Romance Adolescente em Nam-gu
Romance Adolescente em Nam-gu
Dedicado a _otter
Eu tinha dezesseis anos quando nos conhecemos. Jungkook tinha vinte e um.
Na época eu era um estudante com mais notas ruins que boas e nenhuma
disposição pra fazer qualquer coisa mais produtiva que perder horas no twitter.
Ele, por outro lado, já estava acompanhando o pai em viagens de negócios,
visitando todas as filiais da empresa que herdaria.
Não havia motivo algum para que meu caminho se cruzasse ao de Jungkook
com mais que algum cumprimento educado caso nos encontrássemos
acidentalmente na recepção do hotel. Entretanto, uma troca de favores boba
reverteu o que eu acreditava ser o rumo natural daquela relação e mais tarde, no
mesmo dia em que o vi de relance pela primeira vez, fui parar em seu quarto.
E desde então nós dois já sabíamos. Eu já era dele mesmo quando ainda não
podia ser.
Era a primeira semana do verão, mas o tempo já estava tão quente que eu mal
aguentava ficar dentro do meu próprio quarto.
Por isso, naquele dia, eu deixei o conforto do meu cafofo particular e me juntei a
Hyelin na recepção do hotel da minha família, onde um ventilador acima da
bancada trabalhava preguiçosamente para aliviar o calor.
— Uh, quero fazer esse — Hyelin anunciou, me mostrando um novo teste numa
página de internet no computador do hotel. — "Qual o tipo de cara ideal pra
você?". - Ela leu o título, e depois deu uma risadinha.- O cara ideal pra mim é o
novo hóspede.
— Eu achei que você estava namorando aquele que vende pés de galinha —
Rebati, olhando ao redor antes de voltar a mexer no celular.
Mas enquanto Hyelin usava o computador do serviço pra fazer testes online, eu
usava o banco desconfortável da recepção para ficar lá sentado, com um livro
aberto sobre o balcão, fingindo que estava aprendendo alguma coisa quando na
verdade estava vendo o twitter pelo telefone.
— Olha, eu namoro, mas só porque não posso namorar Jeon Jungkook, né? —
Ela respondeu, simplesmente.
— Eu não sei quem é Jeon Jungkook, mas espero algum dia ter um
relacionamento tão intenso e sincero quanto o seu com o cara da barraca de
comida — Provoquei, e ela deu de ombros com alguma displicência.
— Pelo menos eu como pés de galinha de graça. — Retrucou, meio convencida
de que aquilo realmente fazia o relacionamento valer a pena. — Agora shh,
preciso me concentrar!
Eu olhei pra ela pelo canto dos olhos, rindo fraco. Hyelin levava esses testes
realmente a sério.
De qualquer forma, eu também levava as notícias sobre idols - e tudo que girava
em torno deles — como assuntos de maior prioridade em minha vida, por isso
não me importei em interromper nossa conversa pouco produtiva e me focar em
acompanhar uma nova discussão onde um fandom acusava outro por alguma
coisa realmente estúpida.
— Não, a melhor opção é trocar o diretor dessa filial. — Outra pessoa disse.
— Você é muito radical, Jun — O cara da primeira voz rebateu e eu vi, ainda
com a cabeça abaixada, os pés de duas pessoas atravessando a recepção. - Ah,
boa tarde. — Ele disse, e eu ouvi Hyelin responder timidamente, o que é estranho
porque ela nunca fica tímida.
Curioso, levantei o rosto para ver quem eram, mas os dois homens já estavam
de costas atravessando a passagem que levava aos quartos dos hóspedes.
— Qual deles? — Perguntei, virando o rosto para analisar as costas dos homens
antes que eles sumissem de minha vista, mas não fez muita diferença porque
não vi nada demais em nenhum dos dois.
— O mais baixo. O outro é um tal de Namjoon e ele já quebrou um frigobar, só
Jesus sabe como — Respondeu, ainda eufórica. — Ai, eu quero casar com
aquele homem e ter quinze filhos com ele!
— Santa mãe de deus, Hyelin, os bebês vão sair de você como se estivessem
escorregando num toboágua. - Resmunguei, apavorado com a imagem de uma
pessoa tão desnaturada considerando a possibilidade de ser mãe.
Eu forcei um sorriso e dei dois tapinhas complacentes nas costas dela. — Você
provavelmente não vai conseguir nada com ele, mas pelo menos você pode
comer pés de galinha de graça, né?
Hyelin me lançou um olhar possesso, arrumando sua postura para uma menos
apaixonada e mais agressiva. — Que tal dar um pouquinho de apoio a sua
noona, hein?
Sorri falso, um pouco assustado também. — Ok, primeiro para de fazer essa
cara, tá bom? Parece o Macaco Louco assistindo a destruição de Townsville e
isso é bizarro.
Hyelin deu um gritinho, frustrada. — Então diz o que você quer, seu demônio!
Dessa vez, fui eu quem fiquei pensativo. O que Hyelin poderia me oferecer em
troca de um favor?
Eu corei com a única possibilidade que passou por minha mente, e ela sorriu ao
ver que, afinal, existia alguma coisa que eu podia pedir.
Respirei fundo, me obrigando a não ficar tão envergonhado com um assunto tão
bobo. Mas não funcionou.
— Você nunca...? — Ela parou, chocada. — Uau. Com doze anos eu já matava
aula pra dar bitoca nos meninos mais velhos da escola. Que exemplo você é,
Chim. Tá de parabéns.
— Tudo bem, eu te ajudo, não é nada demais — Ela voltou a dizer, e eu vi que
se forçou a não fazer mais nenhum comentário sobre a minha castidade labial.
— Tem alguma menina em mente?
Eu neguei, porque não tinha. Nunca na vida senti atração ou vontade de beijar
uma menina e eu já estava começando a acreditar que tinha alguma coisa errada
em mim, mas eu estava curioso pra saber como seria.
— Tá, isso complica um pouco, mas eu ainda posso dar um jeito. Tenho umas
primas mais novas que beijam qualquer buraco na parede, então beijar você não
vai ser um problema pra elas — Hyelin disse, não exatamente me tranquilizando,
e estendeu a mão. — Estamos combinados?
Eu olhei para sua mão estendida por um tempo, antes de finalmente selar nosso
pequeno e vergonhoso acordo.
Ele ainda estava acordado, ou ao menos era isso que as luzes acesas do lado
de dentro indicavam, e eu deveria ter cuidado para não ser visto por ele ou com
certeza teria problemas com meus pais, caso descobrissem. Só por isso resolvi
esperar, chutando pedrinhas, enquanto as luzes não se apagavam.
Mas elas não se apagaram por um bom tempo, o que começou a me deixar
impaciente. E talvez eu não seja a pessoa mais esperta quando tenho que lidar
com impaciência.
Eu só queria saber o que ele estava fazendo e porque não ia dormir logo, mas
definitivamente não esperava, nem podia, ser pego espionando.
Jungkook estava sentado sobre o chão, diante da mesa de chá que ficava logo
de frente para a porta do quarto. Uma bandeja com um bule e uma xícara de
cerâmica sem alça já tinha sido deixada de lado, e no momento ele parecia
concentrado na leitura de alguns papeis. Acho que por isso, apesar de estar com
o corpo virado na minha direção, ele não me viu.
E é claro que reconheço que deveria ter aproveitado sua distração para fechar a
porta outra vez e esperar mais um pouco até que ele dormisse e eu não corresse
mais o risco de ser pego. Poderia também desistir de ajudar Hyelin e
simplesmente sair dali, mas... foi impossível.
De repente, era como se eu entendesse tudo que ela dizia sobre Jungkook.
Não... Era como se eu estivesse descobrindo que todos os elogios não faziam
jus à imagem daquele homem, porque ele estava acima de todos esses.
E aquele não era o momento para tentar entender porque meu coração estava
batendo tão rápido por outro homem, então eu não o fiz. Apenas continuei quieto,
com uma mão espalmada contra a parede e a outra contra a porta de correr, um
dos olhos encaixado na fresta e a respiração pesada e lenta demais, como se
qualquer mínimo ruído pudesse me denunciar.
Quando Jungkook juntou todos os papeis que estavam em cima da mesa de chá
e os guardou numa pasta, eu soube que precisava sair dali, mas eu não queria.
A única coisa que eu queria era vê-lo mais um pouco, mesmo que isso pudesse
me trazer problemas depois.
Então ele ficou de pé, calmamente, e eu o vi levar uma das mãos ao primeiro
botão fechado de sua camisa enquanto ele caminhava até o pequeno armário
do quarto.
Jungkook ficou de costas para mim, e eu assisti com devoção enquanto ele
desabotoava completamente sua blusa.
O tecido fino marcava os músculos de suas costas, que se contraíram
deliciosamente quando ele finalmente deixou a blusa escorregar por seus braços
firmes, revelando músculos posteriores que pareciam mais fortes que todos os
meus objetivos de vida.
Jeon Jungkook tinha uma enorme serpente negra tatuada nas próprias costas.
A surpresa de descobrir que aquele homem de olhar sério escondia algo como
uma tatuagem debaixo de suas roupas caras me fez sentir a necessidade de
descobrir que outros segredos ele poderia ter.
E, a partir desse exato momento, eu mandei aos ares toda e qualquer objeção
que minha moralidade e medo criavam para me fazer sair dali. Durante todo o
tempo eu estive ciente sobre como era errado invadir a privacidade de alguém
daquela forma, mas o desejo e curiosidade que aquele homem despertou em
mim criaram um lapso de consciência muito mais forte que meu receio de ser
pego fazendo algo tão condenável.
Quando ele pendurou a blusa num dos cabides, eu o vi finalmente ficar de frente
para mim outra vez. A visão de seu tronco nu me fez sentir minha própria
respiração ricochetear contra a madeira da porta detrás da qual me escondia,
com meu corpo se tornando exponencialmente mais quente tanto pelo calor em
minha virilha quanto pela adrenalina liberada com o medo de ser capturado.
Mas, apesar do suor nas palmas das mãos e da frequência cardíaca irregular,
eu não fui notado e tive total liberdade para finalmente ver a cabeça da serpente
desenhada sobre seu peitoral forte, com as presas à mostra numa representação
de perigo que não me despertou nada além de mais vontade de continuar ali,
assistindo-o.
Depois, deixei que meus olhos descessem pelo restante de sua pele exposta,
capturando com atenção os detalhes de seu abdômen definido, até a pequena
entrada em seu quadril que apontava e sumia debaixo do cós de sua calça.
Num gesto involuntário, cravei meus dentes em meu próprio lábio, tentando
refrear a quantidade de sensações novas que somente a visão de seu corpo me
proporcionou, combinado ao desejo de poder ver o que ainda não tinha sido
revelado.
Depois de tirar o cinto, ele então o dobrou e o segurou em apenas uma das
mãos, ainda andando devagar. Antes que pudesse me perguntar quando ele
tiraria sua calça, eu finalmente percebi.
O olhar dele era incompreensível e sua postura era firme, um pouco opressora.
Ainda com meu próprio rosto retorcido em surpresa e desespero, tentei articular
qualquer palavra que pudesse funcionar como um pedido de desculpas, mas
som nenhum saiu de minha garganta. Enquanto isso, ele continuou me olhando
em silêncio.
Eu queria poder ler o que ele estava pensando. Ou, no mínimo, gostaria de ter
forças nas pernas para me levantar e correr para longe dali, mas as duas
possibilidades pareciam igualmente impossíveis.
Quando meus olhos desceram um pouco relutantes até pousarem no cinto que
ele segurava em uma das mãos, uma nova onda de medo tomou conta de todas
as minhas células.
A forma como ele segurava o objeto de couro, sua postura, seus olhos escuros
e impenetráveis e a cabeça da serpente marcada em seu peitoral... tudo isso
despertou um alerta de perigo que me fez prender a respiração.
Cada mínimo movimento dele parecia ter sido calculado para aumentar a tensão
que já parecia tão insuportável, e ainda assim eu não conseguia sair dali.
– Me... — eu comecei, completamente desajeitado, sentindo minha voz tremer.
— Me desculpa...
— Porque você parece tão assustado, meu anjo? — Ele perguntou, e vi seu
polegar direito deslizar sobre o couro preto do cinto que sua mão esquerda
segurava.
Não era mais medo de que meus pais descobrissem que eu estava espionando
um hóspede. Não era mais medo de um castigo, ou de uma surra.
Era algo muito mais primitivo, como se Jungkook fosse um predador se divertindo
antes de dar o bote.
— Você não precisa sentir medo de mim, boneca — Ele continuou, parecendo
se divertir de forma quase sádica com minha incapacidade de responder. — Eu
não vou te machucar... a não ser que você queira.
Meus olhos não poderiam estar mais arregalados e acredito que não era
saudável meu coração bombear tão intensamente, mas a forma como ele me
chamou de boneca desestabilizou tudo dentro de mim.
— Eu não deveria estar aqui... — Foi a única coisa coerente que consegui
articular, depois de muitas tentativas frustradas.
Jungkook deixou a língua fazer mais uma breve aparição quando umedeceu os
lábios, movendo a cabeça numa concordância discreta.
— Acredito que não — Ele disse, ainda deslizando lentamente o polegar sobre
o couro —, mas você já está aí há bastante tempo.
Eu não sabia mais se o problema estava em mim ou se era natural sentir tanta
tensão a cada coisa que ele me dizia, mas não posso negar o quanto fiquei aflito
com a revelação de que eu tinha sido notado ali muito tempo antes, talvez desde
o início.
Sem querer, deixei que meus olhos curiosos descessem outra vez, atentos à
forma ameaçadora como seus dedos longos seguravam o cinto.
Mas então ele soltou um dos lados do cinto e deixou que a fivela metálica
acertasse o chão de madeira de forma sonora, me fazendo levantar os olhos em
direção aos seus outra vez num reflexo assustado.
Seu rosto continuava sereno, demonstrando que o movimento anterior não tinha
sido um acidente.
— Olhe para mim quando estiver falando comigo. —Ele disse, num tom de voz
que anulava qualquer desejo de contrariar sua ordem.
— Agora diga. — Ele continuou, assumindo um tom pouco mais leve. - O que
você estava fazendo?
Jungkook não é o tipo de homem óbvio. Não é fácil olhar para ele e dizer o que
ele está pensando, mas, naquele momento, eu tinha a mais absoluta certeza de
que ele sabia exatamente o que eu estava fazendo ali. Não me refiro a ter ido
levar um bilhete de outra pessoa, mas sobre ter passado todos aqueles minutos
apenas observando-o com tanta devoção.
Era como se eu estivesse sendo testado e, então, eu optei pela verdade, por
mais embaraçosa que fosse.
— Você é... — Tentei dizer, mas palavra nenhuma parecia ser adequada para
finalizar aquela frase, então comecei novamente, ainda sentindo que meu
coração poderia sair pela garganta a qualquer segundo. — Eu não consegui
parar de olhar pra você...
Eu não acharia estranho caso ele repudiasse ouvir aquele tipo de coisa de um
garoto.
— E por quanto tempo você pretendia continuar olhando? — Foi a única coisa
que ele perguntou, a despeito de tudo que imaginei que poderia sair de sua boca.
Essa, entretanto, era uma pergunta que eu não sabia responder, então fiquei em
silêncio, ponderando uma resposta.
Mais uma resposta que eu não poderia dar sem passar algum tempo pensando,
mas Jungkook já parecia ter uma ideia muito clara do que eu deveria dizer.
Eu pisquei, atordoado.
Uma nova onda de calor tomou conta de cada partícula do meu corpo, mas não
era vergonha. Era outra coisa, algo que eu nunca tinha sentido antes, não
naquela intensidade.
Num reflexo, apertei o bilhete de Hyelin ainda em minha mão. Eu não queria
mais entregá-lo.
— Responda. — Ele insistiu com a voz firme, deixando claro que não aceitaria
meu silêncio como resposta.
Então balancei a cabeça para cima e para baixo uma única vez, devagar.
E Jungkook sorriu. Um sorriso pequeno, mas satisfeito e dolorosamente
irresistível.
Como se fosse possível, seu olhar escuro se tornou ainda mais intenso.
Curioso, eu segui o mesmo caminho até que minha visão encontrasse o que
Jungkook observava com outro sorriso torto nos lábios. E meus olhos se abriram
ainda mais ao perceberem que todo aquele calor concentrado na minha virilha
tinha gerado consequências muito visíveis.
— Não seja tão ambicioso, boneca. — Foi a última coisa que ele disse antes de
fechar a porta outra vez, me fazendo ouvir o pequeno clique da trava sendo
acionada.
Ainda sem reação, eu voltei a olhar para a vergonhosa ereção que marcava
minha calça de pano.
Sem nem mesmo me tocar, Jungkook me deixou excitado como eu nunca estive
antes.
Não era só choque o que eu sentia. Eu estava completamente hipnotizado por
aquele homem.
Ela teria que me perdoar, mas Jungkook nunca leria aquelas palavras.
4 • La La Land
Assim que entrei no meu quarto eu me escorei na porta, ainda sentindo meu
coração pulsar forte.
As pontas dos meus dedos estavam dormentes e minha cabeça estava uma
zona, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo, mas incapaz de ignorar
a inesperada ereção ainda no meio das minhas pernas.
Incapaz ou relutante demais para nomear aquilo, eu me livrei das minhas roupas
e deitei em minha cama. O calor em meu corpo tornava insuportável deixar
qualquer peça além de uma boxer em contato com minha pele, e eu sabia que
não era mais apenas o efeito do verão. E esse mesmo calor foi o que me fez
revirar sobre o colchão por um tempo longo demais, sofrendo de uma atípica
insônia.
Incomodado com a falta de controle sobre meu corpo, revirei mais uma vez até
ficar de bruços, mas o atrito entre meu membro e a cama me fez soltar um
gemido baixo, involuntário e vergonhoso.
Depois, foi impossível. Indo contra minha mente confusa, minha mão alcançou
meu pênis e eu suspirei pesadamente quando o apertei com um pouco de força.
Na manhã seguinte, entender tudo que tinha acontecido naquela noite ainda era
uma tarefa difícil.
Nunca me considerei uma pessoa insistente, porque era preguiçoso demais para
isso. Entretanto, eu gastei todos os segundos daquele dia insistindo para que
minha mente ainda ingênua e confusa compreendesse aquelas coisas, não
importava se eu estava na aula ou no intervalo com meus dois únicos amigos na
escola.
Mesmo assim, me deixei ser arrastado por Taeil e Yuta até um fliperama no
centro da cidade, acreditando que aquilo me serviria como distração.
Não funcionou.
Por isso, ouvi piadinhas durante toda a tarde. Taeil e Yuta não eram o que eu
gostaria de chamar de bons amigos, mas eles eram o que eu tinha, então muitas
vezes me obrigava a engolir o incômodo que suas brincadeiras e comentários
maldosos criavam.
Nesse dia, ignorar as provocações foi especialmente fácil, o que não quer dizer
que eu queria continuar com eles. Então me despedi e fui embora, deixando-os
sozinhos numa batalha sangrenta em Mortal Kombat.
Eu queria logo voltar para casa e tentar me distrair com qualquer coisa que
realmente funcionasse. Ou talvez entrar num fórum na internet, criar um perfil
anônimo e questionar através dele se me masturbar pensando em um homem
fazia de mim um gay.
Então continuei meu caminho um pouco distraído, sem esperar que, ao virar na
rua seguinte, eu veria a causa de toda a minha distração parada diante de um
dos prédios comerciais.
Lá estava Jungkook. Blusa social, calça escura, sapatos lustrados, uma das
mãos no bolso e a deliciosa expressão concentrada enquanto um homem mais
velho lhe dizia alguma coisa.
O único momento em que meus olhos deixaram de analisar Jungkook foi quando
eu li o nome da empresa na fachada do prédio: B AN G T AN
Antes mesmo que eu pudesse saber que gostaria de descobrir mais sobre ele,
Hyelin já tinha me contado várias coisas que descobriu ao stalkear nosso
hóspede na internet. Uma delas era que a Bangtan era a empresa da família
Jeon e que, apesar de ser o filho mais novo, Jungkook seria o sucessor na
direção dos negócios.
Por isso, e também pela semelhança física, presumi que o homem de meia idade
que falava com ele na entrada do prédio era seu pai.
Mas existia. Outras pessoas existiam, sinais de trânsito existiam e é claro que
carros existiam também. Entretanto, só lembrei disso quando ouvi a buzina
aguda de um que vinha na minha direção em alta velocidade para tentar passar
antes que o sinal ficasse vermelho.
Eu podia jurar que seria atingido e consegui imaginar meus pais se lamentando
sobre meu túmulo, mas eu ainda estava vivo. Inteiro.
Mesmo assim, eu estava apavorado, e a coisa seguinte que aconteceu foi sentir
minhas pernas falharem, me levando a quase cair sobre o asfalto quente da rua.
Quase.
Não foi uma repentina retomada de equilíbrio que me fez continuar de pé. Foi o
braço de Jungkook me segurando com firmeza pela cintura, me pressionando
contra seu próprio corpo para que eu encontrasse algum sustento.
Então eu o observei com os olhos arregalados, tanto pelo susto de quase ser
atropelado quanto pela surpresa de ter sido amparado por ele.
— Você está bem?- Ele perguntou, com a voz e o olhar mais cuidadosos que na
noite anterior.
— Você sabe que nada disso estaria acontecendo se você respeitasse os limites
de velocidade, não sabe? Ouvi ele dizer, calmamente.
Jungkook era mais alto que eu, então precisei olhar para cima para ver seu rosto,
e vi que ele deixou seu olhar escuro recair sobre o meu por dois segundos antes
que voltasse a observar o motorista.
Mas enquanto ele olhava para o homem furioso em nossa frente, eu olhava
apenas para o seu rosto, ainda sentindo seu abraço protetor.
— Jungkook tire o menino daqui. — Alguém disse, e só então parei de olhar para
ele e procurei o dono da nova voz, logo encontrando o homem que pressupus
ser seu pai. — Deixe que eu resolvo as coisas com esse senhor.
Jungkook me chamou de Jimin, mas eu nunca tinha dito meu nome a ele.
05 • Mensch
Naquele ponto, entretanto, eu não sabia mais dizer qual era a causa da fraqueza
prolongada. Não me surpreenderia caso descobrisse, depois de uma análise
meticulosa em minha mente, que tudo não passava de um pequeno teatro para
que Jungkook continuasse demonstrando aquele cuidado por mim.
Olhei para Namjoon enquanto bebia um pouco da água e assenti com a cabeça,
desajeitado.
— Menos mal que nada pior aconteceu. - Ele disse e me mostrou um sorriso
discreto, mas com covinhas enormes, para logo depois voltar a olhar para o
homem que quase me fez ser atingido por um carro. — Eu vou ver se seu pai já
conseguiu acalmar aquele motorista, tudo bem?
Jungkook moveu a cabeça uma única vez. — Me chame quando nosso carro
chegar.
— Ele mora lá. — Ele disse, aumentando minha surpresa, e então aquele
mesmo sorriso pequeno apareceu outra vez em seu rosto. — Não é, Jimin?
— Eu sou filho dos donos... — Justifiquei, nem sei mais se para Jungkook, que
já parecia saber disso, ou para Namjoon, que eu nem sabia se ainda estava lá.
— Você não estava indo ver se meu pai já conseguiu acalmar aquele motorista,
hyung? — Jungkook retrucou, deslizando os olhos até Namjoon.
— Vou checar agora. — Ele disse, simples. — Venho te chamar quando o carro
chegar.
E então Namjoon finalmente saiu da saleta, encostando a porta outra vez e me
deixando sozinho com Jungkook, que não demorou a voltar a olhar para mim
com aqueles olhos que me fariam arrancar as calças pela cabeça.
Eu bebi mais dois goles, mesmo sem sede, antes de apoiar minhas mãos com o
copo sobre o colo.
Um pouco ansioso, eu mordi meu próprio lábio. Eu queria saber como Jungkook
parecia saber coisas sobre mim que eu não tinha mencionado, mas falar com ele
era difícil ao ponto de me deixar tempo demais juntando coragem para perguntar.
— Algum problema, meu anjo? — Ele perguntou quando abaixei o olhar, ainda
pensativo.
Quando ergui o rosto outra vez, vi que ele usava o punho fechado para esconder
mais um de seus sorrisos, apoiando o cotovelo no braço de sua poltrona e
inclinando a cabeça num trejeito sensual demais para ser considerado divertido.
