e isso era
difícil de controlar a ponto de se tornar doloroso quando nos afastávamos.

— Eu chamei o Jeonghan pra ir com a gente, não vou ficar de vela pra casal,
não. — Yukwon disse, quando nos juntamos a ele na mesa do café, ainda
calados.

A tensão ainda era grande, palpável, até, e eu apenas concordei distraidamente


com o seu aviso.

Então meu amigo uniu as sobrancelhas, parecendo perceber aquilo que nos
rodeava com o silêncio persistente, meus olhos dispersos e a postura tensa de
Jungkook.

— Pelo amor de deus, vão transar.


Eu deixei um som desastrado escapar por minha garganta e Jungkook ficou de
pé, imediatamente.

— Vou comprar uma água. Quer que eu traga alguma coisa pra você, meu bem?

Eu balancei minha cabeça, ainda sem jeito. — Pode ser uma água também.

Quando ele começou a se afastar em direção ao balcão, Yukwon acompanhou-


o com o olhar antes de voltar a olhar para mim com os cantos dos lábios sujos
de chocolate quente e retorcidos num de seus sorrisos maliciosos. Ele então
cruzou os braços, sentado desleixadamente sobre sua cadeira.

— Se eu acender meu isqueiro, essa porra toda explode porque vocês estão a
isso aqui - Ele levantou só uma das mãos, aproximando o indicador do polegar.
— de pegar fogo. Vocês não iam só comprar umas roupas? Que merda foi que
aconteceu?

Eu passei a mão por minha testa, fechando meus olhos quando suspirei.

— Ele tocou meu pescoço. Ele literalmente só tocou meu pescoço, Yukwon! —
Eu puxei meu casaco, incomodado com a temperatura. — Por que esse lugar
parece tão quente? A gente não tá no inverno?

Yukwon riu alto e exagerado, como sempre. — Olhar pra vocês me deu tesão.
— - Ele disse, completamente casual. — Aliás, gostei da gostei da coleira nova,
ficou bem em você.

Eu não fiz nada além de suspirar acho que pela vigésima vez no dia, e agradeci
por Yukwon não insistir no assunto quando Jungkook voltou para a mesa e me
entregou uma das garrafas de água.

— Jeonghan já tá vindo? — Eu perguntei, porque o silêncio estava me


sufocando.

— Acordou agora, aquele preguiçoso do caralho. Quando ele chegar já vai ser
quase hora do almoço, então é melhor a gente comer antes de ir pro family.

— Tá.
— Então, Jungkook — Yukwon virou para ele, apoiando o queixo sobre a palma
da mão e tamborilando as pontas dos dedos na própria bochecha. — Posso
continuar te chamando de Jungkook? O Jimin é meio sem noção e é informal
com todo mundo, mas eu sou um moço educado, então prefiro perguntar antes.

— Nossa, que cara de pau! — Eu resmunguei, incrédulo, porque Yukwon era mil
vezes pior que eu. Então ele esticou a mão livre e começou a esfregar minha
cara, só pra irritar enquanto eu resmungava, tentando empurrar seu braço.

— Pode chamar de Jungkook. — Ele respondeu, ignorando nossa pequena


briga infantil.

— Certo. Vamos ter uma conversa, Jungkook. — Yukwon afastou sua mão de
meu rosto, finalmente.- Será que você não pode ser um pouco mais rápido e
foder logo o Jimin?

Eu quase cuspi toda a minha água, e logo depois comecei a tossir muito.

— Yukwon!

— Ah, Jimin, deixa eu te ajudar, né? Yukwon resmungou, revirando os olhos


antes de continuar falando com Jungkook. — Uma vez ele dormiu no meio da
aula e acordou com uma puta ereção porque sonhou com você. Tenha dó dessa
criança, cara, ele precisa trepar!

Eu senti minha pressão baixar, meu queixo cair e meu rosto perder a cor antes
de começar a ficar todo vermelho quando senti a vontade de morrer crescendo
exponencialmente.

— Foi mais ou menos essa a reação dele quando percebeu que tava de pau
duro na sala — Yukwon apontou, rindo exageradamente. — O Jimin é um imã
de vergonhas, as vezes dá até pena.

