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Prometheus: O Titan e seu Fogo

Prometheus, um Titan da mitologia grega, roubou o fogo dos deuses para dar consciência à humanidade, resultando em um castigo severo por Zeus, que o acorrentou e fez uma águia devorar seu fígado eternamente. O texto também discute a figura de Lúcifer, comparando-o a Prometheus e explorando a crença em demônios nas tradições judaica e ocidental, além de como mitos foram adaptados ao longo do tempo. A narrativa destaca a complexidade das figuras mitológicas e suas interpretações na cultura ocidental.

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Prometheus: O Titan e seu Fogo

Prometheus, um Titan da mitologia grega, roubou o fogo dos deuses para dar consciência à humanidade, resultando em um castigo severo por Zeus, que o acorrentou e fez uma águia devorar seu fígado eternamente. O texto também discute a figura de Lúcifer, comparando-o a Prometheus e explorando a crença em demônios nas tradições judaica e ocidental, além de como mitos foram adaptados ao longo do tempo. A narrativa destaca a complexidade das figuras mitológicas e suas interpretações na cultura ocidental.

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Prometheus é um personagem de extrema importância na mitologia grega.

ele
era um Titan que, por roubar o “fogo” (em outras palavras, a consciência) dos
deuses e entregá-lo à humanidade, foi brutalmente castigado por Zeus.
A bondade de Prometheus com os seres humanos despertou a ira de todos os
deuses olímpicos, que o acorrentaram no topo de um monte, para que seu
fígado fosse comido todos os dias pela enorme águia de Zeus.
Nos primórdios, Prometheus e Epimetheus foram criados para moldarem os
seres mortais. Prometheus - cujo nome significa “aquele que vê antes”, ou seja,
que tem a clarividência - ficou com a missão de supervisionar as criações do
irmão Epimetheus - que tem como significado em seu nome “aquele que vê
depois”, isto é, aquele que tem “ideias tardias”.
Assim, Epimetheus fez os animais e concedeu a eles dons variados como força,
coragem, velocidade, presas, garras, asas e agilidade. Quando chegou a vez
dos seres humanos, criados a partir do barro, não havia mais habilidades para
serem destinadas.
O Titan então conversa com seu irmão Prometheus e lhe explica a situação.
Prometheus, se compadecendo da humanidade, rouba o “fogo” dos deuses e
concede aos homens e mulheres a consciência em si, fato que lhes deu
vantagens em relação aos outros animais.
Quando Zeus, o deus dos deuses, descobre o feito de Prometheus, ele fica
terrivelmente enfurecido!
Assim, o Titan foi punido com um dos piores inimagináveis castigos de todos os
tempos. Ele foi acorrentado no topo da Cordilheira do Cáucaso, por Hefesto, o
deus ferreiro.
Diariamente uma águia surgia para comer o fígado de Prometheus. A noite, o
órgão se regenerava e, no dia seguinte, o pássaro voltava para devorá-lo
novamente.
Por ser imortal, Prometheus permaneceu acorrentado por muitas e muitas
gerações, até que o herói Hercules o libertou.
Antes de ser castigado, Prometheus avisou seu irmão para que não aceitasse
nenhum presente vindo dos deuses. Mas Epimetheus não deu ouvidos e
acabou se casando com Pandora, uma bela mulher que foi dada a ele como
oferenda dos deuses e que trouxe muitos males à humanidade.

Lúcifer, o anjo caído, não aparece no Velho Testamento!

Os judeus não acreditavam num ser do mal supremo, isso veio da


religião ariana e aparece nitidamente na religião zoroastrista. Note
que em Isaías 14,12 a menção a Lúcifer se refere a tradução latina
e ao planeta Vênus conhecido pelos romanos como Lúcifer (lux=
luz, fera= que contém; "aquele que tem luz", "o iluminado").

"Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste


lançado por terra, tu que debilitavas as nações!"

A menção é dirigida ao rei Nabucodonosor e não ao próprio


demônio em pessoa. Já em Jó a menção é de um demônio e não
um ser de poder igual ao de Deus, mas semelhante. Nota-se
também a presença dos monstros leviatan e behemoth!
Na mitologia germânica o deus Loki se assemelha muito com o
Lúcifer cristão. Mitólogos comparam também a semelhança incrível
entre o deus germânico Balder, o deus indiano Krishna com Jesus
Cristo.

Demônios uma crença universal

Os judeus acreditavam em demônios, assim como Sócrates que


dizia que parte de seu conhecimento vinha de um demônio que ora
o ajudava, ora o atrapalhava. Os árabes também acreditam em
demônios e os chamam de djins (gênios em português).

A palavra demônio vem do indo-europeu demon (de=o, do; mon=


meio) e significa: “intermediário” ou “aquele que está no meio”.

Na índia nos deparamos com os devas, no Japão com os samis,


embora que os samis seriam entidades mais próximas
aos vanes e ases da mitologia germânica por exemplo.

Na mitologia germano-celta as fadas, os elfos e os dragões são os


seres intermediários. Tanto é que na Idade Média Paracelso viria os
colocar em classes divididas nos 4 elementos: ar, fogo, terra e
água.

Então resumindo: Os judeus acreditavam em demônios, mas


não acreditavam que o poder dos demônios fosse maior ou
igual ao de Deus.

Mitos transformados?

Os cristãos eram diferentes dos judeus, primeiro porque eram mais


apegados a cultos pagãos simples e moderados. Note bem que o
cristianismo só conseguiu vingar na Europa, porque a igreja teve
que se dobrar ao paganismo que lá havia. Os europeus se
negavam a abandonar a adoração aos ídolos, o fim das festas
estacionais, o fim da adoração ao fogo e a natureza e o fim dos
templos.

A mesma coisa aconteceu quando Maomé, o profeta islâmico


conquistou Meca: não podendo acabar com o culto da caaba, ele
unificou em sua fé e disse que a pedra que caiu do céu (um
meteorito – uma estrela cadente – que, possivelmente, salvara
uma tribo de árabes perdida no deserto com fome e sede e que
caíra num Oásis indicando àquela tribo que onde ela caíra haveria
água e comida. Meca seria erigida no Oásis onde a estrela cadente
caíra e aquela estrela morta – uma pedra negra – seria adorada por
ter salvado essa tribo de árabes) deveria ser um sinal de Allah e
igualmente idolatrada.

