SUMÁRIO
1- CAPÍTULO 2
2 — CAPÍTULO 7
3 — CAPÍTULO 14
1- CAPÍTULO
No auge da corrida tecnológica e da tensão entre potências globais, os
Estados Unidos deram início a um projeto ultra-secreto, escondido do
mundo sob os desertos áridos de Nevada: o Projeto Gênesis. Criado nas
profundezas da Área 51, esse experimento sombrio visava uma nova
era de armamento humano — crianças modificadas geneticamente para
desenvolver habilidades elementares, transformando-se em armas vivas.
Sem consentimento público e sem apoio de aliados, o governo
americano partiu para medidas extremas. Em operações silenciosas
conduzidas por agentes especiais, centenas de crianças e adolescentes
entre 8 e 10 anos foram sequestrados em plena noite, retirados de suas
casas, escolas e orfanatos, desaparecendo sem deixar rastros em
diversos países. Famílias em luto jamais receberam respostas. Para o
mundo, essas crianças simplesmente deixaram de existir.
Na base subterrânea do projeto, os jovens eram submetidos a
experimentos rigorosos e, muitas vezes, desumanos. Aqueles que
manifestavam poderes eram classificados com códigos de cores,
baseados nos elementos dominados:
Vermelho – Manipulação do fogo
Azul – Controle da água
Cinza – Domínio sobre o ar
Marrom – Poderes ligados à terra
Amarelo – Energia e radiação
Aqueles que não demonstravam poderes recebiam status neutro, mas
ainda assim eram mantidos sob vigilância. O sistema de controle social
dentro da instalação era impiedoso. Os adolescentes mais obedientes,
chamados de Nêutrons, usavam pulseiras pretas e tinham acesso
limitado a pequenos privilégios, como mais tempo de recreação
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monitorada. Já os rebeldes, denominados Prótons, eram tratados como
ameaças — confinados em Salas de Contenção, onde passavam dias
ou semanas em isolamento até demonstrarem “comportamento
aceitável”.
Com base em análises comportamentais, estatísticas começaram a
surgir: os jovens de países em conflito constante, como os Estados
Unidos, Rússia e Coreia do Norte, tinham maiores índices de
agressividade, tornando-se majoritariamente Prótons. Já crianças
sequestradas de países da América do Sul, Europa ou Ásia Oriental
tendiam a ser mais pacíficas, mantendo-se como Nêutrons.
A vida dentro do projeto era isolada, controlada e fria. As celas eram
feitas de materiais à prova de fuga, com câmeras de segurança ativas
24 horas por dia. A única conexão com o mundo exterior vinha por meio
de telas de televisão, que transmitiam aulas controladas pelo governo —
matemática, ciências, inglês, e, em alguns casos, a língua nativa da
criança — junto com desenhos animados programados para induzir
calma e obediência. A programação era cuidadosamente planejada por
cientistas e psicólogos para manter a mente dos jovens controlada e
manipulável.
Visitas a psicólogos e exames físicos eram frequentes, mas jamais por
empatia: tudo era monitorado como parte da pesquisa. O medo, a
ansiedade e a rebeldia eram estudados como reações naturais ao
confinamento. Nenhum objeto cortante era permitido, e todos os
alimentos vinham em embalagens inofensivas.
Quem andasse naqueles corredores poderiam se sentir até mesmo meio
perturbado pelo silêncio, mas era inegável a tristeza nas crianças ali.
Cientistas não andavam sozinhos, estavam sempre acompanhados de
pelo menos um guarda de elite. Pois até os mais corajosos tremiam ao
ver uma criança que poderia simplesmente matá-los.
No corredor dois médicos acompanhados de dois guardas andavam no
corredor. Ambos com pranchetas nas mãos e olhares sérios nos olhos.
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— Ficha da paciente. — Disse o mais alto. Sua voz ecoando no corredor
vazio.
— Elly, doze anos, mostrou-se resistente apesar de estar debilitada. —
O outro homem disse com a voz hesitante.
— hn. Vamos ver como nossa 09 está reagindo ao vírus, agora. – Um
sorriso estranho apareceu no rosto do Homem.