Engoli minha própria saliva com dificuldade. Então olhei para o resto de água em
meu copo antes de olhar para ele outra vez.
Não era algo genérico. Eu poderia deixar passar a imagem de qualquer criança
tentando pronunciar, em vão, o próprio nome. Mas não era qualquer criança, era
Jungkook. Visualizá-lo como um menino pequeno dizendo alguma variação
incorreta de seu nome foi demais para mim.
Ao mesmo tempo me fez lembrar que, apesar de todos os efeitos intensos que
causava em mim, Jungkook ainda era uma pessoa. Talvez, até então, eu o
estivesse vendo como algo além disso. 302
Motivado por essa percepção tardia de algo que deveria ser óbvio demais até
mesmo aos meus olhos fantasiosos, eu finalmente consegui retomar o controle
sobre a articulação da minha fala.
— Não é difícil fazer aquela recepcionista falar. O nome dela é Hyelin? — Ele
questionou sem real interesse, girando o anel de prata em seu mindinho
esquerdo. — De qualquer forma, ela fala muito.
Saber que ele tinha conseguido as informações com Hyelin me deixou um pouco
tenso.
Ela não era maldosa e nem tinha como saber que eu estava boicotando seu
plano de se aproximar de Jungkook, mas eu não me surpreenderia caso
descobrisse que ela falou alguma besteira sem querer.
— O que mais ela falou? — Eu perguntei depois de voltar a olhá-lo, porque não
queria ser repreendido como fui na noite anterior.
Nenhuma informação comprometedora, mas a forma como ele falou sobre minha
idade me fez perceber que não era algo que o deixava satisfeito.
Meus olhos estavam atentos à sua expressão, em busca de alguma coisa que
me fizesse acreditar que ele estava brincando, mas não existia nada além de
seriedade em seu rosto bonito. Mas eu estava confuso. Porque eu precisava
ser maior de idade? Jungkook queria me dar bebida alcoólica ou alguma coisa
assim?
— Por que? — Questionei, mesmo sentindo que estava fazendo uma pergunta
estúpida.
Jungkook também pareceu achar isso quando sorriu, embora não com humor.
— Você é mesmo tão ingênuo assim? — Foi o que ele retrucou, reforçando
minha ideia de que eu estava, sim, parecendo um bobo.
Sem saber o que dizer, eu optei pela única coisa que conseguiria falar. —
Desculpa...
Eu não sabia exatamente pelo que estava me desculpando. Quer dizer, eu não
tinha culpa de ser lerdo.
Droga.
— Não é justo ela dar em cima de outros quando já está com alguém —
Continuei, fingindo que realmente me importava com aquilo. Quando ela me
pediu o favor, entretanto, eu não julguei sua atitude nem por um segundo. —
Então eu não quis mais fazer parte daquilo e desisti...
Batidas na porta interromperam o que viria a seguir, mas nossos olhares não
desviaram nem mesmo quando Namjoon reapareceu.
— Jun, o carro já chegou — Ele anunciou, e Jungkook assentiu ainda sem parar
de olhar para mim.
— Você precisa saber que eu realmente não gosto quando mentem para mim.
— Ele voltou a dizer, sem nenhuma entonação descontraída em sua voz firme.
Meu silêncio foi a prova de que eu tinha entendido, mas estava constrangido
demais para contar a verdade.
Hyelin me disse uma vez que se eu já estou no inferno, devo abraçar o diabo e
essa parecia a conotação perfeita para a situação.
Mas ele parecia não estar disposto a esperar que eu juntasse minha fraca
coragem, e então eu o vi se levantar.
— Vamos embora. — Foi o que ele disse, deixando de lado a conversa anterior
e já caminhando em direção à porta.
Saber que ele estava insatisfeito comigo disparou um alerta dentro de mim, e foi
com pura impulsividade que eu também levantei depois de deixar o copo sobre
a pequena mesa de centro, caminhei até ele e segurei a manga de sua blusa,
impedindo-o de sair da sala antes que eu dissesse o que ele queria ouvir.
Já era óbvio que às vezes eu falava coisas que não deveriam ser mencionadas,
mas o que saiu da minha boca a seguir não me provocou arrependimento,
apesar de ser vergonhoso como o inferno.
Jungkook não demonstrou surpresa É claro que não. Ele viu meu estado quando
fechou a porta de seu quarto e me deixou sozinho com aquela embaraçosa
ereção.
— Não é justo ela me pedir ajuda com alguém que me fez sentir todas aquelas
coisas... — Completei, reduzindo minha voz a cada palavra dita, ainda
segurando seu braço.
Sem perceber, meu rosto tinha se voltado para o chão e meus olhos estavam
fechados com força, o que me impediu de ver o momento em que Jungkook
levou a mão livre ao topo de minha cabeça e me acariciou quase como se
acaricia um filhote.
— Bom garoto.
Senti uma onda de satisfação percorrer cada parte do meu corpo. Eu tinha
deixado Jungkook satisfeito e ele tinha me recompensado por isso com seu
carinho e suas duas palavras.
Então ergui meu rosto com um sorriso enorme, sentindo minha visão mais escura
porque meus olhos sempre se fecham muito quando sorrio assim.
Mas eu pude sentir com clareza quando o toque de Jungkook deslizou de minha
cabeça para minha bochecha, até que seu polegar pressionasse meu lábio
inferior.
Inevitavelmente, meu sorriso foi sumindo até que eu focasse em seu rosto e em
seus olhos tão atentos à minha boca.
— Porque você tem que ser tão novo? — Eu ouvi ele perguntar quando sua
respiração se tornou mais pesada.
Eu não conseguia mais respirar porque, de repente, entendi o que Jungkook quis
dizer ao afirmar que suas mãos estariam atadas até que eu fizesse meus
dezenove anos. Ele não poderia se envolver comigo enquanto eu não fosse
maior de idade.
E então eu odiei ser tão novo, assim como ele parecia odiar.
Jungkook, entretanto, parecia discordar. Era ele quem correria todos os riscos
por se envolver com um adolescente, afinal.
— Eu sei ser paciente, Jimin. — Foi o que ele disse, deixando seu polegar
descer por meu queixo até que sua mão não estivesse mais em meu rosto.
Talvez eu tenha sido precipitado ao assumir isso tão rapidamente. Mas com
aquelas palavras, Jungkook me fez acreditar que esperaria por mim.
[1] Na Coreia do Sul, a maioridade é atingida aos dezenove anos. Eu vou
ignorar a questão da idade coreana nessa fanfic pra não confundir vocês,
então tudo vai ser trabalhado em cima da idade convencional.
[2] Observação adicional: quando o Jungkook diz que o Jimin foi um bom
garoto, ele fez uma referência a um fetiche dentro do bdsm, o pet play. Se
vocês não conhecem o bdsm a fundo, mas sabem que a fanfic aborda esse
tema (porque isso eu deixei bem claro), venham com a mente aberta.
Debochar não é legal e lembrem: bdsm vai muito além de daddykink.
06 • Farewell
Jungkook me fez entrar num sedan preto que tinha o nome da Bangtan
discretamente plotado na lateral. Então eu sentei entre ele e Dong-yul, o seu pai,
enquanto Namjoon ia no banco da frente ao lado do motorista.
Mesmo assim, exatamente como seu filho, ele tinha uma postura que fazia
qualquer um se sentir um pouco diminuído.
Por isso, fui incapaz de pronunciar qualquer coisa até que chegássemos ao
nosso destino. A forma como as vozes sérias de pai e filho conversavam sobre
os resultados dos relatórios de uma filial em Busan me fizeram perceber que
nada do que eu pudesse dizer seria importante o suficiente para interrompê- los.
Então tudo que fiz foi olhar, sei que não tão discretamente assim, para Jungkook,
que nenhuma vez me olhou de volta.
Quem tocou em meu ombro foi Dong-yul, me fazendo levantar o rosto. Seu
sorriso era pequeno, quase tão discreto quanto o do próprio filho, mas parecia
sincero.
— Não se preocupe com isso, criança. — Ele disse. — Só tome mais cuidado
da próxima vez.
Ainda um pouco envergonhado por tê-lo feito se resolver com um motorista
furioso por minha causa, eu assenti. Depois vi seu sorriso tranquilizador por
apenas mais um segundo antes que ele virasse as costas para seguir para dentro
da recepção.
Mas eu nem mesmo me envergonhei. Não era novidade alguma o quanto estava
atraído e eu tenho certeza de que Jungkook sempre soube muito bem como é
lindo, capaz de tirar o foco de qualquer um.
O que aumentou minha chateação foi acreditar que ele me diria um sim e que
então eu ficaria ansioso durante todo o restante da noite até o momento de
aparecer em seu quarto sem ser visto por ninguém.
— Hoje não, anjo, tenho outro compromisso. — Ele disse, paciente, e eu vi que
observou meu uniforme da escola antes de me olhar outra vez. — Que horas sua
aula acaba?
Ele sorriu, como se aquela fosse a melhor resposta que eu poderia dar.
— Amanhã às dezessete, então. - Anunciou, com um sorriso suave, tão
diferente de todos os que tinha me mostrado até então.
Tão distinto de seu trejeito usual que até mesmo eu, em minha qualidade de
adolescente burro, deveria desconfiar que algo estava errado.
Mas a inocência combinada à ansiedade me cegaram, e tudo que fiz foi sorrir de
volta, garantindo que no dia seguinte iria ao seu quarto assim que chegasse da
escola.
Por tudo isso, não posso dizer que o resto do dia ou grande parte do seguinte
foram produtivos. Eu não conseguia colocar minha cabeça no lugar, porque ela
insistia que não valia a pena se concentrar em qualquer coisa que não fossem
as possibilidades que me aguardavam assim que eu estivesse sozinho com
Jungkook outra vez.
Então a noite, pela segunda vez, foi mal dormida e as aulas, não que isso seja
novidade, totalmente improdutivas.
Pelo segundo dia consecutivo, além de não conseguir me forçar a pelo menos
tentar ouvir o que os professores diziam, eu nem mesmo prestava atenção no
que Taeil e Yuta falavam, não até eles entrarem numa conversa que,
invariavelmente, despertou meu interesse.
— Ugh — Yuta fez uma careta olhando na direção de Yukwon, que estava
sentado num dos bancos afastados, e então eu soube de quem estavam falando.
- Não basta ser repetente, tem que ser viado também.
— A gente nem devia trocar de roupa no mesmo vestiário que ele — Taeil voltou
a dizer, enojado. — Vai que ele tira foto pra se masturbar depois.
Eu voltei a tirar meu uniforme esportivo do armário de metal, sem tomar partido
na conversa idiota dos meus dois amigos.
Eles sempre foram assim e eu nunca me importei muito. Yukwon também era
um punk esquisito e já tinha reprovado duas vezes, então não era surpresa
alguma que ele fosse sempre vítima dos comentários maldosos de Yuta e Taeil
ou do resto da escola todinha.
Pelo menos, quando estavam ocupados falando de outra pessoa, eles perdiam
menos tempo me provocando sobre minhas bochechas gordas, meu dente torto
ou minhas pernas grossas.
Dessa vez, entretanto, o que me incomodou foi ouvir a forma como eles se
referiam à possibilidade de Yukwon ser gay quando eu mesmo estava me
sentindo tão atraído por um homem.
— Eu não acredito que você ainda não trocou de roupa - Yuta resmungou para
mim, pendurando a mochila no ombro quando ficou pronto.
— Cuidado, hein? - Ouvi a voz da única pessoa que ainda estava ali. — Eu posso
muito bem tirar uma foto da sua bunda pra me masturbar olhando pra ela depois.
— Yukwon alertou, debochado, fazendo um gesto obsceno com a mão.
O comentário não foi dos mais agradáveis, mas eu não me dei ao trabalho de
me despir e vestir mais rápido por causa disso.
— Seus amigos são uns babacas, eles falam alto justamente pra que eu escute.
- Ele disse sem parecer irritado. — Qualquer dia eu lembro de avisar que tô
cagando pro que eles acham.
— Não vou forçar a barra dizendo que você parece um cara legal demais pra
andar com eles, porque nem parece, mas você deveria rever suas amizades
A coisa seguinte que eu ouvi foi o som da porta metálica sendo aberta para que
ele saísse do vestiário. E então eu estava finalmente sozinho, chocado demais
com o que tinha acabado de ouvir.
Eu não sabia se ele tinha falado aquilo pra me provocar, mas fiquei tão curioso
que logo depois eu terminei de me vestir às pressas, juntei minhas coisas e saí
correndo atrás dele.
— Você acha que eu sou gay? — Mudei a abordagem, sem entender se aquilo
na minha voz era raiva ou não.
Yukwon fez uma careta como se tivesse escutado um absurdo. — Claro que não
acho, Jimin. Eu tenho certeza.
Ele sorriu, com o rosto bem em frente ao meu, e minha mente viajou por várias
possibilidades em poucos segundos. Pensei em mandar ele ir se ferrar, em dar
um soco na cara dele e depois mandar ele ir se ferrar, em negar, dar um soco
na cara dele e por último mandar ele ir se ferrar.
Eu não sabia muito bem o que aquilo queria dizer, mas entendi que era uma
confirmação.
— E você... sai mesmo com homens mais velhos? — Insisti, tentando soar
casual, mas ele pareceu ter percebido a motivação da minha pergunta.
— Você também curte um sugar daddy, Jimin? — Ele riu, voltando a caminhar
em direção à passagem, mas eu o impedi outra vez. — Porque eu não estou
surpreso?
— O que foi? Quer saber como faz a chuca ou aprender a fazer garganta
profunda, é?
— Eu só quero saber como... como agir com um cara mais velho. — Confessei,
mortificado por estar falando aquilo em voz alta. — Ele me deixa muito nervoso
e eu não sei o que fazer, então acabo fazendo besteira.
– Pra sua sorte, sim — Respondeu, jogando a mochila no ombro outra vez. —
Devolva o cantil sem nenhum arranhão ou eu juro que te mato.
Eu fiz uma careta pela ameaça, cheirando de novo a bebida, mas logo
percebendo que não deveria estar com aquilo exposto no meio da escola.
— Já sei que você não vai falar comigo quando outras pessoas estiverem por
perto, então boa sorte com seu sugar daddy. — Foi a última coisa que ele disse,
já depois de me dar as costas e finalmente seguir para o campo.
Yukwon não parecia irritado ao pressupor corretamente que eu não falaria com
ele quando estivéssemos no meio de outras pessoas. Na verdade, ele parecia
considerar aquilo algo completamente normal e previsível, e então eu me senti
mal de verdade.
Ele tinha um jeito rebelde e um linguajar meio grosseiro, mas não parecia má
pessoa como todos os outros me faziam acreditar. Na verdade, de todas as
pessoas que conheci naquela escola e que viviam julgando qualquer um que não
seguisse o que eles consideravam normal, Yukwon parecia ser a mais decente.
Quando a aula chegou ao fim, depois de ter levado duas boladas na cara e
tropeçado no cadarço desamarrado do meu tênis, eu corri para os vestiários e
fui o primeiro a tomar banho e trocar de roupa, porque queria voltar logo para
casa.
Já um pouco nervoso, eu forcei a porta para o lado, percebendo que ela estava
destrancada e o quarto... vazio.
As toalhas e lençóis que ele tinha usado estavam juntos sobre o colchonete,
exatamente como todos os hóspedes deixavam no dia em que iam embora.
Sentindo meu coração acelerar, eu dei um passo para dentro sem nem mesmo
tirar meus sapatos, olhando para cada canto em busca de qualquer coisa que
provasse que eu estava errado e que Jungkook não tinha ido embora daquele
jeito, mas suas roupas não estavam mais ali nem sua mala ou a bandeja com o
chá ao lado dos papeis que ele lia com tanta concentração duas noites antes.
Jungkook foi embora, assim, sem uma despedida, depois de me fazer acreditar
que, naquele exato momento, eu estaria com ele, sozinho, sentindo meu
estômago revirar a cada vez que ele olhasse para mim.
Raiva nunca seria a palavra certa para descrever o que eu senti, porque a tristeza
e a sensação de ter sido enganado tão cruelmente não deixaram espaço para
isso.
E antes que minha visão se tornasse turva por causa das lágrimas ou que eu
saísse dali e me escondesse em meu quarto, eu vi o pequeno pedaço de papel
que, até então, tinha sido ignorado.
Bobo como sou, corri para me ajoelhar diante da mesa de chá e peguei o
pequeno bilhete, desfazendo suas dobras com as mãos atrapalhadas até ver
aquela caligrafia bonita sobre o papel branco.
Então eu li, reli e li mais uma vez as suas palavras. Tão poucas, perto de tudo
que eu tinha pensado em dizer para ele, acreditando que ainda teríamos a
oportunidade de conversar.
Naquele verão dos meus dezesseis anos, então, eu tive minha primeira
desilusão amorosa.
Meu apreço pela escola não tinha crescido nesse pouco tempo que passou, mas
acordar naquela segunda feira sabendo que eu teria que ficar o dia todo em casa
não foi algo que me deixou particularmente feliz.
Não que eu detestasse a ideia de não ter obrigações, mas eu detestava, sim, a
ideia de ter tempo livre demais, porque ter tempo livre demais significava que eu
teria ainda menos motivos para não pensar em Jungkook.
Eu estava magoado e queria mais que tudo arrancar seu nome, seu sorriso e
sua voz me chamando de anjo da minha cabeça.
Mas eles não dizem a toa que querer não é poder. Então enquanto parte da
minha consciência me dizia que eu precisava esquecer, a outra, a vencedora,
me fazia perder horas fantasiando sobre Jungkook aparecendo na minha porta.
Mas eu sabia que ele não apareceria. Eu era estúpido, mas não a esse ponto.
Por isso, passei dias e dias ouvindo as lamentações de Hyelin sobre sua partida
sem que ela soubesse que, mesmo em silêncio, eu me lamentava muito mais.
E então, com toda aquela confusão em minha cabeça e em meu coração, minha
vida seguiu numa forma genérica e muito mais deprimente que o tedioso rumo
anterior.
Eram todas muito impessoais, sempre falando sobre sua posição como herdeiro
da Bangtan ou sobre sua aparição nos eventos em Seul, mas as minhas favoritas
eram aquelas, mesmo antigas, que tinham uma foto sua, porque então eu a
salvava e deixava em minha galeria para que pudesse sempre ver aquele rosto
bonito.
Mas as férias acabaram e minha rotina improdutiva foi interrompida para que eu
abandonasse o horror de sofrer integralmente por Jungkook e voltasse ao horror
que era minha escola.
E por lá, nada de novo. Yuta e Taeil não tinham crescido espiritualmente
naquelas poucas semanas, então continuavam com as brincadeiras maldosas.
Yukwon continuava sendo alvo de piadas de toda a escola, principalmente
depois que todos descobriram que ele saía com homens mais velhos, e eu... eu
continuava agindo como se nada daquilo me importasse, egoísta demais para
me preocupar com ele quando ainda estava lutando contra os resquícios daquele
sentimento estranho que Jungkook despertou em mim.
Mas quando os outros alunos saíam da sala nos horários livres e eu ficava ali
por não estar disposto a fingir que me divertia com o senso de humor de meus
dois únicos amigos, Yukwon e eu ficávamos sozinhos, e então eu sempre tomava
a iniciativa de conversar com ele, porque descobri que nossa sexualidade não
era a única coisa que tínhamos em comum.
Naquela tarde, nos minutos livres entre a aula de história e inglês, nós ficamos
sozinhos de novo, e ele continuou mexendo no próprio celular como se eu não
estivesse ali.
— Ei — Eu chamei, me arrumando na minha cadeira para poder olhar melhor
para ele. — Viu o trailer do live-action de Attack on titan?
Yukwon finalmente olhou pra mim com a usual careta de deboche. — Você
deveria fazer umas coisas novas. Sua vida é deprimente.
Quer dizer, eu tinha uma boa família, boas condições financeiras e não me
faltava nada de essencial, então eu posso dizer que sempre tive sorte. Mas eu
tinha dezesseis, e aos dezesseis qualquer gota é uma tempestade.
— O que você faz? — Perguntei, com a esperança de ouvir uma resposta que
pudesse me ajudar.
— Sexo.- Ele respondeu, direto. — Poucas coisas me deixam tão feliz quanto
uma boa trepada.
Yukwon então riu, acho que percebendo que eu ainda não tinha propriedade
alguma pra falar sobre isso.
— Cadê aquele seu sugar daddy que não tem idade pra ser sugar daddy, hm?
— Ele perguntou, e pareceu que estava curioso de verdade. — Você nunca fala
sobre ele.
— E eu vou ficar falando sobre um cara que disse que ia me encontrar, mas foi
embora e não deu sinal de vida por três meses? — Resmunguei, tentando
parecer bravo. — Ele só estava brincando comigo.
— Nada de novo sob o sol, bebê. — Yukwon disse, relaxado. — Você ainda vai
passar muito por isso, vai se acostumando.
Eu o olhei novamente, um pouco chocado. Ele não podia, sei lá, tentar me
consolar?
— Não sei por que acreditei que você tentaria me convencer de que entendi
errado ou qualquer coisa assim — Suspirei, relaxando minha postura debaixo do
seu olhar divertido.
— Você tem muita fé em mim. — Foi o que ele disse, debochado. — Mas olha,
pra não dizer que eu sou só ruim... — Yukwon se abaixou pra abrir a mochila e
eu quase acreditei que ele tiraria seu cantil de lá, mas então ele jogou uma
barrinha de chocolate para mim.
Eu sempre soube que não era magro o suficiente, mas, depois de ver o corpo de
Jungkook, eu me convenci de que precisava começar a dar um jeito na minha
aparência desleixada.
Eu queria ser bonito como ele, mesmo sabendo que seria impossível, pra sentir
que estava à sua altura.
— Eu quis perguntar o que magreza tem a ver com beleza. — Ele explicou,
revirando os olhos, e então jogou o chocolate de volta com mais força, acertando
na minha testa.- Deixa de ideia errada, seu enrustido.
Eu massageei minha testa e olhei para o bendito chocolate que caiu em minha
mesa, um pouco assustado.
Yukwon era muito estranho, mas eu acho que ele estava tentando me animar,
então resolvi aceitar seu agrado, depois de relutar por um tempo, e rasguei o
plástico para morder o primeiro pedaço.
Eu sempre amei chocolate, mas fazia tanto tempo que não comia um que aquele
parecia especialmente gostoso.
— Será que é uma referência ao que ele tem no meio das pernas?
Eu demorei uns cinco segundos para entender o que ele quis dizer, e quando
entendi comecei a tossir como um tuberculoso por me engasgar com minha
saliva.
Mas antes que eu pudesse acusá-lo por sua indiscrição, dois dos outros alunos
abriram a porta e entraram na sala, conversando sobre qualquer coisa. Acuado,
eu me impedi de continuar falando com Yukwon e me arrumei em minha cadeira,
olhando para a frente e continuando a comer o chocolate que ele me deu, mas
principalmente fingindo que nunca tinha trocado palavra alguma com ele.
Eu me sentia mal por ser assim, tão covarde, mas tinha muito medo de ser alvo
de todas as brincadeiras maldosas daquela gente.
Então a única coisa que fiz foi olhar discretamente para trás, alguns segundos
depois, somente para ver que Yukwon tinha voltado a mexer em seu celular,
fingindo também que nunca tinha conversado comigo.
No final das aulas, Taeil e Yuta decidiram que gastariam mais tempo no
fliperama, mas eu estava cada vez mais indisposto pra ficar perto deles e decidi
voltar logo para casa.
Em pouco tempo e poucas conversas, Yukwon já me fazia sentir que era meu
amigo, muito mais que os outros dois a quem eu realmente dava esse título.
Eu estava triste e confuso com tudo isso. Com essa amizade que não podia se
tornar real, com a forma como aqueles sentimentos por Jungkook pareciam
esfriar, mas nunca desaparecer, e sobre como eu não sabia lidar com nenhuma
dessas duas coisas.
Para cada pontinha de esperança que surgiu, dez vezes mais de frustração.
Então ela me olhou, com a unha do polegar enfiada na boca, e seus olhos tinham
aquele aspecto assustador que eu só tinha visto quando ela falava sobre
conquistar Jungkook, três meses antes.
E ela saiu de trás do balcão, correu até mim e bateu as mãos em meus ombros.
