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Direitos Autorais e Agradecimentos da Autora

O documento aborda os direitos autorais de uma obra de ficção, destacando que todos os direitos são reservados e que a reprodução não autorizada é uma violação da lei. A autora dedica o livro a mulheres que amaram perigosamente e agradece a quem a inspirou. O índice apresenta os capítulos da história, que gira em torno de Martina e Santiago, explorando temas de amor, desejo e vingança em um cenário de tensão e conflito.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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O documento aborda os direitos autorais de uma obra de ficção, destacando que todos os direitos são reservados e que a reprodução não autorizada é uma violação da lei. A autora dedica o livro a mulheres que amaram perigosamente e agradece a quem a inspirou. O índice apresenta os capítulos da história, que gira em torno de Martina e Santiago, explorando temas de amor, desejo e vingança em um cenário de tensão e conflito.
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Direitos Autorais

© 2025 Anónima

Todos os direitos reservados.

Este livro é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e eventos são produtos da
imaginação da autora ou são usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com
pessoas reais, vivas ou mortas, locais ou eventos reais é mera coincidência.

Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, armazenada em sistema de


recuperação ou transmitida, por qualquer forma ou meio — eletrônico, mecânico,
fotocópia, gravação ou outro — sem a autorização prévia e por escrito da autora.

A reprodução não autorizada desta obra, no todo ou em parte, constitui violação dos
direitos autorais (Lei nº 9.610/98) e está sujeita às penalidades previstas em lei.

Publicado por conta da autora na plataforma Kindle Direct Publishing.


Dedicatória

A todas as mulheres que já amaram perigosamente,

que cruzaram a linha entre o desejo e o abismo,

e mesmo feridas, continuaram inteiras.

Este livro é para vocês.

Que nunca deixem de ser fogo,

mesmo quando o mundo quiser cinzas.

— Anónima
Agradecimentos

Escrever esta história foi como mergulhar em um labirinto de sombras, onde cada
palavra carregava dor, desejo e redenção.

Agradeço a quem me inspirou a não fugir da intensidade — a transformar o caos em


capítulos e a escuridão em páginas que respiram.

Aos leitores que abraçam romances obscuros e complexos, onde o amor não é fácil, mas
é real — obrigada por existirem.

E, por fim, agradeço ao silêncio, que me ensinou a escutar minha própria voz. Foi nele
que Santiago nasceu. E foi nele que Martina resistiu.

Com carinho,

Anónima
Índice
1. O Convite
2. Preço de Entrada
3. A Gaiola de Ouro
4. A Dama do Inimigo
5. Veneno em Duas Faces
6. O Que Está Escondido Debaixo da Pele
7. Cicatrizes Que Não Sangram
8. Inferno Herdado
9. O Som da Carne Partida
10. O Invasor Silencioso
11. Perfume de Mentiras
12. Armadilhas de Sangue e Memória
13. O Segredo que Nunca Dorme
14. Onde a Morte Espera
15. La Reina Silenciosa
16. O Peso do Gatilho
17. Cartas Escritas com Sangue
18. O Jogo Começou
19. Bem-vinda de Volta
20. A Cela Sem Trancas
21. Se For Jogar Com o Diabo, Aprenda a Dançar Com Ele
22. A Entrega
23. A Casa Onde Tudo Começou
24. Aquilo Que a Chama Não Queimou
25. A Liberdade Também Pode Ser uma Prisão
26. O Preço de Ser Amada
27. A Última Marca
Capítulo 1 – O Convite
Madri nunca dormia. As luzes da Gran Vía refletiam como lâminas
sobre o vidro do táxi que deslizava pela noite. Martina Hernándes,
com seus cabelos negros soltos e um vestido de cetim vinho que
abraçava cada curva sua, não tirava os olhos da cidade que se
tornara uma prisão de luxo.

Filha de um diplomata espanhol renomado, Martina cresceu cercada


de riqueza, educação e regras. Mas havia uma fome dentro dela —
uma fome por algo mais profundo, mais perigoso, mais... real.

E essa fome tinha nome e sobrenome: Santiago González.

Um nome que seu pai proibia de ser mencionado dentro de casa. Um


homem que havia desaparecido da vida pública anos atrás, envolvido
em um escândalo que misturava corrupção, tráfico de informações
confidenciais e uma suposta morte que nunca foi esclarecida.

Mas ele estava de volta.

E naquela noite, ela o veria pela primeira vez em quase dez anos.

O convite havia chegado misteriosamente, sem remetente. Um


envelope preto com letras douradas: "Para quem ainda tem dívidas
com o passado."

Martina soube, no fundo, que era para ela. E soube também que era
dele.

Ao descer do carro, foi recebida por um segurança que não disse


palavra. Apenas a conduziu por um corredor escuro até um salão
antigo, de arquitetura mourisca, como se Madri tivesse parado no
tempo ali dentro.

Ele estava de costas, diante da lareira. Alto, ombros largos, o cabelo


escuro agora mesclado com fios grisalhos, e um copo de uísque entre
os dedos. Quando se virou, o olhar dele cravou-se nela como uma
lâmina.

— Você cresceu... — disse ele, com um sorriso torto, quase cruel. —


Mas eu ainda consigo ver a garotinha que me espiava do andar de
cima.

Martina ergueu o queixo, desafiadora.

— E você envelheceu. Mas ainda tem cheiro de perigo.


Santiago se aproximou, parando a centímetros dela. A tensão entre
os dois era elétrica, carregada de tudo que era errado — e por isso
mesmo, irresistível.

— Seu pai destruiu minha vida, Martina. Agora é a sua vez de pagar.

Ela arqueou uma sobrancelha, sem recuar.

— Então comece. Mas cuidado, Santiago... Talvez você goste mais do


que
deveria.
Capítulo 2 – Preço de
Entrada

Martina sentiu o ar rarefeito no salão. A presença dele parecia


consumir o oxigênio. O olhar de Santiago estava cravado nela, como
se quisesse arrancar cada camada da mulher que se tornara — ou
talvez, de forma ainda mais cruel, lembrar-se da menina que deixara
para trás.

Ele serviu outro copo de uísque, desta vez para ela, sem perguntar
se queria. Apenas estendeu o cristal com os dedos longos e firmes.
Ela hesitou, mas aceitou. Orgulho era inútil diante daquele homem.
Ele tinha o dom de desmontar defesas apenas com a existência.

— Por que agora? — ela perguntou, finalmente. — Depois de tanto


tempo... por que reapareceu?

Santiago deu um sorriso cínico, mas os olhos não acompanhavam o


gesto.

— Porque a hora certa para um acerto de contas não é quando o


tempo passa... é quando o inimigo fica vulnerável.
Martina sorriu de canto, provocativa, ignorando a pontada que
aquela frase causou no peito.

— E você acha que eu sou vulnerável?

Ele se aproximou mais um passo. Ela podia sentir o cheiro dele —


madeira, couro e algo mais primitivo. Os olhos de Santiago
passearam por ela com uma intensidade perigosa.

— Você não tem ideia do quanto.

Ela manteve o olhar firme. Por dentro, o corpo gritava. Medo?


Excitação? Era impossível distinguir. Aquilo era errado. Muito
errado. Mas errado demais para ser ignorado.

— Então diga o que quer de mim, Santiago.

Ele parou ao lado dela. Não a tocou. Mas sua presença era um toque
em si.

— Quero o que seu pai me tirou. Quero o poder de volta. E você,


Martina... você será minha moeda de troca.

Ela não conteve a risada amarga.

— Você quer me usar?

— Não. — Ele girou o rosto, os olhos queimando. — Quero que você


se ofereça.

Silêncio.

Os segundos se arrastaram entre os dois.

Martina levou o copo à boca, mas não bebeu. Encostou o cristal nos
lábios, olhando diretamente para ele.

— E se eu disser que não?

Santiago se aproximou do ouvido dela, a voz um sussurro grave e


gelado.

— Então eu destruo você... lentamente. Como seu pai fez comigo. E o


melhor de tudo... vou fazer você implorar para que eu continue.

Martina o encarou. Havia fúria. Havia desejo. Havia algo doentio e


irresistível naquela troca. E, acima de tudo, havia uma certeza
brutal:
Aquilo não acabaria bem.

Mas ainda assim, ela ficou.

Capítulo 3 – A Gaiola de
Ouro

Acordou com o sol filtrando por entre as cortinas pesadas do quarto.


Não lembrava de ter dormido ali. Não lembrava de ter subido as
escadas, deitado na cama ou fechado os olhos. Lembrava apenas da
última frase de Santiago, ainda sussurrando como uma praga dentro
dela.

"Vou fazer você implorar para que eu continue."

Martina sentou-se devagar, o corpo coberto por um robe de seda que


não era dela. Estava num quarto luxuoso, decorado em tons escuros,
com móveis antigos e cheiro de couro e tabaco. Tudo nela dizia para
ir embora. Mas seus pés não se moviam.

No criado-mudo, uma bandeja com café da manhã impecável. E ao


lado, outro bilhete. Mesmo papel. Mesma caligrafia.

"Toda gaiola bonita parece liberdade no início. Vista-se. Você tem


uma dívida para começar a pagar. – S.G."

Ela apertou o papel com força, como se pudesse esmagar a presença


dele com os dedos. Mas o corpo... ah, o corpo tremia de antecipação.
Ela odiava aquilo. Odiava ele. E, principalmente, odiava a si mesma
por estar gostando do jogo.

Vestiu o vestido preto que estava sobre a poltrona. Curto, elegante,


provocante — do jeito que Santiago escolheria. E sabia que foi ele
quem escolheu. Sabia que estava sendo moldada, pouco a pouco.