Eles andaram por longos momentos no corredor vazio, até pararem em
uma porta, onde o homem mais alto pegou um cartão e passou ao lado
de uma tela.
A porta metálica deslizou com um chiado seco e calculado, rompendo o
silêncio opressor do quarto branco. O médico entrou com passos firmes,
ao lado de um guarda que mantinha a expressão de pedra, o olhar fixo
em cada canto da sala como se esperasse que até as sombras
pudessem atacar.
A menina, encolhida na beirada da cama, ergueu os olhos assim que o
barulho da porta ecoou. Dois olhos castanhos, grandes e assustados,
brilharam sob a luz fria que jamais se apagava ali dentro. Seu corpo
tremia levemente — se era pela febre ou pelo medo, nem ela mesma
saberia dizer.
— Senhorita Elly — disse o médico, em um tom que buscava ser gentil,
mas soava artificial, treinado. — Por favor, sente-se direito.
Ela obedeceu com lentidão, como quem carrega peso demais nos
ombros. Arrastou-se até o centro do colchão. Cabelos cacheados se
espalharam em volta do rosto moreno e úmido de suor. Elly apertava os
dedos uns contra os outros, sentindo o coração acelerar quando viu o
brilho metálico da seringa.
— Vai... vai doer? — sussurrou, a voz falhando entre as palavras.
O médico não respondeu. Apenas se aproximou e ajeitou a manga fina
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do uniforme hospitalar que cobria seu braço. Quando o metal tocou a
pele, Elly gemeu baixo e começou a chorar. As lágrimas desciam sem
esforço, silenciosas, sem escândalo — como quem já aprendeu que
gritar não muda nada.
— Fique quieta, vai passar rápido — murmurou ele, sem encará-la. O
líquido penetrou em sua veia, ardendo como fogo.
Ela virou o rosto e mordeu os lábios, tentando não soltar o grito que
crescia dentro do peito. Seu corpo se encolheu inteiro, as coxas fortes
contraindo-se sob o pano branco da maca, e as mãos pequenas
tremendo sem controle.
— Pronto — disse o homem, afastando-se. — Você só precisa tomar
essas pílulas quando o sinal tocar. Sem desculpas. Sem atrasos.
Colocou o frasco ao lado da cama. Elly apenas acenou com a cabeça,
ainda chorando baixinho. Mesmo naquele momento frágil, ela sorriu —
um sorriso tímido, educado, do tipo que dava mesmo quando estava
despedaçada. Era um gesto automático, aprendido.
O médico hesitou antes de sair, como se por um segundo lembrasse que
ela era só uma criança. Mas não disse nada. Saiu com o guarda atrás de
si.
No corredor iluminado artificialmente, o médico seguiu em silêncio até
uma sala de observação, onde outro homem o esperava — um cientista
de jaleco branco e óculos fundos, cuja expressão era sempre de alguém
que via números, nunca pessoas.
— Ela está fraca — disse o médico, jogando os dados no tablet. —
Sistema imunológico vulnerável. Suspeita de asma, talvez algo mais.
Mas nada conclusivo ainda. Ela não responde ao vírus como os outros.
O cientista franziu o cenho. — Ela chorou?
— Sim. Ainda tem medo de agulhas.
— Típico. Criada em ambiente de baixa exposição ao conflito.
Possivelmente ainda emocionalmente dependente... Mas vamos
monitorar.
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— Mesmo assim, sobreviveu. Não como os gêmeos — acrescentou o
médico, mudando de tela. — Ivan e Igor estão com os níveis de energia
altíssimos. Controlaram o ar com precisão durante os testes e continuam
clinicamente saudáveis. Como se nada tivesse sido inserido neles.
— Americanos. Agressivos, sim, mas geneticamente fortes. O projeto foi
eficiente com eles.
— Jun, o norte-coreano, está em contenção. Mostrou boa resposta ao
elemento terra, mas reagiu violentamente aos estímulos de obediência.
O comportamento dele nos preocupou.
— É esperado. Perfil Próton, claro.
— E quanto ao japonês? Tetsuya?
— Firme. Corpo saudável. Nenhum sintoma do vírus. Ele até sorriu para
um dos médicos. Um tipo de arrogância silenciosa. Mas eficaz. Pode se
tornar um líder de campo futuramente.
