o texto possível discute mais do que ele nomeia: ao se
fazer metalinguagem, cria um espaço que é tanto a
paródia poundiana quanto o "eu é um outro" rimbau-
diano. E por que é assim? Porque a significação, isto
é, nos termos deste ensaio, o segmento da realidade
que o poema incorpora, aclara e intensifica através da
nomeação lingüística, não apenas depende mas instau-
ra a sua própria área de dependência para com o sig-
nificado.
No limite, o poema passa a ser o significante de
um outro significante que ele elabora de modo initer-
rupto na perspectiva de uma articulação significação-
significado. O desempenho metalingüístico da lingua-
gem é o modo pelo qual a passagem entre um e outro
significante é possível na perspectiva do leitor.
Enfim, a articulação significação-significado é
exercida pelo leitor desde que, em termos de Jakobson,
instaurado no núcleo de convergência dos eixos para-
digmático e sintagmático, e por isso controlado poeti-
camente, o seu discurso crítico é também metalingüís-
tico65
É precisamente aqui que o conceito opositivo de-
notação-conotação perde o sentido, ao menos para uma
definição do poema moderno. Na verdade, o poema
centrado na auto-referencialidade, e portanto fazendo
valer o desempenho metalingüístico da linguagem, é co-
notativo não em relação a uma experiência da lingua-
gem repertorial, isto é, aquela que a existência social
faculta, mas com referência a uma outra linguagem que
é consumida na medida mesmo em que é nomeada ou
denotada.
Da mesma forma, o seu teor denotativo (sempre
percebido em primeiro plano por aqueles críticos con-
servadores que defendem "a dimensão conotativa das
palavras" como essência do poético) não é dado em
função de uma realidade extralingüística: a denotação
é produzida pela transformação do conotativo possível
em subject matter do próprio poema, sua "impureza",
para apanhar de novo a expressão de T. S. Eliot.
(65)
Esta concepção da crítica foi, de fato, cristalizada no ensaio
de ROLAND BARTHES em que define a crítica como metalinguagem, in-
cluído nos Essais Critiques, op. cit., p. cit.
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