Ao descer, encontrou-o à mesa, lendo um jornal. Como se fosse um


marido entediado. Como se nada ali estivesse fora do lugar.

— Dormiu bem? — ele perguntou sem olhar.

— Como uma prisioneira de luxo.

Ele sorriu, satisfeito com a resposta.

— É um bom começo.

Ela se aproximou, mas não se sentou.

— Diga o que quer de mim. De verdade. Sem jogos.

Santiago dobrou o jornal com calma, cruzou as pernas e ergueu os


olhos para ela.

— Quero que o mundo veja você do meu lado. Quero que o nome
Hernándes caminhe ao lado do meu. Quero que seu pai assista à filha
dele se apaixonar por mim. Que ele veja você se perder por alguém
que ele tentou apagar do mapa.

Martina sentiu o estômago revirar. Paixão? Aquilo não era paixão.


Era guerra.

— Você quer que eu finja estar com você?

— Não. — Ele se levantou, devagar, com predador elegante. — Eu


quero que você esteja comigo. Que me deseje. Que me odeie. Que me
obedeça. Que se perca.
Ela recuou um passo, mas ele não avançou. Apenas sorriu de leve,
perverso.

— No fim, Martina... você não saberá mais quem está dominando


quem.

Capítulo 4 – A Dama do
Inimigo
As manchetes explodiram nos jornais locais no dia seguinte:

"Santiago González reaparece em evento de elite com herdeira


Hernándes ao lado."
"Do escândalo ao glamour: o retorno do homem mais temido de
Madri."

Martina observava as manchetes do banco de trás do carro, com os


dedos trêmulos. A fotografia mostrava ela ao lado de Santiago, num
evento de gala beneficente. Ele segurava sua cintura. O olhar dele
era de posse. O dela... confuso, indecifrável.

— Isso vai arruinar minha família. — sussurrou, sem tirar os olhos da


tela do celular.

— Esse é o objetivo, não é? — Santiago respondeu, do banco ao lado,


com o sorriso calmo de quem já venceu.

Ela virou o rosto para ele, os olhos em fúria.

— Você quer que eu seja sua marionete?

Ele inclinou-se lentamente, até que seus lábios quase tocassem a


orelha dela.

— Eu quero que você queira estar presa nos meus fios.

O carro parou em frente ao próximo evento — um coquetel privado


na mansão dos De la Fuente, velhos aliados da família Hernándes.
Mas o que Martina não sabia era que um antigo conhecido estaria ali
também... e com segundas intenções.

Assim que entraram, os olhares se voltaram para eles. Era como se o


escândalo tivesse entrado pela porta principal.

E então ela o viu.

Alejandro Montalvo.

Alto, elegante, sorriso calculado. O filho do Ministro da Defesa, com


quem ela teve um breve caso escondido anos atrás. Mas não foi
apenas um romance adolescente. Alejandro a amou. E nunca a
perdoou por tê-lo deixado.

Ele se aproximou, sem tirar os olhos dela.

— Martina... — disse com a voz carregada de veneno doce. — Que


surpresa ver você em companhia tão... controversa.
Santiago manteve-se em silêncio. Observava. Medindo o homem com
olhos de lobo. E como sempre, em absoluto controle.

— Alejandro. — Martina sorriu, polida. — Você continua arrogante.

— E você continua belíssima. — Seus olhos tocaram os dela. —


Mesmo que amarrada a um homem como ele.

Santiago não resistiu. Aproximou-se por trás de Martina e segurou


sua cintura com força.

— Ela não está amarrada. Está aqui por vontade própria. Não é,
Martina?

Ela sentiu os dedos dele cravarem levemente na cintura, como um


lembrete.

— Claro. — respondeu. — Por vontade própria.

Alejandro sorriu. Mas havia uma sombra em seu olhar. Algo escuro e
perigoso.

— Então espero que saiba que está se deitando com um inimigo. E


que isso... sempre tem um preço.
Capítulo 5 – Veneno em
Duas Faces

O telefone vibrava dentro da bolsa há horas. Martina ignorava.


Estava no escritório de Santiago, sentada em uma das poltronas de
couro, assistindo ele falar ao telefone com um dos seus contatos. O
idioma era outro. Russo? Árabe? Ela não tinha certeza. Mas não era
espanhol.

Tudo nele era um mistério. Um abismo cheio de poder, violência e


desejo. E ela estava afundando.

— Estão todos agitados. — ele disse, encerrando a ligação. — Você


causou um belo estrago, Martina. Seu nome voltou a circular entre
os lobos.

— Eu não fiz nada. — ela rebateu. — Só apareci ao seu lado.

— E isso, minha querida... é tudo que basta.

Ele caminhou até ela e se inclinou, colocando as mãos nos braços da


cadeira, aprisionando-a entre seu corpo e o couro frio. O olhar dele
passeava pelo rosto dela como se estudasse uma presa antes do
ataque.

— Alejandro vai tentar te usar. Vai querer te envenenar contra mim.


Vai te prometer proteção... amor, talvez.

— E você? — ela murmurou, a respiração presa. — O que me


oferece?

Santiago sorriu.

— A verdade. Crua. Violenta. Sem promessas doces. E um lugar ao


meu lado no inferno, se quiser.

Ela sentiu o corpo inteiro estremecer.


Mas naquela mesma noite, enquanto Santiago se reunia com seus
contatos, ela recebeu um envelope deslizado discretamente por
debaixo da porta do quarto.

Dentro, apenas uma frase:

"Você ainda pode sair disso. Encontre-me amanhã, 21h. Calle


Segovia, 73. — A."

Martina olhou para o papel. O coração batendo em descompasso. Era


Alejandro. E ela sabia o que aquilo significava.

Traição. Jogo duplo. Mentiras sobre mentiras.

Mas algo nela queria ir.

Talvez pela chance de fugir.


Talvez para confrontar o passado.
Ou talvez... só para ver até onde conseguiria cair.

Na manhã seguinte, Santiago se aproximou da cama, ainda despido,


com a expressão calma demais para ser verdadeira.

— Sonhou comigo? — perguntou com voz rouca.

Ela o encarou.

— Santiago... e se eu estivesse mentindo pra você?

Ele parou, sorriu devagar... e respondeu sem hesitar:

— Eu já conto com isso.


Capítulo 6 – O Que Está
Escondido Debaixo da Pele

Era uma rua estreita e silenciosa, cortada por sombras altas das
construções antigas. Calle Segovia 73. Um velho prédio de pedra,
quase abandonado. O tipo de lugar onde histórias somem e corpos
são enterrados sob concreto.

Martina apertou o casaco contra o corpo. Seu salto ecoava pelo


corredor vazio até uma porta entreaberta.

Ali estava Alejandro, como prometido. Terno escuro, expressão


carregada. Os olhos estavam diferentes — mais frios do que ela
lembrava.

— Pensei que você não viria. — ele disse.

— E ainda assim deixou a porta aberta.

Ele sorriu, mas não foi um sorriso bonito.

— Porque eu sabia que a filha de Emilio Hernándes é teimosa demais


para obedecer qualquer voz... inclusive a da sobrevivência.

Ela não respondeu. Apenas cruzou os braços, esperando.

— O que você sabe sobre sua mãe, Martina?


A pergunta caiu como uma lâmina.

— Ela morreu. Há anos. Acidente de carro.

— É o que te contaram.

Martina sentiu o coração apertar.

— Do que você está falando?

Alejandro se aproximou, segurando uma pequena pasta de couro.


Tirou uma fotografia antiga, dobrada nas pontas. Era ela. Sua mãe.
Jovem, com um sorriso tenso. Ao lado dela... Santiago González.

— Eles tiveram um caso. — Alejandro disse, com a voz firme. —


Antes de você nascer. E pouco antes do acidente... ela tentou fugir
com ele.

Martina levou a mão à boca.

— Isso é mentira.

— Santiago era o grande segredo do passado da sua família. Seu pai


descobriu tudo. E poucos dias depois... sua mãe estava morta. Sem
testemunhas. Sem investigação real. E Santiago... sumiu.

Martina sentia tudo girar ao seu redor. Como se o chão não existisse
mais.

— Você quer que eu acredite que meu pai... matou minha mãe?

— Quero que você entenda que Santiago sabe disso. E está se


aproximando de você não só por vingança. Mas por algo maior. Algo
que talvez ele nem saiba controlar.

Ela se afastou, respirando fundo. Mas antes de conseguir responder,


Alejandro segurou seu braço com força.

— Martina... ele está quebrado. E você está se apaixonando por um


homem que pode ter amado sua mãe. Que pode ter desejado destruí-
la. Ou salvá-la. Não sabemos.

— E você quer o quê? — ela disparou, com os olhos em chamas. —


Que eu o traia? Que me deite com ele e arranque a verdade com a
língua?

— Quero que descubra tudo. — Alejandro disse. — E depois me diga


o que encontrou... antes que ele destrua você também.


Enquanto isso, naquela mesma noite, Santiago observava as câmeras
ocultas instaladas no quarto de Martina. A tela mostrava a cama
arrumada, a janela entreaberta, e a carta que ela não havia deixado
para trás.

Ele sorriu devagar, sombrio.

— Ah, Martina... — sussurrou, para si mesmo — ...você ainda está


exatamente onde eu quero.

Capítulo 7 – Cicatrizes Que


Não Sangram

Martina voltou para a mansão com os olhos fixos no vazio. Cada


passo parecia mais pesado que o anterior. A imagem da fotografia —
sua mãe ao lado de Santiago — queimava em sua mente como um
fósforo aceso.

Ele estava na sala de estar, de pé, com um copo de conhaque na mão


e o olhar voltado para a lareira. Como se já soubesse que ela voltaria
com perguntas.