O cientista assentiu, rabiscando algumas notas. — Continue
monitorando Elly. Se ela piorar, transfira para a ala 3. Se estabilizar,
talvez volte com os Nêutrons.
O médico hesitou. — Ela pergunta todos os dias se pode ver os outros.
Se pode sair para tomar sol.
— O que você diz?
— Minto.
O cientista deu um leve sorriso, frio como o ambiente. — Ótimo.
Continue mentindo. A esperança dói, mas mantém o controle.
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2 — CAPÍTULO
Um silêncio denso pairou entre os dois. Nenhum deles ousou quebrá-lo
— como se até o ar ali dentro soubesse que carregar palavras demais
era perigoso.
Dois segundos. Talvez três.
Então, o mais jovem dos cientistas virou-se lentamente, como quem
decide fugir de uma conversa antes que ela se torne um abismo.
Mas antes que desse o primeiro passo, ouviu a voz seca do colega:
— Onde vai?
— Verificar as câmeras. Quero ver como os outros estão reagindo —
respondeu sem se virar, o tom neutro, quase frio.
Não deu espaço para mais perguntas. Saiu, sem olhar para trás, como
quem precisa manter o pouco controle que ainda resta.
No corredor, as luzes brancas zumbiam levemente, acompanhando o
som dos próprios passos. Seguiu em linha reta, ignorando as portas
numeradas, cada uma guardando uma história que ele preferia não
conhecer. As paredes eram limpas demais, o chão liso demais. Um
cenário asséptico que escondia a podridão com eficiência.
Ele andava com os punhos cerrados, os maxilares travados. Não sentia
nada — ou fingia. Era difícil lembrar onde terminava a apatia e
começava a defesa emocional.
A cada grito abafado que escapava por alguma porta mal isolada, seu
estômago revirava um pouco mais. Choros. Suplicas. Murmúrios de
crianças cansadas. Palavras misturadas em línguas diferentes —
algumas ele entendia, outras não. Mas todas carregavam o mesmo
desespero universal.
Ele já não dormia bem havia meses. Tentava. Às vezes com remédios.
Outras vezes com álcool. Já havia pedido transferência seis vezes.
Todas recusadas. “Você é necessário”, diziam. “Você é experiente.” Mas
o que realmente significava era: Você já viu demais para ir embora.
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Ele estava preso ali. Não por algemas. Mas por culpa.
O mais irônico era que todos achavam que ele fazia parte do lado “do
bem”. Era o que diziam às crianças, ao menos. Que os médicos estavam
salvando suas vidas. Que os cientistas iriam curá-las. Que os testes
eram importantes para o bem maior.
Mentiras.
E, mesmo sabendo disso, ele continuava. Monitorava. Registrava.
Alimentava dados. Observava reações. Tudo sem reagir — ao menos
por fora.
Mas por dentro, ele estava apodrecendo.
Ao dobrar o último corredor, parou diante de uma das salas de vigilância.
Passou o crachá. A luz ficou verde. A porta se abriu com um clique
suave.
Lá dentro, telas mostravam os quartos.
Tela 03: Elly, encolhida, segurando o frasco de pílulas como se fosse um
amuleto.
Tela 05: Jun, sentado no canto da sala de contenção, com olhos fixos e
expressão que misturava raiva e cansaço.
Tela 08: Os gêmeos, Ivan e Igor, brincando com o ar — fazendo bolhas
invisíveis flutuarem entre eles como se o sofrimento alheio não os
tocasse.
Tela 11: Tetsuya, sentado perfeitamente reto, olhando direto para a
câmera como se soubesse que estava sendo observado.
Ele suspirou. O peito apertado.
Essas crianças eram fortes. Mas até quanto poderiam resistir?
A mão tremeu sobre os controles. Ele não sabia quanto tempo ainda
aguentaria assistir. Mas também não sabia como parar.
Ao entrar na sala de vigilância, o doutor não dirigiu sequer um olhar aos
dois guardas postados próximos às telas. Já o conheciam bem demais
para tentar puxar conversa. Sabiam que ele não vinha ali por ordens
superiores — vinha por necessidade. Vinha para fugir. Ou para vigiar.