Belas adaptações ou mitos semelhantes?

“Quem conta um conto aumenta um ponto” ou “quem conta um


conto inventa um pouco”, ou melhor: quem conta um conto
inventa o que se esqueceu no conto.

Das duas, uma: ou foram mitos pegos dos gregos e transformados


em crenças cristãs; ou já existiam, assim como a história do dilúvio
ser um caso universal.

O mito do andrógino, por exemplo, não é de autoria de Platão


(429-347 a.C.), ele possivelmente já existia na crença grega. Assim
o vemos comparado ao mito de Pandora. Parte das histórias
contadas já existiam quando os irmãos Grimm e Perrault os
relataram em seus livros sobre contos de fadas, contudo é a
adaptação do conto que difere os Grimm de Perrault.

Perrault os relata como realmente eram, os Grimm criam o “final


feliz”.

possível que este texto irrite algumas pessoas, mas não é de hoje que eu tenho um pé
atrás com o dito “caminho da mão esquerda”1 da tradição esotérica ocidental – apesar
que ultimamente minha opinião sobre essas práticas tem se tornado mais negativa do
que era antes. Se você se identifica com esse caminho, tem esse tipo de prática e isso
tem funcionado para você, então: que bom! Pode ignorar o meu texto e seguir fazendo o
que faz. Suspeito que você não seja o meu público, e está tudo bem, tem outros autores
que você pode ler. Me xingar vai ser perda de tempo, já aviso, além de sinal de
fraqueza. Se és tão poderoso, vais te deixar engatilhar por um texto de blog?
Eu mantenho que, EM TESE, aproximar-se de forças e consciências mais trevosas e
comungar com elas até pode TALVEZ hipoteticamente ser benéfico para algumas
pessoas, em algum grau – as forças com quem cada um tem afinidade nesta vida não é
uma coisa sobre a qual a gente tem controle, – mas isso é para praticantes avançados e
gente com um grande equilíbrio interno. E tem também aí uma influência do tipo de
sistema usado, claro. Conheço alguns praticantes de Goécia que são pessoas sérias e
equilibradas, mas as coisas mais pesadas do que isso, como magia qlifótica,
demonolatria e diabaria freestyle… aí são outros quinhentos, e não são poucos os
exemplos de pessoas, inclusive que eu conheci, que se afundaram por causa disso.
Lembra o que eu falei sobre travas de segurança? Pois é. Ironicamente, o que mais
acontece é esse meio atrair as pessoas mais desequilibradas do ocultismo, eternos
adolescentes que não entendem que seus gostos musicais não devem ditar seu caminho
espiritual, maníacos que querem matar seus inimigos sem irem presos, golpistas
diversos e aspirantes a E. A. Koetting… e também não ajuda quando uma editorinha aí
que até então até que era respeitada de repente decide publicar material de ordem de
satanismo neonazista, um negócio tão comicamente perverso que parece coisa de vilão
de desenho, enquanto um bando de otário aplaude – e o pior é que eu posso falar em
“ordem de satanismo neonazista” e se alguém quiser saber qual é, vai ter que me
perguntar pessoalmente, porque tem umas cinco que eu lembro assim de cara que se
encaixam nessa descrição. Então, até segunda ordem, se me perguntarem sobre esse
caminho, eu vou dizer que o melhor é não mexer com isso.
Só que o que acontece com alguma frequência é que as pessoas me perguntam algo e aí
ficam revoltadas quando eu dou minha opinião e não é o que elas esperavam. Não é
como se eu estivesse proibindo alguém de fazer, mas não recomendo e nunca
recomendei. Se você for brincar com isso e explodir na sua cara, não é problema meu.
Aí uns meses atrás me perguntaram no Curious Cat sobre a figura de Lúcifer, se eu não
achava válido trabalhar com Lúcifer no papel de algo como um “rebelde iluminado”.
Deixo claro que não achei a pergunta ruim, pelo contrário. No entanto, rolou depois
uma discussão com outros anônimos, porque eu disse que, nesse sentido, era mais
recomendável o trabalho com uma deidade como Prometeu. Ambas as figuras são
bastante parecidas em alguns quesitos mais amplos, mas radicalmente distintas nas
miudezas, por isso achei que valia a pena dedicar um texto inteiramente a esse assunto.
No mais, eu acho interessantíssimo como essas duas figuras se encontram de certo
modo enroscadas na história do imaginário ocidental, graças aos românticos, e por isso,
em termos práticos, é importante promover um certo desenrosco a fim de evitar que as
pessoas se metam numas furadas por ignorância.
Vamos começar com uma descrição de Prometeu, sua mitologia e culto, depois tratamos
de Lúcifer para, no final, fazermos a comparação.