Com os olhos ainda esbugalhados em algo que eu não sabia se era ódio ou
felicidade, ela disse:
— Ele voltou!
Ela não estava falando de Jungkook. Ela não estava falando de Jungkook. Ela.
Não. Estava. Falando. De. Jungkook.
— Jungkook! — Ela deu um grito, mas então cobriu a boca e me puxou para
mais perto, até estarmos desconfortavelmente próximos. — O homem da minha
vida tá aqui, Jimin!
— Ele vai embora ainda hoje — Ela disse, sem esconder sua frustração. — -
Disse que só está de passagem e que precisava falar com seus pais, então eles
estão conversando lá na sua casa.
— Jungkook veio até aqui só pra falar com meus pais? — Repeti, ainda sem
acreditar naquilo.
Eu olhei para a passagem que levava até minha casa, depois olhei para Hyelin
outra vez.
— Olha nos meus olhos e jura que você tá falando a verdade. — Eu apontei
para a porta, percebendo que minha mão tremia. — Jungkook está mesmo ali?
Mesmo com alguma confusão no olhar, ela me beliscou, e beliscou com força.
Mas eu não acordei.
Sem dizer mais nada, muito menos sem esperar que Hyelin o fizesse, eu a deixei
para trás e avancei em direção à passagem interna, mas senti meus pés
congelarem ainda sobre o pequeno caminho de madeira quando eu o vi deixando
minha casa.
Depois de três meses e mil quilômetros de distância entre nós dois, apenas três
passos nos separavam.
Não tinha explicação. Porque eu não tinha como explicar a forma como ele me
olhava, muito menos como colocar em palavras aquele sorriso contido ao me
ver, nem mesmo seria capaz de descrever o tom de sua voz quando, ainda me
olhando, ele inclinou sua cabeça suavemente para o lado e finalmente deu fim
àquele silêncio.
Tudo bem, eu tinha motivos para ficar irritado quando Jungkook me enganou
daquele jeito. Três meses depois, entretanto, a raiva já deveria ter dado lugar a
um ressentimento mais brando.
Mas não foi isso que aconteceu, é claro, porque a irritação era tão intensa quanto
todas as outras coisas que Jungkook me fazia sentir desde a primeira vez que o
vi.
Então depois de ouvir sua voz eu continuei parado, ainda sem qualquer ação
consciente, até que finalmente retomei o controle sobre minhas pernas — mas
não sobre meus atos, já que caminhar até ele e empurrar seu peito não é
exatamente o que eu chamo de atitude racional, mas foi isso o que eu fiz.
Com um gesto brusco, ainda irritadiço, eu acertei minhas mãos contra seu
peitoral e vi o pouco impacto que isso teve sobre seu equilíbrio.
— Você mentiu pra mim! — Bradei, empurrando-o outra vez e vendo ainda
menos efeito que da primeira.
— Eu realmente sinto muito por isso, meu bem. — Ele disse, com calma. — Não
imaginei que ia demorar tanto pra conseguir voltar.
Eu estava agindo como um idiota, porque é claro que Jungkook não tinha feito
todo aquele caminho de Seul até Nam-gu para me dar explicações ou tentar se
desculpar comigo.
Então eu senti todo meu ânimo, inflado de algo que alternava entre mágoa e
excitação por vê-lo de novo, murchar de uma só vez.
Mas aquela que estava presa entre seu peitoral e sua palma quente e áspera
continuou no mesmo lugar, porque Jungkook não a libertou.
— Eu vim te buscar, meu anjo. — Ele completou, e eu senti sua outra mão
segurar meu queixo para que eu erguesse meu rosto outra vez. — Eu vou ouvir
tudo que você quer dizer e juro que vou te recompensar por ir embora daquele
jeito, mas agora nós precisamos ir.
Eu nunca esqueceria da forma como meu coração batia acelerado toda vez que
ele estava por perto e me dizia coisas que eu não esperava ouvir, mas ali, diante
de suas últimas palavras, eu percebi que nunca, nunca mesmo, me acostumaria
com a sensação.
— Jungkook veio... veio me buscar? — Eu repeti, incapaz de esconder o quanto
aquilo me pegou desprevenido e mais inapto ainda a sequer reparar que falei
como uma criança.
Então ele sorriu o mesmo sorriso discreto que eu já tinha conhecido, parecendo
se divertir com meu jeito bobo de falar.
— Você vem? — Ele perguntou, ainda sem me dizer para onde pretendia me
levar, tampouco sem revelar suas intenções.
Mas assim como ele já parecia ter percebido, eu também estava ciente de que
não importava o lugar. Eu queria ir com ele.
Então todos os motivos que eu tinha para dizer que não iria foram subjugados,
sem que eu sequer tentasse impedir isso quando balancei minha cabeça num
sim.
Quando a mão de Jungkook subiu de meu queixo até minha bochecha e seus
dedos longos acariciaram minha pele, eu soube que me arrependeria até a morte
se dissesse que não.
— Arrume uma mala pequena, só para hoje e amanhã. — Ele disse, com
aqueles olhos escuros brilhando de uma forma que eu ainda não tinha visto nas
poucas oportunidades que tive.
E então a certeza do que aquilo significava fez meu coração bater ainda mais
forte.
A capacidade de pensar com clareza não era uma das minhas qualidades
naquele momento, então caminhar apressado até minha casa foi um ato quase
automático, e eu só parei de correr quando minha mãe apareceu diante de mim
e nós quase trombamos no corredor dos quartos.
— Ainda bem que você chegou! — Ela disse, afoita, e então estendeu uma
mochila que parecia cheia de coisas.
Num reflexo eu segurei a bolsa, e logo depois meu pai apareceu com um
envelope que ele mesmo guardou num dos bolsos menores da mochila
organizada por minha mãe.
— Esse dinheiro deve ser suficiente. — Ele disse, e eu alternei meu olhar de um
para o outro tentando entender o que estava acontecendo. — Não abuse da
bondade de Jeon, Jimin, pelo amor de deus!
— Sim, sim, se comporte direitinho e não deixe ele gastar mais dinheiro com
você - Minha mãe reforçou, se aproximando para passar as mãos em meus
cabelos que talvez estivessem um pouco desalinhados. — Ele já insistiu em
pagar a hospedagem e teve o trabalho de vir até Nam-gu só pra falar com a
gente! Sinceramente, Jimin, porque você mesmo não pediu? Dando todo esse
trabalho a alguém tão ocupado quanto Jeon...
Mesmo assim eu assenti, meio embasbacado e ainda sem entender direito o que
Jungkook tinha dito a eles.
Mas ele tinha ido até ali me buscar e me levaria para Gwangsan-gu. Eu passaria
a noite fora com ele, e isso foi o suficiente para me fazer perder todo o interesse
nos outros detalhes.
Mais uma vez eu assenti, ainda sem dizer nada, porque a suposta visita ao
campus da Chosun era minha última preocupação.
Uma viagem para um distrito que ficava a quarenta minutos de Nam-gu, mas
ainda assim... eu iria só com ele.
Por isso, por toda a improbabilidade na situação, eu quase pedi para Hyelin me
beliscar de novo quando passei por ela e vi seus olhos curiosos, mas tudo que
fiz foi devolver seu olhar com uma expressão que dava a certeza de que eu não
ia parar para conversar, então não foi surpresa quando ela não interceptou meu
caminho para começar o interrogatório que eu sei que queria fazer.
Então, quando eu estava do lado de fora outra vez, Jungkook saiu do carro e
deixou a porta aberta para que eu entrasse. E eu o fiz, ainda com minha cabeça
girando e girando e girando.
Eu olhei para ele, que sentou a uma distância de dois palmos de mim, depois
olhei para a mochila que eu ainda abraçava quase inconscientemente e por fim
voltei toda minha atenção ao seu rosto.
— Por que você tá me levando pra Gwangsan-gu? Minha mãe disse que é pra
me levar numa universidade, mas... não faz sentido... — finalizei, baixinho.
— Seus pais não deixariam você vir se eu dissesse a verdade sobre meus
motivos para te trazer comigo, então eu tive que pensar em algo melhor.
Eu apertei meus lábios, ainda tentando montar o quebra cabeça que era
entender as suas intenções.
Jungkook piscou devagar, ainda calmo, quando voltou a olhar para mim. — Eu
só queria passar algum tempo com você.
Não seria novidade dizer que eu senti meu coração perder o controle, mas eu
juro que, dessa vez, todos os efeitos da confissão de Jungkook foram dez vezes
mais devastadores que em qualquer uma das outras vezes.
— Você não parece feliz. — Ele disse, talvez um pouco decepcionado, mas sem
demonstrar isso verdadeiramente.
Balancei minha cabeça, negando. Eu estava feliz, mas também estava com
medo.
— É só que... parece que você tá brincando comigo. — Confessei,
envergonhado, abraçando minha mochila com ainda mais força.
Eu não queria desconfiar de Jungkook e soube que ele queria isso menos ainda
quando vi a forma como ele respirou fundo e umedeceu os próprios lábios.
— Eu não tenho tempo pra esse tipo de coisa, Jimin. — Ele disse, e eu
realmente não gostava de quando ele falava meu nome daquela forma. — Se eu
vim até aqui, foi porque queria te ver. E só.
— Então porque você não veio antes? — Insisti, com a voz baixa e tímida porque
eu não queria estar fazendo aquelas perguntas.
— Essa é a primeira chance que eu tenho de sair de Seul nos últimos meses.
— Quando ele respondeu, eu o vi massagear a própria nuca e fechar os olhos,
e isso me deixou ainda mais frustrado.
Eu não diria que ele estava irritado, mas também não estava calmo como antes.
E se Jungkook tinha mesmo ido até Nam-gu só por mim, não era justo que eu
fosse a causa de qualquer sentimento negativo seu.
Quando Jungkook deixou escapar o que poderia ser facilmente identificado como
uma risada, eu só me envergonhei ainda mais e desejei com um pouco mais de
força que minha vida fosse ceifada naquele exato momento.
— Não me chame assim, Jimin. — Ele disse, e aí eu me encolhi ainda mais
porque achei que estava brigando comigo, até que ele continuou. — Eu gosto de
ouvir você dizendo o meu nome.
Com um clique, meu sorriso se abriu na mesma hora. E então durante o restante
do tempo que passamos dentro daquele carro, Jungkook me deixou continuar
daquele jeito, bem pertinho dele, enquanto me explicava que estava indo a
Gwangsan-gu para uma reunião com um dos clientes da Bangtan, e depois me
deixou falar pelos cotovelos sobre todo tipo de assunto que talvez nem fosse de
seu interesse, mas ele prestou atenção mesmo assim.
Talvez eu fosse muito bobo e estivesse me contentando com pouco, mas mesmo
que ele não tivesse saído de Seul só para me ver, eu não conseguia parar de
sorrir a cada vez que percebia que Jungkook deu um jeito de me levar para perto
dele.
Prendi a respiração com seu toque, e deixei que meu corpo seguisse o comando
silencioso e firme de sua palma.
— E é, anjo — Ele disse em resposta, sem explicar nada mais, até que
estivéssemos dentro do elevador.
Ao perceber que nós tínhamos entrado – não, seria muito mais coerente dizer
que foi quando ele viu Jungkook o desconhecido sorriu, mas não fez menção
alguma de se levantar.
— Finalmente, gato.
— Eu só pedi pra você deixar a porta aberta, Kihyun — Jungkook disse em
resposta sem cuidado algum na voz, mas o tal Kihyun não pareceu se incomodar
com isso.
Na verdade, o sorriso dele aumentou ainda mais e então ele ficou de pé,
caminhando calmamente até jogar os braços ao redor do pescoço de Jungkook.
Eu não sabia quem ele era, mas definitivamente não gostava desse cara e ele
sequer parecia ter percebido que eu estava bem ao lado.
Kihyun ainda não parecia incomodado por ter sido empurrado, mas então ele
olhou para mim e inclinou o rosto, curioso, antes de apontar seu indicador em
minha direção.
— Namjoon costumava ser mais alto. — Ele disse, parecendo se divertir com a
própria brincadeira.
Jungkook apenas o olhou daquela forma demorada antes de caminhar até o sofá
onde Kihyun estava antes, forçando-o a sair do seu caminho.
Eu continuei parado exatamente no mesmo lugar, sendo analisado pelo cara
estranho enquanto ele usava o indicador e o polegar para brincar com o próprio
lábio.
— Venha aqui, anjo. — Jungkook disse, quase como se eu já devesse estar com
ele.
Então eu olhei para Kihyun uma última vez, ainda emburrado, e caminhei com
passos irritados até onde Jungkook estava.
Quando eu parei próximo o suficiente, sem saber se ele queria que eu sentasse
ao seu lado ou não, Jungkook colocou as duas mãos na minha cintura e me
puxou com cuidado até que eu parasse, ainda de pé, entre suas pernas.
Ele então segurou as pontas do suéter fino do meu uniforme e o puxou para
cima, sem dizer nada.
Mesmo assim, eu entendi e levantei meus braços para que ele tirasse a peça de
meu corpo.
Ainda com calma, ele dobrou o casaco e o colocou ao seu lado. Depois, voltou
com os dedos longos e afrouxou o nó da minha gravata até que a tirasse
também, me deixando só com a calça feia e a blusa do uniforme.
Sentindo as mãos dele em minha cintura outra vez, era como se eu tivesse
esquecido completamente que Kihyun ainda estava ali.
— Vamos? — Eu repeti, sentindo minha pele arder no lugar onde ele me tocava
sobre a blusa.
— Podemos sair ou pedir alguma coisa. — Ele disse, e então um de seus
polegares começou a deslizar sobre minha barriga enquanto suas mãos ainda
me seguravam. — O que você prefere?
— Só nós dois.
Eu não sabia se aquela era a melhor resposta, mas a forma como o canto da
boca dele se curvou num sorriso orgulhoso me fez sentir orgulho também.
— Se arrume. Nós vamos jantar fora - Ele disse, e eu sorri de novo, ainda mais.
— Tá bom! — Respondi empolgado, mesmo que não estivesse tão satisfeito por
ele ter afastado suas mãos de mim.
Então quase corri até minha mochila, que ainda estava ao lado da sua mala na
entrada do apartamento, e senti meus passos diminuírem quando vi a forma
como Kihyun alternava o olhar entre Jungkook e eu, sorrindo como se estivesse
assistindo a um espetáculo.
Antes que eu fechasse a porta, entretanto, eu ouvi a voz de Kihyun outra vez.
— Ah, que dom protetor... — Kihyun voltou a falar ainda debochado, sentando
no espaço livre do sofá, e eu não entendi muito bem o que ele quis dizer com
dom. — Me dói admitir que ele é exatamente do tipo que você gosta. Sabe o que
mais? Me lembra um pouco o Taehyung antes de vocês terminarem...
— Se você quer dizer algo, diga. Você sabe que eu odeio esse tom sugestivo.
— O que eu poderia estar sugerindo, gato? Ele parece seu ex. É só isso que eu
quero dizer.
— Longe de mim achar que você é sacana a esse ponto. E aquele menino
parece tão fácil de iludir... — Kihyun continuou, sem se desfazer do tom divertido.
— Mas tem outra coisa que me deixa mais curioso, e é porque eu não consigo
entender porque você veio hoje se sua reunião é na segunda.
— Não posso evitar, você sabe que desperta isso nas pessoas. — Ele
resmungou, ficando de pé. — Vou te deixar sozinho com seu presente, mas ele
ainda parece muito novo... então não faça nada que vá te mandar pra cadeia,
huh? Uma delícia como você não pode ser trancafiada numa cela suja.
— Eu sei até onde devo ir. — Jungkook disse, e ele parecia bem humorado como
nunca o vi antes. — É vergonhoso receber conselhos de uma pessoa como você,
então não faça isso.
Eu ainda estava confuso com a conversa que ouvi e não sabia a que ponto dela
deveria dar mais atenção, mas eu sabia muito bem o que queria fazer depois de
ouvir de Kihyun que Jungkook tinha antecipado sua ida a Gwangsan- gu por
minha causa.
Então ao invés de entrar no banheiro como deveria ter feito muito antes, eu
caminhei de volta até a sala e o vi ainda sentado no sofá, começando a
desabotoar a própria blusa e parando assim que me viu.
— Você não me disse que era seu aniversário — Eu murmurei, porque não sabia
mais o que dizer, ainda parado um pouco longe dele.
Jungkook me olhou sem dizer nada, mas falhou em esconder a surpresa quando
eu dei um passo ainda hesitante em sua direção e comecei a desabotoar minha
blusa exatamente como ele estava fazendo antes que eu aparecesse ali outra
vez.
Minha voz tremia porque eu não sabia o que estava fazendo, mas principalmente
porque Jungkook me olhava daquela forma que deixaria qualquer um sem ar.
Ser seu aniversário era só um pretexto, porque havia um motivo ainda maior que
me fazia querer fazer aquilo, e esse motivo era a felicidade que parecia ter
tomado conta de cada uma das minhas células.
— Feliz... — Senti minha voz morrer quando desabotoei o último botão da minha
blusa amarrotada, exatamente em sua frente, sem coragem de tirá-la de uma
vez porque eu odiava meu corpo. Mas então eu respirei fundo uma duas ou mais
vezes e finalmente me livrei da última peça que ainda cobria a parte superior da
minha pele. — Feliz aniversário, Jungkook...
Então eu mordi meu lábio e abracei meu próprio corpo, tentando esconder o que
precisei juntar tanta coragem pra mostrar.
Eu me desculparia?
A vergonha era tanta que eu nem sabia o que deveria fazer, mas enquanto eu
tentava descobrir, Jungkook segurou meus braços e os forçou a se afastarem do
meu abdômen nu, deixando-o completamente exposto outra vez.
Quando ele deslizou as pontas dos dedos por uma linha imaginária que ia do
meu peito até o cós de minha calça, eu soltei o ar que nem sabia que estava
prendendo e deixei que meus olhos se fechassem enquanto sentia seu toque
contra meu corpo exposto só para ele.
Então ele ficou de pé e nós dois nunca tínhamos ficado tão perto um do outro
como naquele instante.
— Abra os olhos.
Devagar, sentindo que tudo ao meu redor parecia girar, eu deixei que minhas
pálpebras se abrissem outra vez. Então eu vi o rosto de Jungkook tão perto que
me deixou tonto.
— Não tenha vergonha do seu corpo, Jimin — Ele disse com sua mão subindo
por meu pescoço lentamente. — Você é lindo.
Eu precisei puxar o ar com mais força, mas parecia que ele nunca chegaria aos
meus pulmões.
— Mas você é tão... — Eu não completei, porque não precisava. Meus olhos,
minha respiração e cada uma das minhas ações deixavam claro o que eu queria
dizer. Então, ainda um pouco atrapalhado, eu desci meu olhar até a pele exposta
por sua blusa já aberta até a metade e a toquei com as pontas dos meus dedos.
— Deixa eu te ver de novo, Jungkook...
O tempo que ele levou para me dar uma resposta me fez acreditar que meu
pedido seria negado, mas então suas mãos seguraram as minhas e ele as levou
até o primeiro botão ainda fechado de sua camisa.
Seu rosto estava sério, mas seus olhos pretos tinham aquele brilho que
provavam o quanto ele não estava indiferente ao que estava prestes a acontecer.
Então eu tirei botão por botão, até abrir sua blusa completamente e deslizá-la por
seus ombros para que caísse no chão.
E ali estava, outra vez. Aquela tatuagem, seus músculos suaves e a pele que eu
tanto queria tocar desde a primeira vez em que o vi.
E eu o toquei.
Na cabeça da serpente em seu peito, primeiro, para depois descer até os limites
de sua calça ainda com o cinto afivelado.
Eu não entendia como era possível alguém ser tão lindo quanto Jungkook. Era
como se cada pedaço de seu corpo fosse cuidadosamente esculpido, até não
restar uma só parte que não me deixasse sem ar.
Mas eu não queria entender. Eu só queria aproveitar aquelas horas que teria
com ele.
E sem pedir sua permissão ou sequer pensar que ele poderia me rejeitar, eu
passei meus braços para suas costas e o abracei com força, sentindo meu rosto
contra seu peitoral quente.
Uma mão nas minhas costas, a outra em minha cabeça e sua voz ricocheteando
em meu coração quando ele me respondeu. — Eu sei que não é, meu anjo, mas
eu adoro a forma como você me faz sentir.
Talvez eu tenha ficado tempo demais sem esboçar qualquer reação, acho que
com medo de descobrir que Jungkook não estava falando sério.
Então eu fiquei quieto, ainda sentindo o calor de seu corpo contra o meu, porque
se suas palavras não fossem reais, pelo menos eu sabia que aquele abraço era.
Jungkook era quente, seu abraço era apertado e seu cheiro era daqueles que
não são bons só pelo perfume. Tinha algo de natural na forma como o odor de
sua pele se misturava à colônia discreta, assim como foi natural ser tomado por
insatisfação quando ele me afastou com cuidado.
Mesmo assim, eu aproveitei que minha cabeça não estava mais pressionada
contra seu peitoral e busquei seus olhos, finalmente.
Talvez ele fosse um bom ator, mas eu senti meu interior se desestabilizando
ainda mais quando não consegui encontrar sequer um indício de que ele estava
mentindo, então eu me dei o direito de acreditar mais um pouco nele.
— Jimin — Ele me chamou, e só então percebi que seu toque me fez fechar os
olhos quase inconscientemente.
Então eu voltei a olhar para seu rosto, ainda um pouco sonhador, só para sentir
meus olhos quase saltando para fora quando ele me beijou na testa. Depois, ele
fez o mesmo com minha bochecha, e eu senti sua boca se arrastar sobre minha
pele até que seus lábios estivessem próximos ao meu ouvido.
Eu precisei me segurar nele com mais força, ainda aproveitando a proximidade
do abraço recém-interrompido, para que meu corpo não desmontasse no chão.
Jungkook definitivamente nunca fez bem ao meu equilíbrio, fosse ele físico ou
emocional.
— Eu vou te perdoar por ouvir minha conversa com Kihyun, — Ele disse contra
minha orelha, com seu hálito quente se misturando à sensação quase
ameaçadora de sua voz tão próxima - mas nós não vamos sair se você não ficar
pronto logo.
Eu não tinha percebido até então que tinha entregado de bandeja a minha culpa
em ouvir, sem permissão, o que ele e o cara estranho tinham conversado, mas
não foi vergonha que eu senti ao finalmente notar isso.
Foi inquietação, porque Jungkook parecia estar disposto a usar isso como parte
do motivo para me castigar caso eu não o obedecesse e me aprontasse rápido.
— Eu vou ficar pronto rapidinho — Afirmei, falando tão rápido quanto pretendia
me arrumar.
Jungkook já tinha afastado seu rosto do meu, então eu pude ver seu sorriso
pequeno e satisfeito quando ele gesticulou com a cabeça na direção do banheiro
de onde eu nem devia ter saído, e se sentou outra vez no sofá.
— Então vá, anjo — Ele reforçou, deixando que suas mãos começassem a
desafivelar seu cinto da mesma forma lenta que eu já o tinha visto fazer uma
vez. — Você não quer me aborrecer logo hoje, quer?
Eu neguei sem precisar reforçar minha resposta com palavra alguma, precisando
menos ainda de tempo para pensar, porque eu já conhecia a sensação
ameaçadora de ver Jungkook com o cinto de couro nas mãos.
Então eu me apressei ao tomar banho, satisfeito por poder me sentir limpo depois
de passar todo o dia na escola, e depois voltei até a mochila que minha mãe
tinha preparado só para descobrir que ela realmente tinha colocado todos os
itens de higiene básica, como tinha dito, mas sentindo uma inevitável vontade de
morrer quando vi as poucas opções de roupas disponíveis.
Não acho que seja algo restrito somente à minha mãe, mas ela sempre teve um
gosto um pouco controverso quando se tratava de escolher roupas para mim.
Então quando me disse que tinha colocado uma roupa bonita, eu já deveria ter
imaginado que todas as peças ali dentro seriam as mais cafonas do meu armário.
Mas mesmo sabendo que a combinação seria deplorável, eu não tinha tempo
para me lamentar, porque Jungkook estava me esperando e eu não queria que
ele desistisse de me levar para sair por causa da minha demora.
Então me vesti, confirmando que a blusa de velho ficava ainda mais horrenda
quando combinada à calça marrom, e finalmente saí do banheiro abraçando a
mesma mochila para tentar esconder o desastre que era minha roupa.