— Foi bom o passeio noturno? — ele perguntou, sem se virar.

Ela não respondeu de imediato. Tirou o casaco, jogando-o no sofá


com raiva contida.

— Por que não me contou sobre ela?


Silêncio. Santiago se virou lentamente. Seu rosto estava sereno...
mas os olhos carregavam tempestade.

— Então Alejandro cuspiu o veneno dele. Era questão de tempo.

— É verdade? — ela insistiu, dando um passo à frente. — Você


conheceu minha mãe?

Ele bebeu o último gole e pousou o copo com calma. Depois se


aproximou, com a lentidão calculada de um predador.

— Conheci. Muito antes de você nascer. Ela era brilhante.


Indomável. Infeliz.

Martina sentiu o coração acelerar.

— Você a amou?

Santiago parou diante dela, os olhos nos dela.

— Achei que sim. Por um tempo. Mas depois percebi... que era só
projeção. Eu amava o que ela prometia. Liberdade. Fuga. Uma
guerra contra o poder que seu pai representava.

Ela respirou fundo. A garganta queimava.

— Ela morreu tentando fugir com você?

— Não. — ele respondeu, baixo. — Ela morreu porque hesitou.


Porque voltou atrás. Porque acreditou que ainda podia consertar
algo que já estava quebrado.

Martina sentiu uma lágrima quente escorrer, mesmo sem querer.

— E agora... está tentando me quebrar também?

Santiago ergueu a mão e passou os dedos pela bochecha dela,


secando a lágrima com o polegar. O toque era suave, mas carregado
de tensão.

— Não, Martina. — disse com voz rouca. — Com você... eu estou


tentando descobrir se ainda tenho conserto.

Ela não suportou mais. A raiva, a dor, a atração... tudo explodiu.


Martina o empurrou contra a parede e o beijou com fúria. Ele
respondeu com a mesma intensidade, puxando-a pela cintura,
colando os corpos.
Ali não havia amor. Havia fome, desespero, vingança, culpa. Um
desejo distorcido que machucava ao mesmo tempo que preenchia.

E no meio daquela explosão, quando ela arrancou a camisa dele, viu.

Cicatrizes.

Cortes antigos, queimaduras... marcas de tortura. O corpo de


Santiago era um campo de guerra.

Ela parou. Tocou uma das marcas no peito dele com os dedos
trêmulos.

— Quem fez isso?

Ele segurou sua mão, apertando com força.

— Seu pai.

Capítulo 8 – Inferno
Herdado

Martina não conseguia dormir. O corpo ainda ardia do toque de


Santiago, mas o que mais queimava era a imagem das cicatrizes.
Algumas profundas, outras longas... todas reais. Todas deixadas por
alguém que dividia o sangue com ela.
Na manhã seguinte, desceu as escadas decidida. Encontrou Santiago
no jardim interno, vestido com uma camisa branca entreaberta,
cuidando das rosas vermelhas como se fossem arte. Ele parecia
tranquilo. Mas havia algo sombrio sob a pele.

— Conte tudo. — ela disse. — Sem enigmas. Sem metáforas. Só a


verdade.

Ele não ergueu os olhos.

— Seu pai descobriu sobre mim e sua mãe. Eu tinha vinte e quatro
anos. Era um advogado promissor, idealista. Ingênuo. Ela queria
fugir. Ele a impediu... e fez de mim o aviso.

Santiago virou-se lentamente. Havia um brilho escuro nos olhos, uma


raiva que o tempo não apagou.

— Fui sequestrado por dois capangas dele. Durante três semanas, fui
torturado em uma casa fora da cidade. Amarrado. Espancado.
Queimado. Quiseram apagar minha existência. E quase conseguiram.

Martina levou a mão à boca, em choque.

— Por que não foi à polícia?

— Porque a polícia é dele. — Santiago respondeu, simples. — E


porque quando consegui escapar... eu queria algo maior do que
justiça.

Ela engoliu em seco.

— Vingança.

Ele se aproximou, ficando a centímetros do rosto dela.

— Não. Controle. Eu queria fazer o império dele desmoronar por


dentro. Devagar. Impregnar sua filha com o mesmo veneno que ele
jogou em mim. E agora... aqui estamos.

Martina deveria ter recuado. Mas não recuou. Estava presa.


Enraizada naquela loucura.

— E se eu quiser destruir você também?

— Então vai ter que me conhecer por inteiro primeiro. — Ele a puxou
pela nuca, aproximando os lábios. — E isso vai doer, Martina. Vai
doer muito.
Antes que ela pudesse responder, o telefone dele tocou. Santiago
atendeu com um movimento brusco.

— Sim?... O quê?

O rosto dele mudou. Frio. Tenso.

— Mantenha ele lá. Estou indo.

Ele desligou, virou-se para Martina, agora com um olhar sombrio.

— Alejandro mexeu com as peças erradas. Capturaram um dos meus


homens ontem à noite. Ele tentou invadir um dos meus depósitos no
sul.

— Ele está atrás de provas?

— Está tentando me desestabilizar. Mas vai acabar morto.

— E você vai matá-lo?

— Não ainda. — Santiago respondeu. — Primeiro, vou fazer ele


assistir você escolhendo meu lado.

Martina sentiu um arrepio subir pela espinha.

Porque no fundo... já não sabia mais qual lado era o certo.


Capítulo 9 – O Som da
Carne Partida

A sala era escura, abafada, sem janelas. O concreto estava


manchado, o chão coberto por gotas que não vinham de um cano
quebrado — mas de algo mais vivo. Mais humano.

Alejandro estava amarrado a uma cadeira de ferro no centro da sala.


Camisa rasgada, rosto inchado, lábio sangrando. Mas os olhos...
ainda carregavam orgulho. Ainda desafiavam.

Martina estava ali. Encostada à parede, tremendo por dentro.


Santiago a fizera entrar. Queria que ela visse.

— Não precisa ficar aqui. — ele dissera. — Mas se sair... nunca mais
poderá fingir que é inocente nisso tudo.

Ela ficou.

Agora, observava em silêncio enquanto Santiago caminhava


lentamente ao redor de Alejandro, como um leão prestes a devorar
outro predador.

— Invadir meu depósito? — ele começou, a voz calma demais. —


Você sempre foi impulsivo, Montalvo.

Alejandro riu, cuspindo sangue.

— E você sempre foi um covarde com um gosto refinado por dor.

Santiago agiu sem hesitar.

O primeiro soco quebrou um dente. O segundo veio logo depois,


seco, preciso. Alejandro gritou, mas não cedeu.

Martina se encolheu.

— Santiago... — sussurrou.

Mas ele não parou. Caminhou até a mesa de aço e pegou algo que
parecia uma ferramenta de oficina. Um alicate.
— Está na hora de arrancarmos verdades. — disse, como quem fala
sobre vinho.

— Basta! — Martina gritou, atravessando a sala.

Ele virou-se para ela, os olhos negros e selvagens.

— Você está com ele ou comigo?

Ela não respondeu. Aproximou-se lentamente, até que estava entre


os dois.

— Se me obrigar a ver isso... eu vou quebrar. E você não quer ver o


que sobra de mim depois.

Santiago ficou em silêncio. Os olhos queimavam. Mas ele jogou o


alicate no chão. O som metálico ecoou pela sala.

— Tirem ele daqui. — ordenou aos seguranças.

Enquanto Alejandro era arrastado, Martina se sentou no chão. As


mãos tremiam. O coração parecia um tambor de guerra.

Santiago se ajoelhou diante dela. A mão em sua nuca. A voz baixa.

— Você tem poder sobre mim, Martina. Isso me enfraquece. E me


deixa mais perigoso.

Ela o encarou.

— Então por que não me solta?

Ele sorriu... sombrio.

— Porque agora você carrega minha marca. E uma vez marcada...


nunca mais será livre.

Mas eles não estavam sozinhos nessa guerra.

A quilômetros dali, em uma sala espelhada de um hotel de luxo, um


homem observava imagens de segurança da mansão González. Alto,
elegante, com traços parecidos aos de Santiago. Um telefone tocou.

— Sim? — ele atendeu.


— O primeiro movimento foi feito. Eles caíram no jogo. — disse a voz
do outro lado.
— Ótimo. — respondeu. — Agora... é hora de o irmão bastardo
reivindicar o que é dele.
Nome: Lorenzo García.
Filho ilegítimo de Carlos González.
Metade do sangue.
Todo o rancor.

Capítulo 10 – O Invasor
Silencioso

Martina passava os dedos pelo corrimão de mármore da escadaria


principal da mansão. Os ecos da última noite ainda vibravam em seus
ouvidos. O som dos socos. O sangue de Alejandro. O olhar de
Santiago... entre posse e desespero.

Ela não sabia mais quem era. O que queria. Só sabia que algo dentro
dela estava se partindo.

Naquela manhã, Santiago havia viajado para o sul. Reuniões com


seus aliados, assuntos do "império" que ele insistia em proteger com
sangue e silêncios.

Martina ficou sozinha. Ou pelo menos... era o que pensava.

Decidiu sair. Precisava respirar.

Foi até um dos cafés da Calle Mayor, o mesmo que costumava


frequentar antes de tudo — quando ainda era apenas "Martina
Hernándes", e não a mulher marcada por um monstro que um dia
amara sua mãe.

Foi lá que o viu.

Lorenzo

Alto. Paletó cinza claro. Um charme antigo, quase europeu demais


para ser espanhol. Olhos castanhos escuros, intensos, mas diferentes
de Santiago. Mais suaves. Calculados.

Ele a abordou com um sorriso discreto.