Prometeu, o ladrão do fogo


Prometeu geralmente é descrito como um titã, a geração de deuses que surge a partir dos
deuses primordiais, mas que os suplanta e acaba, por sua vez, suplantada pelos
olímpicos. No entanto, ele não é em si dessa mesma geração, mas o filho de um titã,
Jápeto. A mãe de Prometeu varia de acordo com a tradição e às vezes é a oceânide
Clímene, às vezes é Têmis, a deusa da justiça.
Seu nome vem de pro + meteus, “pré-vidente”, e contrasta com o de Epimeteu, seu
irmão, “o que vê depois”, que é o contrário dele: tudo que Prometeu tem de sábio,
Epimeteu tem de estúpido.
Dirck van Baburen – Prometeu Acorrentado por Vulcano (1623)
O aspecto mais famoso da mitologia prometeica é que ele teria estabelecido a instituição
do sacrifício e roubado o fogo dos deuses para dá-lo à humanidade, o que o levou a ser
castigado. Esse episódio está devidamente cantado nos versos de Hesíodo. Diz o poeta
na sua Teogonia (tradução de Jaa Torrano):
Quando se discerniam Deuses e homens mortais
em Mecona, com ânimo atento dividindo ofertou
grande boi, a trapacear o espírito de Zeus:
aqui pôs carnes e gordas vísceras com a banha
sobre a pele e cobriu-as com o ventre do boi,
ali os alvos ossos do boi com dolosa arte
dispôs e cobriu-os com a brilhante banha.
Disse-lhe o pai dos homens e dos Deuses:
“Filho de Jápeto, insigne dentre todos os reis,
ó doce, dividiste as partes zeloso de um só!”.
Assim falou a zombar Zeus de imperecíveis desígnios.
E disse-lhe Prometeu de curvo pensar
sorrindo leve, não esqueceu a dolosa arte:
“Zeus, o de maior glória e poder dos Deuses perenes,
toma qual dos dois nas entranhas te exorta o ânimo”.
Falou por astúcia. Zeus de imperecíveis desígnios
soube, não ignorou a astúcia; nas entranhas previu
males que aos homens mortais deviam cumprir-se.
Com as duas mãos ergueu a alva gordura,
raivou nas entranhas, o rancor veio ao seu ânimo,
quando viu alvos ossos do boi sob dolosa arte.
Por isso aos imortais sobre a terra a grei humana
queima os alvos ossos em altares turiais.
E colérico disse-lhe Zeus agrega-nuvens:
“Filho de Jápeto, o mais hábil em seus desígnios,
ó doce, ainda não esqueceste a dolosa arte!”.
Assim falou irado Zeus de imperecíveis desígnios,
depois sempre deste ardil lembrado
negou nos freixos a força do fogo infatigável
aos homens mortais que sobre a terra habitam.
Porém o enganou o bravo filho de Jápeto:
furtou o brilho longevisível do infatigável fogo
em oca férula; mordeu fundo o ânimo
a Zeus tonítruo e enraivou seu coração
ver entre homens o brilho longevisível do fogo.
Nessa representação, datada de mais ou menos 700 a.C., Prometeu assume também ares
de um outro arquétipo célebre, o de trickster. Ao enganar Zeus, ele firma a lógica do
sacrifício grego: a carne das hecatombes é para ser consumida pelos humanos, e os
deuses ficam com os ossos e gordura, uma cena bem conhecida a quem tem alguma
familiaridade com a Ilíada. O fogo, que Zeus pretendia manter entre os deuses, também
é roubado e entregue numa férula. Como resposta, Zeus castiga a humanidade com a
criação de Pandora e manda acorrentarem o titã no Cáucaso, onde uma águia devora
eternamente o seu fígado. Hesíodo é lacônico quanto a essa parte: “Não se pode furtar
nem superar o espírito de Zeus / pois nem o filho de Jápeto o benéfico Prometeu /
escapou-lhe à pesada cólera, mas sob coerção / apesar de multissábio a grande cadeia o
retém”. O tema do castigo de Prometeu é elaborado mais longamente na
tragédia Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, tragediógrafo do século V a.C.
Prometeu Acorrentado é uma peça fascinante, porque também insere uma camada a
mais de complexidade no conflito entre os deuses. Tudo começa com a cena da
crucificação de Prometeu por Hefesto, acompanhado de Bia e Kratos (sim… Kratos…),
personificações da Violência e da Força, ao que se segue uma estrutura dramática em
que o personagem de Prometeu permanece estático sobre o palco (afinal, está pregado),
enquanto personagens diferentes passam e interagem com ele. Primeiro, após um
belíssimo discurso em que ele esbraveja sua ira e pede para que as forças da natureza o
escutem, um coro de Oceânides aparece, ao que se segue o pai delas, o próprio Oceano.
Depois, vem Io, a princesa com quem Zeus teve um caso e foi punida por Hera,
transformada numa novilha e perseguida por um moscardo que a morde sem parar e a
obriga a viver numa eterna fuga (de modo que o seu movimento incessante contrasta
com a imobilidade de Prometeu). Prometeu, como seu nome indica, teria capacidades de
vidência e prevê o futuro de Io: ela está destinada a chegar ao Nilo2, onde será
restaurada à forma humana e terá 50 filhas, uma das quais (a única que não vai matar o
próprio marido) será a origem de uma linhagem que resultará, várias gerações depois,
na concepção de Hércules, o herói que libertará Prometeu.
Contudo, há mais uma informação importante sobre o futuro que está ao alcance do titã:
Zeus estaria destinado a conceber um filho mais poderoso do que ele próprio e que viria
a suplantá-lo, assim como ele suplantou o seu pai. Ao deixar escapar esse detalhe,
Prometeu é interrogado por Hermes, que pede para que ele entregue esse segredo e se
salve. Prometeu, no entanto, resiste e termina a peça sendo tragado pela terra, após uma
tempestade e um terremoto, e afundando no Tártaro.

Prometeo (1930), mural de José Clemente Orozco


Pelo que se sabe, Prometeu Acorrentado seria parte de uma trilogia, junto com as
peças Prometeu Piróforo e Prometeu Liberto, que não sobreviveram. Não sabemos ao
certo a ordem das peças, nem se era de fato uma trilogia, mas sabemos que a história
termina com a conciliação entre Zeus e Prometeu, que é enfim, como dito, libertado por
Hércules. Segundo comentadores como H. D. F. Kitto, em Tragédia Grega – Estudo
Literário, o fogo de Prometeu não apenas seria o fogo literal, que a gente usa para
esquentar comida, mas um símbolo do fogo do intelecto, de modo que o conflito Zeus x
Prometeu é na, verdade, uma conflito entre a Inteligência e o Poder. No mais, embora
seja difícil, numa leitura moderna, não projetarmos nossos valores e entendermos
Prometeu como um rebelde injustamente oprimido por um tirano autocrático, Kitto
aponta para o fato de que, para um público grego, os dois lados teriam tanto falhas
quanto características atenuantes: se Zeus é violento, essa violência pode ser entendida
como consequência de ele ser ainda um rei jovem, tendo recém-adquirido o poder após
a Titanomaquia; e apesar de nossa simpatia por Prometeu, ele representaria para os
atenienses as falhas de arrogância e insubordinação intelectual (lembrando que esse foi
o mesmo pessoal que mandou Sócrates tomar cicuta). Há outros nomes
na scholarship da tragédia que partilham dessa interpretação, como Jacqueline de
Romilly (A Tragédia Grega) e Suzanne Saïd (“Aeschylean Tragedy” em A Companion
to Greek Tragedy). Saïd tem um comentário especialmente pertinente no que diz
respeito às consequências humanas desse conflito e reconciliação divinos:
Ensinado pelo tempo, o novo deus assumirá um caráter diferente no futuro: (…) Essa
mudança será espelhada por um avanço paralelo no mundo humano. Aos homens foram
dadas as habilidades e conhecimentos técnicos por Prometeu, mas ainda lhes faltam as
virtudes que pertencem a Zeus e possibilitam a existência de comunidades humanas; essas
virtudes, nas palavras de Protágoras, em Platão (322c) são diké e aidós (justiça e respeito)