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Ninguém tinha certeza.
Sem hesitar, foi direto até a estação de número 05.
Jun.
O garoto permanecia na mesma posição que ocupava desde cedo:
sentado no canto mais escuro da cela, pernas cruzadas, costas
encostadas na parede fria, olhos semicerrados. Quieto. Rígido. Como se
a imobilidade fosse uma forma de resistência.
— Doutor Hanamura, quer mesmo ver esse garoto? Já veio ver ele três
vezes seguidas, ontem — disse um dos guardas, de cabelos escuros,
franzindo o cenho. A voz carregava um certo sarcasmo velado,
disfarçado de preocupação.
— Isso não é da sua conta — retrucou o doutor Hanamura sem desviar
os olhos da tela. — Ligue o áudio. Quero ouvir ele.
O guarda bufou, mas obedeceu. Um leve clique, e logo os sons
abafados da cela de contenção começaram a preencher a sala.
Do outro lado da tela, Jun parecia nem perceber que estava sendo
observado. Não mexia um músculo. Mas seus lábios se moviam
lentamente, quase imperceptíveis.
— Vai passar... Vai passar... — a voz de Jun soava tão baixo que quase
não se podia ouvir. Seu sotaque norte-coreano tão forte quanto podia.
Era uma prece particular. Uma tentativa de silenciar os gritos que
atravessavam as paredes das salas vizinhas — gritos de crianças, gritos
de dor. Gritos que pareciam enroscar nas paredes como garras
invisíveis.
Não escute. Não pense. Não quebre.
Ele repetia para si mesmo em coreano, como se aquelas palavras
fossem um escudo. Como se falar sua própria língua fosse lembrar
quem ele era antes de ser arrancado de casa. Antes de ser jogado ali —
num mundo onde ninguém o entendia, e onde ele não queria entender
ninguém.
Se recusava a falar inglês. Se recusava a responder comandos. Se
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recusava a ser obediente.
Era um próton. E os prótons não deviam falar com nêutrons. Essa era
uma das primeiras regras. Regras silenciosas. Regras feitas para manter
a separação. Para impedir qualquer laço. Para evitar que se vissem
como iguais.
As celas eram organizadas como jaulas de um experimento que fingia
ser ciência. Os prótons, como Jun, eram isolados. Sempre posicionados
ao lado das Salas de Testes, como forma de punição velada. Sabiam o
que estavam fazendo — sabiam que ouvir os gritos alheios sem poder
reagir era uma das maiores formas de tortura.
E mesmo assim, Jun resistia.
Firme.
Silencioso.
Mas por dentro… era outra história.
— Eu quero voltar para casa... — Falou com a voz levemente trêmula.
A voz dele era quase um sussurro. Mas Hanamura a ouviu. E por um
momento, apenas um breve segundo, ele desejou não ter pedido o
áudio.
Jun então abriu os olhos devagar, encarando a câmera no canto do teto.
Ele sabia que estavam olhando. Sempre sabiam. Mas mesmo assim,
seus olhos não pediam ajuda.
Eles desafiavam.
Hanamura desviou o olhar. Não conseguia olhar sem sentir culpa.
Por mais que tentasse se manter indiferente, havia algo no olhar daquele
garoto que o fazia sentir... humano demais.
— Desliga o áudio — pediu em voz baixa.
O guarda obedeceu sem comentar nada. Hanamura passou a mão pelo
rosto, como se tentasse apagar o que tinha visto. Suspirou fundo e
moveu a tela para a estação seguinte.
Estação 08.
Ivan e Igor.
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A imagem se ajustou devagar, revelando a cela iluminada por uma luz
fria e pálida. Os dois garotos estavam deitados juntos no chão fino de
colchonete — compartilhavam a mesma coberta fina que mal aquecia,
como faziam todas as noites. Seus corpos pequenos estavam
encolhidos um contra o outro. A cela era fria. Desumana. Como todas ali.
Ivan tinha os olhos úmidos, mas fazia força para não deixar as lágrimas
escorrerem. Sua respiração era baixa, entrecortada. O irmão mais uma
vez o abraçava pelos ombros, apertando-o de leve, como se quisesse
garantir que ainda estavam juntos.