— É uma reação natural do corpo. Não é vergonhoso. — Jungkook disse, tão


casualmente como se estivesse fazendo um comentário sobre o cardápio.
Yukwon riu de novo, ainda alto. — Muito natural quando ele pensa em você, pelo
visto. — Eu o vi se inclinar com os braços cruzados sobre a mesa, prestes a falar
algo em tom confidencial. — Você também fica duro quando pensa nele,
Jungkook?

— Não deveria ficar? — Jungkook respondeu, tranquilo.

Yukwon abriu os olhos antes de abrir um sorriso e olhar para mim, empolgado.
Esse cara tá mais do que aprovado, Jimin, vai fundo.

Ah, sim, como se eu precisasse ouvir o seu incentivo para ir fundo com Jungkook.

De qualquer forma, aquela confirmação sutil de que ele também se excitava ao


pensar em mim só fez o calor em meu rosto aumentar, mas não era por
constrangimento.

Pouco tempo depois, quando eu comecei a me recuperar do embaraço daquela


conversa, Yukwon já estava falando sobre as suas próprias vivências
embaraçosas, porque, na verdade, ele sempre foi incapaz de sentir vergonha,
então reavivar essas memórias não era algo sofrido, não para ele.

No fim, nós saímos do café e fomos até um restaurante para almoçar. Depois de
escovarmos os dentes e comprarmos alguns lanches, que foram colocados na
minha mochila junto com as roupas que Jungkook tinha comprado, nós seguimos
até a estação de trem em Bongseon para encontrarmos Jeonghan.

Jungkook estava carregando a bolsa em suas costas para que eu não forçasse
muito meu corpo ainda dolorido, e nós três já estávamos na plataforma quando
Jeonghan finalmente chegou.

Ele cumprimentou Yukwon, eu o apresentei a Jungkook e por último ele se


aproximou de mim, com cuidado.

— Você tá bem? — Ele perguntou, baixo o suficiente para que Yukwon não
ouvisse, e arrumou meu cabelo carinhosamente com as pontas dos dedos.
Eu fiz que sim com a cabeça, oferecendo um sorriso para que minha resposta
parecesse mais convincente, e então ele suspirou, aliviado, e me abraçou antes
de dar o costumeiro beijo em minha bochecha.

Apesar de nem sempre ser confortável receber todo esse carinho dele, eu já
considerava algo normal, por isso não me preocupei que pudesse deixar
Jungkook irritado. Mas não foi isso que percebi quando olhei para seu rosto e vi
seus olhos escuros zangados e sua bochecha sendo empurrada pela ponta de
sua língua num gesto enraivecido.

Yukwon deu um tapinha na minha bunda quando finalmente começamos a entrar


no trem e falou só para que eu ouvisse. — Que delícia um macho desse com
ciúmes de você, hein?

Eu o empurrei pelo ombro, querendo fingir irritação, mas a verdade é que existia
uma pontinha imatura de satisfação por descobrir que Jungkook sentia ciúmes
de mim.

Quando nós entramos no vagão e nos dirigimos a uma das mesas com quatro
assentos, Jungkook foi rápido em colocar uma das mãos em minhas costas e
me guiar para que eu sentasse ao seu lado no banco acolchoado.

Jeonghan sentou em minha frente e Yukwon ficou ao seu lado, vez ou outra
olhando para nós dois e se juntando aos meus esforços para tentar amenizar o
clima que de repente pareceu desconfortável demais.

Quer dizer, Jeonghan não sabia sobre Jungkook, mas ele sempre foi o mais
esperto de nós três, então acho que não demorou para perceber que Jeon não
era só um amigo, principalmente porque sua mão grande ficou sobre minha coxa
durante todo o caminho.

O percurso até a estação de Yongbong, onde desceríamos, levava quase


quarenta minutos, e durante todos os quarenta minutos aquele pequeno
desconforto estava presente em cada vez que Jeonghan olhava para a mão de
Jungkook em minha perna e depois olhava para mim, tentando sorrir e dar
continuidade à conversa que tínhamos iniciado.
— A gente desce em Yongbong as treze e vinte e o ônibus que vai pro family
land passa na frente da estação às treze e vinte e cinco. Se a gente correr, dá
pra pegar esse. — Yukwon disse, quando estávamos quase chegando, depois
de ver os horários no seu celular.

