é, a orientação para o código de uma comunicação ver-
bal, tanto o fato de incluir a metalinguagem no quadro
das funções da linguagem quanto o de insistir na arti-
culação entre as funções para uma apreensão estrutu-
ral do poema, legitimam a reflexão neste sentido. Não
é preciso ir longe para encontrar exemplos que con-
firmem a importância desta legitimação. Já se viu de
que modo, por exemplo, o soneto de Mallarmé, dis-
cutido páginas antes, pode ser percebido (e, a meu
ver, só assim ele é, em parte, percebido) como uma
reflexão metalingüística sobre a diacronia na medida
em que se leve em conta a forma pela qual resiste à
historicidade da poesia, saturando-a através da metáfora.
Por outro lado, a coexistência num mesmo espa-
ço poético das funções metalingüística e poética per-
mite uma reflexão mais adequada sobre o tipo de rea-
lidade instaurada pelo poema moderno. De fato, se
por um lado “a função poética projeta o princípio de
equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de com-
binação"63, como está em Jakobson, estabelecendo assim
um sistema de interdependência entre os seus compo-
nentes paradigmáticos e sintagmáticos, a função meta-
lingüística, por outro lado, possibilita a auto-referen-
cialidade que, como se viu, é uma das maneiras pelas
quais o poeta moderno escapa do esgotamento da re-
presentação da realidade. Daí se explica que, de todas
as sugestões incluídas no texto jakobsoniano, tenha des-
tacado esta. Ela, por certo, deixa claro que a persis-
tência sobre a linguagem não significa o esvaziamento
da realidade. Muito ao contrário, esta só se legitima
poeticamente na medida em que aquela é exaurida em
suas possibilidades representativas.
Ao discutir, utilizando, o código de que se utiliza,
o poeta inverte os termos do jogo da representação
ingenuamente realista e abre um espaço para a reali-
dade mais complexa que envolve tanto indivíduo quan-
to história, presente e passado, poema e linguagem.
Não necessariamente o poema sobre o poema64,
(63) Em "Linguistics and Poetics", op. cit., p. 358.
(64) É neste sentido, erradamente a meu ver, que o problema é
discutido por RENÉ WELLEK, no ensaio "The Poet as Critic, the Critic
as Poet, the Poet-Critic", incluído em Discriminations, further concepts
of criticism. New Haven & London, Yale University Press, (1971), pp.
253-274.
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