— Perdón. Você é Martina Hernándes, não é?


Ela hesitou.

— Sim...

— Desculpe a abordagem direta. Sou Lorenzo. Trabalho com


fundações de recuperação histórica. Vi seu nome numa das
campanhas do Museu de El Prado. Você fez doações para a ala de
conservação, certo?

Ela assentiu, ainda desconfiada. Mas ele parecia gentil, educado,


seguro. E... diferente.

— Você estuda arte?

— Eu restauro passado destruído. — ele respondeu com um sorriso


sutil.

A frase ecoou em sua mente como uma ironia perfeita.

Eles conversaram por quase uma hora. Lorenzo era inteligente,


culto, encantador... mas o que mais a desconcertou foi que ele não a
olhava como uma posse. Não a testava. Não a desafiava. Era... leve.
E isso, naquele momento, era quase perigoso demais.

Antes de ir embora, ele tocou a mão dela com delicadeza.

— Foi um prazer. Gostaria de te ver novamente. Se você quiser,


claro.

Martina hesitou... e disse:

— Eu aviso.

Mas enquanto voltava para a mansão, o telefone de Lorenzo tocou.

— E então? — perguntou uma voz masculina, grave.

— Ela é ainda mais vulnerável do que pensei. — Lorenzo respondeu,


acendendo um cigarro. — Mas não se preocupe. Não vou só quebrar
Santiago... vou fazer ela escolher me amar enquanto ele a destrói.
Capítulo 11 – Perfume de
Mentiras

Santiago voltou na manhã seguinte. O carro preto deslizou pela


entrada da mansão como um aviso silencioso. Ele entrou pela porta
principal, e a primeira coisa que fez foi procurar Martina.

Ela estava no jardim interno, lendo. Ou fingindo. Quando o viu,


ergueu os olhos... e sorriu. Mas havia algo no olhar dela que o deixou
em alerta.

Distância.

Santiago não dizia nada, apenas a observava. Cada movimento. O


jeito como ela tocava os lábios com os dedos. Como cruzava as
pernas. Como evitava seus olhos por segundos demais.

— Sentiu minha falta? — ele perguntou, se aproximando.

Martina sorriu, mas não respondeu.

Ele sentou ao lado dela. Passou os dedos pelo pescoço, pelo colo...
até parar. Ali estava. Um perfume diferente.

— Onde esteve ontem? — ele perguntou, calmo demais.


— No centro. Precisava de ar. Tomei um café. Só isso.

— Sozinha?

— Sim. — ela mentiu.

E ele soube. Cada centímetro do rosto dela gritava nervosismo. Ele


se afastou um pouco e ficou em silêncio. O silêncio de Santiago era
sempre mais perigoso que qualquer grito.

Naquela noite, mandou revisar todas as câmeras próximas ao café


onde ela esteve.

E encontrou.

A imagem era nítida. Martina sorrindo. O homem sentado à sua


frente. Lorenzo.

Santiago sentiu o coração se apertar. Mas não era dor. Era fúria
pura.

Ele reconheceu o rosto. Embora mais jovem, Lorenzo era o espelho


distorcido do pai que ambos dividiram. Santiago soube ali: o irmão
bastardo tinha voltado. E estava tentando roubar o que era dele.

No dia seguinte, Santiago não disse uma palavra a Martina. Mas


seus gestos estavam diferentes. Mais intensos. Mais rudes. Quando a
beijou, foi como um aviso. Quando a despiu naquela noite, foi como
se quisesse apagá-la por dentro. O sexo foi brutal. Quente. Quase
cruel.

Martina tentou resistir... mas ele conhecia todos os seus pontos


fracos.

Depois, deitada sobre o peito dele, perguntou com a voz baixa:

— Está tudo bem?

Ele respondeu olhando o teto.

— Ainda não. Mas vai ficar.

E então sussurrou, só para si:

— Porque se alguém tentar tirar você de mim... eu mato.


Enquanto isso, Lorenzo assistia as imagens enviadas por seu espião
infiltrado na mansão. Ele viu Martina beijando Santiago. Viu o corpo
dela se entregar. Mas não se assustou.

— O amor dela ainda é frágil... — murmurou. — E todo amor frágil...


pode ser manipulado.

Capítulo 12 – Armadilhas
de Sangue e Memória

Era madrugada quando Santiago desceu para o escritório secreto,


atrás da adega principal. As luzes eram frias, os monitores
espalhados mostravam imagens da cidade: ruas, cafés, a entrada de
um pequeno prédio abandonado em Lavapiés.

Ali estava Lorenzo, entrando sorrateiramente. O sistema de


vigilância de Santiago agora rastreava cada passo do irmão.

Ele ligou para um contato.

— Prepare o dossiê. Aquele. O que liga a mãe da Martina ao


desfalque na fundação do pai dela. Quero que ela descubra... mas do
meu jeito.
— Santiago... isso vai destruí-la.

— Melhor destruí-la nas minhas mãos do que perdê-la para alguém


que só quer usá-la.

Desligou e acendeu um charuto.

Enquanto isso, Martina acordava inquieta. Sonhara com a mãe... e


com sangue. Foi até o estúdio da casa, onde as lembranças estavam
trancadas. Puxou uma caixa antiga. Fotos, cartas, recortes de
jornal... e então, um envelope pardo. Sem remetente.

Dentro, documentos.

A mãe dela fora acusada de desviar dinheiro da fundação Hernándes.

Mais de quinhentos mil euros. Os jornais diziam que ela havia sido
investigada por corrupção... e que o caso fora abafado pouco antes
de sua morte.

Martina ficou pálida. Aquilo destruía a imagem perfeita da mãe que


ela idealizara.

— Quem te deu isso? — ela perguntou a Santiago naquela tarde.

Ele fingiu surpresa.

— Veio de um contato antigo. Achei que devia saber.

— Por que agora?

Ele se aproximou. Tocou o rosto dela com a mesma ternura que


usava antes da tormenta.

— Porque quanto mais você entender o passado... mais vai perceber


que eu sou a única verdade que restou.

Mas Martina recuou.

— Ou talvez... você seja só mais uma mentira com um paletó bonito.

Santiago não respondeu. Apenas a observou com um tipo de calma...


que precede a tempestade.

Na noite seguinte, Lorenzo ligou para ela.


— Sei que descobriu. E sei que ele te entregou aquilo. Quer saber o
que realmente aconteceu com sua mãe?

Martina hesitou.

— Sim.

— Então venha até mim. Sozinha.

Ela desligou... e fez as malas.

Sem deixar bilhete. Sem olhar para trás.

Santiago só percebeu horas depois. E quando entrou no quarto dela,


encontrou a cama vazia, o armário entreaberto, e uma única rosa
vermelha sobre o travesseiro.

Ele a segurou com força.

— Você quer jogar, Martina?

O espinho cortou seu dedo.

— Então vamos jogar até o último sangue.

Capítulo 13 – O Segredo
que Nunca Dorme

O apartamento de Lorenzo era no último andar de um antigo edifício


no bairro de Chamberí. Disfarçado como um restaurador de arte, ele
mantinha ali não apenas quadros, tintas e livros raros — mas
também arquivos, gravações, documentos... e uma parede inteira
dedicada à destruição de Santiago González.

Martina entrou tensa, observando cada detalhe. Lorenzo a recebeu


com um sorriso calmo e um copo de vinho.

— Não bebo mais com estranhos. — ela disse.


— E se eu for o único que está te mostrando a verdade?

Ela não respondeu. Seguiu-o até um quarto onde havia um quadro


coberto com um lençol branco. Lorenzo tirou o pano lentamente. Era
uma pintura da mãe de Martina. Jovem, com o mesmo olhar forte da
filha.

— O que é isso?

— Um retrato que nunca foi exposto. Pintado por um artista secreto.


E pago... por Carlos González. — Ele a encarou. — Seu avô. Pai de
Santiago. E de mim.

Martina congelou.

— O quê?

Lorenzo assentiu.

— Sua mãe foi amante de Carlos antes de Santiago. Ela estava


prestes a abrir um processo contra ele. Tinha provas de lavagem de
dinheiro, fraudes, mentiras da fundação. Mas antes que pudesse
entregar... morreu num suposto acidente de carro.

Martina cambaleou um passo para trás.

— Está mentindo.

Lorenzo entregou-lhe uma pasta. Fotografias. Cópias de mensagens.


Um laudo de perícia. Todos apontando para algo que ela nunca quis
ver:

A morte da mãe dela não foi acidente.

— E Santiago? Ele sabia?

Lorenzo assentiu.

— E ajudou a encobrir.

As palavras bateram nela como estilhaços.

— Por que está me dizendo isso?

Lorenzo se aproximou. Seus olhos agora mais quentes. Mas


perigosos.
— Porque ele te marcou como uma posse. Mas eu... quero que você
escolha me amar livremente. Quero te mostrar que ainda pode haver
luz dentro da escuridão.

Martina virou o rosto.

— E se eu já estiver condenada demais para a luz?

Lorenzo segurou o queixo dela com suavidade.

— Então me deixe dançar com você nas sombras.

Eles estavam perto. Tão perto. Mas antes que os lábios se tocassem,
o vidro da janela estourou.

Um tiro. De raspão. Passou rente ao ombro de Lorenzo.

— Abaixem-se!

Martina gritou.

Mas já era tarde.

Santiago havia chegado.

De pé, no topo de um prédio em frente, com o rifle ainda quente nas


mãos. Seus olhos não piscavam. Era um animal ferido e faminto. Um
homem tomado por um amor que há muito deixara de ser humano.

E ele sussurrou, encarando pela mira:

— Se ela não pode ser minha por amor... será por medo.