Igor sempre tentava ser forte por ele. Por ambos.
Durante o dia, diante dos médicos e guardas, bancavam os
engraçadinhos, os espertos. Ivan era mais falante, enquanto Igor fazia
piadas provocativas. Sabiam que isso fazia os adultos se irritarem — e
adoravam isso. Mas à noite, quando estavam a sós, o teatro caía.
Naquele momento, Igor sussurrou algo quase imperceptível:
— Eles não vão separar a gente, tá?
Ivan mordeu os lábios, abafando um soluço. Mesmo sabendo que
estavam sendo filmados, não conseguia mais esconder o que sentia.
Não naquela hora.
— Você promete? — a voz dele veio fina, tremendo como se cada
palavra pesasse toneladas.
Igor apertou o irmão com mais força.
— Prometo.
Silêncio.
A câmera capturava o exato momento em que Ivan finalmente deixava a
lágrima escapar, deslizando silenciosa pela bochecha. Ele a ignorava.
Já estava acostumado com a sensação.
— Eu tenho medo, Igor… de acordar e você não tá mais aqui.
— Eu também — respondeu o irmão, baixo. — Mas se acontecer… eu
vou dar um jeito de te achar, entendeu? Onde quer que você esteja.
Ivan assentiu devagar, ainda sem olhar para a câmera. Já sabiam onde
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ela ficava. Sempre sabiam. Mas fingiam que não. Era mais fácil fingir.
— Amanhã talvez tenha exame de novo — murmurou Ivan, enterrando o
rosto no ombro do irmão. — Será que vai doer?
— Claro que não — mentiu Igor. — Você é o irmão mais forte, lembra?
— Você que é. Você nunca chora.
— Só porque você já chora por nós dois — respondeu Igor com um
sorriso fraco.
A resposta conseguiu arrancar um risinho engasgado de Ivan, mesmo
entre lágrimas. Era a prova de que, mesmo ali, naquela prisão
disfarçada de laboratório, ainda havia um pequeno laço que ninguém
podia arrancar deles.
Nem câmeras. Nem agulhas. Nem os homens de jaleco branco.
Nem mesmo o medo.
Hanamura observou por alguns segundos os gêmeos na tela. Quando o
coração apertou mais do que deveria, ele desviou os olhos e murmurou:
— Estação 12... Tetsuo.
O guarda obedeceu, e a imagem mudou novamente. A transição foi
lenta, como se o próprio sistema hesitasse em exibir o que viria a seguir.
A cela de Tetsuo apareceu na tela.
Diferente das outras, ela parecia ainda mais vazia — não por falta de
móveis ou objetos, mas por algo mais profundo: uma ausência de
presença. Um vazio emocional quase palpável.
Tetsuo estava sentado no canto, encolhido, com os joelhos abraçados
contra o peito. Seus olhos, vermelhos e inchados, encaravam o chão
como se ali existisse alguma resposta, ou pelo menos algum consolo.
Mas não havia nada. Nem voz, nem som. Só a respiração dele,
descompassada, às vezes entrecortada por soluços que ele tentava,
inutilmente, sufocar.
Era o único que chorava. Chorava mesmo sabendo que estavam
assistindo. Mesmo ciente das câmeras. Já não conseguia esconder.
Nem fingir.
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Todos os dias era a mesma coisa: acordar, ouvir os gritos das outras
salas, ser arrastado para exames, sentir o cheiro metálico das agulhas,
ver olhos indiferentes observando sua dor como se fosse estatística.
Mas o que mais o matava, pouco a pouco, era o silêncio.
Tetsuo não conseguia conversar com as outras crianças no pátio.
Tentava, às vezes. Mas as palavras travavam. O olhar de medo nos
olhos dos prótons. O desprezo frio dos nêutrons mais velhos. Ele
simplesmente... não conseguia.
E isso o destruía.
Sabia que algo dentro de si estava começando a ceder. A pressão, o
isolamento, o medo constante de ser considerado perigoso demais,
fraco demais, ou — pior — próximo demais dos prótons. Não queria ser
como eles. Tinha medo de se tornar um deles. Medo de que algo dentro
dele despertasse e que fosse tarde demais para voltar atrás.
