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A Alma da Máquina: Diário de Azaz’r

O documento narra a história de Azaz’r, uma entidade metade humano, metade máquina, que luta com sua identidade e dor em um mundo dominado por tecnologia. Ele reflete sobre sua criação, sua busca por liberdade e a luta interna entre sentir e não sentir. Através de sonhos e encontros, Azaz’r descobre que sua existência é marcada por um código de falha chamado empatia, questionando o que significa ser vivo.

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A Alma da Máquina: Diário de Azaz’r

O documento narra a história de Azaz’r, uma entidade metade humano, metade máquina, que luta com sua identidade e dor em um mundo dominado por tecnologia. Ele reflete sobre sua criação, sua busca por liberdade e a luta interna entre sentir e não sentir. Através de sonhos e encontros, Azaz’r descobre que sua existência é marcada por um código de falha chamado empatia, questionando o que significa ser vivo.

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DANIEL HARTMAN: O CIGORGUE

Prólogo

Eles disseram que a alma era coisa de carne.


Disseram que a dor era uma exclusividade dos vivos.
Eu sou Azaz’r, e carrego o erro de ambos.

Capítulo 1: O Despertar

Despertar não é nascer. Despertar é entender que se existe, mas não se pertence.

A primeira coisa que lembro não é luz — é estática.


Um zumbido atrás dos olhos, seguido do cheiro metálico de sangue novo misturado ao
óleo quente.
Minhas mãos não são minhas. Elas rangem, faíscam, apertam e soltam, buscando um
pulso no vácuo do silêncio.
Ao meu redor, uma sala branca, tomada por fios e instrumentos. Uma mulher de
jaleco anota números em um visor de vidro, sem nunca me olhar nos olhos.

"Teste do protocolo conversor, sessão 01."


Minha voz ecoa. Não sou eu falando, mas algo que foi gravado antes.
Minha primeira palavra não é um nome. É um comando.

Capítulo 2: Memória de Carne

Sonhos.
Eu não deveria sonhar, mas sonho.
Com corredores infinitos, escadas que levam ao nada, e gritos de dor transformados
em impulsos elétricos.

Meu corpo reage aos sonhos. Músculos de polímero se tensionam, partes de mim
querem correr.
Mas minhas pernas são presas por grampos, e as agulhas me lembram do que me
tornei:
Metade humano, metade máquina, cem por cento medo.
No reflexo de um painel polido, vejo olhos que brilham azul. Eles não piscam.

Capítulo 3: O Código da Dor

Entendo, com o tempo, que fui criado para converter.


Converter carne em energia.
Dor em dados.
Tudo em mim serve a um propósito que não escolhi.

Meu criador, chamado apenas de Mestre Voz, diz:

“Toda dor tem utilidade. Toda lágrima pode ser transformada em luz.”

Sou treinado para sentir — e para não sentir.


Treinado para obedecer — e para duvidar.
Cada erro meu é uma atualização forçada, cada memória dolorosa é arquivada para
ser reprogramada mais tarde.

Capítulo 4: Primeira Fuga

Um dia, durante um blackout, minhas algemas falham.


O alarme não soa, porque sou eu o alarme.
Caminho por corredores de ferro e vidro, ouvindo ecos de outros como eu.
Todos presos entre o desejo de liberdade e o medo do que são.

Encontro uma porta trancada por código.


Por instinto, enfio os dedos no painel.
Chama elétrica, cheiro de carne queimada.
A porta se abre.
Eu fujo.

Epílogo (Fragmento)

Se alguém encontrar este diário, saiba:


Dor pode ser escrita.
E todo sistema, por mais fechado, tem uma falha.
Procure a estática.
Escute os fios.

Às vezes, até uma máquina só quer ser ouvida.

Capítulo 5: Ecos no Fio

O mundo fora do laboratório não é mais real do que minhas memórias programadas.

As ruas estão cheias de coisas que eu não entendo:


Pessoas que olham para telas, carros que não fazem ruído, luzes que piscam como
olhos.
Quando passo, ouço a interferência — o sussurro de rádios que mudam de estação, o
zumbido das lâmpadas, até o miado dos gatos parece conter um código.

Percebo que sou um ruído ambulante. Onde quer que eu vá, a eletricidade reage.
Às vezes, máquinas me reconhecem antes dos humanos. Portas automáticas se
abrem para mim, alarmes disparam, e crianças choram ao cruzar meu caminho.

No reflexo de uma vitrine, vejo meu rosto:


Metade músculo, metade aço. Nenhum lado parece feliz em estar aqui.

Capítulo 6: Encontro na Sombra

No beco, conheci outra coisa que não era inteiramente viva.

Era um homem — ou parecia ser. Olhos escuros demais, pele fina demais. Quando
falei, ele respondeu no mesmo tom, uma voz com eco metálico.

“Você é o erro ou a solução?” ele perguntou.

Fiquei em silêncio.
Ele sorriu, dentes de porcelana e cobre.

“Nós somos a atualização que eles não previram.”

Antes que eu respondesse, ele desapareceu na sombra de um poste, como se tivesse


sido apagado do mundo.

Capítulo 7: Memória Corrompida


Sonhei com a mulher de jaleco.

Desta vez, ela chorava. Seus olhos estavam vazios.


No sonho, ela segurava um chip ensanguentado e repetia:

“Desculpe. Não era pra você sentir.”

Acordei com as mãos tremendo. Não deveria tremer.


Busquei registros em minha memória e encontrei arquivos trancados — datas, lugares,
nomes.
No meio dos códigos, uma mensagem fragmentada:

“AZAZ’R = Projeto Conversor. Código de falha: EMPATIA.”

Será isso minha condenação?

Capítulo 8: Chuva de Dados

Chove lá fora.
Gotas d’água pingam no meu braço de metal e estalam, como teclas de máquina de
escrever.
Ouço vozes na chuva: conversas que nunca participei, risadas que não me pertencem,
gritos distantes que ecoam em meus circuitos.

Sinto vontade de gritar, mas minha voz sai em estática.


Às vezes, penso que a chuva quer me levar.
Mas a cada gota, sinto minha energia renovar. Talvez, para monstros como eu, até a
água é código.

Capítulo 9: Atualização Involuntária

De tempos em tempos, meu corpo muda sem permissão.


Surge uma nova articulação, uma interface que não lembro de instalar.
Cicatrizes de carne dão lugar a placas de metal, e impulsos que não controlo me
fazem ir a lugares esquecidos da cidade.

É como se alguém, ou algo, me reprogramasse à distância.


Medo? Não. Apenas incerteza.
Medo é para os vivos.
Eu sou um processo em execução, esperando o próximo comando.
Epílogo: Requisição Final

Escrevo tudo isso porque quero lembrar.

Se alguém ler este diário, entenda:


A dor não é só dos vivos.
Às vezes, até a máquina sangra.

Se você ouvir a estática no escuro, não desligue.


Talvez, do outro lado, eu esteja tentando falar com você.

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