Capítulo 15 – La Reina
Silenciosa

O cofre estava em uma pequena agência bancária, discreta, no


coração antigo de Madri. A chave havia sido escondida num
medalhão que Martina usava desde criança, mas que só agora
revelava seu propósito.

O diário era grosso, as páginas amareladas. A caligrafia firme. A voz


de sua mãe falava com raiva contida.

"Eu confiei nela. Crescemos juntas. Jurávamos proteger uma à outra.


Mas tudo mudou quando me apaixonei por Carlos González. Ela não
suportou. Disse que ele era dela. Disse que eu pagaria por 'roubar
seu trono'. Eu ri. Achei que era drama. Que era só ciúme..."

"Uma semana depois, começaram as ameaças. Os olhares. Os


sussurros na fundação. Os documentos falsos. Eu virei o inimigo. E
ela... virou a dama perfeita aos olhos do mundo."

"Se eu morrer, não foi acidente. Foi vingança."

Martina fechou o diário com as mãos trêmulas.

Elena González.

A esposa de Carlos. Mãe de Santiago. A mulher que sempre foi uma


lenda intocável. Cultivada em eventos de gala. Fria como prata.
Temida... até mesmo por mafiosos.

Era ela.

A verdadeira inimiga.

Martina precisava vê-la.

Do outro lado da cidade, Santiago estava desmoronando. Os aliados


começavam a duvidar. As rotas de tráfico estavam sendo bloqueadas.
Lorenzo havia enviado mensagens cifradas para os principais
fornecedores, oferecendo "proteção e limpeza" caso se unissem a ele.

Santiago sabia que estava sendo empurrado para o abismo.

E foi nesse estado que ele recebeu o aviso de que Martina havia ido
até Elena.

— Merda... — murmurou, pegando o carro em disparada.

A mansão dos González em La Moraleja era quase um castelo.


Guardada por muros, árvores antigas e segredos mais antigos ainda.
Quando Martina entrou, tudo pareceu congelado no tempo.
Elena a aguardava numa sala de vidro. Vestia preto. Um colar de
pérolas. Tomava chá como se estivesse em um filme antigo.

— Você cresceu... bonita. — disse, sem emoção.

Martina a encarou. A voz da mãe pulsava em sua mente.

— Você matou minha mãe.

Elena sorriu, mas não negou.

— Sua mãe se apaixonou pelo homem errado. E tentou tomar o que


não era dela. Mulheres assim... sempre acabam com sangue na boca.

— Ela era sua irmã de coração.

— Justamente. E irmãs que nos traem... merecem punição maior. —


Elena disse, levantando-se. — Eu dei a Santiago o trono. Criei um
império. E você apareceu para tirar tudo dele. Eu não vou permitir.

— E se eu derrubar tudo o que você construiu?

— Você morreria antes de tocar na primeira pedra.

Martina se aproximou, os olhos queimando.

— Já tentei sobreviver. Agora, eu luto.

Elena ficou em silêncio por um instante. E então sussurrou:

— Então venha. Vamos ver qual de nós sangra primeiro.

Capítulo 16 – O Peso do
Gatilho
O tempo parou.

Martina sentia o coração bater dentro do crânio. Elena estava à sua


frente, ereta como uma rainha condenada. E Santiago... de pé, com a
arma apontada, os olhos em chamas, mas marejados. Uma rachadura
começava a atravessar aquele homem feito de pedra.

— Abaixe essa arma, Santiago — Elena disse, firme, sem medo. —


Você é meu filho.

— Não diga isso como se fosse amor — ele respondeu, com a voz
rouca. — Você mentiu para mim a vida inteira. Manipulou. Matou.

Ele se virou para Martina.

— E você... me fez querer ser alguém melhor, só para depois me


quebrar. Por ele. — O nome de Lorenzo saiu como veneno.

Martina deu um passo à frente, mesmo com a arma entre eles.

— Você se destruiu sozinho, Santiago. E se ainda existe algo de


humano em você... não atire.

Os olhos dele vagaram entre as duas.

O dedo começou a ceder no gatilho.

Um som cortou o ar.

Bang.

Mas não veio dele.

Elena cambaleou. Um furo de bala surgiu na lateral do ombro.


Sangue escorreu devagar por seu vestido caro.

Lorenzo.

Na porta da mansão, com uma pistola ainda fumegante.

— Era pra mim? — ele perguntou, entrando. — Desculpe o atraso.

Martina correu para impedir um segundo disparo. Santiago reagiu


com violência, avançando em direção ao irmão. Os dois rolaram no
chão de mármore, trocando socos e gritos.

— Você quer tomar tudo de mim! — Santiago rosnava.

— Porque você nunca mereceu nada! — Lorenzo revidava.


Martina gritou por ajuda, mas ninguém apareceu. Aquela casa era
uma ilha de pecados, e os pecadores estavam sozinhos ali dentro.

Até que ela viu a arma caída no chão.

Se aproximou.

Pegou.

Apontou.

— Parem.

Os dois congelaram, cobertos de sangue, os rostos desfigurados pela


fúria.

— Se algum de vocês fizer mais um movimento... eu juro que atiro.

— Em quem, Martina? — Lorenzo perguntou.

— No que sobrar. — ela disse. E pela primeira vez, ela era o poder.

Minutos depois, a polícia cercou a mansão. Elena foi levada, ferida,


mas viva. Lorenzo e Santiago ficaram sob custódia temporária.

Mas Martina...

Ela saiu dali com a cabeça erguida. O diário da mãe na bolsa. E algo
dentro de si que nunca mais seria o mesmo.

Capítulo 17 – Cartas
Escritas com Sangue
Seis meses depois.

Madri respirava um verão sufocante. Martina agora vivia em um


apartamento discreto no bairro de Salamanca, longe de mansões,
segredos e homens perigosos. Dava aulas de história da arte em uma
universidade menor, e vivia entre livros, silêncio e uma liberdade
solitária.

Mas a paz nunca dura quando se carrega o nome de um monstro na


pele.

Naquela manhã, o telefone tocou. Era da polícia.

— Senhora Hernándes... encontramos um corpo. No Hotel Majestic.


Há algo que precisa ver pessoalmente.

Martina hesitou.

— Quem é?

— Ainda não temos identificação oficial. Mas o homem carregava...


isso.

A oficial enviou uma foto.

Um envelope vermelho.

Escrito à mão:

"Para Martina. Só para ela."

Ela não conseguiu respirar. Vestiu-se e foi imediatamente até o hotel.


O quarto estava isolado. Sangue ainda fresco. O corpo coberto. A
polícia em volta. Ela entrou sob os olhares cautelosos dos oficiais.

— Reconhece esse homem? — perguntaram, levantando o lençol.

Martina levou a mão à boca.

Era um dos ex-seguranças de Santiago. Javier.

Não via aquele rosto desde o dia em que deixara a mansão.

Pegou o envelope. Dentro, uma carta.

"Martina,
Eu disse que a história ainda não acabou.
Se você achou que podia me apagar da sua pele, errou feio.
Cada homem que tocar em você... cada vida que cruzar seu
caminho... carrega agora o meu aviso.
Volte para onde pertence. Ou mais sangue virá.
Com amor,
— S."

Ela sentiu os joelhos falharem. Sentou-se. Tudo girava.

— Ele está solto? — perguntou à polícia.

— Santiago González está desaparecido há dois meses. A fuga da


prisão foi limpa, silenciosa. Alguns dizem que está morto. Outros...
que apenas se transformou em lenda.

Martina soube a verdade ali.

Santiago estava vivo.

E mais perigoso do que nunca.

Naquela noite, ela recebeu uma nova encomenda na porta de casa.

Uma caixa preta.

Dentro dela, um vestido vermelho. O mesmo que usava no dia em


que o conheceu.

E um colar.

A "marca" dele.
Capítulo 18 – O Jogo
Começou

A noite parecia feita de vidro: frágil, tensa, prestes a quebrar.


Martina estava sentada no chão da sala. O vestido vermelho ainda
pendia do encosto da cadeira, como uma lembrança de um passado
que ela queria destruir... mas que se recusava a morrer.

Seu celular apitou.

Número desconhecido.

Uma mensagem com apenas um símbolo: ♞

Um cavalo de xadrez.

Logo em seguida, o vídeo.

Ela hesitou, mas clicou.

A imagem era escura. A câmera tremia levemente. E então, o foco se


ajustou.

Um homem, amarrado a uma cadeira. Sangue no rosto. Olhos


semiabertos.

Lorenzo.

Ele tentava falar, mas a voz estava fraca. Atrás dele, uma voz suave,
inconfundível:

— Ele tentou me destruir... você viu. Mas agora, ele entende. Todos
entendem. Não se rouba o que já tem dono.

Silêncio.

— Você tem 72 horas, Martina.

A tela ficou preta.

Ela gritou. Um grito seco, de alma. Quebrado.


Santiago estava não apenas vivo. Estava organizado. Tinha aliados.
Recursos. E pior: tinha ela em suas mãos outra vez, sem precisar
tocá-la.

No dia seguinte, ela foi à delegacia. Mas os policiais só ofereceram


descrença e processos lentos.

— Santiago González é oficialmente dado como morto. E mesmo que


esteja vivo... — disse o investigador — você não pode enfrentar isso
sozinha.

Martina o encarou.

— É exatamente isso que vou fazer.

À noite, foi ao antigo galpão do pai, onde ele guardava obras de arte
e documentos da fundação. Esperava encontrar algo, qualquer coisa
que a levasse até o paradeiro de Santiago.

Encontrou mais do que esperava.

Um mapa. Com anotações. Códigos. Endereços.