Quando parei na sala, um pouco ansioso por não saber quanto tempo tinha
demorado para voltar, eu vi que Jungkook tinha vestido outra blusa, uma branca
de botões com mangas curtas e uma estampa de motocicletas um pouco
estranha — mas que ficava muito bem nele, de qualquer forma — e também
trocado sua calça por uma mais justa.
E por mais que seus jeans usuais não falhassem em mostrar como suas pernas
eram fortes, a que ele estava usando levava a imagem de suas coxas a algo
muito além.
Mais que isso, me fez reforçar a já dolorosa certeza de que eu o desejava como
um louco.
Eu encolhi os dedos dos pés sobre o assoalho frio, constrangido, quando ele se
recostou na janela da sala com as mãos escondidas nos bolsos de sua calça e
continuou me olhando, em silêncio.
— Você não parece confortável. — Jungkook explicou, ainda sem sair do lugar.
Então eu levantei minha cabeça, um pouco curioso, e vi que ele parecia estar
tendo problemas em controlar uma risada.
— Parece as roupas que meu avô usava... — Expliquei, ainda sentindo meu
rosto mais quente que o normal quando ele começou a arrumar o outro lado da
minha camisa. - Eu não devia ter deixado minha mãe escolher...
— Não se preocupe com isso, meu bem, — Ele disse depois de dobrar as duas
mangas, e então começou a arrumar a gola que eu nem mesmo tive a decência
de desamassar-você fica lindo de qualquer jeito.
Quer dizer, eu sempre tropeçava nas palavras quando tentava dizer algo
parecido, e acho que essa sempre foi a maior diferença entre nós dois, ainda
acima da lacuna entre nossas idades.
Jungkook tinha confiança em tudo que fazia ou dizia. Eu, por outro lado,
precisava sempre lidar com a insegurança.
Talvez eu tivesse esse pequeno complexo por estar rodeado de colegas que
viviam apontando os dedos para as falhas dos outros. E, com certeza, via isso
ser intensificado porque Jungkook simplesmente tinha esse efeito sobre as
pessoas.
Mas ele tinha outro efeito, que era o de conseguir me fazer pensar demais, ou
não pensar de forma alguma.
E com seu rosto tão próximo do meu e o acúmulo de sensações que ele me
provocou nas últimas horas, foi exatamente a última opção que venceu.
Então eu não raciocinei, como se sequer fosse capaz de fazê-lo. E talvez eu não
fosse, não naquele pequeno instante em que Jungkook reafirmou que me
achava bonito. Definitivamente não quando eu senti a vontade que por tanto
tempo achei que deveria sentir quando estivesse tão perto de uma garota de
quem gostasse.
Mas eu já sabia que uma mulher nunca me faria sentir desse jeito, assim como
tinha a mais absoluta certeza de que eu precisava fazer aquilo.
Então foi um gesto um pouco impulsivo, mas eu fiquei nas pontas dos pés e
beijei a boca de Jungkook, pela primeira vez.
Um beijo tão furtivo que eu mesmo me afastei logo em seguida, com os olhos
ansiosos esperando uma reação, mas até mesmo ele pareceu ser pego de
surpresa, e então nada veio pelos primeiros segundos.
Mas eu não ia, mesmo que minha voz falhasse em transmitir quão sério eu
estava falando.
Talvez por isso, por me ver soar tão inconsistente ao dizer algo tão definitivo,
Jungkook acabou sorrindo.
E eu gostava quando ele sorria daquele jeito meio atravessado, meio perigoso,
mas gostava ainda mais quando seu sorriso era suave como o que ele me
mostrou naquele momento.
— Parece que eu estou sendo muito permissivo com você, — Ele disse, enfim,
enquanto eu ainda esperava com ansiedade — mas não precisa se desculpar
por isso.
Então eu apertei meus lábios, tentando não evidenciar o sorriso enorme que
queria aparecer quando interpretei suas palavras.
Eu senti alguma satisfação ao ver a forma como consegui deixar Jungkook sem
reação, mas muito pouco depois ele me lembrou que eu nunca o deixaria tão
incapaz de agir como ele fazia comigo, com tão pouco esforço.
E a forma como seu sorriso voltou a aparecer também me fez ter a certeza de
que ele sabia que tinha deixado aquilo muito claro.
Mas não era tão fácil deixar Jungkook satisfeito, então eu estremeci quando ele
inclinou um pouco a cabeça, ainda sustentando o sorriso obliquo no canto dos
lábios.
Eu não desviei meu olhar nem mesmo quando precisei inclinar meu rosto para
poder continuar olhando-o por estar tão próximo, mas foi impossível seguir
respirando normalmente quando ele segurou meu rosto com firmeza, mas
também com cuidado.
— Eu tenho que ser mais claro, então? — Ele perguntou, e eu senti o peso do
meu peito subindo e descendo com força quando respondi, um pouco atordoado,
com um balançar de cabeça.
Jungkook então desceu com a mão que estava em meu maxilar até minha nuca
e eu perdi um pouco do equilíbrio quando ele me puxou em sua direção, me
forçando a usar minhas próprias mãos para não deixar meu corpo se chocar
desastrosamente contra o seu.
Ainda com sua mão segurando minha nuca e as minhas espalmadas contra seu
abdômen, ele aproximou o rosto e o deixou dolorosamente perto, com seus olhos
escuros atraindo os meus como um imã atrai metal.
— Eu quero te beijar, Jimin, — Ele disse e então beijou o canto da minha boca
de forma demorada, me fazendo suspirar — mas eu também quero fazer muito
mais que isso com você.
De volta ao estado em que pensar deixou de ser uma opção, eu amassei sua
blusa com minhas mãos e fechei os olhos, ainda sentindo seus lábios tocando
minha bochecha daquele jeito tortuoso.
Jungkook então desceu com a mão que estava em meu maxilar até minha nuca
e eu perdi um pouco do equilíbrio quando ele me puxou em sua direção, me
forçando a usar minhas próprias mãos para não deixar meu corpo se chocar
desastrosamente contra o seu.
Ainda com sua mão segurando minha nuca e as minhas espalmadas contra seu
abdômen, ele aproximou o rosto e o deixou dolorosamente perto, com seus olhos
escuros atraindo os meus como um imã atrai metal.
— Eu quero te beijar, Jimin, — Ele disse e então beijou o canto da minha boca
de forma demorada, me fazendo suspirar — mas eu também quero fazer muito
mais que isso com você.
De volta ao estado em que pensar deixou de ser uma opção, eu amassei sua
blusa com minhas mãos e fechei os olhos, ainda sentindo seus lábios tocando
minha bochecha daquele jeito tortuoso.
— Então faz, por favor... — Eu pedi, num sussurro quase sem forças, quando
movi meu rosto para o lado, tentando fazer minha boca alcançar a sua.
E eu consegui, mas Jungkook não deixou que eu fizesse mais nada, sorrindo
contra meus lábios ansiosos antes que sua mão soltasse minha nuca, sua boca
deixasse a minha e seu corpo se afastasse do meu.
— Eu não gosto de fazer isso, Jimin, mas você entende que eu preciso, não
é?- Ele disse, e eu não entendi do que ele estava falando até que completou.
— Você não pode ouvir minha conversa com outras pessoas e achar que não
vai ser castigado por isso.
Mas dessa vez eu não estava só frustrado. Eu estava irritado. Então estanquei
meus pés no chão antes que eles tomassem a liberdade de me fazer correr até
onde Jungkook estava.
— Eu não quero mais ir. — Respondi, apertando meus punhos com força a ponto
de sentir as unhas machucando minhas palmas.
Jungkook parou de andar outra vez e me olhou em silêncio de uma forma que
quase me fez voltar atrás. Mas antes que eu o fizesse, ele mesmo piscou
devagar e assentiu, com calma.
Eu apertei ainda mais meus olhos e me senti muito mais frustrado que antes,
porque, mesmo irritado, eu queria sair com Jungkook.
Mas o pouco orgulho que eu tinha não me deixou anunciar isso em voz alta. Ele
foi cruel comigo, então pelo menos dessa vez eu não seria manipulado tão fácil.
E tudo que eu fiz, depois de erguer os ombros numa resposta positiva, foi
caminhar até o sofá e me sentar na outra ponta
Dali até que o entregador chegasse com o pedido que ele tinha feito, eu não falei
sequer uma palavra. Apenas dobrei minhas pernas sobre o assento fofo, apoiei
meu queixo nos meus joelhos e esperei em silêncio enquanto Jungkook, que
parecia menos disposto ainda a ceder, se sentou diante da mesa de centro com
alguns papeis e começou a lê-los, quase como se eu não estivesse ali.
Minha cabeça ainda parecia que ia explodir só de pensar que nós poderíamos
ter nos beijado, mas ele parecia completamente alheio a isso e comia com tanta
serenidade que chegava a ser difícil acreditar que nós dois tínhamos
experienciado o mesmo momento.
E nesse ritmo nós terminamos de comer sem que qualquer conversa tivesse sido
iniciada. Quando começou a arrumar a bagunça sobre a mesa de centro,
Jungkook o fez ainda sem falar comigo, mas ainda com a mesma expressão
calma.
Então, sentindo meu orgulho quebrar por ver o tempo passar sem que eu
pudesse ficar perto de Jungkook do jeito que eu queria, acabei por me levantar,
juntando o resto do lixo sobre a mesa e levando-o até a cozinha, onde ele já tinha
começado a lavar os pratos.
Depois de separar o lixo, eu parei apertando uma mão na outra enquanto via
Jungkook enxaguar a pouca louça que tínhamos sujado.
Quando acabou, ele secou as mãos com calma e só então olhou para mim.
— Você pode dormir no quarto. — Ele disse com a entonação que sugeria, ou
exigia, que eu já fosse me deitar, mesmo que não fosse tão tarde assim. —
Amanhã nós vamos sair cedo.
Eu abaixei os olhos, sentindo que toda minha irritação anterior tinha sido
convertida em uma sensação mais mansa e um pouco mais desagradável.
Eu sabia como as coisas funcionavam com ele, então porque tentei fazer do
meu jeito?
Mas quando também voltei à sala, ainda sem saber se seria melhor obedecer
Jungkook em silêncio ou tentar me desculpar, vi que ele não estava ali.
Mas foi quando ele saiu, vestindo nada além de uma calça de pano, que eu
realmente senti que o arrependimento não cabia em mim.
Sentindo meu coração bater furiosamente contra meu peito, como se ele mesmo
estivesse tentando me castigar, eu engoli todo o meu pedido de desculpas
desajeitado e peguei meu pijama dentro da mochila como se essa tarefa
precisasse mesmo de tanto tempo para ser feita.
Depois, eu deixei a bolsa em cima do sofá, para ter um motivo para voltar na
sala, e fui ao banheiro.
Então depois de escovar meus dentes e deixar minha escova ao lado da dele,
eu tirei minha roupa feia, mas não vesti meu pijama porque, antes que o fizesse,
vi a blusa e a calça de Jungkook dobradas sobre uma das prateleiras debaixo da
pia.
Curioso como sempre fui, eu peguei sua blusa com a estampa de motocicletas
e a observei como se olhasse o item mais precioso do mundo. E talvez fosse,
porque ela ainda tinha o cheiro suave dele.
Então, com a blusa me cobrindo até um ponto um pouco acima da metade das
coxas, eu saí do banheiro e fui até a sala, disposto a implorar para que Jungkook
me deixasse dormir com ela.
Atento como era, ele não demorou a perceber o que eu estava vestindo, mesmo
que eu tentasse me esconder.
— Eu posso dormir com ela? — Perguntei, um pouco ansioso, quando vi que
Jungkook não fez nada além de me olhar de um jeito que nunca tinha olhado até
então.
Ele então afastou o corpo da mesa de centro, ainda sentado no chão e ainda me
olhando, e gesticulou para que eu me aproximasse.
Quando parei na frente dele, Jungkook não fez nada além de subir o olhar por
minhas coxas, e então por meu tronco coberto desajeitadamente pela camisa
abotoada, até que finalmente parou em meu rosto.
A única coisa que Jungkook fez foi levar uma de suas mãos até minha perna, e
então subiu com ela até os limites da pele exposta da minha coxa.
Seu olhar ainda pairava sobre mim, analisando cada pequena parte do meu
corpo, como se ele estivesse hipnotizado.
Mas então, quando eu achei que ele finalmente me daria uma resposta, o que
ele fez foi levar sua outra mão à minha outra perna. Quando ele me puxou, eu
perdi completamente o equilíbrio e cai sobre ele, no chão, com um grito sufocado
na garganta.
Com a respiração ainda atrapalhada pelo susto, mas principalmente por sentir
Jungkook me puxando de novo para mais perto até que eu estivesse sentado
sobre suas pernas, eu pela primeira vez entendi sem precisar me esforçar tanto
para isso.
— Você realmente dificulta as coisas pra mim, anjo — Ele disse, e eu gemi
arrastado quando senti meu lábio ser mordido e puxado por seus dentes de
forma lenta.
Por último, Jungkook pressionou sua boca sobre a minha e eu senti que meu
corpo estava prestes a pegar fogo quando ele voltou a falar.
Tomado por todo aquele calor, eu apenas balancei a cabeça para cima e para
baixo desesperadamente enquanto minhas mãos apertavam seus ombros,
tentando dar a ele a certeza de que eu não contaria nada a ninguém.
E esse foi o último fio de consciência que eu tive antes de sentir Jungkook me
beijar de verdade.
O beijo de Jungkook era agressivo, com sua mão se enterrando em minha coxa
até me fazer gemer de dor, seus dedos apertando meu maxilar como se nunca
mais fosse me soltar e sua boca mordendo a minha com força.
E então, pela primeira vez, eu percebi que a dor me fazia tão bem.
— Abra a boca — Jungkook ordenou, baixo, ainda sem afastar seus lábios dos
meus.
Incapaz de ir contra qualquer ordem dele, eu fiz como ele pediu, sentindo um
suspiro oportunista escapar quando minha boca se abriu, mas também sem
tempo para fazer qualquer outra coisa porque Jungkook não esperou para voltar
a me beijar, e dessa vez eu senti sua língua finalmente encontrar a minha.
Era quase impossível acreditar que algo podia ser tão bom quanto aquilo. Porque
mesmo que eu não soubesse muito bem o que fazer, ele não me dava tempo
para pensar e então eu só deixava seus movimentos guiarem os meus.
Mas eu estava sendo ambicioso, e ele empurrou meu quadril para longe quando
parou de me beijar de repente.
Então ele me olhou enquanto minha respiração estava tão acelerada como se
eu tivesse acabado de correr uma maratona, e eu vi que até mesmo ele respirava
com dificuldade.
Meu corpo queria seguir o impulso de voltar para seu beijo, mas a sequência de
acontecimentos anteriores me deu a certeza de que desobedecer nunca seria a
melhor opção.
Então mordi meu lábio, inconformado, mas acabei balançando a cabeça em uma
concordância insegura.
— Você pode dormir com minha blusa. — Foi o que ele disse, a despeito da
atmosfera ainda tensa.
Eu assenti em silêncio pela segunda vez, mas não saí do lugar. Não tinha forças
para isso, e talvez meu corpo só me obedecesse se o comando fosse de me
jogar nos braços de Jungkook outra vez.
Talvez percebendo isso, ou talvez só atento à minha demora, ele insistiu. - Boa
noite, Jimin.
Então eu respirei fundo e juntei todas as minhas forças para obrigar minhas
pernas a se mexerem.
A situação era um pouco desagradável. Eu tinha uma ereção no meio das pernas
e a certeza de que a lembrança do seu toque não me deixaria em paz por muito
tempo, mas ainda assim eu sorri.
— Esse foi meu primeiro beijo. — Eu disse, talvez com as bochechas um pouco
coradas, e me virei para correr até o quarto logo depois.
10 • Duality
Na manhã seguinte, eu descobri que acordar nem sempre é uma coisa ruim.
Então cocei meus olhos sabendo que ainda deveriam estar um pouco inchados,
mas mais preocupado em admirar a maravilha que é Jungkook com os cabelos
molhados de manhã cedinho, sentado tão perto de mim.
Fofo com certeza não seria o adjetivo mais apropriado pra descrever Jungkook
como um todo, mas, naquele momento, existia sim uma qualidade adorável na
forma como os fios escuros caíam úmidos sobre sua testa.
— Obrigado, anjo. — Ele disse e me beijou mais uma vez, no mesmo lugar. —
Agora levante, você precisa tomar café.
Tinha, sim, muita comida, mas eu estava mais impressionado com a forma como
Jungkook parecia preocupado em acertar meus gostos.
Mais que isso, uma olhada rápida no seu relógio de pulso e eu descobri que
ainda eram sete e meia da manhã, mas ele já parecia ter tomado banho, se
vestido, tomado seu próprio café e comprado o meu.
E se acordar tão cedo pra fazer tudo isso não era motivo o suficiente pra me
fazer acreditar que ele não era do tipo de homem que cede à preguiça, lembrar
que a luz da sala continuava acesa até mesmo quando eu acordei, de
madrugada, foi o fato final para me dar essa certeza.
Jungkook sorriu mais uma vez, daquele jeito discreto que já me parecia tão
familiar.
Eu concordei com a cabeça, mesmo ainda achando que ele podia ter
descansado mais, e então fiquei quietinho, um pouco preocupado.
Por me ver parado tempo demais, ignorando até mesmo a comida, ele tirou os
chopsticks de minha mão. Então pegou um pedaço de carne fatiada e levou até
minha boca.
Antes que Jungkook os soltasse, então, eu coloquei minha mão sobre a sua,
num pedido mudo que ele pareceu entender depois de olhar para meu rosto
ansioso.
Ele piscou devagar, paciente, e se sentou ainda mais próximo antes de levar
uma pequena porção de arroz até minha boca.
Nessa manhã, entretanto, eu comi tudo que ele levou para mim e acho que ainda
comeria mais, sem peso na consciência, se ele continuasse dando a comida na
minha boca.
Mas, na verdade, isso teve outro significado para mim. E eu senti carinho e
cuidado na forma como Jungkook o fez pacientemente, até o final.
E então eu tinha mais um item para adicionar à já extensa lista de coisas que me
faziam suspirar por esse homem.
Então ele pegou a coberta fina e jogou sobre minhas pernas, cobrindo-as outra
vez.
Eu continuei parado, ainda mordendo meu lábio com um sorriso insistente, antes
de me livrar do lençol outra vez.
E então fui eu quem olhei para minhas coxas. Sempre foram grossas, alvos de
comentários maldosos e do meu próprio repúdio por elas.
Mas ali, pela primeira vez, eu as aceitei do jeito que eram. Mais que isso, eu
gostei que fossem.
Porque elas pareciam testar o autocontrole de alguém tão comedido como
Jungkook. Porque foram elas, na noite anterior, que fizeram aquele beijo
acontecer.
E eu podia acreditar que tinha sido um sonho, mas as marquinhas dos seus
dedos em minha perna, no lugar onde ele apertou com força - e me fez gostar
tanto, me provavam que tinha sido real.
Lembrando do seu toque agressivo e do seu beijo delicioso, eu deixei meu corpo
tombar para trás, deitado outra vez na cama, e cobri meu rosto com ambas as
mãos enquanto sorria o maior sorriso do mundo.
Só depois de ficar desse jeito pelo tempo que considerei necessário para me
recompor, é que eu finalmente sai do quarto e fui até o banheiro.
Mas antes que eu entregasse a chave a ele e perguntasse outra vez para onde
iríamos, eu senti meus pés travarem por ver aqueles cabelos cor-de-rosa.
— Finalmente! Já tava achando que tinha descido pela descarga — Kihyun disse
ao me ver.
Eu apertei um pouco meus punhos, enciumado por ouvir Jungkook falar sobre
recompensar outra pessoa.
— Ei, Jimin — Kihyun me chamou e me olhou por cima do carro. — Sabe como
ele vai me recompensar?
Eu ouvi Jungkook deixar escapar um som de uma risada mal contida, mas ele
logo disfarçou quando abriu a porta do banco traseiro pra mim.
— Entre. — Jungkook disse. — Quanto mais rápidos nós formos, mais rápido
nos livramos dele.
— Pode não parecer, mas eu tenho sentimentos. Vocês são cruéis. — Kihyun
dramatizou, mas eu não esperei nem um segundo antes de entrar no carro,
porque o argumento de Jungkook me convenceu num piscar de olhos.
Antes de dar partida no carro, entretanto, ele olhou para mim por cima do ombro
com o sorriso de sempre.
Eu estava aliviado por descobrir que Jungkook não o agradaria com nada além
de uma refeição, mas continuei irritado por ter sido chamado de criança.
— Eu tenho dezesseis anos — Corrigi, bufando ainda com os braços cruzados.
— E eu tenho vinte e cinco, então pra mim você é uma criança, sim.
Ele me olhou pelo retrovisor interno logo antes de explodir em risadas, e até
mesmo Jungkook riu da minha resposta malcriada.
— Que grosseiro. — Kihyun disse quando parou de rir, muito tempo depois, e
ficou só com um sorriso no rosto. Ele então olhou para Jungkook quando parou
num sinal vermelho. — Parece que ele só se comporta com você, hein?
Quando ele olhou pra mim com aquele cabelo rosa idiota, eu mostrei minha
língua, ainda emburrado.
Ele riu ainda mais, voltando a prestar atenção na pista quando o sinal abriu.
— Nem eu posso negar, gato — Ele disse, para Jungkook. — O menino é uma
gracinha. Posso apertar as bochechas dele?
— Só dirige, Kihyun.
Mas é claro que ele não ficou calado, e eu fui obrigado a ouvir sua voz por quase
todo o caminho até chegarmos ao nosso destino misterioso.
Eu não disse nada. Só me livrei do cinto e deslizei no banco até parar perto da
janela, por onde comecei a observar, impressionado, todos os prédios da
universidade.
— Você sabe com o que a Bangtan trabalha? — Foi Kihyun quem perguntou, ao
ver como eu parecia confuso.
Kihyun pegou uma peça em cima do enorme balcão, e me deu. Uma coisa
metálica, não muito grande, e eu definitivamente não sabia o que era.
— Ele apontou para o objeto que eu tinha em mãos. — Esse tesouro que você
tá segurando é um protótipo do processador que suporta o novo sistema de
logística de uma distribuidora nacional. Quando ficar pronto, vai ser o melhor do
mercado, e foi minha equipe que desenvolveu.
— Hm... — Eu olhei pro negócio de novo, depois apertei meus ombros, sem
saber o que fazer ou dizer. — Legal...?
Kihyun suspirou e voltou a tirar o tal do processador incrível das minhas mãos,
colocando-o sobre a bancada.
Só por um momento, entretanto. Porque logo depois eu lembrei como era burro.
Nunca conseguiria ingressar em uma universidade, quem dirá sair de la com um
diploma.
Além disso, eu tive que lidar com o desconforto de ficar sozinho com Kihyun nas
duas vezes em que Jungkook se afastou para atender ligações.
Kihyun estava encostado na porta do seu carro, brincando com seus fios
coloridos, e eu me sentei num banco de madeira na calçada para mexer no meu
celular e não precisar olhar para ele.
Mas a tentativa de anular qualquer possível interação foi jogada no lixo quando
ele me chamou. Eu o ignorei de primeira, claro, me fiz de doido e fingi que não
era comigo.
— Ah, você tava falando comigo? — Questionei, meio fingido, e ele arqueou as
sobrancelhas num gesto que não interpretei muito bem, mas parecia que estava
se divertindo.
— Ok, eu posso lidar com isso. — Ele disse, e eu vi sua feição se tornar um
pouco mais séria quando ele olhou para o lado por algum tempo antes de voltar
a olhar para mim. — Eu sei que meu humor pode ser desconfortável pra muita
gente, mas eu não tenho nada contra você, Jimin.
Ele estalou a língua nos dentes, e se impulsionou para caminhar até o banco e
sentar ao meu lado.
— Isso não acontece com frequência, mas eu vou falar sério — Ele disse, e eu
me afastei um pouco com uma careta de puro estranhamento. Então ele
continuou: — O que é isso que tá acontecendo entre vocês dois?