Todos nós concordamos, acho que porque não achávamos que ele estava
falando sobre correr de forma literal.

— Anda, Jimin! — Ele quase gritou, me puxando pelo pulso, mas meu corpo
ainda doía mesmo com os analgésicos e eu não queria correr.

— A gente pega o próximo! — Eu choraminguei, tentando me soltar.

— Uma porra que eu vou ficar esperando por meia hora quando posso ir agora
— Ele rebateu, me puxando de novo, e eu gemi insatisfeito.

— Eu não aguento correr! — Confessei, mas sem dizer o real motivo. — Dei um
jeito no meu pé quando a gente tava descendo do trem...

Yukwon olhou as horas em seu celular, depois bufou violentamente. Quando


achei que ele desistiria e aceitaria que pegássemos o ônibus seguinte, eu dei um
grito porque, na verdade, ele passou um braço por baixo das minhas pernas,
outro por baixo do meu pescoço e começou a me carregar enquanto corria.

Assim que percebi o que ele estava fazendo, entretanto, e antes que se
afastasse dos outros dois que pareciam se divertir com a cena, eu segurei a
manga do casaco de Jungkook para que ele também corresse, e fui puxando-o
enquanto Yukwon me carregava por todo o caminho até o ponto de ônibus e
Jeonghan corria ao nosso lado.

O ônibus já estava saindo quando finalmente chegamos, mas Jeonghan e


Yukwon gritaram tão alto enquanto corriam pela calçada que o motorista
provavelmente pensou que nossas vidas dependiam daquilo e abriu a porta mais
uma vez

Quando entramos, Yukwon me colocou imediatamente no chão e começou a


balançar os braços cansados por me carregar por todo o caminho, e eu
precisei me segurar em uma das barras antes de me sentar, porque minha
barriga doía de tanto rir e eu nem conseguia me mexer ou respirar.

— Jungkook — Eu o chamei e comecei a rir ainda mais quando olhei para ele e
vi seus olhos levemente arregalados e suas bochechas vermelhas de vergonha.

Eu nunca imaginei que veria Jungkook envergonhado daquele jeito.

— Eu não entendi o que aconteceu — Ele disse, pigarreando sem jeito ao tentar
se recompor, mas suas maçãs continuavam adoravelmente avermelhadas.

Eu também estava envergonhado, é claro, mas a vontade de rir continuava maior


mesmo que todas as pessoas do ônibus estivessem olhando para nós quatro.

— Isso se chama pobreza — Yukwon respondeu, já sentado tranquilamente


como se nada tivesse acontecido. — Bem vindo ao nosso mundo.

Jungkook pigarreou outra vez, deixando claro que nunca em sua vida precisou
correr atrás de um ônibus.

Queria eu ter essa sorte.

Então eu o puxei para se sentar comigo em um dos assentos duplos e respirei


fundo, tentando me recompor, mas todo meu esforço foi jogado no lixo quando
olhei para seu rosto de novo e vi sua expressão ainda desconcertada, olhando
fixamente para a frente. Logo eu estava rindo de novo, tombando minha cabeça
em seu ombro e apertando minha barriga que doía não mais pelos chutes de
Taeil, mas pela falta de ar provocada pelas risadas.

— Jimin? — Jeonghan me chamou, rindo um pouco também, mas obviamente


sem entender minha repentina crise de riso. — O que foi?

— Deixa, cara — Eu ouvi Yukwon dizer. — Essa risada é mais gostosa até que
a bunda dele.
Esse é o jeito de Yukwon elogiar qualquer coisa, então eu não dei muita
importância e continuei tentando respirar fundo para me recompor. Quando
finalmente consegui, ainda sorrindo e com a cabeça no ombro de Jungkook, eu
levantei meus olhos e o observei dali de baixo. Seu rosto finalmente tinha
recuperado a cor normal e ele tinha virado um pouco para mim, me olhando de
volta.

— Você ainda vai acabar comigo, Jimin. — Ele disse, com um sorriso escondido
no canto dos seus lábios.