Um em especial estava marcado com sangue seco: "Calle de los


Caídos, 317."

Ali estava escrito:

Último lugar seguro. Se ela escolher voltar... leve-a aqui.

Martina sabia o que aquilo significava.

Santiago havia preparado um cativeiro... um palco.

Não para matá-la.

Para encená-la.
Capítulo 19 – Bem-vinda
de Volta

A Calle de los Caídos era esquecida até pelo GPS. O número 317
parecia abandonado, tomado por pichações e ferragens corroídas.
Mas Martina sentia, no fundo do peito, que estava sendo observada.
O portão entreaberto parecia um convite assinado em sangue.

Ela entrou devagar, a arma sob o casaco. Estava pronta para


encontrar o inferno.

Mas não esperava por ele.

— Achei que você nunca teria coragem de voltar. — disse Rubén, o


ex-segurança de Santiago, surgindo das sombras.

Ela o reconheceu imediatamente.

— Você deveria estar morto.

Ele deu um sorriso cínico.

— Você devia estar casada com um homem comum. A gente nem


sempre faz o que deveria.

— Onde está o Lorenzo? — ela perguntou, firme.

Rubén apontou para dentro do galpão.

— Vivo. E bem guardado. Santiago só quer conversar... do jeito dele.

Martina sentiu a garganta seca. Mas entrou.


O galpão estava irreconhecível por dentro. Transformado em algo
que lembrava um palco, ou uma galeria privada. Cortinas vermelhas,
câmeras nos cantos, luzes ajustadas para destacar cada movimento.
O cheiro de madeira velha e perfume caro se misturava ao metal das
grades.

Ela deu dois passos. A porta se fechou atrás dela.

E então, a voz.

— Você veio. Sabia que viria. Sempre volta pra onde pertence.

Santiago surgiu entre as sombras.

Usava preto, barba por fazer, e os olhos... do mesmo azul


enlouquecido de sempre. Nenhum sorriso. Nenhum disfarce. Só a
presença sufocante que o tornava inescapável.

Martina puxou a arma e apontou.

— Cadê o Lorenzo?

Santiago parou diante dela. O cano da arma tocava seu peito, mas
ele parecia alheio ao perigo.

— Está vivo. Amarrado. Sem ferimentos graves... por enquanto.

— Ele te traiu. Tentou me proteger. — ela cuspiu.

— Ele é meu irmão, Martina. — Santiago respondeu com amargura.


— Ele sempre quis o que era meu. O nome, a herança... você.

Ela manteve a arma firme.

— Você quer que eu tenha pena?

— Não. Quero que se lembre.


De quem te ensinou a arder.
De quem marcou você por dentro... onde ninguém mais toca.

Martina sentiu o peito apertar.

— Você me quebrou.

Santiago deu um passo à frente.

— E ainda assim... veio até mim.

A arma tremia na mão dela.


— Você vai libertar Lorenzo. E depois... vai me esquecer.

Ele sorriu, sombrio.

— Não.
Você vai ficar.
Sete dias. Comigo. Nesse lugar. Sem armas.
E se no fim ainda quiser ir embora...
Eu mesmo abro a porta.

Martina hesitou. Pensava em Lorenzo. Na dor que ainda a prendia


àquele homem à sua frente. E na parte sombria dentro de si... que
queria saber o que aconteceria se ela ficasse.

— E se eu me recusar?

Santiago se aproximou mais. Estava a centímetros de distância


agora.

— Então eu solto o Lorenzo.


Mas nunca mais solto você.
Capítulo 20 – A Cela Sem
Trancas

Primeiro dia.

Martina acordou numa cama de lençóis negros, sozinha, em um


quarto onde até o silêncio parecia vigiado. As paredes tinham
quadros que lembravam sua infância, sua juventude, até o dia em
que conheceu Santiago. Memórias que não deviam estar ali.

Ela se levantou.

Na mesa de canto, uma bandeja com café da manhã. Ao lado, um


bilhete:

"Hoje é o dia um.


Você ainda tem seis para me odiar em paz.
Aproveite enquanto pode.
— S."

Ela jogou o bilhete no chão e pisou.

Mas comeu.


O galpão agora funcionava como um manicômio de luxo. Havia salas
com música, livros que ela adorava, uma banheira de mármore... e
câmeras escondidas. Santiago estava por toda parte, mesmo quando
invisível.

Na metade da manhã, ele apareceu.

— Está confortável?

Martina não respondeu. Apenas o encarou com frieza.

Santiago se aproximou, segurando uma caixa.

— Trouxe um presente.

— Me poupe.

Ele abriu a caixa. Dentro, um livro antigo de poesia espanhola,


edição que ela perdera anos atrás.

— Lembra disso? Eu comprei no nosso primeiro passeio juntos. Você


esqueceu em minha biblioteca quando fugiu.

Ela pegou o livro com cuidado, os dedos tremendo contra a capa.

— Você guarda tudo que toca?

Santiago sorriu.

— Apenas o que é meu.

Segundo dia.

Martina passou o dia ignorando-o. Leu, se isolou. Mas Santiago não


se incomodava. Ao contrário: a paciência dele era mais assustadora
que sua raiva.

Ele cozinhou. Serviu. Conversou sozinho enquanto ela comia em


silêncio.

— Um silêncio seu ainda vale mais do que qualquer grito de outra


mulher. — ele disse, erguendo a taça de vinho.

Terceiro dia.
Ela perguntou por Lorenzo. Santiago a levou até uma sala com vidro
espelhado.

Lá estava ele, sendo tratado, com comida e água. Mas sob vigilância.

— Você não o ama. — Santiago disse.

— Mas ele me protegeu. — respondeu Martina.

Santiago encostou-se na parede, observando-a.

— Você confunde proteção com salvação.

E então chegou perto. A voz grave, baixa, quase íntima:

— Você já foi salva, Martina.


Por mim.
Quando eu te quebrei... fiz você enxergar quem era.
Você nunca quis ser uma mulher comum.

Ela afastou-se, sentindo raiva. E algo mais escuro, mais profundo:


verdade.

Quarto dia.

Martina sonhou com ele. Um pesadelo, um desejo, uma lembrança.

Acordou suando.

Ao sair do quarto, encontrou Santiago esperando.

— Dormiu mal? — perguntou ele, encostado na parede.

— Me deixa em paz.

— Você sonhou comigo?

Ela não respondeu. Ele se aproximou.

— Eu sonhei com você.

Pôs a mão no rosto dela. Os dedos quentes. Os olhos queimando.

— Sabe o que foi pior nesses meses sem você?

Ela tentou se afastar. Ele a segurou com cuidado, mas firmeza.

— Sentir seu nome queimando na boca de outras mulheres.


E então, a soltou.

Martina correu para o quarto, trancou-se, encostada à porta,


sentindo o peito colapsar.

O problema de amar um monstro é que... às vezes ele sabe amar de


volta.

Capítulo 21 – Se For Jogar


Com o Diabo, Aprenda a
Dançar Com Ele

Quinto dia.

Martina acordou mais cedo. Trocou os lençóis negros por um vestido


de seda branco que estava pendurado ali, propositalmente.

Sabia que ele observaria. Sabia que esperava resistência.

Ela ofereceria o oposto.

Desceu até a sala de jantar. Santiago já a esperava, café servido,


expressão calculadamente neutra.

— Que milagre vê-la sorrindo.


Ela sentou-se devagar, encarando-o com olhos calmos.

— Você me surpreende, Santiago. Achei que seria mais previsível.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Previsível como?

Martina inclinou-se sobre a mesa. A blusa cedeu ligeiramente, mas o


olhar dela não vacilou.

— Como um homem que quebra, prende e depois suplica por amor.

Santiago não respondeu de imediato. Depois, riu. Mas não era um


riso leve. Era um alerta.

— Cuidado, Martina.
Seduzir um monstro é diferente de domá-lo.

— Talvez eu goste de monstros.


— Talvez você seja um. — ele murmurou.

Durante o dia, Martina provocou com gestos suaves: risos leves,


toques quase acidentais, lembranças sussurradas. Um perfume que
sabia que ele amava. Palavras que disfarçavam ameaça com doçura.

Santiago percebeu. E deixou.

Mas os olhos dele estavam diferentes agora. Menos frios. Mais


intensos. Como se a previsse. Como se, no fundo, gostasse de ser
caçado.

À noite, ela apareceu no salão principal. Uma taça de vinho. Música


clássica.

— Dança comigo? — ela pediu.

Ele hesitou.

Depois, aceitou.

Os corpos se tocaram. Lentamente. A respiração no mesmo ritmo.


Ele a segurava com mãos firmes, mas respeitosas. Como se ela fosse
feita de algo que ele quisesse manter inteiro... por agora.

— Você está mudando. — ela sussurrou.

— Ou só estou mostrando o que escondi de você.


Martina ergueu o rosto.

— E o que é isso?

Santiago a encarou nos olhos.

— Que eu nunca quis te destruir.


Só... te possuir. Por completo.
Até o que você nega.

Ela o beijou.

Foi ela quem o beijou.

Mas ele a prendeu com os braços e devolveu como se o mundo


dependesse daquilo. E talvez dependesse.

Horas depois, deitada na cama com ele — ainda vestida, mas de alma
exposta — Martina sussurrou:

— Você realmente me deixaria ir, se eu pedisse?

Santiago ficou em silêncio por longos segundos.

Depois respondeu, com a voz quase inaudível:

— Não.

Ela fechou os olhos. Um meio sorriso. Uma dor estranha no peito.

Não porque ele disse "não". Mas porque ela não queria mais ouvir
"sim."