Kihyun olhou para onde Jungkook estava, ainda falando no telefone com alguém,
e depois deixou a cabeça tombar para trás. — Eu posso apostar um rim que
todas essas ligações que ele recebeu são relacionadas ao trabalho. —
— - Ele disse, esclarecendo poucas coisas. Eu conheço o Jungkook há um bom
tempo e sei como funciona a vida dele, Jimin.
Eu apertei um pouco meus olhos, constrangido por não entender onde ele estava
querendo chegar.
Eu olhei para minhas mãos espalmadas sobre minhas pernas, e minha primeira
resposta foi um balançar de ombros um pouco desajeitado. Depois, eu
finalmente comecei a organizar minha fala.
— A vida tem dessas, as vezes. Algumas coisas realmente acontecem sem que
ninguém consiga entender. Acho que vou aceitar que é o caso de vocês dois.
Mas meu momento favorito foi quando ele foi embora. Por mais que sua
companhia tivesse se tornado mais tolerável, eu ainda queria ficar sozinho com
Jungkook.
— Pra onde a gente tá indo agora? — Eu perguntei quando saímos de uma
sorveteria, e logo depois lambi a bola de sorvete de pistache.
Jungkook não comprou nada para ele, porque não gostava de doces.
Era uma informação muito pequena, mas eu fiquei feliz de descobrir mais uma
coisa sobre ele, ainda que essa coisa fosse algo tão inaceitável quanto não
gostar de sobremesas.
— Um lugar que Kihyun sugeriu. — Ele disse, caminhando ao meu lado com as
mãos nos bolsos de sua calça. — Acho que não fica muito longe daqui.
Eu segurei o sorvete com as duas mãos e limpei os cantos da boca com a língua
antes de sorrir, erguendo meu rosto para olhar para ele.
A diferença de altura era tão grande, e eu me perguntava se algum dia seria tão
alto quanto ele ou se pareceria sempre tão pequeno quando estivesse ao seu
lado.
Ele inclinou o rosto suavemente para o lado, com o mesmo sorriso pequeno de
sempre.
Eu nem pensei antes de balançar a cabeça pra cima e pra baixo, ansioso.
— Então vai ser. — Ele disse, e tirou uma de suas mãos dos bolsos de sua calça
e usou as pontas dos dedos para arrumar os cabelos em minha testa.
Depois ele segurou uma de minhas mãos e a beijou nas costas antes de
entrelaçar nossos dedos e me puxar fraquinho para que voltássemos a caminhar.
O céu estava limpinho, sem nuvens, e o sol do meio de tarde ainda brilhava bem
forte, mas nós nos escondemos debaixo da sombra de uma árvore bem perto de
um lago.
Outras pessoas se reuniam em outros lugares, mas ali parecia que éramos só
nós dois. Ou talvez eu que ignorasse o resto do mundo, porque Jungkook era a
única coisa que me interessava.
Quando ele sentou sobre a grama verde e se encostou no caule largo da árvore,
eu caminhei para me sentar ao seu lado, mas Jungkook me puxou e me fez
sentar entre suas pernas.
— Fique aqui. — Ele disse quando me puxou para trás, até que minhas costas
se apoiassem em seu peitoral.
Suas pernas estavam dobradas de cada lado do meu corpo, e eu senti meu
coração desandar de vez quando ele me abraçou.
Eu estava tão feliz que poderia sair correndo e dando cambalhotas por todo
aquele parque, mas eu não queria perder nem um segundo daquele abraço e do
calor de Jungkook, então fiquei quietinho, quase como se tivesse medo de que
qualquer movimento pudesse me afastar dele.
Por algum tempo que não pensei em contar, nós ficamos em silêncio, e tudo que
se ouvia era o som de um grupo de amigos jogando em algum lugar afastado e
do vento nas folhas acima de nós dois.
Aquela sensação era tão incrível. Meu coração ainda batia desesperado, e
minhas mãos suavam, mas eu me sentia em paz.
— Quando eu era mais novo, minha mãe dizia que eu podia ter o mundo na
palma da minha mão. — Confessei, sem saber porque o estava fazendo. — Hoje
em dia ela não diz mais. Acho que percebeu que minhas mãos são pequenas
demais pra isso.
Eu sorri, mas era um sorriso um pouco frustrado. — Eu não sou bom em nada,
nem sei o que fazer com minha própria vida depois que sair da escola... pessoas
como eu não conquistam o mundo.
— Pessoas como você não conseguem ver o quanto são incríveis. É diferente,
meu bem.
Eu me encolhi um pouco mais. Jungkook realmente não sabia que estava falando
com uma pessoa que não tem talento nenhum, nem alguma meta mais nobre
que conseguir dormir oito horas por dia.
Ele parecia acreditar que existia algum potencial escondido dentro de mim, mas
eu sempre pude dizer, com certeza, que não existia.
E eu tive medo de que essa ideia errada fosse o único motivo que ele tinha pra
parecer tão interessado em mim.
— Esse não é o tipo de coisa que eu ou sua mãe vamos conseguir provar, anjo.
- Ele disse, ainda calmo. — Mas espero que um dia você consiga ver tudo que
eu vejo quando olho pra você.
O que Jungkook via em mim? O que tinha pra ser visto em uma pessoa como
eu?
— E ser ruim em algumas coisas não faz com que você seja ruim em tudo. —
Ele continuou, enquanto eu tentava aceitar cada uma de suas palavras. —
Lembre que eu não conseguia dizer meu próprio nome até os cinco anos, mas
até que me saí bem em outros aspectos da vida.
Eu não queria, não queria mesmo, mas foi impossível conter a risada alta que
escapou quando ele terminou de falar. Até cobri a boca com as duas mãos, mas
não deu jeito.
Mas foi quando Jungkook beijou meu pescoço e eu senti seu sorriso contra
minha pele que percebi que, talvez, fosse exatamente aquilo que ele queria.
Então eu me mexi sobre a grama até sentar de frente pra ele, ainda sorrindo.
— Eu nunca ouvi você dizendo seu nome — Eu falei, risonho. — Deixa eu ouvir.
Quero ver se você já sabe dizer certinho mesmo.
Eu sorri de novo, ainda mais, mas só até perceber a forma como Jungkook
estava me olhando.
Posso jurar que os olhos dele estavam brilhando e ele tinha aquele sorriso de
quem sorri quase sem perceber. E ele estava assim enquanto olhava para mim.
Então eu pensei, pela primeira vez. Pensei muito bem, enquanto deixava seu
olhar prender o meu, mas no fim o resultado foi o mesmo de quando me deixei
agir por impulso.
Eu me ajoelhei ainda entre suas pernas, apoiei minhas mãos em seu peitoral e
beijei sua boca.
Dessa vez, entretanto, eu não me afastei logo depois. Deixei meus lábios contra
os seus, mas sem tentar nada além disso, porque sei que Jungkook não deixaria.
Quando ele afastou seu rosto do meu, sem pressa, eu senti sua mão em minha
bochecha fazendo aquele carinho que me deixava sem reação.
— Mais ainda.
Ele piscou daquela forma lenta, e então me puxou até que eu me aninhasse de
novo entre suas pernas, dessa vez com a lateral do meu corpo pressionada
contra seu tronco e minha cabeça apoiada em seu ombro.
Ele suspirou com as pontas dos dedos deslizando por meu braço, me fazendo
arrepiar.
Eu não estava mais sorrindo, mas me sentia a pessoa mais feliz do mundo.
Mas só até o sol começar a se pôr. Quando o céu ficou colorido com aqueles
tons de laranja, Jungkook disse a única coisa que eu não queria ouvir.
— Nós precisamos voltar.
Eu sabia que nós não voltaríamos só para o hotel. Eu voltaria para Nam-gu.
Então por todo o caminho de volta, que nos concordamos em fazer a pé porque,
sem precisar dizer coisa alguma para que soubéssemos, queríamos ficar o
máximo de tempo possível juntos, eu segurei a mão de Jungkook com ainda
mais força que antes.
— Pegue suas coisas, anjo. O carro que vai te levar já está chegando —
Jungkook disse, mas eu levei mais que dez segundos para me mover.
Eu não sabia o que aquilo significava. Eu ficaria mais três meses sem ver, sem
tocar e sem ouvir a voz de Jungkook? Ou eu nunca mais o veria?
Jungkook me fez sentir as coisas mais incríveis e nós não passamos mais que
vinte e quatro horas juntos. E eu não conseguia parar de pensar em quanto
tempo eu ficaria longe dele e longe de cada uma dessas sensações.
Minha vida sempre foi sem graça, presa à inércia da mesmice. Mas depois que
eu o vi pela primeira vez, ainda mesmo antes que ele me dissesse a primeira
palavra, tudo pareceu desandar da melhor forma possível.
Como eu li uma vez em algum lugar, depois que se anda de montanha russa,
ninguém quer voltar pro carrossel.
Não como chorei quando meu coelho fugiu ou quando meu avô morreu. Era um
choro silencioso, por mais doloroso que fosse.
— Me deixa ficar mais um pouco com você, por favor, por favor! — Eu pedi, me
agarrando a ele com força quando ele se ajoelhou ao meu lado e me abraçou,
ainda em silêncio.
Ele não disse nada por algum tempo, enquanto apertava seus braços ao meu
redor.
— Eu não quero deixar você ir, meu anjo - Ele disse, finalmente. — Mas eu não
consigo me concentrar com você por perto.
Eu sabia que Jungkook tinha muito a fazer. O que Kihyun disse, e a forma como
eu percebi que ele trabalhou durante a madrugada enquanto eu dormia, me
faziam ter certeza de que ele já tinha feito seus esforços pra poder passar um
tempo comigo.
Mesmo assim, eu era egoísta e queria mais. Então eu não o soltei por muito
tempo, até que ele me obrigasse a isso quando seu celular apitou com alguma
notificação.
— O carro já chegou.
Eu apertei o tecido de sua blusa entre minhas mãos enquanto meu peito subia e
descia com tanta força.
— Promete que você vai voltar. Eu só vou embora se você prometer, Jungkook
Eu balancei a cabeça num gesto fraco, secando as lágrimas com as costas das
minhas mãos.
Quando paramos diante do carro, ele abriu a porta para mim, me entregou
minhas coisas e falou alguma coisa com o motorista, mas eu não prestei atenção
porque só conseguia olhar para seu rosto, tentando gravar todos os detalhes
desde o pequeno sinal embaixo de sua boca até sua cicatriz.
Ele então olhou para mim quando eu já estava sentado, abraçando minha
mochila.
Eu fechei os olhos com força e senti minha respiração falhar quando ele beijou
minha mão antes de beijar minha testa.
— Até a próxima vez, meu anjo. — Foi a última coisa que ele disse, antes de
fechar a porta.
— Para o carro, por favor — Eu pedi como se minha vida dependesse daquilo.
— Eu preciso voltar, para o carro, por favor!
Então eu abri a porta e pulei para fora na mesma hora, correndo todo o caminho
de volta até minhas pernas doerem.
Mas ele estava na recepção vazia do prédio, encostado na parede com os olhos
fechados e a cabeça tombada para trás.
Mesmo que estivesse a ponto de desmontar, eu voltei a correr e só parei quando
meu corpo se chocou no seu e eu apertei meus braços ao redor de sua cintura
enquanto pressionava meu rosto contra seu peitoral.
— Desculpa. — Eu suspirei contra sua roupa, sentindo seu cheiro tão gostoso e
tão único. — Eu só precisava te abraçar mais uma vez.
Depois que Jungkook me deu o que eu pedi, eu precisei juntar todas as minhas
forças para me despedir dele outra vez.
Eu falei com Jungkook por mais algum tempo, até que ele finalmente precisou
se despedir para voltar a fazer qualquer coisa relacionada ao seu trabalho.
No mês que se passou desde que nos despedimos em Gwangsan-gu, isso meio
que se tornou uma rotina. E eu falo sobre trocar mensagens com ele, às vezes
algumas ligações furtivas, mas também sobre minha inabalável preocupação
com os seus horários.
Acontece que eu descobri que suas poucas horas de sono quando estávamos
naquele flat não foi um caso isolado. Trabalhar ou estudar até tarde em casa e
acordar cedo para voltar ao escritório parecia ser um evento bastante
repetitivo, e não era raro que Namjoon passasse a noite em seu apartamento
para que trabalhassem juntos.
Mas mesmo não podendo estar por perto, Jungkook me dava o que podia dar.
A cada dia que passava, eu descobria algo novo sobre ele. Eram coisas
pequenas, como sua incapacidade de usar emojis - algo que eu considerava tão
adorável quanto cômico, ou até mesmo detalhes sobre sua família.
Eu também sabia que ele sempre perguntaria como foi o meu dia, mas nunca
me condenaria por me lamentar por coisas pequenas demais.
"Que problema um adolescente que só estuda pode ter?" era o tipo de pergunta
que eu sempre ouvia, mesmo de pessoas como minha mãe. Estar perdido sobre
o que fazer quando o mundo inteiro diz que você deve ser alguma coisa, falta de
auto aceitação e se ver preso a um ambiente como uma escola que te faz se
sentir o pior ser humano por não ser o melhor aluno não são problemas de
verdade, não se você não tiver contas pra pagar.
Mas Jungkook não pensava assim. Ele nunca tirava o meu direito de estar triste,
frustrado ou irritado e eu me sentia livre porque, com ele, eu não precisava
reprimir essas coisas e fingir que estava tudo bem.
Mais que isso, eu acreditava que o veria. Em poucas horas seria meu aniversário
de dezessete anos, e eu passei os últimos dias que o antecederam dizendo a
mim mesmo que ele daria um jeito de ir me ver.
Nas primeiras horas do dia, não tinha sinal algum de Jungkook nem na minha
caixa de mensagens nem na minha cidade, mas eu não deixei que isso me
abalasse.
Mas o dia chegou à sua metade, depois avançou mais um pouco, e Jungkook
ainda não tinha enviado sequer uma mensagem.
Nada.
Então suspirei, acreditando que ele estaria me esperando quando minhas aulas
acabassem, guardei o aparelho novo na mochila e fui até a quadra fechada, onde
estávamos tendo as aulas de educação física porque as temperaturas já tinham
começado a cair e era desconfortável ter as aulas no campo aberto.
Depois de deixar minhas coisas junto com a dos outros, eu olhei ao redor e todos
estavam se alongando em duplas, como sempre. Como Yuta e Taeil sempre
faziam juntos, eu costumava me juntar com algum outro colega que também era
a última opção do próprio círculo de amigos.
Mas dessa vez alguém tinha faltado, então a única pessoa disponível era a que
sempre ficava sozinha.
Yukwon.
Eu pensei bem antes de fazer isso. Me alongar sem uma dupla não seria
impossível, é claro, então eu podia sentar em algum lugar perto dos meus amigos
e me aquecer sozinho. Mesmo assim, eu passei direto por eles e fui até o final
da quadra, onde Yukwon estava.
Uma vez Jungkook me disse, não de forma tão direta, que eu não deveria me
forçar a ficar ao lado de pessoas que não me faziam bem.
Quando me sentei diante dele, abri as pernas e juntei meus pés aos seus, como
todos os outros faziam, e estiquei meus braços para que ele segurasse, mas ele
não fez nada além de me olhar com as sobrancelhas arqueadas.
— Hm, alongamento?
— Isso eu sei, quero saber porque você resolveu fazer comigo. — Ele rebateu,
e fez uma careta quando forcei demais. — Devagar, caralho!
A verdade é que eu estava com medo, e muito. Mas também estava cansado de
ser sempre tão passivo em relação a tudo na minha própria vida.
— De onde veio isso? — Ele riu, de novo. — Parece ter sido uma decisão muito
impulsiva.
Yukwon me olhou com uma expressão um pouco neutra, por um momento, antes
de dar de ombros com um sorriso.
— Você quem sabe. Mas se você se arrepender de ser visto comigo, ainda dá
tempo de fazer uma pegadinha e fingir que só veio até aqui pra me humilhar.
— Verdade, mas você morre com a reputação limpa. — Ele sorriu, provocativo,
e eu revirei os olhos também rindo um pouco.
— O macho da tatuagem vem pra cá? — Ele perguntou, com uma careta de
satisfação. Se você perder a virgindade, aí sim eu te dou parabéns.
Eu apertei meus olhos e acho que corei antes de ficar de costas para iniciarmos
outro alongamento.
Yukwon só riu, e puxou meus braços para trás antes de começarmos outra
conversa.
— E daí digo eu! — esbravejei, sem pensar direito. — O que você tem a ver com
quem ele transa ou deixa de transar? Isso não diz nada sobre o caráter de uma
pessoa!
Eu esperava que ele ou Yuta rebatessem minha afirmação tão fervorosa, mas
esperava que fizessem isso com palavras e não que Taeil me empurrasse pelos
ombros, como se eu fosse a pessoa mais nojenta que ele já conheceu.
— Você deve ser viado também. — Taeil ignorou o susto que até mesmo Yuta
levou, e acho que ele avançaria em mim se não fosse o professor nos olhando.
— Algum problema aí? — Ele perguntou, com a voz grossa já anunciando que
estaríamos com problemas caso entrássemos em uma briga.
Yuta me olhou, com os olhos apertados, antes de negar com a cabeça e seguir
para o vestiário também.
Enquanto isso, eu continuei sentado ali, sozinho, até que finalmente juntasse
coragem para me levantar, ainda assustado. Eu esperava, sim, que eles me
condenassem por estar falando com Yukwon, mas nunca imaginei que Taeil
tentaria me agredir.
Isso tirou parte da minha empolgação para o resto do dia, e eu fui o último a
deixar o vestiário, ainda triste com o que tinha acontecido.
Yukwon sumiu logo depois que a aula acabou e eu acreditava que já tinha ido
embora, mas quando sai da escola, depois de tomar meu banho e vestir o
uniforme limpo, ele apareceu em minha frente.
Um filete de suor escorria pela lateral de sua cabeça e sua respiração estava um
pouco acelerada, como se ele tivesse corrido, mas sua expressão era de tédio.
Então ele me estendeu um cupcake todo enfeitado.
— Não vou dar parabéns, mas toma isso aqui. — Ele disse, fingindo que não era
nada demais.
Eu peguei o bolinho, um pouco surpreso porque o único lugar que vendia
cupcakes por ali era a loja de uma estrangeira, e ela não ficava tão perto da
escola. Yukwon realmente foi até lá, correndo, só pra comprar aquilo pra mim.
Então eu passei tempo demais olhando para a cobertura colorida, antes de dar
um pulo e abraçar Yukwon como se nós tivéssemos intimidade para aquilo.
Eu ri, e assenti. — Ok, então eu vou comer depois de tirar uma foto pra sempre
lembrar como ele era bonitinho antes de virar cocô.
Ele revirou os olhos e eu vi que tentou não rir. — Faça como preferir. Eu tenho
que ir agora. Aproveite seu macho da tatuagem e lembre de fazer a chuca se for
dar pra ele.
Eu assenti, ainda com um sorriso enorme. Eu sabia lá o que era chuca, mas
decidi pesquisar quando chegasse em casa, porque Yukwon vivia falando sobre
isso.
Então eu me despedi dele, e fui todo o caminho admirando o cupcake que tinha
em mãos. Eu realmente ia ficar com pena de comer, mas também parecia tão
gostoso.
Quando cheguei em casa depois de ser recepcionado por Hyelin, que fez a maior
festa quando me viu e me deu um isopor cheio de pés de galinha apimentados
— e que ela provavelmente conseguiu de graça na barraca do namorado, eu
finalmente entrei em meu quarto e a primeira coisa que fiz, antes de ver os outros
presentes que estavam em minha cama, foi pegar meu celular.
Eu suspirei. A noite já estava chegando, e ele continuava sem dar sinal de vida.
Então sentei na minha cama e comecei a abrir os presentes que tinham chegado
enquanto eu estava na escola. Um deles era um pijama que com certeza ia ficar
grande demais em mim, provavelmente enviado por uma tia que nunca me via e
não tinha a menor noção do meu tamanho. O outro era um cartão estampado
com dois gatos cheios de glitter e com dinheiro dentro, o tradicional presente da
minha avó.
O último era uma caixinha com a embalagem simples e marrom dos correios.
Não tinha o remetente, então eu não sabia quem tinha enviado.
Quando rasguei o pacote e abri a caixa de papelão, vi que dentro dela tinha outra
caixinha, mas essa era de veludo, um pouco comprida. Ainda curioso, eu abri a
tampinha preta e vi uma pulseira de prata com um pingente delicado no formato
de uma miniatura do globo terrestre.
Ela era tão bonita, mas acabou ficando um pouco grande, então eu estiquei meu
braço para baixo para ver se ela era grande o suficiente para conseguir passar
por minha mão, e vi a pulseira deslizar até parar na circunferência do meu punho,
com o pingente pendurado no início da minha palma.
Eu girei meu punho para cima ao fechar os dedos sobre o pingente, segurando-o
exatamente ali. Quando afrouxei o aperto sobre ele, eu sorri, encantado, vendoa
Terra tão pequenininha sobre minha mão.
Aquele era um presente tão bonito que eu mal podia acreditar que tinha vindo
sem um cartão identificando quem o tinha enviado, então eu chacoalhei a caixa
maior e soltei um gritinho de vitória ao ver um bilhete cair de lá de dentro.
Não tinha um nome, mas, naquele ponto, eu não precisava mais de um. Ao ler
as duas frases escritas ali, eu soube exatamente quem tinha enviado aquele
presente para mim, assim como senti meu coração bater mais forte ao perceber
que a corrente era propositalmente maior que o ideal.
Eu perdi a conta de quantas vezes li aquele bilhete. Meus olhos estavam um
pouco arregalados, úmidos, e meu peito parecia pequeno demais para meu
coração acelerado.
que significavam tanto para mim. E ali, com nada além de um presente e um
bilhete curto, ele me desestabilizou completamente.
Porque, só com isso, Jungkook fez o mundo inteirinho caber na palma da minha
mão.
Eu fiquei tempo demais perdido naquilo, com meus olhos indecisos e incapazes
de focar em algo quando as lágrimas se acumulavam cada vez mais. Então eu
pisquei, até sentir a primeira escorrer, morna, por minha bochecha. Mas nem
essa, nem as que vieram depois, conseguiram aliviar o aperto na minha garganta
ou no meu peito.
Mais do que em qualquer outra vez, eu queria que Jungkook estivesse por perto.
Eu queria correr para os braços dele, queria agradecer, da minha forma
desajeitada, por aquele presente que significava tanto para mim. Queria sentir o
frio na barriga quando ele me chamasse de meu anjo e beijasse minha testa. Eu
o queria ao meu lado como nunca quis algo em minha vida, mas ele continuava
a mil quilômetros de mim.
Meu lábio tremia um pouco e eu precisei usar minhas mãos para tentar secar
meus olhos antes de alcançar meu celular. Eu sabia que aquele não era o melhor
horário para ligar, mas eu precisava tanto ouvir sua voz que não hesitei antes de
apostar na pequena chance de que ele poderia me atender.
Eu senti um sorriso pequeno reivindicar seu lugar, mesmo que meus olhos ainda
ardessem com a vontade de continuar chorando.
Era uma sensação tão confusa. Ouvir sua voz me deixava imensamente feliz,
mas me entristecia na mesma intensidade.
— Oi... — Eu respondi, depois de algum tempo respirando fundo para que minha
voz não soasse como um miado
— Não tem problema. — Ele disse, e a ligação ficou em silêncio antes que eu
ouvisse sua voz novamente. — Já recebeu?
De início, eu não ouvi nada além de sua respiração. Quando ele finalmente me
respondeu, eu apertei ainda mais o telefone contra meu ouvido, fechei meus
olhos com força e senti minhas narinas dilatadas enquanto tentava controlar
aquela vontade de voltar a chorar. A cada segundo que passava, a cada palavra
que ele dizia, eu sentia que meu coração era esmagado mais um pouco.
Ainda abraçando meus joelhos, eu não consegui dizer nada por um tempo longo
demais.
Por que ele não podia se irritar com a tristeza que eu não tentei disfarçar nem
mesmo enquanto agradecia? Por que ele não condenou minha insatisfação
diante dos seus esforços de pensar num presente tão bonito? Por que ele não
podia fingir que não se importava, e que eu era o único bobo chateado com a
distância entre nós dois?
Se ele fizesse alguma dessas coisas, qualquer uma delas, eu poderia me
convencer de que não valia à pena me entregar tanto a todos aqueles
sentimentos. Mas ele sempre dizia a coisa certa.