Eu sorri mais um pouco e tentei ser discreto quando deixei um beijo tímido em
seu pescoço.

Estava me sentindo tão, mas tão feliz, como se cada toque, cada palavra e cada
segundo desde que Jungkook apareceu em minha porta estivessem apagando
minha mágoa pelo que aconteceu no banheiro do fliperama.

Ainda era difícil acreditar que aquele homem tão incrível realmente se
preocupava tanto logo com uma pessoa tão sem graça quanto eu, mas eu estava
muito grato por ele estar ao meu lado.

— Obrigado por ter vindo, Jungkook. — Eu agradeci, sinceramente, voltando a


deitar minha cabeça em seu ombro.

Por todo o percurso ele me deixou ficar daquele jeito, bem pertinho dele,
enquanto sua mão tocava minha coxa com muito mais carinho do que quando
me tocou quando estávamos no trem.

Mas quando descemos do ônibus e Jungkook finalmente descobriu o que era o


Family land, ele travou um pouco o maxilar e me olhou como se desaprovasse
minha escolha.

— Um parque de diversões? — Ele murmurou, olhando para os brinquedos


enormes por trás da entrada colorida.

Eu acho que meu rosto perdeu a cor e eu murchei imediatamente, olhando-o


com preocupação. — Você não gosta?
— Isso nem vem ao caso, Jimin. — Jungkook disse enquanto eu olhava para
Yukwon e Jeonghan correndo para comprar nossos ingressos, empurrando um
ao outro como duas crianças. — Você não pensou que pode piorar sua dor?

Eu mordi meu lábio e abaixei meus olhos, movendo meu pé sobre o piso
cimentado. — Mas eu queria vir aqui com você...

Jungkook suspirou e eu me senti mais aliviado quando senti sua mão em minha
cabeça e ele me puxou com cuidado até que meu corpo estivesse quase colado
ao seu.

— Eu só não quero que você se machuque mais, meu bem. — Ele disse, mais
calmo, e me deu um beijo na testa. — Mas tudo bem, nós vamos.

Eu sorri de novo, balançando a cabeça só uma vez quando ele me puxou para
que caminhássemos juntos até onde meus amigos estavam, ainda naquela briga
boba em frente à bilheteria. Quando Yukwon empurrou Jeonghan com mais
força, o coitado cambaleou para o lado, tropeçou no próprio e desmontou no
chão.

Ao invés de ajudar, Yukwon começou a gritar e fazer graça com o pobre do


Jeonghan no chão, e eu grunhi irritado por deixar Jungkook ver o quanto meus
amigos eram imaturos, mas me tranquilizei depois de ver que até mesmo ele
falhou em reprimir uma risada.

Quando finalmente entramos, Yukwon respirou fundo, como se o ar do parque


de diversões renovasse suas forças, e antes que eu me desse conta, ele já
estava sumindo de nossas vistas, quase saltitando em direção à fila da montanha
russa, que era o seu favorito.

Aproveitando a distância entre nós três e a criança que pulava de empolgação


já na fila, Jeonghan parou mais próximo de mim.

— Acho que montanha russa não é uma boa pra você — Ele disse, parecendo
ter a mesma preocupação que Jungkook.
— Não precisa se preocupar, eu cuido do Jimin. — Jungkook respondeu antes
que eu o fizesse, e eu arregalei um pouco meus olhos quando ele segurou minha
mão e começou a me puxar para que eu caminhasse ao seu lado.

Enquanto nos afastávamos, eu gesticulei meio atrapalhado para Jeonghan


pedindo que ele fosse com Yukwon na montanha russa, e segui com Jungkook.

Se minha desconfiança e a suposição de Kihyun estivessem certas e Jeonghan


realmente gostasse de mim, ele poderia ficar chateado, mas eu nunca dei
esperanças de que estava disposto a dar algo além da minha amizade, então
tentei não me sentir tão mal por aquilo.

Enquanto caminhávamos pelo parque, que não estava tão cheio graças às
temperaturas mais baixas, eu mostrei para Jungkook todos os meus brinquedos
favoritos e finalmente escolhi o trem fantasma para começarmos.