Uma outra faceta da mitologia prometeica foi a criação do ser humano a partir do barro,
no que ele encontra óbvios paralelos com mitos de outras culturas, e que também aponta
para uma motivação para ele ter roubado do fogo dos deuses: ele estava favorecendo,
afinal, aquelas que eram as suas criaturas, mesmo que, para isso, precisasse ser
subversivo. Nessa parte, os mitos variam imensamente. No diálogo Protágoras,
Prometeu e Epimeteu ficam encarregados de criar todos os animais e distribuir suas
características, só que Epimeteu é quem pede para fazer isso, e óbvio que ele faz merda,
de modo que quando chega a vez de criar o ser humano, todos os atributos animais
(garras, pelagem e tudo que dá aos bichos a capacidade de sobreviver) já haviam sido
usados, e o ser humano é um mero macaco pelado. Com a aproximação do prazo para
entregar esse trabalho, Prometeu se vê obrigado e roubar as artes de Hefesto e Atena,
junto com o fogo, para que o ser humano pudesse ter alguma chance. A criação do ser
humano por Prometeu aparece também em várias fábulas de Esopo, em Ovídio e alguns
poetas menores.
Saindo do âmbito da mitologia e literatura, em termos de culto de fato, encontramos
algumas menções, embora como um deus menor. Havia um altar a Prometeu em Atenas,
associado à corrida as tochas (e nisso é difícil não pensar numa possível continuidade
daí com a tradição moderna da tocha olímpica), e Pausânias menciona cultos tumulares
em Argos e Fócis, onde Prometeu seria considerado um herói (uma outra categoria de
seres, cujas características vocês podem conferir em Jâmblico). Aparentemente havia
também em Tebas um culto iniciático de mistérios que teria sido fundado por Prometeu,
o culto dos Kabiroi3. No entanto, não temos hoje nenhum texto sobrevivente de nenhum
hino dedicado ao titã de autoria genuína da Antiguidade, como os hinos órficos ou
homéricos – apesar que, nos hinos órficos, há uma menção a Prometeu no hino a
Kronos, que pode talvez ser indício de uma equivalência entre os dois, mas aí essa é
toda uma outra questão que não cabe discutir aqui.