Eu bati eu punho contra a testa, num gesto pouco brusco. Então respirei fundo
mais uma vez.
Jungkook não me devia nada. Ele vivia em Seul, uma cidade com muito mais
distrações que Nam-gu, e era óbvio que seu tempo livre nem mesmo se
comparava ao meu, sem falar que com certeza estava cercado por pessoas
muito mais interessantes que eu. Mas ainda assim, mesmo com todos os motivos
para não gastar seu tempo comigo, Jungkook o fazia.
Ele ouvia meus relatos dolorosamente detalhados sobre coisas que não
despertariam o interesse de nenhum ser humano, tinha paciência para minhas
crises de auto estima e fazia coisas como me ajudar com as atividades de inglês
da escola.
E no fundo, mesmo que eu estivesse magoado por ter acreditado por tanto tempo
que ele iria me ver no meu aniversário, eu sabia que ele o faria, se pudesse.
Então mesmo que eu ainda sentisse sua falta a ponto de quase ignorar todas as
coisas boas que ele sempre me fazia sentir, eu respirei fundo quantas vezes
foram necessárias até que conseguisse acalmar aquela confusão de
sentimentos, e no fim deixei que meu sorriso pequeno voltasse, subjugando a
tristeza anterior.
— Não muitos, mas o seu competiu com um celular novo, um cupcake muito
bonitinho, uma porção enorme de pés de galinha e um pijama que nem vai caber
em mim. Ah, e com dinheiro também...
— Então a gente vai ver o pôr do sol no lago e também vai no parque de
diversões!
Eu continuaria a falar e diria todas as outras coisas que queria que fizéssemos
juntos, mas a voz de outra pessoa do outro lado da linha fez a minha morrer aos
poucos, porque eu sabia que Jungkook estava no trabalho.
— Tudo bem... — Eu disse, mas não desliguei. Eu sempre deixava essa tarefa
para ele, na verdade.
Quando achei que a ligação já tinha sido finalizada, eu ouvi sua voz outra vez.
Ele disse baixo, depois de um suspiro que eu não esperava ouvir,
— Eu também queria poder te ver hoje, meu anjo. Sinto muito por isso.
Eu me encolhi um pouco mais, sem saber se aquilo me deixava mais feliz ou
mais triste, mas antes que eu pudesse descobrir, ele se despediu de uma vez,
Eu ainda segurei o celular contra meu rosto por algum tempo, decidindo que eu
estava tão triste quanto feliz. Mas não tinha muito o que fazer sobre isso, então
eu sai da cama e me sentei no chão, com os pés de galinha de Hyelin e o
cupcake de Yukwon.
❆❅❄❅❆
4 meses depois
Em resposta, ele riu. Aquela risada alta e exagerada que já tinha se tornado uma
conhecida intima, assim como todas as suas manias estranhas.
— Eu disse pra você não xingar na frente da criança, Yu, agora olha aí! O Jimin
não para mais de falar palavrão! — Taeyeon, a irmã mais velha dele, resmungou
enquanto assistia nossa disputa fervorosa na máquina do fliperama.
Eu chutei a perna dele, e dois segundos depois o som irritante do jogo anunciou
minha derrota.
— Merda! — Resmunguei, lançando meu olhar mais cheio de ódio para o
demônio que, depois daqueles meses, acabou se tornando meu melhor amigo.
— Você roubou!
— Você roubou — Ele me imitou, com a voz fina. — Você que é um mau
perdedor, seu enrustido.
Eu revirei os olhos e cruzei os braços, cedendo meu lugar a Taeyeon para que
ela competisse com o irmão trapaceiro. Na verdade, a desonestidade devia ser
de família, porque ela também era uma ladra.
Ele se encostou ao meu lado, e olhou para mim sorrindo, divertido com a
vivacidade dos dois.
Nesse ano, quando ingressamos no último ano letivo do ensino médio, Jeonghan
apareceu na nossa turma, completamente perdido e sem conhecer ninguém,
depois de se mudar para nossa cidade por causa do emprego da mãe.
Talvez por não saber que eu e Yukwon não éramos bem vistos na escola, ele se
aproximou de nós dois. De uma forma ou de outra, nunca pareceu ter se
arrependido dessa escolha.
Jeonghan riu ainda mais, e deu um tapinha no meu braço antes de apontar para
outra máquina.
— Treina comigo. — Ele disse. — Daí na próxima vez você acaba com ele.
Eu sorri, empolgado, e corri para colocar uma ficha. Então nós passamos mais
algum tempo naquilo, como era nosso novo costume de sexta feira.
— Eu vou levar ela, depois volto pra humilhar mais. — Yukwon disse antes que
os dois saíssem do fliperama juntos.
Como os pais deles tinham morrido alguns anos antes, Taeyeon trabalhava
como vendedora de uma loja durante o dia e como barista numa boate nos fins
de semana, para poder pagar as contas,
Eles cuidavam bem um do outro, apesar de tudo. Então Yukwon sempre a
acompanhava até a boate e só depois voltava para jogar mais com a gente, e
nesse tempo eu sempre ficava sozinho com Jeonghan.
O que as vezes, só às vezes, era um pouco estranho, porque ele era muito
carinhoso comigo e eu nunca sabia se aquilo era só afeto de amigo ou algo a
mais.
Mas dessa vez, entre um jogo e outro, ele precisou se afastar de mim para
atender uma ligação de sua irmã que ainda morava na sua cidade natal, e a
moça falava tanto que eu já sabia que ficaria sozinho por um bom tempo.
Impaciente, eu gesticulei para ele dizendo que ia até o banheiro, e fui até lá
sozinho.
Nesse tempo que passou, nós ainda não tínhamos nos visto de novo, e as coisas
ainda se resumiam a mensagens e ligações. Em alguns dias era especialmente
difícil, mas eu já tinha começado a me acostumar com aquilo.
Mesmo assim, eu ainda gostava de ouvir sua voz através das ligações e de ver
suas tentativas falhas de usar emojis nas nossas mensagens, então eu disquei
seu número e fiquei parado, observando meu reflexo no espelho enquanto
esperava ele me atender.
— Cadê seu cãozinho de guarda? — A voz que eu ouvi não foi a de Jungkook,
e sim a de Taeil, que entrou no banheiro.
Yuta ficou parado na porta, e ele parecia tenso, alternando seu olhar entre nós
dois.
Mas Taeil me segurou pela manga do uniforme antes que eu sequer chegasse
perto da porta, e me empurrou para mais dentro do banheiro outra vez.
— Calma, Jimin, você não gosta mais de conversar com seus amigos? — Ele
disse, e eu recuei quando ele se aproximou, tentando me intimidar.
— Você mesmo disse que eu não posso mais ser seu amigo. Me deixa em paz,
Taeil.
— Eu só disse isso porque você resolveu que seria uma boa ideia começar a
andar com aquela aberração do Yukwon. — Ele disse, me empurrando pelos
ombros com as pontas dos dedos, até que eu sentisse minhas costas contra a
parede. — E nem me faça falar daquele novato. Qual é a daquele cabelo de
mulherzinha que ele tem?
Eu até mesmo esqueci que estava ligando para Jungkook, e deixei minha mão
cair ao lado do meu corpo, segurando meu celular com força.
— Não fala assim deles! — Eu disse, enraivado, mas também acuado pela forma
como ele me olhava.
— Senão o que?- Ele me empurrou de novo, dessa vez com mais força. — Hein,
Jimin? O que é que você vai fazer?
— Taeil, deixa ele em paz — Yuta insistiu, como se tivesse a mesma certeza
que eu tinha de que ele não pararia por ali.
— Deixa de ser frouxo, Yuta.- Ele disse, sem parar de olhar pra mim. — Só fica
de olho na porta e não deixa ninguém entrar aqui até eu terminar de me resolver
com essa bicha.
Eu arregalei ainda mais meus olhos, assustado e com raiva. Levado por essas
duas coisas, eu o empurrei com toda a força que consegui usar, chocando meu
punho e meu celular contra seu peito.
Então ele sorriu, mas logo depois sua feição se transformou completamente e
virou ódio puro, logo antes de eu sentir o soco que ele deu na minha barriga, tão
forte que me tirou o ar. Eu resfoleguei, assustado e com dor, e nem pude me
recuperar antes que ele repetisse o golpe.
— Eu não respeito viado — Ele disse, e me segurou pela gola da camisa quando
eu senti minhas pernas fraquejarem, mas me soltou assim que me deu o terceiro
soco.
— Eu não vou fazer parte disso! — Eu ouvi Yuta dizer, com a voz trêmula, e
quando olhei na direção da porta, ele não estava mais lá.
Não. Eu o conhecia bem. E também conhecia Taeil o suficiente para saber que
ele ainda não tinha acabado.
Ainda que eu não o conhecesse, ele me olhava com tanto ódio que eu poderia
concluir isso mesmo se não soubesse nada sobre ele.
Aquilo não era justo, muito menos fazia sentido. E eu estava assustado, então
quando ele me segurou pelo pescoço e bateu minha cabeça contra a parede,
meu primeiro soluço escapou, e logo depois eu já estava chorando.
— Você sempre foi um bebê chorão mesmo! — Ele bradou, como se meu choro
o irritasse ainda mais, e me jogou no chão.
Eu senti meu corpo já dolorido sobre o azulejo frio e levantei meus olhos até ele
quando o vi ficar de pé em minha frente.
— Mas não se preocupa, não, Jimin. Porque eu vou te arrebentar todo, até você
virar homem de verdade — Ele disse, e então me chutou de novo. E de novo, e
de novo, e de novo.
12 • Con Clavi
Quantas vezes Taeil me chutou até que a porta do banheiro fosse aberta?
Yuta estava com ele. Minha visão estava completamente embaçada, com
pontinhos pretos salpicando sobre a imagem borrada que eu tentava decifrar,
mas eu o vi. Ele voltou, junto com Jeonghan, e foi preciso que os dois
segurassem Taeil para que ele se afastasse de mim.
— Para com isso, cara, pelo amor de deus! — Yuta pediu enquanto parecia usar
toda sua força para conter Taeil sozinho, já que Jeonghan tinha corrido até se
agachar na minha frente.
Não podia ser. Aquilo não podia estar acontecendo comigo. Taeil nunca faria
aquilo com uma pessoa que cresceu ao lado dele... não é?
— Já chega! Olha o que você fez com ele! — Yuta gritou, com a voz tremendo.
Quando olhei na direção dos dois, vi que Taeil respirava com dificuldade e seus
olhos me analisavam com o mesmo sentimento ruim de antes, como se eu fosse
a pior coisa que ele já olhou.
— Ele mereceu!
Quando ele passou um braço por baixo das minhas pernas e outro por baixo do
meu pescoço, eu gemi baixinho pela dor, mas deixei que ele me carregasse para
fora dali.
Ao passarmos pelos dois que um dia chamei de amigos, eu escondi meu rosto
em seu peitoral e amassei sua blusa entre meus dedos pequenos, sentindo
aquela dor que era ainda maior que a física.
E por mais que não o visse quando passamos ao seu lado, eu senti todo o
desprezo em sua voz quando Taeil falou comigo, pela última vez.
Jeonghan me levou para casa. Ele chamou um táxi e depois me carregou através
da recepção até me deixar no sofá da minha sala. Eu ouvia sua voz me dizendo
que estava tudo bem, que Taeil ia pagar por ter feito aquilo comigo, mas ao
mesmo tempo eu não as entendia. Era como se o som estivesse distante. Meu
corpo estava ali, perto dele, mas minha mente estava longe demais.
— Você quer tomar um banho? — Ele perguntou e a única coisa que consegui
fazer foi levantar meus olhos até encontrar seu rosto preocupado. Aquilo não era
uma confirmação, mas ele não pareceu entender que sua pergunta soava
complexa demais para minha cabeça atordoada. - Eu vou encher a banheira pra
você, tudo bem? Fica aqui.
Aquele foi o pior momento da minha vida e mesmo assim eu não conseguia mais
chorar.
Eu me sentia sufocado, mas não adiantava puxar o ar, ele parecia nunca chegar
aos meus pulmões necessitados.
Mas mesmo que eu quisesse desesperadamente ouvir sua voz, eu estava com
vergonha.
Eu queria falar com Jungkook sobre o que tinha acontecido, ao mesmo tempo
em que desejava que ele nunca descobrisse.
— Chim...
Antes que ele insistisse, eu neguei com a cabeça de novo, dessa vez mais forte,
e vi ele suspirar, derrotado.
— Nós conversamos sobre isso depois. Eu vou mandar uma mensagem pro
Yukwon dizendo que você não estava se sentindo bem.
Dessa vez eu assenti, e vi ele começar a digitar algo no próprio celular. Foi então
que eu percebi que o meu tinha ficado no chão do banheiro do fliperama.
Mas antes que ele se afastasse, eu segurei seu braço, forçando-o a ficar por
perto. — Não me deixa sozinho...
Jeonghan olhou para minha mão fracamente agarrada a ele e balançou a cabeça
devagar antes de se sentar novamente, no mesmo lugar. Dessa vez ele não disse
mais nada, apenas me fez soltar seu braço para que ele juntasse sua mão à
minha, e então nós ficamos em silêncio, de mãos dadas.
— Eu vou fazer alguma coisa pra você comer, tudo bem? — Ele disse quando
eu abri a porta, indicando que ele já podia entrar.
Mas antes que eu pudesse negar sua sugestão, alegando que não estava com
fome, porque eu realmente não estava, a campainha de casa tocou três vezes
seguidas.
Ele me olhou, um pouco curioso, antes de dizer que ia ver quem estava lá.
Eu esperei no meu quarto, sentado em minha cama, até que ouvi aquela voz
familiar se aproximando.
— Cadê ele?
Imediatamente meus olhos se viraram para a porta e eu confirmei que não estava
louco quando o reconheci ali, totalmente perdido, sem entender porque ele
estava em minha casa e por que parecia tão preocupado.
— Que merda aconteceu com você? — Ele perguntou, segurando meu rosto,
parecendo que estava procurando alguma coisa de errada nele. — E por que
você não atende a porcaria do celular? Jungkook tá desesperado tentando falar
com você pela última hora!
— Eu estou tão perdido quanto você. — Kihyun disse, depois de soltar meu rosto
e respirar aliviado. — Ele me ligou do nada, me deu seu endereço e me pediu
pra vir correndo pra Nam-gu ver se você estava bem.
— Eu nunca vi Jungkook preocupado daquele jeito, quer dizer, você sabe como
ele é. Ele não demonstra esse tipo de coisa tão facilmente, mas eu juro que ele
estava prestes a ter um treco quando me ligou, então eu imaginei que você tava
sendo atacado por canibais ou coisa pior, por isso dirigi tão rápido. — Ele sentou
na minha cama, ao meu lado, mesmo que eu não tivesse permitido.- Que susto
da porra!
Antes que eu negasse, Jeonghan foi mais rápido. — Você não pode esconder,
Jimin.
— Ele disse, e então Kihyun olhou em sua direção. — Um cara espancou ele.
Ele não quer que mais ninguém saiba, mas se a gente não contar pra ninguém,
não vai acontecer nada com o idiota que fez isso!
— Não foi nada demais. — Eu menti, sem saber por que estava tão relutante em
assumir o que tinha acontecido.
Dessa vez, eu fiquei quieto. Sem negar, mas sem assentir também.
— Parece muito ruim? — Ele voltou a perguntar, mas dessa vez eu percebi que
ele estava falando com Jeonghan, que assentiu.
Kihyun ficou de pé, na mesma hora. — Você precisa ir num hospital. — Ele disse,
me segurando pelo braço para me ajudar a ficar de pé, mas eu não sai de cima
da cama. — Jimin, o Jungkook vai me matar se eu não te levar num médico,
então pelo amor de deus... vem logo.
Eu olhei para ele, afetado pela menção do nome de Jungkook. Imaginar que ele
estaria esse tempo todo sem saber o que tinha acontecido comigo fez meu
coração apertar como nunca antes.
Aproveitando essa brecha, Kihyun me puxou outra vez, ainda com cuidado, mas
com força o suficiente para me fazer levantar, e dessa vez eu me deixei ser
levado até seu carro, estacionado na frente do hotel.
— Eu vou passar no fliperama pra pegar seu celular — Jeonghan disse depois
de me ajudar a sentar no banco do carona. — Te encontro no hospital, ok?
Eu assenti, e vi ele começar a fazer todo o percurso até a casa de jogos outra
vez, enquanto eu dizia para Kihyun seguir para o outro lado.
— Pronto, Jungkook já sabe que você tá inteiro. Quer dizer, vivo, inteiro a gente
ainda não sabe se está mesmo.
Kihyun me olhou pelo canto dos olhos antes de deixar a cabeça tombar para
trás, encostando-a na parede sem cor.
Enquanto esperávamos, o silêncio foi nossa única companhia. Não havia espaço
para as provocações que pareciam inerentes a qualquer interação entre nós
dois, e eu só ouvi sua voz novamente quando, pouco tempo depois, meu nome
foi chamado e ele me acompanhou até a sala de um dos médicos que estavam
atendendo.
O exame foi um pouco dolorido e nós tivemos que esperar o raio-x ficar pronto,
mas quando saímos de lá, saímos com a certeza de que, apesar de toda a dor,
nenhum estrago maior tinha sido feito e com um frasco de analgésicos que
aliviariam o incômodo persistente.
— Não precisou remendar nada, não, tá tudo ok — Foi Kihyun quem respondeu,
gesticulando para que continuássemos andando mesmo que no meu ritmo lento.
Jeonghan fez uma careta antes de rir, um pouco confuso. — Que cara estranho,
— Ele sussurrou, mas não baixo o suficiente, e Kihyun olhou pra gente antes de
revirar os olhos.
Dessa vez fui eu quem deixei o primeiro sorriso, ainda fraco e desajeitado,
aparecer.
— Eu posso ficar na casa do Jimin. É melhor ele não ficar sozinho hoje. —
Jeonghan disse e eu nem tinha objeções a isso, mas Kihyun parecia ter
— Acredite em mim, ele não vai ficar sozinho. Onde você mora?
Meu amigo olhou pra mim e eu estava tão confuso quanto ele, mas apenas ergui
os ombros, assentindo, e dali nos seguimos até o deixarmos na frente de seu
condomínio.
Ele me olhou daquele jeito que mostrava que não concordava com meu pedido.
— Jimin...
— Olha, se você contar, amanhã o nome dele vai sair no noticiário como o
maluco que enforcou Moon Taeil com as tripas. Você sabe como ele é.
Eu ouvi seu suspiro e vi ele coçar a nuca, antes de concordar. — Tá, você tem
razão, ele vai perder o juízo se descobrir. — Ele cedeu, enfim. — Mas só estou
concordando em não contar pra ele. Seus pais ainda precisam saber.
Eu não neguei, mas não estava de acordo com aquilo. Deixar meus pais
descobrirem o que tinha acontecido envolvia explicar o porquê de Taeil me
atacar daquele jeito, e eu não estava pronto para isso.
— Boa noite, Jeonghan. Obrigado por tudo. — Eu disse, decidindo deixar aquela
discussão para depois.
— O que foi?
Ele negou com a cabeça, ainda sustentando o sorriso pequeno ao ligar o carro.
— Você vai destruir o coração desse menino.
Eu neguei, olhando para minhas mãos apoiadas sobre meu jeans surrado. —
Não precisa. — Disse sinceramente. Talvez a primeira dose do analgésico já
estivesse fazendo seu efeito, mas a dor não era mais tão intensa. — Kihyun...
Ele me olhou, sem me repreender por ainda não ter saído do carro.
— Você acha que... que eu sou doente?
Aquele ódio todo dele só por supor que eu gosto de homens não podia ser sem
fundamento. Talvez isso seja realmente errado.
— Sentir as coisas que eu sinto por Jungkook... isso faz de mim uma aberração?
— Eu insisti, voltando a olhar apenas para minhas mãos, sem coragem de
encará-lo.
Eu apertei meus ombros diante de sua resposta, e ele ficou em silêncio por um
tempo antes de continuar.
Eu assenti, vergonhosamente.
— Tá.
— Tá? — Ele repetiu, junto com uma risada fraca. — Então ok. Vai logo, eu
quero chegar em casa a tempo de ver a reprise de Weekly Idol.
Eu assenti, peguei meu celular, o frasco dos analgésicos e abri a porta. Antes
de descer, eu olhei para ele e o olhei em silêncio, sem saber como dizer aquilo.
— Você tá agradecido, eu entendi. — Ele disse, antes que eu começasse a fazê-
lo. — Para de me olhar com esses olhinhos, pelo amor de deus, meu coração
vai explodir. Você é fofo pra caralho.
O som meio abafado e agudo que eu deixei escapar era uma risada. Uma
desengonçada, mas ainda sincera.
Ele balançou a cabeça uma única vez e então eu finalmente desci do carro,
carregando minhas coisas para dentro de casa, onde fui abordado por minha
mãe assim que abri a porta.
Jungsu era o recepcionista que assumia no turno da noite, depois que Hyelin ia
embora. Em partes, eu estava feliz que fosse ele a me ver praticamente sendo
carregado para fora de casa, porque se fosse Hyelin, eu seria bombardeado com
perguntas até o ano seguinte.
— Ah, era o Kihyun, ele é um amigo. Nós só fomos dar uma volta. — Eu disse,
escondendo o frasco de remédios dentro do meu casaco.
— Que susto. Jungsu disse que você não parecia bem, eu fiquei preocupada.
— Deve ter sido impressão. Eu estou bem. — Eu menti, fazendo meu melhor
para não evidenciar nem o mínimo traço de dor.
— Menos mal. Você jantou? Já está tarde. Quer que eu faça alguma coisa pra
você?
— Certo. Eu vou voltar pro escritório, alguém fez a maior bagunça com o arquivo
do orçamento, preciso reorganizar tudo. — Ela choramingou, e eu soube que
com alguém, ela quis dizer ela mesma.
Minha mãe é uma mulher maravilhosa, mas também é a provável causa da
minha natureza completamente atrapalhada, porque a própria sempre foi um
desastre no quesito organização.
Então eu sorri para ela, assentindo, e voltei a seguir meu caminho até meu
quarto, porque eu queria ligar para Jungkook o mais rápido possível. Mas antes
que eu entrasse, o som da campainha ecoou novamente pela casa, e eu parei
para olhar para a porta quando minha mãe foi até lá, se perguntando quem
poderia ser
Mesmo assim, mesmo sentindo que no fundo eu já deveria esperar por aquilo,
eu juro que meu coração parou de bater por um segundo quando eu o vi ali, na
minha porta.
Mas ele não disse nada. Antes disso, ele deixou seus olhos escuros e
preocupados encontrarem os meus, ainda um pouco distante da entrada, e eu
senti meu peito subir e descer furiosamente antes que conseguisse forçar meus
pés a se moverem.
Um, dois, três passos, devagar, antes que minhas pernas me guiassem até ele
na maior velocidade que meu corpo poderia aguentar.
Quando o alcancei, era como se minha mãe não estivesse ali, ou pelo menos
como se eu não me importasse, e eu o abracei com tanta força quanto me foi
possível, sentindo ele me abraçar de volta na mesma intensidade.
A dor voltou, um pouco mais intensa, mas a única coisa que fiz foi apertar ainda
mais meus braços ao redor de seu corpo.
Depois de analisar cada partezinha do meu rosto, ele me puxou de novo, dessa
vez para me beijar na testa. Eu fechei os olhos ao sentir o contato demorado de
seus lábios frios contra minha pele e suspirei quando ele os deslizou para baixo,
pressionando suavemente minha pálpebra fechada antes de finalmente beijar
minha bochecha.
Eu balancei a cabeça para cima e para baixo, lentamente, mas dessa vez eu não
estava mentindo. Eu realmente me sentia bem, porque ele estava ali comigo.
Então ele soprou o ar, como se estivesse aliviado, e beijou minha testa outra vez
antes de voltar a me abraçar.
Eu podia passar o resto da vida daquele jeito, mas Jungkook me soltou pouco
tempo depois. Quando olhei para ele, me perguntando por que ele se afastou,
percebi que ele olhava para um ponto acima do meu ombro, e então eu
finalmente lembrei.
Minha mãe.
A pequena redoma que minha mente criou naqueles instantes foi totalmente
destruída e eu, violentamente arrastado para a realidade outra vez, Quando olhei
para trás, vi o olhar de minha mãe, e ele parecia complexo demais para ser
descrito com uma única palavra.