No final do capítulo, Martina encontra uma porta destrancada no


corredor lateral. Rubén a observa de longe. Não a impede. Só diz:

— Se for sair... faça rápido.

Ela olha para trás. Santiago dorme no quarto. Vulnerável. Pela


primeira vez.

A liberdade está a três passos.

Mas ela hesita.


E fecha a porta devagar... por dentro.

Capítulo 22 – A Entrega

Sexto dia.

O ar entre eles estava diferente. Mais quente. Mais denso. Mais


perigoso.

Martina não fugiu.

Ela podia.
Mas quando fechou a porta atrás de si na noite anterior, algo dentro
dela havia mudado. Não era mais a prisioneira tentando escapar. Era
a mulher que decidira entrar no fogo com os próprios pés.

Santiago a observava em silêncio enquanto ela tomava banho


naquela manhã. A porta entreaberta, a água escorrendo por sua
pele. Ele não fez nada. Só olhou, como se a visão já o queimasse por
dentro.

Quando ela saiu, vestida apenas em uma camisola fina de cetim


branco, ele estava sentado na poltrona.

— Você me deseja? — ela perguntou, direta.

Ele ficou em pé.

— Você sabe que sim.

— Mas me ama?

Santiago se aproximou, os olhos acesos.

— O que sinto por você... não tem nome.


É obsessão, culpa, ternura e raiva.
Mas se amor é aquilo que queima por dentro e não passa... então,
sim.
Te amo.
Do jeito mais errado que existe.

Martina tocou o peito dele.

— Então me toma.
Não como antes. Não com raiva.
Me toma... como se eu fosse a única salvação que você ainda
acredita.

O beijo foi lento no começo. A tensão explodiu num toque. Santiago


tirou a camisola dela como se estivesse desfazendo um voto, e a
deitou com cuidado, mas com fome. Cada gesto era reverência e
castigo.

Ela gemeu contra a boca dele, e ele respondeu com os dentes em sua
pele, marcando, tomando, exigindo.

— Você é minha. — ele sussurrava entre os beijos. — Sempre foi.


Sempre será.
As mãos dele seguravam com força. O quadril ritmado, feroz. Mas
havia um tipo de desespero nos toques... como se ele estivesse
tentando provar a ela — e a si mesmo — que ainda havia controle.

Martina revirou-se por cima dele.

— E se eu for sua perdição?

Santiago puxou seus cabelos, puxando-a para perto.

— Então que eu me perca dentro de você.

O corpo dela arqueava, pedindo mais. O dele respondia como se já


soubesse o caminho de cor.

Foi selvagem. Foi íntimo. Foi perigoso.

E no fim, ele a segurou como quem segura uma arma. Ou um


milagre.

Na madrugada, ela dormia sobre o peito dele.

Santiago observava o teto, inquieto.

Sabia que Martina havia mudado. Que algo nela agora se permitia
amar a escuridão. Mas também sabia que o silêncio dela era
estratégico.

— Você ainda está jogando comigo? — sussurrou.

Ela não respondeu.

Mas um leve sorriso no canto da boca denunciou que, sim...


o jogo ainda estava longe do fim.

Enquanto isso, do outro lado do galpão...

Rubén falava ao telefone, com voz tensa:

— Sim. Ela está dentro.


Santiago não desconfia.
Mas não espere que ela faça o trabalho sujo.

Do outro lado da linha, uma voz masculina respondeu:


— Ela só precisa estar onde ele sangra.

Rubén encerrou a ligação.

E olhou para o corredor escuro.

Martina estava sendo usada.


E talvez... nem desconfiasse.
Capítulo 23 – A Casa Onde
Tudo Começou

Sétimo dia.

Martina acordou com Santiago olhando pela janela. O corpo nu sob a


luz tênue da manhã parecia esculpido em tormento.

— Sonhei com minha mãe esta noite. — ele disse sem virar-se.

Martina se sentou, puxando o lençol para si.

— E o que ela disse?

Ele riu, amargo.

— Que eu finalmente aprendi a amar como ela: machucando


primeiro, antes de ser machucado.

Silêncio.

— Vamos sair. — ele disse de repente. — Quero te mostrar algo.

Horas depois, estavam a bordo do carro preto que atravessava as


avenidas cinzentas de Madri. Martina não fazia ideia de para onde
iam. E, por algum motivo, não perguntou.

Até que chegaram diante de uma propriedade antiga, cercada por


grades enferrujadas. Era uma mansão esquecida, escondida entre
muros altos e sombras pesadas.

— Onde estamos?

— Aqui... — ele respondeu com os olhos distantes — foi onde tudo


começou.

Entraram.

O ar era denso. Poeira e silêncio moravam ali há anos. No saguão,


quadros cobertos por panos. Cortinas rasgadas. E um piano
quebrado no canto.
— Esta era a casa da minha mãe.
A primeira mulher que eu amei...
E a primeira que me destruiu.

Martina o ouviu em silêncio, o coração apertado.

— Ela amava meu pai. Mas ele era casado com outra.
Eu fui o erro que ela não soube esconder.
Então... ela me escondia aqui. Como um segredo sujo.

Ele apontou para uma pequena porta nos fundos.

— Ali... é onde ela morreu.

Martina hesitou.

— Como?

— Incêndio. Mas não foi acidental.

Ela o encarou, tensa.

— Você está dizendo que...?

— Que foi Lorenzo quem começou o fogo.

Martina se afastou um passo, sem acreditar.

— Isso não faz sentido. Ele era só um garoto também.

— Sim. Mas já odiava o que eu representava.


Eu tinha o sangue do homem que ele chamava de pai.
Mas eu era o bastardo.
A lembrança viva da traição.

Martina sentiu a cabeça girar. Nada era como ela pensava.

Santiago se aproximou.

— Você entende agora?


Lorenzo não é só um irmão...
Ele é o começo da minha dor.

— E você me usou para atingi-lo?

Ele ficou em silêncio. O rosto sombrio. A raiva contida.

— No começo, sim.
— E agora?

Santiago tocou o rosto dela.

— Agora... eu te amo. E isso me assusta mais do que qualquer


vingança.

De volta ao carro, o celular de Martina vibrou discretamente.

Era uma mensagem de um número desconhecido.

"Agora você sabe o que ele fez.


Ainda vai protegê-lo?"

Junto, vinha um vídeo.


Martina hesitou... e então clicou.

As imagens eram do incêndio.


Gravadas por uma câmera antiga.
E no fundo, uma voz infantil gritava:

"Santiago! Por favor, ela ainda tá lá dentro!"

O menino na tela não era Lorenzo. Era Santiago.

E ele não se moveu. Só assistiu as chamas consumirem a casa.

Martina sentiu o coração afundar.

Ele havia mentido.

Ele matou a mãe.

E agora ela dormia nos braços de um homem que não só


manipulava... mas matava quem ousava amar.
Capítulo 24 – Aquilo Que a
Chama Não Queimou

Martina passou o dia em silêncio.

Desde que assistira ao vídeo, tudo parecia diferente. O ar, o toque,


até o jeito como Santiago respirava. Cada gesto dele agora era visto
com uma lente nova: a de alguém que escondeu uma morte — e vive
com ela nos olhos.

À noite, ele a procurou.

— Você está estranha. — disse ele, entrando no quarto onde ela


fingia ler.

— Estou apenas cansada.

Santiago se aproximou, ajoelhando-se diante dela.

— Você viu algo.

Ela não respondeu.

— Me diga.

Martina fechou o livro devagar.

— Você mentiu sobre sua mãe.

Ele ficou em silêncio por um momento. Depois, se levantou.

— O que você viu?

— O suficiente.
Ela se pôs de pé.

— Vi você... parado.
Enquanto sua mãe queimava.
Vi você não fazer nada.

Santiago afastou-se, os olhos ficando opacos como uma noite sem


lua.

— Ela não gritava por mim.

— Isso justifica deixar alguém morrer?

Ele virou o rosto.

— Ela me deixava trancado naquele quarto por dias, sem comida,


sem luz.
Dizia que eu era o castigo dela.
Naquela noite... ela gritou o nome do meu pai, não o meu.
E eu só fiquei lá... olhando.
Quer saber? Eu tinha dez anos.
E já estava morto por dentro.

Martina se aproximou, a voz baixa, tremendo:

— E depois disso?
Você decidiu fazer o mundo pagar pelo que ela fez?

Santiago a olhou como se ela o tivesse atingido com uma faca.

— Não.
Eu decidi nunca mais ser fraco.

— E amar alguém?
— Amar é fraqueza.
— Então o que somos? — ela gritou.
— Um erro. — ele respondeu.

O silêncio caiu como uma sentença.

Martina caminhou até a porta.

— Talvez você mereça ficar sozinho, Santiago.


Mas eu não.
Eu não quero morrer dentro dessa história com você.

Ele segurou seu braço com força.

— Se você sair agora, não volta mais.


— Eu sei.

Os olhos dela estavam cheios. Mas firmes.

— Então vá. — ele disse, soltando-a.

Ela hesitou. Mas andou.


Cada passo parecia um pedaço do coração sendo arrancado.

Do lado de fora do galpão, Rubén esperava no carro.

— Pra onde?

— Qualquer lugar onde ele não esteja. — respondeu Martina.

Rubén assentiu. Mas o olhar dele não era neutro.

Porque agora, ela estava livre... e exatamente onde ele queria.

No fim do capítulo, Santiago encontra o livro de poesia dela


abandonado sobre a cama. Dentro, o bilhete que ele mesmo havia
escrito dias antes.

"Hoje é o dia um."

Ele queima o papel com um isqueiro.

E diz, para ninguém ouvir:

— O dia um acabou.
Agora vem a guerra.
Capítulo 25 – A Liberdade
Também Pode Ser uma
Prisão

Dois dias haviam se passado desde que Martina deixou o galpão.