Os carrinhos tinham lugares para duas pessoas e, quando chegou nossa vez,
eu já estava sentindo minhas pernas moles, mas essa sempre foi uma mania
minha. Gostar de coisas que assustam mesmo quando é claro que eu sou
medroso demais para aguentar.

Então assim que nosso carro começou a se mover pelos trilhos e atravessou a
cortina preta que separava o interior escuro do ambiente externo, eu cobri meus
olhos com minhas mãos, assustado demais para aguentar o suspense.

— Por que você está cobrindo os olhos? — Jungkook perguntou, parecendo se


divertir com meu jeito frouxo.

— Eu tenho medo! — Confessei, me encolhendo ao sentir o carrinho dar uma


guinada quando um dos monstros provavelmente apareceu.

Junto com a risada de uma bruxa, eu ouvi a risada de Jungkook, e logo depois
suas mãos seguraram as minhas, afastando-as de meus olhos.

Eu achei que ele queria me forçar a ser mais corajoso, e estava juntando toda a
minha força para tentar fazer isso, mas percebi que sua intenção era outra
quando, antes de conseguir abrir meus olhos, eu senti sua boca tocar a minha.
Eu fiquei um pouco surpreso, paralisado pelo choque de ser beijado tão de
repente, e senti o frio na barriga que montanha russa nenhuma no mundo me
faria sentir.

Pouco a pouco meu corpo cedeu, se tornando mais inconsistente à medida que
Jungkook sugava meus lábios, soltando-os devagar para pressioná-los com a
língua antes de capturá-los outra vez.

Pela primeira vez, um passeio num trem fantasma passou rápido demais, e
quando ele percebeu que o percurso tinha acabado me deu um último selinho
antes de se afastar, me deixando ainda com os olhos fechados e os lábios
entreabertos.

O carrinho então passou pela cortina da saída, e eu olhei ao redor um pouco


atordoado quando Jungkook levantou e segurou meu pulso para me ajudar a sair
também.

Nós só caminhamos um pouco antes que eu estancasse meus pés no lugar,


ainda sentindo minhas pernas bambas, mas dessa vez por algo muito mais
delicioso que o medo.

Jungkook me olhou quando eu deslizei meu pulso por sua mão, até encostar
minha palma na sua e entrelaçar nossos dedos, ainda parado no mesmo lugar.

Eu puxava o ar devagar e vi que ele fez o mesmo enquanto ainda me olhava,


sem que eu precisasse dizer coisa alguma para que ele entendesse.

Eu queria mais.

Então seus olhos desviaram dos meus por um instante e ele pareceu procurar
algo ao redor. Quando voltou a me olhar, ele passou a língua pelos lábios,
devagar.

— Venha. — Jungkook disse, com a voz baixa, antes de começar a caminhar


com passadas largas, puxando-me pela mão.

Nós só paramos quando chegamos a um pequeno corredor entre o trem


fantasma e o labirinto de espelhos, então Jungkook soltou minha mão e as
suas duas seguraram minha cintura, empurrando meu corpo contra a parede
metálica

Ele estava em minha frente, respirando devagar, com seus olhos presos aos
meus antes de descerem por meu rosto, até observarem nada além de minha
boca.

E então nenhum segundo a mais passou antes que ele voltasse a me beijar,
pressionando nossos lábios com mais força que quando nos beijamos no trem
fantasma. Quando senti seus dentes me mordendo pela primeira vez, eu precisei
reprimir um gemido ainda em minha garganta, mas fui incapaz de controlar
minhas mãos quando elas apertaram seus braços com mais força, mostrando o
quanto eu gostava daquilo.

Uma hora inteira poderia ter se passado, mas sempre pareceria pouco tempo.
Por isso eu não senti nada além de insatisfação quando duas meninas
resolveram passar por aquele corredor, forçando Jungkook a parar de me beijar
e a me abraçar, cobrindo meu corpo com o seu para que elas não me vissem.

— Omo! — Uma delas disse, impressionada, quando percebeu o que estava


acontecendo, e as duas se afastaram com risadinhas empolgadas, como se
tivessem visto a coisa mais incrível do mundo.