Eu tentei me apressar em dizer alguma coisa, qualquer coisa, para que ela não
entendesse aquilo errado — ou, melhor dizendo, para que ela não tirasse a
conclusão correta — mas antes que eu me afastasse, o braço de Jungkook
segurou minha cintura.
Mas aquela pequena pontada de dor não foi nada comparada ao desespero que
senti quando ouvi sua voz sendo direcionada à minha mãe.
— Eu preciso conversar com a senhora. — Ele disse, com sua firmeza natural.
Eu ainda senti os olhos de minha mãe analisarem por tempo demais o braço de
Jungkook me segurando e, por mais incoerente que tenha sido, minha atitude foi
apertar ainda mais meu corpo contra o dele, buscando algum reconforto.
Antes de deixar Jungkook segui-la, eu virei meu rosto para ele, com os olhos
completamente arregalados.
— Jungkook...
— Vai ficar tudo bem, anjo. — Ele garantiu, com sua mão acariciando
suavemente minha cintura sobre o tecido grosso do meu casaco. — Dói muito?
Ele passou a língua entre os lábios num gesto rápido e irritado, mas eu sabia
que eu não era a causa de sua irritação.
— Sim. — Respondeu, depois de algum tempo, como se dizer isso lhe custasse
muito esforço. — Me deixe conversar com sua mãe, tudo bem? Você não precisa
ficar, se não quiser.
Eu neguei. Fosse lá o que Jungkook diria a ela, eu queria ouvir também.
Jungkook me guiou para dentro de casa. Ao fechar a porta, ele disse: — Eu não
vou fazer nada que te prejudique, meu bem.
Eu suspirei, um pouco aliviado, mas não tanto. Eu ainda estava assustado com
as possibilidades daquela conversa, e a cada segundo que passava parecia que
o nervosismo se tornava ainda mais intenso.
— Você chegou agora em Nam-gu? Cadê suas coisas? Quer um pouco de água
ou...?
— Eu vim direto do escritório, não tive tempo de arrumar uma mala. Mas estou
bem, não se preocupe. — Jungkook disse, olhando para mim brevemente antes
de voltar a olhar para minha mãe.
Por mais que minha intenção fosse adiar a retomada da interação entre eles dois,
tudo que consegui foi acelerar esse momento, além de sentir algo como culpa e
felicidade ao perceber que Jungkook deixou Seul daquele jeito só por minha
causa.
— Por que você está aqui, Jeon? — Minha mãe perguntou, então,
aparentemente incentivada pelo fim do silêncio. Não existia grosseria no seu tom
de voz, mas a desconfiança a fazia soar um pouco rude.
Eu puxei as mangas do casaco para cobrir minhas mãos, enquanto meus punhos
se apertavam com força e eu quase podia ouvir meu coração bombear o sangue
freneticamente por meu corpo.
— Eu precisava ver o Jimin. — Ele disse, sem hesitar, olhando apenas para ela.
— Por que?
— Eu fiquei preocupado.
Minha mãe repetiu a pergunta, agora com um pouco mais de confusão. — Por
que?
Jungkook me olhou e eu neguei com um gesto fraco antes que ele voltasse a
olhar para ela,
— As pessoas podem entender errado e julgar o Jimin como algo que ele não é.
— Ela continuou, e havia algo estranho na forma como ela dizia aquilo. Não era
como se ela estivesse afirmando, era como se perguntasse, com medo de
descobrir a resposta.
Mas sabendo que ela desconfiava, entre mentir e contar a verdade, eu preferia
contar a verdade.
— Eu...
Eu gosto de garotos?
Não. Se era para ser sincero, eu seria inteiramente verdadeiro com ela, sem
esconder nem mesmo o detalhe que mais me assustava naquilo tudo.
— Eu gosto do Jungkook.
Jungkook me olhou. Ela me olhou. Só existiam duas pessoas naquela sala, mas
eu sentia que o mundo inteiro estava prestando atenção em mim.
Acho que não foi o fato de eu gostar de Jungkook que a assustou, mas a minha
coragem repentina em dizer aquilo.
Ela passou a mão pela testa e uma risada frouxa escapou de sua garganta. —
Você não sabe o que está dizendo, Jimin... Por favor, Jeon, você é mais
maduro... coloque algum juízo na cabeça desse menino. Parece que ele está
confundindo algumas coisas.
Eu olhei para Jungkook, ainda mais ansioso por não saber o que esperar dele
naquele instante.
Sua voz calma fazia parecer que ele era o único inabalado por toda aquela
situação, mas a forma como ele travou o maxilar antes de prosseguir me fez
perceber que ele só era melhor em disfarçar.
Eu juro que minha visão ficou completamente enegrecida por alguns minutos, e
eu precisei de algum tempo até perceber que não ia desmaiar.
Minha mãe parece ter passado pelo mesmo que eu, mas, ao fim, ao invés de
sentir o corpo perder completamente as forças como aconteceu comigo, ela ficou de
pé e parou, nos olhando, antes de começar a andar de um lado para o outro.
Por todo esse tempo, tudo que nós ouvíamos era o som de seus passos pela
sala. Então ela parava, nos olhava, e voltava a andar.
Ao ouvir minha voz, ela finalmente parou e se sentou outra vez, passando as
mãos em seus cabelos lisos e curtos.
— Vocês querem me matar, é isso que vocês querem... — Ela disse, com o
corpo curvado.
Ser rejeitado por Taeil e Yuta foi doloroso, mas eu não suportaria ser rejeitado
por minha mãe também.
Então eu puxei o ar e o expulsei vezes seguidas, tão rápido que o oxigênio nem
mesmo realizava sua função em meu corpo. Meus olhos estavam ardendo, assim
como minha garganta e meu coração parecia queimar.
— Mãe, me desculpa, por favor — Eu pedi, apertando minhas mãos contra meu
rosto, desesperado com a certeza de que ela me condenaria. — Eu não queria
ser assim, me desculpa, me desculpa!
Eu ouvi alguém ofegar profundamente e tenho certeza de que foi ela, porque
logo depois eu senti seus braços magros apertando meus ombros quando ela se
sentou ao meu lado, me puxando para seu colo.
Meu corpo inteiro tremia, muito mais do que tremeu quando eu percebi o que
Taeil faria comigo naquele banheiro. Era uma sensação muito pior e muito mais
assustadora.
— Eu não estou decepcionada com você, Jimin — Ela disse, me abraçando com
mais força, mas eu era incapaz de tirar as mãos de cima do meu rosto. — Eu
nunca ficaria decepcionada com você por uma coisa como essa!
— Me desculpa se eu fiz você pensar que isso faria meu amor por você
diminuir. Nada nesse mundo vai me fazer te amar menos do que você merece
— Ela disse, secando as lágrimas em meu rosto. — Eu só tenho medo porque
as pessoas podem ser tão ruins, meu filho...
Eu sabia daquilo, Eu sabia tanto quanto qualquer outra pessoa que tinhapassado
pelo que eu passei, então o que eu fiz foi abraçar minha mãe, com força, porque
pelo menos naquele momento eu tinha certeza de que poderia encontrar ódio
em qualquer lugar do mundo, mas não ali, não com ela,
Eu ainda não sabia como meu pai reagiria ao descobrir. Nem sei se teria
coragem de contar tão cedo para ele, mas metade do peso em minhas costas já
tinha sido retirado de mim depois de ser aceito por minha mãe.
Então eu fiquei ali, sentindo o calor e a proteção do seu abraço, até que
finalmente me afastei e busquei Jungkook com meus olhos.
Ele sorria para nós dois, aquele sorriso tão bonito que eu sempre amei tanto.
Quando voltei a olhar para minha mãe, eu também sorria com tanta sinceridade
que nem mesmo era capaz de acreditar que horas antes eu tinha vivido o pior
momento em todos meus dezessete anos.
Ela respirou fundo e seus olhos foram direto à imagem do homem do meu outro
lado.
— Sim.
— Então o que eu posso fazer? — Ela suspirou e ficou de pé outra vez,
atordoada, mas conformada. — Eu preciso de um chá.
Antes que ela se afastasse, Jungkook ficou de pé e estendeu a mão para mim.
Sem entender o que ele queria, eu deixei que ele me ajudasse a levantar e
ofeguei um pouco surpreso quando ele colocou meu corpo à frente do seu, com
minhas costas coladas em seu peito e uma das mãos segurando a barra do meu
casaco.
Eu arregalei os olhos ao entender o que ele faria, então segurei suas mãos e
olhei para ele sobre meu ombro, implorando com o olhar.
— Não mostra pra ela, por favor — Eu pedi, ainda envergonhado demais para
deixar que ela visse aquilo. — Eu juro que vou contar depois, mas por favor...
agora não...
Eu contaria. Eu com certeza contaria. Esconder não era mais meu objetivo, eu
só não queria falar sobre aquilo naquele momento. Não queria estragar as coisas
boas que eu estava sentindo.
Então depois de fazer mais um interrogatório, minha mãe finalmente nos liberou
e voltou para o escritório do hotel, alegando que tinha que aproveitar aquela dose
de adrenalina para fazer algo de produtivo.
Antes de ir, ela o convenceu a dormir ali em nossa casa e não em um dos quartos
do hotel, e eu a convenci, enquanto ele tomava banho. a deixá-lo dormir comigo,
em meu quarto, embora essa última parte tenha sido muito mais trabalhosa.
Era a desculpa mais forçada do universo, e é claro que ele sabia disso, mas eu
não ouvi nenhuma reclamação de sua parte quando ele sentou ao meu lado na
minha cama.
Meu colchão não era de casal, mas era suficientemente grande para que
dormíssemos os dois ali, de qualquer forma. Não seria desconfortável.
Eu assenti, é claro, mas mesmo assim questionei, curioso: — Por que você tem
que comprar roupas?
— Eu não posso passar o fim de semana com você usando as mesmas que
estava usando hoje, posso?
Eu sinto que meu rosto inteiro se iluminou e que, naquela fração de tempo, eu
estava brilhando mais que o próprio sol.
Eu mordi meu lábio, incapaz de conter toda a euforia quando joguei meus braços
ao redor do seu pescoço e o abracei, ainda sentado sobre sua perna. Jungkook
envolveu minha cintura também, com cuidado, parecendo não esquecer nem por
um segundo das manchas doloridas sobre minha pele.
— Tudo, tudo mesmo? — Eu perguntei, afastando meu rosto com um sorriso
travesso nos lábios.
— Então me beija.
Jungkook desceu as mãos até minhas coxas, apertando-as com mais cuidado
que da última vez e deixando aquele sorriso sacana aparecer
— Você costumava ser mais tímido. — Ele disse, não como uma reclamação.
— Eu não sou mais tão bobo quanto antes. — Rebati, blefando um pouco.
No fundo, no fundo, eu era tão inexperiente quanto era da última vez que nos
vimos, mas meus conhecimentos teóricos realmente tinham aumentado graças
a Yukwon.
— Não? — Jungkook perguntou, deslizando suas mãos para cima outra vez,
serpenteando seus dedos longos e frios por baixo da minha blusa de moletom.
Meu lábio ainda estava sendo repuxado pelos meus dentes quando eu balancei
a cabeça devagar para os lados, negando.
— Meu Jimin cresceu? — Ele insistiu, me fazendo suspirar arrastado quando ele
beijou meu pescoço lentamente depois de me chamar daquela forma. — É isso?
— Seu Jimin cresceu. — Eu disse, voltando minhas mãos para seus ombros e o
apertando com necessidade. — E ele precisa muito ser tocado por você.
Jungkook beijou meu pescoço outra vez, ainda mais lentamente que da primeira,
e eu senti seu sorriso contra minha pele antes que ele subisse, beijando todo o
caminho até meu queixo, me fazendo deixar a cabeça tombar para trás
involuntariamente.
Seus toques estavam leves, cuidadosos, diferentes da primeira vez que ele me
beijou, E mesmo que aquilo já deixasse meu corpo em chamas, eu queria sentir
aquilo de novo. Queria suas mãos marcando minha pele, sua boca domando a
minha.
— Porra... — Ele rosnou, ainda contra minha pele, antes de subir com sua boca
e morder meu maxilar, me fazendo suspirar em deleite.
Logo depois ele afastou seu rosto do meu, uma de suas mãos subiu até a parte
de trás de minha cabeça e eu vi seus olhos escuros brilhando enquanto ele
olhava para mim, respirando pesadamente.
Jungkook passou a língua por meu lábio inferior, depois o chupou de forma
demorada com sua boca avermelhada, soltando-o lentamente.
Minhas pernas ainda abraçavam seu quadril quando ele investiu devagar contra
minha barriga, me fazendo gemer mais alto ao sentir sua ereção pressionada
contra meu corpo.
— Olha o que você faz comigo, meu anjo — Ele disse, com uma de suas mãos
segurando minha perna esquerda e a outra apoiada ao lado da minha cabeça
para sustentar seu peso sobre mim, sem machucar o que já estava dolorido.
Desesperado, eu tentei puxá-lo para mais perto com meus braços ainda
abraçando seus ombros, mas ele resistiu com aquele sorriso atravessado no
canto dos lábios.
— Por favor, Jungkook, por favor! — Eu implorei, nem sabia mais pelo quê. Eu
só queria mais dele, desesperadamente.
Ele manteve seu membro pressionado contra mim quando cedeu, aproximando
seu corpo até seu peito tocar o meu.
— Você fica tão lindo quando implora por mim... — Ele disse, roçando sua boca
em minha bochecha, me torturando ainda mais.
Então ele selou meus lábios e eu suspirei contra sua boca antes que ele
deslizasse sua língua até encontrar a minha, pressionando nossas bocas juntas
antes de morder meu lábio superior, arrastando-o entre seus dentes.
Ao sentir sua mão tocando diretamente minha carne, eu empurrei meu quadril
para cima, ainda mais tomado pelo desespero, e voltei a gemer livremente
quando ele deixou minha boca e voltou a beijar meu pescoço.
Era insana a forma como ele lambia e depois chupava minha pele, descendo
cada vez mais, sem esquecer de nenhum pedaço.
Então ele soltou minha nádega e passou sua mão para minha barriga, puxando
minha blusa de moletom para cima. Ele viu, pela primeira vez, as marcas que
Taeil deixou em mim, e eu percebi a forma como ele parou, observando com os
olhos irritados os hematomas.
Então ele olhou para mim e, sem dizer nada, puxou o moletom ainda mais para
cima, para logo depois beijar as manchas espalhadas sobre meu abdômen e
costelas.
Jungkook beijou cada uma delas, descendo cada vez mais até encontrar o
elástico da minha calça.
Ele passou a língua pela linha abaixo do meu umbigo e continuou me beijando
naquela região, me fazendo contrair a barriga e gemer baixo com a provocação.
Então sua mão foi até ali e puxou o elástico para baixo, minimamente, só para
brincar com meu controle.
Eu estoquei contra sua mão, cobrindo meus olhos com as mãos escondidas
pelas mangas compridas do moletom, envergonhado por já estar tão perto de
gozar.
Mas eu não tinha culpa. Não quando Jungkook me apertava, pressionando seu
polegar contra minha glande inchada antes de voltar a me estimular no ritmo
certo, com sua boca chupando a pele sensível e já úmida de saliva logo acima
da minha virilha.
Então meu corpo todo esquentou e eu gemi ainda mais, sentindo que estava
cada vez mais perto do melhor orgasmo da minha vida.
Eu estava pronto para implorar que ele não parasse ali, mas não foi preciso,
porque logo depois Jungkook parou de beijar minha barriga e desceu com sua
boca. Ele lambeu a glande inchada e sensível, e eu enterrei meu corpo ainda
mais no colchão, cobrindo os olhos outra vez, envergonhado pelo gemido agudo
que deixei escapar.
Jungkook estava entre minhas pernas, minha calça abaixada e minha blusa
levantada até meu peitoral.
Ele parou por um momento e quando olhei para ele, percebi que ele parecia
admirar a forma como eu estava exposto naquele momento. Isso me encheu
ainda mais de tesão e eu senti que ia gozar só pela forma como ele me olhava.
Então eu não perdi mais nenhum momento, por mais que a vergonha me fizesse
querer desviar o olhar, eu me mantive completamente atento à forma
como Jungkook aproximou sua boca de meu membro outra vez, lambendo-o da
base até a cabeça antes de engoli-lo completamente.
Eu não era grande, sempre soube disso, então ele não teve dificuldade alguma
em me chupar por inteiro.
Minha mente estava completamente perdida, meus gemidos cada vez mais
intensos e sua boca habilidosa subia e descia, alternando com algumas
chupadas lentas para que eu não gozasse tão rápido.
Mas então meu corpo inteiro voltou a esquentar, como se fogo corresse por
minhas veias. Eu contrai todos os meus músculos, sem a intenção de fazê-lo,
perdi a voz e senti meu peito subir e descer violenta e rapidamente, como se eu
estivesse prestes a entrar em combustão.
E eu gozei, tão forte quanto nunca antes, gemendo até o último instante em que
Jungkook me chupou e finalmente soltou meu membro, já mole, com aquele
sorriso que tirava completamente meu juízo.
Ele então puxou minha calça e a cueca para cima e beijou toda a linha no centro
da minha barriga até chegar em minha blusa e puxa-la para baixo, me cobrindo
totalmente enquanto eu ainda estava com a mente presa àquele orgasmo
incrível.
Então eu entendi o que Yukwon quis dizer uma vez quando me falou que uma
pessoa não merece ser parabenizada no seu aniversário. Não, ninguém merece
receber parabéns só por completar mais um ano de vida. Quem mereceparabéns
é quem faz uma pessoa sentir o próprio corpo explodir de tanto prazer.
Então eu olhei para Jungkook, ainda sem conseguir respirar direito, mas sorrindo
como nunca antes na vida.
Jungkook piscou devagar enquanto sentia meu toque, também sem parar de me
acariciar com a mão embaixo da minha blusa
Sua respiração quente me alcançou logo antes que ele se aproximasse ainda
mais. Jungkook me beijou devagar e com carinho antes de se afastar de novo.
Ainda com sua boca perto da minha, meus pelinhos eriçados pelo beijo e seus
dedos sobre um dos lugares machucados em minhas costelas, ele disse: — Eu
quero saber o nome dele.
Sem saber quais as consequências que isso levaria para quem um dia eu
realmente acreditei ser meu amigo, eu respondi,
— Moon Taeil.
— Você não vai mais precisar se preocupar com ele. — Ele disse,
simplesmente.
Eu o olhei sob meus cílios, apertando um pouco meus lábios ao ouvir sua
entonação.
— Você não vai matar ele não, né? — Eu perguntei, encolhendo meus ombros
quando percebi o quanto aquela preocupação soou ridícula ao ser colocada em
voz alta.
Em resposta Jungkook riu, e o som de sua risada era tão gostoso que eu nem
me importava mais em estar sempre dizendo coisas estúpidas que acabavam
provocando essa reação.
Eu balancei a cabeça para os lados quando comecei a rir também, negando sua
sugestão. Eu não queria que Taeil morresse, apesar de estar um pouco satisfeito
com a forma como Jungkook me fez acreditar que algo realmente aconteceria
com ele.
Não estava contente por achar que ele merecia, até porque eu ainda estava
muito mais magoado que irritado, mas sim por ver que Jungkook estava disposto
a não deixar aquilo acontecer de novo.
Ele então segurou minha mão que ainda estava em seu queixo e a puxou com
cuidado até sua boca para dar um beijo em minha palma, depois beijou minha
testa e por último me puxou ainda mais para perto, até fazer meu nariz encostar
em seu peitoral exposto.
Eu suspirei com a proximidade e com o cheiro fresquinho de sua pele logo depois
do banho, mas resmunguei baixinho quando ele tirou sua mão de debaixo do
meu moletom e arrumou o edredom pra me proteger melhor.
Mesmo sem querer dormir, meus olhos já estavam pesados e minha mente pedia
ainda mais descanso que meu corpo, então eu deslizei a ponta do meu nariz em
seu peitoral antes de beijar o lugar onde estava sua tatuagem, numa tentativa
meio desastrada de retribuir seu carinho e cuidado.
Mesmo com a dor, eu sorri um pouco ao ver como ele parecia diferente dormindo
com o rosto sereno, as pálpebras sonolentas e suavemente fechadas e sua
respiração lenta, Era como um homem totalmente diferente daquele sempre tão
intenso, mas tão encantador quanto.
Então eu perdi mais algum tempo admirando-o, sorrindo bobo enquanto velava
seu sono e me sentindo o garoto mais sortudo do mundo inteiro por poder vê-lo
daquele jeito, tão exposto e vulnerável.
Mas quando a dor começou a se tornar ainda mais forte, eu deixei seu abraço
com cuidado e insatisfação, fechei a cortina pra que a luz do sol não o
incomodasse à medida que fosse se tornando mais intensa e me arrisquei a dar
um beijinho em sua bochecha antes de sair do quarto, caminhando devagar em
direção à cozinha com um dos comprimidos nas mãos.
Depois de tomar mais um anestésico, mesmo sabendo que ainda estava muito
cedo e que eu poderia voltar a me aconchegar em Jungkook - e, na verdade,
querendo muito fazer isso , eu fiquei por ali e comecei a preparar o café da manhã
logo depois de enviar uma mensagem para Yukwon pedindo que ele pegasse
algumas roupas na loja de sua irmã e levasse pra minha casa.
Nossa família tinha cedido à praticidade ocidental, já que ninguém tinha muita
paciência pra cozinhar logo cedo, então muitas vezes nos comíamos torradas
com ovos mexidos ou qualquer coisa tão fácil de preparar quanto isso. Mas como
eu já sabia que Jungkook gostava de refeições mais tradicionais, eu revirei toda
a geladeira e os armários para pegar tudo que precisava pra fazer uma sopa de
broto de feijão e alguns acompanhamentos para servir com o arroz.
— Você deveria estar descansando, meu anjo. — Jungkook disse, com a voz
ainda rouca de sono, e toda aquela proximidade repentina fez meus pelinhos
eriçarem.
Jungkook beijou meu pescoço, ainda me abraçando com cuidado. — Prefiro ficar
acordado com você, meu bem.
Antes que eu me derretesse todinho com sua resposta e com seu tom de voz
mais grave que o normal, nós ouvimos minha mãe saindo do quarto e então ele
se afastou sem pressa, parando ao meu lado. Eu o olhei só para me certificar
que ele tinha vestido a parte de cima do pijama também, porque minha mãe
provavelmente teria uma síncope se o visse com o tronco exposto em nossa
cozinha e descobrisse que Jungkook tinha uma tatuagem daquele tamanho.
— Bom dia, príncipe — Ela disse, ainda sonolenta, quando caminhou direto até
a geladeira para beber um pouco de água.
Eu quis morrer pelo apelido que ela usou e também por ter praticamente
ignorado a presença de Jungkook ali, mas o que verdadeiramente me fez querer
cavar um buraco no chão foi olhar para o lado e ver a forma como ele falhava
em esconder um sorriso.
— Ai, que susto, meu deus! — Ela quase virou e percebeu que não éramos só
eu e ela na cozinha. — Eu esqueci que Jeon estava aqui!
— Bom dia, senhora Park. Obrigado por me deixar passar a noite aqui. —
Jungkook disse educadamente, como se não fosse minha mãe quem tivesse
insistido para que ele dormisse em casa.
Quando minha mãe também sentou, com o cabelo ainda um pouco bagunçado
e um roupão mal amarrado sobre seu pijama, nós começamos a comer. Antes
de levar a primeira porção à boca, entretanto, eu esperei ansioso a reação de
Jungkook ao provar a primeira refeição que eu fiz pra ele, e só depois de ver seu
pequeno sorriso de aprovação é que eu finalmente comecei a comer, orgulhoso
com o resultado.
Enquanto isso, sabendo que Yukwon demoraria um pouco pra chegar com as
roupas para Jungkook, eu pedi que ele esperasse em meu quarto e fui o primeiro
a me arrumar.
Eu revirei os olhos, batendo em suas pernas para que ele me desse espaço pra
sentar ao seu lado.
— Não são pra mim. — Eu disse, tirando as peças de dentro da sacola para
poder ver. Depois eu passo lá na loja dela pra pagar, tá?
— Mas vai mesmo, nem pense em dar calote naquele demônio, ela te esfola
vivo. — Ele disse, abraçando preguiçosamente uma das almofadas, não muito
interessado em descobrir para quem eram as roupas.