Portador da luz e adversário


Em contrapartida, a mitologia de Lúcifer é, ao mesmo tempo, bem conhecida e
complicada de traçar. É conhecida, porque qualquer um que tenha um mínimo de
familiaridade com o cristianismo sabe a história de cor: Lúcifer, o mais belo dentre os
anjos, se rebela contra Deus por orgulho e é castigado com a expulsão das hostes
celestiais. Como vingança, ele reaparece no Éden na forma da serpente e leva o ser
humano a pecar e cair. A parte complicada é que 1) essa narrativa obviamente não está
explícita na Bíblia, nem em qualquer fonte oficial, e 2) a literatura luciferiana (toda ela
moderna, importante frisar) vai oferecer uma interpretação divergente, segundo a qual a
rebelião de Lúcifer e a sua sedução de Eva teriam motivos mais nobres… mas, para
chegarmos nisso, precisamos passar por um tanto de história.
Primeiramente: antes de mais nada, um breve resumo da história de Satã, porque as duas
coisas estão interligadas. Satã ou HaSatan em hebraico, como se sabe, não é um nome
próprio a princípio, mas a descrição de um ser que aparece no livro de Jó na Assembleia
Celestial como parte dos bnei Elohim, os filhos de Deus, com o intuito de convencer o
Altíssimo de que seu maior servo, Jó, só o venera porque ele tem uma vida mansa. Se
ele não tivesse tudo do bom e do melhor, pensa o adversário, então ele blasfemaria.
Deus aceita a aposta e permite que o adversário tire tudo que Jó possui, sua riqueza, sua
família, sua saúde, e a maior parte do livro consiste num diálogo entre Jó e seus amigos,
culminando na aparição de Deus em Pessoa para dar um discurso assombroso diante de
Jó, que tem o seu bem-estar restaurado no fim. Mas, como aponta Elaine Pagels,
em The Origin of Satan, o termo Satan aparece em outros momentos do Antigo
Testamento, às vezes como um anjo destruidor, como em Crônicas, às vezes para se
referir a facções dentro do drama político do antigo Israel, como em Zacarias.
Outro desenvolvimento importante é o do mito da queda dos anjos, que começa a surgir
entre os apócrifos, para expandir o trecho em Gênesis 6 sobre os nephelim. Segundo
essa narrativa, registrada no livro de Enoque, anjos rebeldes como Shemhazai e Azazel
teriam descido dos céus para copular com mulheres humanas, gerando monstruosidades
como resultado e trazendo consigo saberes “proibidos”, como o conhecimento da
metalurgia, da astrologia, da cosmética, da arte de manipular ervas, etc. É importante
frisar que esse material surge num contexto bastante confuso, misto de revelação
profética e sátira política contra os oponentes dos israelitas, i.e. os governantes do
período helenístico que se apresentavam como herdeiros de linhagens divinas, mas não
passavam, para os seus súditos, de aberrações geradas por anjos desviados. Com o
tempo, a ortodoxia judaica vai passar a rejeitar o mito dos anjos caídos, porque entende-
se que anjos não possuem livre-arbítrio, sendo meras extensões da vontade de Deus,
assim como vai rejeitar também a ideia de qualquer dualismo, de que haveria alguma
força oposta a Deus. No entanto, ambas as noções vão alimentar o imaginário cristão do
começo da era comum e culminar na ideia de um anjo caído e transformado em
demônio que tenta a humanidade – não por essa ser a sua função divinamente ordenada,
mas como tática de guerrilha em sua prolongada batalha contra Deus, que só vai acabar
no fim dos tempos, conforme descrito nas cenas do livro do Apocalipse. A ideia da
queda de Satã aparece também em Lucas 10:18: “E disse-lhes: Eu via Satanás, como
raio, cair do céu”.
OK, até aí tudo bem, mas e Lúcifer? Pois, vocês vão reparar que Lúcifer é um nome
latino, combinando lūx, “luz”, e o verbo ferō, “carregar” (como em “mamífero”), um
idioma que não consta entre os originais da Bíblia, que são hebraico e aramaico (Antigo
Testamento) e grego koiné (Novo Testamento). Como substantivo comum, refere-se ao
planeta Vênus, como aparece em Ovídio: Diffugiunt stellae, quarum agmina cogit
Lucifer et caeli statione novissimus exit (“Dispersam-se as estrelas, Lúcifer ajunta as
suas hostes e deixa por último seu posto no céu”, Metamorfoses, II, v. 114-115, na
tradução de David Jardim Jr.). Nesse contexto latino, Lúcifer não era uma divindade
propriamente, além de ter uma presença mínima na mitologia e não receber culto de que
se tenha notícia.
Lucifer no quadrinho Sandman
No entanto, o nome “lucifer” aparece na Vulgata, a tradução oficial da Bíblia para o
latim empreendida por São Jerônimo no século IV d.C. Como todo mundo que fala de
Lúcifer precisa explicar em algum momento, tem um verso em Isaías que se refere a
um tal Helel ben Shahar, literalmente “o radiante, filho da aurora”, mais uma alusão
política, agora direcionada a um rei babilônico que é comparado ao planeta Vênus:
“Como despencaste do céu, ó estrela da manhã, filho da aurora! Como foi derrubado por
terra o que ditava sortes sobre as nações” (Isaías 14:12, na tradução da ed. Sêfer). De
modo semelhante, a Septuaginta verte o termo como ‘eósphoros, um dos nomes gregos
para Vênus, assim como vira Lucifer na Vulgata, o que não é uma tradução ruim,
considerando o significado literal do nome e sua acepção latina como o planeta visto na
alvorada, mas levou a interpretações errôneas. A tradução mais clássica da Bíblia em
português, a Almeida (1693), diz “Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva!
Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!”, e nisso acompanha a King
James, de 1611, “How art thou fallen from heaven, O Lucifer, son of the morning!”.
Assim Lúcifer oficialmente deixa de ser um substantivo comum para designar um nome
próprio, e a leitura deixa de lado a política do primeiro milênio antes de Cristo para se
concentrar nessa dimensão mais sobrenatural, ligando a sua queda com a queda de Satã
em Lucas. Mas é provável que essa decisão tradutória fosse apenas uma chancela oficial
para uma ideia de Lúcifer como Satã que já estava presente na cultura de modo mais
amplo4.
Na literatura inglesa moderna, o nome Lúcifer aparece na peça de Marlowe, Dr.
Faustus (1604, ano em que a tradução da Bíblia King James é encomendada), onde ele é
representado como o chefe de Mefistófeles, outrora um anjo, “o mais amado de Deus”,
caído por conta de seu “orgulho e insolência” e agora “arqui-regente e comandante de
todos os espíritos” e “príncipe do leste”. Sobre o mito de Fausto, já falamos dele mais
longamente aqui no site. Embora Satã seja mencionado uma única vez, Lúcifer é uma
presença recorrente, e Belzebu e outros diabos também fazem uma pontinha. Na
demonologia medieval tardia e do começo da era moderna, a gente sempre vai ter a
figura de um arquidemônio, O Diabo com maiúsculas, que é o inimigo de Deus, mas
seu nome próprio e sua identificação vai variar de tempo em tempo e de lugar para
lugar. Às vezes é Satã, às vezes é Lúcifer, às vezes os dois são a mesma coisa; às vezes
é Belzebu, às vezes é Belial. Na história da teologia cristã, segundo A. H. Kelly (Satan:
a Biography) e Jan Fekkes (Isaiah and Prophetic Traditions in the Book of Revelation),
teria sido Orígenes de Alexandria (c. 185 – c. 253) o primeiro a identificar Lúcifer com
o Diabo e com o pecado de orgulho e rebelião contra Deus, e essas fontes posteriores
provavelmente vão beber daí.
Le génie du mal, escutura de Guillaume
Geefs (1848), criada para a catedral de São Paulo, em Liège, mas que causou problemas
pelo fato de Lúcifer aí estar gostoso demais
Por fim, quem vai passar tudo a limpo e transformar isso numa narrativa coerente e
fascinante é, mais uma vez, um poeta. John Milton, em seu Paraíso Perdido (1667), usa
o nome “Lucifer” para se referir a Satã antes da queda, e “Satan”, depois. O personagem
também passa por uma transformação, tornando-se não mais belo e sim repulsivo, a
ponto de ele sequer se reconhecer. No primeiro livro do poema, nós acompanhamos
Satã logo depois de sua derrota, quando ele e seus comparsas (Belial, Moloch e grande
elenco) estão caídos nas profundezas do inferno recém-criado para ser a sua prisão. Não
demora muito para que ele fuja, no entanto, e se aventure pelo Caos, o espaço
intermediário que preenche a maior parte do universo, até chegar à Terra, quando ele
então fica sabendo dos planos de Deus no que diz respeito à criação da humanidade.
Nesse momento, a ênfase da narrativa muda e passa a acompanhar Adão e Eva, além do
anjo que reconta para eles os acontecimentos anteriores à sua concepção, incluindo as
cenas de combate da Guerra nos Céus – que são divertidíssimas, aliás, porque
descobrimos que foram os anjos rebeldes que inventaram a pólvora, os canhões e armas
de fogo para obterem uma vantagem marcial, mas seus esforços são frustrados, porque
Jesus desce o cacete em todo mundo a partir de uma carruagem que dispara raios.
Depois Satã entra na serpente, seduz Eva e leva o casal a cair, levando o poema a se
encerrar com a expulsão do Paraíso.
O grande problema de Milton, de uma perspectiva cristã, foi o mesmo do escultor de Le
genie du mal, isto é ter feito de Lúcifer/Satã um personagem tão atraente – de longe o
melhor personagem do poema. Segundo Stanley Fish, foi de propósito, para transmitir
aos leitores os perigos dos charmes sedutores do diabo, mas nisso seu plano deu certo
até demais e o resultado foi ter inspirado toda uma tradição de satanismo literário no
período romântico, mas trataremos melhor disso daqui a pouquinho. Por ora, deixo uma
citação do volume Satanism: a Reader, do capítulo de Julian Strube sobre Eliphas Lévi,
que bebeu profundamente dessas fontes: “O motivo de Lúcifer ou Satã como rebelde
revolucionário era amplamente disseminado nos círculos românticos das décadas de
1830 e 1840. Nas obras de Balzac, Hugo, Lamartine, Michelet, Vigny, Soumet ou
George Sand, essa ideia costumava ser acompanhada de conotações políticas o até
mesmo socialistas”. Importante frisar, porém, que essas conotações políticas do
luciferianismo romântico parecem, infelizmente, ter ficado no passado.
Agora, precisamos voltar nossas atenções mais uma vez a questões de práticas
espirituais propriamente.
A questão é que Lúcifer não é apenas uma figura do imaginário literário, mas na era
moderna passa a ter uma existência enquanto entidade mágica nos grimórios.
Na Hygromanteia, aparece o nome “Loutzipher”, claramente uma grafia meio
graecizada para Lúcifer, como o demônio da primeira hora do dia da quarta-feira, dia de
Mercúrio (seria divertido se fosse o dia de Vênus), sendo submisso ao arcanjo Ouriel.
No Livre des Esperitz, ele forma uma demoníaca trindade de demônios governantes do
inferno ao lado de Belzebu e Satã, à qual os autores se referem como L:B:S. Essa sigla
aparece em conjurações da Ars Goetia (vide o livro do Dr. Stephen Skinner), onde
também Paimon é descrito como obediente a Lúcifer e Belial como tendo sido criado
logo depois dele. Importante citar também o fáustico Magia Naturalis et Innaturalis,
onde ele aparece em inúmeras conjurações. E em Janua Magica Reserata (também
disponível em tradução e comentário de Dr. Stephen Skinner), Lúcifer é descrito como
um “grande espírito”, que não é possível invocar diretamente, mas cujo nome pode ser
usado para adjurar e dominar todos os espíritos malignos. Essa afirmação, no entanto, é
um pouco contrariada pelo infame Grimorium Verum, do séc. XVIII, que nos oferece
uma imagem que todo satanista e metaleiro conhece – o sigilo de Lúcifer. Vocês sabem
qual, parece um pentagrama invertido cheio de rococó.
Desde que uma amiga bateu o olho na imagem e viu O Pequeno Príncipe, eu nunca mais
consegui não ver também.
Utilizando-se do seu sigilo e de fórmulas específicas, Lúcifer (ou um de seus
secretários) pode então ser conjurado, nas segundas-feiras (o grimório Dragon
Noir também associa Lúcifer a esse dia da semana) e ele aparece na forma de um rapaz
bonito, que fica vermelho quando se enfurece, mas que no geral não apresenta nenhuma
qualidade bestial. Também está associado à Ásia (há um arquidemônio para cada
continente) e tem feitiços que o chamam para todo tipo de coisa – inclusive, claro,
procurar tesouros escondidos. Quem relata a experiência de ter chamado essa entidade é
o Wellington do canal do YouTube De Monge a Mago, neste vídeo aqui.
E acho que isso é um bom resumo da mitologia, história e presença no imaginário e em
práticas espirituais da figura de Lúcifer, pelo menos anteriores ao século XX. É possível
que tenha alguns grimórios que tenham fugido à minha atenção, mas acredito que esses
sejam os principais.