Quando Jungkook se afastou, eu mantive minhas mãos em seu peitoral,


segurando-o pelo casaco, e acabei rindo também.

— Lembra daquele dia que eu quase fui atropelado na frente da Bangtan? — Eu


disse, de repente, ainda sem querer sair dali. — Você me disse que sabia ser
paciente, mas não aguentou tanto tempo assim, né?

Jungkook inclinou suavemente o rosto. Mas eu estou sendo paciente, meu bem.

Eu apertei um pouco meus olhos, confuso, porque quando ele disse que estava
de mãos atadas até que eu fosse maior de idade, eu achei que ele estava se
referindo a me beijar, também.
— Tem uma coisa que eu só posso fazer quando você fizer dezenove. E eu
estou esperando.

Eu ofeguei quando achei que entendi sobre o que ele estava falando.

— Sexo?

Jungkook me olhou com aquele sorriso obliquo quando tocou meu rosto com sua
mão e pressionou seu polegar em meu lábio inferior.

— Não, meu anjo. Sexo do jeito que eu gosto.

Minha cabeça revirou com as possibilidades, mas eu não insisti em descobrir os


detalhes porque, no instante seguinte, Jungkook se afastou, então eu soube que
aquela conversa não ia continuar e que nós íamos sair dali.

Quando voltamos a caminhar, eu ainda sentia meus lábios latejando


deliciosamente e eles pareciam inchados depois de serem mordidos e chupados
por Jungkook tantas vezes.

Então, depois de tentarmos escolher onde pararíamos em seguida, nós fomos


até uma das barracas de jogos para que eu passasse vergonha ao mostrar
minha total incapacidade com tiro ao alvo.

— Poxa, eu queria tanto aquela pelúcia de coelho — Choraminguei quando


minhas tentativas acabaram e eu precisei devolver a arminha ao vendedor.

— Aquele ali? — Jungkook apontou com o queixo para o coelhinho cinza numa
das prateleiras, e eu inflei minhas bochechas, chateado, ao confirmar,

Eu queria muito porque me ele lembrava Jungkook.

— Quantos pontos pra conseguir o coelho? — Ele perguntou de novo, mas


dessa vez ao vendedor.

— Cento e cinquenta. — O moço respondeu, meio entediado.

— Eu vou tentar. — Jungkook anunciou, pagando por mais uma tentativa, e meu
rosto se iluminou de novo na mesma hora, porque ele parecia bom em tudo,
então se alguém conseguisse, esse alguém seria ele.
E ele conseguiu, mas depois de três tentativas.

Quando o dono da barraca tirou o coelho da prateleira e me entregou, eu quis


muito gritar, porque o bichinho era muito fofo e foi Jungkook quem ganhou pra
mim, mas eu me contive e demonstrei toda minha alegria no maior sorriso que
podia dar, até meus olhos se fecharem completamente enquanto eram
esmagados por minhas bochechas.

E por toda a tarde eu continuei exatamente dessa forma. Nós reencontramos


Yukwon e Jeonghan depois de algum tempo em outra barraca, e então nós
jogamos todos os jogos possíveis, descobrimos que eu era ruim em quase todos
eles e assustamos as pessoas que passavam por perto com nossas risadas altas
e os gritos de Yukwon.

— Eu tô com uma puta fome, será que é porque gastei energia demais
ganhando tanto do Jimin? — Ele provocou quando Jeonghan tirou uma manta
de dentro de sua mochila e colocou sobre o gramado de uma área de descanso.

— Deve ser por ter perdido pro Jungkook todas as vezes — Devolvi, com o
mesmo tom implicante, e me sentei numa das pontas. Então abri a mochila que
Jungkook carregou por todo o tempo e tirei os lanches que tínhamos comprado
antes de irmos.

— Como é que você consegue falar com a boca toda inchada desse jeito? —
Yukwon insistiu, rindo quando me viu cobrir meus lábios com minha mão,
imediatamente.

Então não era só impressão. Jungkook realmente tinha deixado meus lábios
inchados.

Não que eu esteja reclamando.