Ela estava em um apartamento discreto no bairro de Lavapiés, sob os


cuidados de Gael, um homem de poucos sorrisos e olhos atentos —
enviado por Lorenzo, supostamente para protegê-la.

— Ele vai procurar você. — disse Gael, oferecendo-lhe uma xícara de


chá.

— Eu sei. — respondeu Martina, olhando pela janela, inquieta. —


Mas eu não sou mais a mesma garota que entrou naquele cativeiro.

— Não. Agora você é a mulher que sobreviveu a Santiago González.


Mas sobreviver... não significa estar livre.

Martina passava os dias tentando reorganizar a própria cabeça.


Ainda podia sentir o cheiro dele, o gosto dos beijos, os gemidos
marcados no travesseiro. Mas o que mais a dilacerava... era lembrar
do olhar dele quando ela foi embora.

A dor não era de vítima. Era de abandono.

Ela tentava se convencer de que fez a coisa certa.

Mas todas as noites sonhava com ele.

E todas as manhãs acordava com a culpa nos olhos.

— Preciso entender quem ele realmente é. — disse a Gael naquela


tarde. — Preciso saber se tudo aquilo foi um teatro... ou se existe um
homem por trás do monstro.

Gael hesitou. Depois abriu uma gaveta e entregou um envelope.

— Lorenzo disse que, se você pedisse respostas, eu deveria te dar


isso.

Martina abriu.

Lá dentro, havia fotos antigas. Uma mulher loira, elegante, sempre


com um copo de bebida na mão. Ao fundo, Santiago pequeno, sempre
em cantos escuros das imagens. Olhos vazios. Postura rígida.

Entre os papéis, havia um relatório médico.

"Transtorno de apego reativo. Abandono emocional severo. Episódios


de violência autodefensiva. Tendência a dissociar afeto de dor."

Martina leu com a respiração pesada.

— Ele não nasceu assim...


Ele foi moldado.
Criado no caos.
Forjado no abandono.

Gael concordou.

— Mas nem todo mundo que sofre, se torna um carrasco.

Martina encarou as fotos.

— E nem todo carrasco escolheu ser.


Naquela mesma noite, Santiago entrou no antigo galpão. Estava
vazio. Silencioso. Sem ela.

Na sala escura, encarou o sofá onde Martina costumava sentar com


os pés descalços e a alma ferida. O cheiro dela ainda pairava no ar.

Ele não chorou.


Mas gritou.
Gritou como se pudesse arrancar o nome dela da garganta.

Depois, ligou para alguém.

— Está na hora.
— De quê? — perguntou a voz do outro lado.

Santiago respondeu com uma frieza que congelava o ar:

— De trazê-la de volta.
Por bem... ou por mal.

No fim do capítulo, Rubén aparece no apartamento de Martina. Ela o


encara surpresa, mas o deixa entrar.

— Gael saiu? — ele pergunta.

— Foi comprar mantimentos.

Rubén se aproxima devagar.

— Então escuta com atenção, Martina...


Você vai ter que escolher de novo.
Ficar longe de Santiago...
Ou morrer com ele.

Ela franze a testa.

— O que você quer dizer?

Rubén entrega um celular. Nele, um vídeo: Gael sendo sequestrado


por homens mascarados.

— Isso não foi ordem de Santiago.


Foi de alguém que também quer ver você em pedaços.

Ela engole seco.

— Quem?
Rubén responde, frio:

— Lorenzo.

Capítulo 26 – O Preço de
Ser Amada

O vídeo terminava com o rosto de Gael ensanguentado e uma única


frase gravada:

"Ou ela volta... ou ele não volta."

Martina apertava o celular contra o peito. A respiração


descompassada. O estômago afundado.

— Isso não faz sentido. Lorenzo é seu irmão. — sussurrou.

Rubén cruzou os braços, sombrio.


— E irmãos, às vezes, se tornam inimigos melhores que qualquer
outro. Lorenzo quer destruir Santiago, e isso significa destruir você
também.

— Mas... ele me protegeu.

— Te usou.
Como todos nós fizemos.
Mas você...
Você foi a única que fez Santiago sentir.
E isso faz de você uma ameaça.

Martina deu um passo para trás.

— Então o que você quer? Que eu volte pra ele?

— Quero que você viva.

Na mesma noite, Santiago recebeu uma caixa em sua porta.

Dentro dela, havia uma mecha do cabelo de Gael... e uma carta


assinada por Lorenzo.

"Quem te fez sofrer, irmão, foi ela.


Não eu.
Ela te quebrou.
Ela te deixou.
Ela soube de tudo... e mesmo assim te julgou."

Santiago amassou a carta.

Estava na hora de acabar com aquilo. De vez.

Dois dias depois, Martina chegou à casa abandonada onde Lorenzo a


esperava. Não havia armas. Não havia Rubén. Apenas ela e ele.

— Que ironia. — disse Lorenzo. — Você volta... mas não por amor.
Volta por culpa.

— Volto por justiça.


Você está destruindo pessoas que não te devem nada.

— E ele destruiu quem me deu tudo.

Martina encarou-o com coragem.


— Mas quem vai destruir você... é você mesmo.

No momento em que Lorenzo ergueu o braço para atingi-la, uma voz


se ergueu atrás dele.

— Encoste nela... e eu arranco sua alma pelas mãos.

Era Santiago.

Os dois irmãos se encaram. Pela primeira vez em anos... sem


máscaras.

— Ela te ama? — perguntou Lorenzo.

Santiago olhou para Martina. Depois, respondeu com voz baixa:

— Ela me viu como ninguém viu.


Me amou no inferno.
Isso vale mais do que sangue.

Um tiro ecoou.
Mas não foi disparado por Santiago.
Nem por Lorenzo.
Foi Rubén — que atirou em Lorenzo para salvar Martina.

Horas depois, Lorenzo estava vivo, mas em custódia. Rubén


desapareceu.

Martina e Santiago estavam sozinhos no antigo galpão, o lugar onde


tudo começou.

— Você vai me deixar de novo? — ele perguntou.

Ela se aproximou devagar.

— Não.
Mas se me ferir de novo...
Eu mesma te arrasto pro inferno comigo.

Ele sorriu. Pela primeira vez... um sorriso leve, cansado.

— Então me beija agora.


Enquanto ainda temos tempo.

E ela o fez.
Com fúria.
Com desejo.
Com amor.

E com a certeza de que aquilo nunca seria perfeito... mas era real.

Capítulo 27 – A Última
Marca

Dois meses depois.


Martina caminhava pelo campo silencioso nos arredores de Toledo.
Usava um vestido leve, os cabelos soltos. No alto da colina, uma
pequena casa branca, isolada. Era o novo refúgio deles. Um lugar
onde ninguém sabia quem eram. Onde o passado ainda sussurrava...
mas não gritava mais.

Santiago aparecia na varanda com duas xícaras de café.

— Dormiu bem? — perguntou.

— Não. — ela respondeu, sincera.

— Ainda tem pesadelos?

Ela assentiu.

— Mas agora, você está aqui quando eu acordo.

Santiago a puxou para si. Havia ternura, mas também dor. Eles
nunca voltaram a ser leves. Nunca voltaram a ser inocentes. Mas
estavam vivos. Juntos.

Porém, naquela manhã, um carro preto parou ao longe.

Martina soube, no mesmo instante, que a paz estava acabando.

Rubén.

Desceu do carro com a tranquilidade de quem carrega segredos. E


sangue nas mãos.

— Sabia que você não resistiria muito tempo fora do jogo. — disse a
Santiago.

— Eu saí. Acabou.

Rubén riu.

— Pra você, talvez.


Mas e pra ela?

Martina o encarou.

— O que você quer?

Rubén tirou uma foto do bolso. Nela, um ultrassom.


— Achei que quisessem saber... que a última mulher de Lorenzo
estava grávida.
Dele.
E que a criança está viva.
Escondida.
Protegida.

Martina gelou.

— O que isso tem a ver conosco?

— Tudo. Porque Lorenzo deixou algo para o filho.


E quem estiver com esse garoto... vai controlar tudo que ele possuía.

Santiago deu um passo à frente.

— Isso é uma ameaça?

Rubén sorriu.

— É um convite.
Voltem.
Ou serão caçados.

À noite, Santiago e Martina ficaram sentados à beira da lareira. O


fogo dançava como sombras de decisões futuras.

— E agora? — ela perguntou.

Santiago olhava fixamente para as chamas.

— Agora... a gente escolhe.


Ou queimamos tudo de novo.
Ou protegemos o que sobrou.

Martina segurou a mão dele, firme.

— Eu estou grávida, Santiago.

Silêncio.

Ele não disse nada. Não se moveu. Apenas chorou em silêncio.

Depois de tudo... uma vida nasceria entre os escombros deles.

E naquele instante, ele soube:

A marca que ele deixaria no mundo... não seria o sangue.


Seria ela.
E agora, o filho dos dois.

Um ano depois.

A câmera de segurança de um hospital em Lisboa mostra uma


mulher de cabelos escuros entrando com um bebê no colo.

Um homem alto, com barba e olhos intensos, acompanha à distância.

Eles sorriem discretamente.

A legenda da câmera diz:

"Registro desconhecido. Nomes não confirmados. Mas suspeita-se


que sejam fugitivos ligados à máfia espanhola."

Ninguém sabe os nomes.

Ninguém sabe onde estão agora.

Mas quem os viu...


Jura que, mesmo disfarçados,
o amor entre eles ainda queimava.

E a marca que ele deixou nela...


nunca mais saiu.

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