Rebeldia e criatividade
Com tudo isso em mente e considerando a literatura luciferiana contemporânea,
podemos concluir que existem, portanto, dois tipos de luciferianismo: o honesto e
aquele que ou é iludido ou age de má fé. Explico: o honesto é o luciferianismo que
reconhece a relação entre Lúcifer e o cristianismo, bem como sua associação com os
planos infernais e com outros demônios, tal como está bem estabelecido pela história
dos grimórios. Os livros de Michael W. Ford, por piores que sejam, pelo menos se
enquadram nessa categoria, e o seu Apotheosis reconhece a associação de Lúcifer com
Azazel, Samael, Satã, etc.. Já a segunda categoria inclui quem entende Lúcifer
ingenuamente não como uma entidade real, mas apenas como um símbolo de rebeldia (e
assim se abre para essas forças potencialmente destrutivas sem o saber) e os que alegam
que não existe nada de demoníaco na sua figura, que é tudo uma campanha de
difamação da parte dos cristãos e que Lúcifer é, na verdade, um antigo deus pagão.
Assim como acontece com a turminha do “Lilith é uma antiga deusa mesopotâmica!”
(uma mentira deslavada), não existe a menor evidência disso, e tentar usar o argumento
de que Lúcifer é o planeta Vênus em latim, considerando a ausência de mitologia e
cultos a Lúcifer entre os antigos latinos, é simplesmente desonesto, assim como é tentar
apresentar magia luciferiana como simplesmente uma forma de magia astrológica ligada
a Vênus5.
Eu acho que isso, essa dissimulação e tentativa de afirmar uma primazia transcultural de
Lúcifer, é o que mais me incomoda no discurso de certos autores luciferianos. Embora
cada linha tenha lá sua própria teologia, cosmologia e éthos, de modo a impossibilitar o
resumo num texto de blog, alguns elementos são recorrentes. O primeiro é o
individualismo, o que é parte integral do conceito de “mão esquerda” no esoterismo
ocidental: o praticante não procura a comunhão com uma força divina transcendente,
mas a preservação e deificação do seu ego individual (nisso, também há um afastamento
do vama marga tântrico, para o qual esse conceito seria um caso claro de Avydia).
Depois, há uma relação de tensão com as religiões abraâmicas. De certa forma, o
satanismo é um tipo de supersessionismo: assim como os cristãos construíram sua
religião com uma seleção e interpretação da mitologia judaica, ao mesmo tempo em que
invalidaram seus valores e ritos, o satanismo moderno fez o mesmo com o cristianismo,
às vezes somando aí um discurso de Novo Éon chupinhado da Thelema (que por sua
vez também é um tipo mais bem-sucedido de supersessionismo). Nesse processo, certos
valores, como a mansidão, a humildade e o ascetismo (que o cristianismo ocidental
nunca praticou de verdade, mas aí é outra história) são descartados em prol de um
louvor à força, ao orgulho e ao hedonismo6. E, claro, no caso luciferiano em especial, há
uma ênfase na rebelião.
Como eu disse no meu texto sobre demônios, no contexto ocidental é compreensível
que uma teologia surja com base na experiência da opressão pelas instituições religiosas
que deveriam representar um deus de bondade e amor. Talvez não seja por acaso que
conceitos gnósticos reapareçam a partir do século XIX, considerando como os sectos
que hoje chamam de “gnósticos” foram os primeiros a entender o deus criador do
mundo não como um deus verdadeiro, mas um impostor que deseja aprisionar as nossas
almas na matéria. Assim como muitos luciferianos, os gnósticos reconhecem em Iavé,
ou Saklas ou Ialdabaoth, a face do mal, de modo que a rebeldia luciferiana seria a única
postura possível. Diferente deles, no entanto, até onde se sabe jamais foi postulada uma
teologia gnóstica baseada na pura inversão, de modo a fazer de Satã o salvador – pelo
contrário, para os gnósticos, a salvação geralmente chega pela via de Cristo, que é uma
emanação das forças superiores que estão além do demiurgo. Por essa mesma lógica, o
gnosticismo é ascético e não hedonista, pois não haveria nenhum prazer real no que o
demiurgo tem para oferecer.
É curioso observar como essas coisas todas aparecem meio que ao mesmo tempo no
período romântico – o satanismo, primeiro literário, depois de fato espiritual; o retorno
do gnosticismo; e, com eles, também um tipo de redescoberta e louvor a Prometeu.
Considere as artes do século XIX: Goethe, Byron e Herder escrevem poemas dedicados
ao titã; Percy Bysshe Shelley lhe dedica uma peça poética inteira, Prometheus
Unbound, releitura subversiva da peça perdida de Ésquilo (em cujo prefácio ele
inclusive traça uma comparação com o Satã miltoniano) e sua esposa Mary Shelley
inclui uma menção ao nome de Prometeu no subtítulo de seu romance Frankenstein. Na
música, há peças de Liszt, Scriabin, Fauré, Schubert, Beethoven e muitos outros. E
todas essas coisas aparecem juntas na mitologia de Blake. Um ser chamado Orc (muito
anterior aos orcs de Tolkien, bom frisar) é a forma de Luvah, um dos quatro Zoas, no
mundo degenerado, e representa ao mesmo tempo um rebelde satânico de energias
incontroláveis, o cristo gnóstico7 inimigo do demiurgo (representado em Blake por
Urizen) e uma figura prometeica (mais sobre isso neste blogue aqui). Por esse motivo,
eu escolhi uma imagem de Orc para ilustrar este texto.
Orc emerge do fogo criativo para desafiar as forças do imperialismo. Placa número 12
de “America: a Prophecy”, poema e arte de William Blake.
Também Nietzsche era obcecado por Prometeu, em especial por sua representação em
Ésquilo, e encontra nele as virtudes do Übermensch do seu Zaratustra – sobre o tema,
recomendo conferir o artigo de Francesca Cauchi, “Nietzsche’s Zarathustra: Promethean
Pretensions and Romantic Dialectics”. E é fácil enxergar os paralelos: o titã é um
criador que dá sua dádiva livremente. E, ao ser castigado por esse ato, embora esbraveje
contra o seu opressor, ele expressa a consciência de seu destino e o enfrenta com uma
dignidade trágica: “Mas, que digo? Não sei antecipadamente / todo o futuro? Dor
nenhuma, ou desventura / cairá sobre mim sem que eu tenha previsto. / Temos de
suportar com o coração impávido / a sorte que nos é imposta e admitir / a
impossibilidade de fazermos frente / à força irresistível da fatalidade” (trad. Mário da
Gama Khury). Nisso, ele faz eco a outro valor, também caro a Nietzsche, de amor fati.
Quando colocamos lado a lado Prometeu e Lúcifer, junto com seus cultos e filosofias,
algumas similaridades emergem. Ambos são castigados e expulsos da convivência com
outros seres divinos, ambos são responsáveis por uma mudança ontológica no estado da
humanidade. Lúcifer se rebela contra o deus abraâmico, é mandado para o inferno e
depois leva Adão e Eva a caírem de seu estado de inocência, graças ao fruto da árvore
do Conhecimento do Bem e do Mal – o que é visto positivamente pelos luciferianos, na
medida em que esse conhecimento estaria associado à iluminação à qual seu nome
alude, em oposição à condição de ignorância que Deus pretendia manter. Já Prometeu
rouba o fogo dos deuses, representando o poder do intelecto e da criatividade, e o
entrega aos seres humanos, sendo por isso acorrentado e enviado ao que é também uma
outra forma do inferno, o Tártaro. No entanto, as diferenças são mais marcantes do que
as semelhanças.
A mitologia grega prevê uma reconciliação para Prometeu que, no caso de Lúcifer, não
é desejada nem pelos cristãos, nem pelos satanistas8. O individualismo de Prometeu se
restringe ao seu sofrimento, de modo que o isolamento é o seu castigo, mas sua dádiva é
entregue a todos, sem exigir nada em troca, nem mesmo culto. O luciferianismo
contemporâneo valoriza o indivíduo e enxerga esse individualismo enquanto valor
positivo em Lúcifer, mas gera, no processo, uma contradição que põe a premissa toda
desse caminho espiritual em perigo: se a queda não foi uma queda, mas uma
iluminação, por que um individualista como Lúcifer teria agraciado a humanidade com
essa dádiva? E sem pedir nada em troca? Foi por amor à humanidade? Isso não me
parece coerente com a busca maquiavélica por poder pessoal dos caminhos da mão
esquerda, na qual a compaixão costuma ser restrita ou completamente abominada9. Ou
será que ele nos pede algo em troca, como pede a Jesus no deserto que o venere, só que
em termos não muito claros? Ou ele faz isso apenas como vingança mesquinha contra o
seu inimigo? Ou como parte de uma aposta ridícula como é no livro de Jó? A ordem dos
acontecimentos também é relevante. Lúcifer cai primeiro, por orgulho, e só depois leva
a humanidade consigo – num ato possivelmente ressentido, de vingança – ao contrário
de Prometeu que cai, porque ajuda a humanidade.
É claro que também poderia ser feita uma leitura do mito de Prometeu pouco simpática
ao titã. Enquanto trickster, o roubo do fogo e o castigo poderiam ser vistos como não
mais do que uma traquinagem, e existem interpretações de que os filhos de Jápeto
seriam representantes de características negativas da humanidade, mas é preciso fazer
um esforço para essa leitura funcionar, ao passo que a mitologia luciferiana rapidamente
se revela incapaz de sustentar seus próprios valores. Nesse sentido, na medida em que
estamos aqui promovendo uma rinha de figuras arquetípicas de “rebeldes iluminados” –
e sem sequer entrarmos ainda no mérito dos problemas do trabalho espiritual, na prática,
com entidades demoníacas – Prometeu parece infinitamente preferível.