— Yukwon, eu não sei se já te disse, mas você é muito folgado — Jeonghan


resmungou quando acabamos de comer todos os lanches e Yukwon deitou a
cabeça em suas pernas. Eu ri quando ele esfregou a cabeça nas coxas de
Jeonghan, rindo e resmungando quando começou a apanhar por isso.
Aquela cena dos meus dois melhores amigos aqueceu meu coração e eu tive
vontade até de fotografar, porque eu os amava muito, do fundo do coração, e
ficava emocionado como uma mãe que vê seus filhos brincando juntos, mesmo
que eu fosse o mais novo de nós três.

Mas então eu tive um sobressalto e comecei a procurar meu celular na mochila,


com cuidado para não sair do abraço de Jungkook — porque ele tinha me puxado
para sentar entre suas pernas, exatamente como fez quando estávamos na
praça em Gwangsan-gu - e me recostei em seu peitoral quando finalmente o
encontrei.

— Posso tirar uma foto nossa? — Eu perguntei, inclinando minha cabeça para
poder olhar para ele com meus olhinhos pidões.

Jungkook sorriu e beijou minha bochecha duas vezes, como se meu pedido
derretesse seu coração.

— Pode.

Eu bati palmas, empolgado, e logo ativei a câmera frontal, Primeiro tirei uma
selfie com nossos rostos bem próximos, mas eu também queria uma foto que
mostrasse como o pôr do sol estava bonito, deixando o céu com aquela
coloração intensa por trás da roda gigante.

— Não consigo — Choraminguei, depois de tentar de todas as formas e não


conseguir enquadrar do jeito que eu queria.

— Deixa que eu tiro. — Jeonghan disse, esticando o braço para que eu


passasse meu celular para ele.

Eu o olhei, um pouco confuso, mas ele só me mostrou um sorriso pequeno. Acho


que estava tentando não fazer grande caso com a forma como eu e Jungkook
estávamos próximos bem diante de seus olhos.

— Acho que ficaram boas — Ele disse quando tirou algumas, olhando para a
tela, analisando-as.
— Tira mais uma! — Yukwon quase gritou quando levantou de seu colo e correu
para o meu lado e de Jungkook, já fazendo uma pose ridícula como se estivesse
mostrando os músculos do braço.

Jeonghan tirou outras, cada uma com Yukwon fazendo uma pose diferente e
idiota, e quando esticou o braço para me devolver o celular para que eu pudesse
ver as fotos, eu segurei seu pulso e o puxei até que ele estivesse perto da gente.

— Eu quero uma com todo mundo,

Jeonghan pareceu um pouco sem jeito, mas assentiu, se arrumando ao nosso


lado e posicionando o celular para conseguir focar nos quatro.

— Sem palhaçada nessa, Yukwon! — Ele avisou, e precisamos tirar várias fotos
porque o tempo todo alguém reclamava de alguma coisa.

No fim, nós elegemos nossa favorita. Era uma meio tremida, com Yukwon com
a boca aberta porque estava reclamando de alguma coisa, Jeonghan olhando
para algum lugar que não era a câmera, eu gargalhando e Jungkook olhando
para mim pelo canto dos olhos, com o mesmo sorriso pequeno de sempre.

Quando finalmente desistimos de tirar uma foto nítida, o sol já tinha sumido e as
luzes dos brinquedos estavam todas acesas, deixando tudo ainda mais colorido.

— Ei. — Yukwon chamou quando ficamos todos calados, olhando para as luzes
coloridas. Ele estava deitado nas pernas de Jeonghan outra vez, e não olhou pra
nenhum de nós quando disse: — Eu amo vocês.

Ele as vezes fazia isso. Se declarava do nada.

Apesar de nunca dizer, eu sabia que ele sofreu por ter passado tanto tempo não
tendo mais ninguém além de sua irmã, por isso ele era tão apegado a mim e a
Jeonghan. E isso era correspondido intensamente, pelo menos da minha parte.

— Você eu ainda não amo — Ele completou, olhando diretamente para


Jungkook. — Mas você tá no caminho certo.
Jungkook apertou seus braços ao meu redor, respondendo com uma
risadabaixa. — Vou continuar me esforçando.

— Isso. — Ele concordou, e completou sem voz, para que Jeonghan


nãoouvisse. -E coma logo o Jimin!

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