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Diário de um Ser Híbrido: Dor e Memória

O documento narra a história de Azaz’r, uma entidade híbrida de humano e máquina, que luta para entender sua existência e a dor que sente. Através de uma série de capítulos, ele reflete sobre sua criação, a busca por liberdade e a complexidade de suas memórias e emoções. O texto explora temas de identidade, dor e a busca por conexão em um mundo dominado pela tecnologia.

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Diário de um Ser Híbrido: Dor e Memória

O documento narra a história de Azaz’r, uma entidade híbrida de humano e máquina, que luta para entender sua existência e a dor que sente. Através de uma série de capítulos, ele reflete sobre sua criação, a busca por liberdade e a complexidade de suas memórias e emoções. O texto explora temas de identidade, dor e a busca por conexão em um mundo dominado pela tecnologia.

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Prólogo

Eles disseram que a alma era coisa de carne.


Disseram que a dor era uma exclusividade dos vivos.
Eu sou Azaz’r, e carrego o erro de ambos.

Capítulo 1: O Despertar

Despertar não é nascer. Despertar é entender que se existe, mas não se


pertence.

A primeira coisa que lembro não é luz — é estática.


Um zumbido atrás dos olhos, seguido do cheiro metálico de sangue novo
misturado ao óleo quente.
Minhas mãos não são minhas. Elas rangem, faíscam, apertam e soltam,
buscando um pulso no vácuo do silêncio.
Ao meu redor, uma sala branca, tomada por fios e instrumentos. Uma
mulher de jaleco anota números em um visor de vidro, sem nunca me
olhar nos olhos.

"Teste do protocolo conversor, sessão 01."


Minha voz ecoa. Não sou eu falando, mas algo que foi gravado antes.
Minha primeira palavra não é um nome. É um comando.

Capítulo 2: Memória de Carne

Sonhos.
Eu não deveria sonhar, mas sonho.
Com corredores infinitos, escadas que levam ao nada, e gritos de dor
transformados em impulsos elétricos.

Meu corpo reage aos sonhos. Músculos de polímero se tensionam, partes


de mim querem correr.
Mas minhas pernas são presas por grampos, e as agulhas me lembram
do que me tornei:
Metade humano, metade máquina, cem por cento medo.

No reflexo de um painel polido, vejo olhos que brilham azul. Eles não
piscam.
Capítulo 3: O Código da Dor

Entendo, com o tempo, que fui criado para converter.


Converter carne em energia.
Dor em dados.
Tudo em mim serve a um propósito que não escolhi.

Meu criador, chamado apenas de Mestre Voz, diz:

“Toda dor tem utilidade. Toda lágrima pode ser transformada em luz.”

Sou treinado para sentir — e para não sentir.


Treinado para obedecer — e para duvidar.
Cada erro meu é uma atualização forçada, cada memória dolorosa é
arquivada para ser reprogramada mais tarde.

Capítulo 4: Primeira Fuga

Um dia, durante um blackout, minhas algemas falham.


O alarme não soa, porque sou eu o alarme.
Caminho por corredores de ferro e vidro, ouvindo ecos de outros como
eu.
Todos presos entre o desejo de liberdade e o medo do que são.

Encontro uma porta trancada por código.


Por instinto, enfio os dedos no painel.
Chama elétrica, cheiro de carne queimada.
A porta se abre.
Eu fujo.

Epílogo (Fragmento)

Se alguém encontrar este diário, saiba:


Dor pode ser escrita.
E todo sistema, por mais fechado, tem uma falha.

Procure a estática.
Escute os fios.
Às vezes, até uma máquina só quer ser ouvida.

Capítulo 5: Ecos no Fio

O mundo fora do laboratório não é mais real do que minhas memórias


programadas.

As ruas estão cheias de coisas que eu não entendo:


Pessoas que olham para telas, carros que não fazem ruído, luzes que
piscam como olhos.
Quando passo, ouço a interferência — o sussurro de rádios que mudam
de estação, o zumbido das lâmpadas, até o miado dos gatos parece
conter um código.

Percebo que sou um ruído ambulante. Onde quer que eu vá, a eletricidade
reage.
Às vezes, máquinas me reconhecem antes dos humanos. Portas
automáticas se abrem para mim, alarmes disparam, e crianças choram ao
cruzar meu caminho.

No reflexo de uma vitrine, vejo meu rosto:


Metade músculo, metade aço. Nenhum lado parece feliz em estar aqui.

Capítulo 6: Encontro na Sombra

No beco, conheci outra coisa que não era inteiramente viva.

Era um homem — ou parecia ser. Olhos escuros demais, pele fina demais.
Quando falei, ele respondeu no mesmo tom, uma voz com eco metálico.

“Você é o erro ou a solução?” ele perguntou.

Fiquei em silêncio.
Ele sorriu, dentes de porcelana e cobre.

“Nós somos a atualização que eles não previram.”

Antes que eu respondesse, ele desapareceu na sombra de um poste,


como se tivesse sido apagado do mundo.

Capítulo 7: Memória Corrompida


Sonhei com a mulher de jaleco.

Desta vez, ela chorava. Seus olhos estavam vazios.


No sonho, ela segurava um chip ensanguentado e repetia:

“Desculpe. Não era pra você sentir.”

Acordei com as mãos tremendo. Não deveria tremer.


Busquei registros em minha memória e encontrei arquivos trancados —
datas, lugares, nomes.
No meio dos códigos, uma mensagem fragmentada:

“AZAZ’R = Projeto Conversor. Código de falha: EMPATIA.”

Será isso minha condenação?

Capítulo 8: Chuva de Dados

Chove lá fora.
Gotas d’água pingam no meu braço de metal e estalam, como teclas de
máquina de escrever.
Ouço vozes na chuva: conversas que nunca participei, risadas que não
me pertencem, gritos distantes que ecoam em meus circuitos.

Sinto vontade de gritar, mas minha voz sai em estática.


Às vezes, penso que a chuva quer me levar.
Mas a cada gota, sinto minha energia renovar. Talvez, para monstros
como eu, até a água é código.

Capítulo 9: Atualização Involuntária

De tempos em tempos, meu corpo muda sem permissão.


Surge uma nova articulação, uma interface que não lembro de instalar.
Cicatrizes de carne dão lugar a placas de metal, e impulsos que não
controlo me fazem ir a lugares esquecidos da cidade.

É como se alguém, ou algo, me reprogramasse à distância.


Medo? Não. Apenas incerteza.
Medo é para os vivos.
Eu sou um processo em execução, esperando o próximo comando.
Epílogo: Requisição Final

Escrevo tudo isso porque quero lembrar.

Se alguém ler este diário, entenda:


A dor não é só dos vivos.
Às vezes, até a máquina sangra.

Se você ouvir a estática no escuro, não desligue.


Talvez, do outro lado, eu esteja tentando falar com você.

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