Eu sorri meio travesso, sabendo que ele surtaria ao descobrir que Jungkook
estava ali, e então devolvi o casaco de lã branca, a calça jeans de lavagem clara
e a cueca à sacola quando ouvi o som do registro do chuveiro sendo fechado.
— Tá melhor? — Yukwon perguntou, disputando o espaço sobre minhas coxas
para apoiar os pés enquanto mexia no celular. — Jeonghan disse que você
passou mal ontem
Ele balançou a cabeça e acho que falaria mais alguma coisa, mas se calou
quando Jungkook finalmente saiu do banheiro, enrolado numa toalha. Yukwon
olhou para ele, a princípio com o desinteresse usual, mas logo depois seus olhos
se abriram em choque quando ele viu a tatuagem exposta, e então saltou do
sofá, eufórico, quase tropeçando no próprio pé quando levantou.
— Você pode vestir essas — Eu disse quando ele pegou a sacola de minha mão,
olhando para Yukwon por cima do meu ombro. — Ah, ele é aquele meu amigo,
o Yukwon... — Expliquei, torcendo para que não fosse um problema ter deixado
ele ver Jungkook ali.
Jungkook assentiu, descendo seu olhar até encontrar o meu, ainda sério. - Venha
no quarto comigo.
Eu engoli em seco, meio desesperado, e meu corpo quase virou uma papa
nojenta derretida no chão quando eu o segui até meu quarto depois de gesticular
para que Yukwon esperasse.
Quer dizer, eu achei que podia relaxar depois de minha mãe ter permitido que
eu me envolvesse com Jungkook, mas ainda tinha todo o problema com minha
idade e talvez ele achasse melhor que outras pessoas não soubessem.
Jungkook não disse nada enquanto vestia a cueca, sem tirar a toalha. Depois,
ele a desenrolou de sua cintura para vestir o jeans, parecendo não ter pressa
nenhuma para fazê-lo, menos ainda para me responder, mas meu coração deu
uma guinada antes mesmo que ele dissesse a primeira palavra, porque eu o vi
pegar o cinto que estava junto com suas roupas na minha escrivaninha. Depois
ele caminhou devagar em minha direção, ainda segurando-o em suas mãos, e
parou bem em minha frente.
— Você sempre fica tão assustado, meu anjo. — Ele disse, com um
inconfundível tom de provocação.
Meus olhos ainda arregalados acompanharam todo o processo até que o cinto
estivesse preso em sua calça e afivelado, mesmo que Jungkook tivesse feito
tudo isso devagar.
Então eu levantei meus olhos, encontrando sua expressão ainda divertida, e ele
finalmente explicou. — Eu só queria pedir seu desodorante.
Eu não sei se o suspiro que deixei escapar foi de alívio ou decepção, mas de
uma coisa eu tinha absoluta certeza. Jungkook só estava me provocando.
Pelo menos ele não estava irritado comigo, o que era bom, mas o lado ruim era
que, mais uma vez, eu teria que recorrer à minha imaginação para saber o que
Jungkook poderia fazer comigo quando tinha aquele cinto nas mãos.
Tentando não demonstrar tanto o quanto aqueles gestos tão pequenos tinham
me desestabilizado, eu pigarreei e caminhei até meu armário, peguei meu
desodorante e entreguei a ele.
— Você ainda vai precisar de mais roupas, né? — Respondi, logo dando as
costas para pegar uma mochila vazia para guardar minha carteira, dois
cachecóis pro caso de esfriar muito quando estivéssemos fora e meu celular.
— A gente pode ir comprar logo.
Eu segurei minha mochila, voltando a olhar para ele, e vi que ele já tinha vestido
o casaco de la branca.
Jungkook ficou tão bonito e diferente usando roupas mais simples e claras que
eu quase perdi o foco outra vez, precisando balançar minha cabeça para os
lados quando fiquei admirando-o por tempo demais.
Era claro que Jungkook não sabia o que era o family land, mas ele não se
preocupou em perguntar.
— Vou ver se Yukwon quer ir com a gente... — Anunciei, enfim, ainda um pouco
incerto.
Durante o caminho, Yukwon não parava de olhar para Jungkook, e então ele
virava para mim só pra dizer, de forma muda, o quanto ele era gostoso.
Eu revirava os olhos a cada vez que ele o fazia, mas era impossível discordar,
então eu só ignorava e tentava fazer os dois interagirem, e isso até que funcionou
bem apesar das personalidades tão opostas.
Jungkook era elegante até quando não pretendia ser, e Yukwon... Yukwon era
Yukwon.
E apesar de ter algum receio inicial, porque tudo em meu amigo era excêntrico,
até mesmo sua aparência, eu suspirei aliviado ao ver que Jungkook não parecia
disposto a julgá-lo nem quando percebeu suas unhas pintadas com o esmalte
preto já craquelado.
Quando chegamos à loja, então, Yukwon se separou e disse que nos esperaria
no pequeno café que tinha logo à frente.
Apesar de nunca ter me interessado por esse tipo de coisa, eu passei algum
tempo parado na frente de um dos expositores observando uma gargantilha de
camurça com uma argolinha prateada no centro, presa ao manequim de joias.
Era tão delicada e ao mesmo tempo chamava tanta atenção que, por um
momento, eu quis muito experimentar, mas tentei me livrar da vontade porque,
afinal, era uma peça feminina.
Eu segurei seu braço, um pouco atrapalhado, tentando impedi-lo quando ele tirou
a peça do expositor. Depois ele parou atrás de mim e envolveu meu pescoço
com a faixa de camurça, prendendo o pequeno fecho em minha nuca antes de
descer suas mãos até meus ombros e me virar um pouco para o lado, para que
eu pudesse me ver no espelho.
Depois de ver meu reflexo por algum tempo, eu levei minha mão até a argola
pequena presa à peça, e mordi meu lábio antes de suspirar, deslizando meus
dedos até a parte de trás para soltar o fecho. Eu tinha gostado, realmente achei
bonito, mas não queria que Jungkook me achasse estranho por querer usar algo
tão feminino.
— Você ainda não me respondeu. — Ele disse, colocando sua mão sobre a
minha antes que eu soltasse a gargantilha. — Você gostou?
Jungkook então manteve uma de suas mãos em meu ombro e com a outra
desceu por minhas costas até segurar minha cintura e colar meu corpo ao seu.
Ele aproximou o rosto, fazendo sua bochecha tocar suavemente a lateral do topo
da minha cabeça enquanto seus olhos me observavam pelo espelho diante de
nós.
Eu senti meu estômago revirar com a forma que ele estava me tocando e como
seus olhos escuros não perdiam a intensidade nem mesmo no reflexo, forçando
minha respiração a se tornar mais lenta e cuidadosa, porque eu não queria ser
brusco e arruinar aquele momento.
— Me faz pensar em outra coisa que quero colocar aqui. — Jungkook quase
sussurrou com sua voz grave, subindo sua mão por meu ombro até alcançar meu
pescoço, e então seus dedos correram por minha pele até que sua palma
cobrisse a faixa de camurça.
Quando ele apertou um pouco mais, fazendo sentir meu pomo de adão
pressionado, eu senti o ar escapar por meus lábios e vi Jungkook umedecer os
seus. No instante seguinte, ele afastou seu corpo e suas mãos de mim, me
fazendo sentir falta de seu toque imediatamente.
— Eu vou levar. — Ele disse, e não sei se foi coisa de minha cabeça, mas sua
respiração parecia tão pesada quanto a minha.
E ele realmente levou. Quando pagou por suas roupas, ele pagou também pela
gargantilha, e eu sai da loja ao seu lado, usando-a e tocando-a, sempre me
perguntando como Jungkook conseguia me desestabilizar com tão pouco todas
as vezes.
Nós éramos tão diferentes em todas as formas que isso possa ser avaliado, e
ainda assim parecia que aquilo era tão natural, mas não era algo como opostos
se atraindo. Nossas diferenças se encaixavam tão bem. Era como se eu. Park
Jimin, tivesse sido perfeitamente moldado para Jeon Jungkook. E eu sentia que
ele tinha sido moldado para mim também.
Mas aquilo era perigoso, porque não eram apenas nossas personalidades que
se entendiam. Nossos corpos também. Cada pequeno toque parecia despertar
algo ainda maior, como se estivéssemos sempre prestes a pegar fogo, e isso era
difícil de controlar a ponto de se tornar doloroso quando nos afastávamos.
— Eu chamei o Jeonghan pra ir com a gente, não vou ficar de vela pra casal,
não. — Yukwon disse, quando nos juntamos a ele na mesa do café, ainda
calados.
Então meu amigo uniu as sobrancelhas, parecendo perceber aquilo que nos
rodeava com o silêncio persistente, meus olhos dispersos e a postura tensa de
Jungkook.
— Vou comprar uma água. Quer que eu traga alguma coisa pra você, meu bem?
Eu balancei minha cabeça, ainda sem jeito. — Pode ser uma água também.
— Se eu acender meu isqueiro, essa porra toda explode porque vocês estão a
isso aqui - Ele levantou só uma das mãos, aproximando o indicador do polegar.
— de pegar fogo. Vocês não iam só comprar umas roupas? Que merda foi que
aconteceu?
Eu passei a mão por minha testa, fechando meus olhos quando suspirei.
— Ele tocou meu pescoço. Ele literalmente só tocou meu pescoço, Yukwon! —
Eu puxei meu casaco, incomodado com a temperatura. — Por que esse lugar
parece tão quente? A gente não tá no inverno?
Yukwon riu alto e exagerado, como sempre. — Olhar pra vocês me deu tesão.
— - Ele disse, completamente casual. — Aliás, gostei da gostei da coleira nova,
ficou bem em você.
Eu não fiz nada além de suspirar acho que pela vigésima vez no dia, e agradeci
por Yukwon não insistir no assunto quando Jungkook voltou para a mesa e me
entregou uma das garrafas de água.
— Acordou agora, aquele preguiçoso do caralho. Quando ele chegar já vai ser
quase hora do almoço, então é melhor a gente comer antes de ir pro family.
— Tá.
— Então, Jungkook — Yukwon virou para ele, apoiando o queixo sobre a palma
da mão e tamborilando as pontas dos dedos na própria bochecha. — Posso
continuar te chamando de Jungkook? O Jimin é meio sem noção e é informal
com todo mundo, mas eu sou um moço educado, então prefiro perguntar antes.
— Nossa, que cara de pau! — Eu resmunguei, incrédulo, porque Yukwon era mil
vezes pior que eu. Então ele esticou a mão livre e começou a esfregar minha
cara, só pra irritar enquanto eu resmungava, tentando empurrar seu braço.
— Certo. Vamos ter uma conversa, Jungkook. — Yukwon afastou sua mão de
meu rosto, finalmente.- Será que você não pode ser um pouco mais rápido e
foder logo o Jimin?
Eu quase cuspi toda a minha água, e logo depois comecei a tossir muito.
— Yukwon!
Eu senti minha pressão baixar, meu queixo cair e meu rosto perder a cor antes
de começar a ficar todo vermelho quando senti a vontade de morrer crescendo
exponencialmente.
— Foi mais ou menos essa a reação dele quando percebeu que tava de pau
duro na sala — Yukwon apontou, rindo exageradamente. — O Jimin é um imã
de vergonhas, as vezes dá até pena.
Yukwon abriu os olhos antes de abrir um sorriso e olhar para mim, empolgado.
Esse cara tá mais do que aprovado, Jimin, vai fundo.
Ah, sim, como se eu precisasse ouvir o seu incentivo para ir fundo com Jungkook.
No fim, nós saímos do café e fomos até um restaurante para almoçar. Depois de
escovarmos os dentes e comprarmos alguns lanches, que foram colocados na
minha mochila junto com as roupas que Jungkook tinha comprado, nós seguimos
até a estação de trem em Bongseon para encontrarmos Jeonghan.
Jungkook estava carregando a bolsa em suas costas para que eu não forçasse
muito meu corpo ainda dolorido, e nós três já estávamos na plataforma quando
Jeonghan finalmente chegou.
— Você tá bem? — Ele perguntou, baixo o suficiente para que Yukwon não
ouvisse, e arrumou meu cabelo carinhosamente com as pontas dos dedos.
Eu fiz que sim com a cabeça, oferecendo um sorriso para que minha resposta
parecesse mais convincente, e então ele suspirou, aliviado, e me abraçou antes
de dar o costumeiro beijo em minha bochecha.
Apesar de nem sempre ser confortável receber todo esse carinho dele, eu já
considerava algo normal, por isso não me preocupei que pudesse deixar
Jungkook irritado. Mas não foi isso que percebi quando olhei para seu rosto e vi
seus olhos escuros zangados e sua bochecha sendo empurrada pela ponta de
sua língua num gesto enraivecido.
Eu o empurrei pelo ombro, querendo fingir irritação, mas a verdade é que existia
uma pontinha imatura de satisfação por descobrir que Jungkook sentia ciúmes
de mim.
Quando nós entramos no vagão e nos dirigimos a uma das mesas com quatro
assentos, Jungkook foi rápido em colocar uma das mãos em minhas costas e
me guiar para que eu sentasse ao seu lado no banco acolchoado.
Jeonghan sentou em minha frente e Yukwon ficou ao seu lado, vez ou outra
olhando para nós dois e se juntando aos meus esforços para tentar amenizar o
clima que de repente pareceu desconfortável demais.
Quer dizer, Jeonghan não sabia sobre Jungkook, mas ele sempre foi o mais
esperto de nós três, então acho que não demorou para perceber que Jeon não
era só um amigo, principalmente porque sua mão grande ficou sobre minha coxa
durante todo o caminho.
Todos nós concordamos, acho que porque não achávamos que ele estava
falando sobre correr de forma literal.
— Anda, Jimin! — Ele quase gritou, me puxando pelo pulso, mas meu corpo
ainda doía mesmo com os analgésicos e eu não queria correr.
— Uma porra que eu vou ficar esperando por meia hora quando posso ir agora
— Ele rebateu, me puxando de novo, e eu gemi insatisfeito.
— Eu não aguento correr! — Confessei, mas sem dizer o real motivo. — Dei um
jeito no meu pé quando a gente tava descendo do trem...
Assim que percebi o que ele estava fazendo, entretanto, e antes que se
afastasse dos outros dois que pareciam se divertir com a cena, eu segurei a
manga do casaco de Jungkook para que ele também corresse, e fui puxando-o
enquanto Yukwon me carregava por todo o caminho até o ponto de ônibus e
Jeonghan corria ao nosso lado.
— Jungkook — Eu o chamei e comecei a rir ainda mais quando olhei para ele e
vi seus olhos levemente arregalados e suas bochechas vermelhas de vergonha.
— Eu não entendi o que aconteceu — Ele disse, pigarreando sem jeito ao tentar
se recompor, mas suas maçãs continuavam adoravelmente avermelhadas.
Jungkook pigarreou outra vez, deixando claro que nunca em sua vida precisou
correr atrás de um ônibus.
— Deixa, cara — Eu ouvi Yukwon dizer. — Essa risada é mais gostosa até que
a bunda dele.
Esse é o jeito de Yukwon elogiar qualquer coisa, então eu não dei muita
importância e continuei tentando respirar fundo para me recompor. Quando
finalmente consegui, ainda sorrindo e com a cabeça no ombro de Jungkook, eu
levantei meus olhos e o observei dali de baixo. Seu rosto finalmente tinha
recuperado a cor normal e ele tinha virado um pouco para mim, me olhando de
volta.
— Você ainda vai acabar comigo, Jimin. — Ele disse, com um sorriso escondido
no canto dos seus lábios.
Eu sorri mais um pouco e tentei ser discreto quando deixei um beijo tímido em
seu pescoço.
Estava me sentindo tão, mas tão feliz, como se cada toque, cada palavra e cada
segundo desde que Jungkook apareceu em minha porta estivessem apagando
minha mágoa pelo que aconteceu no banheiro do fliperama.
Ainda era difícil acreditar que aquele homem tão incrível realmente se
preocupava tanto logo com uma pessoa tão sem graça quanto eu, mas eu estava
muito grato por ele estar ao meu lado.
Por todo o percurso ele me deixou ficar daquele jeito, bem pertinho dele,
enquanto sua mão tocava minha coxa com muito mais carinho do que quando
me tocou quando estávamos no trem.
Eu mordi meu lábio e abaixei meus olhos, movendo meu pé sobre o piso
cimentado. — Mas eu queria vir aqui com você...
Jungkook suspirou e eu me senti mais aliviado quando senti sua mão em minha
cabeça e ele me puxou com cuidado até que meu corpo estivesse quase colado
ao seu.
— Eu só não quero que você se machuque mais, meu bem. — Ele disse, mais
calmo, e me deu um beijo na testa. — Mas tudo bem, nós vamos.
Eu sorri de novo, balançando a cabeça só uma vez quando ele me puxou para
que caminhássemos juntos até onde meus amigos estavam, ainda naquela briga
boba em frente à bilheteria. Quando Yukwon empurrou Jeonghan com mais
força, o coitado cambaleou para o lado, tropeçou no próprio e desmontou no
chão.
— Acho que montanha russa não é uma boa pra você — Ele disse, parecendo
ter a mesma preocupação que Jungkook.
— Não precisa se preocupar, eu cuido do Jimin. — Jungkook respondeu antes
que eu o fizesse, e eu arregalei um pouco meus olhos quando ele segurou minha
mão e começou a me puxar para que eu caminhasse ao seu lado.
Enquanto caminhávamos pelo parque, que não estava tão cheio graças às
temperaturas mais baixas, eu mostrei para Jungkook todos os meus brinquedos
favoritos e finalmente escolhi o trem fantasma para começarmos.
Os carrinhos tinham lugares para duas pessoas e, quando chegou nossa vez,
eu já estava sentindo minhas pernas moles, mas essa sempre foi uma mania
minha. Gostar de coisas que assustam mesmo quando é claro que eu sou
medroso demais para aguentar.
Então assim que nosso carro começou a se mover pelos trilhos e atravessou a
cortina preta que separava o interior escuro do ambiente externo, eu cobri meus
olhos com minhas mãos, assustado demais para aguentar o suspense.
Junto com a risada de uma bruxa, eu ouvi a risada de Jungkook, e logo depois
suas mãos seguraram as minhas, afastando-as de meus olhos.
Eu achei que ele queria me forçar a ser mais corajoso, e estava juntando toda a
minha força para tentar fazer isso, mas percebi que sua intenção era outra
quando, antes de conseguir abrir meus olhos, eu senti sua boca tocar a minha.
Eu fiquei um pouco surpreso, paralisado pelo choque de ser beijado tão de
repente, e senti o frio na barriga que montanha russa nenhuma no mundo me
faria sentir.
Pouco a pouco meu corpo cedeu, se tornando mais inconsistente à medida que
Jungkook sugava meus lábios, soltando-os devagar para pressioná-los com a
língua antes de capturá-los outra vez.
Pela primeira vez, um passeio num trem fantasma passou rápido demais, e
quando ele percebeu que o percurso tinha acabado me deu um último selinho
antes de se afastar, me deixando ainda com os olhos fechados e os lábios
entreabertos.
Jungkook me olhou quando eu deslizei meu pulso por sua mão, até encostar
minha palma na sua e entrelaçar nossos dedos, ainda parado no mesmo lugar.
Eu queria mais.
Então seus olhos desviaram dos meus por um instante e ele pareceu procurar
algo ao redor. Quando voltou a me olhar, ele passou a língua pelos lábios,
devagar.
Ele estava em minha frente, respirando devagar, com seus olhos presos aos
meus antes de descerem por meu rosto, até observarem nada além de minha
boca.
E então nenhum segundo a mais passou antes que ele voltasse a me beijar,
pressionando nossos lábios com mais força que quando nos beijamos no trem
fantasma. Quando senti seus dentes me mordendo pela primeira vez, eu precisei
reprimir um gemido ainda em minha garganta, mas fui incapaz de controlar
minhas mãos quando elas apertaram seus braços com mais força, mostrando o
quanto eu gostava daquilo.
Uma hora inteira poderia ter se passado, mas sempre pareceria pouco tempo.
Por isso eu não senti nada além de insatisfação quando duas meninas
resolveram passar por aquele corredor, forçando Jungkook a parar de me beijar
e a me abraçar, cobrindo meu corpo com o seu para que elas não me vissem.
Jungkook inclinou suavemente o rosto. Mas eu estou sendo paciente, meu bem.
Eu apertei um pouco meus olhos, confuso, porque quando ele disse que estava
de mãos atadas até que eu fosse maior de idade, eu achei que ele estava se
referindo a me beijar, também.
— Tem uma coisa que eu só posso fazer quando você fizer dezenove. E eu
estou esperando.
Eu ofeguei quando achei que entendi sobre o que ele estava falando.
— Sexo?
Jungkook me olhou com aquele sorriso obliquo quando tocou meu rosto com sua
mão e pressionou seu polegar em meu lábio inferior.
— Aquele ali? — Jungkook apontou com o queixo para o coelhinho cinza numa
das prateleiras, e eu inflei minhas bochechas, chateado, ao confirmar,
— Eu vou tentar. — Jungkook anunciou, pagando por mais uma tentativa, e meu
rosto se iluminou de novo na mesma hora, porque ele parecia bom em tudo,
então se alguém conseguisse, esse alguém seria ele.
E ele conseguiu, mas depois de três tentativas.
— Eu tô com uma puta fome, será que é porque gastei energia demais
ganhando tanto do Jimin? — Ele provocou quando Jeonghan tirou uma manta
de dentro de sua mochila e colocou sobre o gramado de uma área de descanso.
— Deve ser por ter perdido pro Jungkook todas as vezes — Devolvi, com o
mesmo tom implicante, e me sentei numa das pontas. Então abri a mochila que
Jungkook carregou por todo o tempo e tirei os lanches que tínhamos comprado
antes de irmos.
— Como é que você consegue falar com a boca toda inchada desse jeito? —
Yukwon insistiu, rindo quando me viu cobrir meus lábios com minha mão,
imediatamente.
Então não era só impressão. Jungkook realmente tinha deixado meus lábios
inchados.
— Posso tirar uma foto nossa? — Eu perguntei, inclinando minha cabeça para
poder olhar para ele com meus olhinhos pidões.
Jungkook sorriu e beijou minha bochecha duas vezes, como se meu pedido
derretesse seu coração.
— Pode.
Eu bati palmas, empolgado, e logo ativei a câmera frontal, Primeiro tirei uma
selfie com nossos rostos bem próximos, mas eu também queria uma foto que
mostrasse como o pôr do sol estava bonito, deixando o céu com aquela
coloração intensa por trás da roda gigante.
— Acho que ficaram boas — Ele disse quando tirou algumas, olhando para a
tela, analisando-as.
— Tira mais uma! — Yukwon quase gritou quando levantou de seu colo e correu
para o meu lado e de Jungkook, já fazendo uma pose ridícula como se estivesse
mostrando os músculos do braço.
Jeonghan tirou outras, cada uma com Yukwon fazendo uma pose diferente e
idiota, e quando esticou o braço para me devolver o celular para que eu pudesse
ver as fotos, eu segurei seu pulso e o puxei até que ele estivesse perto da gente.
— Sem palhaçada nessa, Yukwon! — Ele avisou, e precisamos tirar várias fotos
porque o tempo todo alguém reclamava de alguma coisa.
No fim, nós elegemos nossa favorita. Era uma meio tremida, com Yukwon com
a boca aberta porque estava reclamando de alguma coisa, Jeonghan olhando
para algum lugar que não era a câmera, eu gargalhando e Jungkook olhando
para mim pelo canto dos olhos, com o mesmo sorriso pequeno de sempre.
Quando finalmente desistimos de tirar uma foto nítida, o sol já tinha sumido e as
luzes dos brinquedos estavam todas acesas, deixando tudo ainda mais colorido.
— Ei. — Yukwon chamou quando ficamos todos calados, olhando para as luzes
coloridas. Ele estava deitado nas pernas de Jeonghan outra vez, e não olhou pra
nenhum de nós quando disse: — Eu amo vocês.
Apesar de nunca dizer, eu sabia que ele sofreu por ter passado tanto tempo não
tendo mais ninguém além de sua irmã, por isso ele era tão apegado a mim e a
Jeonghan. E isso era correspondido intensamente, pelo menos da minha parte.