Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de Matemática
Prof. Tulio Gentil
Álgebra I - Números Inteiros
Aula 14 - Teoremas de Fermat, Euler e Wilson
1 Teoremas de Fermat, Euler e Wilson
Teorema 1.1. (Teorema de Fermat) Sejam p um número primo e a um inteiro tal que
p ̸ |a. Então,
ap−1 ≡ 1 (mod p).
Demonstração. Considere o conjunto de múltiplos de a
S = {a, 2a, 3a, · · · (p − 1)a} (1)
Dois elementos quaisquer desse conjunto não são congruentes entre si. De fato, se xa ≡
ya (mod p) com 1 ≤ x, y ≤ p − 1, como mdc(a, p) = 1, então x ≡ y (mod p), o que não
pode acontecer, pois os inteiros do conjunto
S ′ = {1, 2, 3, · · · , p − 1}
não são congruentes entre si, módulo p.
Além disso, nenhum dos elementos do conjunto S é congruente a 0 módulo p, pois se
p|xa, com 1 ≤ x ≤ p − 1, então p|x ou p|a, o que não acontece. Segue então que os
elementos do conjunto S são congruentes aos inteiros do conjunto S ′ . Logo,
a ≡ x1 (mod p)
2a ≡ x2 (mod p)
···
(p − 1)a ≡ xp−1 (mod p)
onde x1 , x2 , · · · , xp−1 são os inteiros do conjunto S ′ . Multiplicando, as congruências
acima, temos:
a · 2a · · · · · (p − 1) ≡ 1 · 2 · · · · · (p − 1) (mod p),
ou seja,
(p − 1)!ap−1 ≡ (p − 1)! (mod p).
Como mdc((p − 1)!, p) ≡ 1 (mod p), podemos cancelar o termo (p − 1)! e obtemos
ap−1 ≡ 1 (mod p).
Corolário 1.2. Sejam p um primo e a um inteiro arbitrário. então
ap ≡ a (mod p).
Demonstração. Se p ̸ |a, do teorema anterior temos que ap−1 ≡ 1 (mod p); multiplicando
os membros dessa congruência por a segue que
ap ≡ a (mod p).
Agora, se p|a, então p|ap e, logo p|(ap − a) e portanto,
ap ≡ a (mod p).
Proposição 1.3. Seja a um número inteiro. Então o algarismo das unidades de a e de
a5 é o mesmo, quando escrevemos esses números na base 10.
Demonstração. Sejam r e s os algarismos das unidades de a e a5 , respectivamente. Então
a ≡ r (mod 10)
a5 ≡ s (mod 10)
Do Teorema de Fermat, temos que
a5 ≡ a( mod 5).
Logo, 5|(a5 −a). Por outro lado, 2|(a5 −a), pois a e a5 são ambos pares ou ambos ímpares.
Como mdc(2, 5) = 1, temos que 10|(a5 − a).
Proposição 1.4. Dados a, b ∈ Z e p um número primo, então
(a + b)p ≡ ap + bp (mod p).
Demonstração. Pelo Teorema de Fermat, temos que
(a + b)p ≡ a + b (mod p),
ap ≡ a (mod p),
bp ≡ b (mod p).
Logo,
(a + b)p ≡ a + b ≡ ap + bp (mod p).
Dado n um inteiro, vamos considerar o conjunto dos números compreendidos entre 1 e
(n − 1) que são relativamente primos com n, que denotaremos por
A = {x1 , x2 , · · · , xt },
ou seja, cada 1 ≤ xi ≤ n − 1 e mdc(xi , n) = 1.
Agora, dado um inteiro a tal que mdc(a, n) = 1, consideremos o conjunto
B = {x1 a, x2 a, · · · , xt a}.
Como xi a é relativamente primo com n (pois xi e a são), o resto da divisão de xi a por n
deve ser um dos elementos de A.
Temos que se
xi a ≡ xj a (mod n)
então
xi ≡ xj (mod n)
pois mdc(a, n) = 1. Assim, os elementos de B são congruentes, módulo n, aos elementos
de A e elementos distintos correspondem a elementos distintos. Logo,
x1 x2 · · · xt at ≡ x1 x2 · · · xt (mod n).
Como mdc(xi , n) = 1 para todo i = 1, · · · , t, segue que mdc(x1 · x2 · · · xt , n) = 1 e então
at ≡ 1 (mod n).
Definição 1.5. Para cada inteiro n ≥ 1, indicaremos por ϕ(n) o número de inteiros
positivos, menores ou igual a n, que são relativamente primos com n. A função ϕ é
chamada função ϕ de Euler.
Com essa notação, provamos:
Teorema 1.6. (Teorema de Euler) Sejam a e n inteiros com n ≥ 1, tais que mdc(a, n) =
1. Então,
aϕ(n) ≡ 1 (modn).
Observe que no caso em que p é um número primo, então ϕ(p) = p − 1 e o Teorema de
Fermat é, então, um caso particular do Teorema de Euler.
Lema 1.7. Seja p um número primo. Consideremos o conjunto C = {1, 2, · · · , p − 1}.
Para cada elemento a ∈ C, existe um número b ∈ C tal que
ab ≡ 1 (mod p).
Demonstração. A congruência linear
ax ≡ 1 (mod p)
com a ∈ C sempre tem solução pois mdc(a, p) = 1.
Lema 1.8. Seja p um número primo. Os únicos elementos do conjunto C = {1, 2, · · · , p−
1} tais que a congruência x2 ≡ 1 (mod p) são 1 e p − 1.
Demonstração. Se a ∈ C é tal que a2 ≡ 1 (mod p), então p|(a2 − 1), i.e., p|(a − 1)(a + 1).
Como p é um número primo, devemos ter que p|(a − 1) ou p|(a + 1).
Se p|(a + 1), como 1 ≤ a ≤ p − 1, devemos ter 2 ≤ a + 1 ≤ p e a única possibilidade é
a + 1 = p, ou seja, a = p − 1.
Caso p|(a − 1), como 1 ≤ a ≤ p − 1, devemos ter 0 ≤ a − 1 ≤ p − 2 e a única possibilidade
é a − 1 = 0, ou seja, a = 1.
Teorema 1.9. (Teorema de Wilson) Seja p um número primo. Então
(p − 1)! + 1 ≡ 0 (mod p).
Demonstração. Se p = 2 ou p = 3, então o enunciado é verificado. Suponhamos p > 3.
Conforme os lemas anteriores, podemos agrupar os números da sequência
2, 3, · · · , (p − 2)
em pares a, a′ tais que a ̸= a′ e aa′ ≡ 1 (mod p). Consequentemente, fazendo o produto
dos elementos dessa sequência, temos que
2 · 3 · · · · · (p − 2) ≡ 1 (mod p).
Multiplicando a última congruência pela congruência
p − 1 ≡ −1 (mod p),
obtemos
(p − 1)! ≡ −1 (mod p)
e portanto,
(p − 1)! + 1 ≡ 0 (mod p).