Dito isso, eu bem sei que contradições e furos de lógica não bastam como argumento
contra uma prática espiritual, porque as práticas não são construídas inteiramente top-
down, com uma ideia racional que é executada, mas como parte de um processo
gnóstico. Porém, mesmo no campo da espiritualidade propriamente, o caminho da mão
esquerda é uma inovação, que mal tem 50 anos, e ainda precisa se provar em termos do
que pode trazer de bom a nível do indivíduo e da humanidade. E isso é muito mais
complicado quando estamos lidando com seres entendidos como demônios, não deuses
demonizados, mas demônios de grimório, com sigilos que são usados como símbolos do
luciferianismo. Todo mundo que escreve sobre o assunto da perspectiva de um
praticante avisa que é perigoso (vide a Linda Falorio em seu Shadow Tarot, que explora
os Túneis de Set da magia qlifótica, de quem falamos já anteriormente), mas algo
perigoso precisa ter uma recompensa elevada como resultado para valer a pena, senão o
que você está fazendo é imitar os caras de Jackass. E o resultado aqui muitas vezes é…
nazifascismo. Sem brincadeira. E, pior, não é nem um nazifascismo incidental –
consequência da ascensão do fascismo a nível global que acomete não apenas o mundo
esotérico, mas também segue bem vivo em meio aos ateus-céticos-materialistas, – mas
um fascismo radicado na própria filosofia do negócio. Em que medida um louvor da
força, do individualismo e da transgressão, de julgar os outros pelos seus “méritos”
(como se você tivesse acesso fácil e objetivo a essa informação) e com base nisso
decidir quem é digno de compaixão, é condutivo à criação de uma sociedade melhor?
Há um texto na Cvlt Nation, de 2020, que defende um caminho da mão esquerda
antifascista, mas seus argumentos não me convencem e acho profundamente irônico o
fato de ele citar ninguém menos que Stephen Flowers para sustentá-los. Quem sabe
sabe.
Agora, se você pratica esse caminho e não é facho, nem convive com fachos, bem…
antes de mais nada, parabéns por ler até o final um texto que vai contra as suas crenças e
parabéns por ir na contramão do que parece ser uma tendência predominante nesse
meio. Vou frisar que, luciferianamente (rá!), eu não te devo nada, mas vou explicar que
o motivo de eu escrever esse texto não é para meter o pau, assim de graça, no que você
faz, até porque eu não te conheço, leitor hipotético, mas porque essas práticas possuem
um glamour dark que seduz muita gente incauta. O tanto de iniciante que chega para
mim (e eu dou aula para muito iniciante) perguntando disso, o tanto de gente que cai no
golpe de satanista de TikTok e Facebook… Assim, com este texto, eu me poupo o
trabalho de ter que falar tudo de novo. Pelo menos, agora está aqui por escrito, com
detalhes e bibliografia. Se você é iniciante, leu até o final e pensou, “estou ciente e
quero continuar”, então boa sorte. Se der ruim (e eu torço para que não dê), que não seja
por falta de aviso.
***
(Obrigado pela visita e pela leitura! Se você veio parar aqui n’O Zigurate e gostou do
que viu, não se esqueça de se inscrever em nosso canal no Telegram neste link aqui.
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([Link] e [Link]).)
***