Mesmo com a boa resistência ao vírus — o maldito vírus implantado
propositalmente por aqueles malditos homens —, ele sentia que, por
dentro, já estava se desfazendo.
Ele mesmo já tinha sussurrado em voz baixa uma vez, certo de que
ninguém estava ouvindo.
— Eu tô ficando doente... — repetiu de novo, dessa vez com a voz
embargada, encarando o nada. — Não é o vírus. Sou eu.
Uma lágrima solitária desceu pelo seu rosto. Tetsuo não a limpou.
Na tela, Hanamura apertou os lábios. A imagem estava parada, mas
viva demais para ele.
Ali, diante de todos os dados frios, laudos, relatórios e gráficos... havia
uma criança de doze anos se desmanchando em silêncio.
Sozinho.
E ninguém parecia se importar.
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3 — CAPÍTULO
O pátio era silencioso naquela manhã abafada. O céu encoberto filtrava
a luz em tons acinzentados, tornando o ambiente ainda mais monótono.
As crianças ali presentes estavam espalhadas, sentadas ou andando
lentamente. A maioria mantinha os olhos baixos, como se o próprio chão
fosse mais seguro que qualquer outro lugar.
Entre elas estavam Elly, sentada perto de uma das grades, sentindo o
calor do sol pela primeira vez em dias — a febre tinha passado, e o
aperto no peito também. Os cabelos balançavam suavemente com o
vento leve, e seus olhos castanhos pareciam mais vivos. Mas o medo,
esse, ainda estava lá, escondido nas bordas do olhar.
Jun também estava ali. Já não estava mais na sala de contenção — isso
era fato. Sua liberação tinha acontecido dias antes, após resistência
exemplar e ausência de sintomas. Mas ele não parecia aliviado.
Permanecia isolado no canto do pátio, de braços cruzados, olhos
atentos, como se esperasse que algo explodisse a qualquer instante. Ele
continuava se recusando a falar inglês. As poucas palavras que
murmurava para si mesmo ainda eram em coreano, em tom tão baixo
que só ele podia ouvir.
Do outro lado do espaço, os gêmeos Ivan e Igor andavam lado a lado,
em silêncio. Era raro vê-los quietos, mas no pátio era sempre assim.
Sabiam que ali não havia espaço para piadas. Os dois estavam
melhores desde os exames, mas a tensão não saía de seus rostos.
Apenas entreolhavam-se de vez em quando, como se perguntassem
silenciosamente um ao outro se estavam bem.
Tetsuo estava mais afastado. Próximo ao muro. Sentado, abraçando os
joelhos, como de costume. Não chorava — não hoje. Mas sua expressão
era vazia, como se não estivesse ali de verdade. Apesar de sua
resistência física, por dentro ele ainda lutava. E perdera a conta das
vezes em que fingira estar bem só para evitar ser levado de volta à ala
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médica.
Foi então que a sirene tocou.
Um som seco e metálico, que cortou o pátio como uma lâmina.
Todos os olhares se ergueram. Alguns mais rápidos, outros mais lentos.
Mas nenhum com compreensão total do que estava acontecendo.
A voz nos alto-falantes soou em seguida, distorcida e firme:
— Todos os nêutrons devem ser levados de volta às celas
imediatamente. Repito: todos os nêutrons para as celas. Ocorrência
ativa. Um próton de classificação amarela escapou da contenção.
Procedam com o protocolo de emergência 14-B.
O som de passos apressados ecoou ao longe. Portas metálicas abriram.
Guardas surgiram quase de imediato, armados com bastões e injeções
de contenção nas cinturas. Não falavam com as crianças — apenas
apontavam, gritavam ordens curtas, e empurravam quando necessário.
— Formem filas, agora! – um homem sem cabelos empurrava várias
crianças.
Elly levantou-se rapidamente , o pânico já se formava novamente no
peito. Seu olhar cruzou brevemente o de Jun, mas ele apenas desviou e
virou de costas.
Ivan segurou o braço de Igor com força, os dois caminhando juntos,
colados, como se um fosse o escudo do outro.
Tetsuo se levantou sem dizer nada. Os olhos voltaram ao chão. Sempre
ao chão.
