-
lações com a realidade, termina por assumir, para usar
da expressão reveladora de Afrânio Peixoto, o “sorri-
so da sociedade" na qual se acomoda sem incomo-
dar. Porque, na verdade, “a construção social da rea-
lidade", que dois autores usaram mesmo como defini-
ção de uma possível sociologia do conhecimento, im-
plica a possibilidade de se ter a linguagem adequada
para a veiculação dos novos valores que a estrutura
social vai propondo. Ou, para utilizar do texto antes
mencionado:
A linguagem objetiva as experiências comuns e torna-as
acessíveis a todos dentro da comunidade lingüística, trans-
formando-se de fato na base e no instrumento do estoque co-
letivo de conhecimento. Além disso, a linguagem fornece os
meios para objetivar novas experiências, permitindo sua in-
corporação ao já existente estoque de conhecimento, e é o
mais importante meio através do qual as sedimentações objeti-
vadas (objectivated) e objetificadas (objectified) são trans-
mitidas na tradição da coletividade em questão10.
Ora, se se usa o esquema proposto por Berger e
Luckmann para uma reflexão como esta que vou de-
lineando, não é difícil verificar que o momento cultural
anterior ao Modernismo de 22 foi caracterizado, em
grande parte, pela impossibilidade de contar com uma
linguagem adequada para a objetivação das experiên-
cias e que não apenas servisse aos desígnios de uma
"permanência" com relação ao conjunto da sociedade,
como viesse a problematizar a própria estrutura social
dentro da qual existia.
Por isso mesmo, partilho do ponto de vista de
Alfredo Bosi quando restringe a designação de "pré-
modernista" a, como diz o autor, "tudo o que, nas
primeiras décadas do século, problematiza a nossa rea-
lidade social e cultural"11.
Sem dúvida, as obras de um Euclides da Cunha,
de um Lima Barreto, de um João Ribeiro ou mesmo
de um Graça Aranha, davam indicações do apareci-
mento de um novo código de leitura e interpretação
da realidade brasileira em setores diferenciados da cul-
(9) Cf. PETER L. BERGER e THOMAS LUCKMANN, The Social Cons-
truction of Reality, A treatise in the Sociology of Knowledge, New York,
Anchor Books, Doubleday & Company, (1967).
(10) Idem, ibidem, p. 68.
(11) Em História Concisa da Literatura Brasileira, São Paulo, Cul-
trix, (1970), p. 343.
"
*
82