1. Entre aspas, porque o que se chama de mão esquerda ou LHP (Left Hand
Path) no ocidente é uma apropriação malfeita do vama marga tântrico

no século XX. ↩︎
por via dos preconceitos da Blavatsky e toda uma confusão infernal feita

Ísis. ↩︎
2. No sincretismo greco-egípcio, a princesa Io é identificada com a deusa

3. Em termos de fontes, informações sobre os cultos mencionados nesse


parágrafo constam na página do site Theoi sobre Prometeu. Sobre

Kabiroi”, em Boiotia in Antiquity, de Albert Schachter. ↩︎


os Kabiroi, conferir o capítulo “Evolutions of a mystery cult: the Theban

4. Nisso, pela primeira vez vou ter que defender Lutero, porque ele diverge

Morgenstern! ↩︎
dessa leitura e diz apenas: Wie bist du vom Himmel gefallen, du schöner

5. No começo desse parágrafo, eu concedo que o livro do Ford pode ser


elogiado por não mascarar a dimensão demoníaca de Lúcifer, mas ele cai
nesse erro de fazer umas misturas alucinadas com base nesse paralelo
astrológico, passando a incluir, é claro, divindades como Inana/Ishtar

satanismo nazista. ↩︎
nesse mesmo balaio. No mais, ele é outro palhaço que passa pano para

6. Quem entende alguma coisa de astrologia vai reparar que, desses valores,
apenas o hedonismo é verdadeiramente venusiano. O orgulho e o poder
são mais solares ou marciais. É por essas e outras que é balela o
Vênus”. ↩︎
argumento de que, “ai, o luciferianismo na verdade gira em torno de

7. Vale lembrar que Cristo também se identifica como a estrela da manhã:


“Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas.
Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã”
(Apocalipse 22:16). Mas aqui o original grego diz ho astēr ho lampros

matutina. ↩︎
ho prōinos e a Vulgata traduz não como Lúcifer, mas stella splendida et

8. Nisso, Eliphas Lévi parece ter sido uma exceção. ↩︎


9. A compaixão é limitada em Ford e abominada num livrinho de um tal A.
C. M., cuja seção sobre o éthos luciferiano é, por acaso, uma das

num livro de ocultismo. ↩︎


representações mais lastimáveis de imaturidade emocional que eu já li

[Link]

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