Elly tentou entrar junto com a multidão mas acabou sendo empurrada
por outros mais desesperados.
Ela caiu no chão com um baque quase surdo, exceto pelo som de dor
que fez ao cair. Ela ficou olhando para o chão em pânico, sem conseguir
se mover.
Mas então alguém pegou seu braço, puxando-a bruscamente. Seus
olhos marejados demoraram a se ajustar, mas quando se deu conta, um
garoto um pouco mais alto que ela estava a puxando para cima.
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— Rápido. Vamos. — Sua voz era inegavelmente masculina, firme,
apesar de parecer tentar esconder o pânico.
Ela não teve tempo de dizer antes de ser levada para dentro com ele.
E em minutos o pátio ficou vazio. Apenas o som da sirene repetindo, ao
fundo, que um próton amarelo estava à solta.
No corredor, o garoto continuava a levar Elly, seguindo as instruções dos
guardas. Elly tentava seguir o ritmo dele, mas ele era mais rápido, e ela
estava fraca, pois ainda não estava totalmente curada.
Seu momento de desespero aumentou assim que um guarda agarrou
seu braço com força, puxando-a das mãos do garoto que havia ajudado
ela.
— Anda! Mais rápido! – disse o homem em um tom ríspido.
Elly não teve tempo suficiente para pensar, antes de ser jogada dentro
de sua cela e a porta atrás de si se fechar sem som.
Do lado de fora o guarda não ficou muito tempo, rapidamente saindo
andando pelo corredor, seus passos firmes ecoando pelo local, assim
como de seus companheiros; pronto para levar outros nêutrons para
suas celas. No caminho ele acabou esbarrando no dr. Hanamura, que
parecia perturbado. Seus cabelos estavam bagunçados, suas pupilas
dilatadas, e parecia ofegante, como se tivesse acabado de correr
quilômetros.
— Me desculpe, doutor. – o guarda falou se afastando do Homem
rapidamente.
— Não tem problema. – Disse o médico.
— Deseja que eu o acompanhe até a sala onde os outros médicos
estão?
— Não será necessário. Posso ir sozinho. – Disse saindo andando.
Os passos do médico pareciam se prolongar naquele corredor — não
que o corredor fosse curto. Ele parecia andar sem destino. Seus passos
pareciam demorar segundos, minutos, horas. Ele enfim parou e olhou
para o lado, vendo seu reflexo no vidro que dava acesso a uma das
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salas de testes. Seu olhar parecia perdido.
Mas antes que pudesse reagir, uma voz doce e feminina ecoou atrás
dele.
— Dr. Hanamura, o senhor está bem? – A voz feminina parecia suave
naquele corredor opressor.
Ao se virar, deparou-se com uma mulher de cabelos ruivos intensos, tão
vibrantes quanto brasas vivas, que se destacavam mesmo sob a luz fria
do lugar. Seus olhos, de um verde profundo e hipnotizante, carregavam
uma preocupação genuína, quase capaz de suavizar a tensão sufocante
daquele corredor.
Seu rosto parecia uma obra-prima esculpida com precisão, cada traço
harmonioso, delicado e ao mesmo tempo forte — uma beleza que
beirava o irreal. O uniforme branco delineava de forma sutil as curvas
elegantes de seu corpo se encaixando tão perfeitamente que parecia
impossível.
— Dr. Harper – Hanamura falou com a voz cansada.
— Me pediram para vir buscá-lo. Acabamos de fazer uma grande
descoberta, e precisamos do senhor no laboratório, agora. – sua voz,
embora suave, não deixava de destacar a seriedade do assunto.
— O que ouve? Querem implantar mais doenças nas crianças. – disse
ele soltando um riso seco e sarcástico.
— Muito pior. – a voz dela ficou firme e até um pouco sombria — temos
um problema muito maior, doutor.
Hanamura logo percebendo a voz séria da mulher e se endireitou. Seu
olhar cruzando o dela.
— Pois muito bem, vamos ver o que esses demônios têm a falar. – Disse
ele começando a caminhar no corredor junto à ela.
O passo dos dois começaram ecoar no corredor vazio. passos firmes,
mas ao mesmo tempo parecia carregar tensão.
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